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sexta-feira, 30 de setembro de 2022

13 Anos do blog velharias do Luís ou um relógio francês do século XIX



Esta imagem de um velho relógio, que estava na sala da casa de Chaves dos meus avôs paternos representa bem o espírito deste blog e é muito adequada para assinalar o seu 13º aniversário.

Um relógio simboliza a passagem do tempo, aquele fenómeno, que transforma os vulgares objectos do quotidiano em velharias ou antiguidades e que, por outro lado apaga progressivamente as memórias das gerações que nos antecederam. Mas um relógio representa igualmente o futuro e tudo aquilo, que poderemos ainda fazer e realizar na nossa vida.

O meu avô paterno gostava muito de relógios. Era um homem pontual e profundamente rotineiro, que todos os dias fazias as mesmas coisas, tomava café, lia o jornal na Sociedade de Chaves, jantava e almoçava sempre às mesmas horas. Creio que era um pouco como o filósofo Emannuel Kant, do qual se dizia, que os habitantes de Konisberga podiam acertar um relógio quando o viam passar pela rua. Individualidades com este temperamento precisam de viver com relógios.

Eu herdei o lado mais distraído da família da minha mãe, uma gente cujas distrações podiam chegar atingir proporções catastróficas, perdiam tudo e esqueciam-se de tudo. Para combater e regular essa hereditariedade, vivo tal como o meu pai e o meu avô paterno, segundo rotinas e rituais. De outra forma saio de casa, e deixo a chave na fechadura ou quando vou pagar uma compra, esqueço-me do cartão de multibanco na loja.

Talvez por esta razão, quando o meu pai morreu escolhi para mim este relógio, que simboliza temperamento do meu pai e do meu avô. Embora não apresente nenhuma marca de fabrico, julgo que será seguramente uma peça francesa da segunda metade do século XIX, o chamado horloge comtoise, com o mostruário esmaltado integrado numa estrutura de latão doirado, formando uma única peça. Estes relógios eram fabricados industrialmente na região do Franche-Comté, isto é, no Franco Condado, daí a designação horloges comtoises e foram muito populares em França nessa época e exportados para o mundo inteiro.


A caixa contendo o movimento


O movimento ou mecanismo do relógio

Normalmente consistiam numa simples caixa de metal contendo o movimento do relógio, à qual era aplicada uma chapa de latão com o mostruário e a moldura decorativa e esta ultima característica, é que os distingue dos relógios do período anterior, 1815-1840, em que o mostruário e a moldura decorativa eram peças distintas. Em França, o assunto está bem estudado e até possível datar este exemplar, como tendo sido fabricado entre 1840 e 1913, segundo informações da página Quai-des-horloges.

A datação dos relógios, segundo o site https://quai-des-horloges.com/blogs/infos/comment-dater-une-horloge-comtoise

Se fizermos uma pesquisa no no Google pela expressão Horloge comtoise xixe siècle estampée en laiton e aparecem-nos à venda dezenas de relógios deste tipo. Encontrei um igual à venda e-bay, mas só com a frente, uma chapa com o mostruário integrado num decorativo latão doirado, destinada a ser aplicada sobre a caixa contendo o movimento ou mecanismo do relógio. A peça do E-bay está marcada Paintin-le-conte, à Chateau Giron, na Bretanha, mas essa inscrição reporta-se à casa, que revendia peças produzidas pelas fábricas do Franco-Condado. Aliás, aparecem relógios comtoises com inscrições de casas comerciais de todas as regiões de França.

Relógio encontrado à venda no e-bay

Estes relógios eram destinados a ser postos numa parede e nas mais das vezes numa estrutura comprida de madeira, os chamados relógios de caixa alta, como são conhecidos em português. Este relógio que pertenceu aos meus avós estava também numa caixa, mas que não era de época. Era uma peça inspirada no século XVII, estilo que os meus avós adoravam, em madeira de castanho escurecida a sugerir pau-santo e decorada a ferragens douradas. A caixa foi provavelmente encomendada a um marceneiro em Braga nos anos 30 ou 40 do século XX para colocar este relógio, que os meus avôs compraram em segunda mão ou herdaram.

