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domingo, 7 de julho de 2013

Bento Domingues: "Paciência com Deus (1)"

Início do texto de Bento Domingues no "Público" de hoje:


Há pessoas que falam da vontade de Deus e dos seus desígnios, com tanta certeza e desenvoltura, que até parece que Deus lhes lê o seu jornal todas as manhãs. Fico, depois, perplexo com o recurso ignorante a certas construções teológicas acerca da vida interna da SS. Trindade, como se andassem nos corredores de um museu de antiguidades. Não posso deixar de admirar essa arrojada arquitectura mental, cheia de subtilezas, para que o mistério da divina unidade na trindade das pessoas não surja como um absurdo, no contexto da sua recepção na cultura grega. Admito que esta concepção possa ajudar a acolher e cultivar a unidade plural nas nossas sociedades e no mundo em geral. Não tenho, todavia, paciência para a racionalização neutralizante da vida das metáforas. Ao perderem a sua energia poética passam a ser conceitos de nada. Tenho diante de mim, uma curiosa imagem com três cabeças numa só. Coitada. Prefiro a sobriedade enigmática dos textos do Novo Testamento.

Todo o texto aqui, amanhã. E, já agora, três imagens como a que o dominicano tem diante dele.



sábado, 12 de maio de 2012

Anselmo Borges: A outra "Santíssima Trindade"

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (aqui):

Salvo excelentes excepções, como Frei Bento Domingues, os teólogos em Portugal não se pronunciam sobre a crise económico-financeira. Não é o caso dos teólogos em Espanha. Alguns exemplos.
González Faus

1. J. I. González Faus, da Faculdade de Teologia da Catalunha, faz uma crítica acérrima à presente situação. Voltando ao documentário célebre "Inside Job", num artigo ácido que intitula "Agencias de rating o de raping?", denuncia os Bancos de investimento que vendiam activos tóxicos, sabendo-o. Lá estavam os peritos da Moody's e Standard and Poors, dizendo: "são AAA (fiabilidade máxima)." Deste modo, as três agências (Moody's, S & P e Fitch) ganharam milhões. Elas poderiam ter terminado a festa, dizendo: vamos ajustar os critérios. Mas não; pelo contrário, deram triplo A a Madoff, dias antes da sua queda. Meses antes da derrocada de Lehman Brothers, o próprio FMI declarou que estava "em boa situação financeira e os riscos parecem baixos".

Por isso, na arbitragem das agências, ao contrário do que deveria suceder, "é preciso partir do pressuposto da sua parcialidade e desonestidade, a não ser que se prove o contrário". O problema é que vivemos num sistema montado sobre a agressão do capital insaciável. "Se o Banco me emprestar dinheiro e eu o não devolver, tem direito a ficar com o que é meu e a continuar a exigir-me mais. Os que colocaram o seu dinheiro numa Caixa ou num Banco, se estes o não devolverem, não têm direito a nada." Cita o Papa João Paulo II: "A Igreja ensina a prioridade do trabalho frente ao capital: o trabalho sempre é uma causa eficiente primária enquanto o capital é só um instrumento." Mas comenta: "Isto só está em vigor a partir de uma ideia de Deus que nem os bispos partilham." E acrescenta: "Visto de Wall Street, o trabalhador é apenas uma ferramenta. E as ferramentas não têm dignidade."

A quem lhe atira que é um ignorante ou analfabeto económico responde: "Tive uma irmã gémea que morreu de cancro por culpa de uma clara falha médica. Quando lhe foi comunicado o diagnóstico fatal, limitou-se a dizer: 'Eu não saberei de medicina, mas quando digo que algo me dói é porque dói; mas ao médico não doía'. Receio que aos nossos médicos económicos lhes não dói."
José M. Castillo
2. José M. Castillo, da Universidade de Granada, pergunta: "Quem são os mercados?" O que se sabe é que, uma vez que o que interessa é o lucro, as pessoas investem somas fabulosas no capital financeiro e, neste momento, "ninguém sabe até onde chega a montanha imensa de dinheiro que os mercados manejam". O que é facto é que o movimento de capitais financeiros se move pelo mundo sem qualquer controlo, e um indivíduo, a partir de casa, com o seu computador, pode transtornar e afundar a estabilidade económica e as poupanças de milhões de pessoas.

