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segunda-feira, 26 de março de 2012

Torre sineira com azulejos em Fronteira

Nem sei como começar este post. Talvez escrevendo, que muitas terras portuguesas tem um património arquitectónico interessante e que estão cheias de pormenores surpreendentes aqui e ali e que esse conjunto de singularidades formam um todo muito próprio, que nos agrada e nem sabemos dize-lo porquê. É o tal je ne sais quoi de que falam os franceses, mas que reside precisamente em detalhes, como o revestimento azulejar desta torre sineira em Fronteira. Os azulejos são do mais simples que há, azuis e brancos, formando um xadrez e apesar de ser uma combinação que qualquer criança é capaz de montar formam um todo cheio de ritmo e brilho.  


Eu adoraria ter em casa azulejos destes. Por vezes quase que desejo que rebente um cano na casa de banho, para mandar partir os azulejos todos e colocar esta combinação, azul, branco, azul, branco, azul. Mas, enfim, é melhor não ter pensamentos destes, pois o cano rebenta mesmo e eu não tenho dinheiro para pagar ao homem. Mas continuo a sonhar com esta combinação infinita de azuis e brancos.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Varanda de ferro forjado em Fronteira


Quando viajo pelo interior do País e visito terras de província com centros históricos ainda bem conservados, apetece-me sempre ficar ali. Arranjar um emprego na Biblioteca pública local, abandonar Lisboa e comprar uma casa antiga bonita, cheia de história, com bonitas varandas de ferro forjado, com a desta casa que vi e fotografei em Fronteira no Alentejo.

Talvez este ensejo em me fixar numa terra antiga da província, seja um sentimento romântico de regressar às casas onde se criarem os meus pais e os meus avôs e fazer reviver esse passado familiar, aquela sensação única de estar num quarto e ver o sol entrar por uma janela de guilhotina, iluminando um soalho antigo, a cheirar a cera. Decididamente, num apartamento dos anos 60 ou 70 de Benfica não se consegue viver essa alma de uma casa antiga.

Esta casa em Fronteira, que parece conter dentro das suas janelas, toda uma sucessão de histórias familiares, atraiu-me pela beleza das cantarias, mas também pela elegância do trabalho de ferro forjado, em estilo D. Maria. Tentei encontrar alguma informação sobre  a origem ou o fabrico destes gradeamentos artísticos, mas não consegui obter nada. Há uma obra, Grades de Lisboa, de 1947, do período da casa portuguesa, que tem bonitos desenhos, mas com um texto fraco, pois a obra pretendia apenas exortar os portugueses de então a fazer as varandas das suas moradias e casas, copiando os modelos do passado e enfim, não podemos criticar o autor por essa intenção. Li também na obra Ferros forjados do Porto de 1955, que o distrito de Portalegre tinha uma grande tradição no fabrico do ferro forjado e que este trabalho tanto era feito pelos serralheiros, como pelos ferreiros. Imagino que a seguir ao terramoto de 1755, muitas oficinas em Lisboa tenham crescido exponencialmente, para satisfazer a procura que a construção de casas novas suscitava e talvez esta varanda, tenha sido executada por uma dessas oficinas pombalinas, mas é uma grande interrogação.


Em todo o caso, seja lá qual for a oficina que fez esta bela obra, apetece viver numa casa destas.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Um Dragão em Fronteira


Na melhor rua da vila de Fronteira no Alentejo, onde de um lado e outro abundam belas casas senhoriais dos séculos XVIII e XIX, cheias de uma dignidade contida, há um chalet construído nos finais do século XIX, que se destaca pela sua arquitectura exuberante, espalhafatosa, quase gótica. Trata-se certamente de uma chamada casa de brasileiro, isto é um palacete construído por algum português que fez fortuna nas terras de Vera Cruz e quando voltou à Santa Terrinha, fez erguer um palacete construído segundo a última moda de Manaus, a mítica cidade do Amazonas onde se fizeram fortunas alucinantes e o dinheiro era tanto que se construiu uma ópera para atrair o grande Caruso.


Aliás, em Portugal a casa de brasileiro, passou a ser uma expressão que designa um determinado de vilas e palácios, com uma arquitectura tendencialmente vertical, normalmente vilas e palácios, construídos nos finais do XIX, princípios do XX e decorados de forma exuberante, com muitos azulejos, ferros forjados, janelas e vidros coloridos.


A porta com motivos arte nova e vidros coloridos (foto do Manel)

Foram construídos por portugueses regressados do Brasil e foram alvo de chacota da boa sociedade de então, conforme nos testemunham os textos satíricos dos escritores da época. Camilo Castelo Branco escreveu acerca delas Vão-se os olhos naquilo! Esta maravilha arquitectónica devem-na as artes ao gosto e génio pinturesco de um rico mercador que veio das luxuriantes selvas do Amazonas, com todas as cores que lá viu de memória e todas aqui fez reproduzir sob o inspirado pincel de trolha.


No entanto, o tempo perdoa muita coisa e hoje cento e dez anos depois, essas casas parecem-nos charmosas nas suas fantasias decorativas, como este palacete de Fronteira, com um dragão no pináculo, a sugerir um romance da Idade Média ou as suas varandas com o ferro forjado arte nova. E depois, em comparação com os caixotes da arquitectura modernista dos anos 60, 70, 80 e 90, tudo o resto nos parece aceitável e humano.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Fotografias antigas da capela do Espírito Santo em Fronteira

Quando escrevi o meu post sobre as ruínas da capela do Espírito Santo na vila de Fronteira, a Maria Andrade comentou com amargura a destruição de uma casa antiga em Anadia e na promessa não cumprida de a Câmara recuperar uma janela manuelina dessa casa, para a colocar num jardim. O Flávio escreveu que gostaria era de ver imagens da capela antes da sua destruição parcial, em 1970. Apesar da beleza destas ruínas, o que as pessoas queriam dizer era que teria sido bem melhor conservar e restaurar o monumento do que deixa-lo cair.


