O que procuro em ti, eco ou planície, que não me respondes? Porque devolves apenas a minha voz?

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segunda-feira, 20 de março de 2017

Dia-a -dia #260


 

Sábado passado, dia 18 de Março apresentei "A Grua" de Henrique Manuel Bento Fialho, livro publicado pela Volta d'Mar, aqui fica o texto:


Quando o Henrique me pediu para apresentar o livro, disse-lhe já tinha participado na apresentação de dois livros de poesia, mas a falar de ilustração, porque era autora imagem da capa. Não aceitei logo, li primeiro o livro. Quando estava a ler, de imediato comecei tirar apontamentos, depois telefonei-lhe a dizer que o conseguia apresentar. Trago aqui alguns dos apontamentos para não me perder. Alerto-vos já que não sou a autora da capa, onde vemos uma grua, que vai ser a imagem central que percorre todo o livro.

Sou pintora, mas também sou leitora de poesia. Uma das coisas que me agrada nesta arte maior das palavras é que, antes mesmo de ler um poema, posso ver a mancha do texto nas páginas. Observo a superfície textual dos versos que é variável, ao contrário de uma prosa escrita, que é mais monótona. Há também uma grande qualidade na poesia, que se relaciona com capacidade de síntese, a sua forma estética permite condensar uma enorme quantidade de informação. Aquilo que um ensaio ou uma narrativa nos diz em quilómetros de páginas, na poesia surge com uma escala mais pequena, talvez mais humana, se é que se pode falar assim. Em termos musicais, confesso que também tenho mais empatia em escutar um nocturno de Chopin, do que levar com uma ópera de quatro horas de Wagner, com toda aquela mitologia nórdica para a eternidade, e efeitos especiais para o público acordar a meio.

No passado os cânones tradicionais da métrica e da rima eram também ferramentas que auxiliavam a memorização dos poemas. Esse desvio da linguagem do seu uso vulgar pode também ser feito através da metáfora e da metonímia, ou com processos de alteração da sintaxe, podendo mesmo as alterações ter um significado visual concreto, no caso do verso linear ser substituído pela ideografia. Depois de eu falar, o Fernando Mora Ramos irá fazer as leituras do livro, que tem muito mais interesse.

No passado os cânones tradicionais da métrica e da rima eram também ferramentas que auxiliavam a memorização dos poemas. Esse desvio da linguagem do seu uso vulgar pode também ser feito através da metáfora e da metonímia, ou com processos de alteração da sintaxe, podendo mesmo as alterações ter um significado visual concreto, no caso do verso linear ser substituído pela ideografia. Ora, neste livro do Henrique estamos perante um cuidadoso uso do verso livre, digo cuidadoso porque não recusa o potencial fonético das palavras no seu significado, num poema-sequência que tem uma forte carga imagética, que marca o carácter dramático ao longo do seu desenvolvimento.

No passado os cânones tradicionais da métrica e da rima eram também ferramentas que auxiliavam a memorização dos poemas. Esse desvio da linguagem do seu uso vulgar pode também ser feito através da metáfora e da metonímia, ou com processos de alteração da sintaxe, podendo mesmo as alterações ter um significado visual concreto, no caso do verso linear ser substituído pela ideografia. Em relação ao livro do Henrique, quando lhe telefonei a aceitar o desafio disse-lhe logo quais os versos que tinha decorado à primeira vista. Mas fazendo o paralelo com o que é ler uma partitura musical, numa leitura à primeira vista não é possível conhecer a música no seu todo, ficasse apenas com uma ideia. Quando voltamos a ler vamos descobrindo subtilezas e detalhes que nos escapam no imediato, até começarmos a descobrir a harmonia, para termos a noção do todo que ali se encontra, para o interiorizarmos.

Voltando aos apontamentos que fui escrevendo sobre o livro do Henrique: como já referi, trata-se de uma sequência em verso e foi dividida em vinte estâncias, que se desenvolve com uma forte componente dramática e imagética. Logo início surge a imagem central duma grua desactivada numa obra embargada, e um sujeito poético observa esta paisagem melancólica, e pensa no passado construtivo e útil desta máquina silenciada devido à falência dos construtores.

