O que procuro em ti, eco ou planície, que não me respondes? Porque devolves apenas a minha voz?

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terça-feira, 16 de março de 2010

Textos insones #27

A Cidade dos Anjos


Voei para Berlim na semana passada e acho que ainda não aterrei aqui no chão; há muito que desejava as asas desta cidade, talvez desde que vi o filme de Wenders e o destino já me tinha pregado partidas engraçadas em relação a ela. Antes de partir, a amiga que tem sido até agora o pretexto para voar para as terras germânicas avisou-me que Berlim é a cidade dos anjos e que no seu enorme espaço encontramos as mesmas pessoas em sítios totalmente diferentes. Desta vez não foi possível encontrarmo-nos na Alemanha e viajei com o meu amigo, contei-lhe esta história antes de aterrarmos por lá e ele não se esqueceu. Assim que iniciámos os nossos passeios nas ruas de Berlim, ele chamou-me a atenção para os transeuntes que reencontrávamos nos locais mais inesperados; alertou-me, por exemplo, que um grupo no metro, sentado ao pé de nós era o mesmo que estava no aeroporto, quando fomos fumar um cigarro lá fora. Eu não me lembrava deles, nem os reconheci. Antes de entrarmos na Filarmónica, para um concerto memorável, chamou-me a atenção para uma personagem que já tinha visto num outro ponto da cidade, afirmando que se tratava de um anjo. Fiquei um bocado triste, senti que não tinha capacidades para reconhecer anjos, sendo assim despassarada, nem os vejo. Mas nessa noite, após o concerto, fui eu que reparei numa situação insólita: no metro, estávamos os dois de pé, junto à porta no interior de uma carruagem com bancos laterais e vi dois homens sentados frente-a-frente abraçados, impedindo a passagem pelo corredor; algo os unia de tal forma que permaneceram assim sem dar pela paragem da máquina na estação. Os outros passageiros não olhavam para o que se estava a passar, mas eu não conseguia parar de olhar e fiquei de tal modo perturbada, que não tirei a máquina da mala para fazer uma fotografia, apesar de desejar. Quando saímos, o meu amigo chamou-me tonta por não ter coragem de fotografar algo tão belo, achou que eles não se iriam importar, poderia oferecer-lhes depois a fotografia; continuei a espreitar pela janela da carruagem aquele abraço intenso que não se desfazia e disse-lhe que sentia aquele instante como símbolo da reunificação, da queda do muro de Berlim, como uma ressurreição. No dia seguinte, encontrei pela primeira vez um anjo, estava sozinha e ele acenou-me no interior do Museu Judaico dizendo: Don’t you remember? Era um homem que de manhã me tinha ajudado no metro, quando estava a tentar tirar um bilhete na máquina; reparei nele a falar em alemão com outra pessoa na máquina ao lado, porque se virou para mim e explicou-me em inglês que tínhamos de comprar o bilhete num quiosque, as máquinas estavam avariadas. Segui-o e já no quiosque perguntou-me qual era a minha nacionalidade, quando disse portuguesa sorriu com ar simpático, mas não lhe dei conversa. À tarde, no museu, se não acenasse, não o via de certeza e só o reconheci quando falou. Fiquei então com a impressão de que só dou por anjos se falarem comigo, porque tenho sempre a cabeça no ar. A propósito de cabeça no ar, fotografei vários anjos com o céu de Berlim.

texto postado no Insónia a 18/3/2009, quando regressei de Berlim, faz agora um ano. O tempo passa depressa.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Textos insones #26

Telhado

Quando tinha vinte anos apaixonei-me por um rapaz daqueles que se acha piada aos vinte, mas numa festa em minha casa ele fez-me o favor de preferir uma amiga minha; no dia seguinte, ela disse-me que tudo aconteceu porque ambos eram mesmo assim e ninguém pertence a ninguém. Eu compreendi e limitei-me a observar o desenrolar dos factos sem julgamentos precoces. Ao fim da tarde, o rapaz dos vinte convidou-nos às duas para irmos a casa de um amigo gay que nos queria apresentar. Isso de chamar gay a alguém é sempre um assunto delicado e eu acho que quem tem telhados de vidro não deve andar à pedrada. Por estranho que pareça, a minha amiga entusiasmou-se, trocou o dos vinte pelo “gay” com o qual casou, teve um filho e divorciou – com violência doméstica à mistura. Passado sete anos, dei por mim a curtir com a paixão dos vinte numa noite de copos e quando ambos íamos a sair do Bairro Alto, cruzámo-nos com um amigo meu das Belas que não via há cerca de cinco; ele estava a viver em Nova Iorque e abraçou-me, efusivamente, beijando-me na boca como era usual; infelizmente, o amigo querido das Belas é homossexual, porque é uma estampa de homem; nunca mais o vi, nem lhe agradeci o facto de ele ter sido um anjo. Quanto ao dos vinte, ficou sem palavras perante a minha felicidade naquele reencontro casual, despedimo-nos como se nada tivesse acontecido, já nos voltámos a cruzar muitas vezes e permanecemos sempre em silêncio sobre estes assuntos naturais.

Lembrei-me deste texto postado no Insónia a 16/11/2006, talvez porque acordei com uma dor de costas lixada: ontem andei a carregar os livros de arte de um armário para o outro. No meio disto tudo tive coragem para deitar fora trabalhos e fotocópias antigas para ganhar espaço, fui radical, apesar das dores valeu a pena o esforço, aquela tralha não fazia falta nenhuma. Nada se faz sem consequências e quanto ao resto, o destino prega-nos partidas divertidas.


domingo, 31 de janeiro de 2010

Textos insones #25

Cadeirão individual

A minha colega de carteira no secundário telefonou-me um dia para a ajudar a estudar na véspera de um teste. Saí de casa após o jantar, com os livros de geografia na mão e percorri o mapa que me era habitual na altura: fui para fora da muralha romana rumo ao bairro da moraria, com as suas ruas sinuosas, os televisores com o telejornal, o som dos pássaros ao fim da tarde e os miúdos a jogarem à bola nas calçadas. Na casa em frente da minha colega, àquela hora ouviam-se sempre gritos, por vezes alguém deitava restos do jantar pela janela fora, ou torradas queimadas, ou algum objecto voava e partia-se nas pedras da rua – a violência sempre me assustou, sobretudo quando se passa entre portas. Bati à sua porta e a avó atendeu-me, indicando-me o quarto de onde inesperadamente ouvi várias vozes e o som da aparelhagem de vinil a tocar. No interior do quarto, deparei-me com a minha colega e um namorado, mais dois casais muito entretidos e eu com os livros na mão a pensar no teste de geografia do dia seguinte. Cumprimentei toda a gente, observando onde me poderia sentar naquele mapa, descobri um cadeirão individual à minha espera; puxei de um cigarro e por ali fiquei como se nada em meu redor me dissesse respeito; olhava os livros no colo entre cigarros, já sabia que era uma ilha à muito tempo e que os outros também o são; tentei não dar importância ao que se passava. No fim daquela sessão, voltei para casa triste e sem saber o que pensar, não me lembro do que aconteceu no dia seguinte, mas acho que tudo seguiu no seu rumo natural. Durante muito tempo pensei que a colega era a minha melhor amiga, visto que a conhecia desde a infância, mas só mais tarde me apercebi que muitos amigos são apenas portos de passagem e nada é eterno. Entretanto, construi mapas por mares nunca antes navegados como qualquer portuguesa que tem curiosidade em conhecer o mundo, mesmo que seja em estado contemplativo. À medida que isso acontecia, apercebia-me que são poucos os amigos que crescem com vontade de compartilhar alguma coisa no momento presente, alguns tornam-se apenas passado. Por aqui vive-se numa civilização antiga em que tudo se encontra enterrado por descobrir, está tudo por camadas e por escavar; é por isso que os arqueólogos ainda arranjam emprego – e os antropólogos também têm muitos esqueletos para estudar. O momento presente neste país tem sempre um excesso de passado histórico, devo pensar assim porque dei cabo de muitos sapatos a percorrer as ruas de Évora durante os anos em que lá vivi. Quanto à minha colega, separámo-nos no primeiro ano da universidade porque tomámos rumos de vida diferentes. Um amigo telefonou-me na altura, estava doente a morrer, mas não me disse, deu-me sim uma enorme lição de vida avisando-me que eu não me podia rodear de pessoas que me querem comer energia, porque sou muito mais forte. Ele deixou-me como herança a paixão pela pintura. Telefonei à minha amiga quando ele morreu, mas ela não foi ao funeral, nunca entendi porquê. Entretanto, desisti de intervir na vida dos outros, sobretudo quando me sinto impotente ao observar a geografia onde se encontram; por vezes tento avisar de alguma coisa, mas normalmente não me dão ouvidos e ainda por cima me interpretam mal. No entanto, na despedida de solteira desta rapariga perguntei-lhe como é que ela podia confiar e se ia casar com um homem que já tinha encontrado em sua casa na cama com uma amiga da mãe. Perguntei-lhe se não seria uma grande falta de respeito por ela própria e pelo mundo. Ela não me respondeu, sorriu apenas cinicamente e aqueles olhos estavam num vácuo muito estranho. Encontrei-a há pouco tempo num concerto e os seus olhos estão iguais, limitei-me a cumprimentá-la com civismo. Outro amigo já me tinha avisado que ela mergulhou num deserto há muito tempo. Ele também já morreu, estava muito doente e não me disse quando me procurou antes de partir, deu-me também uma grande lição de vida ao pedir-me para escrever. Hoje escrevo e pinto, a minha geografia vai-se alterando todos os dias porque sei que apenas é importante alguns momentos de ternura que vivemos e compartilhamos com os que amamos.

