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quarta-feira, 12 de novembro de 2014

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

A asneira franciscana da exigência divina do Big Bang


Eu acho que o Papa Francisco fez asneira ao afirmar o seguinte:

“O Big Bang, que hoje se coloca na origem do mundo, não contradiz a intervenção criadora divina, mas exige-a”, declarou, numa audiência aos membros da Academia Pontifícia das Ciências.

Li aqui.

Por estas e outras é que Stephen Hawking há de sempre repetir que, percebendo tudo da física, Deus não pode existir (por não ser preciso). A asneira pseudo-científica do Papa está, portanto, ao nível das habituais asneiras pseudo-religiosas de Hawking, que é (ou pelo menos era) membro da Academia Pontifícia das Ciências, pois, como disse, é um lugar onde se encontram muitos cientistas.

sábado, 15 de dezembro de 2012

Anselmo Borges: "Ciência e religião: um desafio, não um conflito"


Texto de Anselmo Borges no DN de hoje.

George Coyne, s.j.

Ele sabe do que fala. É o jesuíta George Coyne, director emérito do Observatório do Vaticano, onde desempenhou um papel relevante no quadro das relações entre conhecimento científico e religião, dialogando com alguns dos mais prestigiados cientistas contemporâneos: Stephen Hawking e Richard Dawkins, entre outros.

Numa entrevista à US Catholic, defende precisamente que, mesmo que a Igreja nem sempre tenha sido dessa opinião, entre a ciência e a religião não há conflito, mas um desafio, ajudando ambas, desde que se trate da verdadeira fé religiosa e da verdadeira ciência, a compreender um universo dinâmico e criativo.

O universo é "um desafio incrível". Em primeiro lugar, lida-se com números avassaladores: o universo tem 13 700 milhões de anos - mil milhões é um seguido de nove zeros - e o número de estrelas existentes, nos cem mil milhões de galáxias, é um seguido de 22 zeros.

Neste universo gigantesco, não podemos, pois, excluir a existência noutras paragens de vida inteligente. E nós, como aparecemos nós? Isto aconteceu por acaso ou num processo necessário? Tudo foi por acaso ou por necessidade?

A sua resposta: "Segundo a ciência moderna, pelas duas coisas ao mesmo tempo: somos o resultado do acaso e da necessidade num universo fértil." O nosso Sol é uma estrela de terceira geração. Precisamos de três gerações de estrelas para conseguir uma capaz de fornecer os elementos necessários para a vida. É isso que se quer dizer com a fertilidade do universo: mediante processos físicos no universo, construir a química necessária para a vida.

É preciso contar com as leis da natureza. Por exemplo, quando dois átomos de hidrogénio se encontram, pode formar-se uma molécula de hidrogénio, mas também pode acontecer que não, devido às condições de temperatura e pressão. Não deve surpreender-nos que, por acaso, dois átomos se encontrem num momento em que as condições são adequadas, formando uma molécula de hidrogénio. Isso é "acaso", mas também é algo mais. Podemos determinar uma probabilidade de que isso aconteça. Nalgumas galáxias, é mais provável. É uma combinação de acaso e de necessidade, mas, num universo fértil, há muitas possibilidades de que isso ocorra.

Então, "com toda esta química à disposição durante 14 mil milhões de anos, o acaso e a necessidade trabalharam juntos para construir moléculas cada vez mais complexas. Assim, obtemos proteínas, aminoácidos e açúcares, ADN, fígados, corações, e, por fim, o cérebro humano, através da evolução biológica".

Conhecemos, portanto, o processo científico que nos levou a ser o que somos. Foi Deus que fez isto? "Falando como cientista, a minha resposta é: não sei." A ciência não tem possibilidade de responder. Posso ficar e fico surpreendido com a existência deste movimento. Para mim, como cientista, "o ser humano é um organismo biológico complexo" e "não posso falar sobre o seu carácter espiritual"; "como objectos materiais no universo, seria difícil para mim, como cientista, defender que somos especiais". A criação tem carácter evolutivo e há processos aleatórios, e não sabemos completamente para onde se dirige. Enquanto cientista, "também não posso falar de Deus", pois, nessa altura, não estaria a fazer ciência. "Creio que é muito importante na sociedade moderna, sobretudo na América, não confundir o que sabemos pela ciência com o que sabemos pela filosofia, a teologia, a literatura e a música."

Há cientistas que dizem que os crentes estão enganados, mas a maioria respeita profundamente a fé religiosa. Aliás, o próprio ateísmo "já é uma prática da fé", pois "um ateu não pode demonstrar que não há Deus". A experiência humana é mais ampla do que as explicações racionais, e "a fé vai para lá da razão, mas não está em contradição com a razão". G. Coyne acredita no Deus revelado por Jesus.

De novo: o homem é especial? "Ser especial enquanto peça material no universo é uma coisa; ser especial ao conhecer a história religiosa e viver uma vida cheia de fé é outra. Mas continua a ser um desafio."

domingo, 13 de maio de 2012

Bento Domingues: Sem teoria de tudo


Texto de Bento Domingues no "Público" de hoje. Humildade para os dogmáticos, quer estejam nas ciências naturais quer na teologia.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Será que a ciência provou que Deus não existe? 2.ª Parte

Parte da astrónoma Teresa Lago sobre o debate à volta do último livro de Stephen Hawking, no "Q. Quociente de Inteligência" do sábado passado (ver primeira parte aqui). Nos próximos tempos, não há sinais de tédio no céu.



quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Será que a ciência provou que Deus não existe? 1.ª Parte

A parte do P.e Joaquim Carreira das Neves sobre o debate à volta do último livro de Stephen Hawking, no "Q. Quociente de Inteligência" do sábado passado (ver aqui também). Será que a ciência provou que Deus não existe?



segunda-feira, 19 de setembro de 2011

A fonte Q está no DN aos sábados



O DN publica ao sábado o suplemento "Q. Quociente de Inteligência". Esta é a capa do número dois, que saiu no sábado passado. Para quem gosta de letra de jornal miudinha e artigos longos, que é o meu caso, é óptimo. Já perdi umas boas horas a ler uns artigos e ainda não li tudo o que queria destas 24 páginas, enquanto há outros jornais bem maiores - estou a pensar num obeso que sai aos sábados - que não duram tanto tempo.
Neste "Q", destaque para os artigos de Joaquim Carreira das Neves, padre, e Teresa Lago, astrónoma, sobre o livro em que Hawking pretende dispensar Deus da criação (talvez ainda digitalize e copie para este blogue as seis páginas em questão).

