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quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Viçoso e Moratalla: mais uma casa que acabou

A Viçoso, Moratalla era uma daquelas lojas especializadas que antigamente proliferavam pela Baixa Lisboeta, vindas do tempo em que naquela parte da cidade se encontrava tudo e se podia encomendar coisas ao gosto do cliente. Se queríamos mandar fazer uns sapatos duma cor especial, comprar um galão mais requintado, um tecido melhor, um colchão com uma medida excêntrica, uma cera diferente íamos à Baixa, pois ali vendiam-se coisas mais originais e de melhor qualidade de toda a cidade. Hoje pegamos no carro, vamos para a via rápida, ao hipermercado…

A Viçoso e Moratalla era uma casa de gravadores, que entre carimbos, condecorações e medalhas fazia aqueles cantos em metal, as rosetas, para colocar nas molduras e que são tão difíceis de achar. Faziam coisas absolutamente maravilhosas e o mostruário era tão bonito que tornava difícil a escolha. Qualquer moldura banal ficava logo com um ar estupendo com um daqueles cantinhos trabalhados.

Descobri aquela casa na Rua de S. Julião, 72, um dia, quando voltava da Feira-da-ladra e logo senti-me como um daqueles índios do tempo dos Descobrimentos, que ficavam fascinados a olhar para a quinquilharias, que os colonizadores lhes ofereciam. Voltei logo lá na segunda-feira e depois disso, eu e o meu amigo Manuel tornamo-nos uns clientes fiéis da Viçoso e Moratalla, creio mesmo que os únicos, pois a casa acabou de falir.

Enfim, percebo porque fechou. O horário era tonto e nunca se apanhava aquilo aberto às horas, que se pode fazer compras, não dispunham de pagamento por Multibanco, a empregada era uma sostra e cheirava a urina de cão naquele vão de escadas.

E no entanto que possibilidades tinha aquela loja. Estava toda revestida com estantes e gavetinhas, que se fossem decapadas da tinta castanha cor de caca, revelariam provavelmente um lindíssimo pinho velho. Se o funcionamento tivesse sido modernizado, certamente que a turistada toda que enxameia pelas ruas da Baixa perderia a cabeça com as ferragens deliciosas daquela lojinha vinda de outros tempos.

Enfim, é uma pena

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Estuques artísticos

Provavelmente, já toda a gente terá reparado nos belíssimos estuques que adornam os tectos e muitas vezes também as paredes dos átrios de entrada dos prédios da zona nos Anjos, Chile, Arroios e Avenidas Novas, em Lisboa. Essa decoração artística estende-se também ao interior dos apartamentos, sobretudo às salas de visita e era comum nas casas construídas nos finais do século XIX e princípios do século XX, destinadas à classe alta ou até mesmo a uma burguesia mais remediada. Estes tectos apresentam todas as variantes do repertório da gramática das artes decorativas clássicas e são verdadeiramente deliciosos. A minha irmã viveu numa casa onde em cada canto do tecto de uma das salas, havia uma alegoria às áreas de actividade económica: a agricultura, a indústria, as ciências e as artes. Este hábito de decorar tectos e paredes com estuques durou em Portugal, pelo menos até aos anos 30 e podem-se admirar bonitos motivos geométricos art deco nas casas do Bairro Azul ou do Bairro das Colónias, ambos em Lisboa.

Nos anos 40, 50 e 60, o modernismo e o funcionalismo com o seu racionalismo economicista puseram fim a esse hábito e passámos a ter as casas todas com monótonas paredes lisas ângulos rectos.

Contudo, em Lisboa e no Porto subsistiram casas onde ainda se fazem e restauram esses estuques artísticos. São oficinas que fazem um trabalho artístico primoroso e onde perdemos a cabeça com o seu mostruário e nos apetece comprar cariátides, gregas e colunas coríntias, para transformar a nossa casa num qualquer salão saído dum romance de Marcel Proust. O meu amigo Manel comprou alguns desses elementos decorativos e colocou-os no interuior da sua casa, construída no início do século XX e o resultado é espantoso.

Em Lisboa existe o Atelier Gessos Maceiro, na Rua Luciano Cordeiro, 74 A, que foi fundado em 1790(!) e no Porto, os Estuques Baganha. Ambos tem coisas maravilhosas, pois guardaram os antigos moldes e hoje conseguem produzir as mesmas peças que se usavam nos finais do século XIX. Os Estuques Baganha, para além de terem uma loja na Miguel Bombarda, a rua onde estão quase todas as galerias de arte da cidade do Porto, constituíram um Museu do Estuque, onde guardam os seus moldes e as suas melhores obras. Esta oficina trabalhou também para os grandes escultores e artistas do Porto, fazendo moldes em gesso dos originais em barro, que depois eram convertidos em bronze ou pedra. Recomendo vivamente uma visita à Loja dos estuques Baganha. As peças tem preços económicos, pois o gesso é um material barato e os responsáveis pela loja (creio que são os descendentes) tem aquela simpatia, que só as pessoas da “Imbicta” conseguem ter. Nós, os Lisboetas, estamos em via de nos tornarmos definitivamente uns carrancudos.
Oficina Baganha: o Museu do Estuque


Comprei nos Baganhas uma placa de gesso, com uma delicada ornamentação renascentista. Era linda, mas estava talvez demasiado “branca”, com um ar excessivamente nova. Seguindo o conselho da loja, pincelei a placa com cinza, os relevos ganharam então definição e a placa ficou com ar “object trouvé”, isto é, como se fosse um achado arqueológico acabado de sair da terra.
Custa-me ver o trabalho artístico tão espantoso destas oficinas tão pouco valorizado. Muito embora não goste dar lições de moral, não consigo resistir a afirmar que este gosto minimalista horrível que impera nos dias de hoje estará na base do desinteresse que o comum das pessoas tem por este tipo de decoração

http://www.gessos-maceiro.com/
http://museudoestuque.blogspot.com/