domingo, 6 de março de 2011
Bento Domingues: Construir sobre a rocha ou sobre a areia
sábado, 11 de setembro de 2010
Panikkar no "Público" de 11 de Setembro
Anselmo Borges: Panikkar, "católico, hindu e budista"
Anselmo Borges escreve sobre Raimon Panikkar no DN de hoje. Texto retirado daqui.
Só estive com ele uma vez. Em Barcelona, em 2004, no Parlamento das Religiões. Morreu no passado dia 26 de Agosto, com 91 anos, em Tavertet, uma aldeia para onde se retirara, perto de Barcelona.
O Padre Raimon Panikkar era uma das maiores autoridades mundiais nas questões do diálogo inter-religioso. As suas raízes genéticas, religiosas, académicas, geográficas, deram um contributo decisivo para ser ponte entre Ocidente e Oriente: o pai era hindu e a mãe, catalã católica; era doutorado em Filosofia, Química e Teologia; viveu uma parte da sua vida na Europa, outra viveu-a na Ásia, uma terceira passou-a na América. Ensinou em várias universidades, entre as quais Santa Bárbara, na Califórnia, e Harvard. Deixou mais de 50 livros, em várias línguas. No meio de uma vida agitada e aparentemente dispersa, manteve, no Uno, a serenidade do monge.
O funeral, numa celebração solene e íntima, foi segundo o rito exclusivamente católico, mas Panikkar deixou instruções precisas para que as suas cinzas fossem repartidas entre a família, o cemitério de Tavertet e o rio Ganges, na Índia.
Regressado precisamente da Índia, disse que voltava hindu e budista, sem que isso significasse deixar de ser cristão: pelo contrário, agora, era mais cristão. Por isso, para lá do diálogo inter-religioso, defendia o diálogo intra-religioso, isto é, aquele diálogo que cada um deve estabelecer dentro de si mesmo entre as grandes religiões, cuja herança pertence a todos.
Depois dos períodos de isolamento e ignorância recíproca, indiferença e desprezo, condenação e conquista, coexistência e tolerância, chegou como "necessidade vital" o tempo do diálogo entre as religiões. É preciso superar tanto o exclusivismo, que afirma que só uma religião é verdadeira, rejeitando as outras, como o inclusivismo, segundo o qual a verdade de uma está implícita nas outras. O diálogo autêntico só pode ter por base o são pluralismo: todas as religiões são presença do Absoluto, mas nenhuma o possui definitivamente.
Este diálogo é constitutivo do ser humano enquanto tal, pois o homem não é uma mónada fechada, mas uma pessoa, um feixe de relações. Por isso, também é político, pois a religião não é uma questão privada e implica o diálogo com a Terra, a que chamou ecosofia.
E aí está a razão por que é necessário superar "três dualismos, seis dicotomias e três reducionismos", querendo dizer com isto que se torna imperioso unir o que tem andado separado.
Os dualismos são: Deus e homem, homem e natureza, natureza e Deus. Não se trata agora de confundir, mas de religar.
As seis dicotomias: alma e corpo, masculino e feminino, indivíduo e sociedade, teoria e praxis, conhecimento e amor, tempo e eternidade. Também aqui, não se trata de reduzir tudo ao mesmo, mas de tomar consciência de que uma realidade não existe sem a outra e de mostrar a sua relação intrínseca: o ser humano é uno, o masculino não se entende sem o feminino, o indivíduo não existe sem a sociedade, o conhecimento sem amor não passa de cálculo, o tempo está vinculado à eternidade - "tempieternidade", dizia.
Os três reducionismos: "O antropológico, que reduz o homem a um animal racional; o cosmológico, que reduz o cosmos a um corpo inerte; o teológico, que reduz a Divindade a um Ser transcendente." Afinal, o homem não é redutível a animal racional, e, quando se reduz o cosmos a um corpo inerte, esquece-se a sua dimensão sagrada e viva, e o modo de transcendência de Deus só pode ser este: no mundo, Deus é transcendente ao mundo.
Assim, a religião do futuro tem de religar o que tem andado separado: Deus, cosmos e homem. Ela irá vincular de modo harmónico as três dimensões últimas da realidade: o aspecto material e corporal, as diferentes facetas do homem e o princípio mistérico e transcendente, numa conexão de inter-in-dependência, de tal modo que uma não é sem as outras. A religião volta a ser central na vida humana, religando esses três pólos. Chamou a esta sua visão "A intuição cosmoteândrica", numa obra traduzida em português.
domingo, 29 de agosto de 2010
Raimon Panikkar: O diálogo inter-religioso é imparável
O diálogo inter-religioso tem altos e baixos, mas já ninguém o pode parar. Essa é a convicção do co-presidente do Parlamento das Religiões do Mundo, que hoje termina em Barcelona. Raimon Panikkar é, ele mesmo, um símbolo vivo desse processo, pois é filho de um hindu e de uma catalã.
Veste-se à maneira indiana e calça sandálias. Padre católico, Raimon Panikkar vive, sem televisão, numa aldeia da Catalunha, com 60 habitantes, onde recebe, uma vez por semana, quem com ele quer falar. Publicou dezenas de livros (alguns traduzidos em português, pela Editorial Notícias, como “A Trindade”), é reconhecido e apreciado por muita gente da rua. Voz e rosto sereno, olhos tranquilos, é um dos principais teólogos e filófosos europeus contemporâneos.
P. — Um dos argumentos mais ouvidos é que as religiões têm um papel social e político a desempenhar. Isso significa que a dimensão religiosa está esgotada?
