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sábado, 3 de setembro de 2011

Anselmo Borges: Que se entende por religião?

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje.

Quando se fala em religião em sentido estrito, é necessário começar por distinguir um duplo pólo: a religião refere-se ao pólo subjectivo, isto é, ao movimento de transcendimento e entrega confiada a uma realidade sagrada, que é o pólo objectivo - o Sagrado ou Mistério. O religioso diferencia-se, pois, do profano, já que indica o modo concreto e peculiar de assumir a existência na perspectiva do Sagrado. Todas as religiões têm em comum o facto de estarem referidas a um âmbito de realidade que é o Sagrado, e são um sistema organizado de mediações - crenças, práticas, símbolos, lugares... - nas quais o Homem religioso exprime o seu reconhecimento, adoração, entrega à Transcendência enquanto fonte de sentido e salvação.

A religião enquadra-se na experiência radical de dependência, implicando um núcleo com esses dois pólos: um pólo objectivo, constituído pela presença de uma realidade superior de que se depende, e um pólo subjectivo, que consiste na atitude de reconhecimento dessa realidade por parte do ser humano.

Neste contexto, P. Schebesta apresenta uma definição paradigmática: "A religião é o reconhecimento consciente e operante de uma verdade absoluta ('sagrada') da qual o Homem sabe que depende a sua existência." É a partir deste núcleo que se entendem os múltiplos elementos visíveis das religiões: crenças, ritos, instituições, espaços e tempos sagrados, etc., diferentes segundo as culturas e tempos históricos e unidos pelo facto de constituírem mediações religiosas. Na sua variedade, as diferentes definições de religião têm um elemento comum que as caracteriza e autentica: "Apontam para uma entidade meta-empírica determinante da atitude humana como base da estrutura da religião. É o último necessário, que adopta formas e nomes distintos: o santo, o misterioso, o divino, o sobrenatural. Numa palavra, um algo outro que não é coberto inteiramente com os termos que designam as coisas que o homem tem à mão."

Qual é então o critério decisivo para determinar o que é realmente a religião?

Há hoje acordo entre os especialistas no sentido de verem esse critério na referência e relação com uma realidade última salvífica. São fundamentais estes dois elementos: entrada em contacto com a ultimidade, que se apresenta como dando sentido último e salvação.

Ao contrário da ideia corrente, no domínio religioso, Deus não é figura primeira e determinante a não ser para um determinado tipo de religião: a religião monoteísta. É célebre, neste contexto, a afirmação de Leeuw: "Deus é um fruto tardio na história religiosa." O conteúdo central da religião é o absoluto, o transcendente, o abrangente, o numinoso.

Assim, para os fenomenólogos da religião, como J. Martín Velasco, por exemplo, o homem religioso é aquele que assume uma determinada atitude face ao Sagrado, entendendo-se por Sagrado aquele âmbito de realidade que se traduz por termos como "o invisível", "a ultimidade", "a verdadeira fonte do valor e sentido últimos", "a realidade autêntica". A religião não é em primeiro lugar ordo ad Deum (relação com Deus), mas ordo ad Sanctum (relação com o Sagrado). Antes da sua configuração como deuses e Deus, o "objecto" da religião é o Sagrado ou o Mistério, que é ao mesmo tempo absolutamente transcendente e radicalmente imanente. O homem religioso faz a experiência do Sagrado ou Mistério enquanto Presença originante e doadora de toda a realidade. É Presença enquanto Transcendência radical no centro da realidade e da pessoa e, assim, Imanência, isto é, Presença mais íntima à realidade e à pessoa do que a sua própria intimidade.

Para o homem religioso, a realidade não se esgota na sua imediatidade empírica: para a sua compreensão adequada, a realidade mesma aparece-lhe como incluindo uma Presença que não se vê em si mesma, mas implicada no que se vê. Mediante certas características - a contingência radical, a morte e o protesto contra ela, a exigência de sentido -, a própria realidade se mostra implicando essa Presença sagrada, divina, como seu fundamento e sentido últimos.
Paul Schebesta, missionário da Sociedade do Verbo Divino (chegou a trabalhar em Moçambique) e antropólogo.

terça-feira, 30 de março de 2010

O sacramento do sorriso

"Se eu tivesse de pedir a Deus um dom, um único dom, um presente celeste, creio que não hesitaria em pedir a suprema arte do sorriso. É o que mais invejo em algumas pessoas. É, penso eu, o cúmulo das expressões humanas.

Falo dos sorrisos que se levantam de uma alma iluminada, que aparecem como o estalar de um relâmpago na noite, como o que vimos ao ver uma corça a correr, ou o que produz em nossos ouvidos o murmúrio de uma fonte num bosque solitário, ou os sorrisos que milagrosamente vemos despontar no roto de um menino de oito meses, e que algumas pessoas – pouquíssimas – conseguem conservar toda a vida.

Todo o sorriso tem alguma coisa da transparência de Deus, da grande paz. Por isso me atrevi a intitular este comentário «o sacramento do sorriso». Porque é sinal visível de que a nossa alma está aberta de par em par".

José Luís Martín Descalzo (1930-1991), in “Razões para a alegria” (ed. Missões Cucujães)

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

A melancolia é o fundamento profano do sagrado

"Melancolia", de Albrecht Durer
(para o significado da imagem, ler aqui)

A melancolia é o fundamento profano a partir do qual desponta o sagrado. A nossa esperança na validade desta alegação é o que mantém a maioria de nós ternamente predispostos para com a tristeza dos outros, por mais indulgentes que eles sejam, e para as sombras do nosso coração, por maior que seja a dor. Temos fé de que o desânimo conduza à afirmação. Se continuarmos a viver sem acolhermos a escuridão, então só nos resta a mais horrenda das situações: o sofrimento não tem significado. Se isto for verdade, é provável que não consigamos persistir. Precisamos de acreditar que a nossa sombra gera a luz. Temos de manter esta posição. Aceitar o que nos é dado, agarrar graciosamente a gravidade das coisas, dizer sim ao ameaçador não.

In "Contra a felicidade. Em defesa da melancolia" (ed. Estrela Polar), de Eric G. Wilson. Pág. 106.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...