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quarta-feira, 8 de outubro de 2014

A mística da promoção



O último livro do P.e Tolentino Mendonça teve direito a um capítulo (ou excertos?) em avulso. Foi publicitado e distribuído com o "Público". Com pensamentos dele, foi feito um bloquinho que as livrarias distribuem gratuitamente (um dos pensamentos diz: "O paladar não é indiferente ao amor de Deus. Deus saboreia-se, Deus é sabor" - e ainda estou e tentar provar isso).

Só com isto acima, nunca vi um livro católico ser tão promovido. E só acho bem. Mas o que eu nunca tinha visto: pacotes de açúcar a promover um livro católico. Sim, pacotinhos da Delta com a capa de "A mística do instante". No instante em que alguém toma um café, lê (mais um pensamento do tal bloquinho): "Só nos resta o instante, só o instante nos pertence". Bate certo enquanto dura o café. Mas a seguir estamos atrasados para qualquer coisa.

quinta-feira, 27 de março de 2014

Violências

O que o amor tem de mais doce são as suas violências;

o seu abismo insondável é a sua forma mais bela;

perder-se nele é atingir o fim.

Hedviges de Antuérpia (1180-1260)

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

6 de janeiro de 1945. Pannenberg tem uma experiência "envolvente” ao pôr do sol, uma epifania



No dia 6 de Janeiro de 1945, ao regressar de uma aula de piano, caminhando várias horas a pé, em vez de usar o comboio como era habitual, Wolfhart Pannenberg sente-se envolvido pelo pôr do sol, numa experiência por vezes dita "mística". Mais tarde, descreveu esse dia:
“Eu não sabia, à época, que 6 de janeiro era o Dia da Epifania, assim como não me dei conta de que naquele momento Jesus Cristo havia reivindicado a minha vida como uma testemunha da transfiguração deste mundo, iluminado pelo poder e julgado por sua glória. Mas aí começou um período de ânsia para entender o sentido da vida, e uma vez que a filosofia não parecia oferecer respostas para o final dessa busca, eu finalmente decidi provar a tradição cristã mais seriamente do que eu havia considerado antes”.
Foi por causa desse dia 6 que decidiu aprofundar as raízes cristãs, na Alemanha destroçada pela guerra, e enveredar pela teologia, sendo hoje um dos mais importantes teólogos protestante e, provavelmente, o mais católico dos grandes teólogos não-católicos. Segundo uma obra recente, publicada em Itália, faz parte do grupo de três teólogos não-católicos que influenciam ou pelo menos estão mais perto do pensamento do atual teólogo-papa. Os outros dois são Oscar Cullmann e Ioannis Zizioulas. Ler aqui.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Escuro por entre as estrelas



Ah, não! Nunca pensei senão
Que Deus é essa grande ausência
Na nossa vida, o vazado silêncio
Interior, o lugar onde vamos
Buscar, sem esperança, vamos,
De chegar ao achar. Ele cuida dos interstícios
Do nosso saber, o escuro por entre as estrelaa,


R. S. Thomas, "Via Negativa"

sábado, 12 de março de 2011

quinta-feira, 10 de março de 2011

Apaga-me os olhos: eu posso ver-te! - poema de Rilke


Apaga-me os olhos: eu posso ver-te!
Fecha-me os ouvidos: eu posso ouvir-te!
E sem pés posso ir ao teu encontro
e mesmo sem boca eu posso chamar-te!
Arranca-me os braços, e eu te seguro
com o coração, como com as minhas mãos.
Pára o meu coração, e em mim o cérebro
há-de pulsar; e se puseres fogo
no meu cérebro, eu te trarei no sangue.

Rainer Maria Rilke (1875-1926)

segunda-feira, 7 de março de 2011

Ó doce luz

Ó doce Luz,
que me envolves,
e iluminas as trevas do meu coração:

Tu me guias
como a mão de uma mãe.
Se eu me soltasse,
não poderia dar um só passo mais.

És o círculo,
que me circunda
e me encerra em si.

Separado de Ti, eu cairia
no abismo do nada,
do qual me elevaste até ao ser.

Estás mais perto de mim
do que eu de mim mesma.
Mesmo assim, és inacessível
e incompreensível.
Nenhum nome Te pode conter,
ó Espírito Santo, Amor Eterno!

Edith Stein (1891-1942)

sábado, 21 de agosto de 2010

O que disse mesmo Malraux

André Malraux

André Malraux disse-me: "O próximo século será místico ou então não será". E eu insisto bem sobre isto: Malraux disse «místico» e não «espiritual», como se tem falsamente repetido muitas vezes. Porque, para ele como para mim, o estado místico é o que permite aceder directamente a Deus, pela experiência.

André Frossard (1915-1995)

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Poema de Simone Weil

A divina renúncia

Só se possui
aquilo a que se renuncia.
Aquilo a que não se renuncia
escapa-nos.
Neste sentido,
não podemos possuir seja o que for
sem passar por Deus.

Comunhão católica.
Não só
Deus se fez uma vez carne,
mas faz-se todos os dias matéria
para se dar ao homem
e ser consumido.
Reciprocamente,
pela fadiga, desgraça, morte,
o homem torna-se matéria
e é consumido por Deus.
Como recusar esta reciprocidade?
Ele esvaziou-se da sua divindade.
Nós devemos esvaziar-nos
da falsa divindade com que nascemos.

Uma vez que se compreendeu
o seu próprio nada,
o fim de todos os esforços
é tornar-se nada.
É com esta finalidade
que se aceita o sofrimento
é com esta finalidade que se trabalha
é com esta finalidade que se reza.

