O que procuro em ti, eco ou planície, que não me respondes? Porque devolves apenas a minha voz?

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domingo, 3 de janeiro de 2010

Portefólio #12



O ano lectivo de 1996/97 nas Belas-artes foi de intensa produção: no 4º ano de escultura dei continuidade às experiências que tinha feito no telheiro em Montemor-o-novo, durante o verão de 1996, mas trabalhei com materiais diferentes; as esculturas foram feitas em polyester misturado com pó de grafite, ficando assim com um aspecto metalizado e utilizei também tubos de ferro; não eram muito grandes, tinham cerca de entre 60x30x15cm; elas partiam dos desenhos sobre “ As cidades invisíveis” feitos no ano anterior. Apesar da produção ter sido bastante vasta, o professor da cadeira resolveu penalizar-me não sei bem de quê: deu-me um 13, que é uma nota que detesto. Aquilo provocou-me bastante stress, acho que foi a partir dessa altura que comecei a ter problemas de estômago, aliás, ganhei uma hérnia do hiato de estimação, que só em 2006 me livrei dela. Na tecnologia de plásticos tinha o mesmo professor que não me gramava o que me levou a deixar de trabalhar com estes materiais que fazem mal à saúde, passei-me definitivamente para o barro e gesso no ano seguinte. Nesse ano produzi ainda um livro a que chamei “ Livro de Babel”, também feito com polyester e fibra de vidro pintado e utilizei uma estante de música para suporte.







terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Portefólio #11


O post anterior desta série reflectia sobre a produção no ano de 1996 e foi escrito em Outubro, quando estava à espera do resultado da candidatura a Doutoramento nas Belas-artes: entretanto regressei ao jardim de infância e nunca mais peguei no assunto. O regresso tem acordado memórias, talvez por isso nunca mais peguei no portefólio. Agora que estou de férias, dou continuidade ao assunto: no verão de 1996 tive uma excelente experiência fora daquele sítio; a escultora Virgínia Fróis, que tinha sido minha professora no 3º ano, desafiou-me para ir com uma colega trabalhar num telheiro em Montemor-o-novo. Na altura tinha feito desenhos a partir de “As cidades invisíveis” do Ítalo Calvino, executei-os em casa; aliás, a prática do desenho é a actividade mais constante na minha produção criativa. O livro marcou-me devido a ser composto por descrições de cidades imaginárias do Oriente: o que me levou a criar uma espécie de escrita, uma ideografia com referências arquitectónicas. No telheiro, trabalhei ao lado dos operários que produziam tijolos e ladrilhos artesanais, fiz pequenas maquetes em barro, que foram cozidas nos fornos de lenha, junto aos tijolos. Foi uma experiência intensa, sobretudo em termos humanos, o convívio com as pessoas, o dia a dia num espaço de trabalho tão diferente. A Virgínia foi das poucas pessoas positivas que conheci nas Belas, admiro a sua força e persistência. Agora que voltei para lá, reencontrei-a e está igual a si própria, continua com o mesmo sorriso e sempre com uma palavra amiga; existem poucas pessoas assim no mundo e tem sido privilégio voltar a cruzar-me com ela nos corredores frios das Belas.


quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Portefólio #10

No ano lectivo de 1995/96 resolvi repetir o 3º ano de escultura nas Belas-Artes – visto que no ano anterior tinha tentado fazer uns peões em polyurterano expandido e encolheram de um dia para o outro sem nunca saber porquê. Aproveitei também para frequentar várias tecnologias de escultura e aprender alguma coisa de útil. Os resultados não foram maus, a vida correu-me melhor, continuei de volta do tema “jogos” para construir alguma coisa: executei uns peões em fibra de vidro e consegui fazer um relevo a partir de desenhos antigos, com labirintos de escrita, tornando-os numa maquete de cidade. Se calhar nunca fui, nem serei escultora, apesar de ter passado por essa formação, porque o que me despertava interesse eram esculturas com cor e fazer relevos – os escultores olhavam de lado isso, achavam que são coisas de pintores. Bem, eu comecei por pintar, foi a minha paixão de adolescente e não existe amor como o primeiro. Vejo muitos artistas a tomarem posições dogmáticas em relação ao que se deve ou não produzir hoje em dia, muitos afirmam que a pintura morreu, ou a escultura, que tudo o que é feito à mão é desprezível e antiquado. Normalmente, defendem as novas tecnologias e os meios audiovisuais como as formas de expressão do nosso tempo. No pólo contrário, existem os que têm uma relação nostálgica com o passado, que acham que a pintura, a escultura contém uma aura única e irrepetível e que só se produz lixo com as novas tecnologias. Não concordo com dogmatismos, a pintura, escultura, todas as produções que são formais num sentido corporal não têm de ser vistas como pecados no mundo em que vivemos; e produz-se tanto lixo dessa maneira como no audiovisual, as coisas não valem apenas pelos meios. O que me parece bom hoje em dia é a diversidade de produções e modos de ver, podem existir bons e maus trabalhos tanto em pintura, como em escultura, na fotografia, como na instalação, no audiovisual, na performance. Não sou a favor da política da terra queimada no que diz respeito ao passado histórico, temos muito a aprender com a história de arte, não sou no entanto nostálgica em relação ao passado e sempre detestei o futurologismo progressista. E no meio disto tudo, o que interessa mesmo é fazer, como o mundo não é bom, nem nunca foi, fazer já é qualquer coisa – isto aprendi no antro Belas, com as múmias e os vanguardistas nos extremos.



quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Portefólio #9


Em Janeiro de 1995 retornei às Belas-Artes a tempo inteiro, para estudar escultura: já tinha faltado a 3 meses do ano lectivo por causa da estadia no Canadá. Foi tudo muito surrealista, como se tivesse vindo de um filme de ficção científica para a idade da pedra lascada; no Canadá a escola estava aberta 24h, tinha atelier próprio, ampliadores, câmara-escura para trabalhar à vontade e professores que acompanhavam o meu projecto. Nas Belas-Artes, as oficinas de escultura eram nas caves, chovia lá dentro, os professores ditavam exercícios, exigiam uma enorme quantidade de trabalho, mas eram poucos os que se davam ao trabalho de ensinar. O ano correu bastante mal: por exemplo, tive de modelar o retrato de um colega na cadeira de “modelos”, o professor era o autor da escultura do Sá-Carneiro no Areeiro, Mestre Soares Branco, ou Bronco como era conhecido já desde a década de 50 do séc. XX. Foi complicado, ele pedia-nos para trabalharmos a partir de fotografias, quando os colegas estavam ali ao nosso lado, mas depois despachava tudo com grandes notas. Fiz o retrato que aqui está e depois diverti-me um bocado, mas não o apresentei assim de língua de fora na avaliação. Tínhamos avaliações trimestrais nas cadeiras práticas, era coisa pública onde estávamos sujeitos às variações de humores dos professores. Nas aulas, normalmente, éramos salvos por alguns assistentes novos que nos davam apoio. Nas cadeiras teóricas era diferente, no geral os professores eram bons, as aulas eram no 1º andar do edifício e aí a vida corria-me melhor. Quanto à escultura, nesse ano tentei executar umas peças em polyurterano expandido que encolheram de um dia para o outro. Nunca entendi o que aconteceu e fui penalizada por isso, sentia-me dentro de um livro de Kafka. No entanto, nem tudo foi mau: na cadeira de desenho ilustrei os “ Contos da Montanha” de Miguel Torga, vou colocá-los por cá num espaço novo dedicado à ilustração; mas a avaliação final de desenho também foi um horror: apareceu uma múmia de nome Matos Simões, que eu nunca tinha visto na vida, nem me deu aulas e que desatou aos berros, porque não gostou do modo como os desenhos estavam apresentados. Depois contaram-me que era vulgar ele ter esse tipo de ataques com mulheres. Lembro-me de desabafar com uma professora assistente de escultura, uma boa alma que por lá andava e de ela me contar que a democracia tinha mudado muito o nosso país, até as Belas-Artes, porque antigamente os professores mandavam as alunas para casa cozer meias. Nas Belas apanhei zombies desse tipo, tive muito azar com eles. Um colega dizia que derivava de eu me rir, é verdade, quando fico nervosa me vez de chorar dá-me para rir. Espero que esses zombies já estejam todos mortos.