Aparece então a primeira situação dramática: um enforcamento a atribuir uma nova função a esta grua. Somos também confrontados com a reacção da população, que fotografa o homem tombado na grua e partilha as imagens. De imediato lembrei-me do Je Suis charlie, movimento que surgiu nas redes sociais quando os cartoonistas foram assassinados em Paris. O poema diz-nos:

…………………………………………………………….

as pessoas gostam de se ajuntar
ao redor das ocorrências
comentam em surdina infortúnios e desgraças
imaginam motivos e inventam razões
são de uma agilidade insuspeita
quando se lhes pedem cenários
para tragédias alheias
mas detestam ser ameaçadas
pela exibição constante da morte

………………………………………………………………………

Depois surge um elemento que resgata um pouco de vida nesta ruína-grua: uma cegonha constrói um ninho. O sujeito poético imagina então o que a cegonha vê nos tapumes da obra embargada lá em baixo, imagina o que está escondido, o que ninguém pode ver, numa projecção do id ou inconsciente nesta paisagem. Imagina também que se nascessem ervas no espaço dos tapumes, poderia ser útil para um rebanho de ovelhas.

Entramos depois num universo onírico: ele sonha com a grua numa tempestade onde apenas o seu gancho se move como um pêndulo. Este sonho/pesadelo inicia um diálogo interior no sujeito que observa a grua diariamente. O poema diz-nos: e não foi em sonhos que vi esta grua voar.

Nestes diálogos interiores ele projecta-se nesta paisagem quotidiana que observa da janela do seu quarto, espaço privado onde adormece, sonha, acorda e pensa. Surgem assim reflexões sobre as relações entre o sonho, a imaginação, realidade, a loucura, as intempéries naturais, o estado do mundo, e também sobre a sua própria existência individual.

Ao observar que a grua desenha na paisagem um triângulo escaleno, ele reflecte também sobre o cosmos da geometria e o caos do mundo, e sobre as fórmulas e a falência de teoremas. Assume-se depois como uma forma deformada, descrente nos homens ou utopias. Sente-se cansado, mas não perde o espanto em observar aquela grua quotidiana silenciada, sempre a indicar o caminho de obra embargada, edifício emparedado e máquina inutilizada.

Nestas projecções do sujeito na paisagem surge um dos momentos mais belos desta sequência, também por ser uma reflexão sobre as próprias palavras dentro do poema. Desculpem lá, eu não resisto e vou ter de ler:
…………………………………………………………..

quando dizemos amor
a palavra levita como uma pena
no regaço de uma brisa de verão
quando dizemos ódio
a palavra cai na terra e levanta pó
é como uma pedra
arremessada sem perdão

mas se dissermos silêncio
quem por nós erguerá tamanho peso?
é palavra tão sem medida
que mil braços humanos não chegariam
para levantá-la um milímetro que fosse
desse chão onde o ódio nos espatifa

queria uma grua que levantasse o silêncio
à altura do nosso amor
para que daqui onde me encontro
pudesse continuar a olhar-te
à distância de um sonho
onde fosse autêntico como um punhal
cada vocábulo deste triste quadro
os teus lábios são um navio de esperança
a minha boca um porto de abrigo
e à deriva andamos ambos na ausência um do outro
enquanto reclamamos
de ser tudo como dantes:
tão indolente que parece quase morto
tão indolente que prece quase morto

………………………………………………………………….

Este sujeito poético fechado, cansado, sente-se impotente em relação ao estado do mundo. Refere então que os poetas do seu tempo, sobretudo as raparigas reivindicam incêndios, mas parecem-lhe fósforos inofensivos. (Aqui lancei a pergunta ao Henrique, se faz sentido nos tempos conturbados em eu vivemos, existir uma lírica social?). Perto do fim desta sequência, de um modo inesperado, é-nos anunciado com data e tudo, que houve uma fusão entre o sujeito poético e objecto grua. Surge assim: se digo nós é porque já não distingo/ quem discursa no interior desta morte.

