O que procuro em ti, eco ou planície, que não me respondes? Porque devolves apenas a minha voz?
terça-feira, 16 de março de 2010
Textos insones #27
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
Textos insones #26
Telhado
Quando tinha vinte anos apaixonei-me por um rapaz daqueles que se acha piada aos vinte, mas numa festa em minha casa ele fez-me o favor de preferir uma amiga minha; no dia seguinte, ela disse-me que tudo aconteceu porque ambos eram mesmo assim e ninguém pertence a ninguém. Eu compreendi e limitei-me a observar o desenrolar dos factos sem julgamentos precoces. Ao fim da tarde, o rapaz dos vinte convidou-nos às duas para irmos a casa de um amigo gay que nos queria apresentar. Isso de chamar gay a alguém é sempre um assunto delicado e eu acho que quem tem telhados de vidro não deve andar à pedrada. Por estranho que pareça, a minha amiga entusiasmou-se, trocou o dos vinte pelo “gay” com o qual casou, teve um filho e divorciou – com violência doméstica à mistura. Passado sete anos, dei por mim a curtir com a paixão dos vinte numa noite de copos e quando ambos íamos a sair do Bairro Alto, cruzámo-nos com um amigo meu das Belas que não via há cerca de cinco; ele estava a viver em Nova Iorque e abraçou-me, efusivamente, beijando-me na boca como era usual; infelizmente, o amigo querido das Belas é homossexual, porque é uma estampa de homem; nunca mais o vi, nem lhe agradeci o facto de ele ter sido um anjo. Quanto ao dos vinte, ficou sem palavras perante a minha felicidade naquele reencontro casual, despedimo-nos como se nada tivesse acontecido, já nos voltámos a cruzar muitas vezes e permanecemos sempre em silêncio sobre estes assuntos naturais.
Lembrei-me deste texto postado no Insónia a 16/11/2006, talvez porque acordei com uma dor de costas lixada: ontem andei a carregar os livros de arte de um armário para o outro. No meio disto tudo tive coragem para deitar fora trabalhos e fotocópias antigas para ganhar espaço, fui radical, apesar das dores valeu a pena o esforço, aquela tralha não fazia falta nenhuma. Nada se faz sem consequências e quanto ao resto, o destino prega-nos partidas divertidas.
domingo, 31 de janeiro de 2010
Textos insones #25
Cadeirão individual
quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
Textos insones #24
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
Textos insones #23
Milagres
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
Textos insones #22
Germanwings
postado no Insónia a 27/7/2007
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
Textos insones #21
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
Textos insones #20
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
Textos insones #19
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
Textos insones #18
quinta-feira, 16 de julho de 2009
Textos insones #17
Portugal dos pequenitos clandestino
Farol Ilha de raios oblíquos contínuos sequenciais nas estrelas da noite. O barco azul parte de Faro para a Ilha do Farol durante o dia. Ao longe, o farol anuncia com elegância o seu pequeno reino. O barco azul leva-me a caminho de um mistério, quem sabe se um pequeno paraíso perdido no mar. No Farol Ilha tudo gira em torno do mensageiro luminoso no alto, talvez um mensageiro entre dois mundos. De dia, o farol apenas vigia o mar como um deus; de noite, deus transforma-se num silencioso ritmo visual. O farol centra descentrando assim a ilha em feixes luminosos sequenciados. O farol divide a sua ilha em legal e clandestino, na forma de direita e esquerda, pelo menos seguindo as coordenadas da plataforma onde caminho. Em sentido contrário será esquerda e direita, ou seja, clandestino e legal lado a lado. Mas no fundo na ilha do farol, o clandestino e o legal vivem de mãos dadas. O Farol Ilha é o Portugal dos pequenitos estilo clandestino, na continuidade do Raul Lino, em ponto pequeno, português suave marítimo contemporâneo. O outro Portugal dos pequenitos tem muito manuelino. O legal clandestino, ou seja, o clandestino no seu esplendor, tinha que ser uma ilha no mar ao sul, em honra dos estilos importantes da nossa cultura; e tinha de ser uma ilha onde só se pode ir num pequeno barco azul. A diferença entre o legal e clandestino nesta ilha, revela-se apenas na noite, em forma de pequenos candeeiros, ténues globos luminosos, muito baixos, que na rua acompanham os humanos, pontuando apenas, sem competir com deus lá no alto. As ruas são sempre estreitas, escuras e demasiado estreitas na parte clandestina, a areia aperta-as. E deus é muito mais bonito no clandestino, revela-se no azul-escuro estrelado imenso.
