segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
Entrevistador do Papa entrevistado pelo DN
Alguém sabe o que é a nova evangelização?
John L. Allen Jr., correspondente do semanário norte-americano “National Catholic Reporter”, é um dos jornalistas mais informados sobre coisas do Vaticano. O mesmo é dizer que é um dos mais bem relacionados com bispos, cardeais e afins. Rara é a semana em que não nos oferece uma entrevista interessante. Na semana passada, duas:
- com Giovanni Maria Vian, chefe de redacção do “L'Osservatore Romano”, publicação que em 2011 completa 150 anos. Aqui.
- e com o arcebispo Salvatore Rino Fisichella, que foi reitor da Universidade Lateranense e presidente da Academia Pontifícia para a Vida e agora está a montar o novo Conselho Pontifício para a Promoção da Nova Evangelização. Aqui.
Realço especialmente esta última. D. Fisichella fala da dificuldade em arranjar um padre norte-americano (os bispos dos EUA bateram-lhe o pé) e confessa, indirectamente, que ninguém sabe bem o que é a nova evangelização.
Um primeiro passo é que, depois do Natal, vamos ter uma conferência com vários especialistas para esclarecer o conceito da "nova evangelização". O que eu quero enfatizar é que se remova a ambiguidade, o risco de tratar a ideia da "nova evangelização" como uma fórmula abstrata. Temos que ser capazes de encher a expressão "nova evangelização" com conteúdo. Teremos dois dias de estudo dedicados ao tema da "nova evangelização", em algum momento de março. Ainda estamos considerando as datas exatas. Ainda estamos montando o programa, mas serão apenas especialistas, a fim de torná-lo um pouco como um seminário acadêmico. Vamos ter alguns bispos, alguns leigos especialistas, para que possamos avaliar os horizontes históricos, teológicos e pastorais do que está por trás da expressão "nova evangelização".
No entanto, considera que o recente livro do Papa é um instrumento para a nova evangelização – do que eu duvido, pois não há evangelização sem entusiasmo, coisa que se existe em “Luz do Mundo”, está muito ensombrada pelo temor e desejo de segurança, pelas justificações.
Quando terminamos a coletiva de imprensa, fomos ver o Papa para apresentar os volumes. Como eu era o único bispo lá, fui a primeira pessoa a saudar o Papa, e eu disse: "Santo Padre, obrigado, porque este é verdadeiramente um instrumento para a nova evangelização". Eu estou convencido disso. Há uma tal riqueza de espiritualidade nele... Ele fala sobre o valor da sexualidade, do amor, da alegria, da esperança. Há tantos elementos que refletem os desejos das pessoas hoje, e ele fala sobre eles de uma forma simples. Ele não é apenas facilmente compreensível, mas também é cheio de consolação e também é talvez um estímulo para nos tornarmos interessados pelo cristianismo, para além dos escândalos e das manchas que às vezes o marcam.
Pelo meio, ou melhor, no início, John L. Allen Jr. dá-nos dois ou três apontamentos, sempre curiosos, sobre a vida no Vaticano. Diz, por exemplo, que a encíclica "Fides et Ratio, de João Paulo II, de 1998, era também conhecida por "Fisichella et Ratzinger", por terem sido estes os dois teólogos a dar-lhe forma. Diz ainda que, em Roma, quando se quer remover alguém [de um lugar importante], promove-se [para um título grande mas vazio]. "Promuovere per rimuovere". "Promover para remover". Não é só em Roma que isso acontece.
sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
Prudência beneditina versus entusiasmo dominicano
À amendoeira:
Fala-me de Deus.
E a amendoeira floriu*.
Acabei de ler há dias o livro de Bento XVI e tenho hesitado em contar neste blogue o que penso do livro. Hesito, logo existo, parafraseando o renascido.
Acontece é que estou entusiasmado e absorve-me a leitura de um outro: “Ir à Igreja. Porquê? O drama da Eucaristia”, de Timothy Radcliffe. No livro de Bento XVI há muita prudência (a palavra que mais se ouve nos corredores eclesiais, como dizia um teólogo espanhol), e pouco entusiasmo, esperança, humor. Ingredientes que não faltam na obra do ex-mestre geral dos dominicanos.