Esta fusão é apresentada também como um momento em que ambos claudicaram ou seja, vacilaram, fraquejaram ou coxearam em conjunto. E eu vou terminar a apresentação com as palavras finais deste poema sequência do Henrique, porque é uma espécie de final aberto:

……………………………………………………………….

seja então este o antepenúltimo verso
conquanto todas as manhãs desabrochem
no planalto dos sonhos.


 

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Dia-a-dia# 240


Fiz a imagem da capa de "Londres" (2010) de Nuno Dempster na &etc, sem conhecer o Nuno pessoalmente. Ele tinha visto o meu trabalho na internet e pediu-me para a fazer. Só nos encontramos depois e ainda nesse ano, em Viseu, quando lá fui cantar com o Coro de Câmara da Universidade de Lisboa. Na altura também não conhecia o Vítor Silva Tavares, ele enviou-me os exemplares de "Londres" pelo correio. Encontrámo-nos a primeira vez na cave da Rua da Emenda por causa de um problema com o grafismo da capa de "Linhas de Hartmann" de Paulo Tavares. Foi em Fevereiro de 2011, o Vítor entregou-me também nesse dia os exemplares de "K3" do Nuno Dempster, acabadinhos de sair. Também tinha contribuído para "K3" com a imagem da capa. Fiquei fascinada com os relatos que o Vítor fez sobre as tipografias de Lisboa que conheceu. Depois apareceu o Paulo Tavares, foi também a primeira vez que nos encontramos pessoalmente: tinha feito a imagem da capa de "Linhas de Hartmann", mas só falávamos por e-mail. Ficámos lá umas horas a conversar com o Vítor e tudo se resolveu da melhor forma. Voltei várias vezes à cave e foi sempre um privilégio ouvir as estórias que me contou com imensa graça. Nunca me irei esquecer da sua paixão pelos livros.


quinta-feira, 23 de maio de 2013

Ilustração #38



















........................................................................

Eis o país
de há dois mil e duzentos anos
que não sei se agoniza,

os pequenos países hoje são
paisagens na Web
isentas de sinais,

mas sinto a predação,
ameaça tocada pelo vento sul
que traz a chuva e as más novas
e alaga o susto,
muito depois de Galba ter passado
na serra ali defronte.

........................................................................

Nuno Dempster - "Uma Paisagem na Web". Lisboa: &etc, 2013

Ainda não tenho o livro nas minhas mãos para o qual tive o previlégio de contribuir com a imagem da capa. Em breve estará nas livrarias.
 

 

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Ilustração #36



Esta casa tem estado tão desarrumada que só agora reparei que não tenho colocado por cá material recente, como por exemplo, o texto que li no lançamento do livro de estreia do Ricardo Marques, a 27 de Outubro de 2012 na Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul em Campolide (Lisboa), livro para o qual tive a honra de contribuir com a imagem da capa. Aqui fica então o texto:
Quando o Ricardo me convidou para estar aqui, pediu-me também para dizer algumas palavras, de preferência de um modo informal e pouco académico. Respondi-lhe que poderia falar um pouco sobre o encontro entre a pintura e a poesia, que está presente neste livro. Se não tivesse com gripe esta semana, trazia-vos algo mais elaborado. Estando assim, e graças ao antibiótico consigo dizer algumas palavras sem tossir a meio e não me vou alargar muito.
Acho que é sempre um desafio interpretar a poesia através da pintura. Prefiro a palavra interpretar a ilustrar, porque quando estou a criar uma imagem a partir de um poema, relaciono-me com ele como um músico se relaciona com a partitura, ou seja, o músico executa a partitura, que é uma espécie de música teórica à qual ele tem de dar corpo. Para tal tem de existir a compreensão ou tradução da partitura, e o resultado será uma sempre uma versão dela. Sinto sim, que executei os poemas do Ricardo, e para tal tive de sair de mim própria, para lhes dar um novo corpo através da imagem; tal como um intérprete dá corpo à música ao executá-la compreendendo e interiorizando uma partitura. Mas a música é da ordem do invisível ao ter como corpo o próprio tempo. A poesia também tem a temporalidade como corpo, por ser ritmo sonoro de palavras. Mas na poesia, as palavras afastam-se do seu uso corrente ou vulgar. Na poesia a linguagem é despragmatizada, as palavras entram num processo alquímico, falando-nos através de enigmas ou paradoxos. Como os poetas não dizem coisa com coisa (e é por isso que gosto deles), penso que a palavra ilustrar não é adequada quando se trata de criar imagens a partir de poesia.

