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sábado, 28 de agosto de 2010

Tarde Te amei

Santo Agostinho", retrato de Philippe de Champaigne (séc. XVII)

Um texto clássico de Agostinho de Hipona, para terminar este sábado.

Tarde Te amei,
Ó beleza tão antiga e tão nova!
Tarde Te amei!
Tu estavas dentro de mim
E eu estava fora;
E aí Te procurava,
Lançando-me com brutalidade,
Sobre as coisas belas feitas por Ti.
Tu chamaste-me, gritaste,
Venceste a minha surdez.
Tu, brilhante, refulgiste,
Dissipaste a minha cegueira.
Espalhaste o teu perfume,
Eu resfriei-o e agora anseio por Ti.
Provei-te e agora sinto fome e sede.
Tocaste-me e ardo de desejo
Pela Tua paz....

Agostinho de Hipona
(Tagaste, 13 de Novembro de 354 — Hipona, 28 de Agosto de 430)

domingo, 20 de junho de 2010

O bilhete de Emily Dickinson


Nunca eu falei com Deus
Ou visitei o Paraíso
Contudo, eu estou seguro disso
Como se tivesse o meu bilhete.

Emily Dickinson (1830-1886)

domingo, 6 de junho de 2010

Uma aparentemente desusada ideia de consciência


Mesmo o homem encerrado num armário de vidro fica menos embaraçado do que ficará diante de Deus cada um de nós na sua transparência.

Soren Kierkegaard (1813-1855)

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Que eu creia para que possa entender


Ensina-me a procurar-te
e mostra-te a quem te busca,
Porque não posso procurar-te,
Se não me ensinares.
Nem encontrar-te,
se não te mostrares.
Que eu te procure desejando,
que te deseje procurando,
te encontre amando,
que te ame voltando a encontrar-te…
De facto, não peço que entenda para que possa crer,
mas que creia para que possa entender.
Pois também isto não entenderei,
se não tiver crido.

Anselmo de Cantuária (1033-1109), excerto da obra "Proslogion"

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Para terminar o dia: Oração do Perdão

Senhor, não vos lembreis só
dos homens e mulheres de boa vontade,
mas também dos de má vontade.
Não vos lembreis só dos muitos
sofrimentos que nos infligiram,
lembrai-vos dos frutos que alcançámos
graças a esses mesmos sofrimentos:
a nossa camaradagem, a nossa lealdade,
a nossa humildade, a fortaleza,
a generosidade, a grandeza de coração
que daí brotaram; e, quando eles vierem
a julgamento, que todos os frutos gerados
em nós sejam o seu perdão.

Oração encontrada num fragmento de papel junto ao corpo de uma criança no campo de concentração de Ravensbruck, no final da II Guerra Mundial

sexta-feira, 26 de março de 2010

O que é a vida moral?

"Este é o desafio fundamental da vida moral em termos católicos clássicos: o desafio da dádiva de si mesmo aos outros. Tudo o resto – incluindo regras e leis, prescrições e proibições – gira à volta disso. A dádiva de si mesmo prepara-nos para sermos o tipo de pessoa que pode viver com Deus, uma Trindade de Pessoas que se entregam a si mesmas, para sempre.

A vida moral não é algo que se acrescente à vida real, do exterior. Vivemos no espaço entre a pessoa que somos hoje e a pessoa que devíamos ser.

A moralidade não se limita a ordens e deveres, embora envolva ordens e deveres. Vista do interior, a moralidade tem a ver com felicidade e com as virtudes que resultam na felicidade".

George Weigel, “A verdade do Catolicismo”, Bertrand Editora, pág. 82

domingo, 21 de março de 2010

Para terminar o dia: "Senhor, dá a cada um a sua própria morte"

Ó Senhor, dá a cada um a sua própria morte,
Uma morte nascida da sua própria vida,
que lhe deu amor, sentido e aflição.

