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domingo, 7 de novembro de 2010

O Disco da Minha Vida XIII

Ia escrever umas linhas sobre o tímido ressurgimento de uma das bandas que mais marcaram a minha vida, quando me lembrei que ainda não tinha contemplado os Suede com qualquer capítulo da saga “O Disco da Minha Vida”. Portanto cá vai.

Conheci os Suede a meio dos anos 90, quando vieram cá a uma das primeiras edições do Sudoeste, num ano em que também os Blur passaram pela Zambujeira. Traziam para apresentar o seu disco mais recente, o fantástico “Coming Up”, que acabou por ser a minha porta de entrada para este grupo.

Eu fui daqueles que gostei profundamente da britpop. Blur, Suede e Pulp são das minhas bandas preferidas de todos os tempos, e os dois primeiros discos dos Oasis são, de facto, muito, muito bons. Mas se os Blur ficaram enormes, com toda a justiça, os Suede foram quase sempre uma injusta segunda linha, ao passo que os Pulp se mantêm, até hoje, como o segredo mais bem guardado da música britânica.

Contava que conheci os Suede através do “Coming Up”. É um grande disco, que faz a síntese perfeita entre o rock indie/glam dos dois discos anteriores com a faceta mais pop que marcou os seus últimos trabalhos. É um disco que me marcou muito, mas não é este o protagonista deste post.

Essa honra cabe a Sci-Fi Lullabies, cd duplo de lados B, editado depois de “Coming Up”. Para os fãs mais sérios de Suede, como o amigo Amarelo, os melhores momentos da banda foram os dois primeiros discos, alimentados pela dupla genial Bret Anderson/Bernard Butler, respectivamente vocalista e guitarrista, mais um capítulo da bela tradição de duplas compositoras britânicas: Lennon/McCartney ou Morrissey/Marr, por exemplo.

“Sci-Fi” é uma colectânea de lados B de singles dos Suede desde os primeiros tempos. A beleza desta banda é que, mesmo em lados B, os Suede nada tinham de experimental. Nunca conseguiram fazer uma música que não fosse profundamente pop. Por isso, para um fâ à espera de mais discos, descobrir um duplo cd com 27 músicas que eu nunca tinha ouvido, foi uma coisa extraordinária. E está lá tudo. As baladas algo melosas, o rock glam, a heroína, o aborrecimento britânico. Tendo em atenção que reúne músicas avulsas feitas ao longo de vários anos, o alinhamento é variado, não conceptual, e nunca farta. Este disco acompanhou-me durante muitos anos, e ainda hoje é o disco de Suede que, de vez em quando, meto a tocar.

Vi-os duas vezes ao vivo. A primeira, numa queima das fitas em Coimbra, num dia em que fiquei sem bateria no carro à saída do concerto. E anos mais tarde, na Aula Magna, num grande concerto.

Os Suede sempre foram uma banda de que não era cool gostar. Havia algo de gay na sua atitude, e durante muitos anos isso foi duro para um sério fã de rock n roll como eu. Mas as músicas, as melodias, são uma das coisas mais extraordinárias do fim do século XX.

Acaba de ser editado um Best Of dos Suede, que já é o segundo da sua história, depois de “Singles”. Não traz nada de novo para um fã da velha guarda, mas pode dá-los a conhecer a novos ouvintes, que eles bem merecem. Juntaram-se também para uns concertos de promoção à colectânea, mas nada indica que se voltem a juntar, enquanto banda, para criar música nova. Os seus últimos discos já davam mostras de alguma exaustão criativa, embora continuassem a ser bons discos. Eu cá, nestas coisas, gosto sempre que as minhas bandas preferidas se voltem a juntar, mesmo que façam merda. Troco esse risco por um disco novo, sem problemas.

Tendo em atenção que, sendo um disco de lados B (mesmo que esteja recheado de potenciais êxitos), não há qualquer videoclip de uma música de “Sci-Fi Lullabies”, deixo-vos a primeira música de Suede que ouvi. “Trash”, de “Coming Up”, só um dos melhores singles pop de sempre. Espero que gostem.

sábado, 23 de outubro de 2010

O Disco da Minha Vida XII

Bom, isto agora torna-se algo desonesto. Porque tenho de escolher um disco entre 3 ou 4, fantásticos, que considero estarem todos ao mesmo nível.

O disco de hoje é "The Cult of Ray", de Frank Black.
Frank Black, ou Black Francis, como quiserem (o seu nome verdadeiro até é Charles), é, toda a gente sabe, o antigo vocalista e principal compositor dos Pixies.
Para mim, como para muita gente da minha geração, os Pixies bateram demasiado tarde, para muita malta já depois de eles acabarem a sua primeira encarnação. Mas foi bem a tempo de deixar uma marca que, provavelmente, não desaparecerá durante as nossas vidas de amantes de música.
Mas esta não é uma mensagem sobre os Pixies. É uma tentativa de corrigir uma das grandes injustiças da música contemporânea. É que, mesmo para os fãs de Pixies, Frank Black a solo não existe. É mau ou, na melhor das hipóteses, é irrelevante. E isso é errado. Como se o tipo que escreveu todas as grandes músicas dos Pixies, de repente, deixasse de perceber alguma coisa de música. As if...
Foi o Amarelo quem me mostrou o Frank Black, depois de já ter sido ele a mostrar-me os Pixies. Em ambos os casos, estaca céptico, mas rapidamente a coisa mudou. Com Black, ele mostrou-me o seu primeiro disco a solo, homónimo, de 1993, menos de dois anos depois de os Pixies terem editado o derradeiro "Trompe le Monde".
A voz continuava lá. Aquela voz de eterno adolescente, entre o romântico freak e o rebelde alucinado. E isto vindo de um monstro de 100 kilos, gordo e careca, sem pinta absolutamente nenhuma.
E para além da voz, continuava lá o rock. O bom e velho rock.
Ao longo dos discos seguintes, perto de 15, foi mudando e apurando o som, que no início era relativamente semelhante ao que fizera antes. Em termos muito gerais, e fazendo a inevitável comparação com os Pixies, teremos de dizer que estes eram um som mais urbano, se por urbano entendermos uma cave rock num qualquer outro planeta. A solo, Black tem uma estrutura mais clássica de canção, e mais ligada às raízes do rock. Teve uma fase meio country, teve sim senhor, e foi bem boa. Teve outra mais pop, igualmente boa. Mas a sua música teve sempre duas coisas que estiveram sempre lá, misturadas com as outras coisas: o rock, sempre, e a grande capacidade para fazer grandes canções, feitas de adrenalina e de uma grande capacidade aditiva.
Escolhi "The Cult of Ray" como podia ter escolhido o grande "Pistolero", "Dog ín the sand" ou "Teenager of the ear". Podem agarrar num disco qualquer dele e só muito dificilmente não acertam com um grande disco.
Vi-o ao vivo, com a sua banda "The Catholics", há uma data de anos, na Aula Magna. Fui arrastado pelo malogrado Amarelo, até porque na altura não conhecia bem o seu trabalho a solo. Numa sala bem composta, o público foi bombardeado com um grande concerto,  com três guitarras agressivas em palco, e nenhum baixo. A sala foi reagindo entre o entusiasmo e o espanto, para só ir ao rubro quando a banda tocou duas ou três músicas dos Pixies, nomeadamente "Mr. Grieves", que ia levando a casa abaixo.
Talvez como vingança por tudo querer ouvir os Pixies e não a sua nova banda, a verdade é que passei uma semana a ouvir mal, com um zumbido resistente nos ouvidos.
E ele é que tinha razão, e só vim a perceber mais tarde.

