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quarta-feira, 4 de junho de 2014

Anselmo Borges: "Francisco no Médio Oriente. «Conseguimos!»"


Texto de Anselmo Borges no DN do último sábado (31 de maio), daqui:


Era uma viagem de alto risco. Acabou por ser uma viagem que os media mundiais chamaram de histórica. Francisco queria que a sua visita à Jordânia, à Palestina e a Israel fosse uma peregrinação. E foi, mas com imensas consequências políticas. Afinal, a política não é tudo, mas está em tudo. O que aí fica quer lembrar momentos significativos da viagem.

Na Jordânia, pediu "uma solução pacífica para a crise síria e uma solução justa para o conflito israelo-palestiniano". Referindo-se concretamente à Síria, lacerada por uma luta fratricida que dura há mais de três anos, com milhões de refugiados, atacou as empresas armamentistas e rezou pela sua conversão: "Que Deus converta os violentos, os que provocam a guerra, os que fabricam e vendem armas, e os torne construtores da paz!"

Defendeu, em Belém, "o direito à existência de dois Estados, gozando de paz e segurança". Na preparação da viagem, já houvera uma referência ao "Estado palestiniano". Ainda em Belém: "A incompreensão entre as partes produz divisões, sofrimentos e êxodo de comunidades inteiras." Aqui, certamente lembrou-se de que a Terra Santa está a ficar sem cristãos, pois no Médio Oriente já só representam 2%, quando há 50 anos eram 10%. E ousou um convite: "Senhor Presidente Mahmoud Abbas, neste lugar onde nasceu o Príncipe da Paz, desejo convidá-lo a si e ao Senhor Presidente Shimon Peres a elevarmos juntos uma intensa oração pedindo a Deus o dom da paz. Ofereço a possibilidade de acolher este encontro na minha casa, no Vaticano." Francisco renovou o convite em Tel Aviv. E Peres e Abbas aceitaram a iniciativa inédita.

A caminho da Basílica da Natividade, em Belém, surpreendeu, quando, ao passar junto ao muro erguido por Israel na Cisjordânia, conhecido como "o muro da vergonha", mandou parar o jipe em que seguia, ficando em oração durante alguns minutos, apoiando a mão e a cabeça no muro, um pouco à maneira do que fazem os judeus no Muro das Lamentações. Este gesto, que causou descontentamento em Israel, foi compensado com uma outra visita-surpresa, quando, a caminho do memorial do Holocausto, símbolo da "monstruosidade" humana, onde perguntou: "Como foste capaz, Homem, deste horror, o que te fez cair tão baixo?" e gritou: "Nunca mais! Nunca mais!", homenageou o memorial às vítimas israelitas dos atentados em Jerusalém. Com estes dois gestos, Francisco estava a dizer que não é com muros nem com o terrorismo que se constrói a paz. Como disse o padre D. Neuhaus, do Patriarcado Latino de Jerusalém, "Francisco tem o perigoso talento de dizer a verdade".

Em Jerusalém, Francisco e Peres clamaram em uníssono: "Não nos cansemos de perseguir a paz com determinação e coerência." O Papa: "Que Jerusalém seja verdadeiramente a cidade da paz, que corresponda à sua identidade, ao seu carácter sagrado e verdadeiro valor como tesouro para toda a humanidade. Que todos possam ter acesso livre aos lugares santos e participar nas celebrações."

E sucederam-se os encontros ecuménicos e inter-religiosos. Com o Patriarca ortodoxo Bartolomeu, assumiu a urgência da união de todos os cristãos, propondo "um novo modo" de exercer o primado papal, tendo talvez no horizonte a ideia de um primus inter pares (o primeiro entre iguais). Na Esplanada das Mesquitas, encontrou-se com o Grande Mufti, pedindo aos "amigos muçulmanos" um trabalho em conjunto pela justiça e pela paz. "Que ninguém instrumentalize o nome de Deus para a violência!" Depois do muro de Belém, rezou no Muro das Lamentações. E, num encontro com rabinos, um rabino proclamou: "Em Jerusalém, não deve existir mais ódio nem inimizade entre os irmãos."