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Marcelo Gleiser: A teoria final do tudo é uma influência do monoteísmo


O físico brasileiro Marcelo Gleiser (aqui aludido) foi entrevistado pelo jornal “Público” no dia 5 de Julho. A entrevista do jornalista Nicolau Ferreira tinha como título. "A ciência é uma narrativa humana como a literatura ou a pintura". Alterei a cor de partes que considero especialmente relacionadas com este blogue, visto que seria prejudicial truncar a entrevista.

A humanidade mudou as leis do Universo ao longo dos séculos, mas para o físico brasileiro Marcelo Gleiser isso não tira o compromisso que existe na busca da verdade através da ciência, é só o reflexo da capacidade incompleta e limitada com que olhamos para a natureza.

Marcelo Gleiser, 52 anos, físico teórico brasileiro radicado nos Estados Unidos. Dá aulas na Universidade de Dartmouth, New Hampshire, mas é também cronista na Folha de São Paulo, e está profundamente empenhado na divulgação da Ciência no Brasil. Em Portugal saiu o último livro escrito pelo cientista sobre o Universo, chama-se Criação Imperfeita (Círculo de Leitores). Fala sobre as forças físicas da natureza, a forma como o Universo poderá ter sido criado e a importância de sermos raros num cosmos aparentemente deserto. Mais importante, desmonta a procura de uma teoria unificadora na Física que tenta explicar todas as forças do Universo de uma só vez. Uma busca que defende estar enraizada na cultura científica e que tem origens monoteístas. Nesta tentativa unificadora, a Ciência cai no erro de generalizar os fenómenos naturais e esquecer-se das assimetrias. Todas as margaridas são semelhantes, mas nenhuma delas é idêntica a outra (disse ao P2 numa entrevista em Lisboa, para promover o livro), e a Ciência nunca vai conseguir olhar para tudo. É uma história em construção. Sem fim.

Diz que a Ciência é uma narrativa humana. Que limitações tem?
As pessoas têm a impressão de que a Ciência é a verdade absoluta. Que os dados científicos são incontestáveis e que tudo está correcto. Quando se estuda a história da Ciência, percebe-se que não é bem assim, a Ciência avança e cria informação à medida que o tempo vai passando. Ela vai ficando cada vez mais complexa e mais completa, mas nunca chega ao fim. O que era verdade no tempo de [Pedro Álvares] Cabral, que o Universo era estático com a Terra móvel no centro, era completamente diferente da verdade no século XVII ou da de hoje. A noção de verdade muda com o tempo. O Universo em que a gente vive vai-se transformando à medida que nós aprendemos mais sobre ele. Dessa forma, a posição do Homem no Universo e a compreensão de quem nós somos também mudam. O que eu tento no livro é desmistificar a Ciência, mostrar que ela é, na verdade, uma narrativa, uma construção profundamente humana, uma tentativa de compreensão de quem nós somos. A Literatura faz isso, a Pintura faz isso, a Ciência também está a fazer isso.

Como é que a cultura molda essa narrativa?
A cultura cria um contexto. As perguntas sobre quem nós somos, qual é a essência da vida podem ser as mesmas, mas as respostas dependem muito desse contexto. Voltando, por exemplo, à imagem de Cabral: no século XVI existia uma cultura completamente dominada pela teologia cristã, a visão do mundo era essencialmente religiosa e, dentro dessa visão religiosa, o Homem era um ser extremamente especial, era uma criação divina, e à medida que a Ciência foi avançando, essa visão foi-se transformando.

Richard Dawkins (cientista e autor de A Desilusão de Deus) utiliza a verdade científica para lutar contra a religião, argumento com o qual não está de acordo. Tem que ver com a Ciência ser uma narrativa?
Sim. Acho que Dawkins concordaria com essa noção de que a Ciência é uma narrativa humana. Espero, nunca conversei com ele sobre isso. No que diferimos profundamente é na atitude. Ele tem uma atitude em que a Ciência é a única forma de conhecimento e eu não acredito nisso, eu acho que a Ciência é uma forma de conhecimento, muito precisa, está ligada ao nosso entendimento do mundo, da natureza. A função da Ciência é descrever a natureza, descrever o mundo.

O que é que as outras formas de conhecimento dão ao Homem, como a religião?
Eu não diria que a religião é uma forma de conhecimento, mas a literatura ou a pintura, a música, a poesia, elas criam conhecimento de uma forma completamente diferente da Ciência. Elas constroem realidades que são paralelas à realidade científica. Na literatura não é preciso um compromisso com o real. Jorge Luís Borges ou Saramago criam realidades completamente fantasiosas mas que nem por isso deixam de trazer um elemento de verdade para a dimensão humana.

E essa dimensão é importante?
É fundamental. Dizem que a ficção, através da mentira, diz verdades. E a Ciência tenta sempre dizer verdades através da verdade. São propostas completamente diferentes de se alcançar a mesma coisa, que é uma maior compreensão do espírito humano.

Dawkins presume de mais dessa verdade trazida pela Ciência?
O que me incomoda em relação ao Dawkins é a sua posição absoluta. É um pouco fundamentalista. Esse fundamentalismo ateu sofre dos mesmos problemas do fundamentalismo religioso. Que é acreditar ser o dono absoluto da verdade. A posição do ateu é uma posição que logicamente não faz sentido. O que é que diz o ateu: diz que "eu acredito no não-acreditar". Como é que se pode acreditar no não-acreditar? Para Dawkins, Deus é completamente impossível. E apesar de concordar com isso - também não acredito em Deus ou no sobrenatural - cientificamente você só pode falar no que existe. A Ciência é muito boa para provar o que existe: electrões existem, planetas existem, estrelas existem, galáxias existem. Mas o que é que não existe? Sei lá! Então, eliminar radicalmente o que não existe usando a linguagem da Ciência: Deus não existe, fadas não existem, duendes não existem - também acho, mas não posso ser radical na minha atitude, prefiro manter a cabeça aberta e essa é a posição do agnóstico.

