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sexta-feira, 3 de julho de 2009

Amores e Desamores 7

Levantou-se cedo, tomou um rápido duche e vestiu-se rapidamente, a fim de sair cedo e evitar as filas de trânsito que sempre se formavam nas manhãs.
Desta forma conseguia chegar cedo ao trabalho e ainda ter tempo para preparar algumas coisas antes da sua reunião.
Não conseguiu evitar que um sorriso lhe aflorasse aos lábios ao ligar o rádio e ouvir a música que passava... Rui Veloso cantava, com o seu sotaque do Porto:
"mas tu não ficaste nem meia hora
não fizeste um esforço pra gostar e foste embora
contigo aprendi uma grande lição
não se ama alguém que não ouve a mesma canção"
E aquelas palavras, que desde a véspera não lhe saiam da cabeça, regressaram, como martelos:
"Não te disse nada porque tive medo...."
Revira e repensara naquela conversa milhares de vezes na sua cabeça, durante aquela noite mal dormida, e voltava sempre a estas palavras...
Medo???
Medo de quê? De quem?
Relembrou conversas antigas, com amigos e ex-namorados, em que lhe tinham dito que intimidava as pessoas (especificamente homens) com a sua energia e "independência"...
Sabia que tinha um espírito forte, que transmitia energia e era muito intensa nas suas emoções, mas achava que tinha a relação perfeita, que tinha encontrado quem a compreendia, a aceitava, com quem podia falar de tudo...
E vinham aquelas palavras, sempre aquelas palavras...
"Não te disse nada porque tive medo...."
Será que "ouviam a mesma canção"?
Será que era assim tão má pessoa?
Tão insensível na relação que causasse medo ao companheiro?
Medo de quê?... que lhe batesse?
O pensamento fez com que risse perdidamente.... não só porque nunca tinha batido em ninguém, mas igualmente porque tinha metade do tamanho dele e era algo que nunca sequer lhe passaria pela cabeça.
Sorriu ao pensar nas palavras da mãe e da avó... "Quem tem medo compra um cão"!
Mas o seu cérebro rapidamente regressou ao "assunto" e tentou pensar na forma de reagir.
Como poderia ficar com uma pessoa que tinha medo de falar com ela?
É possível assumir uma relação em que uma das partes receia falar com a outra?
Sabia que era demasiado honesta, demasiado directa, demasiado intensa e isso sempre lhe tinha trazido alguns dissabores, tanto na sua vida pessoal como na profissional (nunca fora pessoa de meias-palavras).
Era uma realidade que explodia com as coisas de que não gostava ou que não lhe agradavam, mas sempre pensara que era uma das partes boas da relação actual...
Mesmo com as explosões, com o seu mau-feitio, sempre tinham falado de tudo e sempre acabavam por resolver qualquer assunto que surgia entre os dois.
Nunca tivera feitio para ficar calada perante as coisas que não gostava ou com que não concordava.
Detestava ser a mulherzinha calada e submissa que não diz nada para que tudo corra bem.
Sempre achara que era melhor debater tudo do que ir acumulando, mas de repente apercebia-se que isso causava medo ao seu companheiro.
E pensava desde quando durava isso, esse medo de falar com ela, de lhe contar as coisas...
Pensava em como ela o conhecia bem, mas no pouco que ele efectivamente parecia saber dela...
Distraidamente ia conduzindo e de repente apercebeu-se que o seu "piloto automático" já a tinha levado até à porta do trabalho.
Cumprimentou o segurança à entrada, as pessoas com quem se ia cruzando e tentou desviar os pensamentos daquelas palavras e concentrar-se na preparação da reunião, que era importante e sabia que precisava de estar no seu melhor, para conseguir responder às questões que seguramente seriam colocadas.
E, durante uns breves momentos, ainda conseguiu...
Mas uma mensagem dele a pedir para falar com ela distraiu-a do trabalho e as palavras voltaram...
"Não te disse nada porque tive medo...."
Não respondeu, precisava de tempo para processar tudo, e acima de tudo para se concentrar no trabalho que tinha pela frente.
Mas os pensamentos divagaram de novo... parecia impossível concentrar-se em alguma outra coisa que não fossem aquelas palavras...
E se juntasse a isso a reacção, de desaparecer sem dizer nada.... ficava sem saber como reagir, o que pensar.
Muita coisa a magoara no passado, tanto na actual relação como nas anteriores, mas sempre conseguira falar e resolver tudo. Sempre evitara pensar no passado (afinal, era passado, para quê remoer), mas como falar com alguém que tinha medo dela, de falar com ela, de lhe contar tudo?
Nunca duvidara dos seus sentimentos por ela, nem dos que nutria por ele, mas será que podia confiar naquela relação?
Será que realmente partilhavam tudo ou só aquilo que ele não tinha medo de partilhar com ela?
Será que era um sentimento real ou apenas o medo da reacção dela?
Era uma pessoa assim tão assustadora?
Chegou o momento da reunião e forçou-se a colocar estes pensamentos de lado e a concentrar-se na apresentação.
Conseguiu focar-se na apresentação e no seu "publico" e fez uma exibição brilhante (modéstia à parte), convencendo todos os presentes da importância da acção a desenvolver.
Quando regressou à sua secretária encontrou nova mensagem dele, pedindo desculpa pelo comportamento da noite anterior e garantindo o seu amor.
Tentou acalmar os pensamentos, colocou "aquelas" palavrinhas que tanto a magoavam num canto do coração e esperou pela noite para falarem tranquilamente.
Sabia que o amava (nem percebia bem porquê, mas devia ser isso o amor), sabia que provavelmente iam superar aquilo e que iria esquecer....
Mas sabia igualmente que aquelas palavras tinham aberto uma ferida no seu coração que muito dificilmente iria sarar...

