Muito se escreveu sobre o juiz do Porto e a Bíblia. Mas julgo que ninguém até agora tinha dito na imprensa portuguesa que a maior novidade de Jesus - sim, é mesmo uma novidade, uma revolução - sobre o casamento, que é esta: “Quem se divorciar da sua mulher e casar com outra, comete adultério contra a primeira” (Mc 10,11). Até então só o homem tinha direitos matrimoniais e o adultério - cometido por homens e mulheres - era sempre relativo ao casamento de um homem. É o que explico no que vai na imagem e que foi publicado no jornal da Diocese de Aveiro.
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segunda-feira, 6 de novembro de 2017
segunda-feira, 22 de maio de 2017
Para quando a primeira cardeal?
É inovação do Papa a nomeação de cardeal de um bispo auxiliar?
O Papa Francisco disse no domingo que vai fazer cinco novos cardeais. Um deles é D. Gregório Rosa Chávez, bispo auxiliar de São Salvador (El Salvador).
Tanto quanto se sabe, é a primeira vez que um auxiliar passa à frente do titular (o arcebispo de São Salvador) e é nomeado cardeal.
É capaz de ser inovação de Francisco.
O título de cardeal, na realidade, não está dependente de nada. Em teoria, nem padre é preciso ser para se ser cardeal.
Assim, espero que o Papa nomeie não clérigos para cardeais. Mais, espero sinceramente que nomeie mulheres para cardeais. E já vai tarde.
O Papa Francisco disse no domingo que vai fazer cinco novos cardeais. Um deles é D. Gregório Rosa Chávez, bispo auxiliar de São Salvador (El Salvador).
Tanto quanto se sabe, é a primeira vez que um auxiliar passa à frente do titular (o arcebispo de São Salvador) e é nomeado cardeal.
É capaz de ser inovação de Francisco.
O título de cardeal, na realidade, não está dependente de nada. Em teoria, nem padre é preciso ser para se ser cardeal.
Assim, espero que o Papa nomeie não clérigos para cardeais. Mais, espero sinceramente que nomeie mulheres para cardeais. E já vai tarde.
terça-feira, 18 de novembro de 2014
Gálatas 3,28
A Igreja Anglicana aprovou na segunda-feira a possibilidade de ordenar mulheres bispas. Já podiam ser ordenadas em cinco países da Comunhão Anglicana, mas não em Inglaterra. Tenho pena de os católicos não estarem à frente nisto.
sexta-feira, 31 de outubro de 2014
Seis ideias contrárias ao pensar comum a propósito das bruxas
Umas coisinhas sobre as bruxas, ao arrepio do pensar comum. E posto isto, vou para casa dar cabo de uma abóbora.
1
As bruxas e os seus sabbats são uma invenção dos
inquisidores medievais tardios, mais concretamente nas montanhas da Suíça. Foram
os inquisidores que associaram as feiticeiras ao culto do diabo e à heresia. E
a partir daí acaba a tolerância e começa a perseguição no centro da Europa.
2
A queima das bruxas aconteceu em muito maior escala na Idade
Moderna do que na Idade Média. Na realidade, se considerarmos que Idade Média
vai até 1453 (Queda de Constantinopla), a perseguição às bruxas foi uma
raridade. Houve condenações, mas quase todas no contexto de heresias como as
dos cátaros. O pior viria a seguir, de modo sistemático, até aos princípios do séc. XVIII. Diz-se
que a última mulher a ser condenada à morte por bruxaria foi uma jovem, em
Glarus (cantão protestante), na Suíça, em 1783. A tragédia terminou onde
começara.
3
Os protestantes (luteranos, calvinistas, anglicanos)
queimaram mais bruxas do que os católicos (o que, mesmo assim, é claro, não é
motivo nenhum de glória). E, o que ainda é mais estranho e contrário ao pensar
comum, houve mais juízes e condenações seculares (em tribunais seculares) do que religiosas.
4
O livro que foi um best-seller na perseguição das bruxas, o “Malleus
Maleficarum” (“O Martelo das Bruxas”), de 1487, escrito por dois frades
dominicanos, nunca foi aprovado pela Igreja Católica. Pelo contrário, foi
colocado no Index. Mas fez imenso sucesso entre católicos e ainda mais entre
protestantes alemães.
5
Na Península Ibérica, não houve queima de
bruxas (ou se houve, foram residuais e a bruxaria não foi o principal motivo). Porquê? Por causa da Inquisição ibérica, quase exclusivamente preocupada
com a perseguição aos judeus e muçulmanos. Isso mesmo. Não queimou bruxas. Sem
tirar nem pôr.