Que fazer? Afinal, "a corrupção maior e mais perigosa não é a desta ou daquela pessoa, deste ou daquele político, desta ou daquela empresa. A corrupção mais grave é a corrupção do sistema económico em que estamos metidos", que enriquece mais os ricos e empobrece mais os pobres. Quem manda no mundo não são os políticos, mas a economia e a finança. "É urgente que nós todos pressionemos, cada um como puder e sempre com a mais transparente honradez, os que gerem o poder económico e político, para que regulem e controlem os mercados, aumente a produtividade e, em todo o caso, que o que se produz não beneficie tanto uns poucos à custa da ruína dos outros."
Xabier Pikaza
3. Xabier Pikaza, da Universidade de Salamanca, reflecte sobre a nova Trindade, frente à Trindade cristã. "A Trindade cristã era formada por Deus Pai, o Filho Jesus Cristo (que éramos todos os seres humanos) e o Espírito Santo (que era a comunhão ou amor entre Deus e os seres humanos, entre todos os seres humanos). Mas agora surgiu uma Trindade diferente, formada por Deus-Capital (que não é Pai, mas monstro que tudo devora), pelo Filho-Empresa, que não redime, mas produz bens de consumo ao serviço dos privilegiados do sistema, e pelo Espírito Santo-Mercado, que não é comunhão de amor, mas forma de domínio de uns sobre os outros".


Nota deste blogue: As fotos dos teólogos foram tiradas no colóquio sobre "Quem foi (é) Jesus Cristo", em outubro do ano passado, em Valadares (V. N. Gaia). O colóquio foi organizado precisamente por Anselmo Borges.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Origem religiosa das pancadas de Moilère

Li ontem que as pancadas de Molière, que na realidade não são de Molière porque já se usavam na Idade Média, têm uma explicação cristã: as onze pancadas são uma para cada apóstolo. Judas só ficou pelos ensaios. As três pancadas finais, mais pausadas, são uma para cada pessoa da Santíssima Trindade.


Há outras explicações, como a que diz que uma é para o rei, outra para a rainha e outra para ao público. Mas sabendo-se que o teatro europeu tem origem nos autos medievais, religiosos, não é de admirar que haja uma explicação religiosa.

domingo, 9 de outubro de 2011

Trindade

Todo o amor deve aspirar a tornar-se trino, pois a inclusão do terceiro é o seu critério de verdade.


José Tolentino Medonça

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Apontamentos de arte sacra nas páginas do "Público"

O "Público", na página 2 do P2, tem vindo a publicar pequenas notas sobre peças da arte sacra portuguesa. A de há dias era um espanto absoluto. Um Cristo crucificado, mas dobrado para a frente e com uma mão solta, estendida. Julgo que a peça se chamada "O Cristo da pastorinha", mas o texto não falava da pastora. Perdi recorte, mas se o encontrar, copio-o para aqui.   

No "Público" de 12 de setembro de 2011

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Antitrindade

Três desses ídolos [cuja adoração deforma o mundo em que vivemos] são o culto do desejo sem limites, a absolutização da propriedade privada e a deificação do dinheiro. Não há nada de mal no desejo, na propriedade privada e no dinheiro: são bens autênticos. Mas se são tidos por bens absolutos, como na nossa sociedade, tornam-se ídolos cuja adoração é destruidora da família humana, uma tremenda anti-religião triteísta.


Timothy Radcliffe na pág. 218 de "Ser cristão para quê?" (ed. Paulinas)

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Espaços sagrados?

