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quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Duas frases de Pascal para abrir

Há dias, uma frase de Pascal. Inesperada, pelo menos para mim:
"O tempo cura as dores e as querelas, pois mudamos: já não somos a mesma pessoa. Ele já não ama esta pessoa que amava há dez anos. É isso: ela já não é a mesma, e ele também não. Ele era jovem, ela também; ela agora é totalmente diferente. Talvez ele ainda a amasse se ela fosse como era."
(Daqui.)

Outra hoje, embora me pareça mais pascalina:
O último ato é violento, não importante quão refinado é o resto da peça. Atiram-nos terra para cima da cabeça, e ele acabou para sempre.

domingo, 9 de março de 2014

Anselmo Borges: "Francisco sobre temas em discussão"

Texto de Anselmo Borges no DN de ontem (aqui):


Já sabíamos, mas agora é o próprio Francisco, entrevistado peloCorriere della Sera, a dizê-lo: "Gosto de estar com as pessoas, com os que sofrem. O Papa é um homem que ri, chora, dorme tranquilo e tem amigos como toda a gente. É uma pessoa normal." Por isso, não gosta que façam dele um mito, e cita Freud: "Em toda a idealização há uma agressão.

"Não decide sem ouvir o conselho de muitos, e ouve mesmo, não finge. Mas, claro, "quando se trata de decidir, de assinar, fica só com o seu sentido de responsabilidade". Na entrevista, enfrenta os temas mais delicados. Com uma liberdade e clareza desarmantes. Assim: "Nunca entendi a expressão "valores não negociáveis". Os valores são valores e pronto.

"Sobre a pedofilia: "Os casos de abusos são terríveis, porque deixam feridas profundíssimas. Bento XVI foi muito corajoso e abriu o caminho. E, seguindo esse caminho, a Igreja avançou muito. Talvez mais do que ninguém. As estatísticas sobre o fenómeno da violência contra as crianças são impressionantes, mas mostram também com clareza que a grande maioria dos abusos provém do ambiente familiar e das pessoas próximas. A Igreja Católica é talvez a única instituição pública que se moveu com transparência e responsabilidade. Ninguém mais fez tanto. E, no entanto, a Igreja é a única a ser atacada.

"Família: hoje, "é difícil formar uma família". "Os jovens já não se casam. Há muitas famílias separadas, cujo projecto de vida comum fracassou. Os filhos sofrem muito. E nós temos de dar uma resposta. Mas, para isso, é preciso reflectir muito e em profundidade. E é à luz dessa reflexão profunda que se poderá enfrentar de modo sério as situações particulares, também a dos divorciados." Casamento homossexual: "O casamento é entre um homem e uma mulher. Os Estados laicos querem justificar a união civil para regular diversas situações de convivência, impulsionados pela necessidade de regular aspectos económicos entre as pessoas. É preciso considerar cada caso e avaliá-los na sua diversidade." Quanto à Humanae Vitae, diz que Paulo VI "teve a coragem de ir contra a maioria, defender a disciplina moral, aplicar um freio cultural, opor-se ao neomalthusianismo presente e futuro. O problema não é mudar a doutrina, mas ir fundo e certificar-se de que a pastoral tem em conta as situações de cada pessoa e o que essa pessoa pode fazer.

"Sobre as mulheres: "Podem e devem estar mais presentes nos lugares de decisão da Igreja. Mas a isto eu chamaria uma promoção de tipo funcional." Só com isto não se avança muito, sendo necessário aprofundar teologicamente a questão, o que está a ser feito, também com "muitas mulheres peritas". Não o aborrece absolutamente nada que o acusem de marxista. "Nunca adoptei a ideologia marxista, pois é falsa." Esclarece que o Evangelho condena o culto da riqueza e que a pobreza nos afasta da idolatria, lembrando que Zaqueu deu metade dos bens aos pobres. Sobre a globalização: "Salvou muitas pessoas da miséria, mas condenou muitas outras a morrer de fome, porque com este sistema económico torna-se selectiva. A globalização em que a Igreja pensa não se parece com uma esfera, na qual cada ponto é equidistante do centro e na qual, portanto, se perde a particularidade dos povos, mas é um poliedro, com as suas diversas faces, em que cada povo conserva a sua própria cultura, língua, religião, identidade. A actual globalização "esférica" económica, e sobretudo financeira, produz um pensamento único, um pensamento débil. E no seu centro não está a pessoa humana, mas o dinheiro.