Transporte da caixa do relógio no dorso do meu fiel Rocinante

Quando o meu pai desfez a casa dos meus avôs em Chaves, trouxe o mecanismo para Lisboa e mandou transportar a caixa do relógio para Vinhais onde esteve décadas, esquecida num quarto. Esta Primavera fui a Vinhais com o meu amigo Manuel e transportamos a caixa do relógio até ao Alentejo, onde o Manel a restaurou.

Agora, estou só à espera de comprar um apartamento maior para voltar a juntar o mecanismo do relógio e a sua caixa e de alguma forma reconstituir o ambiente da casa de Chaves, tendo perto de mim alguma coisa do espírito pontual do meu avô Silvino.

Todos os seguidores deste blog, estão pois convidados para o próximo aniversário do blog e talvez para o ano já possam ver a imagem do relógio na sua  caixa.


Alguns ligações consultadas: 

https://www.meubliz.com/reconnaitre_une_horloge_de_parquet/

https://quai-des-horloges.com/blogs/infos/comment-dater-une-horloge-comtoise


sexta-feira, 9 de julho de 2021

Heloísa no Monte Paracleto: um relógio francês da primeira metade do século XIX



Como já aqui contei, o meu amigo é um comprador apaixonado de relógios de pêndulo, esses mecanismos que antigamente existiam em todas as casas ricas ou burguesas. Já no século XX, mesmo aqueles que viviam remediadamente ambicionavam ter um e poupavam os seus tostões para adquirir um relógio da Boa Reguladora.

Este relógio que o Manuel comprou na Feira de Estremoz foi concebido para estar no topo de uma chaminé ou de uma cómoda. Desde logo nos pareceu que seria uma coisa do século XIX e obviamente francesa, já que nesse período a França dominava o mercado da produção de relógios de luxo de parede ou chaminé. E este é realmente um relógio luxuoso, todo feito em bronze, num magnífico dourado.



Contudo não apresentava qualquer marca e o próprio significado da dama elegantemente vestida, que se agarrava a uma cruz não era claro. Poderia eventualmente ser uma Maria Madalena arrependida, mas no século XIX os fabricantes de relógios franceses e o público, que os comprava, evitavam os temas declaradamente religiosos. Se pesquisarmos no google por pendule francaise XIX siécle vamos a ter a toda uma série de páginas de antiquários e leilões e os relógios à venda são inevitavelmente decorados com temas da mitologia greco-romana, alegorias igualmente de inspiração clássica ou então cenas galantes ao gosto de Watteau. Lembrei-me que poderia ser uma alegoria de uma das virtudes teologais, mais exactamente a fé, que costuma ser representada por uma senhora como a cruz. E com efeito encontrei um ou outro relógio com representações das virtudes cardeais ou alguma das sete virtudes, mas normalmente a dama, que simboliza a fé não aparece representada em trajes de corte e falta-lhe o livro, representando a Bíblia.

Relógio à venda na https://www.piguet.com/en/lots/1071806


Embora não entenda nada da parte mecânica dos relógios, como objectos decorativos encantam-me e por essa razão lancei-me à procura nos sites de venda on-line de um relógio que representasse uma dama abraçada a uma cruz e de facto encontrei modelos quase idênticos. O primeiro no leiloeiro Piguet, Hôtel des Ventes, de Genebra, marcado no mostrador como sendo de Claude Barthele , de Grenoble, mas esta marca, poderá reportar-se ao esmaltador, ou mais provavelmente à ourivesaria, que o comercializou. Segundo este leiloeiro, o movimento do relógio, ou melhor o mecanismo foi feito em Paris, no Grange et Bétout à Paris, e apresenta também a seguinte inscrição Medaille d'or Pons 1827. No entanto, é mais provável que o Grange et Bétout tenha sido o ebanista, que executou os embutidos da base em madeira e o Pons, deve referir-se certamente ao reputado relojoeiro Honoré Pons, 1773–51, que chegou a receber a legião de honra em 1819 bem vários outros prémios pelo seu trabalho. O referido leiloeiro não esclarece quem representa a dama agarrada à cruz e data do relógio do período da restauração (1814-1830)

Enfim, começava a acreditar que o relógio do Manel seria do prestigiado Relojoeiro Honoré Pons e continuei à minha procura na net e encontrei mais outro relógio semelhante no e-bay, mas sem qualquer marca e também sem nenhuma identificação acerca da dama piedosa.

