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terça-feira, 23 de julho de 2024

Erros de olhar

Na sociedade, comete-se com frequência o erro que consiste em avaliar o passado com os olhos do presente.

Na Igreja, comete-se com elevada frequência o erro que consiste em avaliar o presente com os olhos do passado.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

As indulgências, outra vez


No JN de hoje. Nunca percebo esta teologia das indulgências (repito-me, eu sei), mesmo que digam que a notícia não está bem feita, que omite isto e aquilo, que o documento diz mais não sei o quê, ou que a indulgência só vale para quem fizer mais uma série de coisas (a confissão entre elas). Neste último caso, a indulgência será inútil, o que está a montante é o que interessa. A indulgência será só uma declaração. É o que é. Resquícios medievais e renascentistas que teimam em não desaparecer. E razão terá o P.e Mário da Lixa. É marketing. Do foleiro.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Tradição e mudança


O meu papel - se é que existe - consistirá sem dúvida em ser testemunha da Tradição no meio da mudança; sendo a Tradição completamente outra coisa que uma afirmação mecânica e repetitiva do passado: ela é presença ativa de um princípio a toda a sua história.

Yves Congar

sexta-feira, 1 de março de 2013

Onde é que já vi isto?

O que Jesus fustiga é a forma incorreta de interpretar a Torá. Em última instância, a perspetiva legalista corre o risco de valorizar mais o exterior do que o ser. Neste sentido, Jesus dá mais valor à Torá do que aqueles que se diziam seus intérpretes.

Joachim Gnilka

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Sobre o neoneoneotomismo que domina algum ensino teológico



Réginald Garrigou-Lagrange foi um teólogo francês medieval em pleno século XX. Morreu em 1964, em Roma. Dominicano, dava aulas no Angelicum. Grande teólogo, mas sem escrever qualquer tratado ou ensaio. Fez comentários, como em geral os teólogos dos séculos anteriores, desde a Idade Média. E talvez não se importasse de participar numa disputatio. Aliás, nem sei se não participou.

Garrigou-Lagrange comentou quase toda a Suma teológica, coisa que poucos fizeram, e terá sido um dos últimos a levar a cabo tal empreendimento.

Sabemos agora que ele estava à frente do seu tempo, embora fosse tido por alguns como um fóssil teológico. É que o comentário a Tomás de Aquino regressou com força. Diz-se que não é preciso mais teologia do que a do dominicano do séc. XIII. Pululam por aí teólogos novinhos que mais não fazem do que ler Aquino,mas não todo, e, ainda mais, comentários de Tomás de Aquino. Teologia requentada, pois, e quanto mais indiferente à vida concreta, melhor.

Se os medievais também faziam teologia comentando, pois concebiam-se como anões ao ombro de gigantes (diz João de Salisbúria que Bernardo de Chartres dissera isto), estes teólogos de hoje são anões, ainda que rechonchudos, nalguns casos, e mesmo apreciadores de rock, ao ombro de anões ao ombro de gigantes. Temo que tantas camadas humanas acabe por dar origem a um estrondoso tombo.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Ai o preço das batinas


No DN de 21 de outubro. Vale a sensatez dos padres interrogados. Até porque, pelos vistos, as batinas estão caras.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Bento XVI contra os sofismas dos lefebvrianos


Futebol lefebvriano, como antes do Vaticano II, exceto a bola e as chuteiras. Será que os lefebrivanos seguem as alterações recentemente aprovadas pela FIFA?


No sábado passado, lefebvrianos emitiram um comunicado que diz a certa altura:
Sobre todas las innovaciones del Concilio Vaticano II que permanecen manchadas de errores y sobre las reformas que de él han salido, la Fraternidad sólo puede continuar adhiriendo a las afirmaciones y enseñanzas del Magisterio constante de la Iglesia; ella encuentra su guía en este Magisterio ininterrumpido que, por su acto de enseñanza, transmite el depósito revelado en perfecta armonía con todo lo que la Iglesia toda ha creído siempre y en todo lugar.
Isto foi no sábado. No domingo, o Papa foi a Frascati, a diocese que mais Papas deu depois de Roma, reafirmar o Vaticano II.