Recordo-me que no passado fiz ilustrações para artigos científicos de arquitectura, nomeadamente, para artigos sobre técnicas tradicionais de construção, onde utilizei o desenho com a função de explicar o funcionamento dessas técnicas, com a função de esclarecer ou explicar o texto através da imagem. Esta é a ideia que tenho do que é uma ilustração convencional, algo bastante técnico com carácter científico, que permite o leitor ver e entender melhor o texto. Acho que em matéria de relação entre poesia e imagem não é bem isso que se passa. As imagens não explicam um poema, nem o esclarecem na leitura.

Em relação às imagens, elas são a representação de formas no espaço, um fragmento da realidade. Pode também ser uma apresentação de formas no espaço-tempo, ou seja, uma articulação de fragmentos da realidade. Em todo o caso é sempre a suspensão do tempo num espaço que a aprisiona, em paralelo ao tempo que está a decorrer. Neste sentido é uma pausa no tempo, a imagem é da ordem do silêncio. Mas ela fala através do silêncio, sendo assim um instrumento diferente da poesia, onde o ritmo sonoro das palavras está sempre presente. Mas na poesia também existem imagens.

As imagens nos poemas surgem de forma sucessiva e o problema é que só faço uma imagem por poema, conseguindo, no entanto, associar por vezes várias imagens que vejo num poema, numa mesma imagem que interpreto a partir dele. Logo perde-se muito neste processo de interpretação, devido à construção da imagem limitada. Aquilo que vejo acaba sempre por ser um ponto de vista, é uma leitura que tem limites. Não sei se por vezes consigo fazer alguma síntese do poema através da imagem, mas pelo menos tento que exista um diálogo entre ambas a expressões, pontos de contacto. Certamente que este diálogo se passa num plano metafórico.

Agora, para finalizar, quero agradecer ao Ricardo o desafio que foi interpretar os seus poemas, estou feliz com o modo como este encontro se realizou, que resultou neste seu primeiro livro de poesia. Espero que venhas a publicar muitos e bons livros. E quanto ao encontro entre a poesia e a pintura tenho apenas a acrescentar as palavras de Vinícius de Moraes “ A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”. E estamos aqui vivos para isto.

WEATHER FORECAST

Acreditar na vida como
acreditamos no boletim
metereológico de todos os dias.
Apesar de todas as previsões,
fundamentadamente científicas,
há sempre uma variável que não
controlamos. E por isso temos
esperança e desconfiamos. E tal
como toda a gente, aprendemos
que há que saber sair de casa
esquecendo deliberadamente o
guarda-chuva.

Ricardo Marques – “Eudaimonia”. Lisboa: Edição de Autor, 2012.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Ilustração #34

 


 


Ésquilo - "Agamémnon". Lisboa: Edições Artefacto, 2012
Imagens da capa e contra-capa da minha autoria.

sábado, 2 de junho de 2012

Ilustração #33







Pedro Tiago - "O comportamento das paisagens". Lisboa:  Artefacto Edições, 2011.