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Amores e Desamores 6

Naquela noite decidiram variar.
Estava lua cheia, já se começava a sentir o calor das noites quentes de Verão a aproximarem-se e acima de tudo não havia muita gente na rua - também há que assumir que era dia de semana e meio do mês, estavam todos a rezar pelo fim do mês e pela chegada do salário.
Em vez de irem para o bar do costume, onde estavam todos os amigos de sempre e as conversas de sempre, decidiram dar as mãos e ir passear pelas ruas e vielas daquele bairro de que tanto gostavam.
Ela nem ligava a nada, caminhando lentamente ao lado dele, sentindo o corpo dele quando a abraçava e caminhavam assim, colados lado a lado, falando de tudo e de nada.
Quando chegaram ao miradouro decidiram sentar-se a admirar aquela fabulosa vista da parte antiga da cidade e foi aí, quando ele lhe agarrou na mão e lhe disse que tinha uma coisa para lhe dizer... que o coração dela deu um salto.
Desde que tinham começado a namorar, ela sempre sentira no seu coração que algo tinha de estar mal, que não podia ser tudo assim tão fácil.
Sempre se achara o patinho feio, desinteressante e estar ali, ao lado dele, depois de tanto tempo, parecia quase um sonho.
Desde que namoravam tudo parecia irreal e se é verdade que sempre tinha tido a suspeita que ele a enganara uma vez ou outra, ele sempre negara e ela não tinha motivos para duvidar dele, a não ser aquele estúpido sexto sentido... aquela vozinha na cabeça que lhe dizia que ela era inocente demais em confiar assim tão cegamente nele, em ser tão apaixonada, louca por aquele homem.
E agora ali estava ele, com os seus olhos verdes profundamente cravados nos dela, agarrando-lhe na mão e a dizer que tinha uma coisa para lhe contar. E aqueles olhos não mentiam, o que ele queria dizer era sério!
Será que queria acabar o namoro?
Mas estava tudo tão bem, estavam tão bem os dois!
- Lembraste de me teres pedido para ser sempre sincero contigo, mesmo que fosse difícil, que doesse, mas que sempre preferiste a sinceridade à mentira?
- Lembro. E é verdade que prefiro mil vezes que sejas honesto, por muito que me vá doer, a descobrir que me andaste a mentir.
Foi só o que ela conseguiu responder, já com o coração aos pulos, pressentindo o que ali vinha...
- E que andas há que tempos convencida que eu te enganei, que te "traí" mas eu sempre neguei?
Neste ponto ela já só conseguia acenar, em concordância, fazendo um esforço para parecer "descontraída" e para que ele não visse como tinha o coração a querer sair do peito, sem acreditar que ele lhe ia confessar que a tinha enganado, ou que tinha feito algo...
- Pois bem, eu nunca pensei vir a contar-te isto, mas eu amo-te mais do que a qualquer coisa no mundo e não quero que existam segredos entre nós. Eu sempre neguei que te tenha enganado ou que tenha tido alguma coisa com outra pessoa porque realmente não o sinto como sendo uma traição, pois é a ti que eu amo e é contigo que quero estar, mas a verdade é que as tuas suspeitas tinham "algum" fundamento, pois naquele fim de semana que passei no Algarve com o pessoal....
Ele hesita e ela sente que já não aguenta mais. Sabe o que ele vai dizer, sabe a dor que aquelas palavras lhe estão a causar, mas tem de manter a compostura, afinal foi ela que lhe disse que tinham de ser sinceros.
Mas sente a faca a entrar-lhe na carne, abrindo caminho por entre as entranhas do seu corpo, procurando o coração.
- Quando saímos e passámos a noite na discoteca.... eu fartei-me de beber.... e acabei por curtir com a Vera. Mas posso garantir que foi só curtir na discoteca, que não passou disso e que ela não significa nada para mim. Aconteceu uma vez, nunca mais aconteceu nem acontecerá, pois é a ti que eu amo e é contigo que estou e quero estar!!! - diz ele, muito rapidamente, como quem quer acabar com aquilo depressa, como quem tira um penso rápido de uma ferida, só que a ferida era uma mentira há muito calada.
Ela já não conseguia pensar, as lágrimas corriam-lhe pela cara, mais forte que ela, não as conseguia controlar nem sentir, e a voz tinha emudecido dentro dela.
Só sentia que a faca tinha finalmente atingido o coração e agora se entretinha a dilacerar o que dele restava.
Com a Vera? A Vera? A ex dele que passava a vida a telefonar, metida dentro de casa, a arranjar desculpas para se encontrar com ele!!!
A Vera que não escondia que o queria ter de volta, que o comia com os olhos, mesmo quando ele estava com ela!!!
Foi com essa pessoa que ele escolheu traí-la???
E era agora, depois de ela ter insistido, depois de ela ter perguntado tantas vezes... naquela noite que ela estava tão bem, tão feliz, que ele escolhia vir ter com ela e contar-lhe aquilo?
Espetava-lhe uma faca no coração no momento em que ela estava mais confiante, em que ela realmente tinha acreditado nele e escolhido ignorar aquele maldito sexto sentido que lhe dizia que ele a enganava!!!
- Não chores, por favor não chores! - repetia ele enquanto lhe enxugava as lágrimas que teimavam em cair pela cara, sem conseguisse evitar, até porque ela não queria chorar, ele não merecia as suas lagrimas!
- Eu só te estou a contar isto porque sempre me pediste para ser honesto e porque não quero que existam segredos entre nós. Se soubesse que ias ficar assim nunca te teria dito nada! - repetia ele, sem saber como reagir.
Ela continuava sem conseguir falar, sem conseguir pensar, sem conseguir reagir.
Se por um lado era verdade que ela sempre lhe tinha dito que queria poder confiar nele e preferia saber tudo a sentir-se enganada e saber por terceiros que estava certa, por outro lado o coração sangrava com aquela facada que ele tinha espetado de surpresa e a cabeça dizia que ela tinha era de se afastar, ir embora, sair daquela relação.
Levantou-se, precisava de ar, de respirar, de sair dali, sair de perto dele, precisava.... nem sabia do que precisava.
Ele levantou-se e seguiu-a.
- Fala comigo! Diz-me o que sentes, o que se passa? - a voz dele era quase de desespero, mas ela não conseguia ouvir nada.
Na cabeça dela só via a imagem dele, do homem que ela amava, em quem confiara, a "curtir" com a ex, que sempre tinha feito o possível por os afastar, por ficar com ele.
E ela tinha "ganho". Ele tinha demonstrado que os sentimentos que tinham não eram fortes o suficiente para resistir.
E se ele dizia "curtir" de certeza que tinha sido muito mais que isso!!!
E mais que uma vez, pois o fim de semana fora de 3 dias e ela sabia do que a outra era capaz.
- Amor, por favor, fala comigo. Eu sou louco por ti e a última coisa do mundo que quero é perder-te! Mas tinha de te dizer, tinha de te fazer ver que podes confiar em mim e que nunca mais vai acontecer e que podemos superar isto! Não quero que existam nunca mais segredos entre nós. - dizia ele, enquanto a seguia pela calçada fora.
O descaramento, nunca a tinha chamado de amor, mas agora que a tinha enganado vinha para aqui com palavras carinhosas.
Mas ele não fizera mais do que aquilo que ela procurara, do que ela lhe pedira!
Ela tanto insistira que ele fora sincero, por isso porque estava assim?
Porque tinha aquela dor que lhe atravessava o corpo?
Porque as lágrimas teimavam em cair, apesar de todos os esforços dela para não chorar?
Porque não conseguia parar de amar aquele homem, que a tinha enganado, que a tinha esfaqueado quando ela menos esperava?
Porque insistira para que fossem sempre honestos, se não estava preparada para ouvir a verdade?
Tantas questões, tantas dúvidas, e ela só queria ir embora, desaparecer, acordar e perceber que foi tudo um sonho.
Ela tinha tido tantas oportunidades de o enganar e nunca sequer tinha pensado nisso, mas ele tinha cedido!
Era bem verdade que para um homem basta uma oportunidade e um rabo de saia que esquecem logo amores e paixões - era o que lhe atravessava a mente enquanto ele a seguia, sem saber o que dizer, o que fazer, como reagir.
Obrigou-se a parar, a sentar, a olhar para ele.
Tentou olhar-lhe para dentro daqueles olhos que ela tanto amara, tanto amava, mas não conseguiu.
Não conseguiu porque não sabia distinguir se o que via neles era arrependimento do que fez ou arrependimento de lhe ter dito.
Tentou falar, mas a voz não saiu.
Ele agarrou-lhe na mão, mas também não disse mais nada, esperando que aquele toque servisse para a reconfortar, quem sabe convencer dos seus sentimentos.
Não sabia bem o que queria dizer, nem o que queria fazer, pois se a razão lhe dizia para se afastar, o coração dizia que amava aquele homem e que se ele tinha tido a coragem de confessar a sua falta, merecia que lutasse pelo seu amor.
Tentou apagar da cabeça as imagens dele com ela, as inúmeras vezes em que ele tinha negado que tivesse existido mais alguma coisa depois de terem começado a namorar, tentou apagar tudo...
E falou, melhor falaram....
Falaram durante horas, falaram até à exaustão, falaram de todos os porquês de ter acontecido, dos porquês de ter negado, dos porquês de ele(s) querer(em) continuar a relação e do que esperava(m) daquela relação.
No final daquela longa conversa, quando estavam a caminhar de regresso ao carro e para junto dos amigos, ela soube, teve a certeza...
O namoro iria continuar, pois ela amava demais aquele homem e queria acreditar que ele era honesto com ela.

