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sábado, 15 de fevereiro de 2014

“Missão de todo lugar para todo lugar” - Entrevista com o missiólogo John Baxter

http://www.ultimato.com.br/

Missiólogo analisa o fenômeno dos “povos da diáspora”. Eles representam o novo desafio missionário para a igreja global. 


O missionário John Baxter é representante internacional da Rede da Diáspora Global do Movimento de Lausanne e professor de missões da Cebu Graduate School of Theology, nas Filipinas. Ele esteve em Viçosa de 8 a 12 de julho de 2013 e ministrou aulas no Centro Evangélico de Missões. O missiólogo estuda o fenômeno dos “povos da diáspora”, isto é, gente que vive fora de seu país de origem.

O que é diáspora? Como se define o termo pessoas “em diáspora”? A atual diáspora é provocada por quais motivos? É um fenômeno novo?
A diáspora global não é nova. Povos têm estado em movimento por toda a história humana. No entanto, nos últimos cinquenta anos, a intensificação de forças globalizadoras sociais, políticas e econômicas têm enviado um número sem precedentes de pessoas para viver e trabalhar fora de suas terras nativas. Mais de 215 milhões de pessoas -- o equivalente ao quinto país mais populoso -- estão em movimento hoje e estão vivendo fora de seu país de nascimento. Um número adicional de 700 milhões de pessoas são imigrantes internos, vivendo dentro de seus próprios países, mas fora de seus contextos culturais. Estes números continuarão a crescer dramaticamente.
A diáspora global é composta de grupos de pessoas vivendo fora de seu local de origem cultural, que retêm uma ligação sociocultural e um sentimento de identificação significativos com seu país de origem e que experimentam um sentimento de deslocamento ou alienação dentro de seu novo local de residência.
Há mais de 40 milhões de pessoas deslocadas de suas casas devido a guerras ou desastres naturais. Quase 3 milhões são estudantes internacionais. Porém, a vasta maioria nos grupos de diáspora global são trabalhadores. A maioria desses trabalhadores é procedente de países em desenvolvimento. Portanto, são forçados pela pobreza e pelo desemprego e atraídos pela oportunidade econômica e por maiores salários encontrados em outros países.

Quais reflexões, pesquisas ou estratégias a “igreja cristã global” tem desenvolvido a partir deste fenômeno?
Há uma grande oportunidade evangelística envolvida na diáspora global. Pessoas que estão experimentando um sentimento de deslocamento -- vivendo longe de família, amigos e padrões normais de vida -- são bastante abertas a novos relacionamentos e novas crenças. Milhões de muçulmanos, hindus e budistas, procurando por educação superior ou empregos, mudam-se para países onde há contato com o evangelho e com cristãos. Muitos mudam-se para terras onde a igreja é estabelecida, como os Estados Unidos. Outros encontram trabalho em países que são fechados para o evangelho, como no Oriente Médio, mas trabalham e vivem entre cristãos do Sul global e do Oriente que também encontraram trabalhos nessas terras.
O campo emergente de missões diaspóricas reconhece três fases de alcance [missional] dentro da diáspora. A primeira é a missão para a diáspora, ou seja, quando grupos ainda não alcançados se mudam e entram em contato com a igreja e o evangelho, como os budistas do Butão se mudando para a América do Norte. Há também a missão por meio da diáspora. Esta acontece quando cristãos são capazes de compartilhar o evangelho com os próprios compatriotas ainda não evangelizados, mas que estão vivendo e trabalhando em um país estrangeiro. Este é o tipo mais eficaz de missões diaspóricas. Por exemplo, milhares de filipinos trabalhando em terras árabes têm vindo a Cristo por meio do testemunho de outros compatriotas filipinos que estão trabalhando no exterior.
Finalmente, há a missão além da diáspora. Este terceiro tipo de missão abraça uma grande promessa para alcançar os países não evangelizados da Janela 10/40. Isto é, cristãos vivendo e trabalhando em um país estrangeiro, testemunhando a outros trabalhadores de países diferentes e à população que os recebe. Por exemplo, trabalhadores filipinos trabalhando no Kuait e compartilhando Cristo com trabalhadores muçulmanos e hindus de países da Janela 10/40 que vivem ali. Deus tem trazido milhões de pessoas de povos não alcançados para viver e trabalhar ao lado de cristãos de todas as partes do globo, em lugares como o Golfo Pérsico. Esta é uma tremenda oportunidade para missões.