Madame de Sevigné, relógio de Monteil, Toulouse


Achei então que já tinha esgotado a informação disponível na internet e passei à procura de informações mais sérias e consistentes nos livros e na encontrei a obra La pendule française : des origines a nos jours / Tardy ; H. Levasseur. - Paris : Tardy, 1969 na biblioteca do Museu Nacional de Arte Antiga, que me esclareceu mais alguns aspectos sobre este relógio. Na página 454, do segundo volume desta obra, encontrei outro relógio semelhante a este, com o mecanismo assinado pelo relojoeiro Encely de Toulouse, datado do período da Monarquia de Julho, o chamado estilo Luís Filipe (1830 a 1848) mas desta vez a jovem elegante e piedosa, que se agarra à cruz é identificada como Heloísa, no Monte Paracleto. Além dos temas da antiguidade clássica a partir de mais ou menos 1830, a relojoaria francesa assimilou os valores do movimento romântico, introduzindo assuntos históricos inspirados na idade média e na literatura. Apareceram então relógios neogóticos, representações em vulto da escritora Madame de Sevigné, da Rainha da Escócia, Maria Stuart, das figuras do romance Paulo e Virgínia e ainda desta Heloísa, que com o seu amado Abelardo viveram no século XII um dos romances mais famosos da história. 

Heloísa no Monte Paracleto, assinado por Encely,  Toulouse

Não consegui exactamente perceber que momento da vida de Heloísa este relógio representa, mas encontrei uma estampa num libreto de uma ópera de Donizetti, que não anda muito longe desta cena em bronze.



Sabendo então, que este relógio representava o desespero da pobre Heloísa fiz mais uma busca pela internet e encontrei outro relógio semelhante à venda no Canadá, nas Antiquités Bolduc, mas desta vez com o mecanismo assinado pelos Japy Freres, uma das grandes casas de relojoaria francesa.

Relógio de Japy Freres à venda nas Antiquités Bolduc


Em suma, é quase impossível atribuir este relógio do Manel a este ou aquele fabricante. Nesta época, algures no segundo quartel do século XIX, para montar um relógio concorriam vários mestres ou fábricas. Em primeiro lugar o fabricante do mecanismo que executava o relógio propriamente dito e em segundo o fabricante da caixa do relógio. Se esta fosse de cerâmica poderia ser uma encomenda a Sèvres ou um fabricante de porcelana da cidade de Paris. Se o relógio estivesse numa estrutura em madeira, o autor desta seria uma oficina de ebanistas, que realizaria embutidos preciosos. Finalmente, se fosse em bronze, encomendava-se as esculturas a uma metalurgia, que a partir de um molde, fundiria a peça e faria os acabamentos à mão, mediante o uso de um cinzel. Creio que relógios inteiramente feitos numa fábrica só irão fazer a sua aparição na segunda metade do XIX. Ainda assim, recordo-me de há pouco tempo visitar uma das lojas de ferragens mais antigas de Lisboa, a Casa Achilles, na Rua de São Marçal e tinham ainda à venda estruturas de relógios neobarrocos, numa liga qualquer de latão, prontos para serem vendidos a qualquer relojoeiro ou ourives, que nele quisesse instalar um mecanismo.

Em suma, o mais natural, é que no segundo quartel do século XIX tenha havido uma metalurgia qualquer em França, que executava com grande qualidade estas esculturas em bronze, que eram depois vendidas para vários relojoeiros, como os Japy Freres, o Encely de Toulouse, Honoré Pons ou ainda outros e o público burguês abastado, apreciaria ter nas suas cómodas ou chaminés estas representações de um momento dos amores de Heloisa e Abelardo.



Alguma bibliografia e links consultados:

La pendule française : des origines a nos jours / Tardy ; H. Levasseur. - Paris : Tardy, 1969



quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Um pesado relógio burguês


Talvez nesta época, quem que passagem do ano se aproxima e em que sentimos que o tempo passa sempre demasiado depressa, seja adequado mostrar no blog este relógio francês, que o meu amigo Manuel comprou recentemente. 

É um objecto pesado, opulento, destinado a decorar uma casa burguesa do passado, num tempo em que a decoração de interiores se caracterizava por uma ornamentação excessiva e em que se queria mostrar riqueza, mas também respeitabilidade. E este último sentimento tão burguês alcançava-se usando objectos de decoração e mobiliário, que fizessem referência ao passado, aos grandes estilos artísticos, como a Renascença, o Luís XIII, o Luís XV, o Luís XVI ou Império. No fundo os burgueses queriam uma casa com aquilo que os aristocratas tinham de sobra e a eles lhes faltava, um passado. 