N.R.: O namoro continuou, mas ela nunca mais conseguiu confiar nele.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Amores e Desamores 5

Nada a fazia prever que aquele dia de compras iria alterar para sempre a sua vida.
Tudo tinha começado naquele que era mais um dia normal de domingo, com os afazeres de um dia sem trabalho e sem planos, ou seja, compras do mês com a mãe.
Dirigiram-se ao hipermercado onde ela, sem vontade nenhuma de estar ali, deambulava pelos corredores enquanto a mãe fazia as suas compras.
Nisto, uma simples palavra (o seu nome) fez com que se virasse e com que o seu coração desatasse aos saltos e o pensamento ficasse completamente branco...
Era ele, a sua grande paixão de há quase 20 anos.
E se estava mais gordinho, a cara, os olhos e o sorriso não tinham mudado nada!
Trocaram algumas palavras de circunstância sobre o que tinham feito naqueles anos, mas ela nem conseguia pensar bem, censurando-se por estar com a roupa habitual de um fim de semana em casa, demasiado desportiva e demasiado grande para ela!
Só se lembra das suas últimas palavras:
- Temos de combinar um almoço ou um café. - diz-lhe ele, sem deixar de a olhar nos olhos.
- Claro, liga-me ou aparece um dia. Por norma estou livre à hora de almoço. - foi única coisa que conseguiu dizer, enquanto se despediam e afastavam.
Ao reencontrar a mãe e ao rever mentalmente aquele encontro, não conseguia deixar de se criticar por ter bloqueado de forma tão infantil.
E foi nesse momento que se lembrou que não tinham trocado números de telefone!!!
Tinham falado dos respectivos locais de emprego, combinado um encontro, mas como iria isso acontecer se não tinham o contacto um do outro!
Como pudera ser tão imbecil!!! Se bem que ele também não tinha dito nada!!!
Ainda correu novamente o hipermercado, a ver se o encontrava para lhe pedir o telefone, mas já não o encontrou.
Chegada a casa procura o contacto de uma amiga de infancia, que sabia que se mantinha em contacto com o grupo com o qual ele se costumava dar.
Sem querer dar parte dos seus verdadeiros intentos, convida a amiga para um café nessa tarde, ao que a amiga rapidamente acedeu, pois a realidade é que há muito tempo que não se encontravam.
O coração palpitava enquanto se senta à mesa do café, analisando o que poderia ou não dizer para obter as informações desejadas.
Falaram de tudo e de todos, como velhas amigas que eram e não se viam há anos.
Pelo meio ela lá conseguiu lançar que "o" tinha visto no supermercado, de passagem e consegue obter mais algumas informações.
Soube então que ele se tinha separado há algum tempo, que tinha uma filha pequena e que tinha voltado a morar na zona (por sinal bem perto de casa dela).
Sempre com o coração aos pulos, receando que os seus verdadeiros motivos fossem descobertos, lá consegue lançar, com o ar mais casual do mundo...
- Por acaso não tens o contacto dele? Gostava de falar com ele e ainda por cima agora até somos vizinhos, pelo que me contas...
Mas... a amiga não tinha o contacto dele. Ainda se propôs arranjá-lo, mas ela, com a sensação de já ter revelado demasiado o seu interesse pessoal, declina dizendo que não era assim tão importante.
Nessa tarde, ao regressar a casa, sente-se triste por ter ficado tão constrangida por pedir o telefone à amiga e por ter ficando em branco quando falara com ele.
A sua incrível timidez, junto das pessoas de quem gostava ou por quem estava interessada, tinha novamente levado a melhor.
E ela que pensava que já tinha vencido essa fase... enfim!
Dois dias passaram e ela não consegue deixar de pensar naquele encontro e de se recriminar por não ter ficado com o contacto dele.
Nisto recebe o telefonema de um dos melhores amigos, a convidar para almoçarem, pois vai estar na sua zona e assim juntava o útil ao agradável e estava com ela.
Fica logo mais animada, pois ele era uma pessoa excepcional e raramente se conseguiam encontrar. Nem hesitou para aceitar.
Mal pousa o telefone recebe uma chamada da recepcionista, indicando que está uma pessoa à espera para lhe falar. Para variar não sabia o nome nem o assunto (era a sua batalha diária com aquela recepção).
Com um suspiro levanta-se, arranja o fato e sai do escritório para ver quem a esperava.
Cai-lhe o coração aos pés!
É ele!!!
Está ali sentado, olhando em volta e analisando o espaço, enquanto espera por ela.
Quando os seus olhos se cruzaram ele sorri e veio ao encontro dela.
- Espero que não te importes de eu aparecer assim sem avisar, mas como ficamos com um almoço pendente, vim convidar-te para almoçar!
Com grande esforço, ela lá consegue controlar-se e sentar-se ao lado dele, enquanto lhe responde.
- Desculpa, mas precisamente agora acabei de combinar um almoço com um amigo que vem de longe!
- Como tinhas dito que por norma não tens planos de almoço pensei que ia ter sorte. Mas está visto que hoje é um dia fora da norma. - diz ele, mal conseguindo esconder a desilusão.
Ainda pensa ligar ao amigo para não vir, mas seria incorrecto, pois ele vinha de tão longe.
- Como não me deste o telefone, decidi aparecer e correr esse risco. - continua ele, com um meio sorriso.
Ela não o podia deixar escapar de novo, por isso responde-lhe com uma contra-proposta.
- Almoçar, infelizmente, já não posso, mas se for possível para ti, podíamos jantar. Até era melhor pois podíamos estar há vontade sem a preocupação das horas e do regresso ao trabalho.
Sentia-se uma "oferecida" ao pronunciar aquelas palavras, mas a verdade é que morria de vontade de estar com ele e não queria deixar desaparecer aquele momento (já bastara domingo).
O sorriso dele revela o prazer da solução apresentada.
- Para mim é muito melhor, mas não quis propor logo um jantar para não me achares muito "atiradiço". A que horas queres que te vá buscar?
- Mas sabes onde eu moro? - pergunta ela com surpresa.
Ele cora e responde:
- Como não me deste o telefone, eu liguei a uns amigos que me disseram onde moravas. Não sei o prédio exacto ou o andar, mas se me quiseres dizer terei o maior prazer em te ir buscar.
O seu coração dispara de novo, enquanto ela ouve as suas palavras com prazer.
Afinal ele também tinha procurado encontrá-la, tinha procurado informações sobre ela.
E o sentimento antigo de há 20 anos inunda de novo o seu coração.
Combinaram a hora para se encontrarem para jantar e ele despediu-se, enquanto ela ia almoçar com o amigo e procurava concentrar-se para o resto do dia de trabalho.
A tarde parecia ser interminável, mas finalmente conseguiu sair e ir para casa onde, depois de um bom banho, hesita entre diversas "toiletes", pois se por um lado queria estar linda para ele, por outro lado não queria estar demasiado produzida ou dar um aspecto de ansiedade.
Finalmente lá se decide (esta coisa de ser mulher é complicada) e foi mesmo a horas, pois ele acaba de chegar.
Levou-a a jantar a um dos seus restaurantes preferidos, onde conversaram durante horas, mas acima de tudo sem conseguirem desviar o olhar um do outro.
Ele resumira a sua vida desde que se tinham afastado e ela resumira a dela.
Nenhum dos dois queria acabar aquele momento, mas a verdade é que os empregados do restaurante já davam sinais de grande impaciência, visto que naquele momento eles são os últimos convivas.
Sem outra solução, levantam-se e enquanto ele ia pagar a conta ("fui eu que te convidei", dissera) ela dirige-se para a saída.
Caminhando lado a lado, tocando-se muito ligeiramente, morria de vontade de ser abraçada, de lhe dar a mão, o braço, mas não queria estar a assumir nada demais, e sentia-se intimidada pela sua presença e pelos sentimentos que a inundavam.
Quase ao aproximarem-se do carro ele propõe-lhe um passeio.
- Está uma noite tão bonita, é quase lua-cheia, queres ir dar uma volta pela beira-mar?
Ela acede, quiçá rapidamente demais, mas a possibilidade de estarem juntos mais algum tempo era algo que não iria desperdiçar.
Foram até à beira-rio e, estacionando o carro, ele propõe-lhe um passeio a pé.
Saíram do carro e foram caminhando, como dois adolescentes que não sabem bem o que fazer...
Passando um pouco ele abraça-a, qual filme de adolescentes...
- Está frio. Estás só com essa blusa. Chega-te para perto de mim.
A proximidade do corpo dele, o seu braço apertando-a contra ele, tudo isto a aquece de tal maneira que nem o vento frio que se fazia sentir a incomoda.
E foram passeando assim, em silêncio, abraçados, enquanto ouviam ao longe o barulho do mar e das ondas.
- Sabes que eu era apaixonado por ti? Mas nunca tive coragem de to dizer. - diz ele ao fim de uns momentos.
- Eu também era, mas também nunca to consegui dizer e a partir de determinada altura só te queria fazer ciumes. - confessa-lhe ela.
- Fomos tão imbecis os dois! Nunca te devia ter deixado ir embora assim. - diz ele, abrandando um pouco o passo e apertando-a mais contra ele.
- Pois. Mas eu não tinha a certeza de gostares de mim e acabei por me afastar. - foi só o que ela lhe conseguiu responder.
Ele pára completamente e, puxando-a para a frente dele, sem nunca a largar, olha-lhe para dentro da alma, com aqueles seus olhos verdes e diz-lhe a frase mais bonita que poderia ter dito.
- Naquela altura não tive coragem para te dizer o que sentia, mas não vou deixar passar a oportunidade duas vezes. Sou louco por ti, tanto ou mais que antigamente e quero ficar contigo, para sempre!
Sentiu-se tonta, sem forças, sem saber o que pensar.
Aquelas palavras que ela tanto ansiara ouvir chegavam-lhe finalmente aos ouvidos e ditas com o sentimento de um adulto e não com a paixão de um adolescente.
Procura dentro de si as energias para lhe responder, sem que a voz traísse a emoção das palavras.
- Eu também era e sou louca por ti.
Não conseguiu acabar...
O beijo apaixonado que ele lhe deu foi a prova de que aquele domingo de compras tinha para sempre alterado a sua vida, entrelaçando-a na dele.