Notícia da Ecclesia:
Bento XVI defendeu hoje a necessidade de as comunidades católicas voltarem a ler, aprofundar e “colocar em prática” os ensinamentos saídos do Concílio Vaticano II (1962-1965).
“Os documentos do concílio contêm uma riqueza enorme para a formação das novas gerações cristãs. Releiam-nos, com a ajuda de sacerdotes e catequistas”, pediu, na homilia da missa a que presidiu (…).
Sobre esta visita, Giacomo Galeazzi escreveu no “La Stampa” de 16 de julho:
Nem corvos nem cismáticos irredutíveis perturbam o verão "conciliar" de Joseph Ratzinger. Do quartel general suíço dos lefebvrianos, chegam nuvens escuras, mas em Frascati, na Itália, o sol resplandece. Bento XVI antecipa o provável "não" da Fraternidade São Pio X ao retorno à Igreja Católica com uma orgulhosa defesa apaixonada daquele Concílio Vaticano II que, há meio século, o viu empenhado como jovem teólogo, mas que continua sendo obstinadamente rejeitado pelos seguidores do arcebispo tradicionalista Marcel Lefebvre. 
(…) Nada parece mais distante dos sofismas dos lefebvrianos e dos venenos do Vatileaks do que o afeto espontâneo das pessoas pelo seu papa. "Estamos contigo", repetem as faixas em todos os cantos.

Neste último excerto gostei especialmente da expressão “sofismas dos lefebvrianos”. Sim, eles são muito lógicos (reparem como há frases tão repetidas nos comentários deste bloque em relação a certos assuntos: A Fraternidade São Pio X "sólo puede continuar adhiriendo a las afirmaciones y enseñanzas del Magisterio constante de la Iglesia; ella encuentra su guía en este Magisterio ininterrumpido que, por su acto de enseñanza, transmite el depósito revelado en perfecta armonía con todo lo que la Iglesia toda ha creído siempre y en todo lugar) mas têm uma grande falta de imaginação. Lógica sem imaginação e intenção de procurar a verdade sempre incompleta dá sofismo e, se quiserem, fundamentalismo. Lembro-me se alguns raciocínios que já vinham do próprio Lefebvre: Se Cristo é a verdade, todas as demais religiões são erro. Se durante tanto tempo foi assim (latim, batinas, rendas, poderes, ritos…), porque temos de mudar de um dia para o outro? Se sabemos onde está a verdade, porque havemos de querer liberdade para errar? Se sempre jogamos à bola de batina, porque havemos de jogar de calções, essa inovação do Vaticano II (este último raciocínio só se encontra nos apócrifos de Lefebvre).

Cardeal Castrillón Hoyos, que tem sido figura importante no diálogo com os lefebvrianos (foto acrescentada no dia 24 de julho)



segunda-feira, 16 de julho de 2012

Lefebvrianos mais longe da Igreja Católica, essa pérfida?


Marcel Lefebvre, nos tempos em que era missionário no Senegal

"La Iglesia oficial languidece, ha abandonado la doctrina de Cristo, postulándose como socia del mundo ateo", diz um padre dos lefebvrianos. A frase só deixa admirado quem pensava que seria possível um regresso amistoso dos tradicionalistas à Igreja Católica.

Parece que a tentativa de união, tão promovida por Bento XVI, vai ser oficialmente repudiada pelos lefebvrianos (li aqui). Na verdade, quem pensa como o autor da frase, só faz mal se se une à Igreja Católica. E pensam assim todos os lefebvrianos. Desde o princípio. É genético na organização.

Por diversas vezes exprimi neste e noutros espaços a minha descrença quanto ao fim próximo do cisma, a par com uma certa perplexidade pelo regozijo de alguns por tal se apresentar como possível.

Quanto a mim, os lefebvrianos iriam ser uma espécie de cavalos de Troia nas paróquias, nas dioceses, nos movimentos. Dava-se-lhes uma prelatura pessoal, claro, tentando controlar os danos, mas a coisa acabaria por extravasar.