Diz que a procura de uma teoria geral na Física é uma ideia monoteísta. De onde vem?
Essa busca por uma unificação de tudo, por uma teoria final, que seria a soma de todas as teorias possíveis de como a matéria se organiza, que descreve as interacções entre as partículas da matéria, é uma noção essencialmente monoteísta. À medida que as religiões monoteístas foram ganhando força mais ou menos há 3000 anos, essa noção de que Deus é um criador de tudo, então tudo tem uma explicação única que volta a Deus. Essa ideia tomou muita força e entrou na Filosofia. Platão foi influenciado pelos pitagóricos, que defendiam que a natureza é matemática e que a função do filósofo era entender a construção matemática do mundo. Através dessa construção entender-se-ia a mente de Deus. Essa noção de que a natureza é uma ponte entre a mente humana e a de Deus torna a Matemática num instrumento teológico. O cientista passa a ser o intérprete da criação. Essa noção inspirou muitos cientistas. Por exemplo [Johannes] Kepler, no século XVII, foi uma pessoa muito influenciada por isso, e depois Einstein, mesmo que se tenha libertado dessa noção monoteísta do Deus autoritário, ficou com a ideia de que a natureza é matemática, e que pode ser compreendida de uma forma perfeita pela mente humana.

Essa ideia continua presente?
Sim. Por exemplo, existe a teoria das supercordas, a ambição máxima da Física moderna, unificar as forças da natureza numa teoria única. É a encarnação moderna desse sonho platónico de traduzir toda a existência em termos geométricos. Ela traz consigo essa bagagem cultural do monoteísmo, que há uma justificação única e central para tudo o que existe pelas ordens da Física. Para mim, essa noção é um preconceito filosófico influenciado por uma teologia de 3000 anos. Em termos práticos, se você olhar para o que está a acontecer nas descobertas da Física moderna, vê que existe uma tensão entre uma discussão completa do mundo, as simetrias da natureza e as quebras dessas simetrias. Então, criamos uma teoria simétrica, muito bela, e aí as experiências vão e - bum! - quebram essa simetria e mostram que é apenas aproximada. Isso é uma constante na história da Física.

Por que é que essa procura deixou de lhe fazer sentido?
Porque a Física é essencialmente uma Ciência empírica, baseada nos dados, nas experiências. Podemos querer construir teorias muito belas, mas no final quem vai dizer como é a natureza é a própria natureza, através de experiências. Comecei a perceber que, apesar do meu desejo adolescente, romântico, de construir uma visão única do mundo, baseada numa teoria unificada, a história dos últimos 50 anos da Física está a levar-nos a uma posição completamente diferente em que as simetrias são quebradas, que elas são aproximadas e que talvez essa insistência que nós tenhamos em criar uma teoria completa do mundo seja só um preconceito.

Na educação da Física, como cientista, é-se influenciado para a teoria final?
Para a teoria final e também para a confusão entre simetria como uma aproximação e simetria como uma verdade. Em Filosofia, você tem duas correntes, a Filosofia do ser, que é atemporal, não se transforma, e a do devir, do que está sempre a construir-se. E na história da Filosofia houve sempre uma espécie de crise, ou tensão, entre elas. A Ciência contém as duas. O ser - a conservação da energia, por exemplo, que é uma lei que existe independentemente do quando e do onde, e por outro lado o devir - todas as variações locais das coisas que vão acontecendo, em cada planeta, que dependem da história, de detalhes. Para mim, o que é interessante hoje é as forças que criam as diferenças, a origem das assimetrias.

O livro chama essas assimetrias logo para o título "Criação Imperfeita".
No livro, eu tomo cuidado ao dizer que não sou contra a unificação. Mas sou contra a ideia do abuso dessa noção. Para mim, a teoria final é completamente absurda. Pode falar-se em teorias que são parcialmente unificadas, como o electromagnetismo, mas mesmo essa, que é o paradigma da unificação, não é perfeita. Porque existem diferenças entre as propriedades da electricidade e do magnetismo. As unificações que vão ocorrendo vão ser sempre aproximadas, nunca vão ser perfeitas. E certamente nunca vão chegar numa teoria final. Basta ver como funciona a Ciência: através dos dados que colectamos sobre o mundo. Dependemos de telescópios, de aceleradores de partículas, etc. Esses instrumentos vão ficando mais precisos e poderosos à medida que a tecnologia vai avançando, mas eles têm limites de precisão. Como nós não temos uma visão total do mundo, a nossa descrição da natureza vai ser sempre limitada. A ideia de chegarmos a uma teoria que contém tudo não faz sentido, porque nunca vamos saber se a teoria está certa ou errada. Por isso eu falo em narrativa, a Ciência é uma construção que está sempre em andamento, ela não tem um ponto final.

Os próprios conceitos como electromagnetismo não limitam o modo como olhamos para a Física?
Eles não limitam como vemos a Física, eles são como a Física é. A Física é construída a partir desses conceitos porque ela é feita por nós.

A Física não é a natureza.
Exactamente. A Física é o que a gente pode dizer sobre a natureza. Aliás, não fui eu que disse isso, foi [Niels] Bohr (Nobel da Física em 1922). Idealmente, podemos descrever tudo sobre o mundo, e a posição mais concreta e realista é que infelizmente não é verdade, porque somos seres muito sofisticados, mas limitados. A noção de teoria final é tentar equiparar o Homem a Deus, e isso, para mim, é uma noção extremamente perigosa.