"O final da vida: "Não sou um especialista em bioética e temo equivocar-me. A doutrina tradicional da Igreja diz que ninguém está obrigado a usar métodos extraordinários quando está na sua fase terminal. Pastoralmente, nestes casos, eu sempre aconselhei os cuidados paliativos. Em casos mais específicos, se for necessário, convém recorrer ao conselho dos especialistas.

"Francisco: apenas um homem, normal. "Essa é a sua grandeza", dizia há tempos Fernando Alves.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Mundo novo

A fé tem muito a ver com o simples facto de que há vida cheias de confiança para serem vistas, de que podemos ver, em certas pessoas crentes, um mundo em que gostaríamos de viver.

Rowan Williams

sábado, 2 de novembro de 2013

Anselmo Borges: "Os dias da memória e da interrogação"

Erich Fried (1921-1988), poeta

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje.

O escritor Erich Fried escreveu de forma provocatória: "Um cão/que morre/e sabe/que morre/ e pode dizer/que sabe/que morre/como um cão/é um homem." Na história gigantesca do universo, com 13 700 milhões de anos, sabemos que há ser humano, diferente dos outros animais, quando aparecem rituais funerários: eles revelam a presença de alguém que sabe que é mortal, que põe a questão da morte e do seu para lá.

A morte, aparentemente uma realidade tão simples e evidente - tudo o que vive morre, como diz a palavra portuguesa "nada", do latim res nata (coisa nascida) -, é o enigma e o mistério. Platão colocou aí uma das bases do filosofar, como também Pascal, Schopenhauer, Heidegger, entre muitos outros. Sim, a morte é natural, do ponto de vista biológico. Mas o homem não se reduz a biologia. Tem consciência de si enquanto eu, e, assim, abalado pela morte, protestava Unamuno: "Ai que me roubam o meu eu!" Na morte, o homem é confrontado com o nada e angustia-se. Face a algo de concreto que nos ameaça, temos medo; face ao abismo insondável do nada, o que surge é a angústia.

Perante a morte, as palavras falham. Ninguém sabe o que é morrer, esse passar de vivo a morto, já cá não estar. Ninguém sabe o que é estar morto, nem sequer para o próprio morto, como reflectiu o filósofo Levinas. Dizemos, diante do cadáver do pai, da mãe, do irmão, do filho, da filha, do amigo, da amiga: o meu pai, a minha mãe, o meu filho, a minha filha, o meu amigo, a minha amiga, está aqui morto, está aqui morta. Mas isso não faz sentido, pois o que falta é precisamente o meu pai, a minha mãe, o meu filho, a minha filha, o meu amigo, a minha amiga. O que ali está é um resto e o que falta é precisamente o sujeito, alguém. Como se não pode dizer que os levamos ao cemitério, pois ninguém se atreveria a enterrar o pai, a mãe, o amigo, a amiga ou a cremá-los. Também dizemos que vamos visitá-los ao cemitério. Ora, com excepção dos vivos que lá vão, nos cemitérios não há ninguém; apenas lixo biológico, "ossos e podridão", segundo o Evangelho. Pergunta-se então: o que há nos cemitérios, para que a sua profanação seja, em todas as culturas, um crime hediondo? Nos cemitérios, o que há não é senão esta pergunta infinita: o que é o homem, o que é um ser humano?