As Filipinas são o país mais cristão da Ásia e a Arábia Saudita, um dos países mais muçulmanos do mundo. O senhor diz que há 1,2 milhão de filipinos trabalhando na “pátria de Maomé”. O convívio é pacífico?
As nações muçulmanas do Conselho de Cooperação do Golfo (Kuait, Qatar, Bahrein, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Omã) precisam de trabalhadores estrangeiros para que possam movimentar suas economias. Os filipinos preenchem muitas posições dentro dessas sociedades -- de babás a enfermeiros, de trabalhadores de construções a auxiliares de escritório. Mesmo assim, ainda pode ser perigoso para jovens filipinas trabalharem como domésticas ou babás. Muitas delas são maltratadas. Os cristãos filipinos correm o risco de serem aprisionados ou deportados por testemunharem aos muçulmanos. No entanto, cada vez mais filipinos vivendo no Oriente Médio estão se arriscando e compartilhando Cristo.

O que a igreja brasileira pode aprender com a experiência da “igreja da diáspora”?
Primeiro, a igreja brasileira precisa aprender a “ver” a diáspora. No Brasil, a igreja precisa saber onde os grupos de imigrantes estão morando dentro do país. A igreja tem de aprender os princípios de comunicação transcultural e contextualização para alcançar esses grupos -- indo até eles para viver e trabalhar entre eles, e não esperar que eles venham a uma igreja brasileira estabelecida.
As igrejas brasileiras devem ver o potencial para missões internacionais entre os profissionais cristãos trabalhando no exterior. A estratégia de missões delas precisa expandir para identificar esses trabalhadores e estudantes internacionais como parte de um programa intencional de missões. O recrutamento, a avaliação, o treinamento, a preparação e a forma contínua de prestação de contas são parte de um ministério de missões diaspóricas a partir da igreja local, o qual pode ser feito pela maioria das igrejas espalhadas pelo mundo, incluindo as igrejas do Brasil. Igrejas podem preparar trabalhadores no exterior para o discipulado e evangelismo antes que eles deixem o Brasil e podem prover encorajamento e prestação de contas enquanto eles estiverem no exterior, por meio da mídia eletrônica.
Igrejas locais e denominações podem também ajudar a prover treinamento e liderança para as igrejas e grupos de comunhão iniciados pelos trabalhadores brasileiros no exterior. Uma vez que eles são profissionais seculares -- e não missionários de tempo integral, treinados em escolas de missões e seminários --, a maior parte do treinamento em missões diaspóricas tem de ter como base a igreja local. Escolas bíblicas e seminários no Brasil devem ajudar os pastores e as igrejas a criarem programas de missões diaspóricas efetivos na igreja local para oferecerem cursos e modelos práticos de missões diaspóricas dentro de seus programas de treinamento pastoral.
Deus tem soberanamente colocado cristãos brasileiros como testemunhas e plantadores de igrejas ao redor do mundo. Há primeiramente a obrigação de alcançar seus próprios conterrâneos nessas terras estrangeiras. Depois, eles devem ver se há outros grupos de pessoas migrantes em seu novo país de residência para que possam evangelizá-los. Finalmente, eles têm de procurar oportunidades para compartilhar Cristo com a cultura hospedeira.

Entre permanecer na terra para “salgá-la” e ser uma igreja peregrina que alcança cada vez mais nações, que espiritualidade devemos cultivar num mundo cada vez mais em movimento e com fronteiras (geográficas e tecnológicas) sendo superadas?
A globalização promove uma consciência global. A mídia eletrônica global mistura culturas de todo o mundo e permite que pessoas se conectem e formem subgrupos culturais, embora elas vivam em continentes diferentes. Jovens americanos seguem bandas k-pop da Coreia e cafeterias italianas são abertas na China. Nossos filhos vivem em um mundo onde as fronteiras políticas estão cada vez mais porosas. A antiga percepção de missões era “a partir do Ocidente cristão para o resto do mundo”. As missões diaspóricas creem em missões de todo lugar para todo lugar, feitas por todo mundo para todo mundo. A divisão entre missões domésticas e estrangeiras começa a se esvanecer no meio das missões diaspóricas. Deus está trazendo as nações às nossas orlas e nossos trabalhadores estão se tornando cidadãos do mundo.
Precisamos de novos odres missiológicos para um novo dia de missões. Não deveríamos focar na geografia das missões -- como enviar missionários para a China --, mas, antes, nas afinidades étnicas e culturais a fim de fazer missões entre os chineses, quer morem em Beijing ou na Cidade do México. Isso nos permite responder à direção do Espírito Santo. Temos a habilidade de perguntar onde no mundo Deus está presente, operando entre um grupo étnico-cultural em particular, e então responder ao seu convite para trabalhar onde ele já está trabalhando. Essa perspectiva nos concede uma flexibilidade maior no recrutamento e envio de missionários.

