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sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Chanson d'Automne

Les feuilles mortes - Yves Montand
*
Dans le milieu d´une nuit de mon Automne je me suis réveillé pour rêver dans un temps où je n´ais pas vécu. Comme si je voulais vivre, encore une fois, à un Paris lointain, et rester un enfant dans le jardin de tes bras en écoutant la caresse de tes lévres qui racontent des histoires douces à mon oreille. Oui. Encore une fois le parfum des linges de ton lit dans un appartement oú Baudelaire et les poétes maudits était assis à la fenêtre sur la Seine. La Seine qui nous berçait dans une chanson de Trenet avec les paroles de Prévert dans l´écume des jours, allumés par des images de Josephine Baker et des dessins inconnus de Picasso sur l´amour éternel de Mistinguett et Maurice Chevalier. Aprés une promenade dans un jardin peint par Monet oú il y avait des feuilles que semblait des étoiles oú peut-être des oiseaux avec des couleurs de l´Automne qui éclatait avec la lumiére de l'après-midi… encore une fois le ciel de l´Opera sur mon coeur qui bat dans ton coeur (comme si nous avons seulement un couer à nous deux) sous le satin de ta peau. Oui mon amour. Encore une fois à Paris avec mes yeux dedans la porte ouverte de tes yeux (et ils sont beaux tes yeux) dans un petit café à S. Germain eternisé dans une peinture de Renoir. Encore une fois danser une chanson de Yves Montand dans la pénombre de ta chambre et voler dans un ciel outremer comme des amants de Chagall. Comme ça. Encore une fois. 

domingo, 6 de janeiro de 2013

The statue


Dimanche

Entre les rangées d'arbres de l'avenue des Gobelins
Une statue de marbre me conduit par la main
Aujourd'hui c'est dimanche les cinémas sont pleins
Les oiseaux dans les branches regardent les humains
Et la statue m'embrasse mais personne ne nous voit
Sauf un enfant aveugle qui nous montre du doigt.

(Jacques Prevert)

We have all the time in the world - Louis Amstrong

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

The red seeds


Perfect day - Valdi Sabev
*****

I must say humbly that during all my life I forgot many times to look through the windows of my heart. Now I´m still learning to look for the Love hidden inside it. Everyday I´m recognizing more and more opportunities to open doors bringing it to Outside and Outside to Inside.
This first morning of 2013 was sunny and I was walking as usual at forest near my house and felt for the first time, after many years, that the avenue full of fallen leaves I was crossing could be my own Autumn avenue waiting for the wind to blow the leaves away. And contrasting with all the colors all around I found some red seeds glowing and seeming as if they have some light inside. I felt it like another signal telling me it was one heart´s door open. And Love flows. Compassion for all my brothers and sisters suffering (physical and psychological) at this very moment worldwide from severe and unimaginable diseases or wounds. No party time or laughs but time to send my “red seeds” to them telling they are loved inside my heart and that´s the time to have not fear of the Fear. There´s no frontiers for Love because we are one and what we feel are reaching all the others. Let´s send more and more “red seeds” to everyone and the Love´s tree will grow on mother Earth. 

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

My dog was not a dog

O meu cão não era um cão.
Durante mais de oito anos ensinou-me a falar sem abrir a boca. Numa linguagem de olhares e de pequenas expressões ambos sabíamos o que o outro pensava e sentia.
O meu cão não era um cão.
O seu olhar doce e atento foi-me mostrando que é possível amar incondicionalmente ao mesmo tempo que me ensinava a rir e a brincar como um cão.
Mas o meu cão não era um cão.
Era como se nos entendessemos numa frequência de onda especialmente sintonizada para nós. Assim, sabíamos que precisávamos um do outro e fomos companheiros das cumplicidades do dia-a-dia. A paz invadia-nos quando sabíamos que o outro estava perto e a alegria dos gestos amenizava os temporais da vida.
O meu cão não era um cão.
Confiávamos a cem por cento um no outro porque sabíamos com quem não podíamos contar.
A pouco e pouco foi-se instalando um processo mimético. Cada vez mais ia ficando parecido comigo e eu com ele. Os outros foram os primeiros a reparar. Só agora vejo que tinham razão.
O meu cão não era um cão.
Era um outro eu. Para melhor. Como um alter-ego especialmente desprendido dos valores materiais e dotado de sentidos e intuições especiais e de afectos sem reservas.
Por isso no processo de mútua transferência de características fiquei a ganhar. Fiquei uma pessoa também melhor. Coisa que, naturalmente, só um ser muito especial pode fazer. Por isso digo: o meu cão não era um cão. Era o meu irmão gémeo que me acenava com a cauda – do outro lado do espelho.
O meu cão não era um cão...