Nas nossas sociedades tecnocientíficas e citadinas, a morte tornou-se tabu, o último tabu. Tabu já não é o sexo, mas a morte. Não se pode dar sinais de luto, mente-se às crianças e da morte pura e simplesmente não se fala ou, pelo menos, é de mau gosto e de mau tom falar dela.

Não se julgue que isso acontece, porque a morte já não é problema. Pelo contrário, de tal modo é problema, o único problema para o qual uma sociedade que se julga omnipotente nos meios não tem resposta nem solução que a única solução é ignorá-la, como se não existisse. Trata-se de uma sociedade centrada na produção e consumo, no ter, no êxito, no cálculo, no espectáculo, no poder. Ora, a morte interrompe toda esta lógica. Perdeu-se o sentido da morte e, consequentemente, o sentido da vida ou, talvez melhor, perdeu-se o sentido da vida e, consequentemente, o sentido da morte. Mas, então, também se perdeu o sentido ético: de facto, sem a consciência do limite no tempo, não se ergueria a problemática ética na sua urgência da liberdade na definitividade. É o pensamento sadio da morte que, como mostrou Heidegger, obriga à distinção entre existência autêntica e existência inautêntica, entre bem e mal, entre o justo e o injusto, o que verdadeiramente vale e o que não vale. E que dá o horizonte da fraternidade: à beira de morrer, disse H. Marcuse ao amigo Habermas: Sabes, Jürgen? Agora, sei onde se fundamentam os nossos juízos morais: na compaixão.

Mas até a Igreja Católica, na negociação dos feriados, preferiu a Senhora da Assunção aos dias de Todos-os-Santos e dos Finados. Um erro. De facto, estes são os dias da memória (lembrar todos os que partiram) e da interrogação essencial: o que é o homem?, viver para quê?, qual o sentido da existência? Nestas perguntas, transcende-se a morte como facto biológico e abre-se outra dimensão.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Etsi Eden daretur

Devíamos tentar adotar a perspetiva perspicaz daqueles que acreditam no paraíso, mesmo que vivamos as nossas vidas segundo o preceito ateu fundamental de que este é o único mundo que jamais conheceremos.

Alain de Botton, pág. 183 de "Religião para ateus"

sábado, 5 de outubro de 2013

7:19 "Sem ritual, sem sentido, sem seriedade, sem solenidade"

Não se fala nem de Deus, nem de Jesus Cristo, nem da Igreja no vídeo seguinte - e é dessas realidades que costumo falar neste espaço. Mas acho que é precisamente "isso" (Deus, Jesus Cristo e Igreja), ou a ausência deles, que explica a sociedade do vídeo a seguir. Bom proveito a todos os que são pais. Ou, se não for o caso, filhos.




sábado, 28 de setembro de 2013

Anselmo Borges: "O que pensa Francisco: 7. sobre a morte"

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje:

Para o Papa Francisco, a morte não é tabu. "Quando somos novos, não olhamos tanto para o fim, valorizamos mais o momento. Mas lembro-me de dois versinhos que a minha avó me ensinou: "Olha que Deus te está a ver, olha que te está olhando; olha que hás-de morrer e que não sabes quando." Passados 70 anos, não consigo esquecê-los. Ela inculcava-me a consciência de que tudo acaba, de que devemos deixar tudo bem. No meu caso, penso todos os dias que vou morrer. Não me angustio por isso, porque o Senhor e a vida prepararam-me. Vi morrer os meus antepassados, e agora é a minha vez. Quando? Não sei."

Deus é o Deus da vida e não da morte. Bergoglio segue a leitura teológica tradicional: "O mal entrou no mundo através da astúcia do Demónio, que sentiu inveja, porque Deus fez o homem como o ser mais perfeito. Por isso o Demónio entrou no mundo. Na nossa fé, a morte é uma consequência da liberdade humana. Fomos nós, através dos nossos pecados, a optar pela morte, que entrou no mundo, porque criámos espaço para a desobediência ao plano de Deus. Entrou também o pecado, como soberba face aos planos do Senhor, e com ele a morte."