Deixo-vos uma das melhores músicas de "The Cult of Ray", curiosamente uma das músicas mais lentas e "baladeiras" que alguma vez fez. Não é muito representativa do seu estilo, mas é representativa do seu talento.

Dá-lhe, Charles.  

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

O Disco da Minha Vida XI

Olhando para a minha colecção de discos, há uma ausência nesta série que tem de ser colmatada.
Provavelmente tenho mais discos do Neil Young do que de qualquer outro artista. Bom, talvez em igualdade pontual com os Cure e com o Sérgio Godinho. A diferença é que estes são resquícios do antigamente, das viagens sucessivas à feira da Ladra, à procura de completar toda a discografia deste ou daquele artista, e já pouco lhes pego. Já o Neil Young continua a rodar no stereo muito frequentemente. Há um disco que me agarra uma semana, 15 dias depois lembro-me de outro, etc.
É dos meus poucos artistas preferidos que não me lembro de como conheci. Foi a seguir à malta dos 60/70´s, a seguir aos Doors, à Janis, ao Jimi, aos Led Zeppelin. Foi depois, teria eu talvez uns 18 anos. E não foi amor à primeira vista. Gostei, e tal, mas acho que Neil Young é um bocado como o wisky, é difícil gostar à primeira, e se insistes cada vez gostas mais.
A resistência inicial terá tido alguma coisa a ver com aquilo soar um bocado a country. Quando eu era puto, pior que country só disco. Hoje em dia as coisas são diferentes. O Johny Cash é o maior, consigo gostar de algum Dylan e até o marado do Willie Nelson tem algumas coisas boas. Talvez esteja a ficar velho.
Numa carreira tão grande como a de Neil Young é muito, muito difícil escolher um só disco, até porque, em muitos casos, aquilo foi uma semana de gravação na garagem, e nem sempre há um verdadeiro conceito de album. Dos mais de 10 discos dele que tenho há um ou outro manhoso. Mas o resto é bom. É tudo bom. E estes que quero destacar, para mim, são os melhores.                           
Começando por Zuma, de 75. Este disco tem um significado para mim. Tem uma capa absolutamente horrenda, e depois de o comprar demorei algum tempo até lhe dar uma verdadeira oportunidade. Tinha eu uns 25 anos quando a miuda com quem eu estava me mandou dar uma curva, apesar de dois dias antes ter dito que se eu alguma vez a deixasse se matava. São merdas da vida. Pouco tempo depois, fiz uma viagem sozinho para o Algarve, para limpar a cabeça por uns dias. O Zuma entrou no leitor do carro, e de lá não saiu a viagem toda. É talvez o album que faz a melhor síntese entre blues, rock e country, as coordenadas de toda a carreira de Young. Destaco Stupid Girl, boa malha rock, e Through My Sails, uma brisa de fim de tarde de Verão gravada com os companheiros do antigamente Crosby, Still e Nash. Mas o grande destaque vai para Cortez the Killer. Sete minutos de blues e a primeira vez que o som da guitarra eléctrica de Young soou como só ele sabe.
Depois há Harvest Moon, provavelmente o maior sucesso da sua carreira. Disco de 92, com a preciosa colaboração de Jack Nieztsche, que já com ele havia trabalhado no marco que foi o Harvest, no início do percurso. Mais uma capa fateluxa, e mais um grande disco, do princípio ao fim. É uma ode à velha América, às Harleys, ao amor e à liberdade.

Passando para o grande Sleeps with Angels, de 1994. Provavelmente um dos seus discos mais rock, e dos mais complexos. É um verdadeiro album, com camadas e fantasmas que se repetem. É denso mas não é complicado. No fundo é rock e blues, e não há nada de complicado nisso.

Daqui faz-se uma boa ponte para On the Beach. É um album mais antigo, dos anos 70, mas só o conheci há coisa de dois anos, quando saiu a reedição em cd. Tal como em Sleeps with Angels, aqui temos Young a lutar contra os seus fantasmas, a tentar pelo menos lidar com eles. Mas, ao contrário de Angels, que é guitarra eléctrica e camadas, On the Beach é pouco mais que uma guitarra, voz e solidão.

Podia falar de outros grandes discos, Tonight's the night, After the Goldrush ou Silver & Gold. Continuaria a aborrecer-vos até amanhã. E já chega.

Ficam estes, de um tipo que é um exemplo.

No Alive, há dois anos, o meu grupo de amigos pirou-se todo para ver os Gossip, que tocavam mais ou menos à mesma hora. Fiquei ali, à frente, no meio da malta da velha guarda, a ver o velho Young a rockar como se não houvesse amanhã. Solos intermináveis mas sem o pseudo-virtuosismo, riffs de blues planando sobre as planícies americanas. Era um dos artistas que julgava não conseguir ver nunca ao vivo e, juntamente com o Tom Waits, aquele que eu mais queria ver. O Gossip partiram tudo, mas o Neil Young proporcionou-me duas horas míticas e inesquecíveis.

