Mostrar mensagens com a etiqueta Pedro Mexia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Pedro Mexia. Mostrar todas as mensagens

sábado, 2 de outubro de 2010

Católicos ou gastrónomos

Há um livro de uma escritora luso-brasileira, em que a protagonista se passeia entre ex-comunistas agora católicos ou gastrónomos. Uma das narradoras (julgo que há duas), olhando para os anos 80 lisboetas do século passado, entre outras coisas, lembra-se das porteiras viciadas em Deus. O livro chama-se “Para Interromper o Amor”. As referências que apontei devem ser as duas únicas à religião. Diz Pedro Mexia numa crítica do "Ípsilon" de hoje que, com ele, Mónica Marques trouxe à literatura portuguesa uma desenvoltura sexual. Eu fiquei a pensar em quem serão os ex-comunistas católicos ou gastrónomos.

sábado, 4 de setembro de 2010

Lágrimas de Eros

Franz von Stuck, "Adáo e Eva", c. 1892
Título:

Escreve Pedro Mexia no "Público" de hoje, a pretexto da exposição intitulada "Lágrimas de Eros", no museu madrileno Thyssen-Bornemisza:

«A cultura do optimismo sexual não compreende o conceito de “lágrimas de Eros”. Bataille explica porquê: desvalorizámos a componente religiosa da sexualidade. E agora há aspectos que nos escapam. É fácil dizer que o cristianismo condena a sexualidade; mas é preciso percebermos que o interdito religioso é a suprema homenagem ao erotismo, e também um elo de ligação entre o sagrado e o profano. A sexualidade, tal como o divino, é alguma coisa que excede a simples realidade, é uma dimensão visceral que violenta o nosso conforto quotidiano. E isso não nasceu com o cristianismo: Bataille lembra que os cultos dionisíacos eram cultos do trágico. O que mudou, desde os gregos, foi o avanço do sujeito individual, que cultiva um utilitarismo hedonista indiferente ao religioso. Muita gente vive hoje como se houvesse sexualidade sem tragédia. Como se houvesse Eros sem lágrimas».

Pode-se conhecer a exposição aqui.
E aqui pode-se espreitá-la mesmo.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Como a aproximação poética torna o catolicismo atractivo

Pedro Mexia escreve no “Ípsilon” (“Público”) de hoje uma crítica ao livro “O Hipopótamo de Deus” (ed. Assírio &Alvim), do padre e poeta Tolentino Mendonça. Dá-lhe apenas três de cinco estrelas. Mas só diz bem. Sintetiza bem o livro (a maior parte dos textos que o compõem foram saindo na imprensa católica - li-os e citei alguns neste blogue) e o momento católico que se vive. Transcrevo os parágrafos do meio do texto de Pedro Mexia. Talvez apareça on-line um dia destes.

“Aquilo que tem afastado as pessoas de «tenda» católica é, digamos, a atitude da trupe. É essa atitude que se discute em «O Hipopótamos de Deus e Outros Textos».

José Tolentino Mendonça defende que as três tarefas decisivas para um padre, hoje, são a transmissão do Evangelho, o acolhimento pastoral e o diálogo com o mundo. Os padres católicos nunca abandonaram por completo as duas primeiras funções, mesmo quando as cumprem com algum desleixo; em contrapartida, a abertura ao mundo, mau grado o já longínquo Vaticano II, nunca foi uma prioridade. O «mundo» era, antigamente, um dos inimigos da fé, junto com o «demónio» e a «carne», e a Igreja ainda não abandonou completamente essa ideia. O «Hipopótamo de Deus» propõe uma renovada atenção ao que se passa aqui e agora, à nossa volta, à nossa porta, ao mesmo tempo que desmistifica algumas ideias caricaturais acerca do catolicismo.

Tolentino é poeta, e é a aproximação poética, e não apenas argumentativa, que faz com que tudo no catolicismo pareça aceitável e até atraente. Basta por exemplo elogiar o espírito «nómada» dos peregrinos, e uma actividade que nos parece própria de uma religiosidade acrítica ganha contornos aventurosos, dignos de um Chatwin. Uma prática tida como arcaica, como é o jejum, é apresentada como uma vantajosa purificação. O ancestral conflito com a ciência é atenuado com uma frase bem formulada sobre o céu. Em resposta a Saramago, diz-se que a história de Abel e Caim mostra que a fraternidade não é uma condição mas uma escolha. E assim por diante”.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Depois do Concílio Vaticano IV


Pedro Mexia, n'A Lei Seca (aqui, ver 14 de Julho):

Em Catholics, bizarro telefilme de 1975 baseado num romance de Brian Moore, a Igreja teve o seu Concílio Vaticano IV, e depois disso um grupo de frades rebeldes refugiou-se numa ilha. Aí celebram a missa em latim e vivem uma cristandade antiga, em comunidade. A Igreja Católica do futuro, tal como surge nesta ficção, é a Igreja dos sonhos de Küng. Ou, desçamos o nível, de Anselmo Borges. É uma Igreja modernaça, onde tudo o que é sagrado ou metafísico foi tornado meramente «simbólico» e mediaticamente aceitável. A Igreja aboliu a confissão, a transubstanciação, a oração, e defende a união de todas as religiões numa única grande ideologia «humanista» e imanente. Já não há «mistério da fé», porque já não há mistério nem fé. E a hierarquia tenta que os rebeldes se submetam à ortodoxia liberal. Somos então confrontados com uma curiosa dúvida: vale mais uma fé inabalável baseada em possíveis falsidades ou a verdade humanista mas sem convicção? Não é de todo esse o estado do catolicismo em 2010, mas este objecto de 1975 deve ser guardado para memória futura.

