O que procuro em ti, eco ou planície, que não me respondes? Porque devolves apenas a minha voz?
domingo, 3 de janeiro de 2010
Portefólio #12
terça-feira, 29 de dezembro de 2009
Portefólio #11
O post anterior desta série reflectia sobre a produção no ano de 1996 e foi escrito em Outubro, quando estava à espera do resultado da candidatura a Doutoramento nas Belas-artes: entretanto regressei ao jardim de infância e nunca mais peguei no assunto. O regresso tem acordado memórias, talvez por isso nunca mais peguei no portefólio. Agora que estou de férias, dou continuidade ao assunto: no verão de 1996 tive uma excelente experiência fora daquele sítio; a escultora Virgínia Fróis, que tinha sido minha professora no 3º ano, desafiou-me para ir com uma colega trabalhar num telheiro em Montemor-o-novo. Na altura tinha feito desenhos a partir de “As cidades invisíveis” do Ítalo Calvino, executei-os em casa; aliás, a prática do desenho é a actividade mais constante na minha produção criativa. O livro marcou-me devido a ser composto por descrições de cidades imaginárias do Oriente: o que me levou a criar uma espécie de escrita, uma ideografia com referências arquitectónicas. No telheiro, trabalhei ao lado dos operários que produziam tijolos e ladrilhos artesanais, fiz pequenas maquetes em barro, que foram cozidas nos fornos de lenha, junto aos tijolos. Foi uma experiência intensa, sobretudo em termos humanos, o convívio com as pessoas, o dia a dia num espaço de trabalho tão diferente. A Virgínia foi das poucas pessoas positivas que conheci nas Belas, admiro a sua força e persistência. Agora que voltei para lá, reencontrei-a e está igual a si própria, continua com o mesmo sorriso e sempre com uma palavra amiga; existem poucas pessoas assim no mundo e tem sido privilégio voltar a cruzar-me com ela nos corredores frios das Belas.
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
Portefólio #10
No ano lectivo de 1995/96 resolvi repetir o 3º ano de escultura nas Belas-Artes – visto que no ano anterior tinha tentado fazer uns peões em polyurterano expandido e encolheram de um dia para o outro sem nunca saber porquê. Aproveitei também para frequentar várias tecnologias de escultura e aprender alguma coisa de útil. Os resultados não foram maus, a vida correu-me melhor, continuei de volta do tema “jogos” para construir alguma coisa: executei uns peões em fibra de vidro e consegui fazer um relevo a partir de desenhos antigos, com labirintos de escrita, tornando-os numa maquete de cidade. Se calhar nunca fui, nem serei escultora, apesar de ter passado por essa formação, porque o que me despertava interesse eram esculturas com cor e fazer relevos – os escultores olhavam de lado isso, achavam que são coisas de pintores. Bem, eu comecei por pintar, foi a minha paixão de adolescente e não existe amor como o primeiro. Vejo muitos artistas a tomarem posições dogmáticas em relação ao que se deve ou não produzir hoje em dia, muitos afirmam que a pintura morreu, ou a escultura, que tudo o que é feito à mão é desprezível e antiquado. Normalmente, defendem as novas tecnologias e os meios audiovisuais como as formas de expressão do nosso tempo. No pólo contrário, existem os que têm uma relação nostálgica com o passado, que acham que a pintura, a escultura contém uma aura única e irrepetível e que só se produz lixo com as novas tecnologias. Não concordo com dogmatismos, a pintura, escultura, todas as produções que são formais num sentido corporal não têm de ser vistas como pecados no mundo em que vivemos; e produz-se tanto lixo dessa maneira como no audiovisual, as coisas não valem apenas pelos meios. O que me parece bom hoje em dia é a diversidade de produções e modos de ver, podem existir bons e maus trabalhos tanto em pintura, como em escultura, na fotografia, como na instalação, no audiovisual, na performance. Não sou a favor da política da terra queimada no que diz respeito ao passado histórico, temos muito a aprender com a história de arte, não sou no entanto nostálgica em relação ao passado e sempre detestei o futurologismo progressista. E no meio disto tudo, o que interessa mesmo é fazer, como o mundo não é bom, nem nunca foi, fazer já é qualquer coisa – isto aprendi no antro Belas, com as múmias e os vanguardistas nos extremos.