E os três velhos amigos dos tempos de Buenos Aires - o rabino A. Skorka, o xeque O. Abboud e o agora Papa Francisco - abraçaram-se ali, junto ao Muro, e foi o grande abraço das três religiões abraâmicas. E Skorka, comentando o velho sonho em Jerusalém: "Conseguimos!" E Francisco regressou a casa, com a esperança fundada de em breve serem retomadas negociações sérias em ordem à paz.

sábado, 11 de maio de 2013

Mulheres de tallit


As mulheres podem finalmente rezar no muro das lamentações usando o xaile ("tallit") que até agora era exclusivo dos homens.

Os  judeus ultra-ortodoxos, homens, opuseram-se e, com eles, muitas mulheres. Por lá, aquela espécie de véu significa conquista. Por cá, na Igreja católica, continuam a insistir que a mulher não pode destapar a cabeça para receber a imposição das mãos da ordenação.

sábado, 3 de novembro de 2012

Anselmo Borges: Luto(s). As lágrimas de Deus


Texto de Anselmo Borges no Diário de Notícias de hoje. Daqui.
O da semana passada, sobre o mesmo tema, pode ser lido aqui.

Como escrevi aqui no sábado passado, o luto é dor pela perda, principalmente pela morte de alguém. Há muitos tipos de perda, mas a perda principal é a morte. Quanto mais fortes forem os laços com alguém maior a dor e o luto, que pode considerar-se o outro lado do amor.

O luto, excepto quando não houve o trabalho sadio do luto e, assim, se tornou patológico, não é, pois, uma doença, mas tão-só a expressão da dor pela morte de alguém significativo.

Trata-se de uma dor que afecta as múltiplas dimensões do ser: física, psíquica, espiritual, social, sendo, por isso, a reacção à perda igualmente variada: choque, negação, tristeza, depressão, culpabilização, raiva, ansiedade, desinteresse pela vida quotidiana, fadiga, desamparo, com expressões físicas, como perturbações do sono, problemas gástricos, sensação de vazio físico e psíquico...

Há vários tipos de luto. Pode ser antecipado: face à perda iminente de alguém. Há o luto caracterizado como ambíguo: pense-se no caso da perda por ocasião de um rapto e se ignora se a pessoa está viva ou morta ou no caso de se viver em presença de uma pessoa com Alzeihmer: ela ainda está viva e já está "morta". Há lutos mais complicados, porque não são ou podem não ser reconhecidos: pense-se no caso dos homossexuais, que perdem o/a companheiro/a, ou dos que perdem o/a "amante". Há lutos retardados: não foram feitos no devido tempo, e lutos crónicos: as pessoas nunca mais enterram os seus mortos e as energias ficam todas fixadas no passado, instalando-se a incapacidade de reintegração na sociedade e reinvestimento na vida que continua. Há lutos encobertos: o luto não foi elaborado em termos sadios e manifesta-se de modo mascarado, por exemplo, numa doença pela qual, inconscientemente, se quer chamar a atenção. Para a morte de um filho nem há nome: quem perde o pai ou a mãe fica órfão, o viúvo ou a viúva perderam a mulher ou o marido; mas que nome se dá ao pai ou à mãe que perderam um/a filho/a?

No luto, elabora-se a dor e aprende-se a pensar sem culpa sobre a perda, a exprimir sentimentos e a partilhá-los. É uma resposta física, emocional, cognitiva, social e espiritual a uma perda significativa.

O que se pretende é o caminho da aceitação da realidade - superar a negação, aceitar a morte como morte. Mesmo que possa haver alucinações, é preciso compreender e aceitar que a morte é morte e que o morto nunca mais regressa a este mundo. Por outro lado, dar expressão aos sentimentos e partilhá-los: nomear o que se sente. Os sentimentos não são morais, lembra o especialista José Carlos Bermejo - este texto é devedor a um Simpósio sobre o tema, organizado em Ponta Delgada pelo Padre Paulo Borges, no qual também participou.

