A herança
Sei que buscas ainda
o secreto fulgor dos dias
anunciados.
Nada do que te recusam
devora em ti
a memória dos passos calcinados.
É tua casa este exílio
este assombro esta ira.
Tuas as horas dissipadas
o hostil presságio
a herança saqueada.
Quase nada.
Mas quando direito e lúgubre
marchas ao longo da Baía
um clamor antigo
um rumor de promessa
atormenta a Cidade.
A mesma praia te aguarda
com seu ventre de fruta e de carícia
seu silêncio de espanto e de carência.
Começarás de novo, insone
com mãos de húmus e basalto
como quem reescreve uma longa profecia
Sua obra tem como uma das temáticas principais o resgate do passado tanto ao revisitar suas origens quanto ao reconstruir poeticamente a história de um país marcado pela ação colonialista e pela escravidão.
Uma das mais reputadas jornalistas são-tomenses, tem pela poesia uma enorme paixão. Formada em Lisboa e no King's College de Londres, começou por publicar poemas dispersos em jornais e revistas e integra diversas antologias poéticas internacionais.
Veja aqui
Notícia aqui.
Conceição Lima, pois, canta as dores do tempo e da época.
ResponderEliminar"[...] A mesma Praia te aguarda
com seu ventre de fruta e de carícia
seu silêncio de espanto e de carência.[...]"
Dor e Amor num só peso.
Obrigado, Olinda pelo Post de referência.
Beijo,
SOL da Esteva
Amiga Olinda, bom dia de Paz!
ResponderEliminarMorreu tão jovem...
Deixou o legado da boa poesia.
Tenha um final de semana abençoado!
Beijinhos fraternos
Linda poesia e herança poética Conceição Lima deixa !
ResponderEliminarQue ela descanse em PAZ!
beijos, chica
Lamentável, quando a morte chega, nem os poetas se salvam da finitude. Fica a obra.
ResponderEliminarUm abraço.
Antes, obrigado por apresentar-me Conceição Lima. O poema Herança é uma pintura de lirismo e de realidade. Obrigado pelas informações complementares que validam a importância da sua postagem, cara amiga Olinda, e ressignifica a contribuição de Conceição à literatura uma vez que a ideia de pertencimento não se limita ao arquipélago, sua primeira casa, uma vez que ela universaliza sentimento, convicções e luta, a luta do seu povo. No poema, se lê a identidade, a memória da herança saqueada e a promessa de reconstrução pós-colonial e, claramente, se apreende a ironia do título: Herança. Daí em diante, Conceição utiliza recursos imagéticos para retratar a resiliência e o recomeço. Por exemplo, a utilização de elementos naturais e urbanos, afinal, a herança deixada pelo colonialismo não são riquezas, são as “horas dissipadas”, o “hostil presságio”, ou seja, a destruição, o desapossamento material e cultural sofrido pelo povo, quando o eu lírico se sente estrangeiro na própria terra "É tua casa este exílio este assombro esta ira", ficando a fratura exposta, pois a independência política não apagou os traumas...
ResponderEliminarHá muito mais a dizer ao longo do que está escrito, como “ao longo da Baía” que testemunha o peso da história. Prometi ser mais lacônico... Fico por aqui.
Um bom final de semana, cara amiga Olinda, e, mais uma vez, agradeço por apresentar-me Conceição Lima.
Beijinhos,
Carlos
Olá, amiga Olinda.
ResponderEliminarUm belíssimo poema de Conceição Lima. Artista que desconhecia de todo. Mas gostei muito deste lindo poema que aqui partilha.
Deixo os votos de um bom fim de semana, com tudo de bom.
Beijinhos, com carinho e amizade.
Mário Margaride
http://poesiaaquiesta.blogspot.com
http://soltaastuaspalavras.blogspit.com
Querida Olinda,
ResponderEliminarQue publicação necessária, dolorosa e de uma dignidade poética monumental! Trazer a voz de Conceição Lima justamente no momento de sua partida é a maior prova de que os poetas não silenciando, eles se eternizam naquilo que moldaram com as palavras.
E com certeza o poema "A Herança" é de uma força telúrica impressionante. Como alguém que busca compreender o peso das estruturas e a matéria das coisas, tocou-me profundamente a imagem final:
"...com mãos de húmus e basalto / como quem reescreve uma longa profecia"
Aqui há uma geometria sagrada e dolorosa nessa união do húmus, que é a vida orgânica que recomeça, com o basalto, essa rocha rígida, escura, vulcânica, que carrega em si o fogo consolidado da história. Conceição Lima não escrevia apenas sobre o tempo; ela esculpia a memória de seu povo na própria espinha dorsal da linguagem, enfrentando os exílios, as iras e as heranças saqueadas pelo colonialismo. Deixo aqui um fraterno abraço.
Conceição Lima não morreu. Deixou-nos as suas palavras lúcidas e inspiradoras que guardamos no coração. Para sempre.
ResponderEliminarBelíssimo este poema da autora, minha Amiga Olinda.
Um beijo.
Buenas tardes. He estado leyendo más sobre esta autora, gracias por dármela a conocer. La pagina de RTP también me ha parecido muy buena para mí. Besos y buen domingo.
ResponderEliminarFicam sempre as obras . Nunca se esquecerá!
ResponderEliminar-
Coisas de uma vida....
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Beijos e uma excelente semana.
Confesso que desconhecia a sua existência, foi a notícia da sua morte que ma deu a conhecer.
ResponderEliminarGostei muito do poema.
Abraço
Falecimento e herança. Morre Conceição de Lima,
ResponderEliminarTomba à tumba e deixa em cima a sua eterna lembrança:
Aquela alma da criança que a inspirava a versejar
Assim, deixa em seu lugar a sua arte que alumia
O belo da poesia depositado em altar.
Tudo de bom, querida Olinda. Laerte Tavares.
Voltei, Olinda, para desejar-lhe um dia radioso com o netinho que está fazendo seis aninhos. Afinal, não esqueci do "novo velhinho" da família
ResponderEliminarPara ele: Parabéns pelo seu aniversário, garoto! Você agora tem uma mão cheia e mais um dedinho de pura energia, é o que sua avó diz. Que o seu dia seja uma superaventura cheia de jogos, risadas e muitas guloseimas.
Aproveite o embalo desta segunda-feira e me diga se já notou como você esta crescendo muito rápido! Mas continue sendo uma criança iluminada.
Um forte abraço para o menino forte que você é.
Abraços para os pais, para a vovó e toda a família!
Que gentileza a sua, meu amigo!
EliminarAgradeço-lhe do fundo do coração as suas palavras.
Palavras belas que muito apreciei.
Desejo-lhe tudo de bom junto à família.
Beijinhos, José Carlos.
Olinda
Paz à sua alma.
ResponderEliminarNão conhecia, mas o poema que escolheu diz bem do seu talento.
Obrigado pela partilha.
Boa semana minha amiga.
Um abraço.