Após uma arrumação radical dos livros nos armários da casa, lembrei-me deste texto que foi postado no Insónia a 17/11/2006. A minha geografia alterou-se radicalmente nos últimos meses, de modo que nem sempre sei por onde vou. Voltar a trás agora apresenta-se cada vez mais como uma péssima ideia.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Textos insones #24

Pancada

Terminei o ano de 2008 com uma forte pancada na cabeça, literalmente; o tampo de uma assassina, anciã escrivaninha de cerejeira, que coabita comigo há cerca de 20 anos, caiu-me na cabeça e como tinha a chave no sítio certo, fui parar ao hospital de Sta Maria; levei uns pontinhos, ou nas palavras de quem me atendeu por lá nas urgências, fui suturada. Isto aconteceu nos preparativos para o jantar, os convidados a chegarem e eu com uma toalha ensanguentada na cabeça; a minha irmã Xum que tem uma paciência desgraçada para me aturar, levou-me para as urgências. Sta Maria é um local extraordinário, porque apesar de ser um mundo de gente num edifício impessoal, desumano até, aquilo funciona; sempre que lá vou parar, visto que é o Hospital da minha área de residência, pergunto-me sempre como é que aquilo ainda funciona. Assim foi, atendeu-me um atraente jovem cirurgião que tratou do assunto num instante, comentando comigo que na semana passada também tinha batido com a cabeça num ar condicionado e que um colega o suturou – gostei do termo, é coisa que resolve as pancadas. Cheguei pouco antes da meia-noite a casa, comecei 2009 rodeada de amigos e ainda fui bailar até às tantas da madrugada no Ateneu Comercial de Lisboa. Só no dia seguinte é que contei aos meus pais o acidente, mas eles tinham passado por um bem pior: na rua onde moram em Évora, uma louca meteu na cabeça que a casa deles e do vizinho eram residências universitárias e queria entrar para ver os amigos. Durante o dia, um dos meus irmãos ainda a tentou acalmar, explicou-lhe que não viviam ali universitários. Na noite de 31, ela partiu os vidros das janelas do rés-do-chão da rua, e pegou fogo à garagem do vizinho. O meu irmão é a única testemunha, mas o pai da rapariga já se deu como responsável pelos estragos. Estou contente com o fim de 2008 e sinto que o novo ano só pode ser melhor, porque terminar o ano com uma chave a bater-me na cabeça tem que se lhe diga – e com a casa dos meus pais a ser atacada.

Texto postado no Insónia a 4/1/2009, o ano de 2009 foi intenso, cheio de mudanças de tal modo que tenho dificuldade em fazer algum balanço. Quanto à passagem do ano, ainda não decidi se saio de casa ou fico por aqui sossegada no quentinho.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Textos insones #23

Milagres


Há alguns anos que tenho pesadelos com a casa dos meus avós em Évora e a família agora resolveu fazer lá obras – eu afirmei logo a pés juntos que não quero nada com aquela casa, nunca irei lá viver ou pernoitar; detesto-a, tem quartos onde não consigo entrar, sinto que se passaram coisas horríveis lá dentro. Recentemente, o meu irmão contou-me que mostrou a casa ao meu sobrinho mais velho e ele quando estava a sair daquele antro, cruzou os braços e disse que não gostava da casa – eu acho que as crianças têm razão nestas coisas, devemos dar-lhes ouvidos. O meu irmão que é um céptico sarcástico relatou a história à família, depois de eu lhes contar os meus pesadelos e preocupação com as obras. A minha mãe agora quer levar lá um padre para benzer o sítio – não tenho nada contra, nem a favor, nunca gostei de homens de saias, não confio nesses intermediários, mas pode ser que resulte, também não é por isso que vou algum dia querer alguma coisa daquela casa. Como tenho uma personalidade alternativa, perguntei aos amigos se conheciam alguém de confiança que pudesse orientar-me nestes assuntos. Indicaram-me uma pessoa que, para meu espanto, sem me conhecer, sem eu dizer nada, confirmou de imediato as minhas desconfianças, receios em relação à casa e aconselhou-me fazer orações numa igreja às segundas-feiras; pensei que mal não faz, tive uma educação católica, como já afirmei não confio nos padres, deus é outra história, não acredito propriamente numa figura antropomórfica que gere tudo isto, acho que os homens o criaram à sua imagem e semelhança; não deixei de ter, no entanto, uma relação com o que está para além de mim, com o transcendente, gosto de ler a Bíblia e a fé é algo que transportei para o trabalho artístico na adolescência; lembrei-me de um amigo meu que já partiu, que era um místico muito à sua maneira e costumava dizer que os rituais o acalmavam. Então, tive de escolher uma igreja perto de onde vivo, para lá ir à hora do almoço, antes do trabalho: tenho uma no topo da minha rua, mas como já vivo aqui há 21 anos, achei que não era a mais adequada, se não qualquer dia também frequento as touradas no Campo Pequeno – nem com a praça restaurada pretendo lá entrar também; na Av. de Berna existe a igreja de N. S. de Fátima, mas Fátima não, acho que aquilo é apenas um grande negócio; a alternativa era São João de Deus na praça de Londres, coincidência, uma antepassada do lado do meu pai era de Montemor-o-novo e tem o apelido Cidade, por isso era da família do santo, assim, esta igreja pareceu-me a mais adequada. Há muito que só entro em igrejas para cantar em latim ou assistir a concertos, normalmente são antigas. Fui a S. João de Deus que é moderna e no altar deparei-me logo com uma imagem da Fátima: raios que o parta, ela está em todo o lado. Resolvi não ligar ao assunto, afinal é apenas uma imagem, cumpri os rituais e senti-me bem. Quando ia já a caminho do trabalho, lembrei-me da N. S. da Conceição, está sozinha lá num monte em Vila Viçosa a olhar a planície alentejana, é muito mais bonita que a Fátima e quase ninguém lhe liga. Em 1981, quando o papa João Paulo II a visitou, eu era uma miúda, mas assisti a um verdadeiro milagre da N. S. da Conceição, porque o povo gritava: Papa, amigo, o povo está contigo!

postado no Insónia a 6/7/2008, lembrei-me dele porque hoje é dia de N.S. da Conceição e assisti mesmo a esse milagre em Vila viçosa quando o Papa veio a Portugal em 1981.


sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Textos insones #22

Germanwings


Voei para a Alemanha pela terceira vez, mais uma na germanwings, companhia aérea com sede em Colónia que tem uns preços inacreditáveis; nestes aviões os lugares não são marcados e é bonito observar os alemães que normalmente são arrumadinhos a acotovelarem-se para chegarem a tempo de se sentarem à janela; os alemães em férias são assim, a procura do melhor lugar com vista para as nuvens é a oportunidade anual de terem sexo e em Colónia um romeno ensinou-me que a palavra foder em alemão também significa voar – o Platão tem dedo nisto de certeza e eu não consegui fixar a palavra em alemão para foda, talvez por falta de interesse, desmemória ou estupidez. Desta vez fui à Alemanha ao casamento de uma amiga portuguesa com um alemão, ela já vive naquelas terras há catorze anos; não entendo porque é que as pessoas casam, acho o casamento um gueto de comodismo e entre uma portuguesa e um alemão é já um clássico – parece que ao contrário não resulta, as alemãs não querem casar, nem estão para aturar os portugueses. Quanto aos alemães, tenho a impressão de que quase todos sonham em arranjar uma portuguesinha para os servir, para subjugarem, porque as empregadas domésticas na Alemanha há décadas que são portuguesas; é verdade, eles têm essa ideia fixa que as portuguesinhas ainda cuidam deles, são boas domésticas, umas fadas do lar, sentem-se infelizes e desamparados com as mulheres rijas da sua própria nacionalidade, que se emanciparam há muito, bem antes das portuguesas, são independentes e não estão para os aturar. O caso da minha amiga não é assim, ela é uma mulher de negócios e o seu alemão nasceu em Portugal, viveu em França durante muitos anos e para além de falar fluentemente várias línguas parece latino. Eles vivem em Colónia que é uma cidade multicultural onde os alemães até falam inglês e são simpáticos, têm fama de gostarem de farra naquela cidade. A minha amiga vive entre duas culturas e tenho receio que o casamento a torne definitivamente alemã, de forma legal visto que também vai ter um filho alemão; e o alemão dela, apesar de parecer latino é um alemão. Na última vez que os visitei apresentaram-me um galerista que me relatou a sua paixão pela caça, foi engraçado, ele tinha uma propriedade onde organizava caçadas a javalis e depois vendia a carne dos bichos, era um modo de fazer dinheiro também, possivelmente, para apoiar artistas novos na sua galeria. A caça para ele era a única actividade onde estava concentrado sem pensar em mais nada, onde se desligava do quotidiano. Não quis saber das caçadas do dito cujo e expliquei-lhe que a única actividade onde me sentia noutra dimensão é a música, mas interpretar música de câmara é algo pacificador que nada tem de violento. Desta vez apercebi-me que o grande Reno é o pai de todos os alemães e nas suas margens vislumbrei uma Valquíria: estava sentada numa estação de serviço, na esplanada do café. Ela vestia-se de cabedal negro, era alta com porte altivo, muito elegante e tinha idade indefinida; o cabelo era cor-de-fogo longo e ondulado, tinha um rosto com feições finas, olhos azuis-escuros, profundos e os lábios pontuados de vermelho escuro. De repente levantou-se e dirigiu-se para uma mota de grande porte e dois alemães com estilo grávido de cerveja, provavelmente, os donos das BMWs estacionadas junto à sua mota tentaram meter conversa; ela foi-lhes respondendo formalmente, enquanto calçava as luvas e arranjava um lenço de seda em torno do seu cabelo cor-de-fogo. Os grávidos foram ficando nitidamente atrapalhados com o seu porte altivo e com o facto desta figura mitológica não se desconcentrar das suas tarefas. Finalmente, colocou o capacete e sentou-se na sua mota arrancando com classe. A valquíria seguiu o seu rumo no Vale do Reno, deixando aqueles dois típicos alemães sem saber o que fazer ou pensar.

postado no Insónia a 27/7/2007


quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Textos insones #21






BERLIM

A semana passada tive o prazer de receber em minha casa o poeta alemão Daniel Falb e a sua namorada Lina Maria, dois seres extraordinários – a Lua também simpatizou com eles, brincava muito com a Lina, percebeu logo que ela era malandra, como é meio italiana, mas também saltava para o colo do Daniel e dava-lhe dentadinhas nas mãos. Eles vivem em Berlim, cidade que me desperta muita curiosidade. A Lina estava encantada com a luz de Lisboa, transbordava energia. O Daniel é mais reservado, mas a pouco e pouco foi revelando algumas coisas: com apenas 31 anos, escreveu uma tese sobre Espinosa, agora prepara o doutoramento, conversamos e ouvimos também música, ele estudou piano até aos 23 anos; e tem um sentido de humor muito subtil – coisa rara nos alemães, pelo menos nos que conheci até agora. Relatei-lhe algumas das minhas aventuras em terras germânicas, que já estive para conhecer Berlim, mas não consegui. Na primeira viajem que fiz à Alemanha, fui visitar uma amiga portuguesa que estava a fazer um doutoramento em vinhos e vivia na altura no Vale do Reno, tinha em vista ir à capital, mas queria sobretudo ir a Postdam, porque existe lá um Caravaggio para ver ao vivo. Então, fomos de carro até Hanoover, visitar uns amigos meio alemães, meio brasileiros, com a ideia de continuarmos até Berlim, só que surgiu algo no caminho: uma festa de anos em Wolkesburg, de um alemão que tinha crescido no Brasil e agora trabalhava na fábrica da Wolkswagen. Wolkesburg foi no passado propriedade de um aristocrata que Hitler tratou de expropriar para construir a fábrica de automóveis e continua a ser a central de produção destas máquinas. Quanto à festa, foi indescritível: recordo entrar numa sala e ficar cheia de medo, estava apinhada de operários da fábrica a ouvir heavy-metal altíssimo, com umas mulheres extraordinárias, a beberem schnaps e cerveja, fiquei em pânico, ainda por cima tudo em alemão e eu era a única que não sabia aquela língua de bárbaros. O menu eram salsichas com salada de batata e maionese, típico, servida pela bizarra mãe do aniversariante, que tinha uma cadela muito velha e gorda sempre a segui-la. O aniversariante estava deprimido porque tinha batido com o carro numa árvore centenária, que era monumento nacional e tinha de pagar uma enorme multa por isso. No entanto, fui salva deste ambiente por um amigo de infância do aniversariante, um alemão que falava fluentemente português, estudante de literatura em Hamburg, com o qual tive um intenso diálogo sobre Fernando Pessoa e os seus heterónimos. O Daniel Falb comentou logo que tudo isto se relacionava com o meu desejo de ver o Caravaggio ao vivo e que já tinha estado em Wolkesburg, infelizmente, para um acontecimento cultural de outra ordem. Contei-lhe então que visitei também Heidelberg, mas não tinha percorrido o passeio dos filósofos ao pé do rio e que no caminho de volta para o Vale do Reno, me tinha enganado nos comboios, porque a estação de Mainz estava em obras, perdendo-me de tal forma, que fui parar a uma estação de noite no meio do nada e tive de telefonar para me irem buscar. O Daniel comentou que o passeio dos filósofos é semelhante ao que me aconteceu nos comboios e desafiou-me a voltar à Alemanha para resolver tudo isto, ofereceu-se ainda para ir comigo ver o Caravaggio ao vivo, porque nunca o viu, nem sabia que estava em Postdam. Assim que for possível, vou a Berlim visitar estes meus novos amigos.

texto postado no insónia a 16/10/2008, lembrei-me dele porque foi escrito na altura em que conheci Daniel Falb, antes de ilustrar os seus poemas que aqui tenho mostrado. As imagens que aqui estão datam de 1998, tiradas na primeira viagem que fiz à Alemanha. A primeira é uma panorâmica da festa em Wolkesburg, só falta o heavy-metal - o único rapaz de cabelo curto era o estudante de literatura portuguesa com o qual conversei animadamente sobre Fernando Pessoa. Ao lado está a mãe do aniversariante, autora da refeição alemã da festa, é pena não tirado uma foto à cadela, que também tinha uma fisionomia peculiar. Por fim, um passeio bucólico na floresta, efectuado no dia a seguir à festa, onde estou a conversar com o aniversariante.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Textos insones #20


