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quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Do uso dos crucifixos

Um crucifixo de bronze também pode ser usado para parir a cabeça a alguém, mas não é uma boa razão para se proibir o fabrico de crucifixos.

Claudio Magris, pág. 135 de "A história não acabou"

quinta-feira, 27 de março de 2014

Violências

O que o amor tem de mais doce são as suas violências;

o seu abismo insondável é a sua forma mais bela;

perder-se nele é atingir o fim.

Hedviges de Antuérpia (1180-1260)

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Valores construídos e sedimentados no culto de uma imagem de um homem despido

O provedor do leitor do DN, Óscar Mascarenhas, escreveu ontem sobre a queixa que uma foto da guerra civil na Síria provocou:
Queixa-se a leitora de que a fotografia é "chocante". O facto de uma imagem ser "chocante" não deve impedir a sua publicação. Não é a primeira vez que aqui digo que vivemos, nesta sociedade ocidental, numa civilização cujos valores foram construídos e sedimentados no culto de uma imagem de um homem despido, torturado e morto numa cruz. Essa imagem tem lugar de relevo em muitos lares e templos, aparece a balançar nos espelhos retrovisores de inúmeras viaturas, enfim, é omnipresente - e ninguém a manda retirar por ser "chocante".
Ler tudo aqui.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Violência e solidariedade

Os verdadeiros violentos são os que, tendo os meios para socorrer aqueles a quem tudo falta e para lhes permitir tornar-se homens, não o fazem.

Abbé Pierre

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Três maneiras de olhar para a mesma tragédia de Denver



Acontecimentos como o de Denver, em que um homem disparou contra a assistência de um filme do Batman matando 12 pessoas e ferindo mais de 50, fazem pensar no mal e mesmo no diabólico. Uma breve pesquisa no Google mostra que há imensas associações entre este crime e o diabo/diabólico. O meu receio é que, quando se pensa do diabólico, a responsabilidade humana fique diluída numa pretensa força ou influência ou o que quer que seja de sobrenatural. 

Para as leis civis, felizmente, falar do diabo será mais um motivo para atestar a insanidade mental do presumível criminoso do que para atenuar a sua responsabilidade.

Mas pode ser que falar de diabólico não nos distraia do que está em causa. Se se falar do diabo e do diabólico como símbolo de um mal quase inimaginável, mas sempre humano, se se falar do diabo e do diabólico como símbolos para nos alertar para a necessidade de estar sempre atento ao mal, que, por si, pode ser atrativo, até se compreende o uso desta linguagem. É nesta linha que interpreto as recentes palavras de Bento XVI, proferidas depois de ter falado do massacre de Denver:
“O maligno procura sempre arruinar a obra de Deus, semeando divisão no coração humano, entre corpo e alma, entre o homem e Deus, nas relações interpessoais, sociais, internacionais, e também entre o homem e a criação” (li aqui).
O Bispo de Denver, por seu turno, em entrevista à agência Zenit, falou de uma “batalha espiritual e moral entre o bem e o mal”:
“O tiroteio que aconteceu na sexta-feira foi um ato maléfico - um ato de verdadeira violência. Nossa comunidade está chocada e triste pelo acontecido. Como comunidade, levanta questões sobre o bem e o mal, e a batalha espiritual e moral entre o bem e o mal. Mesmo em meio ao caos e ao mal daquela manhã, existem histórias de heróis que no meio do tiroteio tentaram proteger os amigos e entes queridos jogando-se em cima deles. Pela graça de Deus, o povo de Aurora e do Colorado tem respondido com grande amor, com caridade e misericórdia para com os feridos e as famílias que perderam seus entes queridos. Existe um sentido de unidade em nosso estado, e isso é realmente uma graça” (li aqui).
Estas duas visões do crime adiantam algo para a sua explicação e, ainda que a questão não esteja subjacente às afirmações, para a prevenção quanto a ações similares no futuro?