Alguns poderão pensar que tenho algo contra os tradicionalistas. Nadinha. Até gosto dos tradicionalistas, quaisquer que sejam. Há lugar para todos. Não gosto é que os tradicionalistas se arvorem em detentores do que quer que seja, geralmente da verdade.

Já agora, registo que o meu conhecimento dos lefebvrianos vem de longe, em concreto de 1988, quando apresentei um trabalho académico sobre a comunidade tradicionalista. Marcel Lefebvre ainda era vivo. Na altura li em português o “Acuso o Concílio / J’accuse le concile!” (que obviamente faz lembrar o outro “J’accuse”, ainda que os lefebvrianos não tenham propriamente simpatias para com os judeus). Também por isso, não estou a ver estes tradicionalistas a renegarem uma obra fundacional.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Até onde chegam os tradicionalistas

Yves Congar observou, com humor, que os tradicionalistas, tão "autênticos", não vão para além do século XIX ou XVIII.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Joseph Moingt: "Ficai" na Igreja, apesar de tudo



Joseph Moingt, 96 anos, jesuíta, escreveu o livro “Croire quand même” (algo como “Acreditar apesar de tudo”, já aqui referido) e diz que a Igreja ainda é o melhorzinho lugar para se estar. Por isso, se Hessel diz “Indignai-vos”, Moingt afirma: “Ficai”.


O livro tem merecido amplo debate em França e levou muitas pessoas a agradecerem a este teólogo que foi aluno de Henri de Lubac e de quem o espanhol Olegario González de Cardedal (este recentemente homenageado pelo Papa) diz que é dos poucos cuja obra, na actualidade, oferece uma visão sistemática da teologia (quem são os outros? Em breve neste blogue).


Há dias surgiu um artigo no “La Croix” sobre Moingt. Ler aqui. Copio um bocadinho:
Para Joseph Moingt, não é se concentrando na instituição eclesial que se poderá realizar uma reforma radical do catolicismo, mas sim voltando ao Evangelho. "Há a urgência de repensar toda a fé cristã para dizer 'Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem' na linguagem de hoje e em continuidade com a Tradição", repete, baseando-se na sua imensa cultura teológica e bíblica para confirmar que a Igreja não poderá mais seguir em frente com respostas dogmáticas e que é preciso que, dentro dela, os teólogos "façam coisas novas sem ser serem ameaçados de excomunhão". Quanto a ele, a sua prudência nunca foi motivada pelo medo de uma sanção eclesial, mas sim pelo desejo de escrever de acordo com a sua fé. E, depois, "na minha idade, já não se corre muito risco".

terça-feira, 20 de setembro de 2011

O sim aos lefebvrianos é um não ao Concílio Vaticano II?

Depende. Se eles aceitarem o II Concílio do Vaticano, nomeadamente o ecumenismo, a liturgia em vernáculo, o diálogo inter-religioso, a liberdade religiosa, o chamado diálogo igreja-mundo, a identidade laical…, o acolhimento dos tradicionalistas na Igreja católica não significará o fim do concílio.

Mas eles não parecem com vontade de dizer sim a essas aquisições conciliares, pois significaria precisamente dizer não ao que pensam e à forma como agem. E o que pensam é mais ou menos isto: “Nós temos a verdade. Os outros estão no erro. Os outros devem converter-se para evitar o inferno”. E isto aplica-se às confissões não católicas e às religiões não cristãs. D. Marcel Lefebvre dizia: “Nós temos a verdade. Tudo o que for diferente é erro”.


Sobre isto, é interessante o artigo de Massimo Faggioli, doutor em história da religião e professor de história do cristianismo no departamento de teologia da University of St. Thomas, em Minneapolis-St. Paul, nos EUA, que pode ser lido aqui. Começa assim:
O Papa Bento XVI fez um daqueles atos que quase certamente deixarão a sua marca sobre o futuro da Igreja universal. No dia 14 de setembro de 2011, de fato, a Santa Sé entregou aos lefebvrianos um "preâmbulo doutrinal": a assinatura embaixo desse documento é um passo exigido aos lefebvrianos para a entrada novamente na comunhão com Roma da sua pequena mas influente comunidade integrista. 
Não se conhecem os detalhes do "preâmbulo" confiado à Fraternidade São Pio X dos lefebvrianos para um período de estudo e de consulta que deverá durar previsivelmente alguns meses. 
Mas é claro que o pivô do confronto gira em torno do Concílio Vaticano II.