Estes comentários deixaram-me a matutar e resolvi procurar mais sobre esta capela, seguindo uma das pistas indicadas no site http://www.monumentos.pt/, que indica como referência básica o autor Keil.


O portal lateral
Calculei logo que se tratasse do Luís Keil, que entre outras coisas foi funcionário do Museu Nacional de Arte Antiga e descobri através de uma pesquisa bibliográfica, que o quer ele tivesse escrito sobre Fronteira só poderia estar Inventário artístico do Distrito de Portalegre, publicado em 1943.


O púlpito
Consultei o referido volume e lá estavam as fotografias da capela ainda inteira, apesar de já muito arruinada, com a porta principal emparedada. No entanto no início dos anos 40 ainda tinha tecto, o púlpito, um tecto e as 4 fachadas.

O portal principal já emparedado

Resolvi partilhar essas fotos com os seguidores deste blog, bem como com as outras pessoas que por aqui passam, trazidas ao acaso pelas pesquisas nos motores de busca. São fotos de fraca resolução e a preto e branco, mas documentos significativos.
O altar da fotografia inicial

sexta-feira, 22 de julho de 2011

O romantismo da ruína: restos da Capela do Espírito Santo em Fronteira


Aprendi a julgar o mundo segundo as fórmulas de um certo pensamento cartesiano, muito francês, que era ensinado aos jovens nos cursos superiores de letras, em Portugal, ainda há cerca de vinte e cinco anos atrás. Mas apesar dessa formação, julgo que talvez seja um homem com uma faceta algo romântica, que se evidencia através de gosto pronunciado pelas coisas antigas e já sem préstimo, por histórias vividas por gente há muito morta e ainda pelo gosto da ruína.

O muro que se via ao longe

Foi esta atracção algo doentia pela ruína que me levou a suspeitar que um muro gigantesco, atrás de um cemitério, que eu via ao longe em Fronteira, quando passava de carro para levar os miúdos ao rio, poderia ser qualquer coisa de interessante. Um dos dias que passei por lá a caminho do rio, não resisti, desviei o carro com os garotos aos berros e fui investigar o muro e quando dei a volta, qual não é o meu espanto, quando encontro uma igreja quinhentista em ruínas, da qual só sobreviveu uma única parede, a da fachada Norte.

A surpresa: as ruínas da Capela do Espírito Santo em Fronteira

Apesar da tristeza e da sensação de abandono, encontrei uma enorme poesia naquela única parede em ruínas, mas ainda com as capelas laterais bem perceptíveis. Os restos desta igreja do Espírito Santo em Fronteira recordaram-me as ruínas das antigas igrejas portuguesas na Malásia ou na Índia e que já foram invadidas pela selva.


Aliás é curioso, que esta associação entre a selva e a ruína foi uma das novidades da jardinagem inglesa do século XVIII, que começou a introduzir em pontos chaves dos parques, falsas ruínas, convidando assim as damas galantes e os cavalheiros solitários a pararem por um momento e reflectirem sobre as vãs vaidades do mundo e a efemeridade das construções humanas. Estes pequenos monumentos, conhecidos pelo termo francês Fabrique de jardin serviam para assinalar pontos chaves do jardim, sítios onde existia uma vista bonita, uma cascata pitoresca ou árvores exóticas. Além de ruínas, estas Fabrique de jardin poderiam ser também simples colunas, templetes, estátuas ou pagodes.


Fugindo à rigorosa simetria dos jardins italianos ou franceses, foram os ingleses que nos finais do século XVIII e ao longo do século XIX criaram e aperfeiçoaram a ideia de que o jardim deveria recriar a natureza, criando a ilusão, que pequenas elevações eram montanhas, que charcos de rega eram lagos e que os simples trilhos eram caminhos numa floresta encantada. Os jardins deveriam induzir sentimentos e diversos estados de espírito aos seus caminhantes.

Falsa ruína no parque de Jean-Jacques Rousseau em França

E é neste contexto que o rosto pela ruína e pelo exótico se desenvolve na jardinagem. Seguindo a moda inglesa, constroem-se nos parques de toda a Europa templetes gregos, que se deixam deliberadamente por acabar, reaproveitam-se cantarias antigas, como as janelas manuelinas na Quinta das Cruzes do Funchal e fazem-se até réplicas de dolmens e antas.

Janela manuelina do jardim da Quinta das Cruzes no Funchal

São pois jardins extremamente sentimentais, que não devem deixar indiferentes os seus visitantes. Junto à janela manuelina experimentar-se-ia um sentimento de orgulho nacionalista, perto dos fragmentos da coluna romana, pensar-se-ia em civilizações perdidas e junto de outra ruína recordaríamos as paixões perdidas de uma juventude que já nos abandonou há muito.

Voltando a capela do Espírito Santo de Fronteira, é preciso dizer que é um lado de uma praça sem graça nenhuma, com um bairro social em frente. Eu imaginava para ali um jardim selvagem que integrasse poeticamente esta ruína. Talvez o nosso amigo Zé Júlio possa enviar uma proposta à Câmara Municipal de Fronteira, com um dos seus projectos de jardim xerófilo.