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sexta-feira, 17 de maio de 2024

Uma jarra de opalina possivelmente de François-Théodore Legras



Desde há um tempo descobri o encanto das opalinas, esses vidros em cuja composição entrava óxido de estanho e cinzas de osso, conhecidos em português por vidros coalhados. Embora já fossem fabricadas em Veneza desde o século XVI, foi no século XIX, em França, que a produção de opalinas atingiu o seu apogeu decorativo e técnico. É certo que outros países também fabricaram vidros com composições semelhantes, nomeadamente a Inglaterra, na cidade de Bristol e a Boémia, na actual República checa,

Mas o que aparece mais nos mercados de velharias em Portugal são opalinas francesas da segunda metade do século XIX e que se compram preços razoáveis.

Na última feira de Estremoz comprei esta jarra muito bonita, que foi durante anos a fio usada para pôr flores, pois ainda tinha dentro restos de um lodo no interior, que foi uma chatice remover. A peça foi-me vendida como francesa e de facto o seu estilo decorativo foi obviamente inspirado na porcelana de Sèvres do século XVIII. Digamos que esta jarra é uma reinterpretação arte nova da porcelana de Sèvres do tempo de Luís XV.

Decidi então confirmar esta minha impressão, fazendo uma série de pesquisas por imagem no Google e encontrei uma jarra exactamente igual no portal de antiguidades WordPoint.com, mas cujo fabrico estava atribuído ao centro vidreiro Harrach, ou Harrachov, na Boémia, do período Loetz, cerca de 1880.




Fiquei um bocadinho desconcertado pois achei esta jarrinha com um estilo muito francês e também não me pareceu que tivesse sido fabricada por volta de 1880. A sua decoração já é muito 1900. Procurei no google por Harrarch e por Loetz e percebi que correspondem a dois centros de fabrico distintos da Boémia, o primeiro na cidade de Harrachov e o segundo em Klostermühle, hoje em dia, Klášterský Mlý. Em suma, o antiquário que tem isto à venda no Word Point confundiu alhos com bugalhos. Em todo o caso, prossegui as minhas buscas na net pelas opalinas Harrachov e de Loetz, em Klášterský Mlý e não encontrei nada semelhante. Os vidros checos de cerca de 1900, no chamado estilo secessão, nome usado na Europa Central para a Arte Nova, são sempre muito imaginativos, quase delirantes e pouco nada tem a ver com esta jarrinha, uma reinterpretação arte nova da porcelana de Sèvres.

A mesma jarrinha que estava à venda no Word Point aparecia também reproduzida no Pinterest, com a mesma legenda indicando, que era da Boémia, de Harrach, mas alguém deixou um comentário, chamando a atenção que a peça poderia ser eventualmente de Legras e resolvi explorar essa hipótese. Este Legras era o Senhor François-Théodore Legras (1839-1916), director das Verreries de Sant Dennis e que durante vigência da sua direcção, modernizou completamente a fábrica, conseguindo que os seus produtos fossem premiados várias vezes na nas exposições universais entre 1880 e 1900. A produção das Verreries de Sant Dennis era muito diversificada e ia desde produtos utilitários, a objectos de luxo, passando por criações arrojadas ao nível de vidreiros franceses famosos como Gallé, Daum ou Lalique.

Até há pouco tempo muito mal conhecida, a obra de François-Théodore Legras foi objecto de um catálogo sistemático, "François-Théodore Legras, verrerie artistique et populaire française / Marie-Françoise Jean-François Michel, Dominique et Jean Vitrat. -Paris : éditions Manufacture d'Histoire, 2012.


Jarra à venda no e-bay

Partindo dessa hipótese, encontrei então umas quantas opalinas como uma decoração muito semelhante à minha e cujos vendedores as identificavam como sendo de François-Théodore Legras, citando sempre as páginas 256 e 257 do acima referido catálogo, para justificar essa atribuição. Claro, eu não tive acesso ao catálogo, mas como um dos vendedores é nada menos nada mais que o Leiloeiro Drouot, umas das casas mais conceituadas no mundo das antiguidades, parti do princípio, que consultaram o referido catálogo e que atribuição que fizeram está correcta.



Conjunto posto à venda pelo Leiloeiro Drouot,


Em suma esta jarrinha de flores em opalina terá sido fabricada por volta de 1900, muito possivelmente pela Legras et Cie (Verreries de Sant Dennis) e é um exemplo da qualidade dos produtos dessa fábrica, uma reinterpretação elegante ao gosto de 1900 do estilo da porcelana de Sèvres do Século XVIII.





