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sábado, 18 de março de 2017

A importância de ler jornais

O estado de saúde de João Paulo II agravava-se e captava o interesse das pessoas e dos meios de comunicação social, muitos deles propensos a especulações, naturalmente. Cada informação era misturada com boatos, sendo difícil destrinçar a verdade da falsidade, o costume. Um dia, o próprio Papa polaco, interrogado sobre a sua saúde, afirmou:
- Não sei. Hoje ainda não tive tempo para ler os jornais.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

A saúde de João Paulo II

Uma vez, a superiora de uma congregação disse a João Paulo II:
- Estou muito preocupada com a saúde de Sua Santidade.
João Paulo II respondeu:
- Eu também.
- Está preocupado com a sua saúde?!
- Não, com a minha santidade.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Dois textos de João César das Neves

João César das Neves escreveu na segunda-feira, no DN, sobre "A festa dos cinco papas", os quatro da canonização do dia 27 mais um outro.
Ontem foi um dia especial. Dois papas vivos declararam perante o mundo que dois papas mortos estavam na vida plena. A canonização de João XXIII e João Paulo II pelo Papa Francisco, na presença do papa emérito Bento XVI, constitui um acto único na história do mundo. Será que interessa ao mundo?
Ler tudo aqui.

Oito dias antes, JCN escreveu um conto de Páscoa.

O meu amigo fora claro: o seu prédio ficava entre a igreja e a livraria. Cedinho nessa manhã de Páscoa ali estava eu totalmente perdido, apesar das indicações. Ele dissera que não havia nada que enganar, porque a grande cruz no cimo da torre se via à distância. Além disso eu visitara-o há uns anos e esperava reconhecer o local. Apesar disto, não fazia a menor ideia onde me devia dirigir. Estava totalmente perdido.
Ler tudo aqui.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

E eu que pensava que a declaração de santidade de João Paulo II tinha que esperar...

Em Julho, o Papa já tinha confirmado os processos de João Paulo II e de João XXIII. A dupla canonização está marcada para 27 de Abril de 2014, dia em que será comemorada a festa da Divina Misericórdia, estabelecida por João Paulo II.

No Público de hoje. E eu que pensava que a declaração de santidade de João Paulo II tinha que esperar, sei lá, uns 20 aninhos...

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Baptista-Bastos é capaz de ir à missa de Francisco

Mais um franciscólogo instantâneo, Baptista Bastos, no DN de hoje.

Comecei a contar as asneiras - factuais, teológicas, de interpretação, ideológicas - e desisti na dezena. É ler para ver. E rir. Lá para o fim há coisas mais acertadas.

Ele até regressou ao "Por que não sou cristão", de Bertrand Russell, um livro (sim, li-o em adolescente e foi das primeiras obras que me fez tomar consciência de que para ser ateu culto é preciso estar informado sobre religião) que tem argumentos contra o cristianismo deste calibre: O cristianismo não pode ser divino porque Jesus disse aos discípulos que voltaria antes de eles chegarem aos confins de Israel. Ora, eles demorariam quando muito um mês a cumprir tal tarefa e Jesus ainda não voltou.

Estou a citar de cor, mas não estou a inventar. O argumento vem lá, em Russell, matemático de grande nível, sem dúvida, e insólito Nobel da Literatura. Mas o melhor é ler o senhor do laço.


domingo, 7 de julho de 2013

O milagre de João Paulo II - 2


Floribeth Mora, costarriquenha de 50 anos, no dia 30 de abril de 2011,
“asistió a misa y a una procesión en su comunidad, pero que su condición de salud le impidió participar en una jornada de oración en el Estadio Nacional de San José, donde se transmitiría por pantalla gigante la ceremonia de beatificación de Juan Pablo II”. 
"No sé como me desperté y vi toda la beatificación por televisión en mi casa. Al ser las 8 de la mañana del siguiente día (1 de mayo), me desperté, cuando escucho una voz que me dice: 'levántate, no tengas miedo', y yo estaba sola en mi cuarto", expresó Mora. 
Tras escuchar esas palabras, la mujer dice que observó una revista conmemorativa a la beatificación de Juan Pablo II que le habían regalado y que la imagen del beato alzó sus manos y volvió a escuchar la voz: "levántate, no tengas miedo". 
Mora cuenta que en ese momento se puso de pie, salió de su cuarto y se encontró con su esposo, que le preguntó qué hacía levantada. 
"Le dije a mi esposo: me siento bien. Y desde ese día me paré de esa cama y sigo en pie, camino, hablo, estoy bien. El señor me vio con ojos de misericordia por la intercesión de Juan Pablo II, miró a esta mujer indigna y me sanó", afirmó Mora. 
El 11 de noviembre de 2011 se practicó exámenes de seguimiento de su enfermedad y los médicos determinaron que el aneurisma había desaparecido sin explicación científica.

Li aqui. O (2) do título aponta para esta notícia.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

João Paulo II curou um aneurisma

No CM de ontem. O milagre que iria surpreender o mundo (ver aqui) é a cura de um aneurisma. Ok, um aneurisma é uma coisa complicada, mas parece-me que o mundo não ficou lá muito surpreendido.