Outro objectivo: adaptar-se ao ambiente em que o defunto já não está, o que implica a capacidade de, com o tempo, desmontar os lugares e as coisas do morto: é preciso fazer as pazes com os espaços do outro definitivamente ausente, e compreender que é necessário investir noutras realidades - investir energia emotiva noutras tarefas e relações. Pode-se de novo viajar, sorrir, viver a vida.

O caso das crianças é especial. Não se deve mentir, dizendo, por exemplo, que a pessoa querida foi viajar, pois isso significaria que a abandonou, mas deve-se perguntar pelas suas preocupações, fomentar o diálogo e a recordação, ouvi-las, permitir a participação em rituais, explicando e dirigindo-se expressamente a elas. Dizer claramente que se não compreende. Apresentar a natureza, onde também se morre, como comparação.

O luto é um processo, que pode durar 6 meses e pode ir até 1-2 anos. Os rituais - velório, enterro, cremação - têm papel decisivo. A religião pode ser uma ajuda fundamental, na medida em que vem em auxílio com a fé no Deus da Vida contra a morte.

E aí estão as pessoas, com a capacidade de acompanhar a pessoa enlutada, sabendo ouvi-la ou estar em silêncio, indo ao encontro das suas necessidades, deixando-a falar e chorar. Diz a tradição judaica que, quando Deus viu a tristeza de Adão e Eva, após a expulsão do paraíso, lhes deu as lágrimas como consolação. E no Talmude também se fala das lágrimas de Deus.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Conhecer o judaísmo é conhecer quem é o Cristo


Da entrevista de António Marujo a Jean-Marie Lustigier (1926-2007), que foi arcebispo de Paris até 2005.

(…) Há muitos cristãos que não conhecem as suas origens?
Não conhecem o Antigo Testamento nem conhecem, tão-pouco, o Novo Testamento, Porque se conhecessem o Novo testamento, o Evangelho, teriam necessidade de procurar conhecer a Bíblia, que é a Palavra de Deus.
Do ponto de vista cristão, o problema da relação com o povo judeu é o teste da verdade do amor a Cristo e da fé. Não é um problema de relação com alguém estrangeiro. Não dira a mesa coisa do budismo ou do xintoísmo, ou desta ou daquela religião pagã. Conhecer o judaísmo, para os cristãos, é conhecer quem é o Cristo.

António Marujo, “Deus Vem a Público. Entrevistas sobre a transcendência. I volume” (ed. Pedra Angular), pág. 52.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

14 de Outubro de 1906. Nasce a filósofa Hannah Arendt



Hannah Arendt, a judia discípula de Heidegger que estudou a génese do totalitarismo e será hoje mais influente do que o próprio mestre, pelo menos mais percebida e citada, nasceu no dia 14 de Outubro de 1906, na Alemanha, e morreu no dia 4 de Dezembro de 1975, nos EUA.

Se a recordo aqui é porque numa das obras, de relatos biográficos, “Homens em tempos sombrios” (ed. Relógio d'Água), inclui um retrato do Papa João XXIII. Algumas das histórias dessa narrativa podem ser lidas aqui (no final).

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

No início do ano 5772 do calendário judaico

Do "Público" de hoje. Início da crónica de Esther Mucznik:
"Dez dias terríveis". É assim que a tradição judaica qualifica os dez dias que mediam entre a celebração do novo ano judaico - iniciado na passada semana - e o Dia do Perdão, o Iom Kipur. Dez dias dedicados à introspecção, à reflexão e ao balanço interior. "Terríveis" porque no diálogo íntimo, directo e solitário, é posta à prova a capacidade individual de auto-análise, sem rodeios nem subterfúgios...
Parece uma breve quaresma judaica. De qualquer forma, não vejo nenhuma diferença entre a espiritualidade judaica e a cristã na versão católica.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Hoje há passagem de ano

Hoje é o último dia do ano judaico. É um dia de preparação para o Rosh Hashanah ("cabeça do ano"). O novo ano começa logo à tardinha.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Esther Mucznik: Uma memória europeia assimétrica

Texto de Esther Musznik no "Público" de 25 de Agosto. Para que a memória nunca se apague. Acrescento imagens de dois aspecto referidos no texto.