* Poema anónimo num castaz da Abadia de Sylvanès, citado na página 74 do livro de Timothy Radcliffe, o.p.
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
"Medicina é contra o filtro"
Só hoje li a crónica de João César das Neves da segunda-feira passada. Começa assim:
O Papa anda de novo nas notícias. Foi insultado em Barcelona e falou do preservativo num livro (“Luz do Mundo”, Lucerna 2010). Parece que a sociedade não entende mesmo a Igreja. Olha que novidade! Nunca entendeu. Podemos até caracterizar cada geração pelos motivos da sua crítica anticatólica.
O tema hoje é... sexo. O que traz à discussão elementos curiosos e efeitos profundos. O debate do preservativo mostra-o bem. Imagine um jornalista perguntar ao médico: "Devo fumar cigarros com filtro?" A resposta natural é que não deve fumar. Então o jornal publica a manchete: "Medicina é contra o filtro." O mal é o tabaco, mas os médicos também acham que uma vida saudável não precisa de filtros para respirar. Então um jornalista mais insistente consegue que o médico diga: "Se faz o erro enorme de fumar, então use filtro", e o jornal publica a novidade: "Medicina muda de posição sobre o filtro." Foi uma tolice deste calibre que se verificou agora.
A comparação está engraçada e é um exemplo interessante para as aulas de jornalismo. Mas é ligeiramente coxa, como a maior parte das comparações. Fumar é intrinsecamente maléfico. E não estou a ver nenhuma situação em que seja bom fumar. É muito diferente com a sexualidade. Ler o resto aqui.
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
O livro do Papa (2): És o sucessor de um pescador
O capítulo 7 do livro “Luz do Mundo”, intitulado “Habemus Papam”, e primeiro da segunda parte ("O Pontificado"), para mim, foi o mais revelador, até agora, da leitura intermitente que venho fazendo.
Duas coisas que eu não sabia e fiquei a saber (a primeira considero-a uma lacuna apreciável, embora em seja mais abelardiano do que claravalense). A primeira: a pedido do Papa Eugénio III, São Bernardo de Claraval redigiu um exame de consciência intitulado “O que um Papa tem de ter em consideração”. Pelos vistos é leitura obrigatória dos Papa. Numa próxima oportunidade, obviamente sem pretensões papais, vou querer ler tal livro. Diz Bento XVI: “As «considerações» de Bernardo são, naturalmente, uma leitura obrigatória para qualquer Papa. Lá estão também advertências importantes, como por exemplo: «Lembra-te de que não és um sucessor do imperador Constantino, mas sim o sucessor de um pescador»”.
É uma consideração sem dúvida alguma importante, porque durante a maior parte da história os Papa procederam exactamente em sentido contrário. Dessas «considerações» Bento XVI realça principalmente uma: não ficar absorvido no activismo.
A segunda: Paulo VI tinha um diário. Escreveu na noite da eleição sobre o “profundo sentimento simultaneamente de mal-estar e de confiança”. Chegou a pensar em suspender a oração do Angelus a partir da janela do Palácio Apostólico. Escreveu, diz Seewald: “Que necessidade é esta de querer ver uma pessoa? Tornámo-nos um espetáculo”.
Bento responde que compreende os sentimentos de Paulo VI, mas que interpreta que o desejo das pessoas como um desejo de contactar com o “representante do Santificado, com o mistério de que existe um sucessor de Pedro”. Não se trata de uma “homenagem pessoal”.
De qualquer forma, mais aumentou a minha admiração por Paulo VI, o maior Papa do século XX.
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
O livro do Papa (1): As primeiras páginas
Até onde cheguei, ainda não sei qual é a marca dos óculos
Dobrei há poucos minutos a página 50 do livro do Papa, “Luz do Mundo” (ed. Lucerna). Falta-me ler três quartos.
Destas 50 páginas, registo, para já, o seguinte:
- Bento XVI pensou na guilhotina quando foi eleito: “Agora vai cair e apanhar-te”.
- Durante um conclave havias três vestimentas papais preparadas, uma pequena, uma média e uma grande [Bento não diz qual usou].
- João Paulo II tinha lido a “Introdução ao Cristianismo” de Ratzinger e tal obra foi importante para chamar o então teólogo e bispo alemão para o Vaticano.
