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sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Missionários, bíblias e terras - 2


Quando os missionários chegaram a África, eles tinham a Bíblia e nós tínhamos a terra. Eles disseram: “Oremos”. Nós fechados os nossos olhos. Quando os abrimos, nós tínhamos a Bíblia e eles tinham a terra.

Desmond Tutu, bispo sul-africano da comunhão anglicana

Frase muito parecida com a de Jomo Kenyatta. Mas mais desarmante.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

E um debate entre Onfray e Zizek?

Imaginemos agora um debate entre Onfray e Zizek (ler entrada anterior). Um dizendo que o Deus cristão é um entrave à liberdade. O Outro rebatendo que Cristo é o verdadeiro potenciador da liberdade. Um afirmando a necessidade de supressão da religião, o outro realçando as possibilidades da fé.

Liberdade, Cristo e ateísmo

O que é ser livre? Quem pode ser livre? O cristão, acreditando que, em última análise tudo depende de Deus, pode ser livre? Se Deus for o Senhor do universo e do para-lá-do-universo, da vida e do para-lá-da-vida, do ser e do para-lá-do-ser, o homem será independente e livre?

Os cristãos pensam que sim. São mais livres porque acreditarem em Deus-Pai e em Jesus Cristo, o libertador. Pensam, segundo o exemplo de Cristo, que quanto maior for a dependência filial, maior será a liberdade. Pensam que a verdade, seja qual for, libertará.

Os ateus dizem o contrário, que é preciso matar Deus, apagá-lo da sociedade e das mentes, das aulas, das artes, das praças, da vida. Esquecê-lo. Ignorá-lo. Suprimi-lo. Em nome da verdade e da liberdade.

“Só o homem ateu pode ser livre, porque Deus é incompatível com a liberdade humana. Deus pressupõe a existência de uma providência divina, o que nega a possibilidade de escolher o próprio destino e inventar a própria existência. Se Deus existe, eu não sou livre; por outro lado, se Deus não existe, posso libertar-me. A liberdade nunca é dada. Ela constrói-se no dia-a-dia. Ora, o princípio fundamental do Deus do cristianismo, do judaísmo e do Islão é um entrave e um inibidor da autonomia do homem”, assim pensa Michel Onfray, na linha de Nietzsche, como disse numa entrevista à Veja (Brasil).

Esta é a linha comum dos ateísmos mais ou menos militantes.

Zizek, porém, afirmando-se materialista dialéctico, diz algo diferente. Em "A Monstruosidade de Cristo" (Relógio d’Água), afirma que Jesus, ao encarnar, faz-nos perder a transcendência paternal. Leva-nos a assumir a responsabilidade pelas escolhas. "Quando as pessoas imaginam toda a espécie de sentidos profundos porque as 'assustam as palavras que dizem: Ele fez-se Homem', aquilo que na realidade receiam é perderem o Deus transcendente que garante o sentido do universo, Deus como o senhor oculto que move os cordelinhos - em seu lugar encontramos um deus que abandona a sua posição transcendente e se precipita na sua própria criação, comprometendo-se com ela até à morte, o que faz com que nós, seres humanos, fiquemos sem qualquer Poder superior que olhe por nós, sem outra coisa que não seja o terrível fardo da liberdade e da responsabilidade pelo destino da criação divina e, portanto, do próprio Deus. Não continuaremos hoje a recear demasiado todas as consequências dessas palavras?"

Insistindo na última ideia: a encarnação de Cristo não será o maior incentivo à liberdade humana?

terça-feira, 23 de junho de 2009

O filósofo repetitivo

O filósofo francês Michel Onfray, “ateu, hedonista, libertário e anti-liberal”, disse numa entrevista à TSF, no dia 13 de Maio, que não acreditava no “velhote de barba branca”, nem na “transcendência de Deus” e que a religião é uma “ficção que torna a vida impossível”, que “apodrece a existência”.

Os argumentos de Michel Onfray são os mesmos de Nietzsche. Mas, há que admitir, passados mais de cem anos, estão a ganhar mais visibilidade.

Talvez a religião até apodreça algumas existências. Mas a fé em Cristo engrandece a vida. É a experiência genuína dos crentes. As palavras do filósofo, como qualquer boa provocação, merecem resposta.

Ele tem um livro em português que é Tratado de Ateologia. Não vou comprá-lo, porque não quero investir o meu dinheiro nisso, mas vou saber o que diz – o que até nem é difícil através da net.

Por exemplo, diz que «três milénios testemunham, dos primeiros textos até hoje, a afirmação de um Deus único, violento, invejoso, quezilento, intolerante, belicoso, que gerou mais ódio, sangue, mortos, brutalidade do que paz…»

Diz ainda que é preciso “trabalhar para uma nova ética e criar as condições de uma verdadeira moral pós-cristã, onde o corpo deixe de ser uma punição, a terra um vale de lágrimas, a vida uma catástrofe, o prazer um pecado, as mulheres uma maldição, a inteligência uma presunção, e a vontade uma danação».

Numa expressão ou noutra destas citações, é possível ver uma crítica válida à prática dos cristãos. Mas nada de substancial. Nada de novo.

Voltando à entrevista, quando Carlos Vaz Marques lhe pergunta: “Qual é a sua direcção pessoal?”, a resposta é: “A minha direcção é o hedonismo é fazer as coisas de maneira que na breve existência que me foi concedida que não me arrependa de nada”.

Esta resposta não está longe de um excerto da epopeia de Gilgamesh (rei sumério do séc. XXVIII a. C.). A pergunta é a mesma (a da direcção, o sentido). E a resposta, tal e qual (o prazer).

«Para onde vão os teus passos, Gilgamesh? Não encontrarás a vida que procuras; quando os deuses criaram o homem, deram-lhe a morte por herança. Tinham a vida nas suas mãos. Gilgamesh, enche a barriga, sê feliz dia e noite, faz com que os dias transbordem de alegria, dança e faz música dia e noite. Veste roupa novas, lava a cabeça e saboreia um bom banho. Olha para a criança que levas pela mão. Faz com que a tua esposa goze o teu abraço. Só estas coisas são dignas do homem».

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...