Num post anterior abordei as questões que Christian Boltanski formula através da sua actividade artística, ao penetrar na esfera privada das memórias históricas e colectivas, nomeadamente, se cada ser humano poderá ser um potencial criminoso. O artista ao colocar esta questão sabe que vive num mundo onde já não se acredita numa humanidade melhor, onde as utopias políticas morreram e apresenta-nos as utopias de aproximação como uma possível esperança: não podemos mudar o mundo, mas podemos reagir à nossa volta, aí sem ir mais longe. A questão que vou colocar agora é também um pouco dolorosa: será que o acesso ao conhecimento, à arte e à cultura poderá tornar os seres humanos melhores? Sem dúvida que quem tem acesso à cultura é mais consciente e terá mais responsabilidades perante o mundo; mas será que alguém é melhor só porque é culto e sapiente? Um criminoso não poderá ser também culto e sapiente? Christian Boltanski questiona-se e questiona-nos ao inventariar e mostrar fotografias da vida familiar dos SS. Eu coloco-vos esta questão a partir de um facto histórico sobre o qual diversos autores reflectiram com seriedade, porque por mais que se questione, talvez não haja nenhuma justificação para ele. A pergunta é: como foi possível a presença da música nos campos de concentração?
Na realidade, os SS para além de terem afectos, também amavam a música. Michel Schneider aborda este tema em “Musique de Nuit” - Editions Odile, Paris – livro que dedicou a Alma Rosé, sobrinha de Gustav Mahler, que dirigiu uma orquestra feminina em Birkenau e morreu em Auschwitz em 1944. No livro relata-nos que Alma Rosé foi descrita por um sobrevivente do Holocausto, como alguém que não vivia neste mundo, que criou uma orquestra composta por raparigas que tocavam apenas há dois ou três anos e davam concertos todos os Domingos; o nível de qualidade da sua orquestra melhorou de dia para dia, segundo o depoimento, porque Alma Rosé vivia numa espécie de transe musical, trabalhando obsessivamente, tentando assim ignorar o que se passava à sua volta, mas sofria de insónias à noite. Será que Alma Rosé que a música poderia tornar os seres humanos melhores, mesmo aqueles monstros no campo de concentração? Será que a sua obsessão em trabalhar com a orquestra de forma a melhorar a qualidade dos concertos, era um acto de sobrevivência ou de fé? Nunca o saberemos; sabemos apenas que se algum SS se ria ou fazia um julgamento durante uma actuação, ela parava a música, dizendo que não se podia tocar naquelas condições e nunca foi punida por isso. O comandante deste campo de concentração, Josef Kramer, era um grande amante de música, tocava piano e o seu compositor favorito era Schumann. Sabe-se também que o Dr. Mengele era um profundo melómano, apesar das atrocidades que cometeu. Em Auschwitz, as autoridades ofereciam música de câmara, Jazz, de variedades e aos domingos à tarde havia concertos com aberturas de operetas e música ligeira, como se o campo de concentração fosse uma vulgar vila alemã. A música era interpretada por uma orquestra de prisioneiros, dirigida por Simon Laks, músico polaco que sobreviveu ao holocausto e publicou as suas memórias em 1948. Simon Laks começou por ser violinista nesta orquestra, depois copista de partituras e finalmente maestro. Segundo Michel Schneider, Simon Laks teve de inventar orquestrações especiais para que fosse possível tocar qualquer peça, apesar das ausências na orquestra, nas partituras existiam assim as notas dos temas mais importantes dos solistas. Os músicos também morreram em Auschwitz, poderiam sobreviver mais tempo que os outros prisioneiros, mas também morriam. Os outros artistas ou os poetas não tinham a mesma sorte que os músicos. A música é da ordem do invisível, a arte mais imaterial e espiritual de todas, uma linguagem universal que invade e atravessa os corpos dos seres humanos, instalando-se na intimidade, uma linguagem abstracta onde apenas os títulos são portadores de conteúdo, não os sons, e que não possui referente na realidade; talvez por isso, a música é a arte que mais se aproxima do bem, da justiça ou da verdade. Então, como foi possível a música estar presente nos campos da morte? Porque é que foi a única expressão artística no meio do horror? Como foi possível Josef Kramer, em Birknau, matar dezenas de pessoas num dia e tocar Schumann no piano a seguir? Poderá qualquer amante de música ser um criminoso?

Hoje lembrei-me deste texto postado no Insónia na 23/1/2007. Na fotografia podemos ver Alma Rosé.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Textos insones #19



O acto de escrever é um momento silencioso que Maurice Blanchot caracterizou em L´espace Littéraire ( Édition Gallimard, Paris, 1988) como recolhimento (Blanchot refere-se ao recolhimento como a solidão que é necessária para criar, tal como Rilke a definiu em vários textos). Esse recolhimento é solitário, mas em nada se assemelha à solidão do individualismo, nem à dor ao nível do mundo, ignorando qualquer procura de diferença. O recolhimento é um acto de alteridade, onde o escritor penetra na intimidade da escrita com o silêncio. Este acto só se torna poético através da abertura da intimidade de quem escreve para quem lê. O acto de escrever comporta um silêncio que os Mapas da imaginação e da memória de Ana Hatherly desvendam. Aqui a escrita é uma sombra que persegue o gesto da mão percorrendo o tempo. O gesto silencioso de escrever constrói labirintos de escrita, teias que formam mapas na superfície de papel. A escrita tece uma rede na memória, deixando rastos de um percurso entrelaçado, como um fio que constrói um mundo vislumbrado numa estranha superfície topográfica. Um mapa é sempre imagem de um território, esquematização de um espaço que nos pode dizer de onde vimos, onde estamos, para onde vamos. Os mapas de Ana Hatherly não nos dizem, apenas sugerem: é possível seguirmos os rastros da sua escrita como se fosse o fio de Ariana. A escrita destes mapas é ilegível, o seu som foi obliterado através da forma da própria escrita, restando os traços do gesto que a mão da autora percorreu. Trata-se assim de uma catarse cartográfica. Maurice Blanchot descreveu-nos um fenómeno apelidado de preensão perseguidora (L´Espace Littéraire, p-19), que sucede na acção de escrever. Neste acto, existe uma mão portadora de uma espécie de doença, que pega num lápis e não o quer largar para escrever infinitamente. A mão entra assim numa existência preciosa e o que tem depende da sua sombra. A mão escreve inserindo-se num outro tempo, num tempo infinito, tornando-se sombra no tempo. Existe porém outra mão, que interrompe a escrita, criando o ritmo, um cosmos nesse tempo não humano. O tempo no acto de escrever torna-se sombra do silêncio e a mão que pára a mão doente sabe como é importante o que forma nesse tempo, porque existe uma intimidade da escrita com o silêncio, com o que tem de autêntico, onde toma forma a própria escrita. Os Mapas da imaginação e da memória dão ênfase precisamente a este momento, ao acto de escrever. Este surge como traços dos gestos de um corpo ausente, sombras silenciosas que observamos em forma de mapas, memórias que não podemos ler, apenas seguir o seu curso ritmado. São rastros de um acto mágico. A escrita no Oriente tem um carácter místico, sobretudo na China, onde os poetas são pintores e calígrafos. A escrita chinesa é ideográfica, a sua leitura exige uma correspondência de sinais visuais que se relacionam entre si. Assim, a escrita chinesa mantém um dualismo gráfico-verbal, permitindo um íntimo encontro entre a poesia e a pintura na própria estrutura. A escrita de consoantes perdeu essa dualidade, ao evoluir no linearismo do espaço, subordinando-se à linguagem verbal e tornando-se um instrumento de expressão racional. Ana Hatherly desconstrói o aspecto conceptual da nossa escrita, através da sua desemantização, pondo em evidência sobretudo o gesto de escrever, retomando o carácter mítico e simbólico que ele implica, como se fosse um calígrafo ocidental. As palavras tornam-se elementos expressivos num percurso ritmado através de gestos individuais. É a mão que pensa neste acto - pensa o incomunicável, o inefável, num gesto de pura magia.


Imagem: Ana Hatherly, Mapas da Imaginação e da Memória, 1973. Clique na imagem para a ver com melhor definição.



Hoje lembrei-me deste texto postado no Insónia a 16.11.2005

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Textos insones #18


Muitas das perguntas que fazemos não têm respostas ou na própria pergunta a resposta já está incluída, mas sem resposta; sempre gostei de pessoas que sabem fazer perguntas, que de algum modo me conseguem tirar o tapete debaixo dos pés ao questionarem-me, ao colocarem-me dúvidas sobre o mundo, sobre a existência, sobre o sentido de tudo o que nos rodeia, sobre o que somos ou sobre as nossas acções. Inicio aqui esta nova série de posts porque me lembrei de uma situação curiosa: no Verão passado estava na biblioteca do museu de Serralves a observar uma exposição sobre as publicações de Christian Boltanski e o segurança presente na sala, ao ver-me concentrada numa vitrine onde estavam expostos retratos de SS com as suas famílias no dia de natal ou no dia do casamento, rodeados pelos seus filhos, dirigiu-se a mim e perguntou-me:

- Desculpe, reparei que está a observar atentamente esta exposição. Conhece bem a obra de Christian Boltanski?
- Conheço, é um artista que aprecio muito.
- Então porque é que ele expõe estes retratos familiares dos SS?
- Para nos colocar questões terríveis a partir de imagens. Lembro-me agora de uma que está bem mais perto de nós: e o serial-killer de Santa Comba Dão? Não era ele um GNR respeitado e integrado socialmente, no entanto matava raparigas?
É difícil imaginar que os SS eram homens com afectos ou que um vulgar criminoso também os tenha, Boltanski pergunta-nos isso; na sua obra coloca-nos muitas vezes questões sobre memórias históricas e colectivas, introduzindo-nos na esfera privada dessas memórias, através de imagens ou objectos que inventaria e nos apresenta, por vezes, com uma enorme subtileza e até delicadamente. Converso um pouco com o segurança do museu sobre este artista, digo-lhe que tem ascendência judaica. Boltanski nasceu no final da segunda guerra mundial em Paris, o seu pai era judeu e foi perseguido durante a guerra, a sua mãe era católica e a maior parte dos amigos dos seus pais foram sobreviventes do Holocausto; ele apesar de ter recebido uma educação católica, não é religioso, mas a noção de culpa é um dos temas que tem trabalhado criativamente. Numa entrevista presente no catálogo publicado pelo Centro Galego de Arte Contemporânea em 1996, afirmou que ao inventariar estas fotografias queria colocar as seguintes questões: “pode qualquer um de nós ser um assassino? um bom pai de família pode cometer um crime?” Christian Boltanski não se considera um judeu no sentido tradicional do termo, ele nunca entrou numa sinagoga e afirma que o seu trabalho não é sobre o Holocausto, mas sim sobre o que aconteceu depois. As fotos expostas naquela vitrine da biblioteca pertencem a um livro intitulado Sans Sousi, onde inventariou fotografias de SS encontradas em Berlim. Ao inventariá-las, Boltanski quis mostrar-nos que “...os criminosos não são diferentes de outros homens e que um agente das SS poderia beijar uma criança de manhã e matar dezenas de outras durante a tarde”. Esta constatação levou-o a ter um olhar inquieto ou desconfiado sobre o outro na vida quotidiana e estas experiências que ele não viveu, mas que os seus pais viveram durante a guerra, levaram-no a sentir-se como uma criança do Holocausto e a colocar questões como: “ este comerciante encantador com quem me cruzo todas as manhãs, não poderia – se amanhã o poder político o permitisse – matar-me?” Existem perguntas que não têm respostas, ou às quais só poderemos responder perguntando incessantemente. Por isso admiro tanto a obra de Boltanski, porque é uma interrogação constante. Boltanski questiona-se e questiona-nos o mundo através da sua arte, mas tem consciência de que as suas acções são ínfimas perante a realidade, porque vive num mundo onde já não se acredita numa humanidade melhor, onde as utopias políticas morreram, onde as esperanças desapareceram, onde a guerra e a violência continuam e são sinónimo de estupidez e crueldade da espécie humana. Termino este post com as próprias palavras do artista, presentes no catálogo que já referi, que de algum modo contêm alguma esperança: “Durante o séc.XX, a noção de vanguarda em arte estava frequentemente ligada à ideia de utopia política. Os artistas pensavam ter a possibilidade de mudar o mundo, de estabelecer leis universais. Agora isso parece impossível. Vivemos cada vez mais um mundo pós-humano, virtual, onde a ideia de moral, de bem ou de mal, de caminho para um mundo perfeito já não existe. Felizmente, ainda nos resta o que eu chamo de utopias de aproximação: não podemos mudar o mundo, mas podemos falar ao nosso vizinho, fazer uma pergunta, ou como Félix Gonzalez-Torres, oferecer um caramelo, uma imagem. Procurar reagir à nossa volta, aí sem ir mais longe”.


Lembrei-me deste texto depois de uma alegre cavaqueira com o Joaquim sobre utopias e outras manias, ele foi postado no Insónia a 20.1.1007

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Textos insones #17

Portugal dos pequenitos clandestino

Farol Ilha de raios oblíquos contínuos sequenciais nas estrelas da noite. O barco azul parte de Faro para a Ilha do Farol durante o dia. Ao longe, o farol anuncia com elegância o seu pequeno reino. O barco azul leva-me a caminho de um mistério, quem sabe se um pequeno paraíso perdido no mar. No Farol Ilha tudo gira em torno do mensageiro luminoso no alto, talvez um mensageiro entre dois mundos. De dia, o farol apenas vigia o mar como um deus; de noite, deus transforma-se num silencioso ritmo visual. O farol centra descentrando assim a ilha em feixes luminosos sequenciados. O farol divide a sua ilha em legal e clandestino, na forma de direita e esquerda, pelo menos seguindo as coordenadas da plataforma onde caminho. Em sentido contrário será esquerda e direita, ou seja, clandestino e legal lado a lado. Mas no fundo na ilha do farol, o clandestino e o legal vivem de mãos dadas. O Farol Ilha é o Portugal dos pequenitos estilo clandestino, na continuidade do Raul Lino, em ponto pequeno, português suave marítimo contemporâneo. O outro Portugal dos pequenitos tem muito manuelino. O legal clandestino, ou seja, o clandestino no seu esplendor, tinha que ser uma ilha no mar ao sul, em honra dos estilos importantes da nossa cultura; e tinha de ser uma ilha onde só se pode ir num pequeno barco azul. A diferença entre o legal e clandestino nesta ilha, revela-se apenas na noite, em forma de pequenos candeeiros, ténues globos luminosos, muito baixos, que na rua acompanham os humanos, pontuando apenas, sem competir com deus lá no alto. As ruas são sempre estreitas, escuras e demasiado estreitas na parte clandestina, a areia aperta-as. E deus é muito mais bonito no clandestino, revela-se no azul-escuro estrelado imenso.

O estilo manuelino impera em Tomar, na Batalha ou nos Jerónimos. O Raul Lino povoou especialmente Sintra e está um pouco por todo o país. Quanto ao contemporâneo clandestino, o mais presente no nosso território, nunca o poderia imaginar deste modo, com esta escala demasiado humana, pequenita mesmo, parece a brincar. O estilo clandestino na Ilha do Farol não é um corte com o passado, é uma continuidade do português suave em pequena dimensão, com deus e tudo, vigiando lá no alto. Mas ali não há igreja, só o farol se eleva nos céus em direcção ao sol. De noite, os traços de luz giram em torno de deus dançando, a lua é enorme na praia e o mar prateado.