Na minha ótica, muito pouco. A moralidade das ações individuais tem sempre um último reduto que é a consciência de cada um. Mas as respostas do diabo e do diabólico, do maligno e da luta entre bem e mal, geralmente iludem a sociedade em que vivemos. É por isso que, mesmo supondo que não concordo totalmente com a ideologia do seguinte autor, considero que, de um ponto de vista cristão, as suas palavras são mais úteis para perceber o que se passou em Denver e ter um princípio de mudança.

Não digo que a explicação espiritual seja contraditória com a explicação sociológica. Digo que prefiro pensar a partir do concreto e que a explicação espiritual pode constituir uma ilusão que não deixa ver o que está em causa, se formos ingénuos.

O texto é de Atilio Boron e saiu no jornal Página/12, no dia 24 de julho. Li aqui.
O massacre que aconteceu num teatro de um subúrbio de Denver desencadeou, como tantas vezes após a ocorrência de atrocidades semelhantes, o previsível coro de lamentos que por sua vez se perguntava por que aparecem regularmente nos Estados Unidos monstros capazes de cometer crimes como os do tétrico êmulo do Joker.
 
De fato, uma análise que ponha de lado a habitual complacência com as coisas do império não poderia deixar de notar uma causa de fundo: como expressão última da sociedade burguesa, os EUA são também o lugar onde a alienação dos indivíduos atinge níveis sem paralelo em escala universal. Não deveria surpreender ninguém que comportamentos como o do jovem James E. Holmes - quantos assassinatos indiscriminados ocorreram nos últimos anos? - aflorem periodicamente para espalhar a dor na população norte-americana. 
 Uma sociedade alienada e alienante, que gera milhões de toxicodependentes (sem que exista qualquer programa do governo federal para prevenir e lutar contra o vício), milhões de "vigilantes" dispostos a impor a lei e a ordem por conta própria perseguindo pessoas pela cor da sua pele ou traços faciais; e outros milhões que, assim como Holmes, podem comprar em qualquer loja de armas uma espingarda de assalto, pistolas, revólveres, granadas, bombas de fumo e todos os apetrechos da parafernália militarista e, além disso, obter licenças para usar legalmente todo esse mortífero arsenal. 
 A recorrência deste tipo de massacres evoca um problema estrutural, o que é cuidadosamente evitado nas explicações convencionais que, invariavelmente, falam de um ser perdido, de um louco, mas nunca questionam as causas estruturais que nessa sociedade produzem loucos em série. Uma sociedade que se apresenta com características paradisíacas, como a terra prometida, como o país onde qualquer pessoa pode ter sucesso e ganhar dinheiro em abundância, poder e prestígio, com tudo o que esses atributos trazem como benefícios colaterais e que, na verdade, são metas apenas acessíveis, na melhor das hipóteses, a 5% da população. Os restantes, submetidos a um bombardeio de publicidade incessante e constante, mastiga a sua impotência e frustração. Ocasionalmente, alguns pensam que a solução é sair e matar pessoas a sangue frio e de forma indiscriminada; outros, mais inofensivos, decidem matar-se lentamente com drogas. 
 Mas, se a alienação generalizada da sociedade americana é a causa de fundo, outros fatores contribuem para produzir comportamentos aberrantes como o de Holmes. Primeiro, o grande negócio da venda de armas, protegido sob o pretexto de ser um direito garantido pela Constituição, e que na verdade é o complemento necessário para legitimar, em termos de sociedade civil, o "complexo industrial militar" que domina a vida econômica e política dos Estados Unidos, desde há pouco mais de meio século. Aqueles que fabricam armas devem vendê-las, seja ao governo dos EUA (e, portanto, devem fabricar guerra por todo o mundo, ou montar cenários tendentes a elas), quer para os indivíduos ameaçados pelo espectro da insegurança omnipresente. Vários analistas dizem que apenas nas regiões fronteiriças entre o México e os Estados Unidos existem 17.000 lojas de armas onde se pode comprar uma espingarda de assalto AK47 com a mesma facilidade com que se compra um hambúrguer, o que, além de ser uma grotesca aberração, traduz a coerência da política de governo que cobre tal absurdo.
 