Tantos anos depois, ainda aí anda, e ainda faz grandes discos. Um homem de causas, humano, e coerente.

Keep on rockin' in a free world.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

O Disco da Minha Vida X

Meus senhores, agora estamos em território sagrado. São tipos como estes que fazem poias fumegantes como DZRT, U2 (sim, sim, caralho!) e Miley Cyrus serem proibidos de se intitularem músicos, sob pena de serem atirados de um penhasco realmente alto.
O Tom Waits é um tipo tão fascinante, tão bizarro e tão talentoso, que não vou sequer perder tempo a falar dele, dedicando-me à sua obra. Para um tipo que sempre fez o que lhe deu na gana, e que anda a fazer discos desde os anos 60, é muito complicado escolher o seu melhor disco. E eu nem estou a tentar, este é apenas o meu preferido.

"One from the heart", de 1982 (deixo a capa original e a da reedição). A banda sonora do filme absolutamente fabuloso de Coppola. O filme é uma fantasia romântica e dramática de duas pessoas que se amam mas que falharam absolutamente nesse seu amor. O cenário (é mesmo cenário, e é lindo) é Las Vegas, terra da sorte e do azar. E o casal brinca com a sorte e com o azar. Chega a um ponto em que, com a vidinha sem sair do mesmo sítio, se apercebem que já não se suportam. Ela sai de casa e enamora-se do Raoul Julia. Ele descobre uma Nastassja Kinski ninfeta, absolutamente irresistível. E, apesar de toda a emoção de novos encontros, e até de uma nova vida, não desaparece a nostalgia do que se deixou para trás. É um filme sobre desagregação, de como por vezes é impossível não deixar estragar algo que muito se estima.
E, por cima de tudo, a música de Tom Waits. Esta é a banda sonora mais banda sonora que existe. Ou seja, não é música 'inspired by', mas também não cai no extremo oposto, que é o ridículo do musical, em que as personagens desatam a cantar a meio das cenas. Ao invés, a música aparece no filme, e vai contando a história, dando atmosfera, descrevendo, cavando a depressão e a esperança das personagens.
Neste disco, Waits partilha o foco com Crystal Gayle, cuja é voz é tão cristalina como a de Waits é gravilha e wisky. E é essa mistura que funciona, a voz cansada dele, lamentando-se do mundo e gozando com a sua própria desgraça, e ela sofrendo também, sensual, a ameaçar tudo o que fará se ele continuar a não a tratar como ela merece. É um disco absolutamente conceptual, coerente, completo. Mas é, sobretudo, um disco muito, muito bonito, de um tipo que não faz "discos bonitos".
Este é provavelmente o disco mais comercial de Waits. É o disco que dá para mostrar às namoradas que dizem que não gostam de Tom Waits, e fazê-las mudar de opinião. Não é tão genial como "Mule Variations", por exemplo, nem tão carismático como o velhinho e histórico "Nighthawks at the diner". E para um gajo armado ao alternativo como eu, não é fácil destacar este bonito "One from the Heart". Mas a sua beleza jazzy, triste, melancólica e enternecedora dá cabo de qualquer coração empedernido, mesmo de um melómano com a mania que é diferente.

Já agora, quem não viu o filme faça um favor a si mesmo. É mesmo uma coisa do outro mundo.

Tom Waits, the man. Com um dos discos da minha vida.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

O Disco da Minha Vida XIX

Estamos de volta ao estranho, excitante e angustiante mundo da adolescência.


Não me recordo exactamente o ano em que ouvi o “Angel Dust”, dos Faith no More. Terá sido em 93 ou 94. Mas lembro-me muito bem das circunstâncias.

Foi o meu amigo Zé quem mo mostrou. Nessa altura, pré-pré-pré-internet, a música nova descobria-se na rádio ou lia-se sobre ela no Blitz, que eu já comprava religiosamente. O Zé era, de nós todos, o único que tinha antena parabólica no prédio pelo que, para além do campeonato inglês na Sky Sports, papava horas seguidas de MTV. Foi assim que foi falando de coisas novas e estranhas para mim: Fishbone, Alice in Chains, Green Day e, claro está, Faith no More.

Passávamos horas no seu quarto, a jogar CM e a ouvir música. Ele tinha uma aparelhagem espectacular da Tecnics, que ainda hoje possui, e aquela máquina era, para mim, o melhor e mais cool sistema de som que alguma vez tinha visto.

De início mostrei alguma resistência ao disco. A capa era bizarra, não parecia de uma banda rock. O primeiro single, que já conhecia da rádio, era o “Small Victory”, ainda hoje a música que menos gosto no álbum, e isso afastou-me um bocado.

Mas aquilo ia rodando na aparelhagem, e ia entrando. Às vezes o som agressivo do disco gerava reacções da mãe do Zé, a senhora Eduarda, e isso só nos fazia gostar mais dele. Era estranho, violento, transgressor, variado. Tinha sempre melodia, mas ao mesmo tempo parecia uma coisa apocalíptica. Para além de letras mordazes, irónicas e duras. Era todo um mundo novo, e quando vi pela primeira vez os vídeos, com animais à solta, cenas maradas e aqueles gajos de ar cool e duro a berrar, fiquei apanhado.

O Zé, quando se fartou, emprestou-se o cd. Duas semanas depois estava a devolvê-lo e a estourar a mesada na minha cópia.

É um disco que tem tudo. Hard-rock agressivo, música infantil e demente, funk e hip-hop sempre latentes. Na altura, as minhas músicas preferidas eram a primeira, estranha e apropriadamente chamada “Land of Sunshine”, “Everything’s ruined”, “Kindergarten” e “Be agressive”. Havia também o “Easy”, claro, que ajudou a vender o disco, e é uma bela baladeca. Depois, como sempre acontece com os bons discos, fui deixando as primeiras paixões que andavam “on repeat” e fui ouvindo o resto. Algumas músicas estranhas, maradas, “Crack Hitler” e “Jizzlobber”, por exemplo. E tudo encaixou.