Há ministérios específicos trabalhando na diáspora? Quais são eles?
Missões diaspóricas, reconhecidas como uma estratégia de missões, é algo novo. Há grupos que têm alvejado certos grupos migratórios, como os nepaleses ou coreanos. Algumas agências enviadoras de missionários -- como a Junta de Missões Estrangeiras da Convenção Batista do Sul dos Estados Unidos -- têm reconhecido a importância das missões diaspóricas e estão trabalhando para se distanciar de um foco geográfico para uma orientação dirigida à afinidade étnico-cultural. Algumas denominações estão criando departamentos de ministério diaspórico para ajudar as suas igrejas e os missionários a responderem às oportunidades de missão diaspórica ao redor do mundo. A Associação de Missões das Filipinas criou um programa de treinamento para as igrejas filipinas com o alvo de prover treinamento de discipulado e evangelismo para centenas de cristãos filipinos, antes que eles deixem as Filipinas. Poucas escolas bíblicas e seminários, como o Seminário Batista do Sul, em Baguio, estão criando programas de treinamento flexíveis para treinar líderes da igreja dentro da diáspora global. Estes novos “pastores da diáspora” não têm educação teológico-pastoral formal e não podem abandonar o trabalho no exterior para frequentar um seminário. O treinamento teológico e pastoral tem de ser levado até eles, nos países onde eles trabalham e vivem.

Qual é o envolvimento de Lausanne com esses ministérios?
O Movimento de Lausanne é o primeiro advogado para as missões diaspóricas. Um dos primeiros encontros para estudar esta nova ideia de missões aconteceu em Pattaya, na Tailândia, em 2004. A partir daquele encontro, Lausanne criou uma equipe responsável por missões diaspóricas para preparar a apresentação das missões diaspóricas no Terceiro Congresso Lausanne sobre Evangelização Mundial, na Cidade do Cabo, em 2010. Na Cidade do Cabo, Lausanne criou a Rede da Diáspora Global, liderada por Sadiri Joy Tira. Os alvos da rede são: encorajar a criação de uma missiologia da diáspora e ajudar agências de envio de missionários a se envolverem com missões entre grupos de pessoas migrantes. A Rede da Diáspora Global realizará uma consulta global de Lausanne para missões diaspóricas em Manila, Filipinas, em 2015. Missiólogos e profissionais da diáspora de todo o mundo se reunirão para criar uma literatura básica para essa importante e emergente estratégia de missões.

Traduzido por Ehud M. Garcia.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

MISSIONÁRIOS: IGREJAS NÃO CHEGAM A UM QUARTO DO MUNDO

Por Michelle A. V. Repórter do Christian PostTraduzido por Amanda Gigliotti

Mais de 25 por cento das etnias (povos não) no mundo, ou cerca de dois bilhões de pessoas, não foram representados na Conferência Lausanne.

Um grupo de povos não alcançados significa que a missão transcultural é necessária para uma pessoa do grupo ouvir o Evangelho, porque eles não conseguem encontrar pessoas dentro de seu grupo étnico para compartilhar com eles a boa notícia.

Os chefes de missão, na quarta-feira, disseram que o obstáculo mais difícil a superar para alcançar os povos não alcançados é a obediência da Igreja. Eles falaram na sessão de multiplex Lausanne.”

Um vídeo apresentado no início da sessão, destacou que apesar do fato de que 86 por cento de Muçulmanos, Hindus e Budistas, não conhecem pessoalmente um seguidor de Cristo, 90 por cento dos missionários vão para regiões "cristianizadas," de acordo com o World Christian Database.

"Em meus 14 anos trabalhando com os Muçulmanos, mobilizando as Igrejas na Coréia, eu vim a perceber que os Muçulmanos não têm faltado com pessoas para Deus, mas para o povo de Deus," disse Henry Lee, líder da missão em Seul, Coréia do Sul, e parte do Ethne to Ethne (grego pessoas para as pessoas), uma rede missão global focada em obter o evangelho a grupos de pessoas não alcançadas.

Kent Park, presidente da Missão norte-americana para Povos Não Alcançados, explicou por que as Igrejas não compartilham o Evangelho com grupos de pessoas que precisam ouví-lo.