Em segundo lugar, a indústria do entretenimento (Hollywood) permanentemente excita a imaginação de dezenas de milhões de americanos com um fluxo incessante de séries, vídeos e filmes onde a violência mais cruel, atroz e horrenda é exposta com rigor perverso. Antes também havia algo disto, mas agora sua proporção tem crescido exponencialmente e, em determinados dias e horas é quase impossível de se ver na televisão outra coisa que não seja a glorificação subliminar do sadismo em todos as formas que só uma imaginação muito doentia pode conceber. 
 A censura que existe - ora sutilmente, ora de forma completamente descarada - para dificultar ou impedir que se conheça o trabalho de cineastas ou documentaristas críticos do sistema ou que falem bem de países como Cuba, Venezuela - Michael Moore ou Oliver Stone, por exemplo - não existe na hora de preservar a saúde mental da população exposta ao vômito de atrocidades e crueldades produzidas por Hollywood. Por algo será. E esse "algo" é que tanto a venda descontrolada de armas de todos os tipos como a violência induzida de Hollywood são totalmente funcionais para o projeto de dominação da burguesia norte-americana.
 
Noam Chomsky tem mostrado ao longo de décadas como esta tem aperfeiçoado os mecanismos que lhe permitem dominar com terror, sabendo que do medo – o sentimento mais incontrolável dos homens – brota a submissão aos poderosos. Uma burguesia que incute o medo entre a população, fazendo com que todos saibam que ninguém está a salvo e que para proteger as suas vidas pobres e indefesas deve renunciar a mais e mais direitos, dando ao governo a capacidade de vigiar todas as áreas públicas, monitorizar os seus movimentos, interferir nas suas chamadas telefônicas, interceptar e-mails, controlar as suas finanças, saber o que compram, em que gastam o seu dinheiro, o que leem, com quem se reúnem e de falam quando o fazem. Um inimigo externo - agora o "terrorismo internacional", antes o "comunismo" - apresentado como onipotente e de uma crueldade sem limites é complementado internamente com a ameaça encarnada nos milhares de assassinos que se misturam com o resto da população, como Holmes, para cuja neutralização é necessário dar à polícia, ao FBI, à CIA e ao Departamento de Segurança Interna todos os poderes necessários.

O que Thomas Hobbes colocava em 1651 no seu Leviatã como uma metáfora heurística, impossível de encontrar na realidade, pelo seu extremismo: a transferência para os indivíduos faziam de quase todos os seus direitos para o soberano em troca de preservar a vida, acabou por se converter numa trágica realidade nos Estados Unidos de hoje.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

"Jésus de Tahrir"


Foi a capa do “Libé” de 22 de Novembro. No sábado, Gérard Lefort escreveu que a fotografia lembra uma cena bíblica muito presente no Ocidente europeu desde que a “Igreja católica autorizou e depois encorajou a representação de temas bíblicos”. “O que se vê, pois, no transportado da Praça Tahrir é «simplesmente» Jesus de Nazaré depois da sua descida da cruz”.

O crítico de cinema do jornal francês fala ainda da carga erótica da imagem, da beleza “planante” deste “Jésus de Tahrir”. Ler aqui.

Agradeço a H. V. que me alertou para capa do jornal e o pequeno ensaio e informou que "o rapaz da foto sobreviveu". 

Em cima, uma "Descida da Cruz" de pintores de Antuérpia, do séc. XVI. Pertence à Casa de Bragança. Em baixo, uma "Pietá" de Paula Rego.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Padre, profissão de risco

No "Jornal de Notícias" de hoje: Padre, profissão de risco. Post seguinte (daqui a pouco): freira, profissão de vanguarda.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

27 de Junho de 1350. Nasce Manuel II Paleólogo, antepenúltimo imperador de Bizâncio


Manuel II Paleólogo nasceu no dia 27 de Junho de 1350 e morreu no dia 21 de Julho de 1425. Foi o antepenúltimo imperador do Império Romano do Oriente. Depois da sua morte, subiu ao trono João VII Paleólogo (1392-1448), o filho mais velho, que já era co-imperador desde os 20 anos de idade. O último imperador foi Constantino XI Paleólogo, que governou de 1449 a 1453, quando o sultão Maomé II conquistou Constantinopla.