domingo, 2 de agosto de 2009

Portefólio #8




Mais imagens dos fotogramas realizados em 1994 sobre os quais escrevi no anterior post. A organização do portefólio que estou a fazer nesta casa no tempo tem-me levado a questionar porque é que tenho produzido tanto e mostrado tão pouco. Acho que é positivo pensar nestas coisas, ao mostrá-los por cá poderá ser o primeiro passo para novos projecto no futuro.

sábado, 1 de agosto de 2009

Portefólio #7



No ultimo post iniciei o relato sobre a experiência de frequentar durante 6 meses uma escola em Halifax no Canadá: na altura produzi muitos fotogramas a cores de grande formato. O processo de trabalho era aliciante: primeiro desenhava em papel vegetal textos labirínticos e outros desenhos, semelhantes aos que tinha realizado em 1993. Depois, na câmara escura colocava-os sobre papel fotográfico, articulados com vários objectos, expunha-os à luz do amplificador e revelava-os numa máquina para grande formato. No ano anterior tinha feito pequenos fotogramas a preto e branco (máximo em A3), no laboratório que tinha montado na casa de banho de minha casa. Uma das diferenças é que quando se trabalha a revelação num laboratório a preto e branco, existe uma pequena luz de presença e permitia-me compor as imagens, ou seja, escolher em que sitio colocava desenhos e objectos. Nos fotogramas a cor isso não acontecia: porque não se pode ter uma luz de presença na câmara escura, assim, os desenhos de grande formato e objectos eram colocados às apalpadelas sobre o papel fotográfico, que ocupava o chão do laboratório, só via o resultado da “composição” depois de o inserir na máquina de revelação. Assim, cada fotograma era sempre uma surpresa. Alguns deles foram expostos em Dezembro, na exposição colectiva dos alunos de Garry Kennedy, na galeria da escola; mas meu principal objectivo era realizar uma exposição individual com esta enorme quantidade de trabalho quando regressa-se a Portugal – algo que não consegui concretizar. Lembro-me que os guardei num enorme rolo de cartão e que o abraçava no aeroporto e de me terem chateado para o colocar na bagagem, quando estava no check-in; mas não me separei daquele enorme rolo de maneira nenhuma, estava ali a minha a minha paixão, regressei a Portugal abraçada àquele pedaço da minha vida. Mal aterrei, mostrei o trabalho em duas galerias e a resposta foi a mesma: que já estavam a prover outros jovens artistas e aconselham-me a inserir-me nalgum grupo. Passado dois anos mostrei três destes fotogramas numa exposição a convite do Paulo Mendes no CAPC em Coimbra, intitulada “ Zapping Esctasy”: o Paulo colocou-os na sala Ernesto de Sousa, que tem as paredes pintadas de preto, onde também se apresentavam diversos vídeos, o que resultou muitíssimo bem. A exposição foi uma boa experiência, onde conheci e convivi com outros artistas, durante a montagem houve umas animadas refeições. O transporte, a organização e a forma como as coisas decorreram foi boa, excepto no final, onde tive uma surpresa desagradável. Quando a exposição terminou, os trabalhos não me foram entregues de imediato, porque havia a hipótese de haver itinerância, de vir também para Lisboa. Na altura, os fotogramas foram guardados na cave do CAPC, eu confiei que tudo estaria bem e em condições. O tempo passou e nunca mais a exposição vinha para Lisboa. Passado dois anos, resolvi ir ao CAPC pelos meus próprios pés buscar os trabalhos: deparei-me com eles embrulhados às três pancadas, colocaram plástico à volta, mas com a fita na parte da frente e estavam numa cave bastante húmida. Para a exposição, emoldurei-os numas caixas pretas, com vidros acrílicos o que foi bastante caro, devido à dimensão que eles tinham. O acrílicos estavam riscados e ficaram com as marcas de cola da fita, algo que ainda hoje se pode ver nos que estão pendurados nas paredes da minha casa. No entanto, salvei-os daquela cave húmida, fui a tempo antes de se deteriorarem. Aprendi com esta experiência que devemos estar atentos às nossas coisas quando entramos em exposições colectivas, porque podem ser muito mal tratadas. Hoje em dia, os fotogramas que não estão emoldurados encontram-se guardados dentro do meu guarda fato, numa dura capa que fabriquei e assim se têm mantido em bom estado. Talvez um dia consiga expô-los a todos, num espaço como deve de ser, se tiver dinheiro para os emoldurar, vontade e força para o fazer.



