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quinta-feira, 21 de abril de 2011

Sacode as nuvens que te pousam nos cabelos



Sacode as nuvens que te pousam nos cabelos,
Sacode as aves que te levam o olhar.
Sacode os sonhos mais pesados do que as pedras.

Porque eu cheguei e é tempo de me veres,
Mesmo que os meus gestos te trespassem
De solidão e tu caias em poeira,
Mesmo que a minha voz queime o ar que respiras
E os teus olhos nunca mais possam olhar.



Sophia de Mello Breyner Andersen
(lido no Gang Nocturno)

domingo, 17 de abril de 2011

Espera - Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen para este domingo de navegação

Deito-me tarde

Espero por uma espécie de silêncio
Que nunca chega cedo
Espero a atenção a concentração da hora tardia
Ardente e nua
É então que os espelhos acendem o seu segundo brilho
É então que se vê o desenho do vazio
É então que se vê subitamente
A nossa própria mão poisada sobre a mesa

É então que se vê o passar do silêncio
Navegação antiquíssima e solene

Sophia de Mello Breyner Andresen. Poema lido aqui.

Orações de Sophia


Sophia no Parque dos Poetas - Oeiras

(…) Sei de cor dois ou três poemas (curtos) de Sophia porque continuo a repeti-los como orações, exactamente como quando os li na adolescência (…).

Inês Pedrosa na “Ler” n.º 101, pág. 85.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Sophia e Assis

Se Sophia foi a Pádua ver um franciscano, é capaz de ter passado por Assis. Pelo menos escreveu:

Santa Clara de Assis

Eis aquela que parou em frente
Das altas noites puras e suspensas.

Eis aquela que soube na paisagem
Adivinhar a unidade prometida:
Coração atento ao rosto das imagens,
Face erguida,
Vontade transparente
Inteira onde os outros se dividem.

In "Cem Poemas de Sophia", Ed. Visão/ JL, 2004, pág. 37

Sophia, pagã-cristã


No P2 (do “Público”), de 21 de Junho, num texto de Alexandra Lucas Coelho (ALC) sobre o espólio de Sophia de Mello Breyner Andresen:

“Portuguesa, inequivocamente cristã, é a poeta de um mundo pagão”, escreve ALC. Por causa da paixão pela Grécia e a antiguidade grega.

Na Grécia, Sophia toma banhos de mar, bebe vinho de resina “e quer ajudar as pessoas, como um jovem americano que precisa de boleia”, diz ALC. Porque “o amor cristão é prático e concreto, como na parábola do samaritano”, deixa Sophia escrito num caderno de viagens.

Em Pádua, Sophia escreve: “Toquei a minha aliança no túmulo de Santo António, comprei um vela e rezei pelo Francisco [Sousa Tavares], filhos e pela minha mãe”.

“Pagã-cristã, poeta e mulher de família, tudo isto nela parece coexistir com verdade”, resume ALC. Pagã de referências culturais, cristã de valores existenciais, diria eu.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...