Medaille d’Argent, 1855. Vicent & Cie

Numa primeira abordagem, quando olhamos para este relógio e pensamos de imediato, isto é uma coisa da segunda metade do século XIX, provavelmente no tempo em que Napoleão III era imperador dos franceses (1852-1871). Com efeito, quando o meu amigo Manel abriu o relógio para o restaurar, o mecanismo apresentava uma marca incisa do fabricante, com uma data, 1855. Mais precisamente a inscrição  Medaille d’Argent, 1855. Vicent & Cie. Este rótulo significa que o seu fabricante, a companhia francesa a Vicent & Cie ganhou uma medalha de prata na Exposição Universal de 1855 de Paris, que foi precisamente inaugurada por Napoleão III.

Napoleão III inaugura a Exposição Universal de Paris em 1855

Porém, olhando mais atentamente o mecanismo, encontra-se outra marca incisa, com a data de 1915. Portanto este relógio é muito posterior ao chamado período do II Império (1852-1871). Quando foi fabricado já se combatia nas trincheiras em França.

Data de 1915

Este pormenor é muito interessante pois desfaz-nos um bocadinho o conceito de periodização dos estilos artísticos. Nas escolas ou nos livros aprendemos que a Arte Nova começou em 1900 e o Estilo Arte Deco em 1925. Ficamos com a falsa ideia que a partir de 1900 todos os objectos decorativos apresentam as linhas fluidas Art Nouveau e que a partir de 1925, os relógios, as mobílias e os candeeiros são em Art Deco. Na verdade, os estilos revivalistas do século XIX continuaram a ser usados pelo século XX fora e as famílias da boa burguesia preferiam sempre adquirir um canapé ao estilo Luís XVI, do que uma moderníssima cadeira Barcelona, desenhada por Mies Van der Rohe.

Este objecto é o chamado relógio de chaminé, designado pelos franceses pendule de Paris e como o próprio nome indica destinava-se a ser colocado sobre a chaminé da sala, mas também por vezes numa cómoda, acompanhado de outras peças decorativas, como castiçais, jarrões da China ou figuras em porcelana, mas sempre em número impar. Os principais fabricantes franceses destes relógios foram Jappy, Marty, Pons e precisamente Vincenti, companhia fundada em 1823 por Jean (Ghjuvanni-Giovanni) Vincenti e que se manteve em actividade até 1923.



As formas do relógio inspiram-se na escultura clássica da antiguidade e são representações alegóricas muito caras a toda a arte europeia. A jovem envergando uma veste inspirada na Grécia segura um martelo numa mão, na outra, um escopro e um busto e será muito possivelmente uma alegoria à arte da escultura. Os meninos ou putti, representarão a música e o desenho. Serão talvez as artes que estiveram envolvidas na concepção do relógio, o desenho, para o mecanismo e a forma, a escultura para as figuras e a música para as suas badaladas. 

Este relógio é sem dúvida um objecto fora de moda, que se encaixa muito neste blog de velharias, escrito por mim, que não tenho muita paciência para os temas em voga.


Alguns links e bibliografia consultados: 

https://www.proantic.com/display.php?mode=obj&id=548481

https://fr.wikipedia.org/wiki/Pendule_(horlogerie)

https://fr.wikipedia.org/wiki/Exposition_universelle_de_1855

http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/btv1b53024709w/f1.item

Le XIXe siècle français: Paris. Hachette, 1957

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Um relógio Waterbury


O meu amigo Manel tem a mania dos relógios antigos. Nas duas casas dele, há relógios de todos os tipos e feitios e por toda a parte, nas salas, nos quartos, nos corredores e sei lá onde mais. Quando tocam, há uma verdadeira sinfonia de badalos, uns que parecem sinos de igreja, e outros com toques subtis, próprios de casas de gente educada e discreta. Talvez esta mania dos relógios se explique por um certo gosto pela rotina, que marca a personalidade do Manel. Com efeito, estes instrumentos definem metodicamente um quotidiano, que se repete dia após dia e cujos passos decorrem às mesmas horas. Porém, desconfio que a verdadeira paixão dele pelos relógios tem a ver com os mecanismos e os segredos das engrenagens que os fazem funcionar. Com efeito, mal compra um destes objectos, o Manel, desmonta-os integralmente, repara o mecanismo, compra as peças em falta nas feiras de velharias ou nos poucos relojoeiros, que restam ainda na cidade, restaura a caixa de madeira e tudo aquilo lhe dá uma enorme satisfação.