R. — Não, significa que as religiões descobrem que devem incarnar-se neste mundo e não devem preocupar-se exclusivamente com o céu e o outro mundo — sobretudo no caso do cristianismo, que é inclusivo. Não podemos passar por cima das injustiças institucionais e de tantos problemas concretos, mesmo se as religiões não são para solucionar todas as coisas. As religiões criam opinião, promovem consciência e abrem caminhos mais pacíficos.
P. — O diálogo inter-religioso começou há três décadas e hoje atingiu já uma dimensão fundamental para o mundo. Como analisa esta evolução?
R. — Contesto a sua pergunta. o diálogo inter-religioso começou no século I, do ponto de vista do cristianismo, quando os primeiros cristãos, que eram judeo-cristãos, falaram com os gregos e helenizaram o cristianismo. Depois, este cristianismo helenizado dialogou com o mundo germânico. Mais tarde, fossilizou-se um pouco com o colonialismo, onde se pensava que não se devia entrar em diálogo com o outro.
P. — Mas esta forma de diálogo actual é diferente. Acha que vai no bom caminho?
R. — O processo é imparável, não há quem o páre, e vai na direcção certa. [No caso do catolicismo] o Concílio Vaticano II [1962-65] abriu as portas [da Igreja Católica] e tirou a muitos católicos os problemas de consciência que sobre eles pesava acerca do exclusivismo da salvação. Agora, por razões políticas, às vezes trava-se. vai-se com prudência, fecham-se janelas. Falar para mil milhões de pessoas tem que ser com modos diferentes, por isso por vezes parece que se vai mais lentamente. Há grupos que querem mais abertura, outros têm medo de perder identidade e preferem defender-se.
P. — Afirmou neste parlamento que as religiões servem de desculpa para guerras políticas e económicas. Como se combate essa violência de marca religiosa?
R. — Em primeiro lugar, não combatendo, porque o combate seria já violento. Em segundo, tirando o medo, porque muitos fecham-se no seu grupo por terem medo de perder a identidade. Perdemos a dimensão mística das religiões e identificam-se religião com crença: se eu digo uma coisa e o outro diz diferente, eu tentarei eliminar quem diz diferente.
P. — O senhor é um símbolo vivo do diálogo inter-religioso. É possível fazer uma síntese entre credos diferentes?
R. — Não se trata de uma síntese, mas de fecundação mútua. Nem é tão pouco um ecletismo, mas um enriquecimento, que será consequência de um maior conhecimento, do amor e do encontro com a diferença. Dou-lhe um exemplo: os católicos têm necessidade do budismo para recordar a dimensão da contemplação e do silêncio. O encontro serve para enriquecer e contactar com o que cada um esqueceu da sua tradição.
P. — O que têm os católicos a aprender do hinduísmo?
R. — Deixe-me criticar a pergunta: o que necessitamos é, mutuamente, uns dos outros. Não posso só enriquecer-me com os outros, mas partilhar também o que sou. Pode aprender-se a contemplação, a paciência. Mas posso dizer-lhe que, do hinduísmo, os cristãos podem aprender a tolerância, a superar a razão, a não reduzir as coisas apenas a uma dimensão.
sábado, 28 de agosto de 2010
Dois livros de Raimon Panikkar
De Raimon Panikkar, tenho um livrinho e um livrão. O livrinho é “La experiencia de Diós”, 96 páginas na editorial PPC. O livrão é “El silencio del Buddha. Una introducción al ateísmo religioso”, 424 páginas nas Ediciones Siruela.
Não conheço muito do autor, mas é admirável a síntese intercultural e religiosa que fez na sua própria vida: filho de um industrial indiano e hindu e de uma catalã católica, estudou nos jesuítas e, ordenado padre em 1946, integrou e depois saiu do Opus Dei. Formou-se em Química, Teologia e Filosofia, andou por Roma, viveu e ensinou na Índia e nos EUA. Viveu os últimos anos na Catalunha natal.
Em “La experiencia de Diós”, Panikkar afirma que os lugares privilegiados para a experiência de Deus são o mal, o silêncio e o tu. Como deixa bem explícito que “a experiência de Deus não pode ser monopolizada por nenhuma religião, por nenhuma cultura, por nenhum sistema de pensamento”, alguns poderão não gostar da sua teologia e filosofia (um leitor deste blogue escreveu, comentando a entrada anterior: “Um verdadeiro campeão da heresia. Que Deus tenha piedade dele”). Perto do fim da vida, continuava a “dizer missa”, porque nunca deixou de ser cristão. Afirmava: “Saí cristão, descobri-me hindu e regresso budista sem deixar por isso de ser o que era no início” (“Salí cristiano, me he descubierto hindú y regreso buddhista, sin dejar por ello de ser lo primero”). Esta afirmação faz lembrar a resposta de Jean Guitton a uma pergunta de “O Independente” sobre o futuro do catolicismo. Dizia o francês que era a religião mais bem colocada para acolher todas as tendências, correntes e religiões, porque é, desde o início, católica, isto é, universal.
Em “El silencio del Buddha”, Panikkar relaciona a teologia apofática (ou negativa) do cristianismo com a “religiosidade” budista. Parece estimulante (só li o índice e parágrafos soltos), quando as religiões orientais continuam a exercer fascínio sobre o Ocidente (notícia destes dias: Julia Roberts, anteriormente católica, parece que se converteu ao hinduísmo) e, com frequência, se esquecem as tradições apofáticas, silenciosas, místicas, do interior do próprio cristianismo. Que Panikkar conhece.
Morreu o teólogo Raimon Panikkar
Raimon Panikkar, filósofo e teólogo, nascido em Barcelona, no 3 de Novembro de 1918, morreu na passada quinta-feira, 26 de Agosto, em Tavertet, perto de Barcelona.
Sinodalidade e sinonulidade
Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...