 Memorial de Gyula Pauer e Can Togay. Ver magnífica panorâmica nocturna aqui.


Sinagoga de Dohany.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

sexta-feira, 24 de junho de 2011

O velhinho do Muro das Lamentações


Uma jornalista da CNN ouviu falar de um judeu muito velhinho que ia todos os dias ao Muro das Lamentações para rezar, duas vezes por dia, e lá ficava por muito tempo.
Decidiu verificar.
Foi para o Muro e lá estava ele, andando trôpego, em direção ao local sagrado.
Observou-o rezando por uns 45 minutos e quando ele resolveu sair, vagarosamente, apoiado em sua bengala, aproximou-se para a entrevista.
- Desculpe-me, sou Rebecca Smith, do CNN. Como se chama?
- Morris Feldman.
- Há quanto tempo o senhor vem ao Muro orar?
- Bem, há uns 60 anos.
- 60 anos! Isso é incrível! O que pede?
- Peço que os cristãos, os judeus e os muçulmanos vivam em paz. Peço que todas as guerras e todo o ódio terminem. Peço que as crianças cresçam em segurança e se tornem adultos responsáveis. Peço por amor entre os homens.
- E como o senhor se sente, pedindo isso por 60 anos?
- Sinto-me como se estivesse a falar com uma parede...

(Sugestão de FCO)

sábado, 18 de junho de 2011

"Where is my light", poema crente do judaísmo ateu



Leio num livro que é uma espécie de introdução ao ateísmo prático, humanista, segundo a acepção anglo-saxónica, este poema:

Where is my light?
My light is in me.

Where is my hope?
My hope is in me.

Where is my strength?
My strength is in me.

My strength is in me... and in you.

O poema, “Where is my light?, é de Sherwin Theodore Wine (1928-2007), fundador do “judaísmo humanista” - uma estranha tentativa de conciliar vida judaica e ateísmo (ver www.shj.org) - parece-me.

A questão é: este poema não poderia ter sido escrito ou dito por um crente em Deus? É que se o autor dissesse que a luz, esperança, e força “sou eu”... Mas não. Diz “está em mim” e "em ti". O que remete para dezenas (centenas?) de passagens bíblicas.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

domingo, 15 de maio de 2011

O anjo invisível

Miguel Esteves Cardoso conta no “Público” de hoje uma anedota que diz vir no romance “Sabbath’s Theater” [há em português, “O Teatro de Sabbath”], de Philip Roth.
“Eis a grande anedota – no sentido verdadeiro, de talvez ter acontecido – que ele conta: o rabino Mendel, quando se encontrou com o mestre rabino Elimelakh, gabou-se de conseguir ver o anjo que leva a luz quando o sol se põe e, quando o sol se levanta o anjo que leva a escuridão.Vai o mestre e responde: «Sim, quando eu era novo também via isso. Mas depois esssas coisas deixam de se ver»”.
E Esteves Cardoso acrescenta: “Como tantas outras”.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Árvore, ó árvore - textinho do Talmude

Árvore, ó árvore, com que posso louvar-te? Pela doçura do teu fruto? O teu fruto é doce. Pela tua sombra agradável? A tua sombra é agradável. Pela corrente de água por baixo de ti? A água corre por baixo de ti. A única coisa que sobrou para te louver é: que todas as árvores que saírem das tuas sementes sejam como tu!