O Cristianismo liberta-nos de uma religião de espaços sagrados para a vida da Trindade.


Timothy Radcliffe, nas pág. 215 de "Ser cristão para quê?"

terça-feira, 21 de junho de 2011

O escudo da Trindade

Há dias dizia-se aqui que Tertuliano foi o primeiro a usar a palavra trinitas / trindade para falar de Deus. Entretanto, dei com a versão mais antiga que se conhece do diagrama da Trindade.
Vem num manuscrito de Pedro de Poitiers (1130-1215).
O dominicano William Perault (1190-1271), por seu turno, na obra "Summa Vitiorum" inclui a seguinte ilustração. Ambas as imagens tem como fonte a Wikipedia inglesa (aqui).

domingo, 19 de junho de 2011

Bento Domingues: A raiz de todos os males

Bento Domingues no "Público" deste domingo. "Até gostava de uma sociedade democrática como a Santíssima Trindade: pessoas todas iguais, todas diferentes, todas activas, sem subordinação entre elas e que a própria oposição de relações é de perfeita harmonia; seria um céu na terra!"

E o primeiro que usou a palavra Trindade foi...

Hoje é dia da Santíssima Trindade.


E dia de recordar Tertutiliano (165-212), um teólogo africano, de Cartago, provavelmente leigo, que no final aderiu à seita/heresia do montanismo.


Tertuliano, convertido que dizia que "não se nasce cristão, torna-se", foi o primeiro a usar a palavra "trinitas" aplicada a Deus, como complemento a "unitas". Unidade e trindade.


Dois esquemas clássicos para explicar o que está para além da razão:




quarta-feira, 15 de junho de 2011

Diz o Mestre

O Pai ri para o Filho e o Filho ri para o Pai, e o riso gera prazer, e o prazer gera alegria, e a alegria gera amor.


Mestre Eckhart (1260-1328)

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Acreditar na Igreja

Igreja de Saint Lupicin, França

Acreditar na Igreja como um artigo de fé isolado, e não como parte da nossa crença no Espírito Santo, seria cair na idolatria. Trata-se de uma tentação. Um dos meus confrades escoceses afirmou que a Igreja é verdadeiramente a sucessora de Israel, porque também ela andou sempre a prostituir-se com falsos ídolos! (…) A crença na Trindade sem a Igreja leva à mitologia, e a crença na Igreja sem a Trindade, à idolatria. A amizade de Deus incita-nos a ir para além das duas.

Timothy Radcliffe na pág. 133 de “Ir à Igreja porquê?”

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

21 de Dezembro de 1401. Nasce o pintor Masaccio

Masaccio, o primeiro pintor a usar com mestria a perspectiva, nasceu no dia 21 de Dezembro de 1401 e morreu em 1428. O nome Masaccio é um aumentativo de Tommaso (Tomás), para distinguir de Masolino (diminutivo de Maso), o seu principal colaborador.

Masaccio viveu em Florença, tendo deixado a sua obra-prima, o fresco “Trindade” (ou "Santíssima Trindade com a Virgem, São João Baptista e os doadores"), pintada nas paredes da Igreja de Santa Maria Novella.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

20 de Dezembro de 217. Morre o Papa Zeferino

O Papa Zeferino, décimo quinto da lista, foi eleito em 199 e martirizado no dia 20 de Dezembro de 217. Durante o seu pontificado foi excomungado Tertuliano, que continua a seu um dos grandes teólogos dos primeiros tempos (o primeiro a usar em contexto teológico o termo trinitas, trindade, por exemplo).

sexta-feira, 16 de julho de 2010

16 de Julho de 1945. Explosão da “Trinity”, primeira bomba nuclear

Cratera da "Trinity"

Às 05h29m45s do dia 16 de Julho de 1945 explodiu a primeira bomba atómica, com o nome “Trinity” (“Trindade”), posto por Robert Oppenheimer, o principal cientista envolvido no projecto. O teste foi feito em Alamogordo, deserto do estado do Novo México, EUA.