É um disco que, devido à sua qualidade e variedade, não envelheceu um dia. Ainda hoje, como agora, o ouço do princípio ao fim. Hoje em dia gosto de o ouvir no carro, e apetece-me acelerar e arranjar merda, como é suposto acontecer com um bom e velho disco de rock n roll.

Mais tarde comprei outros discos, vi os concertos no Campo Pequeno e no Coliseu. Não fui ao Sudoeste no ano passado, mas dizem-me maravilhas, e eu acredito.

De uma carreira longa e impecável, este “Angel Dust” fica como a obra maior. Para mim são os anos em que, por causa de miúdas ou de outra coisa qualquer, sentia que era eu contra o mundo. E, com estes tipos ao meu lado, a coisa parecia-me ficar um pouco mais equilibrada.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

O Disco da Minha Vida VIII



Em primeiro lugar, uma declaração de interesses: desde que conheci a sério a sua música, há coisa de quatro ou cinco anos, que vivo obcecado com Serge Gainsbourg. Comprei os discos todos, li livros, ouvi versões. Acho-o provavelmente o maior génio musical do século XX. A partir daqui, o resto deve ser lido com o necessário desconto, tendo em atenção o que acabei de dizer.

Quem o conhece, de todo, conhece sobretudo o "Je t'aime...moi non plus", música absolutamente fabulosa em todos os sentidos, que simbolizou para a geração dos nossos pais o início tímido da transgressão sexual.
Em 1970, Gainsbourg já era a maior figura musical de França. No activo desde o final dos anos 50, com vários discos no currículo, começava a ganhar a aura de freak genial, mudando de estilos musicais sempre com grande mestria e um sentido pop inigualável, sustentado nos seus profundos conhecimentos de jazz e de arranjos clássicos. E, claro, havia sido o companheiro de Brigite Bardot, o monstro misógeno que conquistara a bela mais desejada do mundo.
Em 1970, compra um Rolls-Royce. Gainsbourg, o excêntrico, não conduzia nem tinha chauffeur. Para se deslocar, com o auxílio de outros, tinha um bem mais prosaico Citroen 2 cavalos. O Rolls, esse, ficava na garagem, e era para lá que ele se dirigia com amigos, para beber, fumar e conversar. Nas suas palavras, "o Rolls era um bom carro. Serviu-me de cinzeiro durante dez anos".
Estava também apaixonado. Quem conhece bem o seu trabalho, sabe que nunca produziu música melhor do que quando esteve realmente enamorado. Primeiro BB, em 1970 Jane Birkin, a jovem ninfeta inglesa que ilustra a capa de "Historie de Melody Nelson".
Juntamente com Jean-Claude Vannier, que fez os arranjos dos seus melhores discos, Serge trabalhava naquele que não era apenas o mais ambicioso trabalho da sua carreira, viria a ser o melhor.
É um disco conceptual que se ouve como se não o fosse. Ode ao amor (à quase pedofilia?) entre uma jovem de 15 anos e o seu encontro iniciático com um homem mais velho que com ela se fascina, o disco tem apenas sete faixas e pouco mais de meia hora de duração. Tal como outro dos meus grandes favoritos "L'Homme a téte de chou" - também ele conceptual - as melodias vêm e vão, encontram-se mais tarde noutras faixas, completam-se. No fim, ficamos com um documento de um génio na mais absoluta posse de todas as suas faculdades: rock, ié-ié, jazz, clássico, e um sentido incrívelmente sensual nos arranjos e na composição, enfim, tudo com as letras, inigualáveis, do monstro Gainsbourg. Ele que, até ao fim da sua vida, fez discos de todos os géneros, tem em "Histoire de Melody Nelson" a súmula de todo o seu trabalho. Tirando o reggae, que explorou em vários discos mais tarde, tudo o que alguma vez fez tem lugar neste disco, de uma forma absolutamente coerente.
Sei que, provavelmente, para quem não conhece o disco ou o autor, não estarei a explicar muito bem que raio de disco é. Estou a ouvi-lo e, como sempre acontece, estou hipnotizado. Não agarra ao início, mas ganha com cada audição. E com um copo de bom vinho ou uma ervinha, e apenas olhar para o tecto a ouvir cada nota, cada arranjo, cada pormenor, é a experiência que mostra tudo o que a boa música pode ser.

Para quem acha que Bowie é, de facto, o camaleão, Gainsbourg mostra o que é a verdadeira reinvenção. Até ao momento em que, criticado por ter feito uma versão reggae do hino francês, comprou em leilão o manuscrito da letra do hino, como que dizendo que, a partir daquele momento, podia fazer o que quisesse com ele.

Por todos os motivos, é na minha opinião o melhor disco "pop" alguma vez feito. Porque pop pode ser negro, profundo, elegante e consequente.

Agora, com a vossa licença, vou ali carregar de novo no play.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