Ligações consultadas:





terça-feira, 6 de dezembro de 2022

Uma jarra em opalina do século XIX



Recentemente, comprei esta jarra em opalina decorada com elementos vegetais e insectos por um preço muito convidativo. Embora, não apresentasse qualquer marca, pareceu-me de imediato uma coisa francesa dos finais do século XIX. Os franceses foram os principais fabricantes de opalina no século XIX e invadiram os mercados europeus e americanos com as suas criações.

Apesar da ausência de uma marca tentei descobrir algumas informações sobre esta jarra na obra L'opaline française au XIXe siècle de Yolande Amic, mas sem resultados e de seguida lancei-me no Google fazendo pesquisas em francês pelos termos opaline decoration insectes e fleurs XIX siécle, mas também não encontrei nenhuma peça com a mesma decoração ou forma. Repeti a pesquisa em inglês, para apanhar os sites de venda on-line de antiguidades dos EUA, pois os americanos adoram tudo o seja francês. Encontrei duas jarras exactamente com o mesmo formato, mas estavam identificadas como blue bristol glass. Enfim, fiquei um pouco surpreso, mas Bristol foi um centro vidraceiro muito importante no Reino Unido, que fabricou também vidros mais ou menos semelhantes às opalinas francesas, bem comos os chamados milk glass.




Resolvi então recomeçar as minhas pesquisas pelos termos blue bristol glass vase, até que cheguei ao portal de antiquários americano, o Rubylane, que é sempre muito bom. Os comerciantes que aqui colocam as suas mercadorias à venda conhecem bem antiguidades, devem ter bons peritos a aconselha-lhos e as atribuições, que fazem são normalmente fiáveis, ao contrário do e-bay, onde as informações sobre peças à venda não são de confiança, pois é o sítio onde o senhor-toda-gente, anuncia as tralhas, que tem à venda lá em casa e tudo o que é do século XIX é classificado sumariamente como vitoriano.



No referido Rubylane estavam à venda duas destas peças com estes motivos de flores, passáros e insecto e nas respectivas descrições, esclareciam que no mercado americano as opalinas deste azul, são invariavelmente classificadas como Blue Bristol glass, quando na verdade essas peças em azul-turquesa eram fabricadas na Boémia, a actual república Checa. Refiz novamente a minha pesquisa e percebi que a há uma confusão generalizada nesta matéria. Por exemplo, no Worthpoint estava à venda uma destas jarras com flores, pássaros e insectos classificada como antique french bohemian blue opaline glass. Isto é, em algumas páginas de internet estas peças são designadas como vidro azul de Bristol e noutros com opalina francesa em azul da Boémia.

Continuei as minhas buscas no Google e fui-me apercebendo que estas opalinas são com efeito de origem chega e muito provavelmente da fábrica de Harrach, situada numa localidade a Norte de Praga, Harrachov e cujas origens remontam ao século XVIII. Ao longo de todo o século XIX esta fábrica teve um enorme crescimento, exportando muito dos seus produtos para o estrangeiro, mas adaptando-os ao gosto dos mercados locais, como foi o caso da Inglaterra, onde os produtos checos apresentavam uma tonalidade azul ao gosto de Bristol. De tal forma esta adaptação foi bem-feita, que muitas vezes torna-se difícil distinguir os produtos checos dos ingleses.

Decorações típicas da produção Harrach das décadas de 80 e 90 do século XIX. Imagem retirada de https://www.sellingantiques.co.uk/379276/stunning-19thc-large-15-bohemian-turquoise-oapline-glass-vase-enamel-decoration-flowers-butterflies/


Em todo o caso, as borboletas, pássaros e insectos combinados com flores e plantas foram decorações típicas da produção Harrach das décadas de 80 e 90 do século XIX.

Há uma excelente página sobre as produções Harrac, o Mad about the glass, para quem queira saber mais sobre esta página um vídeo no youtube feito por uma amadora de antiguidades que experimentou exactamente as mesmas dúvidas que eu perante uma jarra em azul de Bristol

Em suma, esta jarra que comprei estando quase certo de que seria francesa, é designada no mercado americano como blue Bristol Glass, mas terá sido mais provavelmente fabricada na Boémia por volta das décadas de 80 ou 90 do século XIX.



Alguma bibliografia e links consultados:

Bristol and other coloured glass / John Bedford. - London : Cassell, cop. 1964

L'opaline française au XIXe siècle / Yolande Amic. - Paris : Librairie Gründ, 1952.

