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terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

As velharias do Luís em nova casa ou a colecção de biscuits




Na minha antiga casa, em menos de 30 metros quadrados úteis, estive 21 anos a montar uma decoração, onde todos os espaços estavam pejados de velharias. Tectos, soleiras de portas, cozinha, casa de banho, quarto, sala e ainda um esconso foram ocupados com cristos, faianças, estampas, esculturas, apliques, porcelanas, registos de santos e até uma casa de bonecas. O resultado até era interessante, uma mistura de caverna de ali-babá com uma capela barroca e com passamanes em estilo Segundo Império por ali e acolá.

A escadaria da minha antiga casa


Mas era um terceiro andar sem elevador, na meia encosta de uma colina lisboeta. Um prédio com uma escada daquelas antigas, onde o primeiro lance era quase a pique.

Quando o meu pai adoeceu gravemente ficou preso num segundo andar sem elevador, em que para ir uma consulta ou ao Hospital era necessário chamar os bombeiros, esses bravos rapazes, que o carregavam pelas escadas acima ou abaixo come se fosse uma pluma. Nós não podíamos pôr o meu pai numa cadeira de rodas e leva-lo a passear, apanhar Sol ou distrair-se e os seus últimos tempos de existência foram particularmente penosos. Há aliás muitos idosos em Lisboa presos nas suas casas de prédios sem elevador, conforme já me disseram inúmeras vezes profissionais de saúde. Por essas razões, decidi vender esta casa, perdendo uma vista para o Castelo e a Graça e comprei outra mais moderna, no bairro dos Olivais, com 70 m2, um rés-do-chão e onde estaciono o carro à porta. Pelo menos. Se tiver uma doença em que perca a mobilidade, os meus filhos poderão levar-me a passear numa cadeira de rodas.




Mas um apartamento dos anos 70 não tem os recantos e as irregularidades de uma casa antiga e é mais difícil escapar daquela monotonia das divisões rigorosamente rectangulares. Contudo, estes 70 m2 permitem-me agrupar as peças por famílias, faze-las respirar dando-lhes maior visibilidade.

Umas das colecções que andava perdida no meio das loiças ou em móveis aqui e acolá era das figurinhas biscuit. Muitas deles estavam pura e simplesmente escondidas num canto do armário louceiro ou quase tapados por porta-retratos.

O louceiro ou vitrina em cima do meu fiel Rocinante

Aproveitei agora o espaço disponível e comprei no Olx uma vitrina ou um louceiro por um bom preço. Estava em mau estado, comido em algumas zonas pelo caruncho . A pedra de mármore no topo também não era original, terá pertencido a uma cómoda. Mas, o meu amigo Manel restaurou-a toda, limpou as madeiras, arranjou as fechaduras, encerou-a, eletrificou-a e ficou linda. 




Este fim-de-semana fui busca-la a casa do Alentejo do Manel e lá veio ela no tejadilho do automóvel até Lisboa e mal cheguei, comecei a dispor os biscuits e fiquei encantado com efeito. Esta vitrina ou louceiro é uma peça dos finais do XIX, que em tempos terá feito parte de uma mobília de sala de jantar e é no fundo da época das minhas figurinhas de biscuit, de modo que o conjunto fica muito harmonioso. Claro, tive que pôr-lhe em cima o mono da televisão, mas enfim, mas não podemos passar sem aquela maquineta feia que nos liga ao mundo.

O efeito geral é tão bonito, que comecei a experimentar a reconfortante sensação de que o meu apartamento dos anos 70, com aquelas linhas monótonas era afinal uma velha casa de família, daquelas várias, que conheci ao longo da vida e que foram desfeitas entretanto.


quinta-feira, 7 de novembro de 2024

Uma menina holandesa: figurinha em biscuit da Gebrüder Heubach


Há muito que não escrevia nada no blog. Mudei de casa no passado dia 29 de Agosto e como sou colecionador de velharias, foi uma mudança épica. Passei todo o mês de Agosto a embalar tarecos, de seguida, ao longo de Setembro e Outubro a desencaixotar, escolher novos locais e a pendurar e assim continuarei por mais uns tempos. Pelo caminho mandei fazer obras e ainda houve que lidar com toda a papelada, que uma mudança implica, de que não me apetece sequer referir, pois este é um blog de memórias e velharias e não um movimento cívico de cidadania. Mas, estou numa casa bastante maior, num bom sítio, com metro a 5 minutos a pé e estaciono o carro à frente de casa. Numa palavra, sobrevivi e estou bem.