Em todo o caso, deixa-me perplexo que se ponha todo o empenho na união com os mais tradicionalistas dos católicos (os lefebvrianos, ainda que cismáticos), os mais tradicionalistas dos anglicanos (aqueles para quem foi criado um regime especial para os acolher na igreja católica) e os mais tradicionalistas dos cristãos em geral (os ortodoxos, com quem se tem dado grandes passos para a união). Parece pouco católico e tudo para o mesmo lado, a olhar para trás.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Sobre as tensões entre católicos liberais e conservadores


Pode haver tensões dentro da Igreja, entre católicos que são liberais e outros que são conservadores, porque a maioria das pessoas na nossa sociedade são uma coisa ou a outra. Estamos marcados pela cultura da nossa sociedade. Mas não pode ser o âmago real da divisão, porque a fé católica transcende essa polaridade.

Timothy Radcliffe na página 241 de "Ser cristão para quê?"

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Comungar só de joelhos?


Quando se recuperou a missa em latim, segundo o ritual pré-Vaticano II, houve quem dissesse que não havia nada de estranho nisso, pois com multidões plurinacionais o uso da língua oficial da Igreja seria melhor para dar a ideia de catolicidade. Mas logo se tornou claro que a recuperação do latim (talvez dê jeito aos chineses, que andam a aprendê-lo) trazia agarrados outros ritos, paramentos velhos, rendas, luvas, arminhos e outras coisas que não deviam sair dos museus paroquiais e diocesanos. Não é conjuntural, é estrutural, como gostam de dizer os políticos.

Sinais há de que regressa também a teologia do sacrifício. A missa é mais sangue derramado no altar para aplacar Deus do que refeição partilhada em festa. O padre, de costas para o povo, é mais sacerdote e hierarca do que pastor e companheiro.

(Curiosamente, invoca-se que o padre age na vez de Cristo para dizer que uma mulher não tem tal similitude para ser ordenada – não estou a brincar, este é um dos argumentos contra a ordenação –, mas já não se defende que se se trata de oferecer um sacrifício na vez da Igreja, segundo o rito antigo, a mulher teria mais similitude para com a "mãe e mestra", que é a ecclesia, do que o homem...)

Regressa também a linguagem dos anjos e demónios, os sacrifícios feitos pelas crianças, a pureza ritual. Um dia destes será restaurado o limbo para as crianças que morrerem sem baptismo. Voltará a exigência de a mulher entrar na Igreja de véu. E já faltará pouco para se exigir o jejum integral antes da Eucaristia, se é que não é já exigido na chamada missa tridentina.

Agora vem o cardeal António Cañizares, prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, dizer que “é necessário para toda a Igreja que a comunhão se faça de joelhos” (li aqui). Na realidade, o Papa só dá a Comunhão a cristãos de joelhos.

Cada vez é mais necessário recordar a frase mais repetida na Bíblia (talvez daqui a pouco também a não possamos ler livremente): “Quero misericórdia e não sacrifícios”.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Aparições marianas. O que aconteceu em Medjugorje?


As aparições de Medjugorje começaram a acontecer há 30 anos, sejam o que for que tenham sido. Há dias o "Vatican Insider" (um dos sítios mais bem informados sobre a Igreja católica, do jornal La Stampa) publicou uma entrevista do vaticanista Andrea Tornielli, aqui. Na verdade, não percebo se é Tornielli que faz as perguntas, se responde ou se as duas coisas (mais provável). A tradução em português apareceu no sempre atento ihu.unisinos (aqui).

