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sábado, 1 de novembro de 2014

A propósito da parábola do mau samaritano contada por P.e Portocarrero de Almada

O papel do burro está claramente subestimado na história do P.e Gonçalo Portocarrero de Almada


O P.e Portocarrero de Almada, hoje, no “Observador” (ver link na entrada anterior)  conta a “parábola do mau samaritano” para criticar quem defende mudança na abordagem da Igreja a certos problemas. As questões subjacentes são as dos católicos recasados e dos homossexuais católicos.
Na parábola, o homem espancado pelos salteadores é, para essa nova moral, a imagem dos fiéis que, por se encontrarem em situação canónica irregular, não se podem confessar, nem receber a comunhão. Também eles parecem vítimas de uma Igreja que os não compreende e abandona, embora tenham sido eles que, pelas suas opções e acções, se colocaram à margem, não da Igreja, que continua a acolhê-los, mas da vida sacramental, de que se auto-excluíram.
Tem alguma piada e faz umas boas observações no início do texto, mas, quanto a mim, falha o alvo. Aliás, as suas observações e paradoxos mais depressa se aplicam ao seu texto do que às situações que pretende atingir.

Segundo P.e Portocarrero, “dever-se-ia elogiar o sacerdote e o levita que, em nome da nova moral, se abstiveram de intervir, e criticar a acção da Igreja, representada na censurável atitude do samaritano”.

Ora, Jesus conta a história do samaritano precisamente para dizer que a compaixão não veio do lado institucional, legal, ortodoxo – o sacerdote e o levita – mas do herético, transgressor, semi-estrangeiro, heterodoxo, que era o do samaritano. E é precisamente a história contada por Jesus na versão de Lucas que podemos invocar para pedir as mudanças na Igreja, que, por muito evangélica que seja, tem sempre poder religioso, tem sempre sacerdotes e levitas zelosos do Direito Canónico.

A parábola do bom samaritano, que ele reconta como se a suposta nova moral a lesse como “parábola do mau samaritano”, é precisamente uma crítica à intransigência do poder religioso (sacerdotes e levitas, duas profissões do sagrado), ao legalismo, à formalidade, à lei sobre o espírito. O que Jesus ensina é que o cumprimento da lei é fazer o bem, amar, cuidar do próximo. E por isso é que alguns tidos por perdidos nos hão de preceder no Reino dos Céus.

No fundo, como não poderia deixar de ser, o P.e Portocarrero concorda com a precedência do amor. E afirma:
É que Cristo não veio ao mundo para revogar a lei – sendo Deus, como poderia revogar a sua lei?! – mas para lhe dar pleno cumprimento, nomeadamente através de mais um preceito: o mandamento novo da caridade. O único amor que nos salva, precisamente porque nos cura.
Mas o final da parábola original não é contado nem parafraseado. É que é muito mais direto e percetível, tanto no tempo de Jesus (porque omite o padre atual que quem faz a pergunta é um “doutor da lei”, um especialista em Escritura e em legalidades?) como hoje:
"Qual destes três achas que foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?" "Aquele que teve misericórdia dele", respondeu o doutor da lei. Jesus disse-lhe: "Vai e faz o mesmo" (Lc 10...).

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...