Um dos relógios, que mais acho graça da colecção do Manel é um Waterbury, do tipo relógio de capela, aquilo que os americanos designam por Sharp Gothic. Tem ainda a etiqueta original do fabricante, colada por dentro da caixa, o que nos permite datar o relógio aí por volta da década de 70 do século XIX.
 
A etiqueta original permite datar o relógio por volta por volta da década de 70 do século XIX.
Há um site só dedicado à Waterbury, onde se ensina a datar os relógios pela etiqueta original de fabrico, cujo endereço disponibilizo http://www.antiquewaterburyclocks.com/Waterbury-Clock-Labels.php, pensando ser útil às pessoas, que lá em casa tem relógios desta marca, tão populares nas Américas e na Europa no último quartel do século XIX, já que nesse período, os fabricantes americanos invadiram o mercado dos relógios de parede ou de mesa, com os seus produtos baratos, produzidos industrialmente.
 
 
Mas o mais encantador deste relógio é que tem uma espécie de decalcomania, colada por dentro no vidro, com uma representação de uns meninos jogando à cabra-cega. Os petizes estão vestidos à maneira do século XVIII e recordam algumas das gravuras que Bartolozzi executou a partir dos desenhos de William Hamilton (1751–1801).
 
Blind man's Bluff de William Hamilton (1751–1801). British Museum
Contudo, o mais provável é que a fonte de inspiração seja a cabra-cega, um cartão que Francisco Goya executou em 1789 para uma tapeçaria. Os meninos descrevem uma roda à volta da menina vendada, numa composição muito semelhante à La gallina Ciega de Goya.
 
.A cabra-cega de Goya. Museu do Prado. Foto wikipedia

Creio que na casa ou nas casas por onde este relógio andou, terá feito  as delícias de gerações de crianças. Talvez imaginassem, que abrindo a porta de acesso ao mecanismo, houvesse lá dentro um mundo em miniatura, onde viveriam os meninos que jogavam à cabra-cega.
 
 
 

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Relógio de bolso Billodes

Montre de poche en argent Billodes

Este relógio de bolso em prata foi-me oferecido por um amigo, o Vasco, que conhece este meu gosto por coisas antigas e com efeito, estes objectos, que medem o tempo, que se desfaz a cada instante, encaixam-se muito bem numa casa cheia de velharias, tornadas inúteis por esse mesmo tempo.

Billodes não é uma marca conhecida de relojoaria. Na verdade, este relógio de bolso foi produzido pela fábrica do senhor Georges Favre-Jacot, na localidade suíça de Locle, na rua de Billodes, que se tornou célebre pela fabricação de uma marca de prestigio e que ainda hoje existe, a Zenith.


Este Senhor Georges Favre-Jacot (1843-1917) fundou a primeira fábrica moderna de relógios em 1865, em Locle, na Suíça. Até então, no fabrico de um relógio participavam 4 ou 5 artificies diferentes, cada um com a sua oficina numa parte distinta de uma cidade. Existia o ourives, que executava a caixa de prata, o marceneiro a quem cabia fazer a caixa em madeira, o cinzelador, que trabalhava os bronzes, o esmaltador para o mostrador, o relojoeiro propriamente dito e ainda um desenhador, autor da concepção geral da obra. Na moderna fábrica do Senhor Favre-Jacot, todos estes ofícios foram reunidos no mesmo espaço e na mesma empresa e começaram a produzir relógios numa escala industrial, que rapidamente conquistaram todos os mercados. Contudo, esta produção industrial da Georges Favre-Jacot pautava-se sempre por critérios de grande qualidade e precisão. A modernidade desta fábrica manifestava-se também na utilização da publicidade, como também pela preocupação da internacionalização dos seus produtos. A Georges Favre-Jacot apresentava-se sempre nas grandes feiras mundiais, como a na grande exposição universal de Paris de 1900, onde os seus produtos foram premiados e abriu sucursais em Paris ou Varsóvia, tinha negócios frutuosos na América e concebia relógios destinados a mercados específicos, como o Império Otomano ou Russo. As caixas dos seus relógios em prata eram concebidas por artistas como Georges Mucha  ou René Lalique, porque o Senhor Georges Favre-Jacot foi um dos membros fundadores do Werkbund na Suíça de expressão francesa. Este movimento pretendia conciliar indústria, modernidade e estética e aplicar a arte aos produtos industriais.