Postado no Insónia a 29/8/2005

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Textos insones #16

Esculturas sonoras

São 8.45m da manhã, chego a horas como gosto quando marcam algum trabalho pago comigo. Digo pago comigo e até parece mentira, mas não é, uma amiga telefonou-me para eu dar respiração e voz a uma personagem num filme de animação; trata-se de um filme de autor (não posso dizer o nome, ainda não estreou), ao telefone ela contou-me que animou a personagem, mas não a criou, deu-lhe gestos a pensar nos meus, interpretou-a assim e por isso só eu poderei ser o seu som; a personagem é uma mulher obesa, neurótica, está sozinha a deambular na casa, fuma cigarros, tenta telefonar para um gajo, mas ele desliga-lhe o telefone na cara; o gajo também é obeso e têm um cão obeso, coisa politicamente correcta na realidade. Bom, aquilo é ficção, a personagem zanga-se com o telefone, toma comprimidos e atira-se pela janela, enquanto o gajo assiste a todo o drama num café em frente. Eu já fui obesa, mas não me mandei de nenhuma janela, nem me enfrasquei em comprimidos, mas isso de deambular pela casa sozinha sei bem o que é e desligarem-me o telefone na cara de propósito também. Já são 9.20m, é estranho, a minha amiga não é de atrasos, vou ter de lhe telefonar; afinal confundi tudo, foi marcado às 9.45m, percebi mal por causa da febre. Hoje acordei melhor, mas gripe de verão vai e vem, com a febre sonhei com uma exposição de escultura num jardim, onde participava com uma intervenção num tanque enorme cheio de água, colocava no meio dele um gradeamento em ferro trabalhado com formas diversas que se seguravam num tecto peculiar, uma espécie de telheiro do tanque onde tinha colocado cadeiras de cinema enfileiradas e outras suspensas em estruturas semelhantes ao gradeamento. Aponto esta imagem estranha no meu bloco quando aparece a minha amiga e o realizador acelerado; ela apresenta-mo outra vez, ele diz que se lembra perfeitamente mim à mais de um ano e que até a voz está diferente; e tem razão, respiro de outro modo, são menos 40kg, mas enquanto estava a gravar, lembrei-me do que já fui, lembrei-me bem do cansaço em me mover, o que é desistir de me vestir, ouvi o eco da minha antiga respiração na casa desarrumada da personagem; começamos a gravar timidamente, primeiro apenas a respiração que se tornava a pouco e pouco mais intensa, só os cigarros a acalmavam, depois foi surgindo um crescendo com a presença rítmica da respiração, criando uma espécie de texto que se sente e não se consegue ler. A voz só surgiu na parte da raiva com o telefone, não digo absolutamente nada em todo o filme, faço sim uns harmónico com enormes ressonâncias de peito, é tudo voz interior. O realizador acelerado exclamou: boa, é a voz da gaja? É claro que estava nos meus graves de peito, lá por ter menos mamas não deixei de saber quanto pesam aquelas mamas; sei também que ter mamas é ser confundida com a santa casa da misericórdia, é grave e dói, mas eu não sou aquela gorda que termina a mandar-se pela janela fora e à qual o gajo assiste ao desfecho com prazer sádico no café, como se estivesse a assistir a um programa na TV. Existem muitos humanos por aí que sofrem da doença da morte, já ouviram falar nisso? Apercebi-me da doença quando li os “Textos secretos” da Marguerite Duras, foi à vinte anos atrás, na altura cruzei-me com um gajo que sofria desse mal, a indiferença, ele pegou-me aquilo durante algum tempo, mas depois ofereci-lhe o livro no seu aniversário, mostrei-lhe a minha consciência; eu sei o que és e sobrevivi porque escrevo, esse é o meu antídoto contra a doença da morte, tenho alguma coisa dentro deste cérebro e não apenas massa cinzenta, foi assim que arrumei a casa, que ela entrou em obras e o meu corpo também, agora só falta o jardim. Eu nunca me enfrasquei em comprimidos, nem parti telefones, já me tentaram matar de várias formas, mas levanto-me, tomo banho, visto-me de forma elegante, crio impacto em quem me cruzo, provoco emoções e também as tenho, pinto, faço escultura, canto e estou muito viva. Esse gajo, a última vez que o encontrei na rua, tinha barriga e um ar acabado, perguntou-me o que fazia, respondi-lhe escultura nas Belas e ele a olhar o chão, queixou-se que tinha um trabalho monótono, trabalhava num jornal e não tive pena nenhuma dele, tenho mamas, mas não sou estúpida. Voltando ao realizador acelerado, ele brincou comigo, dizia que a gaja podia ser eu, disse-lhe que não, sofro de vertigens por isso nunca poderei mandar-me de uma janela; ele pergunta-me o que faço, respondo que sou artista e vou vivendo de biscates como este, já vamos na direcção do Multibanco para me pagar, boa, é uma pessoa séria que paga a horas, coisa rara e merece respeito. Ele pergunta-me há quantos anos estou assim, respondo quatro ou cinco. Falo-lhe da minha exposição de escultura na Eterno Retorno, ele comenta que é fora de mão e ninguém lá deve ir ver; o técnico de som diz que ouviu falar no espaço por causa dos concertos e que é capaz de passar por lá, ele é músico, parece autista, mas suponho que sabe ouvir. Despeço-me com vontade de rir, nem lhes contei que as esculturas estão na parede junto ao palco dos concertos na livraria. As minhas esculturas não são para ver, são para ouvir, por isso não vai mesmo ninguém vê-las, mas acredito que alguns vão gostar de as ouvir. Quanto ao filme, quando estrear aviso, é a minha melhor escultura sonora até ao momento, mesmo que não seja possível colocarem o meu nome no genérico.

Postado no Insónia a 23/6/2007, véspera do meu 38º aniversário, lembrei-me dele porque hoje faço 40 anos.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Textos insones #15

Limpar o pó

Contrataram-me para um evento especial num museu – isto de viver de biscates tem que se lhe diga, pelo menos vai variando; e lá fui trajada a rigor – brincos antigos de esmalte e ouro (prenda da família), saia de bom tecido, sapatos clássicos, encharpe de seda . Deparei-me então com um director que nada tinha a ver com o meu contrato e vi logo que ele era do tipo que não gosta de mulheres – já os topo pelo cheiro à distância. O dito cujo não gostou do meu saco de tecido indiano – onde transportava o cofre do dinheiro para os pagamentos, entre outras responsabilidades do evento; e não sei porquê, ele decidiu mandar-me limpar o pó das cadeiras onde as pessoas se iam sentar, entregando-me um pano com ar de nojo; calmamente, eu limpei o pó com uma classe que ele desconhece e logo a seguir levou comigo: chegaram as funcionárias do museu que me tiraram o pano das mãos, dizendo que eu não tinha que fazer aquilo. E ele que estava de braços cruzados a arrotar postas de pescada sobre a melhor disposição do material teve de me aturar a colocar ordem nos assuntos em termos práticos e sempre ao contrário das suas ordens, perante a satisfação das funcionárias. Durante o evento fui apresentada oficialmente à criatura, afirmando logo que já nos conhecíamos e ainda aproveitei para o fazer estremecer, publicamente, mais um pouco e com subtileza, porque eu limpo o pó como bebo chá ou descasco cenouras, é tudo igual.

Postado no Insónia a 27/9/2007

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Textos Insones #14

Ruínas

Os quintais da vizinhança, entre os quais está um pequeno pedaço que aparentemente me pertence, vivem o abandono total; a velha do rés-do-chão morreu e aquilo agora é uma verdadeira selva, a trepadeira invade-me a janela do atelier, por vezes tenho de cortá-la para não tapar a luz, para não interferir na luz necessária para pintar; há muito que prometi construir um jardim naquele pedaço, não o fiz, sei agora que nada me pertence e estou de passagem, mesmo quando circulo no mesmo sítio. Cada dia sinto mais que estou de partida, o que me prende é nada e a ideia de construir um jardim não passa de uma boa ideia. Estou triste, nem escrevo, resta-me alguma energia para pintar, procuro outros mundos onde possa habitar, porque o que se passa em meu redor está a perder o sentido. Não entendo quando comecei a sentir-me assim, talvez desde que a pintura me invadiu, ela está a interferir em tudo. Acordo por vezes de madrugada, sem despertador e vou pintar, nunca pensei que a luz da manhã se tornasse tão importante. A Lua segue-me com o seu precioso silêncio. Estive anos enleada e agora preencho espaços com rastros labirínticos, à medida que me liberto apenas me distancio, é como se tudo em meu redor fossem apenas memórias, vidas onde já não estou no momento presente, vidas que não me dizem respeito. Retomei o trabalho e as actividades sociais habituais no início de Setembro, não me preenchem, faço apenas o que pode ser feito para depois poder pintar. Nada me encanta. Sinto que em torno de mim habitam três ruínas que se estão a desmoronar: tentei que duas delas se fortalecessem contra as agressões do meio ambiente, mas não consegui nada, elas agora estão a destruírem-se uma à outra. Quanto à terceira, é muito bela, mas está fechada, queixa-se que eu não faço a mínima ideia do que se passa com o seu corpo e alma. Não me sinto culpada por isso, não sou responsável por uma ruína invisível fechada sobre si própria, não vou arruinar-me por algo que me é exterior, já quase me desmoronei por outras razões, mas depois das obras na casa, sinto que vou ter de habitar outro espaço. Não consegui sequer construir um jardim nos quintais da vizinhança, confesso que me atrai ver aquele pequeno mato no centro da cidade, o jardim era uma boa ideia, mas não o vou construir aqui. Não consigo fazer quase nada onde estou, apenas exorcizar enleios nas telas, vou libertar-me apenas.

Postado no Insónia a 25/9/2008, lembrei-me desta coisa deprimente porque o quintal vai ser limpo a partir de sexta-feira, finalmente, aquela selva vai desaparecer, não sei se consigo criar um jardim por lá, a ver vamos.

domingo, 31 de maio de 2009

Textos insones #12

Emergente

Emergente é um artista surgindo, primeiramente, em eventos colectivos cheios de gente, organizados por gente que já foi emergente, os emergentes seniores, que só organizam os eventos com emergentes, para poder dizer que também trabalham com gente. Os emergentes produzem arte política com novas tecnologias, usando títulos em inglês, porque apesar da emergência ser portuguesa, existe sempre a estratégia da internacionalização, uma emergência com carácter universal. Os emergentes produzem multimerdas, com o objectivo de serem sempre coerentes, não se vá dar o caso de deixarem de ser emergentes e fazerem-se gente, numa retrospectiva onde sejam julgados absurdos na sua emergência. A emergência é uma estratégia eficaz e coerente, apesar dos emergentes terem sempre um certo espaço para a incoerência, porque o emergente é um artista enquanto novo. Emergente, à superfície, é um novo detergente: lava velhas nódoas, entranhadas, mas não deixa a roupa branca, não, até porque o sujo já está lá há muito mais tempo. Os emergentes só conseguem deixar a roupa branca quando ela tem cor, o que não quer dizer que eliminem o sujo. A cor, segundo um emergente, é um ornamento artificial, decorativo, formal ou poético. Estas últimas quatro categorias, habitualmente, são colocadas no mesmo saco por um emergente, que na sua detergência é um crítico, questionando sempre o que é artístico, no ponto de vista do seu alargamento, com vista a ampliar o campo da arte para si próprio. O emergente aparenta sempre uma ascese conceptual, é um intelectual que lava daí as suas mãos: matéria é coisa porca, coisa anal, o emergente é muito oral. A estética emergente segue o zeithgeit onde impera o horror aos espaços vazios, optando pela instalação, um coerente e eficaz gesto de acumulação no espaço, com vista à criação de ambientes preenchidos totalmente com o ego, através de uma grande estimulação da visão em movimento, acompanhada por interferências sonoras. O detergente emergente simula combater as nódoas, mas no fundo quer tornar-se uma delas: a verdade é que com o tempo, o emergente deixa de ser detergente, passa a ser gente ou seja gordura sebosa que entranha em qualquer tecido, mesmo os melhores.