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Em 1963 - Uma canção mágica

Foto do autor em 1963

Be My Baby - Ronettes

"Be My Baby" é uma canção mítica publicada em 1963, da autoria de Phil Spector (também produtor) com a colaboração de Jeff Barry e Ellie Greenwich, cantada pelas Ronettes (Veronica Bennett, também conhecida como Ronnie Spector, sua irmã Estelle e a prima Nedra Tailey). Atingiu de imediato o nº2 do US Pop Chart e o nº 4 do UK Record Retailer e do R&B chart. Sendo uma das canções mais célebres e apreciadas, desde essa altura, foi considerada pela revista Rolling Stone como uma das 500 melhores canções de sempre, classificada como a melhor canção Pop de todos os tempos - por uma autoridade como Brian Wilson (dos Beach Boys que em resposta compuseram “Don´t worry baby”) e apresentada por Dick Clark (American Bandstand) como o disco do século (XX). É mais um produto do cesto de Spector - a merecer também muita atenção. Além das Ronnetes colaboraram Hal Blaine na bateria (que é decisiva) e Darlene Love e Sonny e Cher como “backup vocals”. Alvo de múltiplas “covers versions” (Andy Kim, John Lennon, The Lightning Seeds, Blue Oyster Cult, Linda Ronstad e outros) fez parte da banda Sonora dos filmes: “Mean Streets” (1973) de Martin Scorsese e de “Dirty Dancing” (1987). Ninguém fica indiferente à sua magia. Lembro-me que era uma das canções preferidas dos namoros da altura e que a utilizava, durante os bailes de garagem ou organizados em casa de outros adolescentes, para conseguir atrair a atenção “from the girl in my dreams”. Então combinava com um amigo que, coordenado comigo, punha a tocar “Be My Baby” enquanto eu ia entrando na sala do baile – caminhando “softly” e ao ritmo empolgante da bateria (os 10 segundos iniciais são fundamentais) na introdução da música (em crescendo e criando um “suspense” muito especial até “desaguar” numa festa - das vozes do conjunto) em direcção à rapariga por quem estava apaixonado – responsável por um “Síndroma febril indeterminado” que eu apresentava havia algumas semanas. Havia um magnetismo especial no ar e sentia que era como se fosse transportado sobre uma nuvem em direcção à “nuvem” dela que convergia também para minha ("Heavenly" of course). No centro da sala de baile, os pés flutuando alguns centímetros acima do chão encontrávamo-nos e enlaçávamo-nos – com uma cintilação mágica nos olhos – ao som de “Be My Baby”. Isso mesmo. Uma cintilação mágica. E garanto que nada vale a pena sem cintilação mágica. Experimente agora. Faça novamente “Play” na barra da música, feche os olhos… imagine e vá… Quando os abrir de novo estarão certamente a cintilar.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