Para me recompensar de todo este esforço, ao longo do qual perdi quatro ou cinco quilos, comprei on line uma figurinha de biscuit, uma menina holandesa. Apesar de na página de internet onde a encontrei não haver referência a marcas nem fotografias destas, percebi logo pela rosto da menina que só podia ser da Heubach, essa fábrica alemã da Turíngia, que celebrizou pela graça e qualidade das suas figurinhas de biscuit, mas também pelas bonecas para as meninas brincarem e que tanto umas como outras são hoje em dia disputadas pelos colecionadores. Com efeito, tenho um piano baby desta marca, que tem exactamente a mesma carinha laroca desta menina.

O meu piano baby da Gebrüder Heubach


No momento da transação, quando desembrulhei a peça e observei-lhe as costas, percebi que não me tinha enganado e lá estava a marca incisa com os raios de Sol usada pela Gebrüder Heubach.

A marca foi usada pela Heubach entre 1882 e 1915,



O passo seguinte foi procurar mais informações sobre esta menina em biscuit na internet, já que não disponho de bibliografia sobre o assunto. A marca foi usada pela Heubach entre 1882 e 1915, mas na maioria das páginas, que consultei atribuem estas figurinhas a um período que vai entre 1900 a 1910. Esta menina holandesa foi fabricada em diversas variantes, uma, como esta que comprei, sentada com um par de baldes, uma outra versão com dois cestos e outra ainda sem nada nos lados, mas também sentada. Igualmente tinha o seu par, um menino holandês, também ele com diversos tipos de recipientes em cada lado. Foram também produzidas em vários tamanhos e ainda em porcelana, o que desconhecia, porque acreditava que a firma anteriormente referida se tinha especializado nas figuras de biscuit.






Como referi anteriormente, a Gebrüder Heubach estava localizada no Sul da Alemanha, na Turíngia, mais exactamente em Lichte, um centro de produção de porcelana muito activo, onde funcionava uma escola de artes, na qual as fábricas de cerâmica recrutavam muito artistas, o que explica a qualidade destas figurinhas. Tenho até o palpite que quem concebeu o meu piano baby e esta holandesa foi o mesmo artista. Mas pesquisar em sites alemães é complicado e não tenho acesso à bibliografia sobre o assunto para emitir grandes opiniões. Uma senhora alemã, Dagmar Lekebusch publicou até uma monografia sobre o assunto Gebrüder Heubach: ein thüringischer Porzellanbetrieb und seine Figuren im Wandel der Zeiten (1843-1938), onde fez um levantamento dos artistas que colaboraram nesta fábrica e dedicou um capítulo só para as figurinhas holandesas, mas infelizmente só índice da obra se encontra on-line.


Esta figurinha de menina holandesa foi fabricada pela Gebrüder Heubach mais ou menos entre 1900-1910 e deve ter estado muito protegida, ao longo dos seus 120 anos de existência, pois não tem uma única falha, um dedo quebrado, vestígios de colagens ou uma racha, como é habitual nestas peças. Estaria numa vitrina, bem fechada, fora do alcance das crianças, para as quais estas figurinhas, pareceriam brinquedos preciosos muito apetecidos para tocar, mexer e inventar histórias com elas. Felizmente, há muito que deixei de ser criança e posso pega-las e admira-las.




Algumas ligações consultadas:


domingo, 9 de junho de 2024

Uma menina em biscuit dos anos 20 ou a história de uns sapatinhos de verniz



Ultimamente, tenho escrito por aqui pouco. Não que me faltem temas, mas neste mês parece que ando num campo minado e cada vez que dou um passo para um lado ou para o outro, para traz ou para frente rebenta uma chatice ou um problema qualquer. Por essas razões resolvi escrever sobre um assunto, que nunca me dá muito trabalho, uma figurinha em biscuit. Estas estatuetas em biscuit são normalmente de origem alemã, fabricadas nos finais do século XIX, inícios do século XX, algures na Turíngia ou no Saxe e raras vezes estão marcadas e por essa razão é difícil encontrar informações na net, a não ser que por um acaso da sorte, haja um vendedor nos Estados Unidos, na Alemanha ou França, que esteja a vender uma exactamente igual, mas marcada. Mas os alemães fabricaram tantos destes bonequinhos em biscuit que é essa probabilidade é quase impossível. Assim, sendo, muitas vezes, resta-me escrever sobre os sentimentos que me despertam.


Esta menina sentada já a namorava há quase dois anos na banca de um vendedor na Feira de Estremoz. O senhor de vez em quando trazia-a, eu namorava-a à distância, porque normalmente o dono não costuma fazer preços acessíveis, depois desaparecia e eu pensava que já tivesse sido vendida, reaparecia novamente até que acabei por compra-la por um preço muito simpático.

Os meus irmãos e e eu vestidos com roupa de ir ver a Deus. Sou o mais pequenino.