No dia 25 de junho, completam-se os 30 anos das aparições marianas em Medjugorje. Do que se trata?
As aparições de Medjugorje começaram em 1981, quando alguns jovens do pequeno país da Bósnia-Herzegovina disseram ter visto Nossa Senhora. Alguns deles, 30 anos depois, afirmam ainda ter uma aparição diária. A característica totalmente nova dessas aparições está no fato de que a visão não está ligada a um lugar, mas ocorre em todos os lugares em que os videntes se encontram.

As aparições de Medjugorje são aprovadas pela Igreja?
Não, o julgamento desses aparições ainda está pendente. O papa, dado o porte internacional do fenômeno e a discordância de pareceres entre o bispo local e outros bispos do país, nomeou uma comissão internacional, confiando-lhe a liderança ao cardeal Camillo Ruini, para avaliar os testemunhos e manifestar um julgamento. Esse também é um fato totalmente excepcional: o reconhecimento de uma aparição cabe ao julgamento do bispo local.

Quantas são as aparições marianas e quais são as principais entre as que são reconhecidas oficialmente pela Igreja Católica?
Nos 20 séculos de história cristã, contam-se cerca de duas mil indicações relativas a aparições marianas que tiveram uma certa relevância histórica. As que são reconhecidas pela Igreja nos últimos dois séculos são apenas uma dezena. As mais importantes entre as reconhecidas são: Guadalupe, no México (1531); Rue du Bac, em Paris (1830);La Salette, na França (1846); Lourdes, na França (1858); Fátima, em Portugal(1917); Banneux, na Bélgica (1933); Amsterdã, na Holanda (1945); Akita, noJapão (1973); Kibeho, em Ruanda (1981).

Qual é a atitude da Igreja diante desses fenômenos?
Muito prudente, ou melhor, muito prudente mesmo. Antes de se pronunciar, a autoridade eclesiástica procede com pés de chumbo. O bispo do lugar, se considera que há pressupostos, geralmente institui uma comissão teológica, que interroga os videntes e avalia os testemunhos, avaliando também eventuais mensagens ligadas à aparição.

Quais são os critérios utilizados pela Igreja para apurar a autenticidade de uma aparição?
A credibilidade dos videntes: jamais devem se contradizer, seus relatos devem ser coerentes, devem ser reconhecidos saudáveis do ponto de vista mental. Em segundo lugar, a ortodoxia das eventuais mensagens, que devem estar de acordo com a mensagem evangélica e também com o magistério da Igreja. Finalmente, os frutos, ou seja, as conversões e as eventuais graças ligadas ao lugar da aparição.

Que julgamento o bispo pode dar no fim do processo?
Estão previstas três fórmulas para três diferentes tipos de julgamento. Se a autoridade eclesiástica chega a verificar que se tratou de uma fraude ou até da fantasia de algum visionário, o julgamento é "constat de non supernaturalitate", isto é, consta a não sobrenaturalidade. Se, ao contrário, o julgamento é interlocutório e não foi possível apurar a veracidade, mas nem desmenti-la, se adota a fórmula "non constat de supernaturalitate", isto é, não consta a sobrenaturalidade, mas isso não exclui que possa ser verificada em um segundo momento. Esse último julgamento foi utilizado para Medjugorje.

Qual foi a aparição mariana que durou mais tempo?
A poucas dezenas de quilômetros da fronteira com o Piemonte, nos Alpes Marítimos de Dauphiné, em Laus, entre 1664 e 1718, Nossa Senhora apareceu por 54 anos a uma pobre pastora analfabeta, Benoite Rencurel. As aparições de Laus foram reconhecidas oficialmente no dia 13 de junho de 2008 pelo bispo de Gap etd'Embrun, Dom Jean-Michel di Falco-Leandri.

Um fiel católico deve acreditar nas aparições marianas reconhecidas oficialmente pela Igreja?
Não, o fiel católico não é obrigado a acreditar nas aparições marianas, embora reconhecidas oficialmente. A Igreja considera concluída a revelação pública com a morte dos apóstolos e, portanto, todas as aparições, todas as mensagens posteriores, mesmo que tenham um valor universal, são consideradas revelações "privadas", as quais o fiel não é obrigado a acreditar, porque não acrescentam nada à mensagem evangélica e ao magistério da Igreja.