Cristal da Boémia / Vlastimil Vondruska, Antonin Langhamer. - Alfragide : EDICLUBE, 1997












sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Uma taça em opalina francesa



Recentemente comprei por muito bom preço esta pequena taça ou recipiente em opalina, que desde logo me pareceu uma coisa francesa, provavelmente da segunda metade do século XIX, de uma época em que a França dominava o mercado deste tipo de vidro.

Marca pintada a dourado, talvez a letra o ou o número zero


As opalinas mais antigas muito raramente eram marcadas, mas esta apresenta um pequena marca pintada a dourado, talvez a letra o ou o número zero. Achei que com esta marca poderia identificar o fabricante e lancei-me numa pesquisa no google em francês e inglês acerca de marcas de opalina, mas foi em vão. Consultei também a obra L'opaline française au XIXe siècle / Yolande Amic. - Paris : Librairie Gründ, 1952 e e confirmei, que as opalinas raríssimas vezes eram marcadas e que este o ou zero não corresponde a nenhum fabricante. Será provavelmente a marca com que um pintor de uma fábrica ou oficina de decoração usou para marcar o seu trabalho.



Nestas minhas buscas encontrei muitas peças em opalina azul, com decorações esmaltadas a ouro com algumas semelhanças com a minha tacinha, que me levou a confirmar a minha intuição inicial, de que se trata de uma produção francesa da segunda metade do século XX, talvez já das últimas duas décadas.

Porém, à medida que andava enredado nestas pesquisas por sites de venda on line e de antiquários franceses e americanos, foi-se levantando cada vez mais a mesma dúvida, qual foi a utilidade inicial desta peça. É demasiado pequena para jarra de flores, não é decididamente um frasco, um jarro ou uma garrafa e falta-lhe qualquer coisa de supérfluo ou arrebicado para ser um mero bibelot. Decidi concentrar mais as minhas investigações na função utilitária desta tacinha e acabei por perceber, que em tempos fez parte de um conjunto ou serviço.

Muitos de nós ainda de nos recordamos de ver nos quartos de dormir das casas antigas, uma garrafinha e um copo por cima, por vezes com um pequeno prato, conjunto, que se colocava em cima da mesinha de cabeceira. As casas era muito grandes e e se alguém sentia sede durante a noite escusava de percorrer um grande corredor para chegar à até cozinha e beber um copo de água. Juntamente com o bacio, o jarro e taça para lavar o rosto e as mãos eram acessórios típicos de qualquer quarto de uma casa grande do passado. Esses conjuntos de garrafa, copo e pratinho ainda aparecem à venda nas feiras de velharias, mas são normalmente em vidro simples.

Como os franceses sempre foram uma gente requintada, na segunda metade do século XIX produziam estes conjuntos, mas mais completos, que aqueles que estamos habituados a ver nas feiras de velharias. Eram compostos por um tabuleiro, dois copos, duas garrafas, uma para água simples e outra para água aromatizada a flor de laranjeira e ainda um açucareiro. Encontrei na internet vários desses conjuntos em opalina, a que os franceses chamam service de nuit e percebi, que a esta minha tacinha foi em tempos um açucareiro, de um desses serviços. Originalmente teria uma tampa, que com o tempo se perdeu.


Conjunto em opalina. Jarro e bacia de lavatório e ainda o service de nuit

Em suma, esta pequena taça, é um açucareiro, que fez parte de um antigo service de nuit em opalina, produzido em França provavelmente nos fins do século XIX. Falta-lhe a tampa e é uma peca desirmanada, mas ainda assim cheia de charme.

Um açucareiro em opalina

sábado, 31 de julho de 2021

Um candeeiro a óleo em opalina

candeeiro a óleo em opalina

Comprei este velho candeeiro a óleo em opalina. Não é porque precise de iluminação em casa, pois na minha assoalhada e meia, apliques, lustres e candeeiros de mesa devem ser quase uma dúzia. Além disso, tenho ainda três candeeiros de azeite, um castiçal, uma lucerna e um candeeiro a petróleo. Claro, podia justificar esta compra, pensando nas eventuais faltas de luz, mas cortes de energia eléctrica acontecem à media, três em três anos e pouco mais duram que uns vinte minutos e nesses momentos uso velas...

Na minha casa abundam candeeiros.

Na verdade, comprei este candeeiro porque adoro os estilos franceses e sempre ambicionei ter uma opalina, esse vidro de aspecto leitoso. Claro, como não tenho dinheiro para comprar peças francesas do século XVIII, compro coisas do século XIX imitando os grandes estilos do passado, o Luís XIV, o Luís XV e o Luís XVI e neste candeeiro é claramente visível a inspiração das porcelanas de Sèvres do século XVIII. Está até pintado no chamado rose Pompadour, esse tom de rosa criado em Sèvres, no ano de 1757, em homenagem a Madame de Pompadour, amante do Rei Luís XV e grande patrocinadora da manufactura.