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
Portefólio #9
Em Janeiro de 1995 retornei às Belas-Artes a tempo inteiro, para estudar escultura: já tinha faltado a 3 meses do ano lectivo por causa da estadia no Canadá. Foi tudo muito surrealista, como se tivesse vindo de um filme de ficção científica para a idade da pedra lascada; no Canadá a escola estava aberta 24h, tinha atelier próprio, ampliadores, câmara-escura para trabalhar à vontade e professores que acompanhavam o meu projecto. Nas Belas-Artes, as oficinas de escultura eram nas caves, chovia lá dentro, os professores ditavam exercícios, exigiam uma enorme quantidade de trabalho, mas eram poucos os que se davam ao trabalho de ensinar. O ano correu bastante mal: por exemplo, tive de modelar o retrato de um colega na cadeira de “modelos”, o professor era o autor da escultura do Sá-Carneiro no Areeiro, Mestre Soares Branco, ou Bronco como era conhecido já desde a década de 50 do séc. XX. Foi complicado, ele pedia-nos para trabalharmos a partir de fotografias, quando os colegas estavam ali ao nosso lado, mas depois despachava tudo com grandes notas. Fiz o retrato que aqui está e depois diverti-me um bocado, mas não o apresentei assim de língua de fora na avaliação. Tínhamos avaliações trimestrais nas cadeiras práticas, era coisa pública onde estávamos sujeitos às variações de humores dos professores. Nas aulas, normalmente, éramos salvos por alguns assistentes novos que nos davam apoio. Nas cadeiras teóricas era diferente, no geral os professores eram bons, as aulas eram no 1º andar do edifício e aí a vida corria-me melhor. Quanto à escultura, nesse ano tentei executar umas peças em polyurterano expandido que encolheram de um dia para o outro. Nunca entendi o que aconteceu e fui penalizada por isso, sentia-me dentro de um livro de Kafka. No entanto, nem tudo foi mau: na cadeira de desenho ilustrei os “ Contos da Montanha” de Miguel Torga, vou colocá-los por cá num espaço novo dedicado à ilustração; mas a avaliação final de desenho também foi um horror: apareceu uma múmia de nome Matos Simões, que eu nunca tinha visto na vida, nem me deu aulas e que desatou aos berros, porque não gostou do modo como os desenhos estavam apresentados. Depois contaram-me que era vulgar ele ter esse tipo de ataques com mulheres. Lembro-me de desabafar com uma professora assistente de escultura, uma boa alma que por lá andava e de ela me contar que a democracia tinha mudado muito o nosso país, até as Belas-Artes, porque antigamente os professores mandavam as alunas para casa cozer meias. Nas Belas apanhei zombies desse tipo, tive muito azar com eles. Um colega dizia que derivava de eu me rir, é verdade, quando fico nervosa me vez de chorar dá-me para rir. Espero que esses zombies já estejam todos mortos.