Nos tempos recentes, Manuel II Paleólogo tornou-se mais conhecido por ter sido nomeado no discurso de Bento XVI na Universidade de Ratisbona (ou Regensburg), no dia 12 de Setembro de 2006. O discurso incendiou a “rua árabe” por causa desta frase proferida pelo imperador bizantino numa altercação com um “persa erudito”:
“Mostra-me também o que trouxe de novo Maomé, e encontrarás apenas coisas más e desumanas tais como a sua norma de propagar, através da espada, a fé que pregava”.
Para que a frase dita por Manuel II de um modo “tão brusco que para nós é inaceitável”, segundo expressão do Papa, não seja tomada isoladamente, leia-se o discurso tudo aqui.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Anselmo Borges: Declaração universal dos deveres humanos

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje:

Ainda no início do novo ano, fica aí uma síntese da célebre "Declaração universal dos deveres humanos". Para superar a crise e para que a esperança não seja mera ilusão, "wishfull thinking", precisamos todos de ser fiéis às nossas responsabilidades e cumprir os nossos deveres.
Já na discussão do Parlamento revolucionário de Paris sobre os direitos humanos, em 1789, se tinha visto que "direitos e deveres têm de estar vinculados", pois "a tendência para fixar-se nos direitos e esquecer os deveres" tem "consequências devastadoras".
Foi assim que, em 1997 e após debates durante dez anos, o Interaction Council (Conselho Interacção) de antigos chefes de Estado e de Governo, como Maria de Lourdes Pintasilgo, V. Giscard d'Estaing, Kenneth Kaunda, Felipe González, Mikhail Gorbachev, Shimon Peres, fundado em 1983 pelo primeiro-ministro japonês Takeo Fukuda, sob a presidência do antigo chanceler alemão Helmut Schmidt, propôs a Declaração Universal dos Deveres Humanos. Na sua redacção, teve lugar destacado o teólogo Hans Küng.

Helmut Schmidt

O Preâmbulo sublinha que: o reconhecimento da dignidade e dos direitos iguais e inalienáveis de todos implica obrigações e deveres; a insistência exclusiva nos direitos pode acarretar conflitos, divisões e litígios intermináveis, e o desrespeito pelos deveres humanos pode levar à ilegalidade e ao caos; os problemas globais exigem soluções globais, que só podem ser alcançadas mediante ideias, valores e normas respeitados por todas as culturas e sociedades; todos têm o dever de promover uma ordem social melhor, tanto no seu país como globalmente, mas este objectivo não pode ser alcançado apenas com leis, prescrições e convenções. Nestes termos, a Assembleia Geral proclama esta Declaração, a que está subjacente "a plena aceitação da dignidade de todas as pessoas, a sua liberdade e igualdade inalienáveis, e a solidariedade de todos", seguindo-se os seus 19 artigos, de que se apresenta uma síntese.
1. Princípios fundamentais para a humanidade. Cada um/a e todos têm o dever de tratar todas as pessoas de modo humano, lutar pela dignidade e auto-estima de todos os outros, promover o bem e evitar o mal em todas as ocasiões, assumir os deveres para com cada um/a e todos, para com as famílias e comunidades, raças, nações e religiões, num espírito de solidariedade: não faças aos outros o que não queres que te façam a ti.
2. Não violência e respeito pela vida. Todos têm o dever de respeitar a vida. Todo o cidadão e toda a autoridade pública têm o dever de agir de forma pacífica e não violenta. Todas as pessoas têm o dever de proteger o ar, a água e o solo da terra para bem dos habitantes actuais e das gerações futuras.
3. Justiça e solidariedade. Todos têm o dever de comportar-se com integridade, honestidade e equidade. Dispondo dos meios necessários, todos têm o dever de fazer esforços sérios para vencer a pobreza, a subnutrição, a ignorância e a desigualdade, e prestar apoio aos necessitados, aos desfavorecidos, aos deficientes e às vítimas de discriminação. Todos os bens e riquezas devem ser usados de modo responsável, de acordo com a justiça e para o progresso da raça humana.
4. Verdade e tolerância. Todos têm o dever de falar e agir com verdade. Os códigos profissionais e outros códigos de ética devem reflectir a prioridade de padrões gerais como a verdade e a justiça. A liberdade dos media acarreta o dever especial de uma informação precisa e verdadeira. Os representantes das religiões têm o dever especial de evitar manifestações de preconceito e actos de discriminação contra as pessoas de outras crenças.
5. Respeito mútuo e companheirismo. Todos os homens e todas mulheres têm o dever de demonstrar respeito uns para com os outros e compreensão no seu relacionamento. Em todas as suas variedades culturais e religiosas, o casamento requer amor, lealdade e perdão e deve procurar garantir segurança e apoio mútuo. O planeamento familiar é um dever de todos os casais. O relacionamento entre os pais e os filhos deve reflectir o amor mútuo, o respeito, a consideração e o cuidado.