Achei-lhe muita graça pois parecia que estava sentada, exibindo os seus sapatinhos novos. Recordo-me que por volta dos meus cinco anos tive uns sapatinhos de verniz, daqueles que só se usavam em ocasiões especiais, como se costuma dizer, para ir à Madrinha ou ir ver a Deus. Aliás, há uma fotografia dos meus irmãos e eu, no baptizado de um primo, o Tozé, em que tenho esses sapatinhos calçados, embora já um bocadinho cambados, pois era muito irrequieto. Nessa fotografia tirada talvez por volta de 1968 ou 1969, os meus irmãos estão em ponto branco, enquanto eu estou prestes a desfraldar-me e as meias estão todas enrodilhadas no fundo. Mas gostava tanto daqueles sapatinhos de verniz e tive tanta pena de deixar de os calçar, pois em três tempos deixaram-me de me servir. Quando há uns 16 ou 17 anos voltaram-se a usar-se os sapatos muito bicudos e apeteceu-me imenso comprar um desses modelos em verniz, mas fui ameaçado por amigos e filhos, de que não sairiam à rua comigo com esses sapatos calçados.

Mas voltando à figurinha em biscuit, ela foi-me vendida como paliteiro, embora não acredite muito nisso. Os paliteiros em louça são coisas muito portuguesas. Quanto muito será uma fosforeira, ou muito mais provavelmente um bibelot.

Além do pormenor dos sapatinhos, achei muita graça ao chapéu e vestido da menina que me parecem já dos anos 20, de um período em que a costureira Jeanne Lanvin (1867-1946) já tinha revolucionado a moda infantil, ao começar a desenhar os modelos para a sua própria filha, Marguerite, todos eles muito mais simples práticos, do que a chamada moda fin-de-siècle.

Como a própria Jeanne Lavin recordava no tempo da minha infância as meninas eram vestidas de forma lamentável, como sacos de bombons, marujas de catálogo ou pior ainda como damas de meia idade anãs.

A menina usa polainas nas pernas

E com efeito a menina de biscuit não usa laçarotes complicados nem uma profusão de rendas e folhos. Tem um chapéu discreto na cabeça e um vestido simples alargando para baixo, com as golas e as mangas em amarelo. Podia ser quase um traje contemporâneo, não fosse um pormenor, que esse sim, caiu definitivamente em desuso, umas polainas. Com efeito, consultando na net antigas revistas de moda doa anos 20 encontra-se ainda figurinos com muitos meninos e meninas usando polainas nas pernas.

Um figurino do início dos anos 20


Bem sei que menina em biscuit fabricada nos anos 20 do século passado na Alemanha, não é uma obra de arte, embora a peça tenha sido muito bem executada e pintada. Mas o que me agrada nela sobretudo é recordar-me aqueles sapatinhos de verniz, que tive em criança.



Alguns links consultados 

sexta-feira, 1 de dezembro de 2023

A rapariga e o ganso: figurinha em biscuit ou entre a Alemanha e a França



Nos mercados de velharias, por vezes há vendedores perigosos, que nos colocam na mão peças a um preço irrecusável e lá voltamos nós para casa com mais um bibelot, um bule, uma chávena ou uma estampa. Foi o que me aconteceu a semana passada com esta figurinha em biscuit, representando uma jovem e um ganso, que tenta bicar aquilo que ela transporta no cesto. Encantei-me logo com esta figurinha produzida naquele movimento característico da arte nova, além de que me fez recordar de imediato uma personagem de um daqueles contos de fadas, em que um príncipe é transformado num ganso por uma bruxa, ou uma rapariga que é pobre vai à feira vender o ganso, que coloca ovos de ouro. Enfim, qualquer coisa desse género.



Mas, esta peça está marcada, o que é raro num biscuit e antes de tentar saber que personagem representa esta peça, fui tentar saber quem foi o seu fabricante. A marca incisa é constituída por dois traços formando um X, com um S, maiúsculo no meio, ou seja, é mais umas das muitas marcas da cerâmica europeia, imitando as célebres espadas cruzadas da porcelana de Meissen. Mas como peças de Meissen nunca aparecem nas feiras e muito menos vendidas 10 euros, fiz uma pesquisa no google, por Meissen porcelain marks fakes e la encontrei uma lista de fabricantes de porcelana e biscuit, que usaram marcas semelhantes às espadas cruzadas daquela mítica fábrica e a partir daí cheguei ao nome do fabricante a Porzellanmanufaktur A.W.F. Kister G.m.b.H., conforme confirmei no site https://www.porcelainmarksandmore.com/. 

Marca da Porzellanmanufaktur A.W.F. Kister G.m.b.H.


Muitas vezes as peças deste fabricante alemão aparecem à venda nos sites de antiguidades como porcelana ou biscuit de Scheibe-Alsbach, nome de uma cidade da Turíngia, onde esta fábrica estava situada. Nunca tinha ouvido falar da cidade de Scheibe-Alsbach, pois infelizmente todos nós vivemos num desconhecimento de tudo o que é alemão. Em todo o caso, a Turíngia, juntamente com a Saxónia ou o Saxe foram e ainda são regiões alemãs grandes produtoras de porcelana e onde abundavam estas fábricas, que produziam e exportavam delicadas figurinhas de biscuit para o mundo inteiro.