quarta-feira, 22 de julho de 2009

Portefólio #6

Reparei hoje que desde o final do mês de Maio não acrescento nada à organização do meu portefólio que aqui estava a decorrer – tinha ficado no período que antecedeu a participação no intercâmbio entre o Ar.Co e Nascad, uma escola no Canadá em Halifax, onde estive durante seis meses no ano de 1994. Foi uma experiência enriquecedora em todos os sentidos, as imagens das páginas do diário que lá produzi e aqui tenho colocado comprovam-no. A minha ideia era desenvolver o trabalho de fotografia que estava a fazer por cá, mas com outros meios tecnológicos: e assim foi, deparei-me com uma escola que estava aberta 24h, onde tinha um pequeno espaço para trabalhar e podia fazer fotogramas a cores, nuns laboratórios excelentes, que se requisitavam com alguma antecedência, mas onde existiam técnicos que nos apoiavam. Tive também uma iniciação ao mundo dos computadores, frequentei aulas onde aprendi a funcionar num Machintosh, que me foram muito úteis, apesar de não me ter tornado uma adepta no assunto. Bom, Halifax tem um lado de filme de ficção cientifica na minha biografia, mas também conheci e interagi com pessoas muito interessantes – estudantes, professores da escola e não só, conheci um português nascido no Canadá, casado com uma grega, que tinha um café em frente à escola e com eles fui a uma festa de emigrantes portugueses indescritível: onde assisti a uma banda de Montreal a interpretar a “ Tia Anica do Loulé” em francês autocne; e as minhas colegas logo no início convidaram-me a participar numa exposição colectiva de mulheres na galeria da escola intitulada “ Securing spaces”. A solidariedade feminina, a consciência de que a liberdade de expressão das mulheres é uma conquista recente e que existe muito por fazer nesse sentido, foi algo adquiri por lá. Participei na exposição com um fotograma em cybachrome com 75x160m onde se lia um texto de Rainer Maria Rilke, surpreendentemente feminista datando de 1904, com uma visão optimista em relação ao papel das mulheres no futuro.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Portefólio #5



No verão de 1994, antes de ir para o Canadá participei num projecto do Eurico Lino do Vale intitulado “ Retratos de rua”, integrado na LIS 94. Para tal, pintei um cenário a partir de “ O fado” de Malhoa em que as pessoas podiam tornar-se os personagens do quadro, e o Eurico registava-os em polaróides, com uma técnica fantástica em que a polaróide era impressa em papel, sendo o resultado final muito pictórico e eram vendidas a quem se fazia retratar. Estivemos a maior parte do tempo em frente ao CCB e os transeuntes reagiam bem ao desafio. Lembro-me que o material ficava guardado no CCB e todos os dias íamos para lá numa Vespa, descíamos a ladeira para a porta dos artistas de mota, depois carregávamos a Vespa com o cenário e o material e lá íamos para a porta de entrada. Eu trajava uma saia comprida estilo Severa e o Eurico estava sempre catita, com um colete e porte de fotógrafo de outra época. Foi uma das experiências mais divertidas que tive nestas coisas da criatividade.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Portefólio #4