O rose Pompadour


No entanto este candeeiro não apresenta qualquer marca, nem no queimador, nem no vidro opalino e o que aqui escreverei de seguida são meras suposições. Ao procurar informar-me sobre os candeeiros do século XIX, bem como sobre as opalinas e consegui perceber que havia menos três tipos diferentes de fabricantes ou ofícios, que concorriam para o fabrico de um candeeiro deste tipo.

Queimador do tipo modérateur
Queimador do tipo modérateur

Em primeiro lugar havia o fabricante do queimador. O deste candeeiro parece-me sem dúvida do tipo modérateur, um sistema inventado em Franca, que permitia regular com precisão a intensidade da chama. Foi concebido para funcionar a óleo vegetal. O petróleo só começa a ser usado depois de 1870. Mas não tive coragem para desmontar o queimador, para apurar a sua marca, pois tive medo de partir a opalina, que apresenta alguns fios de cabelos aqui e ali. Em todo o caso apresenta todas as características dos modérateurs franceses fabricados nos meados do século XIX, o que me leva crer que este candeeiro seja francês.

Os candeeiros a óleo com o queimador tipo modérateur. Foto de Les lampes à huile, de B. Mahot, Ed. Ch. Massin


Depois em segundo lugar existiam os fabricantes de vidro ou porcelana, que produziam o corpo do candeeiro, onde se encaixava o queimador. Neste caso, corpo é em opalina, um vidro em cuja composição entrava óxido de estanho e cinzas de ossos, o que lhe conferia um aspecto leitoso e cuja aparência não andava longe da opala. Talvez por essa razão em português, este material é conhecido por vidro coalhado. As opalinas já eram fabricadas em Veneza desde o século XVI, normalmente brancas, mas no século XIX em França, avanços técnicos permitiram o aparecimento de novas cores. Nesse período os principais fabricantes de opalinas em França foram Baccarat, Saint Louis e ainda Choisy-le-Roy e Belleville.

Por último, existiam oficinas de decoradores ou pintores de opalinas, que trabalhavam com os principais fabricantes de vidros. O mais célebre deles todos foi Jean-François Robert (1778–ca. 1855), que começou por ser pintor em Sèvres, mas a partir de 1843 estabeleceu-se por conta própria, nas vizinhanças da fábrica, trabalhando sobretudo para Baccarat e Saint Louis. Concebeu uma técnica nova, as peças pintadas a pincel iam novamente ao forno de mufla, de forma, a que as cores e as aplicações a ouro vitrificam-se, incorporando-se na superfície do objecto de forma mais perene. Essas decorações florais da opalina tiveram sucesso e rapidamente foram imitadas por outras oficinas de pintores.


Pinturas sobre opalina do atelier de Jean-François Robert. Foto retirada de Christine Vincendeau, Les Opalines, Paris: Amateur, 1998


Num catálogo de vendas on line encontrei uma caixa de jóias em opalina de Baccarat, cuja decoração é atribuída ao atelier Jean-François Robert, e o vendedor para fundamentar essa atribuição reproduz a página 124 da obra de Christine Vincendeau, Les Opalines, Paris: Amateur, 1998. E de facto, percebemos que na oficina de Jean-François Robert a inspiração em Sèvres era óbvia e que este candeeiro tem o mesmo ar de família das peças ali reproduzidas. Também a partir desta reprodução percebi que a peça em opalina usada para montar este candeeiro foi uma garrafa ou frasco.

Uma garrafa ou frasco serviu para montar o candeeiro. O reservatório de combustível está escondido no recipiente

Embora eu seja um leigo nesta área das opalinas e candeeiros, fiquei com a ideia que a distribuição do produto final, o candeeiro, cabia ao produtor de vidros.

Em suma, este candeeiro terá sido produzido em França em meados do século XIX, ou talvez uma ou duas décadas depois. O queimador do tipo modérateur é típico dessa época e a opalina saiu de uma de umas dessas grandes fábricas francesas, Baccarat ou Saint Louis. A decoração ao gosto de Sèvres talvez tenha sido pintada na oficina de Jean-François Robert ou por um dos seus muito imitadores depois de 1855.




Alguma bibliografia e links consultados:

Le XIXe siècle français / dir. Stéphane Faniel. - Paris : Librairie Hachette, 1957. - 231 p. : il. ; 32 cm. - (Connaissance des arts ; 2)

L'opaline française au XIXe siècle / Yolande Amic. - Paris : Librairie Gründ, 1952.