6
Há uma tese que diz que nos tempos em que algumas mulheres (geralmente
viúvas, solitárias, com conhecimentos de medicina popular, nas margens das
povoações, curandeiras) eram perseguidas como bruxas detinham um alto estatuto
jurídico. E que depois do fim das perseguições passaram a ser consideradas doentes,
incapazes de personalidade jurídica, pelo que viram o seu estatuto social
diminuído.
segunda-feira, 14 de julho de 2014
Mulheres no episcopado
O sínodo da geral Igreja da Inglaterra (anglicana) aprovou nesta segunda-feira por esmagadora maioria a ordenação de mulheres como bispos, uma medida histórica que a dividia há anos.
Li aqui. Fico contente com a notícia. Um dia lá chegaremos nós, os católicos. Pena não estarmos à frente.
Li aqui. Fico contente com a notícia. Um dia lá chegaremos nós, os católicos. Pena não estarmos à frente.
segunda-feira, 19 de maio de 2014
Mulheres apaixonadas por padres escrevem ao Papa
Vinte e seis mulheres apaixonadas por padres escreveram ao Papa. Li no Público. O que me intriga nesta notícia é: como se conheceram, já que se trata de uma carta única? De resto, o celibato presbiteral obrigatório não é milenar (diz-se que o celebrado Bartolomeu dos Mártires, em Trento, pediu uma exceção para os seus padres do Barroso. Foi mesmo?), como se diz na notícia. Nem universal para os católicos (há os protestantes convertidos, os ex-anglicanos, os católicos de rito grego). E como opção até é pré-cristão. Por outro lado, porque não lhe escrevem os padres?
domingo, 23 de março de 2014
Anselmo Borges e a morte de José Policarpo: "Ouvir o silêncio que fala"
Texto de Anselmo Borges no DN de ontem:
1. E pus-me a caminho de Lisboa. Com a única finalidade de prestar uma última homenagem ao colega e amigo José Policarpo, cardeal-patriarca emérito. Fomos colegas na Universidade Gregoriana, em Roma, e ficámos amigos e, quando um amigo se nos vai embora, precisamos de uma despedida.
Jazia dentro da urna fechada, no chão da sé catedral. Desde a sua morte que as palavras nunca mais pararam. E falou-se, falou-se, falou-se. E imagens e mais imagens sobre outras imagens. E talvez poucos se tenham ocupado com estar calados. Talvez precisemos tanto de falar porque temos medo do silêncio da morte. Os mortos não falam. Está ali, imenso, o silêncio que fala, a dizer o essencial. Mas quantos estão preparados para, num tempo de rebuliço, ouvir o silêncio?
Repetiu-se, e bem, que José Policarpo foi um intelectual, um homem de cultura, de inteligência superior. Por isso, várias vezes conversámos sobre o que agora ali estava: a morte e o seu impensável, que nos obrigam a pensar. Hoje, o pensamento é débil e banal, à tona das coisas, e porquê? A nossa é a primeira sociedade na história que teve de fazer da morte tabu. No entanto, é ela que põe a pensar até ao fundo, à ultimidade. A crise do nosso tempo, que é, antes de mais, uma crise de cultura, é a crise da morte e do seu tabu. Afinal, é o pensamento sadio da morte que nos coloca perante a distinção real do justo e do injusto, do que verdadeiramente vale e do que não vale. E até percebemos, bem lá no fundo, que somos mortais, logo, somos irmãos.
2. Desde cedo José Policarpo entendeu que a Igreja precisa de renovar-se, na linha do Concílio Vaticano II. Estar atenta aos "sinais dos tempos", tema da tese de doutoramento. E dialogar com todos, nomeadamente no mundo da cultura, dando razões da fé. E ser próximo daqueles e daquelas que estão nas margens, nas periferias existenciais, sociais e geográficas, como diz agora o Papa Francisco. Não ignorou os pobres e injustiçados. Permaneceu distante dos poderes, para poder manter a liberdade crítica da denúncia das injustiças e do anúncio de caminhos pelo pensar e a solidariedade.
Homem de convicções, afirmou-as sem medo. Por outro lado, teve o saber e a sabedoria de não criar rupturas, concretamente quando se tratou de questões ditas fracturantes, como o aborto e o casamento de pessoas do mesmo sexo. Afinal, a Igreja tem o direito e o dever de anunciar claramente a sua doutrina, mas José Policarpo sabia também que vivemos numa sociedade democrática e pluralista e as leis são votadas no Parlamento.
3. Um homem afável, embora haja quem diga que ficou um pouco amargo nos últimos tempos. Também terá tido as suas tristezas: por exemplo, nem sempre ter sido compreendido, ver o País a afundar-se. Amigo do seu amigo, gostava da família e apreciava as coisas boas da vida. Bem--disposto, contava estórias, tinha um humor fino. Movia-se à vontade dentro da Igreja e na sociedade. Honrou a Igreja e o País, tanto dentro como além-fronteiras. Fiel ao espírito conciliar, olhava para o futuro e deve ter tido grande alegria com a renovação que via através do Papa Francisco.