Simone Weil (1909 – 1943)

domingo, 11 de abril de 2010

Soneto de Frei Agostinho da Cruz

Em tempo de Páscoa, um soneto "À Coroa de espinhos" de um franciscano que viveu no Convento da Arrábida, na imagem, perto de Setúbal.

A que vindes, Senhor, do Ceo à terra,
Terra que sendo vossa vos enjeita,
E que tanto vos honra e vos respeita,
Que em vos não receber insiste e emperra?

Ah quanta ingratidão nela s’encerra!
Quão mal de vossa vinda se aproveita!
Pois se põe a tomar-vos conta estreita,
Mais brava contra vós, quanto [mais] erra.

E vós de vosso amor puro forçado
As malditas espinhas lhe pisais,
Das quais ainda sendo coroado,

A maldição antiga lhe trocais
Na benção, que lhe dais crucificado,
Quando morto d’amor, d’amor matais.

Frei Agostinho da Cruz (1540-1619)

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

3 de Fevereiro de 1909. Nasce Simone Weil

A mística que ficou à porta da Igreja

Completaria hoje 101 anos. Morreu nova, com 34 anos. Simone Adolphine Weil (Paris, 3 de Fevereiro de 1909 – Ashford, Inglaterra, 24 de Agosto de 1943) é a mística cristã que não chegou a ser baptizada, a revolucionária que não acreditava no fascismo nem no comunismo, a convertida que quis ficar no escuro da porta do farol (“À porta do farol faz escuro” é o título que reúne em português alguns dos seus poemas, ed. Apostolado de Oração), a filósofa que achava que a reflexão só vale para melhorar a acção. Reflectiu muito e agiu muito. As suas “Obras completas” perfazem oito volumes.

Simone Weil nasceu numa família judia, em França, mas teve educação agnóstica. Na crónica semanal no Diário de Notícias, o P.e Anselmo Borges recordou há um ano episódios da vida deste espírito inquieto (DN 31-01-2009). Com apenas 11 anos, participa em manifestações dos grevistas parisienses. Mais tarde, torna-se operária da Renault para compreender o quotidiano das fábricas. Ainda Anselmo Borges: “Simone de Beauvoir refere nas suas «Memórias» um encontro na Sorbonne: Weil jura apenas pela Revolução que «daria de comer a toda a gente» e a Beauvoir, que sustenta que o verdadeiro problema é o de «encontrar um sentido para a existência», replica: «Vê-se bem que nunca passaste fome!»”

Na busca interminável de Simone Weil teve importância uma passagem por Portugal. Em 1935, na Póvoa do Varzim, assistiu a uma procissão de velas de mulheres de pescadores e ficou abismada com os cânticos populares. “É então que ela recebe uma luz que a guiará até ao fim dos seus dias: dá-se conta de que a religião de Cristo crucificado é, não pode deixar de ser, a religião universal de todos os homens e mulheres, de todos os tempos e condições, marcados pela brasa da desventura, da desgraça do «malheur» (que o nosso vocábulo «infelicidade» não consegue exprimir)”, escreve José M. Pacheco Gonçalves na apresentação da obra “Espera de Deus” (ed. Assírio&Alvim).

Simone Weil morre em 1943, na Inglaterra, para onde tinha emigrado (após uma estadia nos EUA), para se juntar à resistência francesa. Afectada por uma tuberculose, morre de fome, num sanatório, por solidariedade para com os franceses em guerra. Não chegou a ser baptizada, apesar dos esforços do P.e Joseph-Marie Perrin. Sentia-se “cristã fora da Igreja”. Tolentino Mendonça, no prefácio de um outro livro (“Os imperdoáveis”, de Cristina Campo), escreve: “Equivocou-se, no fundo, o Padre Perrin, mestre espiritual da Simone, que lhe concedeu o máximo e lhe pediu o mínimo. «Posso baptizar-te mesmo assim», disse a Simone Weil o Padre Perrin e, inevitavelmente, Simone Weil deu um passo atrás. Um mais profundo e rigoroso teólogo ter-lhe-ia simplesmente negado o baptismo sem tentar nem as conciliações nem o «pathos». E Simone Weil teria, provavelmente, caído de joelhos”.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Como estais luz sem luz, vida sem vida

Como estais luz sem luz, vida sem vida,
Sol sem curso, com sede fonte pura,
Imagem do pai eterno, sem figura
Do mesmo pai, palavra emudecida!

Vara santa de Arão, já não florida,
Belo espelho de ceo, sem fermosura,
Doce favo de Sansão, entre amargura,
Torre de David forte, enfraquecida!

Mas sem vida dais vida, luz sem luz,
Vossa sede farta ao mundo, e a imagem,
Que tentes, me faz ver onde vos pus.

Calado ensinais, imovel moveis
Mais duros corações que a dura lagem,
Morto, espelho mais belo pareceis.

Frei Agostinho da Cruz (1540-1619), frade do Convento da Arrábida (na imagem)


terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Coisas que a balança não pesa

Túmulo de Rumi, em Konya, Turquia

No dia da Ressurreição,
Quando as orações forem apresentadas,
Elas serão postas na balança,
Assim como os jejuns
E as obras de caridade;
Mas quando o amor e a certeza
Forem apresentados,
Não poderão ser contidos pela balança.

Rumi (poeta místico muçulmano, persa, do séc. XIII)

domingo, 7 de junho de 2009

Olhos abertos

A mística que não tiver olhos abertos e não praticar a compaixão activa é uma mistificação.

Bento Domingues. "Público", 07-06-2009

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...