Imagens da capa e contra capa da minha autoria.
Mais ilustrações aqui e aqui.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Ilustração #32







2.
Creio ter aqui chegado por um certo engano,
e por isso o meu nascimento foi uma avareza de rosas,
e os cães rosnaram no extremo da charneca, e um uivo
inquietou a solidão doirada da planície para que algo
me dissesse como estou aqui, como cheguei aqui,
como o meu leite é negro sob a tempestade dos homens
e os elementos não sabem como interromper a ameaça.


Onde anda meu pai a esta hora infinita, não sei.
De todos os lugares chegam vozes impossíveis,
e o meu berço azul brilha no centro da terra, nesta casa
de cal, nesta branca tirania da suavidade, que Eliat ignora
e só um mar vermelho poderia aquietar.


Venho à vida, e venho a um lugar estranho onde as vozes
se levantam para murmurar, e por murmurações
entendo a condenação à fogueira, e a chuva de larvas
nos campos em volta, e os cavalos desenfreados
que vão de igreja em igreja procurar a redenção,
e os homens que, nas tendas, preparam as facas.


Aqui nasci, e não tenho onde repousar a cabeça, e nada
vem transformar a água em vinho, e a minha língua arde
pela impossibilidade de escolha das primícias, sendo que quero
uvas, maçãs, um pêssego absoluto, e toda a paz da planura,
toda a paz da humildade, enquanto os meus mortos revogam
os meus cânticos, e eu canto como cantam as raparigas de Jerusalém.

 Amadeu Baptista in "Outros Domínios Clamor Por Flobela Espanca", Coimbra, Temas Originais, 2011.

domingo, 27 de março de 2011

Ilustração #31

Ontem foi o lançamento de "Linhas de Hartmann" de Paulo Tavares, livro para o qual contribui com a imagem da capa. Deixo-vos aqui o texto que li:

Quando o Paulo me convidou para estar aqui, pediu-me também, para dizer algumas palavras: respondi-lhe que falar não é bem a minha área, sou mais de fazer com as mãos. A mão pensa, como afirmou Ana Hatherly. Acrescento que a mão para pensar tem de ouvir. Foi o que se passou em relação à capa deste livro, pensei com as mãos; mas não pensei sozinha, porque o livro resultou de um bom encontro entre o poema do Paulo Tavares, a minha pintura e o grafismo do Pedro Serpa, um ensemble que foi dirigido pela sábia mão do maestro Vítor Silva Tavares.

 
O principal receio de estar aqui e agora seria ter de falar do poema. Acho que é sempre difícil falar sobre poesia, porque é uma arte onde as palavras se afastam do seu uso corrente ou vulgar; na poesia a linguagem é despragmatizada, as palavras entram num processo alquímico, falando-nos através de enigmas ou paradoxos. É por isso que gosto de poesia, e dos poetas, porque não dizem “coisa com coisa”.

Entrei em diálogo com o poema do Paulo Tavares através da pintura, mas não vou falar sobre o poema, porque ele existe para o lerem, assim como a imagem da capa existe para a verem. Vou falar-vos, sim, como decorreu o encontro entre a poesia e a pintura no rosto deste livro. Segundo Plutarco, o grego Simónides, seis séculos antes de Cristo, afirmou que «a pintura é a poesia muda e a poesia uma pintura falante», ideia que Horácio retomou na sua “Arte poética”, ao considerar que a pintura é como a poesia – Ut pictura poesis. Acrescento que, se a pintura é a arte do silêncio que fala, talvez a poesia seja a própria voz do silêncio. A poesia é um quase-nada, presque-rien no dizer de Vladimir Jankelevich, filósofo francês que considerava a música o inefável, por ser a arte que diz o que não é possível dizer por palavras.