- Ratzinger não queria ser bispo, não queria ser prefeito e não queria ser Papa. Aceitou por serviço [fico sempre na dúvida se uma pessoa deve aceitar o que em consciência acha que não deve ser.]
- O Papa é “um homem totalmente impotente. Por outro lado, detém uma enorme responsabilidade" [uma boa frase para ser meditada noutras ocasiões].
- A frase “Onde está Pedro, aí está a Igreja” não é de Santo Agostinho, emenda Bento XVI o jornalista [não diz de quem é, mas julgo que é de Ambrósio de Milão, mestre de Agostinho].
- “O Papa pode errar nas suas opiniões particulares" [a dificuldade está é em sabermos o que é particular e o que é geral ou universal, acrescento eu].
- [Seewald:] Houve papas que disseram “O senhor deu-nos este cargo; agora queremos desfrutar dele” [quais? Julgo que um terá sido Leão X. Tenho de confirmar].
- “Como é óbvio, não fui simplesmente sempre do contra” [diz Bento XVI, referindo-se à sua carreira de teólogo e responsável da Igreja, sem dar exemplos].
- Onde o Papa vai buscar força para a sua intensa actividade aos 83 anos: “Organizar bem o nosso tempo. E garantir tempo suficiente para o descanso. […] Resumindo: disciplinar e conhecer o ritmo do dia, para quando precisamos de energia” [é muito alemão o Papa].
- Existe a "família pontifícia", com quem o Papa convive: quatro mulheres da associação eclesial Memores Domini e dois secretários.
- O Papa gostou do filme sobre Josefina Bakhita [uma santa de que fala na encíclica “Spe Salvi”] e gosta, de facto, dos de Don Camillo e Peppone [alguém ofereça uns bons DVD ao Papa].
- Transferiu para o Vaticano o seu gabinete de trabalho “tal como ele evoluiu ao longo de muitas décadas”, desde 1954, porque assim sabe onde estão todos os seus livros, conhece cada canto e “tudo tem a sua história” [é muito alemão este Papa - II].
- Confirma-se: O Papa usa um relógio Junghans. Não o aqui referido, mas o oferecido pela sua irmã. A marca é alemã [é muito alemão este Papa - III].
- O Papa não é místico, mas é fã, "amigo", de Agostinho [era sabido; um platónico], Boaventura [franciscano de ordem, mas agostiniano de espírito, platónico em segunda mão] e Tomás de Aquino [bom senso aristotélico].
Fico pela página 25, mas hei-de continuar.
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
Bento XVI não é o primeiro Papa a dar uma entrevista
Tem sido dito que “Luz do Mundo”, de Bento XVI / Peter Seewald, é a primeira entrevista dada por um pontífice. Não é verdade. Até o infalível “Expresso” falha nesse ponto, porque diz (aqui, na no final da terceira coluna): “Nunca antes em toda a história da Igreja um pontífice aceitou dar uma entrevista”.
João Paulo II deu uma entrevista a Vitorio Messori, que, diga-se, também tentou entrevistar Bento XVI. O livro-entrevista de João Paulo II / Vitorio Messori teve como título, em português, “Atravessar o limiar da esperança” e foi publicado em 1994, pela Planeta.
E já em 1982, André Frossard publicara uma série de conversas com João Paulo II, “Não tenhais medo!”
E a Livros do Brasil publicou, em data que não sei agora precisar, os “Diálogos com Paulo VI”, de Jean Guitton.
Se estes dois últimos títulos podem não ser considerados entrevista, o de Vitorio Messori é sem dúvida alguma um livro-entrevista. O livro está todo feito com base no esquema pergunta-resposta.
A novidade de “Luz do Mundo” não está em ser uma entrevista, mas em ter surgido na forma de diálogo presencial. Com Messori, o que aconteceu foi que o jornalista italiano enviou as perguntas escritas a João Paulo II e esperou pelas respostas. Com Seewald, houve um frente-a-frente. Por isso o jornalista alemão escreve no prefácio: “Nunca antes na história da Igreja um Pontífice tinha dialogado sob a forma de uma entrevista pessoa e directa”. Mas isto não é o mesmo que dizer que Bento XVI é o primeiro Papa a dar uma entrevista.