domingo, 2 de agosto de 2009
Portefólio #8
sábado, 1 de agosto de 2009
Portefólio #7
quarta-feira, 22 de julho de 2009
Portefólio #6
Reparei hoje que desde o final do mês de Maio não acrescento nada à organização do meu portefólio que aqui estava a decorrer – tinha ficado no período que antecedeu a participação no intercâmbio entre o Ar.Co e Nascad, uma escola no Canadá em Halifax, onde estive durante seis meses no ano de 1994. Foi uma experiência enriquecedora em todos os sentidos, as imagens das páginas do diário que lá produzi e aqui tenho colocado comprovam-no. A minha ideia era desenvolver o trabalho de fotografia que estava a fazer por cá, mas com outros meios tecnológicos: e assim foi, deparei-me com uma escola que estava aberta 24h, onde tinha um pequeno espaço para trabalhar e podia fazer fotogramas a cores, nuns laboratórios excelentes, que se requisitavam com alguma antecedência, mas onde existiam técnicos que nos apoiavam. Tive também uma iniciação ao mundo dos computadores, frequentei aulas onde aprendi a funcionar num Machintosh, que me foram muito úteis, apesar de não me ter tornado uma adepta no assunto. Bom, Halifax tem um lado de filme de ficção cientifica na minha biografia, mas também conheci e interagi com pessoas muito interessantes – estudantes, professores da escola e não só, conheci um português nascido no Canadá, casado com uma grega, que tinha um café em frente à escola e com eles fui a uma festa de emigrantes portugueses indescritível: onde assisti a uma banda de Montreal a interpretar a “ Tia Anica do Loulé” em francês autocne; e as minhas colegas logo no início convidaram-me a participar numa exposição colectiva de mulheres na galeria da escola intitulada “ Securing spaces”. A solidariedade feminina, a consciência de que a liberdade de expressão das mulheres é uma conquista recente e que existe muito por fazer nesse sentido, foi algo adquiri por lá. Participei na exposição com um fotograma em cybachrome com 75x160m onde se lia um texto de Rainer Maria Rilke, surpreendentemente feminista datando de 1904, com uma visão optimista em relação ao papel das mulheres no futuro.
quarta-feira, 27 de maio de 2009
Portefólio #5
No verão de 1994, antes de ir para o Canadá participei num projecto do Eurico Lino do Vale intitulado “ Retratos de rua”, integrado na LIS 94. Para tal, pintei um cenário a partir de “ O fado” de Malhoa em que as pessoas podiam tornar-se os personagens do quadro, e o Eurico registava-os em polaróides, com uma técnica fantástica em que a polaróide era impressa em papel, sendo o resultado final muito pictórico e eram vendidas a quem se fazia retratar. Estivemos a maior parte do tempo em frente ao CCB e os transeuntes reagiam bem ao desafio. Lembro-me que o material ficava guardado no CCB e todos os dias íamos para lá numa Vespa, descíamos a ladeira para a porta dos artistas de mota, depois carregávamos a Vespa com o cenário e o material e lá íamos para a porta de entrada. Eu trajava uma saia comprida estilo Severa e o Eurico estava sempre catita, com um colete e porte de fotógrafo de outra época. Foi uma das experiências mais divertidas que tive nestas coisas da criatividade.
terça-feira, 26 de maio de 2009
Portefólio #4
Após terminar o curso avançado de artes plásticas no Ar.Co no verão de 1993, passei por um período bastante introspectivo: os meus colegas começaram a imigrar para fora de Portugal, alguns amigos que não estavam ligados às artes também. Na altura também tinha vontade de sair daqui e conhecer outras coisas, concorri a uma escola na Holanda, mas não fui aceite. Então, aluguei um pequeno espaço para poder trabalhar, que partilhei com uns colegas de pintura do Ar.Co e inscrevi-me nas cadeiras teóricas das Belas-artes, as que me faltavam para poder passar para o 3ºano. Neste período dediquei-me à fotografia e ao desenho, montei também um pequeno laboratório na casa de banho da minha casa. Fiz desenhos e fotogramas a preto e branco, continuei também a fazer livros, mas de outro modo. Não guardei quase nada do que produzi neste período, apenas os livros e alguns fotogramas, porque no final de 1994 participei num intercambio entre o Ar.Co e uma escola no Canadá onde foi possível desenvolver este trabalho, aqui fotografado, com outras condições técnicas, ele posteriormente deu frutos.