À Janela da Infância

Todos temos uma janela na nossa infância. Essa janela teve/tem um papel importante de entre todas as janelas da nossa Vida. Uma janela por onde espreitávamos sinais do exterior à descoberta de um mundo novo. Lembro-me de ficar ancorado muito tempo àquela janela assistindo ao desfile das vendedoras de água de Caneças sobre o ritmo da flauta do “amola tesouras e navalhas” e à passagem da mulher da “fava-rica”, do homem do “Ferro-velho” e da voz dos cegos cantores ambulantes que distribuíam um folheto que não viam com a história de uma coxinha - acompanhados na sua cantoria pelo som desafinado de um “acordeon”. A rua era animada ainda, ocasionalmente, por uma tenda de fantoches que andavam sempre à paulada uns com os outros sem se perceber porquê e pelos pregões das varinas e das vendedeiras de “figos de capa rota”. E havia o fascínio dos Saltimbancos que surgiam como num filme de Fellini, envolvidos no estrondo de tambores e no sopro estridente de instrumentos de metal.
Estendiam um enorme tapete colorido, que imaginava oriundo de alguma cidade misteriosa do longínquo Oriente, sobre o qual actuavam o engolidor de espadas e soprador de fogo, bem como uma rapariguinha de aparência frágil e com olhos tristes que fazia contorcionismo. Antes de um rapazinho de boné na mão vir recolher a generosidade alheia - tinha lugar o número final: A célebre “Dança da ursa”. Então, ao som de uma música impossível, uma forma vagamente humana, vestida com um fato coçado a imitar um urso, bailava em círculo com uma corrente, atada a uma das pernas, conduzida por um domador de bigodinho à Errol Flynn. Para além do som distante do circo que passava à frente da minha janela da infância, guardo na memória algo que tinha muita importância. As outras janelas que avistava da minha. Interrogava-me sobre as pessoas por detrás de cada vidraça. Que alegrias, tristezas, emoções se estariam a passar, naquele mesmo momento, no interior de cada casa. Durante a noite dormíamos afinal na mesma rua separados pelas janelas. Imaginava os prédios de repente transparentes e as eventuais histórias, ambientes e cores. Pessoas que ora riam, amavam, choravam ou sonhavam. Mas como não era assim restava-me tentar decifrar os vultos por detrás dos cortinados ou recortados pela luz que vinha do interior das vidraças. Havia no entanto uma janela especial no 3º andar, do prédio azul, mesmo em frente. Era especial desde o dia em que se abrira para deixar passar uma jovem adolescente de cabelos longos que sorria. Sorria sempre como uma princesa que acabava de sair de uma história do jornal infantil que eu lia: "O Mundo de Aventuras". Consegui saber que se chamava Ana Paula e estranhei uma sensação nova e inexplicável. Quando olhava aquela janela sentia um bater de asas dentro do peito e uma emoção que antes nunca experimentara. Associava então a sua imagem à canção "Amapola" que se ouvia na telefonia interpretada por vozes como Tito Schipa, Luis Alberto del Parana & Los Paraguayos, os Lecuona Cuban Boys, ou os Cinco Latinos. Talvez porque a palavra Amapola quase faz lembrar Ana Paula. Aliás era só substituir na letra da canção Amapola por Ana Paula (embora Amapola signifique: papoila - em espanhol, língua em que a canção foi inicialmente composta). De vez em quando lembro-me e regresso à janela da minha infância… onde se reflecte outra janela.
Todos temos uma janela aberta sobre a nossa infância. Todas trazem sobre o parapeito um pequeno pedaço da nossa própria história.
 
Amapola – Andrea Bocelli

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Enquanto

Enquanto as gotas da chuva caiem no pátio lá fora
Enquanto sinto o teu corpo debaixo da colcha vermelha
Enquanto te recolhes na noite azul dos meus abraços
Enquanto acaricio a luz do Verão em ti
Enquanto, lentamente, beijo os teus beijos
Enquanto te perdes dentro do meu deserto
Enquanto percorro os caminhos da tua pele
Enquanto flutuas sentada em mim
Enquanto abres as asas do teu desejo
Enquanto voamos nas cores do prazer infinito
Enquanto os nossos corpos explodem numa música impossível
Enquanto sonhava tudo isto não sabia que te iria encontrar
Por pouco não nos víamos
VT

