Aprendi a julgar o mundo segundo as fórmulas de um certo pensamento cartesiano, muito francês, que era ensinado aos jovens nos cursos superiores de letras, em Portugal, ainda há cerca de vinte e cinco anos atrás. Mas apesar dessa formação, julgo que talvez seja um homem com uma faceta algo romântica, que se evidencia através de gosto pronunciado pelas coisas antigas e já sem préstimo, por histórias vividas por gente há muito morta e ainda pelo gosto da ruína.
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| O muro que se via ao longe |
Foi esta atracção algo doentia pela ruína que me levou a suspeitar que um muro gigantesco, atrás de um cemitério, que eu via ao longe em Fronteira, quando passava de carro para levar os miúdos ao rio, poderia ser qualquer coisa de interessante. Um dos dias que passei por lá a caminho do rio, não resisti, desviei o carro com os garotos aos berros e fui investigar o muro e quando dei a volta, qual não é o meu espanto, quando encontro uma igreja quinhentista em ruínas, da qual só sobreviveu uma única parede, a da fachada Norte.
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| A surpresa: as ruínas da Capela do Espírito Santo em Fronteira |
Apesar da tristeza e da sensação de abandono, encontrei uma enorme poesia naquela única parede em ruínas, mas ainda com as capelas laterais bem perceptíveis. Os restos desta igreja do Espírito Santo em Fronteira recordaram-me as ruínas das antigas igrejas portuguesas na Malásia ou na Índia e que já foram invadidas pela selva.
Aliás é curioso, que esta associação entre a selva e a ruína foi uma das novidades da jardinagem inglesa do século XVIII, que começou a introduzir em pontos chaves dos parques, falsas ruínas, convidando assim as damas galantes e os cavalheiros solitários a pararem por um momento e reflectirem sobre as vãs vaidades do mundo e a efemeridade das construções humanas. Estes pequenos monumentos, conhecidos pelo termo francês Fabrique de jardin serviam para assinalar pontos chaves do jardim, sítios onde existia uma vista bonita, uma cascata pitoresca ou árvores exóticas. Além de ruínas, estas Fabrique de jardin poderiam ser também simples colunas, templetes, estátuas ou pagodes.
Fugindo à rigorosa simetria dos jardins italianos ou franceses, foram os ingleses que nos finais do século XVIII e ao longo do século XIX criaram e aperfeiçoaram a ideia de que o jardim deveria recriar a natureza, criando a ilusão, que pequenas elevações eram montanhas, que charcos de rega eram lagos e que os simples trilhos eram caminhos numa floresta encantada. Os jardins deveriam induzir sentimentos e diversos estados de espírito aos seus caminhantes.
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| Falsa ruína no parque de Jean-Jacques Rousseau em França |
E é neste contexto que o rosto pela ruína e pelo exótico se desenvolve na jardinagem. Seguindo a moda inglesa, constroem-se nos parques de toda a Europa templetes gregos, que se deixam deliberadamente por acabar, reaproveitam-se cantarias antigas, como as janelas manuelinas na Quinta das Cruzes do Funchal e fazem-se até réplicas de dolmens e antas.
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| Janela manuelina do jardim da Quinta das Cruzes no Funchal |
São pois jardins extremamente sentimentais, que não devem deixar indiferentes os seus visitantes. Junto à janela manuelina experimentar-se-ia um sentimento de orgulho nacionalista, perto dos fragmentos da coluna romana, pensar-se-ia em civilizações perdidas e junto de outra ruína recordaríamos as paixões perdidas de uma juventude que já nos abandonou há muito.
Voltando a capela do Espírito Santo de Fronteira, é preciso dizer que é um lado de uma praça sem graça nenhuma, com um bairro social em frente. Eu imaginava para ali um jardim selvagem que integrasse poeticamente esta ruína. Talvez o nosso amigo
Zé Júlio possa enviar uma proposta à Câmara Municipal de Fronteira, com um dos seus projectos de jardim xerófilo.