O estilo manuelino impera em Tomar, na Batalha ou nos Jerónimos. O Raul Lino povoou especialmente Sintra e está um pouco por todo o país. Quanto ao contemporâneo clandestino, o mais presente no nosso território, nunca o poderia imaginar deste modo, com esta escala demasiado humana, pequenita mesmo, parece a brincar. O estilo clandestino na Ilha do Farol não é um corte com o passado, é uma continuidade do português suave em pequena dimensão, com deus e tudo, vigiando lá no alto. Mas ali não há igreja, só o farol se eleva nos céus em direcção ao sol. De noite, os traços de luz giram em torno de deus dançando, a lua é enorme na praia e o mar prateado.
Postado no Insónia a 29/8/2005
quarta-feira, 24 de junho de 2009
Textos insones #16
São 8.45m da manhã, chego a horas como gosto quando marcam algum trabalho pago comigo. Digo pago comigo e até parece mentira, mas não é, uma amiga telefonou-me para eu dar respiração e voz a uma personagem num filme de animação; trata-se de um filme de autor (não posso dizer o nome, ainda não estreou), ao telefone ela contou-me que animou a personagem, mas não a criou, deu-lhe gestos a pensar nos meus, interpretou-a assim e por isso só eu poderei ser o seu som; a personagem é uma mulher obesa, neurótica, está sozinha a deambular na casa, fuma cigarros, tenta telefonar para um gajo, mas ele desliga-lhe o telefone na cara; o gajo também é obeso e têm um cão obeso, coisa politicamente correcta na realidade. Bom, aquilo é ficção, a personagem zanga-se com o telefone, toma comprimidos e atira-se pela janela, enquanto o gajo assiste a todo o drama num café
Postado no Insónia a 23/6/2007, véspera do meu 38º aniversário, lembrei-me dele porque hoje faço 40 anos.
segunda-feira, 8 de junho de 2009
Textos insones #15
Limpar o pó
Contrataram-me para um evento especial num museu – isto de viver de biscates tem que se lhe diga, pelo menos vai variando; e lá fui trajada a rigor – brincos antigos de esmalte e ouro (prenda da família), saia de bom tecido, sapatos clássicos, encharpe de seda . Deparei-me então com um director que nada tinha a ver com o meu contrato e vi logo que ele era do tipo que não gosta de mulheres – já os topo pelo cheiro à distância. O dito cujo não gostou do meu saco de tecido indiano – onde transportava o cofre do dinheiro para os pagamentos, entre outras responsabilidades do evento; e não sei porquê, ele decidiu mandar-me limpar o pó das cadeiras onde as pessoas se iam sentar, entregando-me um pano com ar de nojo; calmamente, eu limpei o pó com uma classe que ele desconhece e logo a seguir levou comigo: chegaram as funcionárias do museu que me tiraram o pano das mãos, dizendo que eu não tinha que fazer aquilo. E ele que estava de braços cruzados a arrotar postas de pescada sobre a melhor disposição do material teve de me aturar a colocar ordem nos assuntos em termos práticos e sempre ao contrário das suas ordens, perante a satisfação das funcionárias. Durante o evento fui apresentada oficialmente à criatura, afirmando logo que já nos conhecíamos e ainda aproveitei para o fazer estremecer, publicamente, mais um pouco e com subtileza, porque eu limpo o pó como bebo chá ou descasco cenouras, é tudo igual.