Do Talmude

sábado, 23 de abril de 2011

Cultura depois da Segunda Queda


Passei uma parte da tarde a ler “No Castelo do Barba Azul”, de George Steiner, que tem como subtítulo “Algumas notas para a redefinição de cultura”. O final da segunda parte (de quatro) detém-se sobre três “reivindicações do ideal” (a expressão é de Ibsen), três estádios “profundamente interligados”, nos quais “a consciência ocidental é forçada a haver-se com a chantagem da transcendência”, todas elas relacionadas com os judeus: Moisés e o monoteísmo, Jesus e o cristianismo primitivo e o socialismo messiânico.
Escreve a certa altura Steiner, num texto todo ele bom para o contexto pascal que estamos a viver:
O genocídio que teve lugar na Europa e na União Soviética durante o período de 1936-1945 (o anti-semitismo soviético talvez seja a expressão mais paradoxal do ódio e da realidade pela utopia fracassada) foi muito mais do que uma táctica política, uma erupção do mal-estar da classe média inferior, ou um produto do capitalismo decadente. Não foi um mero fenómeno económico – social e secular. Actualizou um impulso tendendo para o suicídio da civilização ocidental. Foi uma tentativa de nivelar o futuro – ou, mais precisamente, de tornar a história comensurável com a crueldade natural, o torpor intelectual e os apetites materiais de uma humanidade que não se transcende a si própria. Se nos servirmos de uma metáfora teológica, e não temos por que nos desculpar por isso num ensaio sobre a cultura, poderemos dizer que o holocausto assinala uma Segunda Queda. Podemos interpretá-lo como um abandono voluntário do jardim e uma tentativa pragmática de queimar o jardim atrás de nós. Sem o que a sua memória continuaria a infectar a saúde da barbárie com os seus sonhos debilitantes ou os seus remorsos. 
Com a tentativa falhada de matar Deus e a tentativa quase conseguida de matar aqueles que O tinham “inventado”, a civilização entrou, justamente conforme a previsão de Nietzsche, “na noite cada vez mais noite”.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Este judeu não quer ser "absolvido" da morte de Jesus


Joseph Weiler foi o advogado de defesa de um grupo de nações, lideradas pela Itália, que recorreu da decisão do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos que dizia que os crucifixos nas salas de aula italianas violavam a liberdade religiosa (o resultado do recurso foi divulgado hoje: não há violação da liberdade religiosa; cada Estado é soberano para decidir nesta questão; notícia da Agência Ecclesia aqui). É um dos maiores especialistas em direito constitucional europeu. Na questão dos crucifixos, argumenta que
remover a cruz é algo realmente iliberal. Permitir a cruz é a posição liberal, a posição pluralista, porque a Europa tem tanto uma França quanto uma Grã-Bretanha. A França é um Estado oficialmente laico, mas, na Inglaterra, o hino nacional é "God Save the Queen", e a Rainha é a chefe da Igreja da Inglaterra. Toda imagem da Rainha em uma sala de aula britânica é tanto um símbolo nacional quanto religioso. Você poderia dizer que essa é uma grande tradição, que é a Europa autêntica. A posição esclarecida é aceitar uma Europa tanto com a França, quanto com uma Grã-Bretanha, e não afirmar que, como a Câmara fez, que todos têm que ser como a França – ou, neste caso, como os EUA. O que é preciso fazer é capacitar uma potencial maioria a se sentir que está fazendo a coisa certa, que deveriam se orgulhar por isso. Isso não é, de nenhuma forma, antieuropeu, antiliberal ou reacionário.
Acontece que Joseph Weiler é judeu. Nasceu na África do Sul, filho de um rabino da Letónia. “Judeu ortodoxo profundamente fiel”. Deu uma entrevista a John L. Allen Jr., do “National Catholic Reporter”, na qual insiste que a defunta Constituição Europeia deveria ter referido as raízes cristãs.
As pessoas me perguntam um milhão de vezes como um judeu praticante pode defender uma referência às raízes cristãs na Constituição Europeia, e eu digo que, nesse contexto, não sou um judeu praticante. Eu sou um constitucionalista praticante. Sou um pluralista praticante.
Mas a parte mais interessante da entrevista é aquela em que aborda o julgamento de Jesus. Afirma três teses e vale a pena ler a entrevista toda (e confronta-la, por exemplo com o que Bento XVI escreve sobre o mesmo episódio evangélico), porque este resumo é necessariamente limitado:

1. O julgamento de Jesus não foi suficientemente apreciado como o alicerce das sensibilidades ocidentais em relação à justiça.