Fly me to the moon – Nat King Cole

domingo, 7 de junho de 2009

O Café


Naquele dia, entrei num café antigo, com uma sensação de “tem que ser”. Hesitei com a minha certeza mas decidido abri a porta, como se abrisse a capa de um livro, e penetrei nos castanhos do café, ao mesmo tempo que um anjo colorido levantava voo dos gonzos da porta. Os clientes agrupavam-se nas mesas como nas carteiras da escola. Só faltava alguém desafiar alguém para a batalha naval. Por detrás do ambiente caloroso e quase sorridente existia uma grande melancolia. Os personagens transformavam-se à mesa. Sonhavam à vista dos outros.
Procurei uma mesa mais isolada. Mal adivinhava que era mágica e esperava por mim.
No café creme silencioso da manhã, pedi a bica curta ao mesmo tempo que caíam as notícias de uma prateleira com telefonia. Servi-me abundantemente na praia do açúcar que enchia o açucareiro.
Por entre instantes de porcelana, de vapor e creme, reparei numa mulher, com a cabeça da Rita Hayworth, sentada apenas com uma mesa vazia entre nós e que parecia estar a representar uma nova versão da cena em que surge pela 1ª vez em “Gilda” – quando levanta a cabeça de um modo súbito e fascinante.
Pedi outra bica, consciente de que aquele era um mundo em extinção e bebi a maré do momento devagar, aspirando a fumegação cafeínica e saboreeando os vários tons de castanho. O creme que sobre nadava o café, a espuma no fundo da chávena, as mesas, as cadeiras, as portas e as pessoas.
De súbito fiz um grande plano ao olhar da mulher com a cabeça da Rita Hayworth - que lia à luz da voz da Billie Holiday que o rádio agora tocava. Ela retribuiu num plano sequência sem fim a filmar-me o pensamento contra o canelado da parede. Continuámos a entregarmo-nos nos olhares até ao momento em que nos sentámos simultaneamente na mesma mesa – a que estava entre nós. Sentámo-nos confundindo as pernas com as da mesa. Então a sala escureceu rapidamente, como para um final do dia enevoado e, do tecto, destacou-se um foco de luz cor de licor de "pepermint". Era um jacto luminoso que contrastava com o castanho carregado da sala e iluminava exclusivamente a nossa mesa. Na atmosfera verde o sorriso dela actuava a solo mantendo suspenso o silêncio dos outros. A sala preparava-se para assistir a um filme. O nosso.
Então... conversámos calados sobre um outro tempo em que, após termos descido ao fundo do vidro da noite, encontrávamo-nos num café, como este, onde tínhamos arranjado uma palavra nova enquanto aspirávamos o aroma do café moído.
Obviamente tinha-te reencontrado mais uma vez.
Um perante o outro - pensámo-nos e de novo senti o doce sabor da liberdade e da insurreição de outrora. Ao mesmo tempo as nossas imagens esbatiam-se, consumidas. Nitidamente estávamos a ficar invisíveis. A desaparecer. Ainda bem. Era uma aventura esperada. O problema afinal não era procurar mas encontrar. E ficarmos sós depois.
Assim livres, provámos novamente a vida...
VT
I´m in the mood for Love - Julie London

terça-feira, 2 de junho de 2009

Recanto


Neste recanto, debaixo do sussurro das folhas luminosas, animadas por uma brisa cálida, cheira a feno e há um manto esplendoroso de malmequeres amarelos.
Podíamos organizar aqui um piquenique como quem começa algo que afinal já teve início há muito tempo e não há maneira de fazer parar.
Como o gosto dos morangos e dos teus beijos sobre a toalha do nosso encantamento.
Como a sede do nosso abraço.
E assim ficamos muito tempo em silêncio.
VT

Love Theme from Blade Runner – Vangelis

segunda-feira, 1 de junho de 2009

A Praia


Uma vez houve umas férias, numa praia distante, em Itália, no tempo em que os Verões eram mais longos.
Após uma passagem por Sorrento, onde deambulámos, pela parte antiga da cidade, enebriados, simultaneamente, connosco e com os “limoncello” que beberamos, ficámos hospedados junto a um porto de pesca, sobre o qual se debruçava um penhasco semeado de casario branco e de palácios suspensos.
Nessa altura tudo em volta parecia estar em harmonia connosco. Muito sol, muito azul e o aroma morno dos pinheiros, a servirem de fundo ao romance daquele Verão, em que grupos de borboletas pequenas e azuis insistiam, inexplicavelmente, em dançar à nossa volta...
Tempo de longos passeios, junto às linhas de espuma que as ondas deixavam na areia, ao longo da praia, com o eco encantado do mar ao lado e de descobrir os reflexos especiais das gotas de água salgada no cetim da pele de Verão...
Julgávamos que o mundo nos pertencia. Enquanto as emoções ainda não eram controladas pela razão, tentávamos atingir o desconhecido fintando as regras estabelecidas. E, para continuar a acreditar, líamos Rimbaud, Baudelaire e outros poetas malditos, à tarde na praia, por entre troncos ressequidos que a maré deixava. Enquanto olhávamos, em silêncio, o sol a baixar no horizonte, envolvia-nos o aroma doce e quase infantil a limão e baunilha do “Eau d´Hadrien” que compráramos em Paris e que ambos usávamos.
Acima de tudo era tempo em que éramos capazes de sentir com facilidade as coisas mágicas em volta... fora de nós... e dentro de nós. Tínhamos a noção, muitas vezes, que pensávamos em simultaneidade – como se falássemos sem palavras. As palavras mais importantes, e as letras das canções, eram simples, tinham ligação directa ao coração e genuinas... e diziam com uma força e certeza interior inexplicáveis: "Forever"… "Sincerely"... Eram tremendamente belas porque, "a força estava connosco"...
Sabia que eras tu novamente pelos beijos suspensos com o pôr-do-sol entre os lábios. Pela suavidade e ternura especial no encontro mágico dos lábios… que se acariciavam... se tocavam levemente... intensamente... prolongadamente... acompanhando o ritmo da voz do Elvis com o “Love me Tender” que o gira-discos tocava sem parar.
Só agora, muito tempo depois, é que me apercebo que aqueles momentos eram muito mais importantes do que julgava na altura em que os disfrutava plenamente. Durante aquelas férias em Itália, não sabia então que um dia, mais tarde, agora, voltaria à mesma disponibilidade mágica, numa outra praia, em frente do oceano... Dreaming with the touch of your lips… Next to mine… The thrill is so divine…With all these things that make you mine.
VT
All these things - Harry Connick Jr.
Love me tender – Elvis Presley