Postado no Insónia a 27/9/2007
quarta-feira, 3 de junho de 2009
Textos Insones #14
Ruínas
Os quintais da vizinhança, entre os quais está um pequeno pedaço que aparentemente me pertence, vivem o abandono total; a velha do rés-do-chão morreu e aquilo agora é uma verdadeira selva, a trepadeira invade-me a janela do atelier, por vezes tenho de cortá-la para não tapar a luz, para não interferir na luz necessária para pintar; há muito que prometi construir um jardim naquele pedaço, não o fiz, sei agora que nada me pertence e estou de passagem, mesmo quando circulo no mesmo sítio. Cada dia sinto mais que estou de partida, o que me prende é nada e a ideia de construir um jardim não passa de uma boa ideia. Estou triste, nem escrevo, resta-me alguma energia para pintar, procuro outros mundos onde possa habitar, porque o que se passa em meu redor está a perder o sentido. Não entendo quando comecei a sentir-me assim, talvez desde que a pintura me invadiu, ela está a interferir
Postado no Insónia a 25/9/2008, lembrei-me desta coisa deprimente porque o quintal vai ser limpo a partir de sexta-feira, finalmente, aquela selva vai desaparecer, não sei se consigo criar um jardim por lá, a ver vamos.
domingo, 31 de maio de 2009
Textos insones #12
Emergente
Emergente é um artista surgindo, primeiramente, em eventos colectivos cheios de gente, organizados por gente que já foi emergente, os emergentes seniores, que só organizam os eventos com emergentes, para poder dizer que também trabalham com gente. Os emergentes produzem arte política com novas tecnologias, usando títulos em inglês, porque apesar da emergência ser portuguesa, existe sempre a estratégia da internacionalização, uma emergência com carácter universal. Os emergentes produzem multimerdas, com o objectivo de serem sempre coerentes, não se vá dar o caso de deixarem de ser emergentes e fazerem-se gente, numa retrospectiva onde sejam julgados absurdos na sua emergência. A emergência é uma estratégia eficaz e coerente, apesar dos emergentes terem sempre um certo espaço para a incoerência, porque o emergente é um artista enquanto novo. Emergente, à superfície, é um novo detergente: lava velhas nódoas, entranhadas, mas não deixa a roupa branca, não, até porque o sujo já está lá há muito mais tempo. Os emergentes só conseguem deixar a roupa branca quando ela tem cor, o que não quer dizer que eliminem o sujo. A cor, segundo um emergente, é um ornamento artificial, decorativo, formal ou poético. Estas últimas quatro categorias, habitualmente, são colocadas no mesmo saco por um emergente, que na sua detergência é um crítico, questionando sempre o que é artístico, no ponto de vista do seu alargamento, com vista a ampliar o campo da arte para si próprio. O emergente aparenta sempre uma ascese conceptual, é um intelectual que lava daí as suas mãos: matéria é coisa porca, coisa anal, o emergente é muito oral. A estética emergente segue o zeithgeit onde impera o horror aos espaços vazios, optando pela instalação, um coerente e eficaz gesto de acumulação no espaço, com vista à criação de ambientes preenchidos totalmente com o ego, através de uma grande estimulação da visão em movimento, acompanhada por interferências sonoras. O detergente emergente simula combater as nódoas, mas no fundo quer tornar-se uma delas: a verdade é que com o tempo, o emergente deixa de ser detergente, passa a ser gente ou seja gordura sebosa que entranha em qualquer tecido, mesmo os melhores.