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
O "Expresso" tresleu o livro do Papa
sábado, 27 de novembro de 2010
Anselmo Borges: A Igreja e os sinais dos tempos
Texto de Anselmo Borges. Copiado do DN de 27 de Novembro de 2010.
Começou esta semana a ser distribuído em várias línguas o livro-entrevista "Luz do Mundo. O Papa, a Igreja e os sinais dos tempos", constituído por um conjunto de conversas entre Bento XVI e o jornalista alemão Peter Seewald.
Os média fixaram-se no preservativo. Mas o livro é muito mais abrangente. O seu fio condutor é: "o cristianismo dá alegria, alarga os horizontes. Em última análise, uma existência vivida sempre e só 'contra' seria insuportável". Mas uma coisa é o cristianismo e outra a Igreja. Por isso, o Papa confessa que foi "um choque enorme" a constatação da pedofilia do clero, sobretudo pelas suas dimensões. Admite que o caso terrível de Marcial Maciel, fundador dos Legionários de Cristo, "foi encoberto" por responsáveis do Vaticano. Lamenta não ter tido informação sobre o bispo negacionista R. Williamson, a quem levantou a excomunhão.
No quadro da actual crise mundial, "é absolutamente inevitável um exame de consciência global". O progresso pode ser também destruidor; por isso, "devemos reflectir sobre critérios a adoptar para que seja verdadeiramente progresso". A droga "destrói os jovens, destrói as famílias, leva à violência e ameaça o futuro de nações inteiras". É necessário "olhar para as coisas últimas", mesmo se os novíssimos são "pão duro para os pessoas de hoje". É urgente continuar o diálogo com os judeus e os muçulmanos. Põe a hipótese de renunciar ao cargo, se não estiver em "condições físicas, psíquicas e mentais" para continuar.
E lá vem também a sexualidade, sublinhando a necessidade de uma educação para a sua humanização. De facto, não vale tudo. Mas o pronunciamento papal sobre a legitimidade do uso do preservativo em "casos pontuais, justificados", foi histórico, aliás, saudado como positivo por muitos Governos, pela directora da OMS e pelo secretário-geral da ONU. Afinal, Bento XVI apenas pôs em prática o Evangelho: "O Homem não é para o Sábado, mas o Sábado para o Homem".
Precisamente por isso, penso que será necessário perguntar se a Igreja não terá de rever outras questões. Se, por exemplo, a paternidade e a maternidade responsáveis não implicam a abertura aos anticonceptivos "artificiais", superando uma concepção biologista da natureza. Se não se deverá colocar termo à lei do celibato, pois não é bom impor como lei o que Jesus entregou à liberdade. Se não se deverá tirar as devidas consequências da afirmação papal: os homossexuais "merecem respeito" e "não devem ser rejeitados por causa disso". Se não é necessário repensar a proibição da comunhão aos divorciados que voltaram a casar. Se as mulheres, a partir do comportamento de Jesus, que levou à declaração paulina: "já não há judeu nem grego, nem senhor nem escravo, nem homem nem mulher, pois todos são um só em Cristo", não devem ser tratadas na Igreja sem discriminação, por exemplo, no acesso à presidência na celebração da Eucaristia.
Mais tarde ou mais cedo - é preferível mais cedo -, a Igreja deverá ter um pronunciamento lúcido e claro sobre estas matérias. Para não dar a impressão de que ela lá vai indo, mas aos empurrões, e quando, entretanto, muitos a foram abandonando.
Não foi por acaso que a revelação sobre o uso do preservativo apareceu no mesmo dia em que o Papa impôs o barrete a mais 24 cardeais. No dia seguinte, lembrou-lhes que devem estar sempre junto de Cristo na cruz. Mas cá está! No meio de todo aquele aparato do Vaticano, há aqui uma contradição entre a pompa e a cruz. Há aquele texto do filósofo dinamarquês Sören Kierkegaard, que diz mais ou menos assim: vai Sua Excelência Reverendíssima o Bispo de Copenhaga, revestido de paramentos com filamentos de ouro e um báculo e uma mitra debruados de pedras preciosas, com todo o seu séquito em esplendor, senta-se num cadeirão de prata e dá início à sua homilia sobre a pobreza. E ninguém se ri !...