Por que, de acordo com os teólogos católicos, Nossa Senhora se revelaria em tantas aparições?
O significado é o da ajuda, do apoio, às vezes da advertência, sempre acompanhado pelo convite à oração e à conversão: em Fátima, Nossa Senhora apareceu às vésperas da Revolução de Outubro e falou sobre a Rússia. Em Kibeho, em Ruanda, com dez anos de antecedência, ela apresentou aos videntes a visão de lagos e rios de cor vermelho como sangue, cenários que se verificariam por ocasião dos tremendos confrontos entre as etnias hutu e tutsi.

terça-feira, 28 de junho de 2011

O sentido das nossas vidas pertence às...

Não é nem no individual nem o Estado que descobrimos quem somos e porquê. O sentido das nossas vidas pertence às comunidades e às tradições que as moldaram.


Jonathan Henry Sacks (Londres, 8 de Março de 1948), rabi-chefe das Congregações Hebraicas Unidas da Commonwealth

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Rito latino da missa não permite acólitas

A Comissão Pontifícia “Ecclesia Dei” veio esclarecer que as meninas não podem servir ao altar na forma latina da missa (o chamado rito tridentino, pré-reforma do Vaticano II).
É muito estranho – e lamentável, na minha opinião – este esclarecimento, como, aliás, toda esta concessão aos tradicionalistas, que é o regresso a este rito. Com mais um esforço, a comissão ou alguém por ela ainda é capaz de descobrir que as mulheres não podem ser baptizadas.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Ainda o manifesto dos teólogos: Liberdade e fidelidade à Igreja ou a Jesus?


Entre os muitos comentários sobre as proposta dos teólogos de língua alemã para mudar alguns aspectos da prática eclesial estão as respostas inteligentes e sensatas do teólogo jesuíta brasileiro João Batista Libânio. Eu resumiria assim: Quem quer mudanças na Igreja apela a Jesus Cristo e ao seu agir e pensar. Geralmente, quer arriscar. Quem não quer que a Igreja mude apela à Tradição. Conservar é a palavra de ordem.

Mas o melhor é ler o que diz o teólogo jesuíta:
A tônica do projeto do Papa e a do manifesto são divergentes. No primeiro caso, volta-se para a Igreja e quer mantê-la na sua atual estrutura e, a partir daí, cumprir melhor sua função. No outro, propõe-se o projeto de Jesus e se pergunta como adequar as estruturas da Igreja a ele. Pontos divergentes que geram leituras diferenciadas. Só o diálogo mostra o limite e a positividade de cada perspectiva. O manifesto acentua: primeiro a liberdade individual e de consciência e a partir dela a fidelidade. A atual disciplina eclesiástica: primeiro a fidelidade à doutrina e à prática e aí dentro a liberdade.
Ler tudo aqui.

domingo, 2 de janeiro de 2011

A sagrada tradição

Bento Domingues escreve na sua crónica de hoje (ver aqui), a propósito da liberdade religiosa, condenada por papas ao longo de séculos, mas consagrada no II Concílio do Vaticano: “A cortesia oficial dos documentos eclesiásticos diz sempre, com humor inconfessado, que está a continuar aquilo mesmo que está a modificar: «Este Concílio Vaticano investiga a sagrada tradição e a doutrina da Igreja, das quais tira novos ensinamentos, sempre concordantes com os antigos»” (Dignitatis Humanae, 1).

Tive um professor, que, julgo que citando alguém da sua companhia, dizia: “Não sabemos quando a Igreja vai começar a ordenar mulheres, mas já sabemos como começa o documento que vai instituir a ordenação de mulheres: «Conforme a sagrada tradição e a doutrina da Igreja…».

sábado, 17 de julho de 2010

Anselmo Borges: O restauracionismo na Igreja

Anselmo Borges no DN de hoje:


Como reconciliar diferentes visões e modelos de Igreja? O bispo não tem a resposta, mas sabe que "devemos encontrar uma atitude de respeito e reverência pela diferença e diversidade enquanto procuramos uma unidade viva na Igreja".