domingo, 24 de maio de 2009

A Casa



Voltei às ruínas.
Voltei à casa.
À casa que não é a minha casa.
Não sei quem a habitou.
Desde que lá entrei, um dia, nunca vi alguém.
Tenho por lá ficado. Sentado naquela imensidão em frente da Lagoa.
Como se fosse a minha casa.
E penso que, a qualquer momento, vais aparecer.
Quando entrares, por entre as pedras, deixarás, nas silvas, o teu vestido.
E depois ficaremos abraçados neste lugar de prodígios aberto ao sol.
Na casa que não é a minha casa.
“Una casa in cima al mondo”.
VT


Una casa in cima al mondo - Mina

sábado, 16 de maio de 2009

La lontananza

No início do Verão de 1980 encontrei-te durante umas férias mágicas em Ibiza. Após chegar ao porto, retirei o meu citroen 2 cavalos do barco e dirigi em direcção a região de San Carlos no interior da ilha, onde o meu amigo Gabriel e respectiva família, viviam há alguns anos, sabiamente, “retirados da alienação da sociedade moderna”... Era a parte mais selvagem e primitiva da ilha e, ao procurar a casa do meu anfitrião, os caminhos foram-se tornando cada vez mais estreitos, confusos, de terra batida, inóspitos ou ausentes... Como se fosse penetrando num território situado em outra dimensão... enquanto o resto do mundo ia ficando mais longínquo... Após passar por umas velhotas silenciosas e sorridentes que descascavam fruta na sombra fresca de um pomar, desemboquei, em determinado momento, já perdido e sem saber bem onde estava, num pequeno planalto que parecia ter origem no azul vibrante do céu do meio do dia... O aroma quente de folhas de figueira e o canto das cigarras caíam a pique sobre o solo coberto de tojo, e de um mar de flores douradas de entre as quais se destacavam algumas vermelhas que pareciam explodir ritmicamente perante os meus olhos... Como o calor era muito elevado o ar tremulava e tornava tudo menos nítido. As flores pareciam pinceladas num vasto quadro impressionista no qual me integrava a pouco e pouco... Um pouco mais distante, emergindo do horizonte, materializou-se uma casa branca e sem telhado, como um sitío fantástico que surge inesperadamente, e para a qual me dirigi, automaticamente, com uma sede tremenda - como quem descobre, finalmente, um oásis definitivo... Parei junto a um pequeno páteo, logo antes da frontaria, onde pilhas de almofadas se dispunham, convidativas, em círculo... Da porta principal totalmente aberta, emanava serenidade, frescura, um odor de incenso ardendo, cortinados esvoaçando levemente e... os primeiros acordes e coros de uma canção italiana – com orquestração no estilo do festival de San Remo do final da década de 1960. Era um lindíssimo tema, de 1970, cantado por Domenico Modugno: "La Lontananza" ... A magia ia tomando conta de mim... e... tornou-se mais intensa quando surgiu do interior da casa uma mulher de cabelos loiros quase brancos e compridos, vestindo apenas uma saia branca comprida e translúcida e trazendo na mão um chá de menta gelado para me oferecer... como se soubesse muito bem o que eu precisava. Por detrás dela alinharam-se 5 crianças nuas e de alturas diferentes, também com os cabelos da mesma cor... Apresentou-se dizendo, em italiano, que se chamava Eleonora (Leonor) e sorria… sorria muito e olhava-me com um olhar inteligente e, por isso mesmo, altamente sedutor. Vi que eras tu novamente... Apeteceu-me dizer as palavras de Modugno que aprendera de uma outra sua canção que tem tanto de pouco conhecida como fantástica: "Come Hai Fatto"… e imaginei-me a recitar-lhe: “Io ti voglio bene come nella mia vita non è accaduto mai, così profondamente che ho paura di me… di questo smisurato amore che adesso provo per te. Io ti desidero, un desiderio nuovo che mi tormenta… talvolta mi domando com'è possible…”… mas consegui apenas balbuciar, atónito perante toda a magia do momento... apenas o nome do meu amigo... Gabriel... como perguntando aonde... qual o meu caminho... Ela sorriu mais, porque percebia tudo o que eu pensava… Como se possuísse a capacidade de me ler o pensamento e cada batida cardíaca. Ficámos minutos (horas?) sorrindo um para o outro, assim sem palavras - mas felizes… Mais tarde indicou-me um caminho que mal se distinguia entre uns arbustos mais altos, para a casa do Gabriel... Antes de partir, percebendo a minha angústia perante a possibilidade de eventualmente não a voltar a ver, disse espontaneamente e também com grande segurança que… não me preocupasse porque um dia voltaríamos a nos encontrar… Claro que, passadas algumas horas, dei com a casa do meu amigo... mas nunca mais esqueci aquele sitío encantado... Dias depois, ainda na ilha, apesar de o procurar, nunca o voltei a descobrir... Mas acredito em ti. Um dia voltaremos a encontrar-nos. "La lontananza sai, è come il vento… spegne i fuochi piccoli, ma accende quelli grandi… quelli grandi."
VT