O facto é recordado hoje nas páginas do “Público”, que, no entanto, não explica a origem do nome – pormenor que captou a minha atenção.

A palavra “trindade” é tipicamente cristã. Entre o séc. II e III, Tertuliano introduziu o termo “trinitas” para referir a união das três pessoas divinas.

Oppenheimer explicou um dia a Leslie Groves, militar que liderou o projecto da bomba atómica, que na origem do nome estava o soneto “Batter my heart, three person'd God”, de John Donne (1572-1631), embora a palavra a em questão não apareça no poema de inspiração religiosa.

Na explosão, a areia do deserto, na cratera, fundiu-se e deu origem a um vidro de cor verde-claro, a trinitite.

domingo, 13 de junho de 2010

Um judeu americano, muito progressista e completamente ateu...

Uma das possíveis definições para judeu é “aquele que já conhece noutra versão a anedota que acabaste de contra de contar”.

Lembrei-me disso ao ler uma anedota de judeus que já aqui tinha contado noutra versão.



Um judeu americano, muito progressista e completamente ateu, decidiu dar uma educação esmerada ao seu filho. Assim, mandou-o para a melhor escola laica de Nova Iorque, a Trinity School, que anteriormente fora uma escola religiosa.
Ao fim de alguns dias, Danny declara ao pai:
- Pai, queres ver? Já sei o é a Trindade: é o Pai, o Filho e o Espírito Santo!
O pai, atingido no mais fundo das suas convicções laicas, tem um assomo de cólera:
- Danny! Mete bem na tua cabeça: nós não temos senão um só Deus… E não acreditamos nele!

domingo, 30 de maio de 2010

Bento Domingues: Deus não sabe como se chama

Bento Domingues recorda que, em relação à Trindade, algo central no cristianismo, houve um tempo em que “os teólogos andavam por um lado, os místicos por outro e o povo cristão, indiferente a uns e outros, alimentava-se de devoções, sobretudo marianas”. Ora, o percurso de Jesus – e dos cristãos – não se entende sem uma ligação filial e um sopro divino. Mas falar de Deus é difícil. Criam-se ídolos. “A ideia de Deus tem de ser, continuamente, despedaçada e Ele próprio se encarrega de o fazer. É o grande iconoclasta". Chamara-lhe Trindade, porque "Deus não sabe como se chama".

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

O iPod e a Trindade


Guy Consolmagno (em “A Mecânica de Deus”, Publicações Europa-América) usa o iPod para explicar a Santíssima Trindade. “Explicar” com todas as reticências quando se trata da Santíssima Trindade, obviamente. O iPod provocou uma revolução no modo como ouvimos música e a Trindade fez o mesmo em relação ao modo como entendemos Deus.

Com explicações ligeiramente técnicas pelo meio (o iPod é obra de Steve Jobs e principalmente de Tony Fadell, diz), escreve a certa altura, página 198: “O Pai representa o Deus criativo, a ideia; O Filho representa a encarnação dessa ideia no mundo físico; e o Espírito Santo representa a forma como essa ideia vive em cada um de nós que tenha sido tocado pela mesma”.

E porquê falar aqui do iPod no dia de hoje? Mera coincidência, com certeza. A leitura fortuita levou-me até à página 198 (já tinha lido partes antes e partes a seguir). Só depois reparei que hoje, primeiro dia da Quaresma, os jesuítas, como Consolmagno, lançaram em Portugal o sítio das orações para rezar em qualquer lado, aqui.

(Dizem que é para rezar enquanto se anda de bicicleta, de metro, no meio de um desporto. Rezar enquanto se faz outra coisa. E se for: fazer outra coisa enquanto se reza? Também pode ser? É "pray as you go". Pode ser "go as you pray"?)

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...