A decoração floral do relógio é de inspiração arte nova. Georges Favre-Jacot acreditava que os produtos industriais podiam ser ao úteis, precisos e ao mesmo tempo estéticos.

Normalmente os relógios eram comercializados com a marca Georges Favre-Jacot, mas para o mercado de exportação usavam nomes como Billodes ou Serkisoff. A partir de 1898, a marca Zenith começa também a ser usada progressivamente, até que a partir de 1911 torna-se o nome oficial da fábrica.


Quanto, a este meu relógio em particular, ele ostenta no interior uma referência ao prémio na exposição universal de Paris de 1900, portanto foi produzido depois de 1900.



Apresenta na tampa interior da caixinha a marca de punção suíça, usada entre 1880-1933, isto é, uma figurinha incisa, representando um galo montez ou tetraz. Portanto, o relógio terá sido fabricado depois de 1900 e antes de 1933.
A marca de punção suíça, usada entre 1880-1933


O número 0,800 refere-se à percentagem de prata usada, que obedecia à norma estabelecida.

Tabela retirada de https://sites.google.com/site/zenithistoric

Quanto são número de série ou movimento, uma espécie de bilhete de identidade do mecanismo, é o 1282097. Procurei numa tabela da Zenith, que equipara os números do movimento de série com os anos do início de fabrico, mas o ano de 1909, que corresponderia aos números 1200000 está em branco.


O número de série ou movimento do mecanismo é o 1282097

Enfim, presumo que o meu relógio terá sido executado entre 1900, ano da exposição universal de Paris e 1911, data em que se passa a usar em exclusivo a marca Zenith.


Algumas ligações consultadas:

https://fr.wikipedia.org/wiki/Georges_Favre-Jacot

https://sites.google.com/site/zenithistoric/

http://www.zenith-watches.com/fr_fr/icones/georges-favre-jacot

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Relógio de bolso de um ano fatídico: 1914

Por vezes, simples peças antigas, com um valor comercial mediano são símbolos de acontecimentos dramáticos, que mudaram o curso da humanidade. É o caso deste relógio de bolso de prata, que aparentemente nada o distingue de muitos outros relógios de bolso, tão comuns entre os cavalheiros do mundo ocidental, ao longo do século XIX e inícios do XX.

É certamente de origem helvética, o que não tem nada de extraordinário, porque neste período os relojoeiros suíços estabelecidos maioritariamente, no cantão de Genebra dominavam já o mercado mundial deste tipo de relógios. É, também, um modelo que encontramos à venda no e-bay ou nas feiras de velharias (centenas e centenas de exemplares), mas de fabricantes diferentes.
A marca de punção suíça, o galo montez ou tetraz 
Contudo, são as várias marcas que ostenta, que fazem deste relógio um caso pouco diferente. Como já referi, o relógio é certamente de fabrico suíço porque dentro da caixa, apresenta uma marca de punção suíça, usada entre 1880-1933, isto é, uma figurinha incisa, representando um galo montez ou tetraz. Para quem não saiba, as marcas de punção são sinais incisos feitos por um oficial de um organismo governamental ou pelo menos com funções normativas, cuja missão é verificar a qualidade da prata produzida pelos ourives.
Marcas de punção suíças usadas entre 1880-1933. http://www.vintagewatchstraps.com/swisshallmarks.php
No caso do meu relógio, a percentagem de prata obedecia à norma estabelecida, 0,800 e, consequentemente, o oficial fez a marca do contraste com um punção. Embora o mecanismo não apresente nenhum número, num fórum de relógios em que mostrei esta peça, afiançaram-me que era tipicamente suíço.