domingo, 30 de janeiro de 2011

30 de Janeiro de 1948. Mahatma Gandhi é assassinado


Mahatma ("a Grande Alma") Gandhi foi assassinado no dia 30 de Janeiro de 1948, em Nova Deli, por um hindu radical. O corpo do líder indiano pacifista foi cremado. As cinzas foram atiradas ao rio Ganges.


Dizia que admirava as "Bem-aventuranças", mas criticava que os cristãos não as cumpriam (quem hoje foi à missa católica ouvir o trecho das "Bem-aventuranças", na versão de Mateus).

domingo, 9 de janeiro de 2011

Bento Domingues: Novo ano no horizonte do Vaticano II

Bento Domingues no "Público" de 9 de Janeiro de 2011: "A marca do Vaticano II não é feita só pelas viragens que fez, mas pelas viragens a fazer para não voltar atrás. O “aggiornamento” é algo que tem de ser continuamente empreendido à luz dos sinais dos tempos em mudança. Esta perspectiva só foi possível porque a Igreja abandonou a ideia de ser o centro de tudo. Foi-se descentrando para Jesus Cristo, para as outras igrejas cristãs, para as outras religiões não cristãs e para o mundo, mas sua riquezas, alegrias e esperanças".

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Teologia do insulto?

Breve reflexão de José Maria Castillo sobre uma impossível teologia do insulto. Vale a pena ser lida por todos os que, uma ou outra vez, já se viram no meio de discussões de pretexto religioso ou teológico.

Quem nunca sentiu a “rabies theologica”, como diziam os medievais, isto é, a “destemperança” em que por vezes incorrem os que falam de “coisas santas e sagradas”. Mas não se pode fazer teologia com desqualificações pessoais, expressões humilhantes e insultos…

Desde que, hace poco más de un año, empecé a publicar este blog, yo me pregunto si es posible hacer teología utilizando el insulto, la agresión, la ofensa y la descalificación como argumento. De ahí, la pregunta que me planteo tantas veces: ¿es posible hacer teología mediante ofensas, insultos y agresiones todo el que no piensa como yo? Por desgracia, en el mundo mediático de la religión, es frecuente que quien lee algo que contraríe sus propias ideas o intereses responde enseguida, no ya dando argumentos, para defender sus propias convicciones, sino propinando expresiones humillantes al que se atreve a decir lo que a mí no me gusta o afirma lo que yo pienso que es falso. De ahí, mi pregunta, que repito de nuevo: ¿se puede hacer teología utilizando como argumento la agresión al contrario?

Ler o resto aqui.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Tranquilizantes na comida para não incomodarem

Na Alemanha, um relatório revela que, entre 1950 e 1975, cerca de 50 mil crianças terão sofrido abusos nos orfanatos do Estado e da Igreja. Surras. Humilhações. Longos isolamentos em quartos sem janelas. Ministravam-lhes tranquilizantes misturados na comida para que não incomodassem.