Quanto à datação é mais complicado. A marca com as espadas e um S foi usada entre 1905 e 1972, mas por uma questão de intuição, parece-me mais coisa do primeiro quartel do século XX.

O número de série é o 9908


Mas enquanto andava nestas deambulações solitárias pela internet tinha à minha frente à estatueta e percebi que o ar familiar que ela despertava em mim não tinha tanto a ver com os contos de fadas da nossa infância, mas antes como traje da jovem, em particular com o toucado, que parece um gigantesco laçarote e pensei que talvez ela representasse uma alsaciana. Fiz mais umas quantas pesquisas na net e confirmei que a jovem enverga o típico toucado ou coifa da Alsácia, La coiffe à grand nœud. Esta indumentária tradicional da Alsácia é dos trajes típicos mais facilmente reconhecíveis no mundo, mais do que isso só mesmo o das sevilhanas com os seus vestidos com folhos e estampados com bolas. Iniciei então uma serie de pesquisas no google pelos termos alsaciana, estatueta, biscuit, em inglês e em francês e comecei a encontrar a mesma representação, a rapariga com o ganso, em diferentes materiais, gesso, porcelana e bronze, até que descobri que a minha figurinha é uma réplica de uma escultura muito conhecida na cidade de Estrasburgo, a Gänseliesel, em alemão. 



Gänseliesel no jardim da Orangerie em Estrasburgo


A tradução é um bocadinho complicada para português. Gänseliesel quer dizer o ganso da Liesel. Liesel é um diminutivo alemão para Elisabete. Portanto, o melhor é traduzir para português como rapariga do ganso, para não escrever o ganso da Isabelinha ou coisa pior. É um tema muito alemão, que se encontra em cidades, como Göttingen, Monheim am Rhein, Berlim e ainda outras. Na altura, em que esta estátua foi erguida, em 1900, na cidade de Estrasburgo, a Alsácia Lorena tinha a sido anexada pela Alemanha à França uns trinta anos antes e só voltou a ser novamente francesa, depois de 1918. A escultura foi concebida e realizada pelo artista alsaciano Charles Albert Schultz (1871-1953) e instalada no parque da Orangerie daquela cidade e é sem dúvida a sua obra mais conhecida. Normalmente é classificada no estilo no Jugendstil, termo alemão para designar a arte nova.



Em suma, a minha escultura em biscuit foi produzida na Alemanha, na cidade de Scheibe-Alsbach pela A.W.F. Kister G.m.b.H, segundo a escultura Gänseliesel de Charles Albert Schultz (1871-1953) realizada para um parque na cidade de Estrasburgo em 1900. Como essa cidade foi alemã até 1918, creio que o molde desta figurinha terá sido concebido algures entre 1905 e 1918 e apesar do seu ar campestre, é quase um símbolo da terrível inimizade franco-alemã, que esteve na base de três guerras sucessivas, com base na disputa territorial da Alsácia Lorena. Hoje, felizmente, a Alemanha e a França estão em paz e para finalizar estes post, nada melhor do que Göttingen, onde também existe uma Gänseliesel, canção interpretada e escrita por Barbara, essa mulher, nascida em Paris, filha de um judeu alsaciano e de uma judia moldava, perseguida pelos nazis durante a ocupação, mas que celebrou com a sua sensibilidade única a reconciliação franco-alemã.




Ligações consultadas:

https://www.archi-wiki.org/Personne:Albert_Schultz

https://www.navigart.fr/mamcs/artwork/albert-schultz-ganseliesel-250000000005691

https://www.archi-wiki.org/Adresse:Parc_de_l%27Orangerie_(Strasbourg)

https://www.anticstore.com/ganseliesel-106890P

https://www.porcelainmarksandmore.com/germany/thuringia/scheibe-01/index.php

sexta-feira, 21 de julho de 2023

Um bibelot para decorar o piano



No meu post anterior, escrevi sobre uma cobertura de um piano, que no ano de 1904, uma amiga da minha bisavó pretendia fazer, pedindo-lhe a ela e à sua irmã, através de uma carta, retalhos de vestidos para a confeccionar. Também referi que nessa época era moda cobrir os pianos e de como a minha avó Mimi ofereceu um manton de Manila à minha irmã, explicando-lhe que aqueles panos bordados e cheios de franjas eram usados para pôr em cima dos pianos. Além dessas coberturas, nos finais do século XIX e inícios do XX, na Europa e nos Estados Unidos, era também hábito dispor em cima dos pianos umas figurinhas de biscuit, representando bebés ou meninos, que nos mercados de velharias são conhecidos por pianos babies. Curiosamente há uns anos, comprei um desses piano babies no OLX e o vendedor foi precisamente um Senhor que tinha uma casa de pianos ali para São Bento, o que me levou a pensar que sem dúvida essa moda chegou a Portugal. Normalmente, estes bonequinhos de biscuit eram produzidos na Alemanha e os mais famosos pela sua qualidade de execução eram os da Gebruder Heubach, fábrica situada na Turíngia.