A percentagem oficial de prata: 0,800
Já a marca do mostrador, Gravina é um mistério. Pesquisei no Google pelos termos Gravina pocket watch, Gravina montre de poche, Gravina relógios de bolso e não encontrei nenhuma relojoaria suíça com esse nome. O único resultado que me apareceu sempre foi o de uma de uma joalharia Gravina, no Paraná, Brasil, já centenária, fundada em 1906, por um senhor austríaco, Nicolau Gravina. Coloquei a hipótese de se tratar de um relógio suíço comercializado por uma joalharia brasileira, a qual colocou no mostrador a sua marca. Este fenómeno é muito comum também aqui em Portugal e encontramos vários tipos de relógios com mecanismos suíços, americanos ou ingleses, com marcas de ourivesarias do Porto ou Lisboa.
Relógio de bolso marca Gravina

Entrei então em contacto com a Joalharia Gravina, no Paraná, que ainda está na posse da mesma família e um dos descendentes confirmou-me amavelmente, que venderam relógios comercializados com a marca Gravina, mas não tem qualquer informação para um período tão recuado.

No verso, o relógio apresenta uma inscrição personalizada em português, isto é, alguém mandou o ourives gravar as iniciais S.H.E., seguidas da expressão Prémio de Estudo 1914, e, ainda um monograma com as referidas iniciais. Portanto, este relógio foi oferecido em 1914 como prémio a um jovem que se distinguiu nos estudos.
 
Conversei com o meu amigo Vasco, que me ofereceu este relógio, uma herança familiar, mas ele não se lembra de nenhum antepassado cujo nome correspondesse as estas iniciais. 

Restaram-me então conjecturar histórias à volta do relógio. Engendrei uma história romântica em que um titio português enriquecido no Paraná, oferecia este relógio suíço a um sobrinho querido, como prémio dos seus resultados escolares brilhantes, mas a hipótese caiu por terra, pois não consegui provar que este relógio tenha sido comercializado pela joalharia Gravina. 

Ainda assim, 1914 foi o ano em que começou a primeira guerra mundial e pude imaginar que o jovem promissor, a quem foi oferecido este relógio, morreu prematuramente nos campos de batalha da Flandres. Mas, uma coisa é certa, o jovem estudante promissor de 1914 não pode usar este belo objecto de prata nas trincheiras, porque para quem estava deitado, com uma espingarda na mão, era impossível tirar o relógio do bolso, sem se levantar, e arriscar-se a apanhar um tiro. Por essa razão, durante primeira guerra mundial, os relógios de pulso generalizaram-se entre os combatentes e os relógios de bolso começaram a passar irremediavelmente de moda.
 
 
Aditamento: Depois da publicação deste post, o amigo que me ofereceu o relógio, o Vasco identificou o monograma como correspondendo às iniciais de um tio seu, Humberto Oliveira Barbudo (H.O.B.) nascido em 1904 e que à época deste relógio teria 11 anos. Nesse caso, é mais provável que as iniciais S.H.E. correspondam ao nome de quem ofereceu o relógio e o monograma a se reporte ao nome do jovem estudioso. Enfim, perdeu-se em ficção, ganhou-se em verdade.
 
 

segunda-feira, 28 de março de 2011

Relógio de C. Detouche de Paris ou o estilo Segundo Império

O Manel é um comprador compulsivo de relógios antigos. Talvez por ser engenhocas e meticuloso sinta atracção por estes mecanismos de precisão. E de facto, o nosso amigo ganha uma vida nova quando abre a caixa de um velho relógio e tem a oportunidade de desmontar tudo, voltar a montar, limpar as madeiras e voltar a pô-lo como novo.

O Manel acedeu mostrar aqui no blog um relógio da sua colecção, que pela sua elegância e distinção é um dos meus preferidos.


Está assinado no mostrador, C. Detouche, Fseur. DE S.M. L'EMPEREUR, PARIS. O que quer dizer, que foi construído por Constantin Louis Detouche (1810-1889), em Paris, fornecedor do imperador, que é obviamente Napoleão III, chefe de estado da França, entre 1852-1870.

Na máquina, apresenta outra vez a marca do fabricante, com a licença oficial e a morada. C. DETOUCHE; BREVETÉ S.G.D.G. 228-230 R. St. Martin, Paris

Por baixo um dos prémios que o fabricante deve ter ganho: "Medaille de Bronze, S. Marti et Cie


Este Constantin Louis Detouche, que aos 10 anos já trabalhava como relojoeiro, em 1825 estabeleceu-se na Rua S. Martin em Paris, onde ficou até à sua morte. Ganhou prestígio neste ofício e estabeleceu laços próximos com outros grandes mestres relojeiros do seu tempo como Jacques François Houdin e o genro deste, o famoso Jean Eugène Robert-Houdin (1805-1871), o grande construtor de autómatos.