O Disco da Minha Vida VII

O Brasil deu ao mundo muita coisa. Entre muitas outras estão alguns dos melhores jogadores de futebol de sempre, grandes escritores, gajas boas e a música. E, falando de música, o Brasil é incontornável. Desde a bossa - que de formatação tão simples como é nunca cansou, um pouco como acontece com o fado - até aos autores que surgiram nos anos 60 e ainda aí andam a dar grande música (Chico, Caetano, João Gilberto, Maria Bethania, etc, etc), passando pelo rock e pelos outros sons mais modernos.
E é de isto que quero falar. Gosto bastante de rock brasileiro (e aqui uso a palavra rock no sentido mais lato do termo, Brasil é mistura em tudo, também tinha de ser assim na música), sobretudo dos grandes Raimundos (mais pesado), dos desaparecidos Blitz (pop mais pastilha elástica que existe), de muita coisa dos Legião Urbana e alguma de Skank.
Mas os reis de tudo são O Rappa.
Existem há bastantes anos, e conheci-os talvez há quatro ou cinco. Havia uma loja genial no Centro Comercial de Carcavelos, onde ia quase todos os domingos. Chamava-se "Império do Som", vendia cd's em segunda mão (a maior parte gamada pelos agarrados da zona) a 7,5 euros, e o tipo atrás do balcão era o Paulo, é uma das maiores personagens que alguma vez conheci. Ex-toxicopedente, amante de música e recentemente apaixonado pela literatura, ouvia de tudo. Trash metal, big bands dos anos 40, fado, punkalhada. Gostava de conversar e não se calava o tempo todo em que eu estava na loja. Ficava lá horas, a ouvir música, a conversar e a fumar, apesar de a loja ser na cave e ter o tamanho de duas pequenas cabines telefónicas. Eu olhava as caixas e, se alguma coisa me chamava a atenção, algo que não conhecia e me despertava o interesse, pedia para ouvir (só se recusava a meter reggae: "essa merda é toda igual, queres ouvir para quê?"). Depois de uma hora à procura do cd correcto, lá ficávamos a ouvir o disco. E foi lá que ouvi Piazzola, discos antigos do Dylan e o Rappa. O disco em questão era "Rappa Mundi", de 1996, como podia ser outro qualquer. Andava a ouvir muita música brasileira e conhecia O Rappa de nome. Assim que começou a bombar no estéreo, soube logo que era algo que me daria muito prazer, só não sabia que a banda me iria acompanhar a sério ao longo de muitos anos. Depois disso, saquei a discografia toda da net e a minha primeira impressão só se reforçou.
Em 2008, depois de um longo interregno e de mudanças na formação, saiu "7 Vezes", o último disco, que comprei na Fnac assim que saiu cá. Tem tudo o que vem de trás: rap, funk, hip-hop, rock, um tudo-nada de reggae, grandes melodias, grandes letras, grandes músicas. Já este ano tive o privilégio de os ver ao vivo, na minha terra-natal de Carcavelos, no meio de milhares de brasileiros esfuziantes.
Deste disco "7 Vezes", só posso dizer que roça a perfeição. Todas (mesmo todas!) as músicas são excelentes, empolgam e ficam no ouvido, mas a produção mais cuidada fez deste album mais rico, mais denso, que não se gasta com as audições. É claramente o disco que mais vezes ouvi no último ano, e ainda é ele que roda no rádio do carro. Música com tusa que não abdica da inteligência, a síntese perfeita.
Não têm muitos vídeos, mas quem quiser conhecer as músicas, pode ouvi-las aqui.
Enquanto melómano, O Rappa foi uma descoberta que mudou a minha vida. Façam o favor de escutar.

domingo, 25 de outubro de 2009

O disco da minha vida VI

É o disco mais recente desta saga que chega agora ao seu sexto capítulo.

O disco em causa chama-se "Tanglewood Numbers", de 2005, pelos Silver Jews.
Os Jews são, na prática, uma criação de David Berman. Surgiram no início dos anos 90 quando Berman e Steven Malkmus (sim o man dos Pavement) trabalhavam como guardas num museu. Inicialmente, o mote era o lo-fi, quando ninguém fazia lo-fi. Era tudo grande, nessa altura, o som, os cabelos, a produção. O primeiro disco dos Jews foi gravado num walkman.
O que começou como uma brincadeira de Malkmus, os Pavement, projecto paralelo quando este se mudou para Nova Iorque, acabou por pegar juntos dos fãs do rock mais noise e alternativo. De tal forma que muita gente conheceu os Jews como o projecto paralelo dos Pavement (apesar de tudo ter começado exactamente ao contrário).
Malkmus ainda voltou ao Jews em alguns discos, e toda a discografia da banda é interessante. Mas a parte que mais me agarra é a segunda encarnação da banda, os últimos dois discos, dos quais "Tanglewood Numbers" é o primeiro, seguindo-se o recente "Lookout Mountain, Lookout Sea".
Depois de um longo período de desorientação, com ingredientes como depressão profunda, alcoolismo, dependência de drogas e tentativas de suicídio, 2005 viu nascer este disco, que tem como dois grandes pilares David Berman e a sua mulher Cassie, cuja voz faz o contraponto perfeito com a do dorido Berman.
Esta segunda encarnação dos Jews é claramente mais polida e menos "artística"  do que nos caóticos e livres primeiros discos. Estes dois últimos são discos bem gravados, se bem que simples, e apostam na estrutura normal de canções, com efeitos devastadores. Berman é o rocker mais letrado do mundo (foi professor de literatura e é um escritor de algum sucesso), e a mistura do som country-rock-noise com letras perfeitas, bonitas e desesperadas, faz dos Jews - e deste disco em especial - uma obra-prima.
Os Jews não são necessariamente uma banda fácil. Não começamos logo a bater o pé, não ficamos viciados na primeira audição. É uma banda que requer carinho, entrega, uma audição cuidada até estarmos devidamente infectados. É a antítese do mp3, mas curiosamente foi assim que os conheci. Cheguei lá por ouvir o grande Cigano Mágico falar neles, saquei os albuns todos da net. De todos, "Tanglewood Numbers" foi o que mais me agarrou, e continua a ser o meu preferido até hoje.
Tudo é bom, mas as letras são do melhor. O universo é americano, mas o americano de Bukowski, das lojas de conveniência, das noites perdidas, das estações de serviço e das mulheres que se vão embora.
Deste disco, deixo-vos um excerto da letra de "Punks in the beerlight", a faixa que abre o disco:

"where's the paper bag that holds the liquor?

just in case I feel the need to puke.
if we'd known what it'd take to get here.
would we have chosen to?".

Para quem estiver interessado e use o Utorrent, pode sacar o disco daqui.

domingo, 4 de outubro de 2009

O Disco da minha vida V

E agora, depois de Doors, Xutos, Pulp e Led Zeppelin, esta nossa pequena saga entra no jazz.


Gosto bastante de jazz, tenho bastantes discos, mas não posso dizer que perceba muito do assunto.

Quero falar-vos de um dos primeiros albuns de jazz que tive, e que acabou por servir como porta de entrada para esse mundo, estranho ao princípio, mas muito absorvente pouco depois.

Falo de "Sunday at the Village Vanguard", pelo Bill Evans Trio. Gravado, como todos os discos de jazz daquela altura, num único dia, numa única sessão com vários takes alternativos. Neste caso, foi gravado ao vivo no Village Vanguard, em Nova Iorque, a 25 de Junho de 1961. Não sei nada do sítio, mas entre as músicas e nos momentos mais calmos pode ouvir-se o barulho de copos e de talheres. E, enquanto isso, três grandes músicos no palco iam fazendo alguma da melhor música alguma vez feita. E, entre as músicas, os comensais brindam a banda com tímidos e desinteressados aplausos, não sabendo que, de facto, estavam a presenciar história.