Como já expliquei no meu anterior post sobre um piano baby desta fábrica, a Heubach notabilizou-se pela qualidade das suas figurinhas de biscuit, mas também se dedicou à produção de bonecas para as meninas brincarem. A mestria das suas criações tinha a ver com a existência de uma escola de arte nas cercanias da fábrica, à qual a firma alemã ia buscar escultores e pintores para conceberem e pintarem cabeças de bonecas e figurinhas em biscuit, que depois de prontas revelavam expressões e sentimentos de um realismo e detalhe, que ainda hoje nos espantam.

Marca da Heubach, em relevo, com o número do molde, 10181 


O bonequinho que hoje apresento foi a minha última aquisição na Feira de Estremoz e apresenta uma marca da Heubach, em relevo, que segundo a maioria dos sites de antiquários será datada de cerca de 1915 e é assim mais recente, que a figurinha, que comprei há cerca de 7 anos e também de menores dimensões.

Faz parte de uma colecção de figurinhas mais pequenas, que no mercado norte-americano são designadas por position babies or action figures. Imagino, que o nome os produtores alemães lhes dariam, seria diferente, mas em todo o caso são umas figurinhas de bebés surpreendidos em actividade, uns estão zangados e lutam, outros, como este que apresento, fizeram um disparate e olham para nós, como que arrependidos, pedindo para não ser castigados. Talvez seja esta característica que me encanta neste boneco. Recordo-me que a minha sobrinha Isabel, o meu irmão e o meu filho faziam exactamente esta expressão, embora não tenha nenhuma fotografia que a tenha registado. Encontro aqui, moldada em biscuit qualquer coisa de muito familiar, que se perdeu no tempo, pois hoje são todos adultos e aprenderam a disfarçar ou controlar esses sentimentos mais óbvios. Talvez um dos meus futuros netos, depois de ter feito alguma malandrice, baixe a cabeça e abra muito os olhos tristonhos em direcção a mim e eu reencontre esta expressão. Até lá, vou-me deliciando com este piano baby.



sábado, 18 de fevereiro de 2023

Uma insólita figura em biscuit


Comprei esta figurinha de biscuit por tuta-e-meia. Tem o bracinho partido e por isso foi tão barata. Tudo que está incompleto ou partido tem sempre fraco ou nenhum valor comercial. Mas, mal a vi na banca do vendedor, identifiquei-a logo como sendo uma produção da Schafer & Vater, essa fábrica alemã, fundada em 1890 e que se especializou na produção de insólitas figuras em biscuit, muitas delas caricaturas de figuras da época ou mesmo serviços de loiça, também com as mesmas características. Já aqui apresentei um serviço de chá desta fábrica alemã, que representa as sufragistas, essas mulheres, que tanto deram que falar na Inglaterra pelas suas proezas e protestos e cuja fama correu o mundo inteiro, nos finais do século XIX e inícios do XX.


Esta figurinha apresenta uma boca desmesuradamente aberta e a cabeça toda perfurada. Normalmente, aqui em Portugal estes objectos são tomados por paliteiros. Mas o paliteiro é um utensílio muito português. Na verdade, esta estranha figura é uma fosforeira e simultaneamente um cinzeiro. Espetavam-se os fósforos nas cavidades das cabeça e a boca servia para segurar o cigarro ou sacudir uma cinza. Claro, o boneco tinha também uma função decorativa e os seus donos teriam um especial prazer em espetar um cigarro numa figura qualquer pública ou num tipo popular antipático.


As figurinhas Schafer & Vater foram muito populares nos EUA e Inglaterra algumas delas foram mesmo produzidas especialmente para esses mercados, apresentando legendas em inglês, identificando as figuras ou situações postas a ridículo.



A figurinha não está marcada, apresenta apenas o número de série do modelo, 957 e no tardoz alguém escreveu a lápis, qualquer coisa que não consigo ler. Talvez Frauda, Franda, ou Fianda, seguido de uma data, 1917 ou 1927. Será uma marca de posse, uma informação relativa ao preço? Enfim, aceito sugestões.