Uma das frases que mais repete no livro é. "Só sabemos o que podemos medir." Qual é o perigo das teorias impossíveis de serem testadas?
O perigo é levar à perda da credibilidade da Ciência. A força da Ciência está justamente no facto de que quando se diz que o Sol é uma estrela, que tem uma temperatura na superfície de 5800 graus, está a fazer-se uma asserção que se pode comprovar. Mas se se disser que vivemos num universo em que existem infinitos universos, mas que não se podem contactar esses múltiplos universos, então está a fazer-se uma asserção que não é científica, em que tudo é válido, e começa a discutir-se mais Filosofia do que Ciência. Essa noção de concreto da Física está a perder-se com a especulação um pouco exagerada dos físicos teóricos.

Essa especulação é recente?
Está pior nos últimos 20 anos.

Normalmente o nível da discussão ultrapassa o conhecimento comum.
É, mas por exemplo o [Stephen] Hawking escreveu um livro que faz asserções do tipo "a Ciência explica hoje a origem do Universo" e não é verdade. Existem modelos matemáticos, extremamente abstractos, que fazem previsões em relação à origem do Universo, mas dizermos que a Ciência explica a origem do Universo não é verdade. Passa-se ao público uma impressão de que sabemos muito mais do que sabemos, e isso faz com que a Ciência perca credibilidade.

Diz: "O cientista deve estar preparado para encarar as consequências do seu trabalho." Parece algo que pedimos aos políticos. Também devemos exigir isso aos cientistas?
A Ciência pode trazer o bem e o mal. Isso vê-se, por exemplo, na bomba atómica, na energia nuclear. Os usos das descobertas científicas em geral escapam das mãos dos cientistas, e vão ser utilizadas pelos políticos, pelos industriais, pelas grandes empresas, etc. Os cientistas têm que estar muito conscientes desse perigo e da aliança que têm com o poder.

Fukushima [acidente na central nuclear no Japão em Março último] é culpa dos cientistas?
Não. Os cientistas também não são culpados pela bomba em Hiroxima e Nagasáqui. Esse é o ponto.

Há coisas que devem estar fechadas aos cientistas e à Humanidade?
Mas quem vai definir isso? Não há como controlar a pesquisa científica, é uma espécie de caixa de Pandora. Destruir todas as bombas nucleares e apagar esse capítulo da humanidade - isso nunca vai acontecer. Porque já foi descoberto, pode voltar. O que tem que ser feito é uma maior consciencialização da população, dos políticos que são eleitos. Por isso é que o cientista não se deve dar ao luxo de ficar só na academia. Tem que se manifestar publicamente como intelectual. Tem que ter uma consciência ética do que está a fazer e quais são as possíveis consequências. Na Segunda Guerra Mundial, quando um grupo de cientistas foi trabalhar no projecto Manhattan para as bombas, eles estavam a responder ao medo que tinham que os nazis tivessem a bomba. Essa era a motivação principal. Mas quando a Alemanha se rendeu, o projecto tinha uma inércia tão grande que não conseguia parar. Transformou-se muito mais numa arma política, militar, do que numa descoberta científica. Os cientistas perderam o controlo e a bomba passou a ser uma propriedade dos políticos e militares. Esse é um risco que vai sempre acontecer.

terça-feira, 15 de março de 2011

Teólogos Hawking e Polkinghorne em confronto num texto que vem dos antípodas


As ideias de John Polkinghorne e Stephen Hawking, ambos cientistas e teólogos, um crente (e padre anglicano), o outro ateu, estão em confronto num texto que vem da Austrália. Uma boa síntese de como em alguns casos é a relação fé / ciência e de como deverá ser.

Hawking, que também é teólogo, já que faz afirmações que pretende fundamentadas sobre Deus, quer dispensar o criador. Digo quer porque, mesmo na sua lógica, ainda não está claro que o tenha feito. De qualquer forma, afirma que a ciência é ou será capaz de refutar a existência de Deus, por ser prescindível (de qualquer forma, em termos racionais, a via da prescindibilidade não pode demonstrar a inexistência do que quer que seja; apenas dirá da sua não necessidade).

Polkinghorne afirma que a compreensão da relação entre ciência e religião não se pode basear meramente na antiga teoria do "Deus das lacunas", como se a ideia de que Deus só contasse para as coisas que a ciência não pode explicar. Se Deus é o Deus da Verdade, quanto mais a ciência avança, mais aprendamos sobre Deus. Mas aqui caberia acrescentar que isto é para quem tem olhos para ver, parafraseando o evangelho.
Polkinghorne está convencido de que a ciência explora apenas uma camada da existência. Deus age por meio da poesia e da arte, dos santos e dos místicos. Você não pode apreciar totalmente uma obra de arte examinando a composição química de sua tinta. Da mesma forma, você não pode entender a função de Deus no universo olhando apenas para a sua natureza física.
Li em português aqui e confirmei que está em inglês aqui.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

"Guardem o besteirol para outros cristãos e poupem o pobre ateu"

Miguel Nicolelis (São Paulo, 1961), neurocientista de renome (capa da “Science” e considerado pela “Scientific American”, no início do século, um dos maiores cientistas a nível mundial), com investigações de relevo sobre a integração cérebo-máquina, foi nomeado membro da Pontifícia Academia de Ciências, a mais antiga do mundo, criada em 1603 (aqui). A nomeação provocou comentários “absurdos” pelo menos no popular blogue de Luís Nassif (aqui).

O cientista resolveu responder e escreveu o seguinte, com humor e uma informação que eu desconhecia, que a Academia não é confessional, o que está correcto, porque a ciência positiva não implica actos de fé (quanto aos Gaviões da Fiel, pelo que percebi, são os adeptos do Corinthians):

Sou leitor assíduo desse blog, então não tinha como me conter e resolvi responder aos absurdos postados nesse tópico que diz respeito a mim.

Primeiro, sou um cientista brasileiro, ateu, pró-legalização do aborto, pró união civil dos homossexuais e pró Dilma. Fui convidado a me tornar membro da mais antiga academia de ciências do mundo, a mesma a que Galileu Galilei foi membro. Aceitei o convite, pois esse foi feito com a garantia que a academia se interessa pela minha ciência e não pela minha opção (ou falta de opção) religiosa.

