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sábado, 9 de março de 2024

Cabra amamentando um cabritinho: paliteiro da Vista Alegre



Apesar das juras que faço a mim próprio de não comprar mais trastes e velharias, numa das últimas feiras de Estremoz adquiri mais um paliteiro de porcelana. Os paliteiros são objectos muito apetecidos pelos coleccionadores e por essa razão, muitas vezes os vendedores pedem muito dinheiro por eles e como este estava a um preço muitíssimo convidativo e aproveitei a ocasião e lá voltei para a casa com o dito paliteiro. Também o comprei porque já tenho quatro paliteiros da Vista Alegre. Um deles, representa uma cabrinha sentada e o que consegui agora é no fundo, o par, representado a cabra a amamentar o cabritinho. Portanto, esta compra foi absolutamente necessária, ou pelo menos foi este o argumento, que forjei para mim próprio.

Este novo paliteiro é o par de outro que já tinha na minha colecção.


A figurinha não está marcada, mas é com toda a certeza da Vista Alegre. Esta fábrica produziu entre 1870 e 1921 esta figura em várias versões, umas brancas como esta e outras com diferentes pinturas. Basta consultar o site Avaluart para constatar como o mesmo molde foi sendo usado ao longo de 5 décadas pela Vista Alegre em diferentes acabamentos. Contudo, os modelos em branco, que encontrei no avaluart, bem como na obra Vista Alegre : porcelanas / Ilda Arez...[et al.]. - Lisboa : Inapa, 1989 apresentam a marca nº 20, usada entre 1870-1880. O meu paliteiro será eventualmente deste período, mas admito que poderá ser mais tardio. A Vista Alegre sempre foi uma casa conservadora e os mesmos modelos e decorações foram sendo usados ao longo de décadas a fio. Para quê mudar o que é bom e bonito.

Paliteiros da VA: cabra amamentando cria. Foto http://www.avaluart.com


Hoje em dia, um objecto como este é absolutamente inútil. Já ninguém palita os dentes e todos usamos o fio dental, mas eu ainda me recordo de ver nas mesas de todos os restaurantes paliteiros em porcelana, faiança, plástico ou vidro. Claro, eram coisas com um desenho funcional, não eram peças tão elaboradas como esta cabra, que amamenta a sua cria. Na época, em que esta cabrinha foi produzida, os palitos eram considerados objectos de civilidade e para perceber os encantos destas figurinhas, temos que as imaginar numa grande mesa posta com uma toalha de linho, enfeitada com uma qualquer renda, um serviço de jantar da Vista Alegre decorado com florinhas, num dia de festa, com toda a família reunida, numa qualquer casa antiga do Norte. Talvez por ter conhecido bem uma dessas casas, goste tanto destes paliteiros em porcelana.



sexta-feira, 23 de setembro de 2022

Dois paliteiros da Vista Alegre


Uma das primeiras peças que mostrei neste blog, a 7 de Outubro de 2009, foi um paliteiro da Vista Alegre, representando um bebé, afastando do braço uma mosca, ou talvez outro insecto, confesso que sempre me pareceu mais um grilo.

O exemplar que herdei estava partido numa dúzia de pedaços, que o Manel colou pacientemente

Era uma peça que estava na família, que recebi quebrada numa dúzia de pedaços. O meu amigo Manel colou os fragmentos pacientemente, mas faltavam as costas, pelo que para dar alguma solidez à peça, montou-lhe uma estrutura em arame. Na época, nem sabia, que era um paliteiro, até que encontrei por mero acaso num leilão da Vista Alegre, uma peça semelhante, mas inteira, com as costas perfuradas e percebi então a sua função original bem como o seu fabricante, a célebre VA. Contudo, havia uma pequena diferença, entre o meu paliteiro e o do catálogo da Vista Alegre, o meu era em biscuit e o exemplar reproduzido no catálogo era em porcelana.

Através de mas alguma pesquisa, consultei a obra Paliteiros da Vista Alegre / Jorge Manuel Ferreira. - Lisboa : Caleidoscópio, 2006 onde além da reprodução de bebé paliteiro, consta uma ficha original da fábrica, datada de 1922 e assinada, por um tal. J. Cazaux.

Ficha da fábrica Vista Alegre. Imagem reproduzida de "Paliteiros da Vista Alegre / Jorge Manuel Ferreira. - Lisboa : Caleidoscópio, 2006"


Recentemente, o meu amigo Manel conseguiu comprar um outro paliteiro com o menino e a mosca no braço e ofereceu-me no aniversário, de modo, que agora tenho a versão em biscuit e em porcelana. Nem um nem outro estão marcados, mas é quase certo que serão da Vista Alegre.