Em termos de datação, é um pouco complicado. Fundada em 1890 em Volkstedt-Rudolstadt, a Schafer & Vater esteve particularmente activa durante as décadas de 10 e 20 do século XX, depois entrou em decadência. Após segunda guerra mundial, a Turíngia ficou do lado da Alemanha comunista e Schafer & Vater deixou de exportar para o Ocidente e fechou as definitivamente as portas em 1962. No portal de antiquários americano Ruby Lane encontrei umas destas figurinhas, datada de mais ou menos 1910 e creio que a data deste meu boneco deve andar por aí.

Figura à venda no Ruby Lane



Bem sei que esta uma fosforeira / cinzeiro é peça um bocadinho insólita, está partida e não tem valor comercial. Mas eu adoro estes biscuits alemães do princípio do século XX.



Algumas ligações consultadas:


Schafer & Vater Porcelain / by Peter P. Spirit
http://stein-collectors.org/Members/private/PrositArticles/201303Prosit/Schafer%20and%20Vater%20Porcelain%20--%20by%20Peter%20P%20Spirito%20(Prosit%20Mar%202013).pdf


https://www.iconicedinburgh.co.uk/products/copy-of-antique-porcelain-smoking-head-ashtray-by-schafer-vater-by-the-light-of-the-silvery-moon


https://www.rubylane.com/item/1836869-Matchx20Holderx2cx20Sickx20Head/Original-Schafer-Vater-Match-Holder-Sick?search=1&t=6fc2b2c0


sábado, 26 de novembro de 2022

Uma figurinha em biscuit da Goebel Porzellan

Apesar de já ter jurado a mim próprio ser mais comedido nas minhas compras de velharias, acabo sempre por me deixar tentar por uma peça bonita à venda por um preço vantajoso e lá volto para casa com mais um traste e depois vejo-me grego para lhe arranjar lugar. Para que as peças façam sentido e sejam agradáveis à vista convém dispô-las por famílias, por épocas ou por materiais.


Comprei então este biscuit, que representa uma jovem e uma menina, vestidas de camponesas, cada qual com o seu cestinho. É uma peça sentimental, muito característica da produção alemã dos finais do século XIX e inícios do século XX. A grande maioria dos biscuits alemães não apresenta qualquer marca de fabrico. Quanto muito ostentam na base um número, que se reporta certamente ao modelo. Consigo identificar que são alemães, porque desde há doze anos para cá vasculho todas as páginas de vendas de antiguidades na internet à procura de biscuits e aprendi a conhecer-lhe as características. Mas na Alemanha houve centenas de fábricas de porcelana e é um mundo no qual nos perdemos. Para aumentar a dificuldades, os austríacos também fabricaram biscuits, bem como os checos e alguns dos fabricantes deste último país usavam nomes alemães. Mas desta vez tive sorte e este biscuit, além do número da série, o 7872., apresenta uma marca do fabricante, as iniciais W e um G ou C, encimadas por uma coroa.

As letras W e G encimadas por uma coroa

7872
O número da série ou modelo, o 7872

Lancei-me então numa pesquisa intensa na internet e não foi fácil, pois marcas com iniciais encimadas por coroas há centenas delas pela Europa fora. Enfim, muitas empresas nos finais do século XIX ou início do século XX escolhiam coroas nas marcas, para parecer que eram fornecedores oficiais de alguma casa real. Consultei também alguns livros de marcas de cerâmica de que disponho na biblioteca, mas em vão, até que por mero acaso na internet descobri que as iniciais WG encimadas por uma coroa foram usadas pela Goebel Porzellan, uma fábrica que ainda existe nos nossos dias. As letras WG correspondem às inicias no nome de um dos fundadores da empresa, William Goebel. 

As marcas da Goebel Porzellan

Esta fábrica foi fundada em 1871 em Oeslau-Rödental, perto de Coburgo, numa parte da Baviera, já encostada à Turíngia, que juntamente com o Saxe é a grande zona de produção de porcelana na Alemanha. A marca em questão foi usada nos anos de 1900, assinalando o tempo em que a fábrica passou a apenas a ter um único proprietário, o já referido Sr. William Goebel. Nessa época, esta casa notabilizou-se pela produção destas encantadoras figurinhas de crianças, que ainda hoje nos fazem sorrir, estatuetas ao gosto de Meissen ou de animais exóticos e ainda cabeças em biscuit para bonecas de meninas, estas últimas valorisadíssimas pelos coleccionadores. 

biscuit da Goebel Porzellan
Goebel Porzellan produzia cerca de 1900 estas encantadoras figurinhas de crianças, que ainda hoje nos fazem sorrir. Biscuit da Goebel à venda em  https://www.catawiki.com

Logo neste período os Estados Unidos tornaram-se um mercado importante para a as porcelanas Goebel e nos anos 50 essa popularidade aumentou ainda mais naquele país com a produção de figurinhas da Disney e continuaram a fabricar bonecada até aos dias de hoje. Alguma dessa bonecada dos anos 50 e 60 é a meu ver medonha, mas isto dos gostos é uma coisa, que varia com o tempo.