Após terminar o curso avançado de artes plásticas no Ar.Co no verão de 1993, passei por um período bastante introspectivo: os meus colegas começaram a imigrar para fora de Portugal, alguns amigos que não estavam ligados às artes também. Na altura também tinha vontade de sair daqui e conhecer outras coisas, concorri a uma escola na Holanda, mas não fui aceite. Então, aluguei um pequeno espaço para poder trabalhar, que partilhei com uns colegas de pintura do Ar.Co e inscrevi-me nas cadeiras teóricas das Belas-artes, as que me faltavam para poder passar para o 3ºano. Neste período dediquei-me à fotografia e ao desenho, montei também um pequeno laboratório na casa de banho da minha casa. Fiz desenhos e fotogramas a preto e branco, continuei também a fazer livros, mas de outro modo. Não guardei quase nada do que produzi neste período, apenas os livros e alguns fotogramas, porque no final de 1994 participei num intercambio entre o Ar.Co e uma escola no Canadá onde foi possível desenvolver este trabalho, aqui fotografado, com outras condições técnicas, ele posteriormente deu frutos.

domingo, 10 de maio de 2009

Portefólio #3


O trabalho que fiz em 1993 aconteceu na sequência do anterior: foi um ano produtivo onde participei em duas exposições colectivas com os meus colegas do Ar.Co. Foi também um ano de grandes mudanças: entrei para a primeira turma do curso avançado de artes plásticas, ganhei uma bolsa de estudos para o frequentar. Anteriormente, apenas alguns professores e amigos se interessavam pelo que fazia, mas neste ano, de repente, à minha volta parecia que toda a gente via o que estava a fazer e se interessava, o que nem sempre era muito agradável. No fim do ano de 1992, houve um pintor alemão que visitou o Ar.Co e por lá deu umas aulas – e entusiasmou-se muito com o estava a produzir, nomeadamente, com os diários gráficos que aqui tenho postado. Ele pintava paisagens abstractas e chamava-se Heribert C. Ottersbach, convenceu-me a concorrer ao curso avançado no ano seguinte e assim fiz, fiquei entre os oito finalistas eleitos desta escola de arte. No início do ano lectivo ele voltou para nos dar aulas como

professor convidado: queria seleccionar quatro de nós para uma exposição em Cólonia e mostrou-nos as suas novas pinturas, que eram grupos de imagens fotográficas impressas sobre pequenas telas, depois pintadas e começou a ter uns estranhos ataques de agressividade comigo, porque achava que eu deveria fazer o mesmo, partindo dos meus diários gráficos. Achei tudo muito estranho e continuei na minha, as pinturas dele também tinham imagens referentes à infância, achei que de algum modo os meus livros o tinham influenciado, mas o que eu fazia era com materiais baratos, eram fotocópias pintadas e colagens, imprimir fotografias em tela era algo impensável e muito dispendioso, para além de não estar com grande vontade de pintar, não fazia sentido ampliar aqueles pequenos livros para pendurar na parede. Nunca me dei muito bem com os pequenos poderes de certos homens, tem sido a história da minha vida e houve de facto situações desagradáveis com este alemão, ele acabou por não me seleccionar para a exposição que estava a organizar, visto que eu não cedi e não conseguiu subjugar-me. Aprendi com tudo isto que não é bom trabalhar sobre pressão e que apenas devemos fazer aquilo que achamos que está correcto, temos a primeira e ultima palavra no que produzimos, as acções são nossas, mesmo em situações adversas. Existem muitos homens que encaram as mulheres como seres com mamas que são estúpidos e inferiores, por isso devem estar apenas em posições subalternas no mundo, não nos têm respeito, nunca tive paciência para isso, muito menos para alemães, salvo raras excepções. Mas de facto, no Ar.Co, foi preciso a visita de um professor estrangeiro para começarem a ver com mais atenção o que fazia, os meios em Portugal são muito fechados e têm os seus vícios. Fora isso, também contactei e conheci pessoas muito interessantes, que foram positivas para o que estava a fazer e o ano acabou bem com a exposição dos bolseiros no Ar.co e a do Curso Avançado no Ministério das Finanças, onde apresentei desenhos com textos em forma de labirintos e Quebra-cabeças a preto e branco.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Portefólio #2