O trio era composto por Bill Evans, o grande pianista, Paul Motian, na bateria, e Scott La Faro, no contrabaixo. Nada de instrumentos de sopro, nenhum som a rasgar, tudo muito soft, elegante e sensível.

Às vezes, parece música de piano bar, mas a melhor música de piano bar que alguma vez ouvi.

Para além da enorme qualidade do disco, outro facto significativo foi que La Faro, um revolucionário do baixo, morreu poucos dias depois deste concerto, creio que num acidente de automóvel. Foi uma grande perda para o jazz, e este disco funciona um pouco como o seu testamento. Saíram dois discos deste concerto: este e outro, igualmente fabuloso, o "Waltz for Debby". Este último é talvez melhor ainda, porque mais variado e lírico, mas o alinhamento de "Sunday at the Village Vanguard" foi escolhido de forma a incluir as músicas com melhor prestação de La Faro, como uma homenagem.

Foi-me oferecido tinha eu talvez uns 15 anos, por um idiota que era namorado da minha melhor amiga. O tipo tinha a mania que era esperto, e gostava de se armar em cromo do jazz. Era um merdas, mas a verdade é que, em dois aniversários, me ofereceu dois grandes discos: este e "Mingus, Mingus, Mingus", do contrabaixista Charles Mingus, dois discos que me acompanham de perto até hoje.

É um disco perfeito para inúmeras ocasiões. Ouvi-lo com atenção, de phones, como estou a fazer agora; como "cama musical" para um jantar e converseta com amigos; como acompanhamento de um bom livro, quando lá fora está frio e chuvoso.

Há muitos anos atrás, eu e uns amigos fizemos uma férias nos Açores. Ficámos em casa do pai de uma amiga nossa, uma casa excelente na Terceira. Dormimos em sacos-cama na garagem mas, em compensação, tínhamos à disposição uma piscina fantástica, um frigorífico sempre atestado de Carlsbergs fresquíssimas, e um rádio portátil com leitor de cds. E quantas noites passámos nós à beira da piscina, a conversar e a jogar cartas, ao som deste disco. Uma noite com bons amigos, o céu estrelado por cima, e Bill Evans no rádio. Estava bastante deprimido nessa altura, mas a verdade é que, quando penso nessas férias, vem-me um feeling positivo, e vem-me a lembrança dessas noites, e deste som. Só deixou marcas boas, portanto.

Tenho mais uns quantos discos de Bill Evans, mas destaco particularmente um: “From left to right”, em que ele alterna um piano clássico com um piano eléctrico. É o melhor som para acordar na boa, e para adormecer.

E as boas notícias são que qualquer um destes discos existe na lojas decentes, e a preços ridiculamente baixos. Se isto vos disse qualquer coisa, façam um favor a vocês próprios e comprem-nos. Se gostarem deles metade do que eu gosto, vai valer a pena.

sábado, 19 de setembro de 2009

O disco da minha vida IV


1969. Os hippies estavam a dar as últimas, e o som inglês começava a tomar conta. Depois dos Beatles e dos Stones, uns anos antes, os sons mais pesados dos Led Zeppelin, Deep Purple e Black Sabath começavam a anunciar o que se seguiria, nos anos 70.
1992. Um puto do subúrbio recebe uma cassete mal gravada que muda a sua vida.
Estamos a falar dos Led Zeppelin, essa banda de hard-rock e blues com as letras mais parolas do mundo (dragões e o camandro) e o maior feeling que alguma vez saiu de um poderoso PA.

Todos os albums dos LZ são bons, exceptuando talvez os dois últimos, "Coda" e "In through the out door".
O "Led Zeppelin II" foi o primeiro deles que conheci, o que talvez explique o facto de, ainda hoje, ser o meu preferido da banda. Como aconteceu com tantos outros discos e bandas, foi o rapaz do estupefacto amarelo quem mo mostrou, de entre o espólio de música fixe do seu irmão mais velho. Na altura, eram os Doors que estavam a dar, mas os LZ eram diferentes. Todos queriam ser o Jim Morrison, ninguém queria ser alguém dos Zepp, pela simples razão que ninguém sabia quem eles eram. Era uma banda, uma verdadeira banda, e o som, a música, eram tudo o que era importante. Os quatro membros da banda eram de um poder incrível, individualmente, mas ultrapassava tudo quando estavam juntos. Um som intenso, coerente, surpreendente, poderoso.
E, num momento em que toda a gente começou a querer ser alternativa, ninguém sabia quem eram os LZ. Eram uma relíquia dos anos 70, um comboio-expresso chegado do passado a meio da noite. Eram, enfim, rock n roll como nunca conhecera, e como nunca soubera que era possível existir.
É, de todos os discos deles, o mais completo, aquele no qual todos os membros têm os seus momentos brilhantes e espaço para o mostrar, dentro do som coerente da banda. É também a primeira vez que uma band de hard-rock mostra o que era possível fazer no estúdio. A produção é suja mas fabulosa, com ecos, reverb, feedback, tudo e mais alguma coisa. Em resumo, uma viagem de montanha-russa de rock e blues, com toda a energia de uns AC/DC, mas com 10 mil vezes mais criatividade.

É o disco de Whole Lotta Love, que abre o album, mas todas as músicas são excelentes. Destaco a drogada "The Lemon Song", com Robert Plant a bombar na harmónica, a relaxada "What is and what should never be", a histórica Moby Dick com John Bonham a mostrar por que razão foi o melhor baterista rock de sempre, bem, todas as músicas, realmente.

Não me apaixonei, não sofri, não encontrei subitamente o meu lugar na vida com este disco. Não foi preciso nada disso para, ainda hoje, ser um dos discos da minha vida. Era acerca do som, e sempre foi acerca do som.
Um dia, levava a cassete no walkman, tinha calçadas as botas que eu achava que pareciam de cowboy. A descer a rua, a caminho da escola, senti-me um homem. E ouvir este disco, em alto volume, leva-me ´lá outra vez.