"A Igreja da Indonésia, por sua própria confissão, disse que nós os temos ignorado (grupos de pessoas não alcançados na Indonésia), porque não queríamos pagar o preço, ficamos com medo, nós não pensamos que iria funcionar, nós não pensamos que iria dar certo. É isso que significa ser alcançado."

Arychiluhm Beyene, que já trabalhou no campo de missão nos últimos 15 anos, incluindo seis anos com as pessoas mais difíceis na Somália, contou uma história comovente de um homem "assustador" somali que se converteu ao Cristianismo do Islã.

Depois que o homem somali se converteu, ele contou Beyene, "Quando você olha para nós de fora, com nossa longa barba, com a boina, e a jalabiya (roupas tradicionais soltas usadas por alguns homens da Somália), somos assustadores. Mas eu só quero te dar garantia, não pare de contar as boas novas. Apesar de parecer assustador a partir do exterior, nosso interior está procurando a verdade."

Durante a sessão de pessoas desaparecidas, um líder da missão Africana também falou sobre a desconexão entre o que ele vê entre o que é ensinado aos Cristãos Africanos e como eles vivem suas vidas.

Embora a África atualmente tenha a maior taxa de crescimento Cristão no mundo, também tem os maiores níveis de HIV, conflitos, pobreza e corrupção, disse Peter Tantal, o diretor regional da África do Sul de Ethne to Ethne.

Em 1900, havia 8 milhões de Cristãos na África. Hoje, há 500 milhões de Cristãos na África e em alguns países 90 por cento ou mais da população é cristã.

"O desafio diante de nós é como uma Igreja, apesar de ter crescido tanto, precisamos ensinar às pessoas o que significa viver como povo de Deus," disse Tantal.

O Terceiro Congresso Lausanne sobre Evangelização Mundial, também conhecido como Cape Town 2010, atraiu mais de 4.000 líderes cristãos representando mais de 190 países para a conferência Cape Town, África do Sul. A conferência foi fundada pelo evangelista americano Billy Graham em 1974, em Lausanne, na Suíça, para trazer junto ao corpo de Cristo global para a evangelização mundial.

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Painel de representantes regionais de Ethne para Ethne, uma rede de missão focada em grupos de pessoas não alcançadas, na sessão de multiplex: The Unserved 'One-Fourth World,' na Conferência Lausanne III, na quarta-feira, 20 de outubro de 2010, em Cidade do Cabo, África do Sul.

http://portuguese.christianpost.com/

via blog http://paginasmissionarias.blogspot.com

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

O futuro do movimento de Lausanne - René Padilla


Os números relacionados com o Terceiro Congresso Internacional de Evangelização Mundial — que aconteceu na Cidade do Cabo, África do Sul, de 17 a 24 de outubro, sob o tema “Deus em Cristo estava reconciliando consigo o mundo” (2 Coríntios 5:19) — são impressionantes. Estiveram presentes mais de 4 mil participantes de 198 países. Além disso, houve cerca de 650 sites de Internet conectados com o Congresso em 91 países e 100 mil “visitas” de 185 países. Isto significa que milhares de pessoas de todo o mundo puderam assistir às sessões por meio da Internet. Doug Birdsall, o presidente executivo do Movimento de Lausanne, provavelmente tem razão em afirmar que Cidade do Cabo 2010 foi “a assembleia evangélica global mais representativa da história”. Sem dúvida, este resultado foi alcançado, em grande medida, por meio de seu longo esforço. 

Igualmente impressionantes foram os muitos arranjos práticos que se fizeram antes do Congresso. Além do difícil processo de seleção dos oradores para as plenárias e para os “multiplexes” (seminários) e as sessões de diálogo, dos tradutores e dos participantes de cada país representado, havia duas tarefas que devem ter envolvido muito trabalho antes do Congresso: a Conversa Global de Lausanne, para possibilitar que muita gente ao redor do mundo fizesse seus comentários e interagisse com outros, aproveitando os avanços tecnológicos contemporâneos; e a redação da primeira parte (a teológica) do Compromisso da Cidade do Cabo, redigida pelo Grupo de Trabalho Teológico de Lausanne, sob a direção de Christopher Wright. 

Uma avaliação positiva de Lausanne III 
A melhor maneira de comprovar o valor de uma conferência como Lausanne III é analisar os resultados concretos que ela produz posteriormente em relação com a vida e missão da igreja. Por esta razão, a avaliação presente da conferência que acaba de ser realizada na Cidade do Cabo tem que ser considerada como nada mais do que uma avaliação preliminar. 