Postado no Insónia a 30/7/2005
quinta-feira, 28 de maio de 2009
Textos insones #11
Janela Indiscreta
Vivo há vinte anos na mesma rua em Lisboa e a estação do renascimento é me sempre anunciada do mesmo modo: o meu vizinho do prédio em frente inicia a sua temporada musical e faz questão de a compartilhar com enorme alegria com todos os habitantes e transeuntes da rua; é verdade, mal começa o bom tempo, ele coloca música numa espécie de sagração da primavera; mas o seu reportório musical não inclui Stravinsky, muito menos Domingos Bomtempo, nada disso, o florescimento das flores e os seus pólenes – que me provoca sempre inflamações, dores de cabeça, otites, espirros e me obriga a tomar drogas para o sistema imunológico se defender do que é excessivamente belo – aqui é anunciado com Demis Russos em altos berros; provavelmente, antes de vir para esta casa já era assim, aquele vizinho já colocava o cantor grego na sua aparelhagem; nem imaginam a alegria que contem o fenómeno, até a patine vinílica dos discos, ou seja aquele som de mastigar batata frita vibra rua fora. Este vizinho é um homem difícil de descrever e classificar, não sei que idade tem, mas de alguns anos para cá, o seu cabelo tornou-se grisalho apesar de usar o mesmo penteado, um rabo-de-cavalo muito longo; antigamente era de tal forma negro que cheguei a pensar que se tratava de uma peruca, mas como o tempo lhe deu aquela patine capilar, deduzo que ou já o pintou e deixou de pintar, ou era assim mesmo naturalmente artificial; ele veste-se sempre de azul-escuro, calças de ganga largas, por vezes à boca-de-sino; no verão gosta de usar socas; é muito alto, forte e tem sempre um peculiar medalhão de ouro ao pescoço – desconfio que se trata de algo esotérico. Quando chega o bom tempo, ele abre todas as janelas da casa, levanta os braços e canta, percorrendo as várias divisões, acompanhando o som da aparelhagem de vinil com uma voz de baixo desalinhada, mas muito potente. Este estranho homem tem família: existe a mãe que parece uma assombração do filho, por vezes aparece enquadrada à janela, a sacudir panos do pó ou a espreitar com ar inquisidor de alma penada que está entre dois mundos, tenho imenso medo dela; existe a mulher, muito magra, morena com o cabelo negro comprido e escorrido, com uns óculos na cara iguais desde a década de 70 e que gosta de se vestir de branco; e ele procriou, tem um filho que é uma mistura dos seus genes com a mulher e só não puxou aos pais no corte de cabelo, agora já é um adolescente; e tem um Ford branco muito velho, com uma enorme colecção de selos de impostos pagos colados no vidro da frente. A sagração da primavera nesta família é também acompanhada por outro ritual ao fim da tarde: a mulher vai para o volante do carro e o homem fica à janela a dar instruções. Cá em baixo, a mulher acelera o motor da máquina e ele à janela ele vai gritando: mais mais mais MAIS MAIS, JÁ CHEGA! Então o motor do carro fica a resmungar, ele desce para a rua, entra no carro com a mulher ao volante e dão uma voltinha aos quarteirões do bairro; o rebento sem semelhanças capilares por vezes acompanha este casal maravilha que é moderno, porque a mulher é que conduz, faz as compras, sai para trabalhar, o homem fica em casa; a anciã ou assombração nunca sai ou pelo menos eu nunca a vi na rua e já vivo aqui há vinte anos, ainda bem porque tenho imenso medo dela. Nunca cumprimentei estes vizinhos, eles também não me cumprimentam, porque será? De qualquer modo, no Inverno sinto a falta do colorido absurdo que dão à rua.
Postado no Insónia a 30/4/2007
segunda-feira, 25 de maio de 2009
Textos insones #10
Padrões
Apanho o comboio a correr de madrugada, o transporte romântico, UUUuuuUUU, ainda vou meia a dormir, levo no bolso a segurança do bilhete comprado na véspera, quando ainda estava desperta. Entro, sento-me e quase nem olho a janela, fecho os olhos e deixo-me levar no movimento apenas interrompido por estações anunciadas ao longe: Santarém, pouca-terra pouca-terra, Entroncamento, pouca-terra pouca-terra, Caixarias, pouca-terra e ao mudar de posição, abro os olhos e deparo-me com outros a fixarem-me. Está ali um rapaz a observar-me e volto-me para outro lado. Penso: estive tanto tempo adormecida, anos fechada ao exterior, desleixei-me, maltratei-me e agora que me livrei de 45kg, está ali