domingo, 28 de setembro de 2008

Amores e desamores 4

Sentada no carro, a caminho de mais uma passagem de ano no Algarve, rodeada de bêbados e foliões "à pressão" ela pensava "Mas o que é que eu estou aqui a fazer?!".
Pensava nos últimos dias, nos últimos meses, nos últimos tempos daquela relação e não conseguia compreender o que estava ali a fazer, com ele, com aquelas pessoas, a caminho de uma passagem de ano que ela odiava com gente que não gostava!
Já há algum tempo que as coisas não andavam bem, que ela não se sentia bem naquela relação, que sentia que estava a ser enganada, que já não fazia parte da vida dele, mas o intenso amor que sentia por ele fazia com que procurasse esquecer tudo isso, procurasse superar todos esses sentimentos que insistiam em inundar o seu coração e a sua alma!
E ali sentada, enquanto eles ou ouvia falar de futilidades e antecipar as bebedeiras de mais logo, ela sentia, cada vez mais veementemente, que não pertencia àquele mundo, que não era aquilo que queria para si e para o seu futuro.
Todos estes sentimentos tinham ganho nova vida no Natal e estava a ser muito difícil esquecer o quanto ela tinha ficado magoada.
O Natal, aquela época que ela gostava mais do que tudo, pelo prazer de oferecer prendas, procurar a prenda certa para oferecer, encontrar aquela coisa que faz brilhar os olhos de quem recebe, pois era exactamente o que queriam.
E o Natal, com ele, ganhava nova vida, pois ele tornara-se mesmo mais importante que a sua família e as suas prendas tinham sido cuidadosamente pensadas e procuradas por toda a cidade.

Mas este ano tudo tinha mudado!
Chegada a véspera, ele tinha consecutivamente adiado o encontro deles e anulara mesmo o jantar, primeiro por problemas no trabalho, depois porque "iam todos sair e beber um copo e ele não podia vir embora assim".
Então, quase quando ela estava de partida para a reunião familiar tradicional desta época, ele finalmente aparecera, ainda com a roupa de trabalho, directamente dos copos e a cheirar a perfume.
Ela tinha tentado ignorar tudo isso, tal era a alegria de o ver e a antecipação de ver a cara dele com as prendas que ela tinha tão cuidadosamente procurado e para as quais tinha poupado durante tanto tempo.
Ele, qual criança mimada, abrira logo as suas prendas e, como ela previra, adorou cada uma delas, brincando com ela pela quantidade de prendas (mas ela sempre fora exagerada).
Em seguida, com ar meio desajeitado, colocara a mão no bolso e tirara uma embalagem comprida que ela percebera logo o que era, especialmente quando ele disse que não "tinha tido tempo" de procurar outra coisa.
O coração tinha parado!
Ela sabia o que era antes mesmo de abrir, mas não queria acreditar que, ao fim de tanto tempo, com o trabalho bem remunerado que ele tinha, com as condições que ele tinha, era "aquilo" que lhe ia oferecer no Natal?!
Procurara afastar esses pensamentos enquanto estendia a mão para agarrar a "prenda" dele, iludindo-se com a ideia de que era só a embalagem e que devia ser algo diferente.
Mas, quando abrira a prenda, os seus piores receios confirmaram-se - ele tinha-lhe oferecido uma esferográfica!!!
Ela nunca se considerara materialista, nem fora só o valor da prenda o que mais a tinha chocado nesse momento.
Era a oferta em si!!!
Ele tinha-lhe oferecido uma esferográfica, daquelas que os clientes dele lhe tinham oferecido!!!
Daquelas que as empresas oferecem aos fornecedores ou aos quadros das empresas com quem trabalham!!!
O choque tinha sido brutal!!!
Ele nem sequer se tinha dignado a procurar uma prenda de Natal para ela!!!
E era tão simples encontrar uma prenda que lhe agradasse, que fosse um sinal que ele tinha pensado nela!
Mas, em vez disso, ele tinha aparecido com uma caneta que tinha recebido na empresa?!
E ainda tentara disfarçar, ao ver a cara dela a olhar para "aquilo", dizendo que tinha pensado nisso para ela usar no trabalho?!
Mas será que ele pensava que ela era assim tão parva, ingénua, crédula... nem sabia o que pensara naqueles momentos!!!
Furiosa, expulsara-o de casa mais a sua "prenda" dizendo-lhe que para "prendas" daquelas nem precisava de se preocupar em dizer que era Natal, que ficasse com os colegas e as colegas e fosse muito feliz... nem se lembrava, tal tinha sido a sua fúria, desilusão, tristeza.