Cada um dos seis dias de programa (com um dia livre entre o terceiro e o quarto) tinha um tema: 

1) Segunda-feira – Verdade: Defender a verdade de Cristo em um mundo pluralista e globalizado. 
2) Terça-feira – Reconciliação: Construir a paz de Cristo em nosso mundo dividido e ferido. 
3) Quarta-feira – Religiões Mundiais: Testemunhar o amor de Cristo a pessoas de outras crenças. 
4) Sexta-feira – Prioridades: Discernir a vontade de Deus para evangelização deste século. 
5) Sábado – Integridade: Chamar a igreja de Cristo de volta à humildade, integridade e simplicidade. 
6) Domingo – Parceria: Formar parceria no corpo de Cristo rumo ao novo equilíbrio global. 

Cada um destes temas chaves, qualificados como “os maiores desafios para a igreja na próxima década”, era o tema de estudo bíblico e da reflexão teológica a cada dia pela manhã. O texto bíblico que se usava na série intitulada “Celebração da Bíblia” era a carta aos Efésios. Um dos aspectos mais positivos do programa foi o estudo indutivo da passagem do dia, em grupos de seis membros sentados ao redor de uma mesa. Isto deu aos membros do grupo a oportunidade de aprender juntos, de orar uns pelos outros, desenvolver novas amizades e construir alianças para o futuro. Ao estudo bíblico em grupos, seguia a exposição da passagem de Efésios selecionada para esse dia. Sem minimizar a importância da música, do teatro, das artes visuais, dos testemunhos e das apresentações multimídia, uma alta porcentagem dos participantes sentiu que o tempo dedicado a “Celebrar as artes” poderia ter sido reduzido para dar mais tempo para “Celebrar a Bíblia”, atividade que gostaram muito.

Cabe fazer uma menção especial aos vários testemunhos que foram dados nas sessões plenárias pela manhã por certas pessoas cuja experiência de vida ilustrava claramente o tema do dia. Quem que esteve ali poderia se esquecer, por exemplo, da jovem palestina e do jovem judeu que falaram juntos sobre o significado da reconciliação em Cristo acima das barreiras raciais? Ou da missionária estadunidense que falou sobre testificar do amor de Cristo a pessoas de outras religiões, contando como vários cristãos — incluindo seu esposo, médico de profissão — foram assassinados por muçulmanos enquanto regressavam de um povoado isolado onde haviam estado servindo movidos pela compaixão cristã no Afeganistão?

Nos “multiplexes” e nas sessões de diálogo de cada dia (à tarde), foram exploradas em profundidade as implicações práticas do estudo e da reflexão bíblicas da manhã. Certamente que o debate mais relevante sobre os diferentes temas não se realizava necessariamente dentro dos limites de tempo definidos no programa mas nas conversas informais fora do programa oficial. De qualquer maneira, é um fato que muita da reflexão mais rica sobre os assuntos relacionados com os problemas globais contemporâneos se dava nas sessões da tarde. Estas sessões participativas, nas quais se levavam em conta a compreensão da diversidade de perspectivas representadas; a contextualização de ideias, modelos, contatos e materiais; e o compromisso para articular planos de ação, serão a base para a segunda parte do Compromisso da Cidade do Cabo. O plano é publicar o documento de duas partes (a teológica e a prática) com um guia de estudo no fim de novembro. 

Dos vinte e dois multiplexes que se ofereceram durante o Congresso, houve especialmente três que enfocavam assuntos que poderiam ser considerados como os mais críticos para o hemisfério Sul: a globalização, a crise ambiental e a relação entre riqueza e pobreza. Estes três fatores estão vinculados intimamente entre si e, em vista do enorme impacto que produzem em milhões de pessoas no mundo das grandes maiorias, merecem muito mais atenção que receberam até o momento por parte do movimento evangélico. 

Sérias deficiências 
Segundo a definição oficial de sua missão, o Movimento de Lausanne existe para “fortalecer, inspirar e equipar a Igreja para a evangelização mundial em nossa geração, e exortar os cristãos sobre seu dever de participar em assuntos de interesse público e social”. Uma análise detalhada desta definição expõe a dicotomia que influenciou um grande segmento do movimento evangélico, especialmente no mundo ocidental: a dicotomia entre evangelização e responsabilidade social. Por causa desta dicotomia, relacionada estreitamente com a dicotomia entre o secular e o sagrado, o Movimento de Lausanne se propõe a “fortalecer, inspirar e equipar a Igreja para a evangelização” mas só “exortar os cristãos” a respeito de sua responsabilidade social. O pressuposto que está implícito é que a missão prioritária da igreja é a evangelização, concebida em termos de comunicação oral do Evangelho; enquanto que a participação em assuntos de interesse público e social — as boas obras por meio das quais os cristãos cumprem sua vocação como “luz do mundo” para a glória de Deus (Mateus 5:16) — é um dever secundário, para o qual os cristãos não necessitam ser fortalecidos, inspirados e equipados, apenas exortados. 