Espanta-me verificar que mesmo num site progressista ocorra o grau de patrulha ideológica (ou religiosa) que encontrei nos comentários acima.

Meu outro colega de Academia é o físico Stephen Hawking, que professa as mesmas opiniões que eu. Agora eu me pergunto, a troco de que eu iria recusar a oportunidade de bater bons papos com um dos maiores físicos da história?

A Academia de Ciências deixa claro nos seus estatutos que nenhum dos seus membros precisa acreditar em Deus ou ser membro da religião católica.

Então, a título de esclarecimento, gostaria de deixar registrado que toda vez que eu for convidado a participar do mesmo clube frequentado por gente como Galileu e Stephen Hawking, vocês podem estar certos que eu vou aceitar. Mesmo que fosse a Academia de Ciências da Gaviões da Fiel! E para um palmeirense dizer isso não é fácil, não. Portanto, menos meus amigos, menos. Guardem o besteirol para outros cristãos e poupem o pobre ateu aqui de ler tanto absurdo.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Entrevista a José Antonio Pagola: “Jesus pode ser um desafio muito perigoso para a Igreja actual”


O sacerdote basco José Antonio Pagola (Guipúzcoa, 1937), o já célebre autor de "Jesús, Aproximación histórica", mantém uma visão contemporânea e radical de Jesus Cristo. O número dois de José María Setién [bispo de 1979 a 2000] na diocese de San Sebastián vendeu 40 mil exemplares de seu livro em dois meses, antes que a Conferência Episcopal interferisse no assunto e a obra fosse retirada das livrarias eclesiásticas e diocesanas pela editora católica que a publicou. Em Portugal a obra está publicada na Gráfica de Coimbra 2 (“Jesus, uma abordagem histórica”), vendendo-se com um livrinho de 62 páginas, “suplemento”: “Uma explicação ao meu livro «Jesus, uma abordagem histórica”. A obra principal tem 552. A entrevista de Matías Vallés foi publicada no jornal “La Nueva España”, no dia 03 de Outubro de 2010. Copiei daqui. Original aqui.
Considera-se uma vítima?
Não. No meu livro apresento Jesus como conflitivo e perigoso. Agora comprovei na minha própria carne que ele o foi e o será sempre. Quando são conhecidas as suas palavras de fogo, a sua liberdade para defender as pessoas, o seu projecto de uma sociedade ao serviço dos últimos ou a sua crítica a uma religião vazia de compaixão, Jesus gera reacções encontradas de atracção ou de rejeição. Creio que, em boa parte, meu livro suscitou inquietação quando se captou que Jesus pode ser um desafio muito perigoso para a Igreja actual.
Jesus Cristo era mais homem do que Deus?
Provavelmente, ninguém exerceu um poder tão grande sobre os corações como Jesus, ninguém expressou como ele as inquietações e interrogações do ser humano, ninguém despertou tantas esperanças. Ainda hoje, quando as ideologias e religiões experimentam uma crise profunda, Jesus continua a alimentar a fé de milhões de homens e mulheres. Nós, cristãos, pensamos que Jesus é tão plenamente humano que não é como nós. Leonardo Boff dizia que “tão humano só pode ser Deus”. Para mim, Jesus é Deus, falando-nos, acompanhando-nos e salvando-nos a partir desse homem entranhável.
A nomeação de Munilla [José Ignacio Munilla Aguirre, 48 anos, nomeado bispo de San Sebastián em Novembro de 2009 ] é um desafio de Rouco [arcebispo de Madrid] à Igreja nacional basca?
É um erro analisar o que ocorreu em San Sebastián a partir de chaves exclusivamente políticas. Penso, ao contrário, que o que se vive em minha diocese é, sobretudo, um conflito eclesial que está a ocorrer também em outras partes, como consequência de um confronto entre dois modelos de Igreja ou duas sensibilidades sobre o conteúdo e o significado do Vaticano II ou sobre a missão da Igreja na sociedade secularizada. O lamentável é que, em geral, as nossas mútuas desqualificações não estão a conduzir-nos em direcção a uma Igreja mais fiel a Jesus e ao seu projecto.
Vai ler o livro de Hawking que nega a existência de Deus?
Não. Os trabalhos de Stephen Hawking sobre astronomia sempre me interessaram, mas não as suas conjecturas sobre Deus. Os especialistas no diálogo ciência-fé afirmam que nem as religiões podem provar a existência de Deus, nem a ciência a sua não existência. Parece que o homem moderno decidiu que o que o ser humano não pode provar cientificamente não existe.
Deus é necessário?
Deus não é necessário para ganhar dinheiro, adquirir poder ou conquistar bem-estar. Também não é necessário para nos dispensar do mal, do sofrimento ou das desgraças da vida. Deus serve, para nós, crentes, para enfrentarmos com uma luz, um estímulo e um horizonte novo a dureza da vida e o mistério da morte.
Gostaria de manter um debate aberto com Bento XVI sobre os conteúdos de seu livro?
Gostaria que, em Roma, fossem ouvidas as diversas correntes teológicas existentes no seio da Igreja – não só na Europa –, mas, principalmente. Alegrar-me-ia que a hierarquia liderasse um movimento de conversão a Jesus Cristo. Não há nada mais urgente.
Jesus tomaria as mesmas decisões que o Vaticano toma sobre a mulher?
Jesus critica uma sociedade patriarcal que estabelece o domínio e o poder do homem sobre a mulher. Essa actuação de Jesus está a exigir-nos hoje uma revisão profunda da situação injusta da mulher na Igreja e na sociedade, uma consciencialização mais viva da nossa infidelidade a Jesus e um processo valente de renovação para que a mulher possa desfrutar da sua dignidade, direitos e protagonismo.
Jesus acabou numa vala comum como os desaparecidos da Guerra Civil?
Não. Historicamente, é muito provável. Essa hipótese do norte-americano John Dominic Crossan não encontra apenas aceitação entre os especialistas.
Inclusive, seus críticos mais duros renderam-se diante do brilhante estilo literário de “Jesus”.
O que me enche de alegria é comprovar que muitas pessoas que lêem o meu livro sentem Jesus mais vivo e próximo, encontram um sentido diferente para a sua vida, desperta-se neles o desejo de uma vida mais humana. Encontram no meu livro algo que eu não coloquei.
Pensou alguma vez que ele se converteria num sucesso de vendas?
Nunca. Normalmente, o êxito de um livro mede-se nesta sociedade pelo número de exemplares vendidos. Eu não acho isso. De "O Código Da Vinci", de Dan Brown, foram vendidas milhões de cópias, mas eu considero-o um fracasso, pois não introduz verdade nem esperança, não nos aproxima do mistério de Jesus, não ajuda a viver de forma mais humana.
As contradições no discurso de Jesus abundam nos evangelhos?
Os evangelhos não são relatos biográficos redigidos para oferecer informação precisa de carácter histórico. São relatos em que, de forma variada e matizada por cada evangelista, se recolhe a memória de Jesus. Para nos aproximarmos do conteúdo histórico que eles conservam sobre Jesus é necessário contrastá-los, analisar os géneros literários que empregam, os procedimentos narrativos, o vocabulário próprio de cada evangelista, o contexto.
Jesus Cristo expulsaria os mercadores do Vaticano?
Não se deve esperar que Jesus volte. A partir dos milhões de famintos e desnutridos da terra, dos pobres esquecidos pelas religiões, das mulheres humilhadas em todos os povos, Jesus está a grita-nos agora mesmo, aos dirigentes do Vaticano e a todos os que nos dizemos cristãos, que expulsemos da Igreja riquezas, poderes, grandezas ou interesses que ocultam sua mensagem de esperança.
Pode-se seguir Jesus sem seguir sua Igreja?
Nestes momentos, eu não encontro outra forma melhor de seguir Jesus do que vivendo nesta Igreja, mas esforçando-me por me converter, eu mesmo, ao Evangelho, e trabalhando para fomentar nela um clima de conversão para Jesus.
A crise económica que tanto nos ocupa irá provocar um renascimento da espiritualidade?
Observo que o desejo de espiritualidade se desperta principalmente em pessoas que experimentam com força o vazio existencial, o sem sentido de sua vida, a saturação de bem-estar. Não é fácil viver uma vida que não aponta para nenhuma meta.
O que um não crente pode obter com a leitura de seu livro?
Recebi muitas centenas de cartas e escritos de leitores não crentes. A maioria me diz que se encontrou com um Jesus que nem sequer suspeitavam; alguns sentiram-se chamados a repropor a sua vida com mais verdade e honestidade; muitos sentiram-se libertos de medos e fantasmas religiosos que lhes fizeram sofrer muito apesar de se terem distanciado da Igreja; muitos ficam comovidos com um Deus amigo que ama com amor incrível e imerecido a todos os seus filhos. Alguns dizem: “Oxalá que esse Deus exista”. Muitos animam-se a trabalhar por um mundo mais humano e justo.