2. Jesus é a pessoa referida em Dt 13,1-5, que diz que se deve matar o visionário que mostrar sinais e prodígios e (diz a Bíblia, mas não Weiler), mandar seguir deuses estrangeiros, pelo que os judeus (sim, os judeus como colectivo), mataram Jesus, cumprindo a ordem de Deus. “Se Jesus tem que morrer inocentemente, alguém tem que matá-lo injustamente”… obedecendo a Deus. No entanto, não há, no cristianismo, uma teologia do julgamento, o que constitui uma lacuna notável.

3. Houve uma transferência de responsabilidade da cruz para o julgamento. O mesmo é dizer: dos romanos para os judeus. No Vaticano II, a Igreja “desmontou” a responsabilidade colectiva dos judeus na morte de Jesus, desculpabilizando-se  inconscientemente a ela própria, no presente, pela perseguição aos judeus no passado (coisa que João Paulo II, ao pedir perdão pela Igreja, contrariou). Ora Weiler, ao arrepio de tudo, quer manter a responsabilidade colectiva dos judeus.
(…) Eu também não quero ser "absolvido". Temos que diferenciar entre culpa e responsabilidade. Eu quero ser capaz de dizer: "Sim, os judeus levaram Cristo à morte, porque é isso que o Senhor nos ordenou a fazer". Claro, pessoalmente, eu não sou responsável, eu não sou Caifás. Mas, como judeu, eu quero ser capaz de dizer que, quando alguém veio como profeta que operava sinais e prodígios e tentou mudar a lei, nós fizemos o que Deus nos pediu para fazer.
Joseph Weiler está a escrever um livro que deverá estar concluído no final do ano. As teses são muito discutíveis, a começar pelo facto de a questão da responsabilidade colectiva versus responsabilidade individual evoluir ao longo dos tempos bíblicos. E não são inéditas as tentativas de reconstituição moderna do julgamento de Jesus com resultados semelhantes ao verificado nos evangelhos. De qualquer forma, promete debate.

A entrevista pode ser lida aqui em português e aqui em inglês.


Joseph Weiler participou na quarta-feira, 16 de Março, num seminário acolhido pelo Parlamento Europeu sobre intolerância e discriminação contra cristãos. À Rádio Vaticano afirmou o seguinte: “Aquilo que eu acho mais chocante não é o facto de haver discriminação, ódio, cristianofobia, mas que estas coisas sejam aceites, que não hajam protestos, que este seminário seja um dos primeiros eventos deste género”. Li aqui.

sábado, 5 de março de 2011

Anselmo Borges: Religiões proféticas



Texto de Anselmo Borges no DN de hoje:

Continuo a reflexão da semana passada sobre as religiões mundiais. Hoje, sobre as religiões proféticas, abraâmicas, monoteístas.

Em primeiro lugar, o judaísmo. Quantos cristãos se lembram de que Jesus era judeu e de que os primeiros discípulos também? Não se pode esquecer o que há de comum entre judaísmo e cristianismo. Também o cristão acredita em um só Deus, o Deus criador e consumador do mundo e da história, em quem o homem pode, com razões, pôr a sua confiança. Também aceita a Bíblia Hebraica ("Antigo Testamento") e reza os Salmos. Também o cristão está vinculado por uma ética da justiça e da promoção da paz, na base do amor de Deus e do próximo. Como disse Thomas Mann, referindo-se aos Dez Mandamentos, eles são "manifestação fundamental e rocha da decência humana", "o ABC da conduta humana".

Há hoje 1300 milhões de muçulmanos, seguindo o Profeta Maomé, que está na base do islão. Como os judeus e os cristãos, os muçulmanos crêem num só Deus, o criador misericordioso, providente e juiz da História. Mas, enquanto para os judeus o centro é constituído por Israel como povo e terra de Deus e para os cristãos central é Jesus Cristo como Messias e Filho de Deus, esse centro para os muçulmanos é o Alcorão como palavra e livro de Deus. Ele é o livro vivo e sagrado para os muçulmanos em todo o mundo. Nele, encontram o seu modelo de vida, de que fazem parte os chamados cinco pilares do islão: acreditar que Alá é o único Deus e Maomé o seu profeta; rezar cinco vezes ao dia; auxiliar os pobres; jejuar durante o mês do Ramadão; ir em peregrinação a Meca uma vez na vida.