Fim de cópia.

O actor principal do filme (que vários sítios da Internet dizem que é de 1973; o romance é de 1972) é Martin Sheen.

Brian Moore nasceu em 1921, na Irlanda, e morreu em 1999, na Califórnia. Oriundo de uma família de nove irmãos, perdeu a fé quando era jovem. As suas obras reflectem com frequência as temáticas católicas, principalmente a perda de fé. Teve uma irmã freira que criticou os seus escritos. É autor do romance que está na origem do filme "The Statement", de 2003, sobre um francês colaboracionista que entregou judeus aos nazis.

Não creio que a Igreja do filme (e do romance, pelo que acabei de ler on-line) seja a de Kung ou Borges. Seria mais a do prosseguimento do protestantismo liberal e de algum modernismo católico. Mas passa a ideia.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Transfiguração no topo das torres gémeas

Pedro Mexia no Público deste sábado:

“Philippe Petit paira entre os dois edifícios, como se dançasse, deita-se, ajoelha-se, agradece, vai e volta oito vezes, mostra a todos como é esplendorosa a vida no arame, como nenhuma vida vale a pena se não for vivida no arame”.

Parte do texto pode ser lida aqui (8 de Janeiro de 2010). A totalidade, só no Público. On-line só a pagar. Mas está no papel e a certo ponto diz isto:

“(…) Na noite de 6 de Agosto de 1974, [Philippe Petit] sobre à socapa ao último andar de uma das torres. Escreve Philippe que o calendário cristão tem o 6 de Agosto como dia da “transfiguração”:«Não sei o que significa na iconografia cristã do cristianismo, mas quando imagino entrar nas vísceras escuras do WRC, aparecer no cima da sua coroa, estender um arame na escuridão total e, depois, aparecer inundado de luz, balançando no topo do mundo, acho que transfiguração é uma palavra adequada»”.

domingo, 29 de novembro de 2009

Darwin, humanista vitoriano

Pedro Mexia diz que temia que "Darwin fosse um ateu fanático ou um desvairado eugenista".

"Quando finalmente o li com atenção, percebi quão infundados eram tais receios. Darwin foi um humanista vitoriano, que descrevia e não prescrevia, e de quem aliás são conhecidas posições contra a escravatura, por exemplo. O abominável «darwinismo social» não é invenção nem culpa dele. Quanto à religião, não confundamos Darwin com Dawkins. Darwin escreveu na sua Autobiografia: «O mistério do início da todas as coisas é insolúvel para nós; e por mim contento-me em permanecer Agnóstico». Eu, que permaneço crente, concordo. O mistério é insolúvel. A humildade de dizer que é insolúvel já é muito" (A Lei Seca, post de 24 de Novembro).

domingo, 4 de outubro de 2009

Adília e Deus

Acerca do livro de Adília Lopes “César a César”, de 2003, Pedro Mexia escreveu (no DN de 9 de Setembro de 2003): “O mais curioso em "César a César" será, provavelmente, a recorrente temática religiosa. Deus é uma presença inescapável e violenta na poesia de Adília, que se considera uma «cristã triste». A abordagem ao cristianismo é sempre heterodoxa, e gémea de um desbragado erotismo mental. Adília vive uma religiosidade recalcada e reclusiva, capaz de associações insólitas. Mas a sua fé parece inquestionável e até estranhamente solar, como no poema em que explica que não lhe interessa a cruz sem a luz, nem a luz sem a cruz, provando assim que um jogo de palavras pode ter um significado mais profundo”.

sábado, 12 de setembro de 2009

Mike Bongiorno e Paolovi


No P2 do "Público" de hoje, Pedro Mexia escreve sobre Mike Biongiorno, um italo-americano apresentador de televisão, conhecido pelas suas “gaffes” e protótipo do “homo televisivus”. Morreu no dia 8 de Setembro deste ano. Sobre Mike Bongiorno há um ensaio de Umberto Eco, citado por Mexia (“Fenomenologia de Mike Bongiorno”, no “Diário Mínimo”). Escreve Eco em 1961, conforme cita Mexia: “A situação nova que se coloca a respeito da TV é esta: a TV não oferece, como ideal para o ensimesmamento do indivíduo, o superman, mas sim o everyman. A TV apresenta como ideal o homem absolutamente mediano”.

É elucidativo sobre a época em que vivemos, em que a comunicação “mais do que instrumental” é “ambiental”, como afirmou D. Manuel Clemente nas recentes jornadas de Fátima dos meios de comunicação de inspiração cristã.