Não queremos morrer, temos medo e angústia. "A morte é um despojamento, por isso se vive com angústia. Estamos agarrados à vida e não queremos ir. Até o mais crente sente que o estão a despojar, que tem de abandonar parte da sua existência, da sua história. São sensações intransferíveis." O próprio Jesus sentiu angústia. "Disso ninguém se salva. Mas eu acredito que Deus nos agarra com a sua mão quando estamos prontos a dar o salto. Teremos de nos abandonar nas mãos do Senhor; sozinhos não conseguiríamos aguentar."

A vida é um caminho e é a esperança que estrutura o nosso caminho. Um dos perigos é "apaixonarmo-nos pelo caminho e perdermos de vista a meta"; o outro é "o quietismo: ficar a olhar para a meta e não fazer nada pelo caminho."

É preciso, pois, assumir o caminho e nele desenvolver a nossa criatividade, o nossos trabalho de transformação do mundo. Não estamos encerrados em nós: recebemos uma herança e temos de entregar uma herança, o que constitui "uma dimensão antropológica e religiosa extremamente séria, que fala de dignidade". A vida e a morte lutam corpo a corpo, no sentido biológico, mas sobretudo em relação à forma como se vive e morre. "Nos Evangelhos, aparece o tema do Juízo Final e de uma forma vinculada ao amor. Para os cristãos, o próximo é a pessoa de Cristo."

Então, a meta, que é a vida do Além, "gera-se aqui, na experiência do encontro com Deus, começa no assombro do encontro. Acreditamos que existe outra vida, porque começamos a senti-la aqui. Contudo, não por via de um sentimento suave, mas por um assombro através do qual Deus se nos manifesta." Os primeiros cristãos "associavam a imagem da morte à da esperança e usavam a âncora como símbolo".

A morte está sempre presente como possibilidade, mas tem um vínculo indissolúvel com a velhice. "A amargura do idoso é pior do que qualquer outra, porque não tem retorno." Por outro lado, se, antes, falávamos de opressores e oprimidos, incluídos e excluídos, hoje "temos de acrescentar outra antinomia: os que entram e os que estão a mais. Estamos a habituar-nos ao facto de que existem pessoas descartáveis, e, entre elas, os idosos têm um lugar muito importante". São muitos os que "abandonam quem lhes deu de comer, quem os educou, quem lhes limpou o traseiro. Dói-me, faz--me chorar por dentro. E nem vale a pena falar daquilo a que chamo eutanásia encoberta: o tratamento indevido dado aos idosos nos hospitais e nas instituições de assistência social, a quem não dão os medicamentos e a atenção de que necessitam."

Olhar para o idoso é ver o caminho de vida até mim. É preciso perceber que sou mais um elo, que "teremos de honrar aqueles que nos precederam e fazermo-nos honrar por aqueles que nos vão seguir, a quem teremos de transmitir a nossa herança." Referindo-se a si, com 74 anos, diz: "Estou a preparar-me e quereria ser vinho envelhecido, não vinho passado."

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

À margem de toda a casuística

Jesus expôs uma nova maneira de configurar a vida e a conduta humana à margem de toda a casuística.

Joseph Fitzmyer

domingo, 25 de agosto de 2013

Check-in

Quando nos aeroportos faço o check-in, perguntam-se habitualmente se Londres é o meu "destino final". Nem sempre resisto à tentação de dizer: "Não, espero que seja o Céu".

Timothy Radcliffe, "Imersos na vida de Deus" (Paulinas), p. 247

domingo, 28 de julho de 2013

Se vieres visitar a minha sepultura...

"Se vieres visitar a minha sepultura, não te espantes de ver o monumento a dançar. Pega no teu tamborete, porque a tristeza não fica bem no banquete de Deus".

Poema  de Abdullah Anri de Herat, poeta sunita do séc. XI, na sepultura do padre dominicano francês Serge de Beaurecueil. Lido em "Imersos na vida de Deus", de Timothy Radcliffe.

domingo, 2 de junho de 2013

Tu, quem és?