Pelo meio (o artigo surgiu no "El País" e foi traduzido aqui), ficamos a saber que em 2009 sete dioceses dos EUA faliram para escapar às indemnizações: Portland (Oregon), San Diego (Califórnia), Tucson (Arizona), Spokane (Washington), Davenport (Iowa), Fairbanks (Alaska) e Wilmington (Delaware). E a de Los Angeles gastou 660 milhões de dólares em acordos extrajudiciais.

sábado, 9 de outubro de 2010

Anselmo Borges: Religiões e liberdade


Kurt Westergaard, autor das caricatura de Maomé

Realizou-se no sábado passado, na Biblioteca Municipal, o X Simpósio de Santa Maria da Feira. O tema foi Identidade, Liberdade e Violência, tratado por duas figuras mundialmente conhecidas pela sua luta pela liberdade: a iraniana Shirin Ebadi, Prémio Nobel da Paz em 2003, e o dinamarquês Kurt Westergaard, célebre por causa do cartoon com Maomé com uma bomba no turbante. Era notória a segurança policial por todo o lado.

A primeira a falar foi Shirin Ebadi. E disse que, sem a liberdade de expressão, de que faz parte a liberdade religiosa, a democracia não existe. O problema das teocracias é que os cidadãos e concretamente as minorias não podem exprimir-se. Ora, as pessoas devem poder exprimir-se sem medo. O direito à liberdade religiosa implica também a possibilidade de converter-se a outra religião, e isto é particularmente importante em países islâmicos como o Irão e a Arábia Saudita, onde a conversão é castigada de modo muito pesado.

Deve haver barreiras para a liberdade de expressão? Não é aceitável a propaganda a favor da guerra, da violência, da discriminação. Mas não se pode considerar que o cartoon com a bomba no turbante seja contra os direitos humanos. "Claro que eu não aceito a reacção dos fundamentalistas".

A censura não é admissível. Aqui, Shirin Ebadi citou o seu país, onde a censura é cada vez mais rígida e se pode estender à tradução de obras famosas estrangeiras. E denunciou o Ocidente, que colabora com a censura, por exemplo, vendendo tecnologia com essa finalidade.

Afinal, "somos todos passageiros no mesmo barco". A liberdade é para todos. Os outros participam no mesmo destino. A árvore do conhecimento deveria dar mais frutos. Devemos irar-nos contra os preconceitos.
Antes de dar a palavra ao cartoonista, Carlos Magno lembrou o recente atentado na sua casa e que houve protestos, porque Merkel o recebeu. Até se quis censurar o Papa por causa do discurso de Ratisbona. Mas a liberdade de expressão não pode estar em causa em lado nenhum.

E Kurt Westergaard falou. A sua herança é cristã, mas confessou-se ateu, respeitador de todas as religiões. Agradeceu ao seu país a segurança policial permanente. Com 75 anos, já passou pelo fascismo, pelo nazismo, o comunismo, agora, o islamismo. Qual é o problema dos "ismos"? Rejeitam a dúvida, esse sentimento humano provocador e que obriga a procurar. Nas religiões, o perigo é a subordinação cega das pessoas às autoridades religiosas.

Muitos islâmicos vieram para o Ocidente com bombas ideológicas ou religiosas. Quis mostrar que o islão está ligado à violência: "A prova é que quiseram matar-me." Não podemos ceder na defesa dos nossos valores de liberdade. Há valores fundamentais, entre os quais a liberdade religiosa, que estão acima dos dogmas religiosos.

Para a sociedade dinamarquesa foi um choque ver a sua bandeira a arder e demonstrações que custaram vidas. O problema é que se trata de regimes que não são capazes de alimentar as pessoas: então, da frustração à agressão é um passo.