O nosso Detouche não se limitava a reproduzir o que os seus mestres lhe ensinaram e foi um profissional muito inovador, com Jean Eugène Robert-Houdin executava os autómatos concebidos por ele e os dois juntos desenvolveram um dos primeiros relógios de pulso eléctricos. Aliás Constantin Louis Detouche interessou-se particularmente pela electricidade, uma tecnologia inteiramente nova e apaixonante neste século XIX.


Em termos de datação da peça, O Manel fez um estudo minucioso. Pelo tipo de escape (a roda dentada que se vê), é posterior a 1849/50, período em que Achille Brocot apresentou pela primeira vez esta peça.

Como se refere ao imperador, Napoleão III, terá que ser datado obrigatoriamente entre 1852-1870.Por último, no relógio refere-se uma Medaille de Bronze, S. Marti et Cie. Ora sabendo nós que o Detouche ganhou duas medalhas de Ouro, uma Besançon em 1860 e outra em Londres em 1862. Então o relógio é logicamente anterior a 1860, pois o nosso Detouche não iria omitir os galardões em ouro se os já tivesse ganho na altura. Em suma esta peça foi executada muito seguramente entre 1852-1860

Estes relógios franceses em pedra negra estavam muito na moda na época e destinavam-se a ser colocados em cima duma chaminé de um quarto, juntamente com outros bibelots, normalmente formando um número impar. Por exemplo, um esquema do género, um relógio ao centro, ladeado por dois castiçais e duas jarras. Para os fogões das salas de receber normalmente preferiam-se relógios mais espaventosos que este, com muitos dourados e estatuetas alegóricas.


Vista de um salão segundo Império por Gustave Mureau
Com um tique-taque e umas badaladas muito distintos, este relógio faz parte de um estilo que ficou emblemático em França e naturalmente no resto do mundo, pois no século XIX, Paris ditava as modas. É o chamado estilo Napoleão III ou Segundo Império, que designa de uma forma genérica as modas de decoração de interiores da segunda metade do século XIX.



Apartamentos de Napoleão III

É um período de grande riqueza industrial para a França. A grande burguesia guindou-se para o lugar da antiga aristocracia. Faltava-lhes é certo o gosto refinado desta última, mas tinham imaginação sem limites, prazer em viver e um gosto muito ecléctico. Todos os estilos estavam na moda. Mandavam-se executar mobílias de jantar à moda da Renascença. As cadeiras góticas eram o máximo e a Imperatriz Eugénia de Montijo popularizou por toda a França os móveis Luís XVI, que adorava, em particular as versões mais femininas do Petit Trianon, que encomendas pela própria Maria Antonieta.


O Salão da Imperatriz Eugénia em Saint-Cloud
No entanto, este gosto pelo passado, não era um coleccionismo de antiguidades, que se traduzia na procura de originais de época. As pessoas queriam cópias dos móveis antigos, mas modernizados e muitas vezes na mesma peça misturavam um e outro estilo sem qualquer pejo. Há uma proliferação de móveis de todos os estilos históricos, mas são cópias sem grande respeito, até porque já são feitas segundo processos mais mecanizados.


Indiscret
Os salões Segundo Império caracterizavam-se por serem são opulentos, muítissimo ornamentados, mas ao mesmo tempo confortáveis, onde se sentam as grandes cortesãs, que faziam fortunas incalculáveis, fazendo-se amantes dos soberanos e homens ricos da Europa, que vinham a Paris distrair-se dos seus afazeres. Sempre decorados com muitas franjas e galões, os sofás são capitonnés e por vezes tomam nomes deliciosos como indiscrets, les confidents ou les vous-et-mois.
Interior do Palácio Nacional da Pena
Quem quiser conhecer este estilo sedutor e confortável, poderá encontrar conjuntos inteiros nos Palácios da Pena e da Ajuda. Embora o meu gosto seja mais eclesiástico, não consigo resistir às franjas e aos capitonnés do estilo Segundo Império.