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sábado, 19 de fevereiro de 2011

À procura de um rosto áspero e judeu


Cristo não está no meio. É o terceiro.
A negra barba pende sobre o peito.
O rosto não é o rosto das imagens.
É áspero e judeu. Não o vejo
e continuarei a procurá-lo até ao dia
último dos meus passos sobre a terra.


Jorge Luís Borges

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Ainda Jorge Luis Borges, no dia dos seus 111 anos

Dizia ele, referindo-se ao pai, Guillermo: “O pai sempre com as suas piadas contra a fé. Na noite passada disse que Jesus era como os Gaúchos, que não querem comprometer-se, e que por isso pregava em parábolas” (conto “O outro”, terceiro volume das Obras Completas, na Teorema, página 11).

Circula na Internet o poema “Instantes”, atribuído a Jorge Luis Borges. Cito excertos, na versão que António Alçada Baptista apresenta nas suas memórias (“Pesca à linha…”):

“Se eu pudesse viver novamente a minha vida
Na próxima trataria de cometer mais erros
Não tentaria ser perfeito, relaxaria mais.
Seria mais tolo ainda do que tenho sido.
(…)
Iria a lugares onde nunca fui,
Comeria mais sorvetes
E menos favas,
Teria mais problemas reais e menos imaginários.
(…)
Se pudesse voltar a viver
Começaria a andar descalço no princípio
Da Primavera
E continuaria descalço até ao fim do Outono.
(…)

Na realidade, este poema não é de Jorge Luis Borges, que nunca utilizaria a palavra favas, mas de Nadine Stair (aqui), conforme li numa entrevista de 2006 a María Esther Vázquez, colaboradora de Borges (aqui).

Conferência de Borges em 1977 sobre a cegueira e as cores, as memórias e a sorte que teve em ler numa só noite artigos de enciclopédia sobre Dreyser, dos druidas e dos drusos.

Ascendência portuguesa de Jorge Luis Borges

Torre de Moncorvo

“Nada ou pouco sei dos meus maiores portugueses: os Borges”, escreveu Jorge Luís Borges. António Alçada Baptista, que em “A pesca à linha. Algumas memórias” (ed. Presença, 1998) dá conta das três vindas do escritor argentino a Portugal, diz que a frase é mais reveladora da rejeição de Espanha do que uma efectiva ascendência portuguesa. “Julgo que é nesse processo mais vasto do seu inconsciente [de recusa da Espanha] que deve radicar-se o seu portuguesismo de que tanto se orgulha”.

De qualquer forma, diz-se que um ascendente de Jorge Luis Borges era de Torres de Moncorvo. A Wikipedia tem: “Segundo um estudo de Antonio Andrade, Jorge Luis Borges tem ascendência portuguesa: o bisavô de Borges, Francisco, teria nascido em Portugal em 1770 e vivido na localidade de Torre de Moncorvo, situada no Norte de Portugal, antes de emigrar para a Argentina, onde teria casado com Cármen Lafinur”.

Alçada Baptista afirma que Jorge Luis Borges nunca chegou ir a Torre de Mocorvo. Porém, explicou ao português como -se como via a terra dos antepassados, «na encosta de um monte, rodeado de pinhais». "Neste ano de 1997 [ano de escrita do livro de memórias], Torre de Moncorvo prestou-lhe uma homenagem merecida. Inaugurou a Avenida Jorge Luis Borges, com a presença do Presidente da República. Sei que continuam as investigações, em troca de correspondência com a família, para localizar esse antepassado militar que foi para a Argentina, contratado para aquelas guerras. Ainda não foi localizado”, escreve Alçada Baptista (pág. 123).