Falhas? Quem as não tem? A tentativa de ir por diante com uma televisão da Igreja foi um erro e, lamentavelmente, nunca pediu desculpa a pessoas modestas que meteram lá dinheiro, pensando que era para bem da Igreja e do Evangelho. Como teólogo, argumentou que não há razões teológicas que impeçam a ordenação das mulheres, mas, depois, chamado ao Vaticano, voltou atrás, autocensurando-se. Foi pena que, reitor e magno chanceler da Universidade Católica, não tenha conseguido fazer com que a orientação nos domínios da economia e da gestão se aproxime mais da doutrina social da Igreja.
4. Dizia o filósofo Ernst Bloch, o ateu religioso, que os mortos apenas levam consigo as boas obras e a música. As falhas também, digo eu.
José Policarpo partiu e, como todos, não deixou endereço. Mas ele acreditava, e eu também, que não morremos para o nada, mas para o mistério da vida plena de Deus, o Deus que é amor e misericórdia.
sexta-feira, 14 de março de 2014
domingo, 9 de março de 2014
Anselmo Borges: "Francisco sobre temas em discussão"
Texto de Anselmo Borges no DN de ontem (aqui):
Já sabíamos, mas agora é o próprio Francisco, entrevistado peloCorriere della Sera, a dizê-lo: "Gosto de estar com as pessoas, com os que sofrem. O Papa é um homem que ri, chora, dorme tranquilo e tem amigos como toda a gente. É uma pessoa normal." Por isso, não gosta que façam dele um mito, e cita Freud: "Em toda a idealização há uma agressão.
"Não decide sem ouvir o conselho de muitos, e ouve mesmo, não finge. Mas, claro, "quando se trata de decidir, de assinar, fica só com o seu sentido de responsabilidade". Na entrevista, enfrenta os temas mais delicados. Com uma liberdade e clareza desarmantes. Assim: "Nunca entendi a expressão "valores não negociáveis". Os valores são valores e pronto.
"Sobre a pedofilia: "Os casos de abusos são terríveis, porque deixam feridas profundíssimas. Bento XVI foi muito corajoso e abriu o caminho. E, seguindo esse caminho, a Igreja avançou muito. Talvez mais do que ninguém. As estatísticas sobre o fenómeno da violência contra as crianças são impressionantes, mas mostram também com clareza que a grande maioria dos abusos provém do ambiente familiar e das pessoas próximas. A Igreja Católica é talvez a única instituição pública que se moveu com transparência e responsabilidade. Ninguém mais fez tanto. E, no entanto, a Igreja é a única a ser atacada.
"Família: hoje, "é difícil formar uma família". "Os jovens já não se casam. Há muitas famílias separadas, cujo projecto de vida comum fracassou. Os filhos sofrem muito. E nós temos de dar uma resposta. Mas, para isso, é preciso reflectir muito e em profundidade. E é à luz dessa reflexão profunda que se poderá enfrentar de modo sério as situações particulares, também a dos divorciados." Casamento homossexual: "O casamento é entre um homem e uma mulher. Os Estados laicos querem justificar a união civil para regular diversas situações de convivência, impulsionados pela necessidade de regular aspectos económicos entre as pessoas. É preciso considerar cada caso e avaliá-los na sua diversidade." Quanto à Humanae Vitae, diz que Paulo VI "teve a coragem de ir contra a maioria, defender a disciplina moral, aplicar um freio cultural, opor-se ao neomalthusianismo presente e futuro. O problema não é mudar a doutrina, mas ir fundo e certificar-se de que a pastoral tem em conta as situações de cada pessoa e o que essa pessoa pode fazer.
"Sobre as mulheres: "Podem e devem estar mais presentes nos lugares de decisão da Igreja. Mas a isto eu chamaria uma promoção de tipo funcional." Só com isto não se avança muito, sendo necessário aprofundar teologicamente a questão, o que está a ser feito, também com "muitas mulheres peritas". Não o aborrece absolutamente nada que o acusem de marxista. "Nunca adoptei a ideologia marxista, pois é falsa." Esclarece que o Evangelho condena o culto da riqueza e que a pobreza nos afasta da idolatria, lembrando que Zaqueu deu metade dos bens aos pobres. Sobre a globalização: "Salvou muitas pessoas da miséria, mas condenou muitas outras a morrer de fome, porque com este sistema económico torna-se selectiva. A globalização em que a Igreja pensa não se parece com uma esfera, na qual cada ponto é equidistante do centro e na qual, portanto, se perde a particularidade dos povos, mas é um poliedro, com as suas diversas faces, em que cada povo conserva a sua própria cultura, língua, religião, identidade. A actual globalização "esférica" económica, e sobretudo financeira, produz um pensamento único, um pensamento débil. E no seu centro não está a pessoa humana, mas o dinheiro.