Na exposição bíblica de terça-feira, baseada em Efésios 2 (o segundo dia do Congresso), esclareceu-se, a partir do texto bíblico, que Jesus Cristo é nossa paz (v.14), fez nossa paz (v.15) e anunciou paz (v.17). Em outras palavras: em Cristo, o ser, o fazer e o proclamar paz (“shalom”, vida em abundância) são inseparáveis. A igreja é fiel ao propósito de Deus na medida em que ela prolonga a missão de Jesus Cristo na história, manifestando a realidade do Evangelho concretamente não apenas pelo que diz mas também pelo que é e pelo que faz. A missão integral da igreja está enraizada na missão de Deus em Jesus Cristo, missão que envolve toda a pessoa em comunidade, a totalidade da criação e cada aspecto da vida. 

A exposição bíblica baseada em Efésios 3, no dia seguinte, pôs em relevo a necessidade urgente que o Movimento de Lausanne tem de esclarecer teologicamente o conteúdo da missão do povo de Deus. Em contraste com o que se disse no dia anterior, o pregador designado para a quarta-feira afirmou que, se bem que a igreja se preocupa com toda a forma de sofrimento humano, ela se preocupa especialmente pelo sofrimento eterno e, consequentemente, está chamada a dar prioridade à evangelização dos perdidos. 

Uma séria deficiência de Lausanne III foi não dar tempo para a reflexão séria sobre o compromisso que Deus espera de seu povo em relação à sua missão. Lamentavelmente, não houve tempo para dialogar sobre o Compromisso da Cidade do Cabo, sobre o qual o Grupo de Trabalho Teológico, dirigido por Christopher Wright, tinha trabalhado por um ano com a intenção de circulá-lo no começo do Congresso. Compartilhou-se o documento apenas na sexta-feira à noite, e não foram tomadas medidas para que os participantes escrevessem pelo menos seus comentários pessoais antes do encerramento da conferência em resposta a perguntas específicas. Segundo o Comitê Executivo, não havia tempo para isso! A postura negativa assumida pelos organizadores do programa a respeito da recomendação de um grupo de participantes anciãos interessados em conseguir que todos os participantes vissem o documento como algo seu, não apenas conspira contra esse propósito. É também um sinal de que o Movimento de Lausanne está ainda muito longe de alcançar a parceria sem a qual não tem base para se considerar um movimento global. 

Em comparação com o tratamento que recebeu o documento produzido pelo Grupo de Trabalho Teológico, dedicou-se, na quarta-feira, toda uma sessão plenária à estratégia para a evangelização do mundo nesta geração — uma estratégia elaborada nos Estados Unidos baseada numa lista de “grupos de povos não-alcançados” preparada pelo Grupo de Trabalho Estratégico de Lausanne. Tal estratégia refletia a obsessão pelos números, típica da mentalidade de mercado que caracteriza um setor do movimento evangélico dos Estados Unidos. Por outro lado, segundo muitos participantes do Congresso que conhecem de primeira mão as necessidades de seus respectivos países em relação à evangelização, a lista de grupos de povos não-alcançados não fazia justiça à situação real. Curiosamente, não constava na lista nenhum grupo não-alcançado nos Estados Unidos! 

Outra deficiência de Lausanne III foi que, como destacou o Grupo de Interesse em Reconciliação, não se fez nenhuma menção oficial ao fato de que o Congresso estava sendo realizado num país que até poucos anos estava dominado pelo Apartheid e ainda sofre a injustiça social resultante desta política. Na realidade, o Congresso realizou-se no Centro Internacional de Convenções que foi construído sobre o terreno que se reivindicou com os escombros do Distrito Sul da Cidade do Cabo quando, em 1950, esse distrito foi declarado uma zona exclusiva para brancos. Consequentemente, cerca de 60 mil habitantes negros foram expulsos da área à força e seus lares foram arrasados por completo. Entretanto, os organizadores da Cidade do Cabo 2010 fizeram ouvidos surdos ao pedido do Grupo de Interesse em Reconciliação que rechaçasse oficialmente “as heresias teológicas que deram sustento ao Apartheid” e lamentasse “o sofrimento sócio-econômico que é o legado atual do Apartheid”. Alguém pode se perguntar quão sério são os líderes do Movimento de Lausanne em seu compromisso com o Pacto de Lausanne, segundo o qual “a mensagem da salvação implica também uma mensagem de juízo sobre toda forma de alienação, opressão e de discriminação, e não devemos ter medo de denunciar o mal e a injustiça onde quer que existam” (parágrafo 5). 