Penso que a autoridade moral da liderança da Igreja hoje nunca foi tão fraca. Por isso, na minha opinião, é importante que, em vez de dar uma impressão de poder, privilégio e prestígio, a autoridade da Igreja seja experienciada como humilde, procurando o ministério em conjunto com o povo, em ordem a discernir as respostas mais apropriadas e viáveis para questões complexas éticas e morais - uma liderança, portanto, que não presume ter sempre todas as respostas". Palavras fortes e raras de um bispo católico. No caso, Kevin Dowling, de Rustenburg, África do Sul, no contexto de uma reflexão para um grupo de católicos leigos influentes e dentro de uma análise "aberta e honesta" da presente situação da Igreja.


Dowling começou por referir-se a uma celebração de uma missa em latim na Basílica do Santuário Nacional da Imaculada Conceição em Washington, na qual o bispo Edward Slattery usou a esplendente cappa magna, vermelha e com uma cauda de vários metros. Esta manifestação de triunfalismo, numa Igreja despedaçada pelo escândalo dos abusos sexuais, foi "completamente infeliz".


Segundo o bispo de Rustenburg, o que aí aconteceu leva as marcas de uma corte real medieval, que nada tem a ver com uma liderança humilde e de serviço, segundo o modelo de Jesus. Isso é também um símbolo do que tem estado a acontecer na Igreja, especialmente desde o tempo de João Paulo II: o "restauracionismo", "o desmantelamento cuidadosamente planeado da teologia, da eclesiologia, da visão pastoral, do Vaticano II, em ordem a 'restaurar' um modelo mais controlável da Igreja; uma estrutura que agora controla tudo na vida da Igreja, através de uma rede de Congregações do Vaticano, presididas por cardeais que asseguram a conformidade estrita com o que eles julgam ser 'ortodoxo'". Quem não está de acordo enfrenta a censura e o castigo.


Há uma tentativa de voltar atrás em relação ao Vaticano II. Esquecendo que foi um Concílio ecuménico, portanto, um exercício solene de magistério da Igreja, cujos princípios e ensinamentos devem ser seguidos e implementados por todos, pretende-se que um conjunto de decretos, pronunciamentos e decisões posteriores tenham mais força, apesar de não passarem de opiniões e interpretações de quem tem poder no Vaticano. É assim que questões como as do celibato dos padres ou da ordenação das mulheres são retiradas até da possibilidade de discussão.


O bispo percebe a existência de grupos e organizações conservadores, no quadro de uma Igreja mais receosa e mais voltada para dentro. Mas também pergunta: quem é que hoje "lá fora" ainda ouve, aprecia e se sente desafiado pela liderança da Igreja? E acusa a "mística" que rodeia a figura do Papa nos últimos 30 anos, que faz com que "a mínima crítica ou questionamento da sua política, do seu modo de pensar, do seu exercício de autoridade, etc., sejam identificados como deslealdade".


A doutrina social católica assenta nos seguintes princípios: "o bem comum, a solidariedade, a opção pelos pobres, a subsidiariedade, o destino comum dos bens, a integridade da criação, o centramento nas pessoas", que se baseiam e seguem o Evangelho.


Estes princípios deveriam "capacitar-nos enquanto Igreja para criticar construtivamente todos os sistemas e políticas sócio-político-económicos", especificamente a partir dos seus efeitos sobre os mais pobres e vulneráveis. Mas, cá está: para poder criticar, a autoridade da Igreja deve estar também disposta a submeter-se à crítica e seguir ela própria os princípios que prega.


O princípio de subsidiariedade deixou de aplicar-se na vida da Igreja por causa da centralização das decisões no Vaticano e "a ortodoxia é cada vez mais identificada com opiniões e perspectivas conservadoras, seguindo-se daí que o que cheira a 'liberal' é suspeito e não ortodoxo".


Como reconciliar diferentes visões e modelos de Igreja? O bispo não tem a resposta, mas sabe que "devemos encontrar uma atitude de respeito e reverência pela diferença e diversidade enquanto procuramos uma unidade viva na Igreja".

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...