Postado no Insónia a 30/7/2005

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Textos insones #11

Janela Indiscreta

            Vivo há vinte anos na mesma rua em Lisboa e a estação do renascimento é me sempre anunciada do mesmo modo: o meu vizinho do prédio em frente inicia a sua temporada musical e faz questão de a compartilhar com enorme alegria com todos os habitantes e transeuntes da rua; é verdade, mal começa o bom tempo, ele coloca música numa espécie de sagração da primavera; mas o seu reportório musical não inclui Stravinsky, muito menos Domingos Bomtempo, nada disso, o florescimento das flores e os seus pólenes – que me provoca sempre inflamações, dores de cabeça, otites, espirros e me obriga a tomar drogas para o sistema imunológico se defender do que é excessivamente belo – aqui é anunciado com Demis Russos em altos berros; provavelmente, antes de vir para esta casa já era assim, aquele vizinho já colocava o cantor grego na sua aparelhagem; nem imaginam a alegria que contem o fenómeno, até a patine vinílica dos discos, ou seja aquele som de mastigar batata frita vibra rua fora. Este vizinho é um homem difícil de descrever e classificar, não sei que idade tem, mas de alguns anos para cá, o seu cabelo tornou-se grisalho apesar de usar o mesmo penteado, um rabo-de-cavalo muito longo; antigamente era de tal forma negro que cheguei a pensar que se tratava de uma peruca, mas como o tempo lhe deu aquela patine capilar, deduzo que ou já o pintou e deixou de pintar, ou era assim mesmo naturalmente artificial; ele veste-se sempre de azul-escuro, calças de ganga largas, por vezes à boca-de-sino; no verão gosta de usar socas; é muito alto, forte e tem sempre um peculiar medalhão de ouro ao pescoço – desconfio que se trata de algo esotérico. Quando chega o bom tempo, ele abre todas as janelas da casa, levanta os braços e canta, percorrendo as várias divisões, acompanhando o som da aparelhagem de vinil com uma voz de baixo desalinhada, mas muito potente. Este estranho homem tem família: existe a mãe que parece uma assombração do filho, por vezes aparece enquadrada à janela, a sacudir panos do pó ou a espreitar com ar inquisidor de alma penada que está entre dois mundos, tenho imenso medo dela; existe a mulher, muito magra, morena com o cabelo negro comprido e escorrido, com uns óculos na cara iguais desde a década de 70 e que gosta de se vestir de branco; e ele procriou, tem um filho que é uma mistura dos seus genes com a mulher e só não puxou aos pais no corte de cabelo, agora já é um adolescente; e tem um Ford branco muito velho, com uma enorme colecção de selos de impostos pagos colados no vidro da frente. A sagração da primavera nesta família é também acompanhada por outro ritual ao fim da tarde: a mulher vai para o volante do carro e o homem fica à janela a dar instruções. Cá em baixo, a mulher acelera o motor da máquina e ele à janela ele vai gritando: mais mais mais MAIS MAIS, JÁ CHEGA! Então o motor do carro fica a resmungar, ele desce para a rua, entra no carro com a mulher ao volante e dão uma voltinha aos quarteirões do bairro; o rebento sem semelhanças capilares por vezes acompanha este casal maravilha que é moderno, porque a mulher é que conduz, faz as compras, sai para trabalhar, o homem fica em casa; a anciã ou assombração nunca sai ou pelo menos eu nunca a vi na rua e já vivo aqui há vinte anos, ainda bem porque tenho imenso medo dela. Nunca cumprimentei estes vizinhos, eles também não me cumprimentam, porque será? De qualquer modo, no Inverno sinto a falta do colorido absurdo que dão à rua.

Postado no Insónia a 30/4/2007

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Textos insones #10

Padrões

            Apanho o comboio a correr de madrugada, o transporte romântico, UUUuuuUUU, ainda vou meia a dormir, levo no bolso a segurança do bilhete comprado na véspera, quando ainda estava desperta. Entro, sento-me e quase nem olho a janela, fecho os olhos e deixo-me levar no movimento apenas interrompido por estações anunciadas ao longe: Santarém, pouca-terra pouca-terra, Entroncamento, pouca-terra pouca-terra, Caixarias, pouca-terra e ao mudar de posição, abro os olhos e deparo-me com outros a fixarem-me. Está ali um rapaz a observar-me e volto-me para outro lado. Penso: estive tanto tempo adormecida, anos fechada ao exterior, desleixei-me, maltratei-me e agora que me livrei de 45kg, está ali um puto a galar-me. Abro os olhos e lá está ele à distância a ouvir a sua música, não desvia os olhos, não sei se gosto da situação. A quantas estações ele me observa a dormir? Porquê a mim? Podia entrar numa cena narcísica, os especialista dizem que isso deriva de um forte trauma na fase oral, coisas de desmame. Do pouco que sei, nem a mama tive direito, foi só biberão visto que não houve leite natural para mim. O olhar daquele rapaz está a incomodar-me, ele quer mama. Levanto-me em direcção ao bar, com um café o mundo ficará mais claro. Lembro-me da conversa da minha irmã na véspera, ela vai fazer 40 anos e não quer comemorar. Dizia-me ela que mentalmente não acha que os tem, mas começa a sentir que o corpo não a acompanha, foi operada à vista porque já não conseguia ler os rótulos dos medicamentos na farmácia e mesmo assim ainda vai continuar a usar óculos. Ela tem três filhos, sente dores nas pernas e nas costas ao fim do dia. Sento-me para beber o café e como um quadrado de chocolate. Penso: o que estava a ver aquele rapaz para me fixar com tanta intensidade? Eu vejo-me como uma ferida a sarar, quase uma cicatriz. Como mais um quadradinho e nem acredito, o miúdo também veio para o bar, está ali ao balcão, vem na minha direcção com uma cerveja, senta-se sem pedir licença e em silêncio ao meu lado. Eu olho a garrafa, cerveja logo de manhã, coitado, mais uma vítima de padrões de comportamento. Coitado não, somos todos vítimas de padrões de comportamento. A nós chateiam-nos desde a adolescência para falarmos mais baixo, ouvir com atenção, sentarmo-nos de perna fechada, sermos discretas e gentis senão depois nenhum homem quer casar connosco, temos de ser boas meninas. Eles têm de ser fortes, viris, andar à pancada, passar por rituais onde se torturam animais, beber álcool, engatar gajas, não podem chorar ou ser sensíveis. Eles queixam-se de que nós temos mais atenção e carinho, somos passivas e a afectividade está toda virada para nós, o que é mentira. Nós queixamo-nos de que eles têm mais liberdade e a vida social mais facilitada, o que também é mentira. Ainda bem que certos padrões hoje em dia já estão mais diluídos, mas uma coisa é certa, o sofrimento não desapareceu na espécie humana e deixa mazelas. O rapaz está a mexer no seu leitor de música, reparo que tem umas mãos bonitas, grandes, com os dedos muito compridos. Ele está a desligar aquilo, eu devo ser um vídeo clipe, o melhor é pisgar-me, levanto-me para ir à casa de banho e volto ao meu lugar. Passado um bocado, ele volta, que cerveja rápida, nem deve dar direito a xixi. Desde muito cedo que lhes incutem que as mulheres servem apenas para foder e a nós tentam convencer-nos que existimos apenas para sermos fodidas. Oiço Coimbra, finalmente, retiro a mala e chego ao meu destino. Ao sair penso: és mesmo parva, mulher, vê-se logo que resultas de padrões de comportamento, se fosses gajo não ficavas incomodado, tinhas ali um belo petisco, passarinho frito, dava para chupares a carnoca dos ossinhos das asas.