Voltando ao ensemble musical que se reuniu neste livro, para Michel Guiomar a música de câmara é sempre uma lição de humildade e humanidade, porque ela vive essencialmente da audição: um pequeno grupo junta-se para praticar e ouvir música em simultâneo, e em última instância, não necessita de público, porque os próprios intérpretes são também ouvintes. No passado, antes de existirem as gravações e outras tecnologias, era frequente, sobretudo na Europa Central, os músicos amadores encontrarem-se para a praticarem, porque era também um modo de poderem escutar música. A palavra amador aqui não foi utilizada como sinónimo de má qualidade, como é frequente hoje em dia, mas sim no verdadeiro sentido que tem, amador é o que faz com amor. Paul Klee tocava violino, assim como Kandinsky tocava violoncelo, dois pintores que amavam e praticavam música de câmara. Estou também a utilizar a palavra amador porque o Vítor Silva Tavares ao referir-se à &etc a utilizou. Foi necessário amor para criar a harmonia das partes no todo, como aconteceu neste livro, dirigido elegantemente pelo maestro editor; no dia em que fui buscar os livros à &etc, o Vítor afirmou que se ele gostar do livro, o autor também, são já duas pessoas, mais a capista, o artista gráfico é o dobro, mais dois leitores, 50%, quatro leitores é já um sucesso a 100% e assim sucessivamente. Fiquei então a acreditar que esta é a ordem natural das pequenas grandes coisas que são feitas com amor.

O meu papel no ensemble, como já referi, foi interpretar o poema, através da pintura, o instrumento que toquei; “Linhas de Hartmann” chegou-me pelas mãos de Nuno Dempster, que já me conhecia destas andanças, tinha interpretado dois poemas seus. Foi engraçado, só conheci pessoalmente o Nuno Dempster depois ter feito a imagem da capa de “Londres”, publicado também nesta editora. Também não conhecia o Paulo Tavares quando li o poema e fiz a imagem, só nos encontramos pessoalmente depois. Li “Linhas de Hartmann” pela primeira vez com febre, estava com gripe. Confesso que fiquei muito entusiasmada, mas só fiz a imagem quando a febre passou. O Paulo achou que seria engraçado afirmar aqui que quando li o poema sem febre o tinha achado uma merda; mas isso não aconteceu. E tudo por causa de um banco de jardim. Depois de ler o poema, pintei vários bancos de jardim e pendurei-os nas paredes de casa. Escolhi o que está na capa por ter algo de poltrona, achei que era o mais confortável, também por estar junto a uma forte árvore enraizada; em pano de fundo, coloquei uns prédios de marquises estilo clandestino português no escuro.

Surgiram depois problemas com o lettring que tinha colocado na imagem, não estava a resultar. No primeiro encontro com o Paulo Tavares na &etc, que foi também quando conheci pessoalmente o Vítor Silva Tavares, falamos sobre isso, entre outras coisas. O Pedro Serpa depois resolveu o problema, dando um toque de filme noir à questão: atenção, foi ele o responsável pelos néones do título e nome do autor. Nesse encontro, o Paulo comentou que gostava da textura do papel da pintura e o maestro editor lembrou-se logo de valorizar isso: posteriormente, o Pedro Serpa pediu-me que pintasse uns fundos texturados, relacionados com os tons da raiz da árvore e enviei-lhe vários. O que me surpreendeu mais no resultado final da capa, para além do modo como foram utilizados esses fundos, foi a subtil contaminação do próprio lettring da &etc, também está manchado. O rosto deste livro foi assim executado a quatro mãos, as minhas e do Pedro Serpa, a partir de “Linhas de Hartmann” e também do mote da importância das texturas, dado pelo poeta, tudo super visionado pelo editor.

Neste rosto, sou assim responsável por pintar um banco de jardim, algo que tendemos a não ver no dia-a-dia desenfreado da cidade; vivo ao lado do jardim Campo Pequeno e por vezes nem o vejo, a sobrevivência faz-nos esquecer do que é realmente importante. Vi no poema do Paulo Tavares, um banco de jardim surgir como uma pausa, um local que permitia também poder prosseguir. Agora, sempre que olhar para um, vou lembrar-me deste livro; o poema do Paulo acrescentou algo à minha realidade, um novo olhar sobre os bancos de jardim. A poesia, assim como a pintura, têm essa a capacidade de acrescentar um quase-nada à nossa existência, ao serem pausa para poder prosseguir, quase-silêncio, um espaço-tempo para ver, ouvir, ler e reflectir. Foi assim que a minha mão ouviu, foi assim que a minha mão viu, foi assim que a minha mão pensou “Linhas de Hartmann”.