A parceria na missão e o futuro do Movimento de Lausanne 
Um fato que hoje reconhecem e mencionam com frequência aqueles que têm interesse na vida e missão da igreja em nível global é que, nas últimas décadas, o centro de gravidade do cristianismo se deslocou do Norte e do Ocidente para o Sul e o Oriente. Apesar disso, com demasiada frequência os líderes cristãos do Norte e do Ocidente, especialmente nos Estados Unidos, continuam considerando que eles são os encarregados de desenhar a estratégia para a evangelização de todo o mundo. Como se afirma na página sobre o “Sexto Dia – Parceria” do livro que contém a descrição detalhada do programa do congresso, “o centro da liderança organizacional, do controle financeiro e das tomadas de decisão tende a permanecer no norte e no ocidente”. 

Tristemente, o maior obstáculo para implementar uma verdadeira parceria na missão é a riqueza do Norte e do Ocidente; a riqueza que Jonathan Bonk, em seu importante livro sobre “Missions and Money” [Missões e dinheiro], descreveu como “um problema missionário ocidental”. Se é assim, e se o Movimento de Lausanne vai contribuir significativamente com o cumprimento da missão de Deus por meio do seu povo, chegou o momento de que a força missionária conectada com este movimento, incluindo seus estrategistas, renuncie ao poder do dinheiro e modele a vida missionária na encarnação, no ministério terreno e na cruz de Jesus Cristo. 

- Texto enviado pelo autor para Editora Ultimato. Traduzido por Novos Diálogos.


• René Padilla, autor de O Que é Missão Integral?, é um dos teólogos e pensadores protestantes latino-americanos mais conhecidos em todo o mundo. Nascido no Equador e residente em Buenos Aires, Argentina, é fundador e presidente da Fundação Kairós e da Rede Miqueias.

sábado, 12 de junho de 2010

Lausanne III - Entrevista com Silas Tostes




"Lausanne III procurará ser criativo no entender e comunicar da Missão Integral para os dias de hoje. Mas, nem por isso, inovará além da Escrituras. De novo, seremos lembrados da santidade, da consagração, da oração e da atuação missionária da Igreja."

Silas Tostes é o presidente da Associação de Missões Transculturais Brasileiras (AMTB). Ele fala ao Bom Líder sobre o III Congresso Lausanne que acontecerá em Outubro, na Cidade do Cabo, África do Sul. Reunirá mais de 4000 participantes de aproximadamente 200 nações e territórios.
Em 1974, na cidade Lausanne, Suíça, 2300 pessoas de 150 nações se reuniram para um Congresso Internacional de Evangelização Mundial. Desse congresso surgiu um Pacto entre os evangélicos para efetuar a Grande comissão. Billy Graham e John Stott apóiam este Pacto.
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Em 1989, 3.600 líderes de 190 nações participaram de Lausanne II em Manila, Filipinas. O resultante Manifesto de Manila reafirmou e expandiu o Pacto de Lausanne e o chamado para "Proclamar a Cristo até que Ele venha".

Leia o Pacto de Lausanne clicando aqui.

ENTREVISTA

Bom Líder - Qual a importância do Terceiro Congresso Lausanne para a Igreja Global?

Silas Tostes - Ocorrerá 21 anos após o último. O II Lausanne foi em 1989 nas Filinas. De lá para cá, houve muitas mudanças no cenário internacional. A China é cada vez mais potência. Os movimentos religiosos radicais, de várias expressões religiosas, proliferam por toda parte. O Ocidente é cada vez mais pós-moderno e pós-religião. A Igreja Brasileira cresce muito numericamente, mas as evidências do bom discipulado não é visto. Preocupa-se cada vez mais com os problemas ecológicos e por aí vai. Lausanne III se proporá a nos ajudar ouvir Deus para o contexto atual, como relacionar nossa atuação integral diante dos desafios de hoje, e; como fazer tudo isso de forma criativa para os nossos dias, com obediência que agrada a Deus. Nesse caso, Lausanne III preocupa-se em ser relevante para a Igreja de Jesus em todo o mundo, pois, receberá 5 mil pessoas de vários países.

Bom Líder - Quais as conseqüências que a Igreja no Brasil pode esperar em função do Congresso?