Nesse dia tinha jurado a si mesma que tudo estava acabado, mas a verdade é que os telefonemas dele com inúmeros pedidos de desculpa, as palavras dele, a voz dele... tinham de novo amolecido o seu coração e, contra tudo o que ela realmente queria, contra o que ela decidira, aqui estava ela no carro, a caminho de mais uma infindável passagem de ano com os amigos dele.
Todos estes sentimentos a acompanhavam durante a noite, enquanto circulava pela festa, naquela casa alugada que não lhe dizia nada, no meio daquelas pessoas com quem não se identificava e das quais não conhecia metade, naquela festa que não significava nada para ela.
E ia observando como ele parecia bem, enquanto de embebedava alegremente no meio daquela multidão e sentia o coração cada vez mais apertado, cada vez se sentia mais "sufocar" naquela luta entre o que sentia por ele e o que sabia que era mais saudável para ela.
Mesmo antes da meia-noite, finalmente, conseguiram sentar-se um pouco no jardim e conseguiram falar.
E foi nesse momento, quando no meio da conversa ele lhe anunciou que queria comprar/alugar casa, porque já não ia prestar o serviço militar, que ela teve a certeza que aquela relação não era o que queria.
E quando ele lhe disse (ele ainda não tinha percebido que quando estava bêbado falava demais e não era aquele rapaz que controlava e media bem as suas palavras) que já sabia há meses que não ia prestar serviço militar e que a casa seria só para ele, ou para ele e um amigo, e que ela poderia "visitar" quando quisesse, ela teve a nítida noção que realmente não havia amor que chegasse para suportar uma relação de aparências, em que os objectivos de vida, as próprias personalidades de cada um deles e os objectivos da relação eram tão diferentes.
Ao compreender que em vez de ser das primeiras pessoas a saber os planos de vida dele, os sonhos e ambições, era a última, ela teve a certeza que todas as dúvidas e incertezas que a assaltavam nos últimos meses eram uma realidade e não adiantava mais esconder a verdade!
Nesse momento, como se fosse um sinal divino, começaram a dar as badaladas da meia-noite e enquanto se levantavam rapidamente para beber o champanhe e comer as passas, porque há que manter as tradições, formou-se, de uma forma cristalina, na sua cabeça qual iria ser a decisão de ano novo.
E por isso, quando soaram as 12 badaladas e ele a beijou e perguntou, a cair de bêbado, o que ela tinha desejado para o novo ano, ela só lhe respondeu:
- O que desejo, vou obter desde já. Está tudo acabado entre nós!
E virando as costas, foi-se embora, sem voltar a olhar para trás, com o coração pesado, mas a alma leve por ter tomado a decisão que adiara tanto tempo!

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Amores e Desamores 3

- Não marques nada para esta noite. - dizia o sms que ele lhe enviou nessa fria manhã de Outono.
- Ok, mas o que tens em mente? - pergunta-lhe ela, com a curiosidade natural a quem está a umas boas centenas de quilómetros de distância.
- Não te preocupes, a seu tempo compreenderás. - foi a resposta dele.
E com esta última mensagem ela acabou de se vestir e preparou-se para mais um desgastante dia de trabalho, com aquele supra sumo de inteligência que a envergonhava diariamente junto dos seus outros colegas com as suas perguntas completamente deslocadas e fora de contexto.
Mas aquele sms não lhe saía da cabeça.
O que será que ele queria dizer com aquilo?
É verdade que se conheciam há algum tempo e que com as suas conversas diárias parecia que se conheciam há séculos, além de passarem horas ao telefone e trocarem milhares de sms e mails durante o dia, mas estavam extremamente distantes e era uma semana de muito trabalho para os dois.
Também era verdade que ela sentia a falta da sua presença física, dos seus braços para a apoiarem e abraçarem quando chegava a casa de rastos por mais um dia emocionalmente desgastante, mas fazer o quê?
Sabiam que ia ser complicado estarem juntos e que nesta altura do ano era literalmente impossível.
Mas que raio queria ele dizer com aquele sms?
Com esta questão na cabeça, o dia parecia ser ainda mais longo que o habitual e as horas arrastavam-se lentamente.
O seu coração dizia-lhe que ele se estava a preparar para fazer uma loucura e ir ter com ela, mas a sua cabeça dizia que era impossível, pois ainda na véspera tinham falado dos respectivos dias de trabalho e o dele estava cheio de reuniões.
Por isso o seu coração começou a bater mais rápido quando às 18h30 recebeu novo sms:
- Em que loja estás tu a ter a formação?
Respondeu-lhe tão depressa que quase se enganava:
- Na sede, que fica um bocadinho afastada da cidade, em XPTY.
- OK. Podes estar à porta daqui a 1h? Quando acaba a tua formação? - responde ele.
- Posso estar à porta daqui a 1h e a formação já acabou. Mas porquê? - diz ela, já com o coração aos saltos dentro do peito, simultaneamente assustada e excitada com a possibilidade de o rever.
- Porque tenho uma surpresa para te animar. Basta que estejas com o casaco azul para seres bem identificada. - foi a resposta dele.
- Daqui a 1h e com o casaco azul. Ok. - disse ela, já a acalmar o coração a pensar que afinal não seria ele, mas alguma das surpresas que ele gostava de fazer, como enviar-lhe flores ou alguma surpresa similar.
Foi com alguma ansiedade que regressou ao hotel e se preparou para estar à porta da loja dali a 1h. Parecia pouco tempo, mas os minutos não passavam e nem a TV ajudou a que o tempo se escoasse mais rapidamente!
Na hora marcada lá estava ela, com o casaco azul que ele tanto gostava, esperando e olhando ansiosamente em volta para ver o que a esperava.
Nisto o coração começou a bater mais depressa!
Não podia ser! Devia estar a ver mal!
Mas... sim, o carro que estava a entrar no parque naquele momento tinha uma matricula estrangeira e um homem enorme ao volante.
Não!!!
O seu coração devia estar a pregar partidas aos seus olhos!!!
Ele saía do carro e dirigia-se para ela.
Não era possível!!!
Mas... era ele!
Não era possível confundir aquele homem enorme, desengonçado no seu fato fino naquele dia gelado, que ela achava feio como tudo mas que tinha um charme e elegância que o tornavam irresistível aos seus olhos...
Caminhando em direcção aos seus braços o seu coração batia descontroladamente e ansiava por abraçá-lo.
- Não consegui ficar longe sabendo que estavas aqui e que não estavas bem! - disse-lhe ele enquanto a abraçava e levantava no ar.
- Depois de termos falado ontem, tomei a decisão. Acabei as reuniões, meti-me no carro e vim jantar contigo! - continuou ele enquanto a pousava docemente no chão.
- Mas não estavas cheio de reuniões? - perguntou ela, tentando controlar a voz para que não revelasse a emoção de o ver ali.
- Estava e estou, mas para te vir ver e estar contigo, vale a pena a viagem. De qualquer forma, depois de jantarmos deixo-te no hotel e regresso, ainda consigo dormir algumas horas e estou lá para as reuniões da manhã! Só que queria estar contigo. - responde ele com um sorriso, puxando-a novamente para si para a abraçar.
- És completamente louco! - foi a única coisa que ela conseguiu dizer, antes de se deixar envolver pelo seu abraço.
Naquele momento, sem dizer mais nada e abraçada a ele, sentindo-o gelado pelo frio que estava, ela pensou "Sou capaz de me apaixonar seriamente por este homem".
Mas a noite não tinha acabado e era apenas o início de um dia que acabou por se tornar inesquecível.
Pegando nela, levou-a ao centro da cidade para um jantar romantico, num pequeno "bistrot".
Ela mal conseguia comer, tal era a emoção de o ver ali, tremendo de frio no seu fato de trabalho ("nem fui a casa mudar de roupa", tinha ele explicado), com os seus olhos enormes e lindos a olharem para ela por cima do copo de cerveja local.
Os sentimentos misturavam-se no seu coração, pois se por um lado tinha o seu lado superfícial que lhe dizia que ele era feio, "velho", com um passado conturbado, por outro o seu coração e a sua alma só conseguiam ver o homem lindo que ele era, com um charme, humor e um coração que o tornavam irrestível aos seus olhos.
Foi perfeito.
Jantaram, passearam de mão dada pelas ruas da cidade observando as decorações que adornavam ruas e prédios, até que depararam com uma roda gigante mesmo no centro da praça mais conhecida.
- Queres ir dar uma volta? - propôs ele, com aquela sua voz que a derretia e olhando bem dentro dos olhos dela.
- Porque não? Deve ser giro ver a vista lá de cima. - responde ela com entusiasmo, apertando-lhe a mão com mais força.
Abraçando-a, para a proteger de tudo e de todos, bem como para se aquecer, pois não conseguia parar de tremer com o seu fato de outono naquelas temperaturas quase negativas, dirigiram-se para a bilheteira.
Comprou as entradas e foram para a roda.
Quando se sentaram ele confessou:
- Sabes que tenho pavor de alturas?
- Mas... então porque quiseste vir aqui? - pergunta ela surpreendida.
- Porque deve ter uma vista linda e queria estar assim, sentado junto a ti, abraçado, aquecer-te. - foi a simples resposta que ele lhe deu, enquanto os seus olhos sorriam a olhar para ela e a sua boca não parava de rir.
Começaram a andar, a subir, e ela sentia o corpo dele a tremer junto ao seu, sem saber se era pelo pavor das alturas, se era pelo frio que lhe devia entrar pelos ossos, se era pela emoção de estarem juntos depois de tanto tempo afastados.
Para piorar as coisas, para ele, a roda parava a cada 10 segundos, e acabaram por ficar parados no cimo da roda, com uma vista incrível sobre a cidade e os seus arredores, mas igualmente com um vento gelado que entrava nos ossos.
Mas ele não parava de sorrir, abraçado a ela, olhando em volta.
- Uma vista quase tão linda como tu! - Disse-lhe ele.
Ela sentiu um arrepio, mas não de frio, de pura emoção de o ter ali, junto a ela.
- Espero que esta noite tenha servido para te acalmares, relaxares, esqueceres tudo e para perceberes que sempre que precisares ou estiveres em baixo, eu estarei ao pé de ti. - Disse-lhe novamente ele, naquela voz suave que a encantava, enquanto a abraçava e puxava para mais perto de si.
Sem palavras, com o coração a transbordar de felicidade, ela aconchegou-se mais contra ele, tanto para se sentir protegida como para tentar aquecê-lo, pois não podia deixar de se sentir "culpada" de ele estar ali, gelado até aos ossos, para a consolar e mimar.
Abraçando-a mais forte junto ao corpo, ela sentia os seus olhos pousados nela, conseguia perceber o sorriso que lhe dançaria nos lábios e, fechando os olhos, esqueceu onde estava e todos os problemas que a atormentavam pareceram ridiculos e sentiu-se nas nuvens.
Aconchegada nos seus braços, sentindo o calor dos seus corpo e do seu coração, ela percebeu...
Não corria o risco de se apaixonar por aquele homem...
Ela já estava loucamente apaixonada por aquele homem!!!
E quando ele a puxou para cima e beijou apaixonadamente, teve a certeza...
Era o início da sua história de amor!