um puto a galar-me. Abro os olhos e lá está ele à distância a ouvir a sua música, não desvia os olhos, não sei se gosto da situação. A quantas estações ele me observa a dormir? Porquê a mim? Podia entrar numa cena narcísica, os especialista dizem que isso deriva de um forte trauma na fase oral, coisas de desmame. Do pouco que sei, nem a mama tive direito, foi só biberão visto que não houve leite natural para mim. O olhar daquele rapaz está a incomodar-me, ele quer mama. Levanto-me em direcção ao bar, com um café o mundo ficará mais claro. Lembro-me da conversa da minha irmã na véspera, ela vai fazer 40 anos e não quer comemorar. Dizia-me ela que mentalmente não acha que os tem, mas começa a sentir que o corpo não a acompanha, foi operada à vista porque já não conseguia ler os rótulos dos medicamentos na farmácia e mesmo assim ainda vai continuar a usar óculos. Ela tem três filhos, sente dores nas pernas e nas costas ao fim do dia. Sento-me para beber o café e como um quadrado de chocolate. Penso: o que estava a ver aquele rapaz para me fixar com tanta intensidade? Eu vejo-me como uma ferida a sarar, quase uma cicatriz. Como mais um quadradinho e nem acredito, o miúdo também veio para o bar, está ali ao balcão, vem na minha direcção com uma cerveja, senta-se sem pedir licença e em silêncio ao meu lado. Eu olho a garrafa, cerveja logo de manhã, coitado, mais uma vítima de padrões de comportamento. Coitado não, somos todos vítimas de padrões de comportamento. A nós chateiam-nos desde a adolescência para falarmos mais baixo, ouvir com atenção, sentarmo-nos de perna fechada, sermos discretas e gentis senão depois nenhum homem quer casar connosco, temos de ser boas meninas. Eles têm de ser fortes, viris, andar à pancada, passar por rituais onde se torturam animais, beber álcool, engatar gajas, não podem chorar ou ser sensíveis. Eles queixam-se de que nós temos mais atenção e carinho, somos passivas e a afectividade está toda virada para nós, o que é mentira. Nós queixamo-nos de que eles têm mais liberdade e a vida social mais facilitada, o que também é mentira. Ainda bem que certos padrões hoje em dia já estão mais diluídos, mas uma coisa é certa, o sofrimento não desapareceu na espécie humana e deixa mazelas. O rapaz está a mexer no seu leitor de música, reparo que tem umas mãos bonitas, grandes, com os dedos muito compridos. Ele está a desligar aquilo, eu devo ser um vídeo clipe, o melhor é pisgar-me, levanto-me para ir à casa de banho e volto ao meu lugar. Passado um bocado, ele volta, que cerveja rápida, nem deve dar direito a xixi. Desde muito cedo que lhes incutem que as mulheres servem apenas para foder e a nós tentam convencer-nos que existimos apenas para sermos fodidas. Oiço Coimbra, finalmente, retiro a mala e chego ao meu destino. Ao sair penso: és mesmo parva, mulher, vê-se logo que resultas de padrões de comportamento, se fosses gajo não ficavas incomodado, tinhas ali um belo petisco, passarinho frito, dava para chupares a carnoca dos ossinhos das asas.
Postado no insónia a 6/3/2008
quinta-feira, 21 de maio de 2009
Textos insones #9
Cozinha
Procura-se homem-a-dias que arrume a cozinha, lave a loiça e caiba no meu avental, que cada dia está mais largo e já não sei o que lhe hei-de fazer. Cozinho com requinte, sirvo calorosamente gelado de noz à sobremesa, agora limpar e arrumar não é comigo, só quando tudo se acumula em excesso e tenho de tomar medidas drásticas. Gosto de compartilhar o estômago e os sonhos. Adoro que me interrompam os sonhos com um café forte e quente. Não gosto de açúcar no café, prefiro um pouco de leite. Sou lenta a acordar, o meu coração também é lento, tenho a tensão sempre muito baixa, mas o aroma matinal do café faz milagres. Os vespertinos fazem-me confusão, mas consigo adaptar-me a eles com alguns limites, sobretudo se só falarem comigo depois de um bom café. Procura-se homem-a-dias porque há dias em que acordo e não gosto de ver ninguém, excepto a Lua que acompanha todas as minhas variações de humor com serenidade e sabe como me há-de acalmar. Nesses dias escrevo, desenho compulsivamente e detesto ser interrompida nos meus sonhos acordados; ou pesadelos. Oiço música que a média das pessoas não aguenta; por vezes oiço música que não se pode partilhar, que habita no meu interior mais sombrio um espaço inatingível; tenho