biscuit da Goebel Porzellan

Este meu biscuit parece contar qualquer história, uma jovem e uma menina, que vão ao mercado ou colher frutas, pois tem ainda os cestos vazios e a mais nova estende a mão, como que pedindo alguma coisa à mais velha. Talvez no início no século XX as pessoas identificassem claramente o significado desta representação e fossem figuras, que se viam nas ruas ou nos campos da Alemanha dos primeiros anos do século XX. Hoje, teremos que imaginar uma narrativa qualquer para estas meninas em biscuit.

biscuit da Goebel Porzellan


Algumas ligações consultadas:


quarta-feira, 9 de novembro de 2022

Busto em biscuit representado Luís XVII de França



Recentemente viajei até Viena de Áustria e entre visitas a museus, palácios e igrejas dei um pulinho ao principal mercado de velharias da cidade, o Naschtmarkt. As feiras de velharias têm sempre um ambiente engraçado, com aquela mistura de gente de todas as classes sociais, de turistas e ainda das faunas alternativas típicas das grandes cidades. Os preços eram altos, mas quando não se conhecem os vendedores e sobretudo a língua é mais difícil negociar. Mas, lá comprei uma por um preço aceitável uma peça qualquer, para não ficar sem com uma recordação daquela cidade elegante.

Trata-se de um pequeno busto de perfil, imitando os antigos camafeus, disposto num veludo verde encaixilhado em latão dourado. Como a moldura é um porta-retratos tive ainda alguma esperança que fosse um retrato verdadeiro de algum jovem, cuja memória fosse querida para a família e tivesse merecido uma moldura para ser colocada numa cómoda ao lado de fotografias antigas de família. Nos finais do século XIX ou inícios do XX, data em que pareceu provável datar peça, ainda havia quem encomendasse retratos de si ou dos seus em camafeu, ainda que fosse apenas em gesso. Mas, como já tenho alguma experiência destas coisas, achei que isso seria sorte em demasia e era mais natural que esta peça fosse uma réplica qualquer de outra mais antiga. E de facto, olhando melhor para o menino de cabelo comprido e uma blusa aos folhos, representado no camafeu, pareceu-me que este estava trajado à moda dos últimos anos do século XVIII.

O pequeno busto está emoldurado num porta-retratos em latão dourado.

Lembrei-me que já tinha visto esta imagem algures e tive um pressentimento de que se tratava do delfim de França, Louis-Charles de France, o filho de Maria Antonieta e Luís XVI, que morreu de maus-tratos na prisão do Templo em 1795. Pesquisei no google pelos termos cameo Dauphin Louis XVII e o segundo resultado foi uma figura igualzinha à minha, que esteve à venda num antiquário francês pela exorbitante quantia de 1.000 euros!! Enfim, há sempre comerciantes de velharias que acham que estão a vender as joias da coroa. Em todo o caso, nas Antiques de Laval confirmei que se tratava do busto do menino Louis-Charles de France, identificaram o material, biscuit e ainda adiantavam a data, início do século XIX. Fiquei muito surpreendido, pois sempre achei que este busto camafeu era uma coisa qualquer dos finais do XIX ou até mesmo dos primeiros anos do XX.

Busto em biscuit vendido nas Antiques de Laval 


Lancei-me então numa busca desenfreada na net para tentar confirmar os dados das Antiques de Laval e fiquei surpreendido com as centenas de representações que existem deste menino. Encontrei bustos em vulto pleno, pinturas miniatura, medalhas e dezenas e dezenas de gravuras diferentes. Existe até uma página na internet inteiramente dedicada às representações de Louis-Charles de France, o http://musee.louis.xvii.online.fr/index.html, com uma extensa iconografia, mas mesmo em sites institucionais como o British Museu, contei pelo menos 106 representações daquele que os realistas consideram ser o Luís XVII de França.

A iconografia de Luís XVII é vasta. imagem da página http://musee.louis.xvii.online.fr/index.html


Já tinha uma ideia da enorme popularidade das imagens de Maria Antonieta, essa rainha cuja existência decorreu de uma forma frívola e elegante, mas que na hora do seu julgamento em 1793 mostrou uma enorme dignidade, sendo guilhotinada nesse mesmo ano. No entanto desconhecia, que as imagens do seu filho, o jovem delfim, fossem também tão populares. Mas é natural, pois sua história foi tão dramática. Foi aprisionado com os pais, depois separado deles, vítima de maus-tratos, alcoolizado e obrigado a testemunhar contra a sua mãe, acusando-a de incesto. Viu os pais serem conduzidos ao cadafalso e acabou por morrer de tuberculose na prisão do templo em 1795. Talvez por essa razão, as representações do jovem delfim sejam em tão grande número, apreciadas pelos coleccionadores e atinjam preços altos no mercado.