sábado, 13 de setembro de 2008

Amores e Desamores - 2

Tudo começou quando chegou de férias...
Ao chegar ao aeroporto naquela manhã teve um novo choque de realidade, que a arrancou daquele mundo cor-de-rosa em que ela insistia em viver.
Ela sabia que ele estava a trabalhar, que tinha reuniões, mas algo dentro do seu coração sempre tinha sonhado que ele lhe dizia isso, mas estaria ali, à sua espera, com aquele sorriso radioso, uma rosa e um beijo apaixonado, como anteriormente.
Mas não, efectivamente estava sozinha e depois de levantar as malas foi apanhar o comboio para casa.
Enviou-lhe uma mensagem a dizer que tinha chegado e qual o comboio que ia apanhar e seguiu para casa, que estava cansada, transpirada e queria descansar e tomar um banho que lhe lavasse da alma a tristeza de estar sozinha.
No seu coração alimentava ainda a esperança que ele a fosse buscar à estação, mas efectivamente o dia devia estar muito preenchido e na estação apanhou o táxi para casa.
Não queria estar a pensar muito, pois a realidade é que se ela estava de férias ele não estava, mas algo lhe dizia que as coisas não eram tão idílicas como pareciam e que algo estava mal.
Eram aqueles pequenos sinais de alerta, mas que ela sempre escolhera ignorar, atribuindo tudo isso ao seu romantismo exacerbado e exagerado.
E desta vez não seria diferente, pensou ela enquanto apanhava a chave e entrava em casa!
Ele chegou a casa às 18, cansado, mas mais apaixonado que nunca e lamentando não ter podido estar com ela quando chegara.
Tal como tantas vezes antes, ela não teve coragem de lhe dizer que queria era estar com ele, por isso saíram e foram a um evento no clube, onde ele queria mostrar a namorada... E ela aguentou de cara alegre aquelas 2h de conversa numa língua que ela não entendia e no meio de pessoas que não lhe diziam nada.
Mas o ar radiante dele compensava tudo isso, iludia-se ela, mais uma vez.
O grande "sinal" de que algo tinha mudado, pelo menos para ela, chegou na noite seguinte, véspera do seu aniversário.
É certo que ela sempre lhe tinha dito que não ligava a isso, que já tinha passado os 30 e que aniversários eram coisa de criança.
Claro que, para variar, o que ela dizia era uma coisa, o que sentia era outra, mas ela sempre achara que ele sabia perceber e entender isso.
E especialmente tendo em conta o dia que era!!!
Tinham combinado as coisas para esse dia, mas ele tinha de arranjar maneira de destruir os seus sonhos e ilusões.
Deitada na cama, sem conseguir dormir, na sua cabeça ecoavam as palavras que ele, inocentemente, tinha dito:
- Amanhã, em vez de ires cedo comigo, porque não ficas a dormir e depois apanhas o comboio para lá? Eu não posso almoçar contigo porque tenho uma reunião, mas posso vir contigo e depois jantamos com os miúdos.
Apesar de saber que ele tinha dito isso com a melhor das intenções, pensando nela e que poderia descansar... tudo o que lhe vinha à cabeça era:
- Mas será que ele não sabe que a estação de comboios fica a mais de 40 minutos a pé e que nem sei qual o autocarro para lá? O que vou ficar a fazer em casa sozinha? Porque nem consegue almoçar comigo nos meus anos, dia dos namorados? O que se passa?
Sabia que estava a ser injusta, infantil mesmo, mas não conseguia tirar isso da cabeça e com essas palavras a ecoarem ela não conseguia encontrar o sono.
Era o sinal e ela não o devia ter ignorado, devia ter dito o que sentia, a sua revolta com as palavras dele, mas sentindo que estava a ser infantil, optou por se calar e guardar a mágoa no fundo do coração.
Na manhã seguinte levantou-se cedo e foi buscar as prendas dele, cuidadosamente escondidas, pois mesmo sendo o aniversário dela, era o dia deles e tinha de ser celebrado!
Acordou-o:
- Amor, vi isto e não consegui resistir, pois era a tua cara!!!
Entregou-lhe o postal, cuidadosamente escolhido na véspera na papelaria da esquina, que tinha uns postais deliciosos, o peluche do seu animal preferido, e que ele coleccionava há anos, onde tinha enrolado o relógio lindíssimo que lhe tinha trazido.
O seu ar feliz e surpreendido foi a melhor prenda daquela manhã, apesar de ele ter conseguido estragar o ambiente levantando-se e dizendo:
- Amo-te. E adoro o meu relógio! Mas agora descansa e dorme. Depois vais lá ter e eu apanho-te para virmos jantar com os miudos!
E começa novamente o seu diálogo interior, cego, surdo e mudo para o exterior do seu coração:
- Mas o que se passa???
- Será que ele não vê que já estou acordada e que quero ir com ele e aproveitar os momentos que temos juntos?!
Todas estas questões lhe atravessam a cabeça, mas sem energia para mais nada volta-se a deitar, vendo pela janela o pequeno lago com as suas grandes árvores e pensando que o dia, que ele tinha sonhado ser passado a dois recheado de pequenos gestos, ia ser longo e solitário.
Quando desce, já a meio da manhã, vê que ele tinha estado a enfeitar a sala com cartazes de parabéns e pequenas decorações festivas.
Mas nesta altura a desilusão já se tinha apoderado de tal maneira que nada a animava e, num gesto de raiva, arrancou tudo e arrumou cuidadosamente!
A única coisa que ela queria era passar aquele dia com ele, eram pequenos gestos românticos e... nada daquilo era um gesto romântico!
Sim, porque na sua cegueira, nos seus sonhos e ilusões desfeitos, nada daquilo era considerado romântico.
E daí em diante o dia só piorou e, no fundo, sentia que a culpa era toda sua, pois se tinha dito que não se importava com nada, que não era preciso nada de especial, sempre tinha sonhado que ele ia compreender, que ele ia saber que ela adorava pequenos gestos e atenções nesse dia.
Por isso como o podia culpabilizar de ser cego e surdo?
Simultâneamente, não tinham falado tantas vezes dos outros anos, dos outros namorados e das suas "falhas "naquele dia?
Não lhe tinha ele prometido que nunca seria assim?
De tarde o seu telefonema, mais uma camada de "boa disposição" para o aniversário mais solitário de que se recordava:
- Amor, estou atrasadíssimo, as coisas estão demoradas, apanho os miúdos e encontramo-nos no Mac? Ainda bem que não vieste, pois acho que não conseguia dar-te boleia... Amo-te muito e PARABÉNS!
Fabuloso!!!
Mesmo o que se sonha para passar o dia de anos.
O monstro estava completamente solto, estava cega de tristeza, dor, desilusão e só lhe apetecia agarrar nas malas e ir embora.