domingo, 10 de maio de 2009
Portefólio #3
O trabalho que fiz em 1993 aconteceu na sequência do anterior: foi um ano produtivo onde participei em duas exposições colectivas com os meus colegas do Ar.Co. Foi também um ano de grandes mudanças: entrei para a primeira turma do curso avançado de artes plásticas, ganhei uma bolsa de estudos para o frequentar. Anteriormente, apenas alguns professores e amigos se interessavam pelo que fazia, mas neste ano, de repente, à minha volta parecia que toda a gente via o que estava a fazer e se interessava, o que nem sempre era muito agradável. No fim do ano de 1992, houve um pintor alemão que visitou o Ar.Co e por lá deu umas aulas – e entusiasmou-se muito com o estava a produzir, nomeadamente, com os diários gráficos que aqui tenho postado. Ele pintava paisagens abstractas e chamava-se Heribert C. Ottersbach, convenceu-me a concorrer ao curso avançado no ano seguinte e assim fiz, fiquei entre os oito finalistas eleitos desta escola de arte. No início do ano lectivo ele voltou para nos dar aulas como
terça-feira, 5 de maio de 2009
Portefólio #2
No verão de 1992 participei numa colectiva de pintura na Casa das Artes de Tavira: o Ivo que anteriormente tinha sido meu professor no Ar.Co lançou-me o desafio, também à Ana Luísa Ribeiro, Carla Mendes e ao Carlos Calado. Neste ano estava a fazer um conjunto de quadros com jogos de palavras e optei por realizar uma instalação com eles a que chamei Quebra-cabeças. Cada quadro era composto por um conjunto de módulos rectangulares, onde se encaixavam letras que se podiam ler no positivo e negativo, com cores diferentes, azuis e verdes; em cada conjunto destes módulos era possível encontrar e ler várias palavras, como Timor, amor, morte, mar, ar, ir. Nesta altura, ainda não conhecia bem os experimentalistas, nem estava muito a par do que se tinha feito em termos de poesia visual no passado, mas fui lá parar ao desenvolver um trabalho em termos práticos, fui lá parar por me interessar por jogos. Lembro-me que no Ar.Co a primeira pessoa que me falou sobre os experimentalistas portugueses foi o Carlos Augusto Ribeiro, que dava lá aulas de pintura, mas nunca foi meu professor; ele chamou-me a atenção para o trabalho da Ana Hatherly de que também já tinha visto uma exposição retrospectiva de desenho na Gulbenkian em 1991. Mais tarde, quando voltei às Belas-artes investiguei e aprofundei sobre esta área nas cadeiras teóricas. Quanto aos Quebra-cabeças que expus na Casa das Artes de Tavira, fiquei numa pequena sala à entrada do espaço e deparei-me com uma boa surpresa: os focos de iluminação tinham umas lentes que permitiam direccionar a luz e regulá-la, permitiram deixar o espaço onde coloquei os quadros maiores quase às escuras, com uma iluminação a enquadrá-los. Esta colectiva foi também uma boa experiência e vendi o meu primeiro quadro, um pequeno tríptico que estava na entrada.
sábado, 2 de maio de 2009
Portefólio #1
Em 1992 produzi o diário gráfico que tenho colocado aqui imagens e também fiz a minha primeira instalação intitulada Master Mind: procure as cores que lhe vão na alma. O meu trabalho artístico não começou nesta instalação, mas tenho o portefólio organizado a partir desta data. Anteriormente, apenas pintava, estudava pintura no Ar.co desde 1987, onde tinha tido aulas com o Ivo e o José Mouga e frequentava também as Belas-artes desde 1989. Em 1992, chateei-me mesmo com as Belas-artes e só lá voltei em 1995 para estudar escultura. Estava no Ar.co a tempo inteiro, a ter aulas de desenho com o João Queiroz e o Miguel Branco, que me orientaram este projecto; todo ele nasceu nas aulas em conversas animadas, a ideia era criar algo diferente no espaço do bar da escola. Lembrei-me de pegar no Master Mind, jogo onde se escondem quatro cores, repetidas ou não e que através de etapas lógicas se podem descobrir, quem esconde dá as pistas através de peças brancas – que significam cor certa em sitio certo – e peças pretas – cor certa em sitio errado. Utilizando o desenho, construi paneis compostos por círculos de cores, com cinco ou seis etapas lógicas por jogo, que permitiam a quem as visionava, encontrar quais as cores escondidas. Depois projectei os paneis de forma a estarem distribuídos pelo espaço do bar, que muitas vezes era utilizado para exposições, os círculos de cores foram recortados em papel de lustro e colados nas paredes, com a enorme ajuda dos meus colegas. Assim, quem frequentava aquele sítio, sobretudo à hora do almoço onde havia sempre fila de pessoas à espera, podia estar a resolver os enigmas. Foi muito divertida toda a experiência, na altura tinha 21 anos.