Porque nós mesmos somos apenas a folha e a casca.
A grande morte que cada um traz em si
É o fruto e o centro de tudo.

Rainer Maria Rilke (1875-1926)

quarta-feira, 10 de março de 2010

Para terminar o dia: Silêncio

"O santo tem razão em dizer que o silêncio nos aproxima de Deus. É quando tudo se cala em nós que nós somos capazes de O aperceber, a Ele, quer dizer, alguém ou alguma coisa que não resiste à análise mas que preenche, contudo, o nosso silêncio".

Emil Cioran (1911-1995)

sábado, 6 de março de 2010

Para terminar o dia: Levar a cruz

Parece que basta evocar a palavra «cruz» para nos evocar um contexto de dor e de negatividade, de lágrimas e de sangue, de maneira que a expressão «levar a sua cruz» equivale quase sempre a «sofrer uma provação», «resignar-se ao inevitável», «sofrer sem lamentar-se». Pode-se mesmo chegar a determinados casos extremos, não muito raros, que levam a uma suspeita sistemática do prazer e a procurar autocastigar-se quando parece que as coisas correm demasiado bem.

Deve-se reconhecer que há uma forma incorrecta de entender a cruz, que empobrece e reduz o seu significado e produz uma visão sofrida e tétrica do cristianismo, onde a fé, em vez de funcionar como força dinâmica e positiva, leva a que a pessoa se dobre sobre si mesma, numa atitude lamurienta e vitimista, que é tudo menos a resposta a um «bom romance».

Domenico Pezzini em “As feridas que curam” (ed. Paulinas)

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Aos olhos dele - poema de Florbela Espanca

Florbela Espanca, no Parque dos Poetas, em Oeiras

Aos olhos dele

Não acredito em nada. As minhas crenças
Voaram como voa a pomba mansa,
Pelo azul do ar. E assim fugiram o
As minhas doces crenças de criança.

Fiquei então sem fé; e a toda gente
Eu digo sempre, embora magoada:
Não acredito em Deus e a Virgem Santa
É uma ilusão apenas e mais nada!

Mas avisto os teus olhos, meu amor,
Duma luz suavíssima de dor...
E grito então ao ver esses dois céus:

Eu creio, sim, eu creio na Virgem Santa
Que criou esse brilho que m'encanta!
Eu creio, sim, creio, eu creio em Deus!

Soneto de Florbela Espanca retirado de "A Mensageira das Violetas"

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Para terminar o dia - um textinho de Lutero

Lutero é que devia ser o patrono dos filósofos e teólogos (mas o cargo também está bem atribuído a S. Tomás de Aquino).

"Julgas-te muito conhecedor e deixas que os outros te considerem como tal, deleitas-te com os teus próprios livrinhos, teorias, ou escritos, como se tivesses feito uma grande coisa, ou pregado excelentemente.
Também te agrada muito que os outros te façam lisonjas em público, talvez seja esse o teu maior desejo, de contrário ficarias contristado, ou declinarias o elogio. Se é esta a tua maneira de proceder, mais vale deitares as mãos à cabeça. E com proveito! Encontrarás um lindo par de orelhas de burro, grandes, compridas! Aproveita a oportunidade: enfeita-as com guizos dourados, de forma a que toda a gente te possa ouvir onde quer que vás.
Todos apontarão para ti, dizendo: «Olhai, olhai, ali vai o animal inteligente, que escreve livros importantes e que faz lindas pregações». Então, sim, serás ditoso, serás bem-aventurado no Reino dos Céus. Sim, nessa altura já o fogo do inferno está pronto para o diabo e para os seus anjos".
Lutero, 1539

sábado, 28 de novembro de 2009

Bendita ilusão

À noite, quando dormia,
sonhei - bendita ilusão -
que um ardente sol luzia
dentro do meu coração.

Era ardente porque dava
calor de vermelho lar,
e sol porque alumiava
e porque fazia chorar.