O paliteiro Menino com a mosca que o Manel me ofereceu este ano 

Esta prenda levou-me a retomar o assunto e tentei saber alguma coisa do autor do desenho que deu origem ao paliteiro, o J. Cazaux, umas vezes também referido por Cazeaux. Percebi que foi um mestre de desenho da Vista Alegre, concebeu o pano de boca do teatro daquela fábrica, mas a única informação de caracter mais biográfico, que encontrei foi na página da internet da Junta de Freguesia de Salvador, de Ílhavo, onde consta uma lista das personalidades da terra, sepultadas no cemitério municipal. Este Cazaux tinha por nome completo, João Paulo Gonçalves Cazaux e era filho de João Filipe Augusto Cazaux e de Maria Apolinária Gonçalves. Natural da freguesia de S. João, concelho de Abrantes, casado com D. Virgínia de Jesus Almeida, foi um conceituado professor de desenho na Fábrica da Vista Alegre, onde trabalhou durante mais de 50 anos. Também escritor e jornalista, fundou o Jornal “O Trabalho”, de características instrutivas e moralizadoras. Ministrou durante longos anos o ensino do desenho na Fábrica e também, particularmente, na sua casa (*1). Morreu em 1953-07-23 com 82 anos e terá nascido por volta de 1871. Ainda tentei encontrar o assento de baptismo do senhor no Arquivo distrital de Santarém, mas em vão. Enfim, tudo isto para tentar perceber um pouco sobre quem criou esta forma do menino afastando do seu braço uma mosca ou um grilo.

Posso presumir que este Casaux se inspirou por um lado nas figurinhas de biscuit alemãs, que estavam em voga, no princípio do século XX, os pianos babies e por outro lado, nos biscuits de Sèvres, concebidos pelo escultor francês Jean-Baptiste Pigalle(1714-1785), director desta manufactura e que foram sendo fabricados ao logo dos séculos XIX e XX. Era natural que na Vista Alegre recebessem os catálogos da Sèvres, cujos produtos eram modelos para todas as fábricas de porcelana na Europa.

Os biscuits de Sèvres concebidos por Jean-Baptiste Pigalle são talvez uma fonte de inspiração destes paliteiros

Por outro lado, nunca encontrei referência a que este paliteiro tenha sido fabricado em biscuit. No site Avaluart, constam dois paliteiros em porcelana, um primeiro com uma pintura com de uma cor mais esbranquiçada, com a marca 31 de 1924-1947, semelhante ao que o Manel me ofereceu e o segundo em cor de carne, com a marca 32 (1947-1968).
Paliteiro com a marca 31 de 1924-1947. Foto http://www.avaluart.com/


Paliteiro com marca 32 (1947-1968). Foto http://www.avaluart.com/

O meu exemplar em biscuit, aquele que se partiu numa dúzia de pedaços é o que apresenta uma pintura mais perfeita, o que não quer dizer nada em termos de datação, mas que me leva a pensar que houve uma terceira série destes paliteiros em datas, que não consigo determinar.



Bibliografia consultada e ligações consultadas:

Paliteiros da Vista Alegre / Jorge Manuel Ferreira. - Lisboa : Caleidoscópio, 2006


sábado, 11 de abril de 2015

Um lua sorridente: paliteiro da Vista Alegre


Tenho uma atracção muito especial por bibelots de porcelana antigos, esses objectos, que abundavam nas casas burguesas nos finais do século passado, princípios do século XX, num tempo em que ninguém se preocupava muito em decorar com contenção ou sobriedade. Por essa razão não consegui resistir a esta lua sorridente, que encontrei na feira de Estremoz. É um paliteiro da Vista Alegre e normalmente estas peças são muito procuradas por alguns coleccionadores, por exemplo, a Fundação Medeiros e Almeida, aqui em Lisboa, tem uma belíssima e completa colecção destes paliteiros da fábrica de Ílhavo. Contudo, como este paliteiro foi partido e colado, consegui compra-lo, por um preço muito aceitável.

O paliteiro encontrou um lugar na minha casa, no meio dos bules e chávenas com decorações vitorianas. Como diria um certo coleccionador francês, uma boa peça encontra sempre o seu lugar numa casa.

Embora muito desvanecida, a marca parece-me a nº21, verde grande fogo, o que significa que este paliteiro terá sido fabricado entre 1881-1921.

Encontrei um paliteiro mais ou menos semelhante na obra Paliteiros da Vista Alegre / Jorge Manuel Ferreira. Lisboa: Caleidoscópio, 2006 e muito curiosamente é identificado como representando o Sol e a Lua. A cara sorridente será o sol, a base, a lua em quarto crescente, e o azul do pedestal representará o céu, conforme observou o meu amigo Humberto. No entanto, esta Lua sorridente e brincalhona, que talvez afinal seja seja um Sol só me recorda o filme mudo Le Voyage dans la lune, realizado em 1902, por Georges Méliès. 
É um filme contemporâneo da produção desta peça, com cerca de 8 minutos, absolutamente delicioso, com astronautas de chapéu alto a visitar a lua, e que se defendem dos ataques dos selenitas com golpes de guarda-chuva e ainda mete um cortejo de bathing beauties a festejar a partida e chegada do foguetão.