No verão de 1992 participei numa colectiva de pintura na Casa das Artes de Tavira: o Ivo que anteriormente tinha sido meu professor no Ar.Co  lançou-me o desafio, também à Ana Luísa Ribeiro, Carla Mendes e ao Carlos Calado. Neste ano estava a fazer um conjunto de quadros com jogos de palavras e optei por realizar uma instalação com eles a que chamei Quebra-cabeças. Cada quadro era composto por um conjunto de módulos rectangulares, onde se encaixavam letras que se podiam ler no positivo e negativo, com cores diferentes, azuis e verdes; em cada conjunto destes módulos era possível encontrar e ler várias palavras, como Timor, amor, morte, mar, ar, ir. Nesta altura, ainda não conhecia bem os experimentalistas, nem estava muito a par do que se tinha feito em termos de poesia visual no passado, mas fui lá parar ao desenvolver um  trabalho em termos práticos, fui lá parar por  me interessar por jogos. Lembro-me que no Ar.Co a primeira pessoa que me falou sobre os experimentalistas portugueses foi o Carlos Augusto Ribeiro, que dava lá aulas de pintura, mas nunca foi meu professor; ele chamou-me a atenção para o trabalho da Ana Hatherly de que também já tinha visto uma exposição retrospectiva de desenho na Gulbenkian em 1991. Mais tarde, quando voltei às Belas-artes investiguei e aprofundei sobre esta área nas cadeiras teóricas. Quanto aos Quebra-cabeças que expus na Casa das Artes de Tavira, fiquei numa pequena sala à entrada do espaço e deparei-me com uma boa surpresa: os focos de iluminação tinham umas lentes que permitiam direccionar a luz e regulá-la, permitiram deixar o espaço onde coloquei os quadros maiores quase às escuras, com uma iluminação a enquadrá-los. Esta colectiva foi também uma boa experiência e vendi o meu primeiro quadro, um pequeno tríptico que estava na entrada.

sábado, 2 de maio de 2009

Portefólio #1




Em 1992 produzi o diário gráfico que tenho colocado aqui imagens e também fiz a minha primeira instalação intitulada Master Mind: procure as cores que lhe vão na alma. O meu trabalho artístico não começou nesta instalação, mas tenho o portefólio organizado a partir desta data. Anteriormente, apenas pintava, estudava pintura no Ar.co desde 1987, onde tinha tido aulas com o Ivo e o José Mouga e frequentava também as Belas-artes desde 1989. Em 1992, chateei-me mesmo com as Belas-artes e só lá voltei em 1995 para estudar escultura. Estava no Ar.co a tempo inteiro, a ter aulas de desenho com o João Queiroz e o Miguel Branco, que me orientaram este projecto; todo ele nasceu nas aulas em conversas animadas, a ideia era criar algo diferente no espaço do bar da escola. Lembrei-me de pegar no Master Mind, jogo onde se escondem quatro cores, repetidas ou não e que através de etapas lógicas se podem descobrir, quem esconde dá as pistas através de peças brancas – que significam cor certa em sitio certo – e peças pretas – cor certa em sitio errado. Utilizando o desenho, construi paneis compostos por círculos de cores, com cinco ou seis etapas lógicas por jogo, que permitiam a quem as visionava, encontrar quais as cores escondidas. Depois projectei os paneis de forma a estarem distribuídos pelo espaço do bar, que muitas vezes era utilizado para exposições, os círculos de cores foram recortados em papel de lustro e colados nas paredes, com a enorme ajuda dos meus colegas. Assim, quem frequentava aquele sítio, sobretudo à hora do almoço onde havia sempre fila de pessoas à espera, podia estar a resolver os enigmas. Foi muito divertida toda a experiência, na altura tinha 21 anos.