Postado no insónia a 6/3/2008

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Textos insones #9


Cozinha

            Procura-se homem-a-dias que arrume a cozinha, lave a loiça e caiba no meu avental, que cada dia está mais largo e já não sei o que lhe hei-de fazer. Cozinho com requinte, sirvo calorosamente gelado de noz à sobremesa, agora limpar e arrumar não é comigo, só quando tudo se acumula em excesso e tenho de tomar medidas drásticas. Gosto de compartilhar o estômago e os sonhos. Adoro que me interrompam os sonhos com um café forte e quente. Não gosto de açúcar no café, prefiro um pouco de leite. Sou lenta a acordar, o meu coração também é lento, tenho a tensão sempre muito baixa, mas o aroma matinal do café faz milagres. Os vespertinos fazem-me confusão, mas consigo adaptar-me a eles com alguns limites, sobretudo se só falarem comigo depois de um bom café. Procura-se homem-a-dias porque há dias em que acordo e não gosto de ver ninguém, excepto a Lua que acompanha todas as minhas variações de humor com serenidade e sabe como me há-de acalmar. Nesses dias escrevo, desenho compulsivamente e detesto ser interrompida nos meus sonhos acordados; ou pesadelos. Oiço música que a média das pessoas não aguenta; por vezes oiço música que não se pode partilhar, que habita no meu interior mais sombrio um espaço inatingível; tenho também dias em que sou um barco à deriva no mar e Mahler é das poucas presenças humanas que tolero. Nos dias em que não suporto ver ninguém, viajo no mesmo sítio em pensamentos circulares imparáveis; também tenho dias em que mergulho num deserto de silêncio, encontrando fantasmas nas dunas de areia; nesses dias tenho miragens quando procuro algum oásis ao fim da tarde que me refresque e qualquer ruído me assusta. Procuro um homem que entenda que é a dias porque os dias não são todos iguais para mim; que seja o guardião da minha solidão, como Rilke me fez acreditar que é possível e que também tenha vida própria, força interior, porque só assim o poderei aceitar e fazer feliz; só assim ele me poderá compreender e aguentar. Um bom encontro só é possível entre duas solidões que se respeitam, como dois lagos que repousam um no outro, alimentando-se e mantendo as suas águas calmas. Procura-se homem-a-dias que saiba que em certos dias é melhor deixar-me em paz e sossego. Um lago sozinho seca mais depressa ou quando dois lagos se encontram correm o perigo de transbordarem as suas águas. Procura-se homem-a-dias que reconheça estes sintomas e que em certos dias me obrigue a sair de casa e a viajar nas suas mãos, porque as minhas estão calejadas, por vezes doem e ficam cansadas de criar mundos. Dois lagos quando repousam um no outro, alimentando-se sem agressões e com espaços próprios, mantêm as suas margens alegremente nesse encontro. Procura-se homem-a-dias que por vezes não me deixe cozinhar e me convença com arte e graça a ir jantar fora, a rir e a dançar durante toda a noite.

Texto postado no Insónia a 1/9/2006 e lido a convite dos Margem d'arte no 1º Grandioso Encontro de Pastelaria Marginal Portuguesa a 19/9/2008 no Bar do Manel em Santa Cruz ( Torres Vedras).

domingo, 17 de maio de 2009

Textos insones #8

A casa escreve descrevendo-me

A casa escreve descrevendo-me em cada parede amarelecida pelo tempo em cada camada de memória em cada paixão em cada parede de ilusão. A minha casa foi uma conquista ao tempo, a conquistada no tempo e o tempo consome as suas paredes e vai-me consumindo como Cronos devorou seus próprios filhos. Já dormi em todos os quartos da casa, tudo começou assim, apoderei-me dela e ela a pouco e pouco apoderou-se de mim, com as suas paredes cobertas de rastros, preenchidas com os meus artefactos, o chão de madeira, os frisos geométricos junto ao tecto. A casa é um porto de passagem, um local perdido onde se regressa num tempo passado que vejo ao longe no exterior. Sempre que regresso à casa sinto que chego ao casulo fofo e quente, onde estou bem guardada, nos meus papéis e livros amarelos, onde sou passado a flutuar, numa acumulação de objectos estranhos que me olham e falam. Os objectos palram numa linguagem que nem sempre entendo, estão de volta de mim todos os dias, conhecem-me com a palma da mão, e sabem como gosto de os mudar de sítio quando falam de mais, ou dizem o que não quero ouvir dizer.
Nunca sei onde estão as chaves de casa, antes de sair procuro-as sempre, ou estão na cozinha, ou estão na sala, ou no quarto, ou na marquise. As chaves obrigam-me a percorrer todo o espaço antes de sair. A casa diz: tens de ver onde deixas as coisas, se está tudo bem, não sais daqui enquanto não percorreres todo o meu interior, vê lá se não tens lixo para deitar fora. Vai dar uma volta, mas vê lá como é que vais.
Nunca sei onde estão os óculos, se não os deixo no nariz ou ao lado do computador, repete-se o ritual da ronda à casa, à casa de banho, à cozinha, ao quarto, à sala. Perco-me dentro de casa, fumo cigarros, as paredes amarelecem absorvendo o fumo, sinto-me sufocada por estas paredes. A casa esconde-me as coisas, as canetas, os lápis, os cadernos, os sapatos. A casa apoderou-se de mim há muito tempo, ela diz-me: aqui estás bem, podes dormir podes sonhar podes pensar à vontade, as minhas paredes mostram-te o que fazes, os teus gestos, as tuas cores, as texturas, os amigos, a Lua, as tuas paisagens na parede, os que passaram por cá deixaram rastros também, estão comigo, vivos ou mortos, os que aqui dormiram. Aqui estás tu e perdes-te aqui dentro, por isso se escondem os objectos, é para acordares, saíres de ti, vai dar uma volta, areja a cabeça, vai ver outras coisas fora das minhas paredes.

postado no Insónia a 23/9/2005

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Textos insones #7

Banco de cozinha

Lisboa, 9 de Março de 1996

            Nas ruas desta cidade ora faz sol, ora cai chuva para variar, já perdi 8kg desde Janeiro e ando com mais energia; estou a maior parte do tempo muito concentrada a ler em casa ou a fazer escultura nas Belas. Ontem tive a má ideia de sair à noite, tudo me fazia lembrar o J, arrepiei-me quando passei em frente da montra do Majong, já fiz parte daquela montra, lembrei-me das horas que perdi lá dentro, a ouvi-lo falar sobre si próprio, passivamente, a dar-lhe toda a atenção do mundo. A compreensão talvez seja a melhor forma de nos vingarmos dos outros. Ontem à noite todos os locais públicos no Bairro estavam cheios de potenciais Js, os homens eram muito semelhantes a ele e as mulheres estavam mergulhadas numa estranha passividade, aparentavam estar ali, mas estavam muito longe; à minha volta só via alienados a abanar a cabeça ao som de ruídos estranhos. Acho que é melhor não sair à rua, aqui em casa oiço música como deve de ser e posso ainda visitar algumas casas de amigos com os quais se pode estar à vontade. Ontem saí à rua porque era o aniversário de C, lá fui beber umas cervejas e nisto deparei-me com um amigo do primo de C, que era mais sensível do que é habitual encontrar por aí; divorciado há pouco tempo, com 31 anos e dois filhos, via-se que estava magoado e decepcionado. Nisto ele começou a mandar bocas generalistas às mulheres, do tipo são todas iguais e citava um escritor espanhol que dizia que se devia melhorar as condições de vida de todas as mulheres fazendo cozinhas maiores e fornos mais úteis. Respondi-lhe que os homens têm uma vírgula existencial muito grande e que qualquer banco de cozinha lhes serve. Os homens da mesa começaram a ficar maldispostos e para os incomodar ainda mais expliquei que os bancos de cozinha costumam ter buracos. Ele virou-se para mim e perguntou-me no que é que eu gostaria de ser homem; respondi-lhe que gostaria de ser homem para poder ter relações intimas como se bebesse um copo de água e o dia seguinte ser apenas um novo dia, como se nada tivesse acontecido. Ele terminou com as suas boquinhas generalistas sobre mulheres e delicadamente disse-me que o meu modo de sentir era muito peculiar. Coitado, estava cheio de sono, só espreguiçava a boca e rapidamente mudou de assunto, começou a falar de comida, o que é mau para a minha dieta, para além de eu já ter bebido umas cervejas. Por fim levantou-se e despediu-se dizendo: foi breve, mas intenso, muito prazer.

Texto baseado numa carta escrita em 1996 e que nunca cheguei a enviar, encontrei-a por acasodentro de um livro, foi  postado no Insónia a 12/10/2006