E por uma coisa tão pequena!!!
Lá se encontraram ao fim do dia e foram ao Mac, e depois regresso a casa, deitar os miúdos e "relaxar" na sala, enquanto ele procurava casas na Internet.
Surpresas? Nada!
E sentada no sofá ela não conseguia deixar de olhar para ele e pensar porque é que será que ela tinha de viver sempre no seu mundo de fantasia e não conseguia viver no mundo real?
Ele olhava para ela sem perceber o que se passava e ela, cada vez se afundava mais no seu silêncio, na sua decepção, na sua tristeza de perceber que, mais uma vez, todas as conversas, todas as coisas faladas entre eles, todas as suas ilusões e devaneios românticos.... tinham caído em saco roto.
Tinha imaginado tantas possibilidades românticas com que ele a surpreenderia... um bolo surpresa no Mac, com os miúdos, ou uma rosa, um postal, ... algo!!!
Mas não.... o dia tinha sido muito ocupado para que ele desse importância ao aniversário que ela escolhera passar com ele.
- Vou-me deitar!- disse-lhe ela passado um bocado, derrotada pela ausência de uma prenda, um gesto simbólico... algo!!!
- Já?! Ok, eu já vou! - a surpresa na cara dele demonstrava que não se apercebia de nada, e isso enfurecia-a tanto!
Despiu-se e deitou-se, triste, desiludida, devastada com a forma como o dia tinha passado, ela que tinha sonhado tanto com aquele dia.
Ele subiu e cuidadosamente sentou-se ao lado dela, estendendo-lhe um pequeno embrulho, que ela nem precisou de abrir para saber o que era.
- Nem me deixaste dar-te a tua prenda de anos! - diz-lhe ele, como quem pede desculpa.
Sem sequer a abrir, agarra nela e coloca na mesinha.
- Obrigada! - diz. controlando-se para que a dor e desilusão não transpareçam, pois afinal ele não sabia o quanto a tinha desiludido, não só ao longo do dia, mas especialmente com aquela prenda!
- Não abres?
Fazendo um esforço, lá abre a prenda e, surpresa, era algo que já tinha (afinal era coleccionadora).
Era demais para as forças dela!!!
Por mais que tentasse, por mais que quisesse ser justa... aquela prenda era demais!
Sempre tinha dito que ele a conhecia melhor que qualquer outra pessoa, tinham falado tanto, ele devia conhecer tão bem e, aparece-lhe com uma prenda que qualquer pessoa que não a conhecesse podia ter comprado?
Onde estava aquele homem das rosas no aeroporto? Do DVD de lareiras e do tapete felpudo no chão?
Onde estava o namorado que a tinha surpreendido com uma pulseira antes de ela ir de férias, para que ela a usasse a pensar nele?
- Não gostas? Já tinhas? - pergunta ele, ansioso com a sua prenda.
- Gosto, e não tinha. - responde, tentando fazer uma cara alegre, mas as forças escapavam.
- Mas o que se passa? O que tens? - pergunta ele, sabendo que algo se passa.
- Gostava de ter passado mais tempo contigo, queria ter podido organizar as coisas para passarmos o dia juntos, mas como disseste que não fazia mal, aproveitei para avançar as coisas no trabalho.
Estas palavras ainda vieram reforçar mais a sua convicção que algo ia mal, pois sabia que lhe tinha dito que não fazia mal e escusava de estar a faltar ao trabalho por causa dela, mas ele esperava o quê?! Que ela lhe dissesse que faltasse ao trabalho para passarem juntos o dia de anos dela?! Isso não se pede, faz-se, se houver interesse.
- Paulinha, diz-me o que tens que estou preocupado. - repete ele com carinho.
E na cabeça dela desfilavam as prendas que tinham falado milhares de vezes, os gestos românticos que tinha idealizado... e a realidade do que tinha recebido e do dia que teve.
Não a interpretem mal, não é uma pessoa materialista! Mas era o dia deles E o dia dos anos dela!
- De todas as prendas que me podias ter dado, escolheste a que menos significado tem para mim, pois é a que qualquer pessoa que não me conheça pode dar, sabendo que iria sempre gostar! - responde ela, triste e querendo estar sozinha.
- Não digas isso! Nem sabes o que corri para a encontrar, porque é algo que coleccionas. - responde ele, começando a perceber a sua tristeza.
- Andei de uma ponta à outra para te encontrar isto, e só hoje é que percebi que podia encontrar em qualquer lado, mas acredita que não sabia e que até falei com amigos do comité olímpico - continua ele, tentando explicar o porquê.
- Sei que falhei em não te ter dado nada no nosso dia, principalmente sabendo que odeias prendas "duplas" e depois da prenda que me deste e que eu adoro, mas não conseguia pensar em nada e estava com pouco tempo - continua ele, cada vez se "enterrando" mais e cada vez mais infeliz!
Neste ponto ela já estava de rastos, sentia-se injusta e ingrata por estar desiludida com aquele dia, com aquela prenda, com o facto de ele a conhecer tão mal que nem percebia que ela não queria uma prenda "pedida" ou um dia organizado por ela, mas que queria surpresas, romance, mistério.
E acima de tudo não queria discutir com ele, nem queria ver a tristeza nos olhos dele, pois ele não tinha a culpa de ela ser assim.
- Está tudo bem, foi só a surpresa. Fiquei triste com a prenda porque esperava algo diferente, mas percebo que me quiseste surpreender e o trabalho que tiveste. Não ligues, deve ser da idade.
A tristeza dele, ao perceber a dor dela, foi algo que a magoou mais do que qualquer acção ou pensamento que tivesse tido, pois não conseguia desviar de si a ideia de que estava a ser extremamente injusta com ele!
Conversaram durante um grande bocado, ele explicando o trabalho a encontrar a prenda, ela escutando tudo e tentando não deixar transparecer a dor que sentia por ter finalmente compreendido que a vida real é muito diferente da vida que se sonha.
Quando finalmente adormeceu, ela continuou acordada por muito tempo e, pela primeira vez desde que namoravam, só pensava no quanto queria estar em casa, junto dos seus, e no quanto se sentia sozinha ali.
Hoje, sentada em frente ao mar, recordando este episódio, ela só pensava que devia ter percebido que as coisas iam acabar, pois ficou claro que ele nunca a compreenderia, nem ela seria capaz de viver aquela vida de aparente "normalidade".
E por mais que falassem de tudo, ele nunca perceberia que há coisas que uma mulher não diz ou pede, mas que sonha que a surpreendam com elas!!!!
Especialmente se essas coisas dizem respeito a gestos românticos, datas importantes, eventos marcantes!