sábado, 18 de setembro de 2010

Anselmo Borges: Hawking e Deus

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (18 de Setembro de 2010):


Ainda não a li, mas posso supor que a nova obra de Stephen Hawking, escrita em conjunto com o físico norte-americano Leonard Mlodinow, “The Grand Design” (“O grandioso plano”), terá um êxito enorme, como há anos aconteceu com o seu bestseller “A Brief History of Time” (“Uma breve história do tempo”).

Hawking, que sofre há décadas dessa terrível doença do foro neurológico que dá pelo nome de esclerose lateral amiotrófica, é um astrofísico de renome mundial, detentor até há pouco da célebre Cátedra Lucasiana de Matemáticas da Universidade de Cambridge, outrora ocupada por Isaac Newton, e que deu contributos fundamentais no domínio da física teórica, nomeadamente em questões de cosmologia, buracos negros e gravitação quântica.

Nesta obra, afirma que as novas teorias da física podem explicar de modo cabal o aparecimento do universo, tornando supérfluo o papel de um Deus criador. Segundo “The Times”, escreve que, "o universo pôde criar-se a si mesmo - e de facto fê-lo - do nada. A criação espontânea é a razão de existir algo, de existir o universo, de existirmos nós". Concretamente, a descoberta do primeiro planeta extra-solar ajudaria a desmontar a visão de Newton, que afirmava o Deus criador, pois o universo não poderia surgir do caos. A descoberta abre a possibilidade de outros planetas e outros universos, que seriam redundantes, se a intenção de Deus fosse criar o homem.

Estas afirmações de Hawking percorreram mundo e foram saudadas concretamente pelo bem conhecido biólogo e ateu militante Richard Dawkins, que declarou que "o darwinismo expulsou Deus da biologia, mas na física persistiu a incerteza. Mas agora, Hawking deu-lhe o golpe de misericórdia".

Remetendo para tudo quanto tenho aqui escrito sobre o tema, gostaria de fazer uma reflexão breve sobre os dois pontos em causa: um referido à religião e o outro à ciência.

Quero lembrar que frequentemente a razão de becos sem saída neste domínio se situa na própria compreensão da religião.

Por exemplo, houve por vezes uma leitura literal do Génesis, que relata a criação do universo e do homem. É evidente que essa leitura só pode levar a posições ridículas. Exemplos disso são a datação do começo do universo há 6000 e poucos anos - assim pensou o bispo Ussher -, o primitivismo do aparecimento de Adão a partir da modelação do barro, a história da costela para o aparecimento de Eva, a incompatibilidade da criação e da evolução.

Hoje, felizmente, tomou-se consciência de que a Bíblia não é um livro de ciência, mas um livro religioso e o que se refere à criação é um mito, mas um mito que dá que pensar, como disse Paul Ricoeur. A sua finalidade é dar uma resposta de fé à pergunta do porquê e para quê últimos do universo e do homem: devem a sua existência, em última instância, ao desígnio do Deus pessoal e transcendente, que cria por amor a partir do nada.