Silas Tostes - Quem sabe o grupo de convidados, formadores de opinião que são, consigam trazer do Lausanne III o mesmo espírito de serviço, amor e transformação que esperamos encontrar e vivenciar no congresso. E assim, quem sabe, poderiam a partir de suas vidas e atuação conjunta, influenciar aqueles que não puderam estar presentes, ou, que não entendem a Missio Dei nas mais diversas formas de atuação de Deus no mundo por meio de Sua Igreja. Lausanne III procurará ser criativo no entender e comunicar da Missão Integral para os dias de hoje. Mas, nem por isso, inovará além da Escrituras. De novo, seremos lembrados da santidade, da consagração, da oração e da atuação missionária da Igreja. Bem, o que isso tem a ver com a Igreja Brasileira? Tudo, não é? Se a mesma foi comprada pelo sangue de Cristo.

Bom Líder - A Igreja que chegou ao século XXI consegue responder aos desafios deste século?

Silas Tostes - Alguns desafios são respondidos somente pela Igreja, por exemplo, interceder pelo mundo. Há desafios que a Igreja precisa responder envolvendo-se na sociedade com a sociedade, quer sejam nas áreas: saúde, educacional... ou seja, é ser sal e luz no mundo. E, em vários casos, até com o mundo, pois ainda que o mesmo esteja nas nas trevas, poderá ser iluminado pela luz de Jesus na Igreja, conforme essa se relaciona com os vários segmentos da sociedade. Em parte, a Igreja consegue responder aos desafios, apesar de algumas áreas fracas. Poucos evangélicos são autoridades quanto aos problemas ecológicos de hoje, porém, há aqui e ali, mesmo que em números menores, especialistas evangélicos em outras áreas. Esses poderão nos ajudar a sermos mais relevantes no nosso contexto.

Bom Líder - Como está a participação missionária do Brasil na Evangelização Mundial?

Silas Tostes - É difícil responder 100%. Veja que muitos brasileiros estão no mundo enviados por suas igrejas. Vários deles são bons. Outros poderiam ter sido melhor preparados. Como há muita independência na atuação missionária, e como não temos como pesquisar todas as igrejas locais do Brasil, de fato, não sabemos o número total de missionários brasileiros no mundo. Há também brasileiros imigrantes, que depois tornaram-se missionários e não aparecem nas estatísticas. Tem missionários neo-pentecostais, como os pastores da IURD no exterior, que também não aparecem nas estatísticas. Mas os missionários das agências filiadas na AMTB juntos, representam 4 mil missionários em áreas transculturais.

Bom Líder - O missionário desta era está mais qualificado para a evangelização?

Silas Tostes - Se pensar nos avanços da linguística, da antropologia missionária, do uso da informática em traduções da Bíblia e muitas outras áreas, nas técnicas de comunicação, na abundância de pesquisas, nos muitos cursos de línguas, nos muitos livros, nos muitos seminários, nos cursos universitários... perceberemos que há melhor preparo hoje a disposição. Não quer dizer que o mesmo é utilizado. Há pessoas que vão aos campos sem se prepararem. Contudo, nada disso substituirá nossa vida com Deus, o ouvir a Sua voz, sermos espiritualmente capacitados e guiados por Ele.

Bom Líder - Qual o maior desafio da Igreja Brasileira neste século?

Silas Tostes - Se pensarmos naqueles que nunca ouviram o Evangelho e as restrições existentes, estamos pensando em mais de 2 mil povos. Se pensarmos nas restrições do mundo islâmico. Se pensarmos na proliferação da promiscuidade e imoralidade, também via internet. Se pensarmos na falta de atuação social e política da Igreja, ou na atuação corrupta dos chamados evangélicos. Se pensarmos nos novos valores morais de nossa sociedade quanto a namoro, sexo, casamento, aborto. Se pensarmos no crescimento numérico da Igreja por meio de programas na televisão, mas de baixa qualidade bíblica. Se pensarmos numa atuação constantemente independente entre os grupos evangélicos. Se pensarmos no baixo nível teológico dos pastores. Se pensarmos na falta de atuação da Igreja entre os excluídos. Se pensarmos na nossa necessidade de estarmos bem preparados para atuar com nossas profissões e negócios no serviço a Deus e à sociedade. Se pensarmos no uso das artes para louvor a Deus, para comunicação do Evangelho, ou para resgate de cidadania. Se pensarmos... qual seria o maior desafio? Certamente que será apenas este: sermos um, como crentes, para que o mundo creia em Jesus.

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