"O final da vida: "Não sou um especialista em bioética e temo equivocar-me. A doutrina tradicional da Igreja diz que ninguém está obrigado a usar métodos extraordinários quando está na sua fase terminal. Pastoralmente, nestes casos, eu sempre aconselhei os cuidados paliativos. Em casos mais específicos, se for necessário, convém recorrer ao conselho dos especialistas.
"Francisco: apenas um homem, normal. "Essa é a sua grandeza", dizia há tempos Fernando Alves.
sábado, 22 de fevereiro de 2014
Anselmo Borges: "O que pensam os católicos sobre a Igreja?"
Texto de Anselmo Borges no "DN" de hoje.
1- A Bendixen & Amandi realizou, entre Dezembro de 2013 e Janeiro de 2014, com 12 038 fiéis adultos de 12 países maioritariamente católicos dos cinco continentes, para a Univisión, a principal televisão em espanhol dos Estados Unidos, uma sondagem sobre temas importantes na e para a Igreja. Fiabilidade: 95%.
Alguns resultados, com dissonâncias entre a doutrina e a opinião e vivência dos fiéis. a) Anticonceptivos: 78% a favor; 19% contra; 3% não responderam. b) Ordenação sacerdotal das mulheres: 45% a favor; 51% contra; 4% não responderam. c) Casamento dos padres: 50% sim; 47% não; 3% não responderam. d) Aborto: 8% deve permitir-se sempre; 65% nalguns casos; 33% nunca; 2% não responderam. e) Quanto ao casamento homossexual, há acordo com a doutrina: 66% contra; 30% a favor; não responderam 4%. f) Como avalia o trabalho do Papa Francisco? 41% excelente; 46% bom; 5% medíocre; 1% mau; 7% não responderam.
2- "Agora, o Papa Francisco, no confronto com os reaccionários da Cúria, pode apelar para as respostas da maioria dos fiéis sobre temas tão importantes. O Papa emérito Bento XVI escreveu-me há pouco, a mim eterno rebelde, uma carta afectuosa na qual mostra empenho em apoiar Francisco, esperando que ele tenha todo o êxito - "a minha única e última tarefa é apoiar Francisco", escreve." Quem isto revelou foi Hans Küng, o famoso teólogo crítico, condenado por João Paulo II e um dos poucos peritos do Vaticano II vivos, numa entrevista ao La Reppublica, no dia 10 deste mês, sobre a sondagem, na qual é manifesta a distância entre a Igreja oficial e os fiéis.
Para ele, o mais importante nela é a maioria esmagadora de vozes favoráveis a Francisco, que também já lhe escreveu pessoalmente: 87% dos católicos interrogados em todo o mundo e 99% dos italianos estão de acordo com ele. É "um pequeno milagre" Francisco ter conseguido, em menos de um ano, inverter a tendência dos fiéis e não só quanto à crise de confiança na Igreja.
Interrogado sobre o significado dos resultados da sondagem para a hierarquia, Küng dá uma resposta sensata: "Para os bispos preparados para reformas, e eles existem em todo o mundo, eles significam um grande encorajamento. Quanto aos conservadores, que têm as suas reservas: deveriam reflectir sobre as suas reservas e escutar os argumentos dos renovadores. Os bispos reaccionários, presentes não só no Vaticano mas em todo o mundo, deveriam abandonar a sua resistência obstinada e optar pela razoabilidade."
E o Papa Francisco? "Se me é permito dar-lhe um humilde conselho, deveria avançar com coragem no caminho iniciado e não ter medo das consequências." Em concreto, "espero que use a arte do "Distinguo" que aprendemos na Universidade Gregoriana: onde, na sondagem, há consenso na Comunidade eclesial, deveria propor uma solução positiva ao Sínodo. Onde há dissentimento, deveria permitir e suscitar um debate livre na Igreja. Onde ele próprio tem uma opinião diferente da da maioria dos católicos, como quanto à ordenação das mulheres, deveria nomear uma task force de teólogos e outros peritos, homens e mulheres, para enfrentar o tema."
Está contente? "Não me considero vencedor, não travei batalhas para mim, mas para a Igreja. Tenho a alegria de ver, ainda vivo, o êxito das ideias de reformas da Igreja pelas quais tanto combati."
3- A Igreja Católica é a única instituição verdadeiramente global. Assim, um problema maior será o da convivência com a variedade de posições.