O outro ponto da reflexão diz respeito à ciência. É claro que a ciência metodicamente não precisa de Deus. Por outro lado, não tem capacidade nem para afirmar nem para negar a sua existência.

Quando um cientista quer, a partir da ciência, afirmar que não há Deus, contradiz-se e entra em paralogismos, pois ultrapassa as suas competências enquanto cientista. De facto, a ciência não pode fazer afirmações sobre a realidade na sua ultimidade. Por exemplo, há Deus ou não?, o homem é livre?, com a morte acaba tudo ou a vida continua? A razão dessa impossibilidade está em que estas questões não são enquadráveis no método empírico-matemático, não são objecto de experimentação.

Religião e ciência são perfeitamente compatíveis, desde que respeitem os seus domínios de competência. A religião não tem respostas para questões científicas. A ciência não responde à problemática dos valores e a questões como: porque há algo e não nada?, qual é o sentido último da existência?

Assim se compreende que haja cientistas agnósticos, ateus e crentes. Também os crentes não habitam todos no asilo da ignorância e da superstição.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Solução divina para o repto de Hawking


A revista "Focus" de hoje dedica 10 páginas à dispensa de Deus por parte de Hawking.

A ideia de "criação espontânea", ao longo do artigo, faz pensar naquela outra do séc. XIX, quando se dizia que a vida surgia por geração espontânea. Pasteur e outros ajudaram a acabar com ela.

Em Hawking, o que cientificamente pode ter justificação, filosoficamente é desconfortável. No mínimo. De qualquer forma, se Deus não criou o universo (Tomás de Aquino explicou que a eternidade do universo não se opunha ao poder criador de Deus - mas em Hawking não é de um universo eterno que se fala), é capaz de ter mandado alguém criar. Mandou o próprio universo criar-se. Está salvo Deus.

Têm razão Hawking e a capa da revista. Mas não os destaques. Religião e ciência podem voltar a dar as mãos. E os líderes religiosos deixam de estar escandalizados até ao próximo escândalo. É sempre bom ter um por perto.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Como Pio XII antecipou Stephen Hawking

Convém lembrar que o físico e padre belga Georges Lemaître [evocado aqui], que inventou o conceito do big bang (mas com outro nome, “átomo primevo”), disse que não se deve identificá-lo com a criação do Universo por Deus. Quando soube que o Papa Pio XIIiria fazer um discurso para a oitava Assembleia Geral da União Astronômica Internacional em Roma, em 1952, viajou à capital italiana para pedir ao Papa que não apresentasse o big bang como o ato de criação do Universo por Deus. O Papa seguiu a orientação do Pe. Lemaître. O fato de Hawking não reconhecer o big bang como criação por Deus foi antecipado mais de meio século pelo Papa Pio XII.

Quem crê na fé cristã tem razões de outra ordem para a sua fé. A dimensão espiritual da realidade se manifesta na nossa experiência da consciência pessoal, do “eu”. A tradição do encontro com o Cristo vivo depois da sua morte terrível na cruz dá a dimensão histórica da nossa fé. E o cristão que procura viver a fé percebe nela uma sintonia com tudo o que existe e uma orientação para a vida que responde aos anseios mais profundos do seu coração.

Excerto de um artigo de Paul Schweitzer, padre jesuíta e membro da Academia Brasileira de Ciências, publicado no jornal "O Globo" de 13-09-2010. Copiado daqui.

Hawking versus Carlos Fiolhais

Carlos Fiolhais, há dias num programa da RTP2, respondendo à questão do que havia antes do Big Bang, e Stephen Hawking na Universidade de Berkeley (Califórnia), há três anos. Cinco vídeos. No último diz que que estamos perto de ter as respostas às velhas questões: "Por que é que estamos aqui? De onde viemos?" E termina: "Obrigado por me terem ouvido". Gostava de saber as respostas e ele nunca as diz.



Nos cinco vídeos de Hawking (1, 2, 3, 4, 5), quando a religião é focada, é quase sempre motivo de riso para a plateia (o deus Bumba, o Bispo Usher, Santo Agostinho - apesar de deturpado na citação -, o inferno...), o que me leva a supor que a religião (e Deus) continua a ser o assunto mais importante, mesmo que espantado à base da ironia e do sarcasmo.

domingo, 12 de setembro de 2010

Hawking: Um nada que é tudo

Admiro Stephen Hawking. É uma mente científica brilhante. E embora não se realcem os seus feitos com o facto de estar numa cadeira de rodas, só poder mexer uns dedos e falar por meio de um processador de voz – julgo que por causa do pudor socialmente correcto em dizer que “ele é doente” ou “ele é deficiente” –, essas circunstâncias não só contribuem para a aura do cientista frágil por fora mas iluminado por dentro (o mesmo se aplica ao genial mas despenteado e distraído Einstein) como são um bom exemplo de que as limitações exteriores não são impeditivas de façanhas brilhantes. Um exemplo de catequese, se Hawking fosse crente. Na realidade até é crente, já lá chegarei, mas não em Deus, seja Ele qual for, suponho, nem da teologia ou em qualquer igreja.

No programa «Larry King Live», na CNN, emitido no dia 10 de Setembro, afirmou que a “teologia é desnecessária” e que “a ciência está cada vez mais a responder a questões que eram um território da religião”. Não sei se disse quais as questões que "eram" da religião. O resumo que saiu na imprensa não esclarece. Mas a grande questão, tendo em conta anteriores tomadas de posição, é: por que é que existe o universo em vez do nada?