La Lontananza - Domenico Modugno


Come Hai Fatto – Domenico Modugno

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Flowers in your hair

Durante a Faculdade... foi tempo, também de centenas de danças, bailes e festas, nas “boites” e nas Embaixadas de outros países. Vivia-se o ponto alto do movimento Hippie - contra a cultura vigente porque defendia a não-violência e tinha como máxima a frase "Peace and Love". Além de se ligarem, de certo modo, ao Budismo os hippies vestiam-se com roupa simples e colorida e acreditavam que podiam mudar a Humanidade, para melhor, adoptando uma atitude de tolerância, e de alegria, bem como um modo de vida colectivista ou comunitário. Dar aos outros era fundamental - daí o acto simbólico de oferecer flores. Já alguém escreveu que terá sido a última oportunidade (perdida) para a Humanidade e há, actualmente, filósofos que defendem os mesmos princípios como uma resposta possível para evitar a "barbárie" consequente a uma catástrofe ecológica e económica previsível (Isabelle Strengers : "Au temps des catastrophes - Resister à la barbarie qui vient").
Num dia 8 de Maio, igual ao de hoje, começou um caso muito especial com a filha do então ministro conselheiro do Brasil. Um caso proibido.
A família quase a impedia de me ver porque, ainda na faculdade, e sem futuro certo e sem estabilidade económica, eu não era o noivo ”conveniente”. Esse, para os pais dela, era um engenheiro gordo e bem instalado na vida - assíduo lá de casa.
À revelia disto tudo encontrávamo-nos na discotecas ou em festas de amigos comuns... ou no calor da noite das festas dos Santos populares...
Até que um dia houve a tua festa de anos, que era também uma festa de despedida de Portugal (o teu pai tinha sido colocado num país da América Central) para a qual, obviamente tinha sido dado ordem para que eu não estar presente.
Porém, com a cumplicidade da tua “bábá”, subi pelo jardim das traseiras da moradia no Restelo, já aperaltado, e entrei pela varanda que dava para a sala do baile ao mesmo tempo que a música surgia com a voz do Scott McKenzie... com uma das nossas canções preferidas. Num sincronismo perfeito desceste, ao som dos primeiros acordes do “San Francisco”, como a incarnação de uma deusa, pela escadaria do primeiro andar com uma grinalda de flores vermelhas nos cabelos (1967 foi o ano mágico do Flower Power) e enlaçámo-nos no meio do salão a dançar novamente olhos nos olhos, e indiferentes a um círculo, que se abrira, de gente pasmada com a ousadia... A Força estava connosco... Procedíamos de acordo com aquele tempo de desafio às gerações anteriores, premonitório da revolta dos jovens que surgiria em 1968... E dançamos toda a noite assim... E voámos… sem ninguém se atrever a impedi-lo.
Claro que eras tu. Claro que éramos nós.
VT