A alguém que se sentisse irritado com estas perguntas lembro um texto de Joseph Ratzinger, no qual escreveu que, se hoje se critica menos a Igreja do que na Idade Média, não é porque se tem mais amor à Igreja, mas a si e à carreira.
No último parágrafo, Anselmo Borges remete para um texto que pode ser lido aqui.
domingo, 21 de novembro de 2010
Bento XVI e os preservativos
Peter Seewald e Bento XVI
Peter Seewald - Em África, Vossa Santidade afirmou que a doutrina tradicional da Igreja tinha revelado ser o caminho mais seguro para conter a propagação da sida. Os críticos, provenientes também da Igreja, dizem, pelo contrário, que é uma loucura proibir a utilização de preservativos a uma população ameaçada pela sida.
Bento XVI - Em termos jornalísticos, a viagem a África foi totalmente ofuscada por uma única frase. Perguntaram-me porque é que, no domínio da sida, a Igreja Católica assume uma posição irrealista e sem efeito – uma pergunta que considerei realmente provocatória, porque ela faz mais do que todos os outros. E mantenho o que disse. Faz mais porque é a única instituição que está muito próxima e muito concretamente junto das pessoas, agindo preventivamente, educando, ajudando, aconselhando, acompanhando. Faz mais porque trata como mais ninguém tantos doentes com sida e, em especial, crianças doentes com sida. Pude visitar uma dessas unidades hospitalares e falar com os doentes.
Essa foi a verdadeira resposta: a Igreja faz mais do que os outros porque não se limita a falar da tribuna que é o jornal, mas ajuda as irmãs e os irmãos no terreno. Não tinha, nesse contexto, dado a minha opinião em geral quanto à questão dos preservativos, mas apenas dito – e foi isso que provocou um grande escândalo – que não se pode resolver o problema com a distribuição de preservativos. É preciso fazer muito mais. Temos de estar próximos das pessoas, orientá-las, ajudá-las; e isso quer antes, quer depois de uma doença.
Efectivamente, acontece que, onde quer que alguém queira obter preservativos, eles existem. Só que isso, por si só, não resolve o assunto. Tem de se fazer mais. Desenvolveu-se entretanto, precisamente no domínio secular, a chamada teoria ABC, que defende “Abstinence – Be faithful – Condom” (“Abstinência – Fidelidade – Preservativo”), sendo que o preservativo só deve ser entendido como uma alternativa quando os outros dois não resultam. Ou seja, a mera fixação no preservativo significa uma banalização da sexualidade, e é precisamente esse o motivo perigoso pelo qual tantas pessoas já não encontram na sexualidade a expressão do seu amor, mas antes e apenas uma espécie de droga que administram a si próprias. É por isso que o combate contra a banalização da sexualidade também faz parte da luta para que ela seja valorizada positivamente e o seu efeito positivo se possa desenvolver no todo do ser pessoa.
Pode haver casos pontuais, justificados, como por exemplo a utilização do preservativo por um prostituto, em que a utilização do preservativo possa ser um primeiro passo para a moralização, uma primeira parcela de responsabilidade para voltar a desenvolver a consciência de que nem tudo é permitido e que não se pode fazer tudo o que se quer. Não é, contudo, a forma apropriada para controlar o mal causado pela infecção por HIV. Essa tem, realmente, de residir na humanização da sexualidade.
Peter Seewald - Quer isso dizer que, em princípio, a Igreja Católica não é contra a utilização de preservativos?
Bento XVI - É evidente que ela não a considera uma solução verdadeira e moral. Num ou noutro caso, embora seja utilizado para diminuir o risco de contágio, o preservativo pode ser um primeiro passo na direcção de uma sexualidade vivida de outro modo, mais humana.
in Bento XVI, “Luz do Mundo – O Papa, a Igreja e os Sinais dos Tempos – Uma conversa com Peter Seewald”, Lucerna, 2010
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
Livro-entrevista do Papa chega em finais de Novembro
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
Livro-entrevista de Benedikt XVI.
Mais de 90 perguntas, divididas em três partes: assuntos da actualidade, um balanço dos primeiros anos de pontificado e questões fundamentais sobre o futuro da Igreja e da fé.