sábado, 5 de outubro de 2013

Paliteiro da Vista Alegre


Esta cabrinha de porcelana é um paliteiro. A marca está muito sumida, mas o Flávio Teixeira, que tem ainda uns olhos jovens, conseguiu ler as siglas "VA." a verde. Portanto terá sido produzida entre 1881 e 1921 pela Vista Alegre. Em vários manuais sobre esta fábrica de Ílhavo aparecem reproduzidas muitas destas cabrinhas, algumas acompanhadas do respectivo cabritinho e quase todas foram fabricadas entre 1870-1880 ou entre 1881 e 1921. 
Consegue-se apenas ler o "A" final das características siglas VA.
Cabra Paliteiro,  com marca datada entre 1870-1880. www.avaluart.com
 
Ao longo de quase 200 anos de existência, a Vista Alegre fabricou dezenas de modelos de paliteiros, esses objectos até há pouco tempo tão vulgares nas mesas das casas familiares e dos restaurantes e hoje remetidos cada vez mais ao esquecimento.


Os paliteiros estão fora de moda e os palitos são considerados uma coisa pouco higiénica e até algo nojenta. No entanto, temos que nos abstrair desse preconceito actual, em que os cuidados de higiene dentária estão mais ou menos generalizados entre todos e em qualquer lado se podem comprar escovas e pasta dos dentes e ainda fio dental. Contudo, no passado, o uso de um pauzinho descartável para tirar os restos de comida dos dentes foi uma ideia revolucionária e até muito higiénica. Bem pior era o uso entre a nobreza de palitos de prata ou marfim, que eram usados pela mesma pessoa durante toda uma vida e que depois da sua morte eram deixados em herança, juntamente com um conjunto variado de bactérias, aos filhos ou aos netos. Pior era ainda o uso da própria faca para palitar os dentes nos jantares de cerimónia. No século XVII, o todo-poderoso ministro do rei francês Luís XIII, o Cardeal de Richelieu, irritava-se tanto com esse hábito, que encomendou a um ourives facas com o gume arredondado, para que os seus convivas não pudessem palitar os dentes depois das refeições, e de facto, a moda pegou e ainda hoje as facas de serviço apresentam sempre o gume arredondado.

Aqui em Portugal, desde o século XVIII, eram célebres os palitos feitos pelas monjas do Mosteiro de Lorvão. Manufacturavam-nos numa variedade de madeira de salgueiro que dava um certo sabor adocicado aos palitos, que era muito apreciado ente o público. Esse fabrico persistiu com muito sucesso por toda a região ao longo dos séculos XIX e XX e parece que ainda hoje haja quem os faça.
A cabrinha encontrou o seu lugar no louceiro entre as outras peças da vista Alegre da mesma época
Esta cabrinha paliteiro tem o encanto de todos dos objectos caídos em desuso e que daqui a 4 ou 5 décadas já ninguém saberá muito bem a sua utilidade original.

Para saber mais:

Paliteiros da Vista Alegre / Jorge Manuel Ferreira. – Casal de Cambra: Caleidoscópio, 2006.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Paliteiro



Este menino que tenta tirar um grilo ou uma barata do braço deu-me algum trabalho a identifica-lo. Estava todo feito em pedaços e foi o meu amigo Manel, que percebeu a ordem pela qual se deveriam juntar as várias peças depois colou-o. Confesso que passei horas na Internet a fazer pesquisas sobre esta pecinha encantadora em biscuit. Descobri exactamente o que era quando coscuvilhava a secção de arte da Livraria Bulhosa nas Amoreiras. Ao folhear um catálogo de um leilão da Vista Alegre, descobri um menino muito semelhante ao meu, produzido por aquela fábrica na primeira metade do século XX. As costas que faltam ao meu boneco estão cheias de buraquinhos e descobri que afinal o menino é um paliteiro!


Comprei depois o livro Paliteiros: Vista Alegre, de Jorge Manuel Ferreira e na pág. 103 aparece uma reprodução deste modelo, acompanhada de um ficha de arquivo da Fábrica, com um desenho de J. Cazaux, de Agosto de 1922. Há uns tempos fui visitar o Museu da Vista Alegre em Ílhavo e lá estava uma peça semelhante à minha. Acabei por escrever um e-mail ao referido Museu e tiveram a gentileza de me enviar umas imagens das costas do boneco.


Contudo, apesar das semelhanças continuei a achar a minha peça mais perfeita. A pasta em que é feito o meu menino não tem o brilho algo estridente da peça que está no Museu da Vista Alegre.

Depois de um comentário feito aqui me ter chamado a atenção para um site sobre porcelana, http://www.avaluart.com/, é que consegui resolver o mistério desta diferença entre o meu boneco e o do Museu. No Avaluar estava outro menino paliteiro, muito semelhante ao meu, mas deitado e em biscuit, datado entre entre 1881-1921. Fez-se luz na minha cabeça, a Vista Alegre fabricou o mesmo modelo em biscuit e em porcelana.