Exemplos, a partir desta sondagem global, após a apresentação dos dados totais. Os divorciados recasados não podem comungar: na Europa, não concordam com esta proibição 75%, mas a não concordância é de 46% nas Filipinas. Ordenação das mulheres: na Europa estão a favor 64%, mas, nas Filipinas, 76% são contra. Casamento homossexual: em Espanha, 64% são favoráveis, mas na África 99% opõem-se-lhe. Na Europa, 50% pronunciam-se a favor do casamento dos padres, mas na África só 28%.
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014
Bento Domingues: "Código genético (1)"
Texto de Bento Domingues no "Público" de ontem:
1. Fui interpelado acerca do texto do Domingo passado com
duas perguntas pouco inocentes: haverá um baptismo para homens e outro para
mulheres e será possível abordar o baptismo cristão sem falar da democracia na
Igreja?
As tentativas de “resposta” só podem ser de ordem histórica
e teológica. Na Idade Média, perante a floresta de símbolos que povoavam o
imaginário sagrado do culto, das devoções e superstições, foram recortadas sete
celebrações fundamentais, os sete sacramentos. No registo do pensamento
analógico, são entendidos como irradiações da Páscoa de Cristo, nas etapas mais
típicas e estruturantes da vida sacramental da Igreja. O baptismo é a porta de
entrada, personalizada e comunitária, num processo vital da graça transfiguradora
da existência humana no seu devir espiritual, do nascimento à morte, na
esperança da ressurreição. A omnipresença da graça não suprime a liberdade
humana nem o mistério da iniquidade actuante na nossa história.
No código genético cristão, não se conhece um baptismo para
homens e outro para mulheres. Sendo assim, elas perguntam: qual é a deficiência
natural ou sobrenatural de que sofremos para não podermos ser chamadas a
receber o sacramento da ordem integrado pelo diaconado, presbiterado e episcopado?
Referem-se a uma situação de facto na Igreja católica romana
e nas Igrejas ortodoxas. Para muitas teólogas e teólogos católicos trata-se de
uma anomalia antiga que já vai sendo tempo de superar. Não existe nenhuma
maldição de Cristo a dizer que as mulheres ficavam para sempre excluídas da
possibilidade de serem chamadas aos ditos “ministérios ordenados”. As Igrejas
protestantes, que assinaram o acordo baptismal com a Igreja católica romana e
ortodoxa, estão a seguir um caminho diferente.
2. Pode-se falar do Baptismo, sem abordar a questão da
democracia na Igreja? Era a segunda pergunta. A democracia não é uma invenção
moderna. Amartya Sen (1933 -), considerado o mais humanista dos economistas,
presta homenagem à Grécia que, no séc. VI (a. C.), adoptou um sistema eleitoral
e cultivou o debate público. Os gregos, aliás, gostavam muito mais do diálogo
com os persas, os indianos e os egípcios do que com os godos e visigodos.
Alexandre Magno passou mais de um ano na Índia e os intelectuais da época estavam
fascinados pelo Oriente que recebeu da Grécia o sistema eleitoral antes da
França, da Alemanha ou da Grã-Bretanha. Seis séculos antes da Magna Carta
inglesa, o Japão estava dotado de uma Constituição que impunha ao imperador
consultas antes de decidir. A Índia vive uma antiga tradição de debate público,
onde tudo poderia ser discutido.
A democracia, tal como a conhecemos hoje, é o produto da
modernidade, do século das Luzes, sendo a sua história e a sua geografia muito
mais vastas e antigas. Sem uma persistente educação para a cidadania e para a
tornar uma atitude, uma tarefa permanente, uma forma de vida pessoal nas suas
múltiplas relações, acaba por se esvaziar e ficar resumida a alguns momentos
rituais que até eles tendem a desaparecer.
Recordo isto para dizer o seguinte: Desde o Vaticano II, os
documentos da doutrina social da hierarquia católica, são abundantes e
insistentes na defesa da democracia política, económica, social e cultural. O
que diz respeito a todos deve ser tarefa de todos, para benefício de todos,
segundo as capacidades de cada um. Para serem democráticas, as instituições não
devem sufocar, antes estimular, a criatividade social, em todas as suas
manifestações. Não podem contribuir para uma sociedade de privilégios, de
monopólios, de opressão dos mais fracos pelos mais fortes. Os conflitos são
inevitáveis. A controvérsia é normal. Os cidadãos não são clonáveis. A
democracia é o regime da cooperação.
Esses documentos rompem com os receios e ataques do
magistério eclesiástico do séc. XIX e princípios do séc. XX. A generosidade
actual não se estende a uma gestão democrática da Igreja. Repete-se que a
Igreja não é uma democracia.
3. Importa, no
entanto, não fechar demasiado depressa esse dossier. A concepção hierárquica
neoplatónica vê a Igreja como uma pirâmide, um sistema escalonado: Deus,
Cristo, o papa, os bispos, os padres e os diáconos, seguidos dos religiosos e,
finalmente os “leigos”, primeiro os homens, depois as mulheres e as crianças.