Messias, Verbo de Deus, Filho de Deus, Salvador, Rei, Cordeiro de Deus... Por uma vez, queria abafar esta litania, aproximar-se desse Homem, sem prestar atenção a estas etiquetas, que de certo ele não ostentava sobre o seu peito como outras tantas condecorações, queria aproximar-se dele e ver a sua vida. Simplesmente, como vive, anda, sorri, sente. Então, perguntar-lhe-ia: Tu,quem és?

A. M. Bernard

sábado, 25 de maio de 2013

Anselmo Borges: "O mundo dos afectos, a fé e a cura"

Artigo de Anselmo Borges no DN de hoje:


A definição do Homem como animal racional não dá conta adequada do que somos: de facto, não começamos por pensar, mas por sentir. Somos afectados pelo meio ambiente, desde o ventre materno. Daí, não ser indiferente uma gravidez querida e serena e uma gravidez vivida no meio da inquietação e do sobressalto.

No instante da concepção, está-se no que alguns chamam a "inocência do sentimento". Depois, começamos a ser afectados, positiva ou negativamente, e assim se vai formando uma atitude positiva ou negativa face ao mundo e aos outros, com consequências na auto-estima e autoconfiança ou não, com confiança no mundo e nos outros ou, pelo contrário, com desconfiança e inquietação.

Na altura, ainda se não pensa, mas sente-se. Primeiro, são os afectos. Suponhamos que, depois do nascimento, não se cuida convenientemente do bebé, ninguém lhe sorri, ninguém o acarinha. O que fica? O sentimento de frustração. Afinal, o que vale o mundo? Para que serve? Não começa aqui o sentimento de revolta, violência e destruição?

Depois, com a aquisição lenta do uso da razão, há-de estudar-se a vida afectiva, para aproveitar a sua força - querer ser e viver - na condução da existência, sabendo conviver com ela nas suas dimensões positivas e negativas. Porque a razão, sem os afectos, pode ficar paralisada, mas estes, sem aquela, podem tornar-se cegos. E assim se constata a importância do que hoje se chama a razão que sente, razão sensível, razão emocional.

É neste fundo anímico-vital afectivo que mergulha a própria fé religiosa. Esquece-se frequentemente que a fé não começa por ser religiosa, mas uma atitude fundamental da existência enquanto confiança de base. Hoje, quando o que faz falta é confiança e crédito, percebe-se melhor o tema. Mas, a um dado momento, há-de colocar-se também a questão da fé religiosa, na medida em que se põe a pergunta pelo fundamento último da confiança.

A realidade da fé como atitude fundamental de toda a existência e como possível abertura à fé religiosa, garante do sentido último e pleno, é sublinhada cada vez mais, também em estudos científicos referentes à doença e à cura. Aliás, não há aqui nenhuma descoberta, pois sempre se soube que a atitude do Homem face à vida, à doença e à própria morte depende do grau da sua confiança.

Também da confiança em Deus? "Uma grande maioria do corpo científico considera que a religião tem um impacto positivo na saúde", explicou na Time Magazine Andrew Newberg, da Universidade da Pensilvânia.


Agora, Le Monde des Religions (n.° 54, 2012) foi investigar e dá conta de um artigo da Universidade de Oxford em 2001, com a síntese de 1200 estudos sobre a questão, concluindo que "crer , rezar, praticar uma religião levam a uma melhor resiliência às doenças mentais como a esquizofrenia e têm uma acção positiva sobre a pressão arterial e as funções imunitárias". Isto não significa que a oração seja um medicamento, mas que acreditar permite suportar melhor a doença, favorecendo o tratamento. A imagem de Deus, bom ou castigador, é fundamental.

Gail Ironson, da Universidade de Miami, num estudo sobre a ligação entre VIH e crença religiosa, conclui que, "mesmo tendo em conta os medicamentos, a espiritualidade traz um melhor controlo da doença". Nel Krause, da Universidade do Michigan, mostrou que as pessoas que acreditam que "a sua vida tem um sentido" vivem mais tempo.