Maria João Lopes Fernandes 26/3/2011

sábado, 6 de março de 2010

Ilustração #30


"Fantasmas do Porto" 2010, técnica mista s/papel, 21x30cm. Foi feito a partir da entrada com o mesmo nome do "Dicionário Imperfeito" de Agustina Bessa-Luís e podem vê-lo ao vivo na Livraria Babel Chiado, na Rua da Misericórdia 68, durante o mês de Março.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Ilustração #29



















Apesar de ser para cegos, as pinturas da capa e contra-capa são da minha autoria. Já podem comprar o novo livro de Jorge Aguiar Oliveira com argumento de Henrique Manuel Bento Fialho na Poesia Incompleta e Trama. Aqui tem um cheirinho do seu conteúdo.



sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Ilustração #28


O livro ainda não está na minha mão, mas tive o prazer de executar a imagem da capa.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Ilustração #27




















***

se aqui fosse maciço o pó ...........................................................................
.................................... lidávamos com superfícies ásperas e aumentadas.
se fosse seco o ar, mesmo assim, parados, suávamos. ...............................
.......................................................................................... o que nos moveu,
preserverámos durante horas em desconfortáveis posições corporais, .....
............................................... como se isso já originasse a espuma do mar.
respiração boca a boca à guerrilha urbana. .................................................
... mas tu hesitaste, e em cada paragem uma escultura tua ficou para trás,
madeira de tília em tic-tac. ........................ floresta, de posições corporais.
fermatas, quando o tempo corria que encrespava perante todas as coisas,
............................................................................quando se olhava para trás.
so, continue. ..................................................................................................
............................................................................... descemos para a piscina,
tinhas a impressão que a água era absolutamente transparente. ................
....................................................................................... a bacia estava vazia.
a infraestrutura parecia já lá estar sempre antes, ........................................
... movimentar-se por baixo da terra como raízes horizontais ou em fuga,
parecia esperar. .............................................................................................
......................................................................................................... aqui não.
se então esses próprios campos eram eléctricos, e líquidos .........................
............................... ao lado e além da instalação eléctrica, nós nadávamos,
naked but hooded, e passeávamos pouco. ....................................................
................................................................................ paisagens de cobertores,
que ficavam enovelados e que qualquer dia talvez pudessem ser vestidos...
correspondentes espalhados no espaço e os seus técnicos de luz. ................
........................................................... tínhamos imaginado uma luz quente,
esta luz aqui é fulgurante e microscópica. ....................................................
como se pudesse ver sons. .............................................................................
cobertores com pequenos poros como a delimitação daquilo ......................
........................................................................................... que aqui estivera.
que se pudesse remodelar a fauna e a skyline...............................................
silenciosamente pressionando e dobrando-as .............................................
.................................................................................................... so, continue
no vestido de nervos os minúsculos poros e canais de notícias. ..................
............................................................... os olhos, os narizes de informação.
o make up subversivo destas caras. ...............................................................
............... que se tornavam mais naturais e cinzentos com o pano de fundo.
sobre o limite da altitude. ...............................................................................
.................................................................... que se entrechocava como alpes.

Daniel Falb, " Naturezas-mortas sociais: 33 poemas" ( tradução de Pedro Sena-Lino e Tiago Rocha de Morais), Sextante Editora, p.71. A imagem que ilustrava este poema foi a escolhida para a capa do livro.


Ler e ver também as ilustrações #22   #23  #24   #25  #26
  




sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Ilustração #26























 

ler as estacas como tipos de impressão, para a multiplicação.
     lamber os estiletes, isto não era curso de pintura, mas contracepção.
tinhas sido completamente cosido, eras para ser fantasma,
ou para o aniversário das crianças, o instituto de medicina tropical. mas
quando o grande dia finalmente chegou, a pequenina não estava doente,
ela própria era o vírus. tu tinhas problemas com o fato protector,
                             que era o horizonte e te comia. por favor, representa
só mais uma vez o número como as larvas em frente dos canteiros,
                                                                                         expira. dá-me tudo.