Não sendo eu cientista de formação nem por lá perto, ainda que tenha lido uns bons livros da colecção “Ciência Aberta”, da Gradiva, incluindo a “Breve História do Tempo”, de Hawking, no início dos anos 90, considero, no entanto, que as grandes questões devem ser do alcance de todos. É uma espécie de dogma em que acredito, como Hawking também acredita em coisas não provadas – lá chegarei. A origem e o fim do universo, o sentido da vida, os porquês e para quês últimos devem estar ao alcance de todos, porque somos feitos da matéria do universo mas temos consciência, que é quando a materialidade se ultrapassa. Se um cientista me faz como Euler fez a Diderot, sinto-me defraudado em vez de derrotado. Discutindo a existência de Deus, Euler escreveu uma fórmula matemática e concluiu: “Logo, Deus existe”. Diderot sentiu-se derrotado. E suponho que frustrado. Euler sabia bem que Deus não se provava, mas aquilo era para dar uma lição ao iluminista, grande humanista e anticlerical, mas pouco dado às ciências positivas. Por vezes Hawking parece ser um novo Euler ao dar a entender, no meio de teorias de que já ouvimos o nome, mas que não percebemos realmente, que Deus não existe, que é desnecessário, que não pode ter criado o mundo.

É que, mesmo que alguém informado diga que compreende que a energia é igual à massa vezes a velocidade da luz ao quadrado (equivalência massa-energia), por exemplo, o mais certo é que saiba que é assim, mas não compreenda realmente como pode ser assim. Compreender é outra coisa. Felizmente, não precisamos de compreender a mecânica para conduzir um automóvel. Temos de confiar nos mecânicos e nos construtores de automóveis.

Se Hawking junta meia dúzia de teorias, a relatividade, mais a quântica, mais a Teoria-M e as supercordas, e diz que isso explica o como e o porquê do universo e dispensa Deus, se confiarmos nele como confiamos nos mecânicos, dispensamos Deus. Mas, no geral, os mecânicos da ciência dizem que a ciência não trata de Deus. Como os mecânicos da teologia dizem que a teologia não trata do como do mundo. E logo aqui há uma dissonância.

Mas o pior é que, apesar de não compreendermos as tais teorias, não podemos deixar de questionar o que o cientista nos diz. Afirma, por exemplo: “Dada a existência da gravidade, o universo pode criar-se a si mesmo do nada”. “Dada?” Como “dada”? Se é no sentido de “observada”, ou “já que existe”, a questão que logo se impõe é por que é que existe a gravidade em vez do nada? E quanto ao nada, para Hawking e outros cientistas, é um nada que é tudo. Na filosofia dizia-se que do nada, nada pode vir. Os cientistas, ou Hawking, andam a dizer que do nada tudo pode vir. Até compreendo – ou penso que compreendo – o que querem dizer. Se o cosmos é uma soma de energia zero, o universo que existe é uma flutuação de energia, é uma separação da matéria (onde nós estamos e somos; curiosa essa ideia de separação, como nas primeiras páginas da Bíblia) e da antimatéria (que andará escondida algures no universo, ou noutro universo, e que é matéria de bestsellers). Por isso dizem que há o universo e o multiverso. E porque não inverso?

Mas se matéria mais antimatéria dá nada, zero, equilíbrio, convém notar que é um nada muito especial. Um nada que é tudo. Ora, se me dizem que há ou houve lá muito no princípio, ou antes do princípio, um nada que é bem nada, um nada que é a soma de tudo, que é tudo, isto soa-me a algo incongruente e, em certo sentido, quase dogmático.

Para superar o nada radical (e não o nada científico, que esse não o compreendo), só concebo um não-nada superior a tudo. A isso chamo Deus, embora o da fé, sendo esse, é mais do que isso. Aqui entra a filosofia e, na minha perspectiva, a religião. E não se confunde com a ciência. Que a ciência explique a origem do universo, ainda que me pareça uma explicação que não explica realmente, pelo menos no ponto em que nos encontramos, até poderei aceitar, mas terei de compreender o básico, ao contrário dos motores de automóveis ou dos computadores, que não respondem às questões do sentido, ainda que respondam a necessidades básicas. Não basta dizer: “Nós, cientistas, sabemos como é. Acreditem em nós, que é demasiado complicado para perceberem”. Mas parece-me que é o que está a acontecer. E isso requer muita fé.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

"Brilhe o vosso rosto", um textinho de Teilhard de Chardin

A recente dispensa de Deus por parte de Hawking, necessária por questões de marketing, pois somos seres movidos a desejo e os livros precisam de ser vendidos, provocou respostas serenas por parte de teólogos, um ou outro bispo e poucos cientistas. Na verdade, já ninguém realmente crente leva a mal que não se encontre Deus na ponta do bisturi (ou a alma, como dizia um célebre cientista português), antes do Big Bang ou na ponta dos dedos flácidos do primeiro ser humano. Deus, para ser Deus, é mais toda-a-parte. Não se contenta com pouco. Mas não abusa da nossa capacidade de recepção e, vá lá, do nosso desejo, pelo que não se impõe. O cientista e padre Teilhard de Chardin (1881-1955, na imagem) sabia bem disso.

Brilhe o vosso rosto

Senhor, nós sabemos e pressentimos
que vós estais em toda a parte
envolvendo-nos.
Mas parece existir um véu nos nossos olhos.
Fazei que de toda a parte
brilhe o vosso rosto.

Teilhard de Chardin

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Torres Queiruga sobre Hawking: Ele tem a sua razão, mas demonstra pouca competência na filosofia

Excerto da uma entrevista ao teólogo Andrés Torres Queiruga.

Qual sua opinião sobre a afirmação de Hawking que Deus não é necessário para a criação do Universo e que o Big Bang foi uma conseqüência inevitável das leis da física?

Queiruga - A frase como tal, sendo tomada na pura pluralidade, não é nova. Quer dizer que para a física Deus evidentemente não é necessário. Já o dissera Laplace: para explicar a astronomia não se necessita da hipótese de Deus. O que se passa é que Hawking, como já em outras ocasiões, porém desta vez com mais força, na medida em que são confiáveis os dados da imprensa, faz uma afirmação desmesurada que sai totalmente do campo da física. Ele tem sua dose de razão, porque para explicar “cientificamente” como se constitui e funciona o universo desde sua origem, é feita uma pergunta científica, à qual responde a ciência. Porém, quando ele dá o salto para a pergunta por que aparece o universo, ele está ingressando num mundo filosófico, no qual demonstra muito pouca competência.

Ler tudo em português aqui.
E em espanhol aqui.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...