Mais tarde ou mais cedo, o choque ou a fricção entre as duas culturas, cristã e islâmica, dar-se-ia. O cartoon foi o detonador. Como vão o cristianismo e o islão conviver? O cristianismo manda dar a outra face e dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Mas o islão é uma religião que sacraliza a guerra e não faz a separação da religião e da política. De qualquer forma, é pelo diálogo que temos de encontrar a solução. O debate sobre o lugar das religiões nas sociedades seculares é essencial.

As palavras destas duas figuras são tanto mais significativas quanto são proferidas por quem enfrenta o risco da própria morte. Tanto é o valor da liberdade! Lá dizia Hegel que o escravo o é, porque antepõe a vida física à liberdade.

É fraca uma religião incapaz de submeter-se à crítica. Religião e liberdade têm um vínculo indissolúvel. Referindo-se ao cristianismo, São Paulo escreveu: "Foi para a liberdade que Cristo nos libertou".

Texto de Anselmo Borges no DN de 09 de Outubro de 2010.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

A mais incómoda e banalizada das palavras

Deus é a mais incómoda de todas as palavras humanas. Nenhuma foi tão banalizada, tão mutilada. Gerações de homens rasgaram esta palavra com os seus partidarismos religiosos; por ela mataram e foram mortos; ela traz as marcas dos dedos e do sangue de todos. Os homens desenham caricaturas e escrevem em baixo: “Deus”. Assassinam-se uns aos outros e exclamam: “Em nome de Deus”.

Martin Buber (1878-1965)

domingo, 12 de setembro de 2010

Bento Domingues: Despolitizar as religiões

O texto deste domingo (12-09-2010) é principalmente sobre religiões, política e violência. No centro, a tese de que as religiões são violentas quando se politizam. Mas começa por outro assunto: As celebrações religiosas sem emoção são uma seca, mas uma religião dominada, apenas, por fluxos emocionais cai na cegueira fundamentalista. A fórmula “fé e razão” – fé viva e razão inteligente – é uma proposta saudável de mútuo estímulo e de vigilância recíproca.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

29 de Julho de 1099. Morre o Papa da primeira cruzada

Urbano II a caminho e no Concílio de Clermont-Ferrand

Urbano II (de nome Otão de Chantillon, 1042–1099) era monge cartuxo e foi papa de 1088 a 1099, defendendo a reforma gregoriana.

Convocou os cristãos para uma guerra contra os infiéis no Concílio de Clermont-Ferrand, em 1095. No início, o pretexto era responder ao pedido de auxílio do imperador bizantino Aleixo I contra os turcos. O Papa esperava que tal ajuda acabasse por restabelecer a unidade entre Oriente e Ocidente, quebrada no cisma de 1054.

Urbano II morreu antes de saber que os primeiros cruzados tinham conquistado Jerusalém, no dia 15 de Julho de 1099, massacrando os judeus, muçulmanos e cristãos que viviam mais ou menos em harmonia no interior das muralhas da “cidade santa”.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Gravura sobre o massacre de há 504 anos

Gravura reproduzida no blogue Rua da Judiaria, a partir de uma cópia cedida pelo Hebrew Union College. O original encontra-se na Houghton Library, na Universidade de Harvard. Imagem e texto copiados daqui.

“Von dem Christeliche / Streyt, kürtzlich geschehe / jm. M.CCCCC.vj Jar zu Lissbona / ein haubt stat in Portigal zwischen en christen und newen chri / sten oder juden, von wegen des gecreutzigisten [sic] got.” (“Da Contenda Cristã, que Recentemente Teve Lugar em Lisboa, Capital de Portugal, Entre Cristãos e Cristãos-Novos ou Judeus, Por Causa do Deus Crucificado”)

Panfleto anónimo, com apenas seis folhas, impresso na Alemanha (presumivelmente poucos meses depois do massacre de Lisboa). O “progrom” de 1506 contra os judeus de Lisboa é descrito em detalhe e as matanças contadas ao pormenor por uma testemunha ocular. A gravura do frontispício mostra os corpos mutilados e envoltos em chamas de dois judeus portugueses, dois irmãos, os primeiros a morrer num massacre que vitimou mais de 4 mil pessoas.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...