Daniel Falb, "Naturezas-mortas sociais:33 poemas" (trad. de Pedro Sena-Lino e Tiago rocha de Morais), Sextante Editora, p.27. A ilustração é aqui da casa, mas não foi publicada no livro.



quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Ilustração #25

























***

outras instruções para agir, uma mudança de lugar.


esta paisagem é tão estranha como uma cara alterada

por uma incisão cirúrgica. eu lembro que devia conhecer-te,
tu pertences ao círculo interior da família.

eu lembro uma intimidade, pois tu és desconhecida
mas familiar (uma descontinuidade,

um incrível veredicto de inocência: viajar educa.)
eu já estive aqui, tenho a certeza de que já estive

aqui. a mão esquerda aponta ao longo do mapa
e encontra o caminho, a direita

não sabe nada disso (a anatomia sabe-se defender)
uma pobre tourada em espanha.


Daniel Falb, " Naturezas-mortas sociais: 33 poemas" ( tradução de Pedro Sena-Lino e Tiago Rocha de Morais), p-35. A ilustração é aqui da casa, mas não foi publicada no livro.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Ilustração #24
























Ilustração de poema de Daniel Falb que não foi publicada no livro.

***

viver na propriedade da fábrica. a fonte que regressa para si mesma... o coração paga
o fígado.

says the infant. vou morrer muito em breve....................enterra no chão os palhaços
que se põem sempre em pé.

............ este indivíduo seja um rebanho, que sempre caminhando, começou a pastar
sobre outros corpos. os sócios que trabalham segundo o método bola de neve.

quantas refeições podes tu tomar hoje à noite................................ sem ser esmagado
pelos próprios progressos. os sobredotados entre as vítimas

paisagens de expectativas............................ transparentes como um jardim da frente.
nelas reconhecemos o incêndio florestal, e, por baixo, o lençol de água.

o seu brilho é a sua didáctica............ uma lei governamental regulamenta o próximo.
quantas vezes podes ir dormir esta noite. a thousand years.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Ilustração #23
















 



 



 
***

uma natureza morta social com traço de vermeer,
o professor de piano dedilhava
uma menina de quinze anos especialmente doce, aos domingos
passeios de família nos arredores e ainda
a puberdade. mais tarde esta masturbação transforma-se em amor
e uma terna veneração por juliette
binoche, as estações passam desapercebidamente,
o que é péssimo,
e às vezes o estudo «revolucionário» de frédéric chopin,
nova dedilhação, mas os mesmos erros.

Daniel Falb, " Naturezas-mortas sociais: 33 poemas" ( tradução de Pedro Sena-Lino e Tiago Rocha de Morais), p-37. A ilustração é aqui da casa, mas não foi publicada no livro.


quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Ilustração #22


Foi lançado ontem no Instituto Alemão em Lisboa "Naturezas-mortas sociais :33 poemas" de Daniel Falb, edição bilingue da sextante editora: os poemas foram traduzidos por Pedro Sena-Lino e Tiago Rocha Morais, a imagem da capa é da minha autoria. O livro é um estrondo ou como diz Pedro Sena-Lino no prefácio "... o leitor da poesia de Falb sai deste edifício com um artefacto explosivo nas mãos:uma bomba de significado."

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Poema #42



O LABIRINTO

Embora ela me coubesse nos braços sem
nunca ter sido preciso sequer abri-los
inteiros não me surpreendeu ao entrar
aqui esta gramática de galerias
e corredores.

Às minhas perguntas lamenta-se a memória
que não desenrolou nenhum fio de Ariadne;
porém não eram acerca de sair mas
acerca de entrar: não sabes que é sempre para
o labirinto?

António Gregório, " American scientist", Quasi 2007, p-11, a ilustração é aqui da casa