O acto médico não pode ser de modo nenhum o de um técnico perante uma máquina estragada que é preciso reparar. É necessário aproximar-se do paciente dentro de uma compreensão global do Homem. Georges Engel, num artigo célebre - "The Need for a New Medical Model" -, falou de uma aproximação "bio-psico-social", que, segundo o teólogo Guy Jobin, teve enorme impacto. "Já não se trata de uma divisão do trabalho entre cura do corpo e cura das almas. Em vários sectores do cuidado - em geriatria, nos cuidados de longa duração, nos cuidados paliativos -, o acompanhante espiritual faz agora parte integrante da equipa de cuidados. É considerado um profissional como os outros membros da equipa."

quarta-feira, 22 de maio de 2013

O grande contraditor

Veio para passar fome e dar-nos fartura, veio para ter sede e dar-nos de beber, veio vestir-se de morte e revestir-nos de imortalidade, veio pobre para nos tornar ricos.


Agostinho

terça-feira, 21 de maio de 2013

Coisas grandes sem caminho?

Se o Senhor te tivesse dito unicamente "Eu sou a Verdade e a Vida", poderias replicar-lhe: Grandes coisas me ofereces, mas como se chega lá?

Agostinho de Hipona

terça-feira, 2 de abril de 2013

Bento Domingues: "A vida triunfa da morte"


Texto de Bento Domingues no "Público" de domingo passado.

1. Andrés Torres Queiruga, um escritor galego muito premiado, teve, no ano passado, um acidente de trabalho - assim o classificou -, provocado pela Comissão Episcopal Espanhola para a Doutrina da Fé que, por excesso de zelo, se despistou e foi contra ele.

Acontece, com frequência, que a obsessão pela ortodoxia não deixa ver que o verdadeiro inimigo da fé cristã se aloja na mediocridade cultural, nas receitas de espiritualidade acéfala, no rubricismo pseudo-litúrgico esquecido das exigências da linguagem simbólica para dizer a novidade da graça do Espírito Santo e, sobretudo, numa organização económica, social, cultural e política geradora de exclusão.

A teologia viva, criativa, dialogante, como a deste grande intelectual ibérico, nasce da recusa em aceitar que para ser cristão seja preciso continuar culturalmente pré-moderno ou, então, que a negação do divino constitua a condição prévia e indispensável para assegurar a realização social, psicológica, vital, livre e moral do ser humano.

Se para afirmar Deus fosse preciso sacrificar o ser humano, Deus estaria condenado e o ateísmo justificado. Deus, acolhido e celebrado como fonte de vida, foi acusado, na modernidade, de roubar a liberdade, a criatividade e a felicidade ao ser humano. O teólogo não pode recusar a participação numa investigação pluridisciplinar, capaz de apurar as responsabilidades das religiões, das igrejas e da cegueira humana, nessa acusação. A crítica das práticas e representações alienantes da religião pertence ao seguimento de Jesus Cristo. Não há discipulado sem a democratização desta atitude na Igreja.

Crítica não é má língua esterilizante. Para conceber e experimentar novos caminhos e expressões que assumam a tradição no seio da criatividade multifacetada de cada época, ou nos seus desvarios, é indispensável descernimento. Só um Deus de puro amor pode ajudar a humanidade a ser humana.