também dias em que sou um barco à deriva no mar e Mahler é das poucas presenças humanas que tolero. Nos dias em que não suporto ver ninguém, viajo no mesmo sítio em pensamentos circulares imparáveis; também tenho dias em que mergulho num deserto de silêncio, encontrando fantasmas nas dunas de areia; nesses dias tenho miragens quando procuro algum oásis ao fim da tarde que me refresque e qualquer ruído me assusta. Procuro um homem que entenda que é a dias porque os dias não são todos iguais para mim; que seja o guardião da minha solidão, como Rilke me fez acreditar que é possível e que também tenha vida própria, força interior, porque só assim o poderei aceitar e fazer feliz; só assim ele me poderá compreender e aguentar. Um bom encontro só é possível entre duas solidões que se respeitam, como dois lagos que repousam um no outro, alimentando-se e mantendo as suas águas calmas. Procura-se homem-a-dias que saiba que em certos dias é melhor deixar-me em paz e sossego. Um lago sozinho seca mais depressa ou quando dois lagos se encontram correm o perigo de transbordarem as suas águas. Procura-se homem-a-dias que reconheça estes sintomas e que em certos dias me obrigue a sair de casa e a viajar nas suas mãos, porque as minhas estão calejadas, por vezes doem e ficam cansadas de criar mundos. Dois lagos quando repousam um no outro, alimentando-se sem agressões e com espaços próprios, mantêm as suas margens alegremente nesse encontro. Procura-se homem-a-dias que por vezes não me deixe cozinhar e me convença com arte e graça a ir jantar fora, a rir e a dançar durante toda a noite.
domingo, 17 de maio de 2009
Textos insones #8
segunda-feira, 11 de maio de 2009
Textos insones #7
Banco de cozinha
Lisboa, 9 de Março de 1996
Nas ruas desta cidade ora faz sol, ora cai chuva para variar, já perdi 8kg desde Janeiro e ando com mais energia; estou a maior parte do tempo muito concentrada a ler em casa ou a fazer escultura nas Belas. Ontem tive a má ideia de sair à noite, tudo me fazia lembrar o J, arrepiei-me quando passei em frente da montra do Majong, já fiz parte daquela montra, lembrei-me das horas que perdi lá dentro, a ouvi-lo falar sobre si próprio, passivamente, a dar-lhe toda a atenção do mundo. A compreensão talvez seja a melhor forma de nos vingarmos dos outros. Ontem à noite todos os locais públicos no Bairro estavam cheios de potenciais Js, os homens eram muito semelhantes a ele e as mulheres estavam mergulhadas numa estranha passividade, aparentavam estar ali, mas estavam muito longe; à minha volta só via alienados a abanar a cabeça ao som de ruídos estranhos. Acho que é melhor não sair à rua, aqui em casa oiço música como deve de ser e posso ainda visitar algumas casas de amigos com os quais se pode estar à vontade. Ontem saí à rua porque era o aniversário de C, lá fui beber umas cervejas e nisto deparei-me com um amigo do primo de C, que era mais sensível do que é habitual encontrar por aí; divorciado há pouco tempo, com 31 anos e dois filhos, via-se que estava magoado e decepcionado. Nisto ele começou a mandar bocas generalistas às mulheres, do tipo são todas iguais e citava um escritor espanhol que dizia que se devia melhorar as condições de vida de todas as mulheres fazendo cozinhas maiores e fornos mais úteis. Respondi-lhe que os homens têm uma vírgula existencial muito grande e que qualquer banco de cozinha lhes serve. Os homens da mesa começaram a ficar maldispostos e para os incomodar ainda mais expliquei que os bancos de cozinha costumam ter buracos. Ele virou-se para mim e perguntou-me no que é que eu gostaria de ser homem; respondi-lhe que gostaria de ser homem para poder ter relações intimas como se bebesse um copo de água e o dia seguinte ser apenas um novo dia, como se nada tivesse acontecido. Ele terminou com as suas boquinhas generalistas sobre mulheres e delicadamente disse-me que o meu modo de sentir era muito peculiar. Coitado, estava cheio de sono, só espreguiçava a boca e rapidamente mudou de assunto, começou a falar de comida, o que é mau para a minha dieta, para além de eu já ter bebido umas cervejas. Por fim levantou-se e despediu-se dizendo: foi breve, mas intenso, muito prazer.
Texto baseado numa carta escrita em 1996 e que nunca cheguei a enviar, encontrei-a por acasodentro de um livro, foi postado no Insónia a 12/10/2006