San Francisco – Scott Mckenzie

segunda-feira, 4 de maio de 2009

As meias vermelhas


Frequentava o liceu e, desde há cerca de 2 anos, vivia a descoberta de uma música estranha que ia crescendo e envolvendo a Juventude: o Rock´n Roll... Sempre que passávamos por cafés perto do liceu, aproveitávamos para meter moedas nas "juke-box" para ouvirmos, deleitados, os discos de 45 rotações com as músicas dos Everly Brothers, do Elvis ou do Paul Anka. Ao fim de semana acorria aos bailes no Centro Recreativo perto de casa, onde assistia quer a exibições dos conjuntos de Rock, então em voga, quer à Zézinha Meireles (nitidamente preferida pela organização) a interpretar, esganiçada, a Malaguenha ou a Granada.
Depois havia o essencial: O Baile.
E aqui assistia-se também a uma competição entre a música “velha” e a música “nova”… Claro que sempre tentávamos influenciar quem controlava o gira discos para se ouvirem, em vez de Tangos e Passo dobles, as canções dos Platters ou da Connie Francis... As raparigas ficavam de um lado do salão de baile. O sexo masculino arrumava-se, em grupo, no lado oposto.
Aos primeiros acordes musicais os rapazes lançavam-se em direcção às cadeiras onde as raparigas conversavam e… no caso de não se conseguir obter o par desejado, podiam “marcar” uma dança com antecedência. Ou seja havia uma verdadeira “lista de espera” para as jovens mais requisitadas, que usavam (grande moda) meias “collants” de cores fosforescentes (talvez para nos encandear…) … Azuis… Verdes… Amarelas, etc. Os rapazes ripostavam com camisolões vermelho vivo e blusões de cabedal negro. Ao ritmo de conjuntos musicais ou de discos, após trocas de olhares e por vezes sinais os “meninos” atravessavam corajosamente o espaço “between” para levar as meninas enlaçadas na música preferida...
Certo Domingo surgiu uma nova e loira frequentadora – de meias fosforescentes vermelhas – que todos achávamos parecida com a Marylin Monroe.
Para além da beleza física tinha um olhar misterioso e sereno que nos baralhava e electrizava o ambiente em redor... Como se fosse mais velha do que todos nós.
Claro que as paixões multiplicaram-se ao mesmo tempo que os pedidos para dançar com aquela rapariga intrigante, bela e aparentemente inacessível.
Marcavam-se rodopios com antecedência, havia empurrões e cotoveladas para chegar primeiro. A rapaziada fascinada queria dançar só com ela… E eram correrias e empurrões a ver quem chegava primeiro. Eu nem me atrevia. Não só por timidez mas também porque não sabia ainda dançar. Mas, não fugi à regra e comecei inexoravelmente a sentir uma paixão febril pela rapariga das meias encarnadas. De facto o termo febril é adequado porquanto passei a ter diariamente uma temperatura de cerca de 37,5º Centígrados... Levaram-me em consequência ao médico da família, que morava lá na rua, e que após me observar, abanou a cabeça, e disse que não encontrava nada de anormal e por isso não compreendia a causa. Claro que só eu sabia a verdade. Que a origem da temperatura excessiva era… vermelha…
Claro que como não sabia dançar não me atrevia a dirigir-me à rapariga dos meus sonhos. Com muita pena (e febre), via apenas do meu canto os outros a dançar com ela. Mas houve um dia em que soube, novamente, que eras tu que reaparecias, porque uma tarde olhaste-me fixamente – como a cigana, anos antes, nas minhas férias. Tão intensamente que, num primeiro momento, me convenci que te estarias a dirigir para outra pessoa.
Porém, depressa a minha dúvida se esclareceu. Afastando os vários pretendentes em volta, as meias fosforescentes dirigiram-se sem hesitações para mim – o único que não lhes tinha pedido para dançar. Ela deu-me a mão e levou-me para o meio do salão… Como costumava acontecer só nos filmes... Atónito, senti o meu coração fazer BUMMMM, ao mesmo tempo que deixava de sentir as pernas e um calafrio me percorria o corpo… E agora? Como fazer se não sabia dançar…. Resolvi andar ao ritmo da canção a ver se acertava… E de facto acertei... Mas foi com um sapato numa das meias vermelhas que se rompeu… Tristíssimo com aquela tragédia e cada vez com mais “febre” resolvi aprender intensivamente a dançar, para mais tarde tentar resgatar-me perante a dona das meias vermelhas. Na altura, a melhor professora de dança, recomendada por toda a rapaziada, era uma empregada doméstica lá da rua. Então durante semanas com o nariz encostado às nódoas do avental da “professora”, lá ensaiei: um dois…. um dois… um dois três… Depois ainda de “treinar” também em frente ao espelho, e já me sentindo “apto”… lá fui ao baile – à reconquista da atenção perdida… Esperava-me uma desilusão… A rapariga das meias cor de sangue já tinha, entretanto, encontrado um namorado com o qual dançava “em exclusividade”…
E nos meus olhos instalaram-se nuvens de tristeza.
VT