Procurando na Internet Antonio Andrade, o estudioso referido na Wikipedia, encontra-se que António Júlio Andrade é bibliotecário em Torre de Moncorvo e director do jornal «Terra Quente». "Homem que se ocupa dos arquivos, ele tem procurado Francisco Borges em todo o tipo de registos e correspondências. Alguns dos documentos que descobriu são inéditos e permitem uma indicação mais precisa da sua origem. Que pode muito bem estar no Morgadio do Mindel, o mais antigo de que há conhecimento na comarca de Moncorvo, pertencente a uma outra família Borges muito anterior à de Felgueiras", diz o sítio Geneall.net (aqui).

Neste sítio afirma-se, também, que o argentino D. Luis Guillermo de Torre, parente de Jorge Luis Borges e membro da Comissão Heráldica da Argentina, forneceu dados biográficos fundamentais sobre Francisco Borges. Os dados contradizem as datas da Wikipedia, mas confirmam a ascendência portuguesa . Francisco Borges terá sido baptizado numa das paróquias de Moncorvo, talvez em 1782 (e não 1770). "Era filho de Manuel António Cardoso e de Maria Antónia. Ignora-se o apelido da mãe, que se supõe ser Borges. Chegou ao Rio da Prata em 1817, na expedição do general Lecor. Casou em Montevideu, em 3 de Fevereiro de 1829, com a argentina Carmen Lafinur».

24 de Agosto de 1899. Nasce Jorge Luis Borges

Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo nasceu em Buenos Aires, no dia 24 de Agosto de 1899, e morreu em Genebra, onde está sepultado, no dia 14 de Junho de 1986.

Julgava-se de ascendência portuguesa, embora tal seja difícil confirmar. Entre os seus temas literários preferidos estavam os sonhos, labirintos, espelhos, bibliotecas, escritores fictícios e livros fictícios, religião, Deus. Concebia o paraíso como uma biblioteca: “Sempre imaginei que o paraíso será uma espécie de biblioteca”.

Ser era crente, não o era à maneira ortodoxa. Mas a temática religiosa está amplamente presente na sua obra. Já aqui foi referido o conto “Um teólogo na morte” e há aquele hino à tolerância e ao pluralismo que é o conto “Os teólogos”, em “O Aleph”. São só exemplos.

Borges escreveu uma nota biográfica, irónica, para publicar numa enciclopédia a ser publicada em 2074 em Santiago do Chile, considerando-se um escritor secundário. Começa assim:

“Borges, José Francisco Isidro Luís — Escritor e autodidacta, nascido na cidade de Buenos Aires, então capital da Argentina, em 1889. Não é conhecida a data da sua morte, dado que os jornais — género literário da época — desapareceram ao longo de vastos conflitos de que os historiadores regionalistas hoje nos dão conta. As suas preferências foram para a literatura, a filosofia e a ética. Aquilo que do seu trabalho chegou até nós informa-nos suficientemente sobre o primeiro ponto, ao mesmo tempo que deixa entrever incuráveis limitações”.

Note-se que o seu nome e a data de nascimento estão errados.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Não é leitura de férias. Conto "Um teólogo na morte"

Acabei de ler o magnífico conto “Um teólogo na morte”, de Emanuel Swedenborg (este existiu mesmo, sueco, entre 1688-1772), na versão de Jorge Luís Borges (páginas 346-347 do primeiro volume das “Obras Completas”, ed. Teorema). Deixo aqui o início em traços largos.

Melanchton, o grande teólogo do luteranismo, morre e vai para o outro mundo, onde lhe é proporcionada uma casa ilusoriamente igual à que tivera na Terra. No outro mundo, o teólogo continua a proceder como se estivesse vivo. Escreve durante dias e dias sobre a justificação pela fé. “Como era seu costume, não disse uma só palavra sobre a caridade”.

O conto também está na rede. Pode ser lido aqui, numa versão brasileira.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Dádiva de livros e da noite


Que ninguém se abaixe ao nível da censura.
Ou das lágrimas, essa afirmação da mestria
De Deus, cuja maravilhosa ironia
Ao mesmo tempo me fez dádiva de livros e da noite

Jorge Luís Borges (1899-1986)

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...