E agora a pequena história

Em Mike Bongiorno as gaffes eram abundantes. “Não se envergonhava da sua ignorância, fazia gala de não aprender nada e multiplicava os erros embaraçosos em directo e ao vivo”, diz Mexia. E destaca este: “O apresentador leu mal «Paolo VI» e confessou de imediato que não fazia ideia quem fosse esse sujeito, o senhor Paolovi”.


[Como o colunista do "Público", também eu pensava que Mike Biongiorno era uma figura ficcional, à semelhança do albanês Milo Temesvar dos “Apocalípticos e Integrados”, que não existe, mas fez editores e críticos procurarem “espasmodicamente” as suas obras, como afirma o próprio Eco].

sábado, 11 de julho de 2009

A incredulidade de Pedro Mexia no santo divã


Gosto de apontar neste blogue os usos profanos da linguagem religiosa. Chamo-lhes “inspirações” (ver etiqueta), palavra que remete para algo que vem do alto. Há quem nos seus textos fale de pecados e revelações, céus e heresias… Faço estas notas como sinais da impossibilidade de reclusão da semântica religiosa no que é estritamente religioso. A linguagem religiosa dá quase sempre boas metáforas para falar do que é importante, sublime, doloroso…

Pedro Mexia, no P2 de 11 de Julho, escreve sobre uma visita à casa de Freud em Londres (n.º 20 de Maresfield Gardens, como refere), a sua familiaridade com os textos de Freud e a fé ou falta de fé na psicanálise.

O texto chama-se “santo divã”. Logo no título temos um caso, a que será de acrescentar a imagem que ilustra o texto. O cronista descreve um sofá com colcha, mais de acordo com a imagem que se reproduz acima do que com a do “Público”, onde o móvel aparece despido. É bem de ver que o divã é o altar da psicanálise, embora não seja usada a palavra altar, nem sacerdócio (saberá Mexia da abstinência sexual da segunda metade da vida de Freud?), nem sacrifício.

Pedro Mexia diz que entrou a medo, “num espreito quase religioso”. Claro, estava a pisar o santuário. A certa altura diz: “Aproximei-me o mais que pude do divã. O santo divã, relíquia do mundo ocidental”. Parecia Moisés a aproximar-se da sarça.

E ainda: “A Psicanálise como terapia tem uma dimensão de fé. É como os bonecos vudu: só morre quem acredita. Ou, neste caso, só vive quem acredita. Eu não acredito, nunca acreditei, passei pelos santos divã como jogo intelectual, mas ninguém cura coisa nenhuma, ou pelo menos não me foi dada essa fé”.

Pedro Mexia saiu “de mansinho da casa do bom doutor”. Saiu “reconfortado”, mas não convertido.

domingo, 5 de julho de 2009

Paulo e Pedro


Pedro Mexia, no “Público” de 4 de Julho, escreve sobre Paulo de Tarso. Além do habitual – que nasceu em Tarso, que é o primeiro intelectual cristão, que escreveu cartas (Mexia prefere a aos Gálatas), que escreveram sobre ele no Livro dos Actos, que teve uma revelação, que de Jesus valoriza a morte e ressurreição – diz, em notável síntese:

“A grande revelação Paulina consiste na convicção de que a fé em Cristo não se dirige apenas a judeus mas a todos. Ele é conhecido como «o apóstolo dos gentios» porque recusou a tese «judaizante» segundo a qual primeiro era preciso ser judeu (ou convertido ao judaísmo) e só depois se podia abraçar o cristianismo. Além disso, os judaizantes defendiam o cumprimento estrito da Lei, enquanto para Paulo a Lei era suplantada pelo espírito, e por isso os rituais e mandamentos judaicos estavam ultrapassados. Nenhuma outra doutrina causou tantos ataques. A polémica entre Paulo e Pedro é um dos momentos mais marcantes de toda a história do cristianismo e revela até que ponto o cristianismo é também uma religião de polémica e confronto, bem diferente de uma certa imagem beatífica e sentimental”.

Pedro Mexia dedica o texto a Tiago Cavaco, que é pastor baptista, bloguista (Voz do Deserto) e, ao mesmo tempo, músico panque-roque, como gosta de dizer, sob o nome de Tiago Guillul.

Imagem: "Damascus Illumination", de Paul Granlund, 1967, bronze na Igreja Luterana de S. Paulo, West Avenue at Madison.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Zaqueu em duplicado

(Imagem: Mosaico da Basílica de São Marcos, em Veneza)


In Urbe
Zaqueu subiu a uma árvore
Para ver o Senhor.
A falta de árvores será então
o meu alibi.

Pedro Mexia, “Eliot e outras Observações”, Gótica, pág. 135


Zaqueu
A árvore foi a forma de te ver
E desci para abrir a casa.
De me teres visitado e avistado
Entre ramos
Fizeste-me passagem
Da folha ao voo do pásssaro
Do sol à doçura do fruto.
Para me encontrares me deste
A pequenez.

Daniel Faria, "Poesia", edições quasi, pág. 167

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...