Smoke gets in your eyes - Platters

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Wings


-->
Once… I did not tell you… But I should. I should have told you I was surprised by this Love I have never imagined before. A desire so strong and profound that makes me feel afraid of myself. How it was possible to feel the Infinite with your lips next to mine. Your eyes inside my eyes. Your tears with my tears. How it was possible such intimacy. You were dreaming my dream. Softly I surround you with my wings. And we danced. There was not me. There was not you. There was only US. How it was possible to have such intensity and such sweetness. We were the music. And slowly… in the dark… we danced again…. and again…. Tenderly…
Once I should have told you.
VT
I love you - Sarah McLachlan

domingo, 26 de abril de 2009

Pormenores

Uma das primeiras vezes que te vi foi na aldeia onde, no início da minha adolescência, passava férias com os meus avós. Eras então uma ciganita com semblante sério e olhos acesos – que viam por dentro dos meus... Lembro-me que a caravana, família e amigos com quem viajavas, acamparam junto da árvore grande – ao pé da antiga casa do padre. Para nos encontrarmos, eu escondia-me por entre as ruínas abandonadas que as silvas iam escondendo. Depois fugíamos para os pinhais vizinhos. Em silêncio contemplávamos e descobríamos o mais importante: pormenores. Entendemo-nos de imediato na cumplicidade com que observávamos as folhas, os pequenos mal-me-queres ou a estratégia dos corredores de formigas... sentíamos o prazer de ficarmos quietos e deitados lado a lado de barrigas coladas ao tapete de caruma e de braços abertos e de mãos dadas como se pretendessemos, ao mesmo tempo, integrar a terra que tentávamos abraçar. Lembro-me do odor da seiva fresca dos pinheiros e da tua pele morena e doce. Lembro-me da perturbação e embaraço em mim ao tocar em ti, sem saber o que dizer ou o que fazer...
VT
When I fall in love – Nat King Cole

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Sabrina


Sempre soube que seria possível. Enquanto nos outros, em volta, tudo me levava (leva) a pensar o contrário. Sempre soube que era possível a existência de um amor prodigioso, feito de momentos sempre novos e envolvidos numa atmosfera especial. Sempre soube que era possível o tempo parar... porque passei por ti, várias vezes, durante todos estes anos. Porque o teu olhar e o teu sorriso sempre entenderam o que eu sentia (sinto) nos silêncios mágicos escondidos nos dias que passam. Apesar de te vislumbrar em locais, tempos e idades diferentes, reconheci sempre o êxtase e a vibração especial das cores em nós. Como se alguém – que vou inventando, simultaneamente, se vai concretizando, aqui e acolá, e descobrindo gradualmente na realidade... Como daquela vez em que tu Sabrina me desalinhaste o chapéu e me cantaste - suavemente - La Vie en Rose” ... em mim... em ti... em nós...
VT