Ramble On!!

domingo, 6 de setembro de 2009


O Disco da Minha Vida III

E aqui, meus amigos, entramos em território quase sagrado. Falamos dos Pulp, essa banda que, durante anos, foi a banda preferida de qualquer gajo que não podia com os U2 e torcia o nariz aos boçais (se bem que não totalmente desprovidos de talento) Oasis.
Estávamos nos 90's, terreno dominado pela Britpop, com tudo o que isso teve de bom e de mau.
Os Pulp não tinham nada a ver com a Britpop, apenas foram adoptados quando a maralha se apercebeu da maravilha weird que tinha entre as mãos. Desde o início dos anos 80 que o infatigável e mítico Jarvis Cocker brincava com uma banda chamada Pulp. O primeiro disco, "It", era uma coisa esquisita, entre o bucólico e o alucinado. Tem poucas faixas que interessem realmente, mas foi suficiente para mostrar que Jarvis via o mundo através de óculos especiais.
Seguiram-se vários álbuns bastante bons até ao início dos anos 90, quando, já com a formação clássica estabilizada, saiu o "His n Hers". O disco culmina o período pop dos Pulp, feito de canções de amor e frustração embebidas em sintetizadores e grande malhas. "Babies" e "Do you remember the first time" são os exemplos mais óbvios de uma coisa linda. Mas o melhor estava ainda para vir.
Foi em 95 que o mundo viu nascer "Different Class". Fica para a história como o disco de "Common People", que muito à Pulp é apenas a terceira faixa do album. Mas era muito mais que isso. Foi com este disco que os Pulp conseguiram fazer a síntese perfeita entre a pop doce e sintetizada do passado com o seu lado negro de rock inteligente. Resultado? Um disco que agrada imediatamente ao ouvido mas que, devido à profundidade das letras, do ambiente e das camadas sonoras das músicas, permite que vivamos nele anos e anos. E isto, meus amigos, muito poucos discos conseguem fazer.
Tantos anos vivi neste disco que consegui proezas fantásticas: amei e odiei e voltei a amar a mesma rapariga ao som dele, variando as músicas; deixei de conseguir ouvir uma das faixas, "FEELING CALLED LOVE", porque um bom amigo chorou a mesma rapariga ao seu som; entre outras coisas inconfessáveis sob pena de estragar de vez a minha reputação.
É um disco que me inspira a escrever de cada vez que o ouço. Cada música é um mundo, literário. E faz a perfeita síntese entre letra e música.
Very british, mas com um twist.
É música para frustrados, para voyeurs, para os que vêem a gaja boa escolher o idiota com caparro porque tem carro, para os que - mesmo que vivam no centro - sabem que vieram dos subúrbios, para os que são lousy in bed mas têm garganta à mesma, para os românticos deseperados que se refugiam na bebida e na poesia, para os que só conseguem não estar à margem enquanto dura a embriaguez.
Todo o disco, as 12 faixas, são excelentes, sem excepção.
Os destaques óbvios são "Common People", "Underwear", "Disco 2000", "I Spy" pela letra que é praticamente uma cartilha do mundo Pulp e, a minha preferida de toda a carreira do grupo, "Something Changed".

Depois disto, o "This is Harcore", em bom nível, e a seguir o "We Love Life", já mostrando o desgaste que levaria ao fim da banda.
O "Different Class" é, apenas, o melhor disco pop de todos os tempos, e deixa para trás maravilhas como "Parklife", dos Blur, ou "White Album" dos Beatles.

Quem não o conhece, agarre-o. Quem conhece, sacuda-lhe o pó.
Vale sempre a pena.

sábado, 29 de agosto de 2009


O disco da minha vida II

Teria de ser dos Xutos.
Percebo que os Xutos são um bocado como o Benfica, como tem muitos adeptos é cool dizer mal. E admito que custa a perceber qual o apelo dos Xutos para quem contacta agora com eles pela primeira vez, sem ter crescido com o seu som.
Eu cresci, e é também, ou sobretudo, por isso, que continuo a ser fã e a fazer o gesto ridículo dos braços cruzados.
Ó ié.

O disco em causa é o "78-82", o primeiro album da banda. Tem músicas feitas ao longo de quatro anos, o alinhamento era diferente do que é hoje. Zé Leonel tinha saído da banda (era vocalista) antes de gravarem qualquer disco, o que levou Tim a acumular as funções de baixista e de vocalista, até hoje. João Cabeleira, provavelmente o membro da banda que mais fez pelo "som Xutos", não constava ainda. O guitarrista era um tal de Francis, que não brilhava muito mas soava bem, de forma económica.
O disco saiu em 82 - eu tinha quatro anos - mas conheci-o bem mais tarde, provavelmente em 87 ou 88. Andava na preparatória de Oeiras e os Xutos foram a primeira banda rock, ainda para mais em português, que conheci. Naquela transição - ainda por cima para mim, que vinha de um colégio particular - o som duro, naif e diferente dos Xutos era tudo o que precisava para sentir que não estava só. Eu não tinha aparelhagem em casa, isto era muito antes da existência do CD, e lembro-me perfeitamente de como o disco veio parar às minhas mãos. É claro que já tinha ouvido falar dos Xutos, eles estavam a ganhar força mediática nessa altura. Eu tinha um daqueles gravadores de usar com o Spectrum - meses mais tarde ofereceram-me um mini-tijolo, daqueles pequenos e fininhos que só tinham um deck - e, como tal, só ouvia cassetes. No café ao pé da "ocupação de tempos livres" que frequentava - no qual o "professor" batia com a cabeça dos alunos no quadro de ardósia - havia um café chamado Belavista (será que ainda existe?), ali ao pé de Sassoeiros. E tinha uma daquelas coisas grandes e rectangulares com cassetes para venda. Mais de metade era Marcos Paulos e outras pimbalhadas, mas tinha também Elvis, Xutos, os Jackpots todos, etc. E aquela cassete dos Xutos (era um mini-album, não tinha sequer o disco todo), tinha uma capa branca, com a imagem dos Xutos em concerto, nem sequer era a capa original do disco (que por acaso é das capas mais foleiras que já vi).
Devido às boas notas e por ser genericamente um miúdo espectacular (ehehe) a minha mãe lá me comprou a cassete. Quando cheguei a casa, fui a correr para o quarto, fechei a porta, e fiquei lá até à hora de jantar, a ouvir. Não percebia tudo, não estava habituado àquele som. Mas a música era simples, directa, honesta e ingénua, e conquistou-me de imediato. Durante os anos seguintes, e ainda hoje, voltei muito a este disco, que tanto me ajudou.
É claro que o melhor disco de Xutos é o "Xutos ao Vivo", gravado no Restelo creio que em 88, mas este é especial pelo que me deu. Pouco tempo depois arranjei o maxi-single "Sétimo Selo" e depois saiu o "Album 88", e os Xutos deixaram de ser o meu segredo.
Depois, já na Secundária, quando estava ainda mais sozinho e muito mais inadaptado que antes, tornei-me amigo do Rapaz do Estupefacto Amarelo, numa amizade que ainda hoje dura. Tudo porque também ele era fã de Xutos, e foi daí que não mais parámos de descobrir música juntos.