Nesse esquema, o Espírito Santo vai de férias. Ao “Vigário de Cristo”, com a
sua infalibilidade definida no Vat. I, basta-lhe exigir obediência.
Quando se diz que a Igreja não é uma democracia continua-se
a pensar na pirâmide, esquecendo que os seus membros, homens e mulheres,
renascidos de um só baptismo, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo,
formam uma vasta comunhão de fraternidades de profetas e sacerdotes do povo
cristão ao serviço da humanidade inteira, na sua unidade plural.
A Igreja cristã não vive num vazio sociocultural e político.
Não pode viver num gueto. Embora deva manter um distanciamento crítico em
relação às estruturas socio-políticas – não são o Reino de Deus realizado –,
mas uma gestão democrática do seu governo será sempre preferível, em qualquer
circunstância, a um regime autoritário. Do código genético baptismal, não
constam os genes de ditadura na Igreja.
sexta-feira, 27 de dezembro de 2013
O médico que perguntou ao Papa o que achava da pílula
No jornal "i" de hoje. Albino Aroso morreu ontem, no Porto. O Papa a quem colocou a questão da pílula foi João XXIII.
domingo, 1 de dezembro de 2013
Bento Domingues: "O advento inesperado"
Bento Domingues no "Público" de hoje (aqui).
1. Hoje, é o primeiro Domingo do Advento, um tempo dedicado
a preparar a celebração do nascimento de Jesus. A selecção de leituras bíblicas
está feita, os cânticos escolhidos. É previsível o que será dito nas homilias.
Se alguma surpresa surgir só poderá vir do Papa Francisco.
Tinha acabado de escrever este parágrafo, quando me
telefonaram do Diário de Notícias a pedir um primeiro comentário à Exortação
papal Evangelii Gaudium. Acabava de chegar de Ponta Delgada, onde tinha ido
participar na XIX Semana Bíblica Diocesana. Cheguei sem saber absolutamente
nada acerca dos últimos atrevimentos do Bispo de Roma que, como li depois, se
confessa aberto a novas sugestões, pois não se deve esperar do magistério papal
uma palavra definitiva ou completa sobre todas as questões que dizem respeito à
Igreja e ao mundo (16).
A crónica que tinha preparado era provocada pelo crescimento
dos nossos multimilionários e pelos da ilha Hainan (China), nas suas faustosas
e ridículas exibições. Um deles, Xing Libin, gastou no casamento da filha,
8.455 milhões de euros, e além desta miséria só lhe ofereceu seis Ferraris.
Esta humilhação, esta ofensa directa ao mundo da pobreza e da miséria
enojou-me. A indignação do Papa brota da mesma fonte donde vem a sua alegria: a
intimação do Evangelho a mudar as comunidades católicas e o mundo.
Esta tentativa de mobilização de toda a Igreja para uma
evangelização nova é também o enterro do estilo rançoso que, vindo de muito
antes, lançou e acompanhou, durante anos, a chamada “nova evangelização”.
Não resisto a transcrever algumas passagens deste longo
documento - nunca enfadonho - sobre o tema que eu tinha destinado para esta
crónica. Tentarei, em breve, partilhar outra leitura deste conjunto de notas
franciscanas unidas pela alma que em todas palpita e dá ritmo ao conjunto.
A necessidade de resolver as causas estruturais da pobreza
não pode esperar (202).
2. Assim como o mandamento "não matar" põe um
limite claro para assegurar o valor da vida humana, assim também hoje devemos
dizer "não a uma economia da exclusão e da desigualdade social". Esta
economia mata. Não é possível que a morte por enregelamento dum idoso sem
abrigo não seja notícia, enquanto o é a descida de dois pontos na Bolsa. Isto é
exclusão. Não se pode tolerar mais o facto de se lançar comida no lixo, quando
há pessoas que passam fome. Isto é desigualdade social. Hoje, tudo entra no
jogo da competitividade e da lei do mais forte, onde o poderoso engole o mais
fraco. Em consequência desta situação, grandes massas da população vêem-se
excluídas e marginalizadas: sem trabalho, sem perspectivas, num beco sem saída.
O ser humano é considerado, em si mesmo, como um bem de consumo que se pode
usar e depois lançar fora. (…) Os excluídos não são "explorados", mas
resíduos, “sobras” (53).
Neste contexto, alguns defendem ainda as teorias da
"recaída favorável" que pressupõem que todo o crescimento económico,
favorecido pelo livre mercado, consegue, por si mesmo, produzir maior equidade
e inclusão social, no mundo. Esta opinião, que nunca foi confirmada pelos factos,
exprime uma confiança vaga e ingénua na bondade daqueles que detêm o poder
económico e nos mecanismos sacralizados do sistema económico reinante.