Retrato de Maria Antonieta na sua cela da Conciergerie. Gravura impressa por John Murphy, a partir de Anne Flore Millet, marquise de Bréhan, 1875. Col. do British Museum 


Tentei de seguida saber qual a origem desta representação e apesar de facilmente perdermo-nos no meio uma iconografia tão abundante, julgo que as fontes principais deste busto em biscuit foram as seguintes obras:



- O retrato pintado por Alexander Kucharsky em 1792, que se encontra actualmente no Palácio de Versalhes;

Foto copiada de https://www.we-art-together.fr/produit.php?id=454


- O desenho feito pelo fisionotraça Chrétien Fouquet c. de 1791, mais tarde gravado por Gilles-Louis Chrétiens (1745-1811)

Provavelmente quem passou a imagem do malogrado Delfim a biscuit fez uma composição a partir destas duas representações. Contudo, a imagem mais próxima é de uma medalha executada provavelmente depois de 1815, data da restauração da Monarquia em França.

Medalha representado Luís XVII encontrada à venda no e-bay


Dediquei-me então a tentar perceber em que país foi executado este biscuit. A peça foi comprada na Viena e quer este país, quer a vizinha Alemanha, no século XIX, tiveram uma ampla produção de biscuits. O jovem delfim era filho de uma austríaca e neto da imperatriz Maria Teresa, uma soberana cujo governo é ainda hoje venerado por todos os austríacos. Portanto, esta peça poderia ser austríaca, mas os bustos de perfil, que encontrei desta época em museus europeus ou antiquários representado várias figuras da realeza ou da grande aristocracia de França são normalmente de fabrico francês. 

Col. do Museu Nacional de Soares dos Reis. Foto reproduzida de João Allen : colecionar o mundo. - Porto : Museu Soares dos Reis, 2018


Nos finais do século XVIII e primeira metade do século XIX, em Inglaterra Wedgwood também fabricou estas figuras de reis e rainhas inspiradas nos antigos camafeus, mas normalmente não eram recortadas o fundo era azul.

O British Museum tem na sua colecção um destes bustos em biscuit representado Luís XVI, atribuído a Sèvres ou pelo menos a um fabricante francês e na ficha de inventário, explica-se, que depois da restauração da monarquia em França estas figuras de perfil representando figuras da realeza alcançaram grande popularidade. Eram normalmente encaixilhadas em molduras de madeira ou latão e na segunda metade do século XIX a moda tornou-se expô-las em séries reais na mesma moldura. Algumas destas figuras eram já fabricadas antes da Revolução de 1789 e o seu fabrico foi retomado depois de 1815 para satisfazer os monárquicos saudosistas do ancient regime. Em todo o caso, as fábricas francesas produziram também estes bustos de perfil de Napoleão Bonaparte, de Josefina, de Luís XVIII e ainda de outros grandes titulares da nobreza francesa.

Na segunda metade do século XIX tornou-se moda emoldurar estes pequenos bustos em conjunto, formando séries régias. Retratos de seis membros da família real francesa. Biscuit da Manufactura de Sèvres, de Jean Charles Nicolas Brachard, o velho (1766–1823), c. 1822. Philadelphia Museum of Art


Nesta altura das minhas pesquisas, sabendo já que esta figura de perfil em biscuit valia no mercado de antiguidades, bem mais do que eu paguei por ela, resolvi pedir ao meu amigo Manel para a descolar do suporte de veludo onde está colada no sentido de ver se tinha alguma marca de fabrico. E de facto, o meu amigo assim fez. A peça está marcada, mas apenas com a identificação do personagem Orphan Louis XVII. Neste momento fiquei com uma dúvida. Orphan é a palavra inglesa para órfão. Em francês seria orphelin. Será que Orphan é uma abreviatura para orphelin. Enfim, o espaço para escrever desta peça é diminuto e quem fez esta inscrição teve que recorrer a uma abreviatura. Será que esta inscrição é posterior ao fabrico da peça?

O verso do busto. Orphan Louis XVII.


Em suma este busto de perfil em biscuit, talvez tenha sido produzido em França depois da restauração da monarquia em 1815 e representa o Delfim, o pequeno Louis-Charles, que terminou a sua breve vida de uma forma tão trágica e desamparada. Terá sido coleccionado primeiro pelos saudosistas do antigo regime e depois, mais tarde pelos burgueses ricos, que acreditavam que terem bustos da realeza nas suas casas, emprestava ao ambiente um ar mais fino. Finalmente, hoje em dia, é um objecto apetecido pelos colecionadores de memorabilia real, que se dedicam a comprar fotografias antigas dos últimos czares da Rússia, representações de Napoleão Bonaparte ou caixas de joias vazias, fitas e laços e luvas, que pertenceram a nossa rainha D. Amélia de Orleans.