À noite, quando dormia,
sonhei - bendita ilusão -
que era Deus a quem eu tinha
dentro do meu coração.

António Machado (1875-1929)

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Não vás à frente nem atrás, pede Camus

Não vás à minha frente,
que não te posso acompanhar.
Não vás atrás de mim,
que não me poderás guiar.
Caminha apenas junto de mim
para, simplesmente, seres meu amigo.

Albert Camus, escritor francês (1913-1960)

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Para terminar o dia

As três virtudes

Porque as minhas três virtudes, diz Deus,
minhas criaturas, minhas filhas, minhas crianças,
são como as minhas outras criaturas
da raça dos homens:
a Fé é uma esposa fiel,
a Caridade é uma mãe, uma mãe ardente, toda coração
ou quiçá uma irmã mais velha que é como uma mãe.
E a esperança é uma criancita de nada
que veio ao mundo no Natal passado
e que ainda brinca em Janeiro.


Charles Péguy (excerto de “As três virtudes” in “Palabras cristianas”)

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Para terminar o dia

Que bem sei eu a fonte que mana e corre,
mesmo se é noite!

Aquela eterna fonte está escondida.
Que bem sei onde tem sua guarida,
mesmo se é noite!

Sua origem não a sei, pois não a tem,
mas sei que toda a origem dela vem,
mesmo se é noite!

João da Cruz

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Para terminar o dia

Quando leio passagens bíblicas em inglês, não porque procure, mas porque fortuitamente dou com elas, penso que “a língua inglesa fica sempre bem / e nunca atraiçoa ninguém”, como cantam os Clã em "Problema de Expressão". Hoje foi esta:

But the people who trust the Lord
Will become strong again.
They will rise up as an eagle in the sky.
Isaiah 40,31

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Para terminar o dia

Eu vivo sem viver em mim mesmo

Eu vivo sem viver em mim mesmo
E espero tão alta vida
Que eu morro por não morrer.
Esta reunião divina
Que é o amor com o qual vivo
Faz de Deus meu cativo
Enquanto o meu coração é livre;
Mas eu experimento paixão tal
De ver Deus meu prisioneiro
Que eu morro por não morrer.

Teresa d'Ávila (1515-1582)

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Para terminar o dia

"Os rituais não requerem muito tempo. Posso transformar o decurso de um dia de trabalho normal num ritual, como, por exemplo, o levantar-me, o lavar-me, o pequeno-almoço, a ida para o trabalho. Se transformar estas pequenas acções num ritual, elas acabam por divertir-me e eu passo a viver com base nelas. Os rituais tornam-se pontos de paragem no tempo. Durante os rituais, o tempo pára. Termina aí a caracterização do tempo orientada por um objectivo. Concedo-me a honra de ter um ritual. Entro em contacto comigo mesmo. Consigo respirar".

Anselm Grun, "Ao ritmo do tempo dos monges" (Ed. Paulinas), pág. 137

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Como dormir bem

"Feito o exame de consciência e rezadas as minhas orações, porque não deverei dormir tranquilo? Se me perturbasse, não estaria a seguir com seriedade o Evangelho que nos lembra, sem agradecimentos, que cada um de nós não passa de um ‘servo inútil’. Devemos levar até ao fim os nossos deveres, mas conscientes que a Igreja não é nossa, é daquele Cristo que deseja usar-nos como instrumento mas que nos deixa sempre o Senhor e o Seu caminho. A nós ser-nos-ão pedidas contas pelo nosso empenho, não pelos resultados".

Cardeal Ratzinger em entrevista conduzida por Vittorio Messori.

Para terminar o dia

O desejo de felicidade não é uma questão de psicologia ou química cerebral, mas de origem divina. "Deus pô-lo no coração do homem para o atrair a Si, pois só Ele o pode satisfazer" (Catecismo da Igreja Católica, 1718).

George Weigel, A Verdade do Catolicismo (Bertrand Editora), pág. 83

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...