Entretanto, os excluídos continuam a esperar. Para se poder apoiar um estilo de
vida que exclui os outros ou mesmo entusiasmar-se com este ideal egoísta,
desenvolveu-se uma globalização da indiferença. Quase sem nos darmos conta,
tornamo-nos incapazes de nos compadecer ao ouvir os clamores alheios, já não
choramos à vista do drama dos outros, nem nos interessamos por cuidar deles,
como se tudo fosse uma responsabilidade de outrem, que não nos incumbe. A
cultura do bem-estar anestesia-nos, a ponto de perdermos a serenidade se o
mercado oferece algo que ainda não compramos, enquanto todas estas vidas
ceifadas por falta de possibilidades nos parecem um mero espectáculo que não
nos incomoda nada (54).
3. As mulheres não vão gostar de ler, neste belo documento,
que o sacerdócio está reservado aos homens e que esta é uma questão que não se
põe em discussão. Quem a retirou da discussão foi João Paulo II, em 1994, mas
continua a ser cada vez mais discutida. O Papa Francisco considera, por outro
lado, que aí está um grande desafio para os Pastores e para os teólogos, que
poderiam ajudar a reconhecer melhor o que isto implica, no que se refere ao
possível lugar das mulheres onde se tomam decisões importantes, nos diferentes
âmbitos da Igreja (104).
As mulheres não se vão esquecer de lhe lembrar que já
existem muitas teólogas e que a Comissão Pontifícia Bíblica, em 1993, reconheceu
a abordagem feminista da Bíblia. Em Portugal, existe a Associação de Teologias
Feministas. Esta, como outras organizações, não deixarão de apresentar
sugestões ao Papa Francisco para novos documentos, como aliás, ele não cessa de
lembrar (16).
Sem a participação activa das mulheres não há Igreja de
Jesus Cristo.
segunda-feira, 28 de outubro de 2013
domingo, 27 de outubro de 2013
Bento Domingues: "Qual o papel das mulheres numa Igreja onde são a maioria?"
Um bocadinho do texto de Bento Domingues no "Público" de hoje:
O que o Papa procura é centrar as suas preocupações na
reconstrução de uma Igreja que seja um nós aberto ao mundo. Herdou, porém, uma
questão gritante que papas anteriores, com argumentos duvidosos, afirmaram
estar definitivamente encerrada. A pergunta sempre adiada é clara: qual o papel
das mulheres numa Igreja onde são a maioria? O sinal inequívoco de que entrámos
num tempo novo será dado pela resposta que se encontrar, com as mulheres, para
esta questão.
segunda-feira, 30 de setembro de 2013
Ele fala, fala, fala, mas não muda a doutrina, queixa-se a "Visão"
Na "Visão" da semana passada, com esperanças de que haja mudanças na doutrina, seja lá o que isso for. Como se um Papa pudesse mudar a doutrina. Ainda se posse a disciplina...
segunda-feira, 16 de setembro de 2013
quarta-feira, 11 de setembro de 2013
Alemão que nasceu mulher dá à luz e dizem que é o primeiro homem a dar à luz na Europa
Notícia do DN de hoje (e não do "Inimigo Público"):
Primeiro transexual a dar à luz na Europa é alemão
Um transexual alemão foi o primeiro homem a dar à luz na
Europa. O bebé, um rapaz, nasceu a 18 de março em casa, em Berlim, com a ajuda
de uma parteira, de acordo com o Daily Mail.
O homem, que não foi identificado, nasceu mulher e tem feito
nos últimos anos tratamentos hormonais para mudar de sexo.
No entanto, manteve o sistema reprodutivo feminino e usou um
dador de esperma para engravidar.
Oficialmente, o bebé não tem mãe, apenas pai.
"A pessoa em questão não quis aparecer na certidão de
nascimento como mãe, mas sim como pai e o seu pedido foi respeitado",
referiu um porta-voz da Administração do Senado de Assuntos Internos de Berlim.
A notícia diz que "oficialmente, o bebé não tem mãe, apenas pai". Na realidade, tem dois pais, o dador de esperma (provavelmente desconhecido, ok) e o homem que anteriormente era mulher, se é que esta pessoa é um pai. Admirável e, na minha opinião, repugnável mundo este. Está tudo trocado, como dizia o outro. Veio da Alemanha, onde Nietszche deve ter ficado contente por mais uma concretização da vontade de poder.
sábado, 7 de setembro de 2013
Anselmo Borges: "Francisco: 4. sobre temas em debate"
Texto de Anselmo Borges no DN de hoje.
Sobre a lei do celibato dos padres, sobre a ordenação das mulheres, sobre a comunhão dos divorciados recasados, sobre o preservativo, sobre o casamento homossexual, sobre o aborto, sobre a eutanásia, o que pensa o Papa Francisco?