2. Uma das últimas investigações de A. T. Queiruga censurada - e que merece ser a mais estudada - mostra como a diferença cristã, na continuidade das religiões e da cultura, está centrada numa esforçada inteligência da Ressurreição (1), que nada tem a ver com a reanimação de um cadáver. No seu trabalho, não confunde fé - entrega a Jesus Cristo no seio das contradições da vida - com a pesquisa teológica. Esta implica a crítica rigorosa das linguagens, das imagens e dos conceitos para que as metáforas da ressurreição não sejam idolatradas. São criações poéticas surrealistas que exigem uma ruptura e um salto de significação: Jesus ressuscitado, embora já não esteja dominado pelas leis do espaço e do tempo, é o mesmo que teve um percurso que o crucificou, mas que vive agora, de modo misterioso e actuante, na transformação da existência de quantos o acolherem; a morte não é última palavra sobre a nossa vida. Não nascemos para morrer, mas para vencer a morte. No coração do Deus vivo, seremos os mesmos, mas não seremos da mesma maneira. Deveríamos, por isso, ter a devoção de andar acompanhados dos nossos mortos, que o não são, como gostamos da presença permanente de Cristo.

Dito assim, é só afecto. De forma mais profunda, só as grandes criações da pintura, da poesia e, sobretudo, da música podem sugerir essa nova vida. É nas transfigurações do quotidiano e na insurreição contra tudo o que degrada a condição humana e o seu ambiente que podemos evocar novos céus e nova terra.
Num funeral, só conseguimos dizer coisas convencionais, de pêsames ou de alívio, perante o inevitável. Vemos que tudo acaba e, perante a morte de uma pessoa que nos é muito querida, também morremos um pouco. Onde está a voz, o olhar, as mãos do outro? E nós, o que somos para essa pessoa que tínhamos como indispensável?

3. Perante as dificuldades em perceber o sentido da expressão ressurreição da carne (a ressurreição da pessoa), os pregadores e catequistas têm sempre à mão a tomada de posição de S. Paulo: se Cristo não ressuscitou, vazia é a nossa pregação, vazia é também a vossa fé (1Co 15, 14). É um recurso de facilidade, não é um argumento.

Esquece-se que, há dois mil anos, este apóstolo inscrevia a ressurreição de Cristo numa convicção universal: se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou. Se não há ressurreição, aqueles que adormeceram em Cristo também estão perdidos. Se temos esperança em Cristo, tão-somente para esta vida, somos os mais dignos de compaixão de todos os seres humanos, argumenta o convertido do caminho de Damasco. Fala, por isso, de numerosas aparições, da sua própria experiência e desenvolve uma retórica fantástica, mas que não pode evitar aquilo a que não consegue responder: dirá alguém, como ressuscitam os mortos? Com que corpo voltam?

Paulo, como não sabe, recorre às metáforas da agricultura, à morte e vida das sementes. O fundo de todas as suas declarações e argumentações é, todavia, retintamente teológico: Deus não é niilista; o amor que nos tem é mais forte do que a morte. Paulo escreveu um poema fantástico, de leitura obrigatória: Rm 8,31-39.

1) Repensar la resurrección, Trotta, Madrid, 3.ª ed. 2005

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Que significado tem ser feliz sem os outros?

Para estarmos seguros de não ter falhado a nossa vida, bastam três coisas: em primeiro lugar, ver de que sofrem os outros; depois, porque sofrem os outros, e após tal olhar corajoso, saber ouvir o silêncio. O silêncio que pode fazer nascer em nós o pensamento: que significado tem ser feliz sem os outros?

Abbé Pierre em 1987. Este padre morreu faz hoje seis anos.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Marinheiro, missionário e salteador

Quando, na minha infância, me perguntavam o que eu queria ser, teria respondido: marinheiro, missionário ou salteador. Fui um pouco os três ao mesmo tempo. Missionário através do mundo, marinheiro durante seis meses como capelão do "Jean-Bart", na Escola Naval, salteador na Resistência onde, se me tivessem aprisionado, me teriam tratado como tal.

Abbé Pierre, 1992

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Desigualdade e solidariedade

O que é preciso reivindicar não é a igualdade que é ilusória. Do nascimento à morte há desigualdade: quando a criança nasce, o pai e a mãe são fortes e ela é fraca: e quando ela se tornar forte, os seus pais ter-se-ão tornado fracos. O que é necessário à própria vida é a solidariedade.

Abbé Pierre, 1995

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...