Do disco, que neste momento roda no meu prato, limpinho de riscos que é uma maravilha, destaco alguns pontos. "Dantes", música de 81 que ainda adoro, que abre com a frase "Dantes, o tempo corria lento, meu"; "Mãe", também de 81, a primeira vez que ouvi algo de sexual numa música em português; "Medo", uma ode tenebrosa ao vício da heroína; "Viuvinha", que durante muito tempo foi a minha música preferida do disco; "Ave Maria", a música maldita e censurada, que é a única cuja letra não vem no disco; e, sobretudo "Quero-te", uma simples música de amor que tem o mais simples, ingénuo e eficaz solo de todo o rock português, que me leva de imediato ao sol, à infância e ao medo e gozo da descoberta de tudo. Lembra-me também uma visita de estudo à Foz do Arelho, onde vi pela primeira vez o grande amor da minha infância de bikini. E eu, a tentar interagir com ela e a meter-lhe areia dentro do fato de banho, sem saber que mais raio podia fazer.

E é isto. Eles ainda aí andam, no grande circo do rock n roll. Mas foi aqui que tudo começou para eles, e para mim também.

sábado, 22 de agosto de 2009


O disco da minha vida I - "The Doors in Concert"


Ouvi este disco no outro dia, pela primeira vez em mais de cinco anos. Ao escutá-lo de uma ponta à outra, tudo veio de repente. O tempo em que o conheci, quando o comprei, os anos que me acompanhou, tudo o que descobri por causa dele. Comecei a falar descontroladamente à minha mulher até ela me mandar calar.
E então pensei: "por que não passar a chatear os clientes do vodka, acerca dos discos que me marcaram? talvez alguns não conheçam, talvez...".
Enfim.
Como é óbvio, um obcecado por música como eu não podia nunca escolher só um disco. Os discos marcam-nos por motivos diferentes. Porque associas a momentos da tua vida, bons e maus, porque são muito bons ou apenas porque era aquilo que precisavas de ouvir naquele momento. Quando temos sorte, os discos salvam a nossa vida. A mim, aconteceu-me com muitos, dando a banda sonora, a fuga e a identificação quando tudo parecia confuso e perdido.
Tinha de começar pelo Doors in Concert.
Foi o álbum que mais vezes ouvi na vida, de longe. De tal forma que gastei a primeira versão e tive de comprar outro cd (isso nunca me aconteceu com mais nenhum disco).
Devia ter uns 13, 14 anos quando o comprei, tinha acabado de receber o meu primeiro leitor de cd's. Já conhecia Doors através das cassetes do irmão mais velho do rapaz do estupefacto amarelo. Andava a namorar o Best of Doors, cd duplo, e um dia pedi à minha mãe para ir com ela ao Cascais Shopping, já munido do dinheiro que havia ganho nos anos.
Não havia. Estava esgotado.
Fiquei miserável. Andava a sonhar com aquilo havia meses. A alternativa era comprar algum dos álbums, mas isso custar-me-ia praticamente o mesmo e deixava de foras muitas músicas.
Sobrava o Doors in Concert. Olhei para ele. Capa preta, letras a vermelho, boa pinta. Dois cd's, e neles muitas das músicas que estavam no Best of. Arrisquei.
Quando cheguei a casa foi a desilusão. Estúpido e limitado como eu era, fiquei desiludido por as versões serem bastante diferentes do estúdio, do que eu estava habituado das cassetes, que ouvira durante meses até à exaustão.
Mas não havia mais nada. Nada excepto um album de Resistência, que eu odiava e me tinham dado com o leitor, uma colectânea do Elvis que adorava, e o Apetite for Destruction, dos Guns, do qual também gostava muito. Mas eu queria era ouvir Doors.
E foi assim que nasceu a relação de absoluto amor com este disco.
Foi a verdadeira porta para tudo o que se seguiu: Janis, Jimi, os blues, os anos seguintes da minha vida.
Era um disco que tinha (e tem) tudo. Blues à séria, poesia cósmica entre as músicas, uma banda em grande forma, quase todos os sucessos e ainda versões de gajos diferentes e muitas músicas que eu não conhecia. Ah, e a melhor versão do The End que alguma vez ouvi.
Está neste momento a bombar na minha aparelhagem, e tenho um sorriso nos lábios.
Os destaques: Backdoor Man e o seu uivo no início; a versão perversa de Five to One; as pérolas que são Universal Mind e Names of the Kingdom; Break on Though precedida do alucinado Dead Cats Dead Rats; a versão definitiva de Roadhouse Blues; Manzarek com voz de estenógrafo a divertir-se como um doido a cantar Close to You; o blues Little Red Rooster com a harmónica em fogo de John Sebastian; The End.

Os Doors têm seis discos de originais. O melhor talvez seja o Strange Days, pelo menos era o que tinha mais credibilidade artística para nós, fãs hardcore da banda. O pior é, evidentemente o Soft Parade. O último, o mais bluesy, o óptimo mas desvalorizado LA Woman. O primeiro, muito forte e o mais coerente em termos estéticos. E Waiting for the Sun e Morrison Hotel, com muitos dos melhores momentos "pop" dos Doors.

Mas Doors in Concert são duas rodelas recheadas de 31 músicas, em mais de duas horas de uma viagem fabulosa.

Obra-prima, sem dúvida, e o disco da minha vida.