"O problema moral do aborto é de natureza pré-religiosa, porque no momento da concepção reside o código genético da pessoa. Já ali se encontra um ser humano. Separo o tema do aborto de qualquer concepção religiosa. É um problema científico." "A vida humana deve ser defendida sempre desde a concepção."
Quanto ao preservativo, não ignorará que Bento XVI já abrira a porta, pelo menos em certos casos.
Sobre o celibato sabe por experiência própria. Quando era seminarista, ficou deslumbrado por uma rapariga. "Surpreendeu-me a sua beleza, a sua luz intelectual... e, bom, andei baralhado durante algum tempo, a dar voltas à cabeça." Ainda era livre, porque era seminarista. Teve de repensar a sua escolha.
"Voltei a escolher o caminho religioso - ou a deixar que ele me escolhesse. Seria estranho que não se passasse este tipo de coisas." Quando aparece um padre a dizer que engravidou uma mulher, "ouço-o, procuro transmitir-lhe paz e aos poucos faço-o perceber que o direito natural é anterior ao seu direito como padre". No catolicismo ocidental (no Oriente, os padres podem casar-se), "o tema está a ser discutido", mas "por enquanto mantém-se firme a disciplina do celibato". "Trata-se de uma questão de disciplina, não de fé. É possível mudar."
Quanto à mulher na Igreja, "pensem: a Virgem é mais importante do que os apóstolos", "a mulher na Igreja é mais importante do que os bispos e os padres", "é necessária uma profunda teologia da mulher". Mas, "quanto à ordenação das mulheres, a Igreja falou e diz não. Disse-o João Paulo II, com uma formulação definitiva. Essa porta está fechada".
Quanto à comunhão das pessoas que voltaram a casar-se, é preciso pensar que a Igreja é mãe e misericórdia e "creio que o problema deve ser estudado no quadro da pastoral matrimonial." Não esquecer que a Igreja ortodoxa tem uma práxis diferente, "dá uma segunda possibilidade."
Sobre o lobby gay no Vaticano. "Quando nos encontramos com uma pessoa assim, deve-se distinguir entre o facto de ser gay e o facto de fazer lobby, porque nenhum lobby é bom. Se uma pessoa é gay e procura o Senhor e tem boa vontade, quem sou eu para julgar?" O Catecismo da Igreja Católica "explica isto de forma muito boa: não se deve marginalizar estas pessoas. É preciso integrá-las na sociedade. O problema não é ter esta tendência. Devemos ser irmãos. O problema é fazer lobby. Lobby desta tendência ou lobby dos avaros, dos políticos, dos maçons".
Ainda cardeal, sobre o casamento homossexual. "Sabemos que, em tempos de mudanças históricas, o fenómeno da homossexualidade aumentava. No entanto, no nosso tempo, é a primeira vez que se levanta o problema jurídico de a associar ao casamento, o que considero uma menos valia e um recuo antropológico. Digo-o, porque esta questão ultrapassa o plano religioso, é antropológica. Quando o chefe do Governo da cidade de Buenos Aires, Mauricio Macri, não apelou da sentença de uma juíza de primeira instância autorizando o casamento, senti que tinha algo a dizer, e, como forma de orientação, senti-me obrigado a manifestar a minha opinião. Foi a primeira vez em 18 anos de bispo que fiz uma crítica a um funcionário. Em momento algum falei depreciativamente dos homossexuais, mas intervim apontando uma questão legal." "Se houver uma união de tipo privado, não há um terceiro ou uma sociedade que sejam afectados. Ora, se dermos à homossexualidade a categoria matrimonial, os homossexuais ficam habilitados à adopção, e poderá haver crianças afectadas. Qualquer pessoa precisa de um pai masculino e de uma mãe feminina que ajudem a representar a sua identidade."
Quanto à eutanásia, é preciso distingui-la da obstinação terapêutica. "As pessoas não são obrigadas a conservar a vida através de cuidados extraordinários. Isso pode ir contra a dignidade do indivíduo. Diferente é a eutanásia activa; esta é equivalente a matar."
sexta-feira, 30 de agosto de 2013
Papa nomeia jovem de 27 anos. 27 anos?
Gosto muito de ver o Papa na "Lux" (é o caso) e nas "Caras", n'"A Bola" e no "Record" no "Inimigo Público" e na "Imprensa falsa". No caso desta notícia da "Lux", que nem li, porque como se sabe estas revistas são feitas para folhear, só li as mais gordas, a polémica da notícia é capaz de estar nos 27 anos. 27 anos não é número bíblico é uma idade perigosíssima. Ian Curtis, Jim Morrison, Kurt Cobain, Amy Winhouse, entre outras estrelas, não passaram dos 27. Deve ser isso.
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