domingo, 7 de setembro de 2008

Amores e Desamores - 1

- Amo-te - dizia aquele sms que ele lhe enviou à noite, altas horas da madrugada, no dia do seu aniversário.
Derreteu-lhe o coração e a alma, até porque era a primeira vez que o dizia, mas não se deu por vencida e, como a vontade de picar é mais forte do que ela respondeu:
- Vê-se mesmo que estás com os copos.
E virando-se para o lado adormeceu, sozinha, sem a sua presença, os seus braços e o seu cheiro para a embalar.
No dia seguinte falaram pela Internet, único meio de alimentarem aquele amor, atendendo à distância que os separa.
Como ele não se descosia, ele teve de o espicaçar e dizer-lhe que ele tinha aproveitado bem a festa de anos para apanhar uma grande bebedeira.
- Bebi uns copos, mas não me embebedei, nem perto disso! Porque dizes isso?
- Por causa da tua mensagem de ontem à noite – diz ela sem se descoser...
- Qual? A que te dizia que te amo? - diz ele com um pequeno emoticon divertido
- Essa mesmo!
- Não estava com os copos, mas se o problema é esse, posso dizer-te agora o mesmo, que te amo!
E aí... ela ficou sem reacção e todos os seus fantasmas, dúvidas e “traumas” entraram em conflito.
Por um lado ela sentia que amava de todo o seu coração aquele homem grande, com uma elegância desengonçada e com um coração enorme preso num corpo com olhos tristes.
Por outro, o que seria que ele amava?
A ela, como pessoa?
Ou seria que amava o facto de ter com quem falar, quem o ajudasse e apoiasse e então em vez de ser amor era um sentimento de dívida e de gratidão aquilo que o levava a proferir tal palavra, sagrada na linguagem dos amantes.
E então, antes mesmo de poder raciocinar claramente, a tempestade desencadeou-se
- Sabes o que significa a palavra para mim para a estares a dizer assim?
- Claro que sei, senão não a utilizava! - responde ele.
Mas ela não se deva por vencida, ainda não chegava
- Mas como podes dizer que me amas se nem me conheces? Ao fim deste tempo todo ainda nem sabes o meu nome, não sabes nada de mim?
- Sei como és, o que fazes, que estás sempre presente e a apoiar-me e basta para saber que te amo!
Qualquer pessoa dita “normal” estaria feliz com esta resposta, mas a ela não lhe bastava, era um amor demasiado difícil e complexo de assumir para que lhe bastasse isso.
E ela sabia que era sempre a mesma coisa, o querer mais e mais, sentir -se amada por si e não por um sentimento de gratidão em relação ao que faz pelos outros, precisar de "provas" que era uma das prioridades da vida de quem estava com ela, por mais complexa que fosse.
- E o que tu fazes por mim? E quando estás tu presente para mim? O que sabes tu de mim?
Escrevia estas palavras e pensava no quão injusta estava a ser com ele, pois se o papel dela era ingrato e não era justo, o dele não o era menos.
A dor dele sentiu-se nas palavras que ele escreveu a seguir... mas apesar do sentimento de culpa, o “monstro” que se apodera dela nestas alturas não desistia, pois só conseguia pensar que precisava dele e ele não estava, não pensando que ele não sabia nada dela tanto por culpa dele, que nunca quis saber, como por culpa dela, que nunca partilhou nada.
- Não me podes amar, ou não sabes o que é amar. O que sabes de mim? O que sou, o que quero, como estou? Só sabes que gostas de mim porque me preocupo contigo e te ajudo, mas isso não é amar! Para se amar há que conhecer a outra pessoa, senão não podes dizer que amas!
E aí ele conseguiu cair no isco, na armadilha que o monstro dentro dela preparara e... “afogou-se” com a pior coisa que poderia dizer naquele momento:
- Tens razão, não sei nada de ti e se calhar não te amo.
Foi tudo o que o monstro precisava para desaparecer e deixar a dor de ouvir aquelas palavras, que se tinham procurado, pescado com arte, mas que não se queriam ouvir.
Não há nada pior para matar um monstro que cria a discórdia, fomenta as tempestades internas e o caos entre a mente e o coração do que ... dar-lhe razão!
- Se calhar não sei o que é amar, ou não sei o que entendes por amar. Tenho de pensar nisso e equacionar o que sinto! - completa ele.
Estas palavras, consequência de todo o diálogo que tinham estado a desenvolver e que aqui não se reproduziu por inteiro por ser de foro íntimo dos dois amantes, destruíram todas as ilusões dela.
Como pode um homem dizer que ama uma mulher para depois sucumbir nas sementes da dúvida que ela própria ardilosamente atirara?
Porque é que ela não consegue aproveitar aqueles momentos de felicidade, aquela declaração de amor tão pura e sincera e precisava de ir provocar a confusão que só serve para a destruir a ela.
Todas estas questões ecoaram na sua cabeça a partir do momento em que leu aquelas palavras e adormeceu o monstro que guiara até ao momento os seus dedos através do teclado do computador.
Mas nem isso a travava, parecia guiada por uma força demoníaca que estava apostada em destruir qualquer sentimento que existisse.
- Bem, se não sabes o que sentes, não vou ser eu a dizer-te. Mas não se deve nunca dizer a uma pessoa que é amada para a seguir se dizer que não se sabe. Aconselho-te a que penses muito bem da próxima vez que usares esse termo – diz-lhe ela, ferida no seu amor-próprio, despeitada, triste.
E sabendo que quem tinha provocado tudo isso tinha sido ela e as suas questões, dúvidas, medos e inseguranças, retirou-se e desligou, para mais uma noite de insónia e solidão.
Porque será que não consegue aceitar um amor simples e sincero?
Terá sido tão magoada, tão enganada que não consegue acreditar que possa ser amada?
Ou será porque a situação é tão complicada, a nível pessoal, profissional e amoroso, que precisa de mais apoio, confiança, provas de amor do que as pessoas que vivem uma relação dita “normal”?
Porque tem de aparecer aquele “monstro” a lançar a dúvida e a insegurança em vez de aproveitar os momentos e gozar a vida?
Porque tem de querer sempre mais e mais?
Pior ainda, porque acha que o facto de se dar tem de significar que os outros vão dar de volta?
Todas estas perguntas a atormentam enquanto se enrola no sofá do quarto, pensando como se pode amar um homem e procurar sabotar qualquer sentimento que ele possa ter por ela, analisando ao detalhe o que ele sente e porquê, procurando e apontando todas as falhas em vez de realçar as qualidades!!!
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