No original, intitula-se "Licht der Welt. Der Papst, die Kirche und die Zeichen der Zeit", ou seja, "Luz do mundo. O Papa, a Igreja e os sinais dos tempos".
O livro tem 284 páginas e será apresentado no dia 23 de Novembro, no Vaticano.
Durante seis dias, de 26 a 31 de Julho de 2010, em Castel Gandolfo, o Papa respondeu durante uma hora por dia às perguntas do jornalista Peter Seewald, que já o havia entrevistado para o jornal “Süddeutsche Zeitung” e em dois livros de 1996 e 2000 (em Portugal: “O Sal da Terra. O Cristianismo e a Igreja Católica no limiar do Terceiro Milénio”, ed. Multinova, 1997; e “Deus e o Mundo. A Fé Cristã Explicada por Bento XVI”, ed. Tenacitas, 2006).
"Todos serão surpreendidos por encontrar um Ratzinger tão disponível e tão aberto", explicou o jornalista na Feira de Frankfurt. O Papa respondeu directamente a uma grande quantidade de perguntas, sem querer conhecê-las antes: a hipótese de renúncia, o Concílio, mas também as causas e os "encobrimentos" do escândalo da pedofilia, o caso do negacionista Williamson, o perigo de um "cisma" na Igreja, até a possibilidade de um diálogo "genuíno" com o Islão.
No livro, Bento XVI fala do sentido da "infalibilidade" do Pontífice, mas reflecte também sobre os erros que podem ter sido cometidos pela Igreja e também pelo Papa, admitindo que, na “lectio magistralis” de Regensburg – que desencadeou polémicas no mundo muçulmano –, pretendia fazer um discurso académico, científico, e não havia previsto que as palavras do Papa seriam lidas como um discurso político.
Responde ainda a questões típicas dos contemporâneos, explicando as posições da Igreja sobre o celibato dos padres, o "não" à ordenação feminina, a homossexualidade, a contracepção, o uso de preservativos e a SIDA, a comunhão aos divorciados de segunda união e assim por diante. Com uma preocupação acima de todas: o futuro da Igreja, chamada a renovar-se e a ocupar-se essencialmente da verdade do Evangelho, e o anúncio de Deus ao nosso tempo.
Texto do "Corriere della Sera" adaptado a partir daqui.
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
Vittorio Messori sabe falar alemão? É provável que não
Explicação de Andrea Tornielli no “IlGiornale” de 31-08-2010 sobre o novo livro-entrevista de Ratzinger:
O novo livro ainda não tem um título oficial. A hipótese de trabalho neste momento é "Luz do mundo", mas é possível que mude. Quando o Papa decidiu aceitar essa proposta? Em Novembro de 2008, durante um encontro ocorrido às margens da audiência geral, Vittorio Messori propôs que Bento XVI "actualizasse" o livro "A fé em crise?" [“Diálogos sobre a fé”, na versão publicada em Portugal - na imagem, a primeira edição]: "Dê-me apenas três dias", disse o escritor. Ratzinger não disse não, mas brincou dizendo: "Para mim, agora, até três horas são difíceis...". A ideia, naquele momento impraticável, não deve, porém, ter-lhe desagradado. E assim, há alguns meses, quando Seewald propôs um novo diálogo, respondeu-lhe que sim.
(Li na Unisinos, aqui.)
Peter Seewald entrevista Ratzinger pela terceira vez
A publicação do livro está prevista para tempos muito breves (antes do final do ano em curso), em italiano e em alemão e, se possível, também em outras línguas.
Como é conhecido, os direitos relativos às publicações do Santo Padre são detidos pelaLivraria Editora Vaticana, que publicará também a edição italiana".
Sinodalidade e sinonulidade
Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...
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Respondendo a alguns leitores, deixo aqui um artigo de Ariel Álvarez Valdés sobre a distinção, nos evangelhos, entre diabo e demónio. O tex...
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O que aqui vou deixar não é um tratado nem sequer um artigo académico sobre a questão. Trata-se simplesmente de dicas recolhidas de outros...
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Karl Rahner Quem acompanha este blogue sabe que tem andado por aqui e aqui uma discussão sobre o diabo e outras questões diabólicas. ...