E o modelo cristão? O fundamento da espiritualidade cristã não se encontra em dogmas por vezes incompreensíveis ou em sublimes mandamentos morais nem numa grande teoria ou num sistema eclesiástico. O modelo de vida cristão é pura e simplesmente Jesus de Nazaré como o Messias, o Cristo, o Ungido e Enviado de Deus. Na vida e na morte, o fundamento da autêntica espiritualidade cristã é Jesus Cristo, um desafio vivo para a nossa relação com os homens e com o próprio Deus, orientação e critério para mais de 2 mil milhões de seres humanos em todo o mundo. Cristão é aquele ou aquela que na sua vida e também na morte se esforça por orientar-se na prática por este Jesus Cristo e o seu Evangelho do Reino de Deus. A cruz só se entende à luz da sua vida e dos conflitos que criou. Mas os cristãos são transportados pela convicção de fé de que a sua morte não foi o fim: a ressurreição significa que Jesus está em Deus, que morreu não para o nada, mas para a Realidade mais real, isto é, foi recebido na vida eterna de Deus. Ele é, assim, o modelo cristão de vida em pessoa.

Logo a partir desta experiência existencial resulta que nenhuma religião se pode considerar como a única via de salvação. Quem poderia reclamar esse privilégio? Pelo contrário, percebe-se que as religiões, agora do ponto de vista teológico, em vez do confronto precisam de entrar no diálogo, corrigir-se e enriquecer-se mutuamente, colaborar.

Como conclui Hans Küng, podemos aprender uns com os outros, não apenas tolerar-nos, mas cooperar; temos o direito de debater sinceramente sobre a verdade: ninguém tem o monopólio da verdade, embora isso não signifique renunciar à confissão da verdade própria - "diálogo e testemunho não se excluem"; cada um deve seguir o seu caminho comprovado, mas conceder que os outros podem encontrar a salvação através da sua religião; vendo as coisas de fora, há diferentes caminhos de salvação, diversas religiões verdadeiras, mas, a partir de dentro - por exemplo, "para mim como cristão crente", só há uma religião verdadeira: a minha; a atitude ecuménica significa ao mesmo tempo "firmeza e disposição para o diálogo": "para mim pessoalmente, manter-me fiel à causa cristã, mas numa abertura sem limites aos outros."

Não há verdade abstracta. Por um lado, Deus revela-se na história. Por outro, a pessoa religiosa relaciona-se com o Divino pela mediação histórico-concreta de uma tradição religiosa particular.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Justin Bieber sabe a “Shema” de cor

Justin Bieber é o cantar adolescente do momento. Numa revista portuguesa que traduzia um artigo de Jon Ronson (do “The Guardian”) lia-se:
“És judeu?”, pergunta-me Justin. “Sim”, respondo. Justin recita então as linhas de abertura da “Shema” – a oração judia da manhã e da noite – dizendo-as sílaba a sílaba na perfeição. E faz uma pausa. “A cristandade começou por causa de Jesus ser judeu”, disse. “Respeito a fé judaica”, acrescenta. Justin é um cristão praticante. “Rezo duas a três vezes por dia. No fim do dia, leio sempre um pouco da minha Bíblia. O meu tutor é cristão, por isso nas aulas particulares as vezes estudamos versículos da Bíblia”, revela.
Os catequistas deviam saber disto. Algumas crianças e adolescentes leriam a Bíblia com mais gosto sabendo das práticas do ídolo. Para mais, parece que Justin Bieber é católico (discute-se em imensos sítios qual a confissão a que está ligado, mas prevalece a católica). 

Já agora, a “Shema” é o conjunto de versículos de Deuteronómio 6,4-9, que começa assim (segundo a minha Bíblia): “Escuta, Israel! O senhor é o nosso Deus; o Senhor é único! Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças”.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...