Sempre que me falam de milagres, a minha fé (admito, não deve ser muita) enfraquece-se um bocadinho.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Segundo milagre de João Paulo segundo

A comissão teológica da Congregação para a Causa dos Santos atribuiu um segundo milagre ao papa João Paulo II. As fontes citadas pela Ansa (agência italiana), não identificadas, afirmaram que o novo milagre irá "surpreender o mundo". Li no DN.

sábado, 11 de maio de 2013

11 de maio de 1979. Óscar Romero encontra-se com João Paulo II


No dia 11 de maio de 1979, D. Óscar Romero teve uma audiência com João Paulo II. Dizem os relatos, do próprio em primeiro lugar, que saiu do encontro triste com o Papa polaco, tal foi a frieza demonstrada. João Paulo II pediu-lhe para ser mais cooperante com o governo de El Salvador.

Mais tarde, em 1983, numa visita a El Salvador, João Paulo II rezou no túmulo do bispo mártir. E em 1997, declarou-o "Servo de Deus".

Entretanto, há muito que os anglicanos o veneram no dia 24 de março, dia da sua morte (em 1980), enquanto alguns católicos contestam o estatuto de "mártir".

sexta-feira, 10 de maio de 2013

P.e Calado Rodrigues: "Ordenação de mulheres"


Texto do P.e Calado Rodrigues no "Correio da Manhã". Boa síntese do que os Papas dizem sobre a ordenação das mulheres. E como a questão não está fechada. Já agora, na imprensa de hoje, no "Público" em concreto, há uma peça sobre as freiras dos EUA, que, como se sabe, estão em conflito com o Vaticano. Ainda não li o texto. Depois disso, talvez o copie para aqui.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

O Papa agora também é cromo



Já houve de João Paulo II, em 2005. Bento não era tão popular, pelo que não teve caderneta. Agora aí está a vida de Bergoglio/Francisco em 400 cromos. Cada carteira traz 5 e custa 60 cêntimos. Para completar a coleção, é preciso gastar 48 euros. E que não saia nenhum repetido.

sábado, 2 de março de 2013

Anselmo Borges: O testamento do Papa Bento XVI



Texto de Anselmo Borges no DN de hoje.

Agora, é apenas Papa emérito. Mas que ninguém se preocupe com os dois Papas vivos, pois Ratzinger retirou-se, para rezar, meditar, ouvir e tocar música, investigar, "desaparecendo" para o mundo.

Joseph Ratzinger também teve o seu momento de rebeldia e de progressismo, no Concílio Vaticano II. Chegou a dizer nas aulas, em Tubinga: "em Roma, como sabem, não se faz boa Teologia." Durou pouco tempo esse tempo. A sua orientação teológica agostiniana - Santo Agostinho não tinha em muito boa consideração o mundo - inclinava-o mais para uma visão conservadora. A mudança teve como ponto decisivo os excessos de 1968, com o radicalismo ateu dos estudantes de Teologia.

Reconhecido pela sua inteligência brilhante e uma rara cultura - dialogou com grandes intelectuais, incluindo Jürgen Habermas -, é mais um intelectual e um professor do que um pastor. As circunstâncias quiseram que este homem afável, tímido, "honesto, íntegro e encantador no trato pessoal", como reconhece também o teólogo J. I. González Faus, deixasse a vida académica, se tornasse arcebispo de Munique, seguisse para Roma como "inquisidor", condenando muitas dezenas de teólogos e a Teologia da Libertação, e se tornasse Papa - quando aconteceu a eleição, lembrou-se da guilhotina.

Deixa três encíclicas: a primeira, para dizer que a verdadeira "definição" de Deus é que é Amor; a segunda, para convocar os cristãos e todos os homens à esperança; a terceira é sobre "a caridade (o amor) na verdade". Nela, condena as posições neoliberais, cujo único objectivo é o lucro; reafirma a doutrina essencial de que a economia e o desenvolvimento só são verdadeiros se estiverem ao serviço do homem todo e de todos os homens; que, em ordem ao seu correcto funcionamento, a economia precisa da ética, "uma ética amiga da pessoa"; que, para conseguir o governo da economia mundial, o desarmamento, a segurança alimentar e a paz, a salvaguarda do meio ambiente e a regulação dos fluxos migratórios, "urge a presença de uma verdadeira Autoridade política mundial, que deverá ser reconhecida por todos, gozar de poder efectivo para garantir a cada um a segurança, a observância da justiça, o respeito dos direitos".

Ideia nuclear é a do diálogo entre a fé e a razão. A fé, sem a razão, é cega e intolerante; a razão, sem a abertura à transcendência, pode enlouquecer. No cristianismo, acolhe-se a fé, dando lugar à descoberta do "Deus que é Razão criadora e ao mesmo tempo Razão-amor". Aí está o vínculo indissolúvel entre Razão, Verdade e Bem.

Na Sexta-Feira Santa de 2005, ainda cardeal, disse aquelas palavras: "quanto sujidade na Igreja! A traição dos discípulos fere mais Jesus." Referia-se certamente ao escândalo da pedofilia, à figura sinistra do padre Maciel, fundador dos Legionários de Cristo, ao que se passava na Cúria. Quando assumiu funções, foi exemplar, pondo Maciel fora da vida pública, pedindo perdão às vítimas da pedofilia e tomando medidas drásticas e consistentes, para que os crimes se não repitam.

Não conseguiu reformar a Cúria nem pôr termo às intrigas, ao carreirismo, às lutas pelo poder, aos escândalos, desde a corrupção à lavagem de dinheiro no Banco do Vaticano e ao Vatileaks. Sem forças "no corpo e no espírito", renunciou, "em consciência e plena liberdade", para que outro lhe suceda.

Foi talvez a lição maior de Joseph Ratzinger enquanto Papa. Houve quem o criticasse, também dentro da Igreja e pensando em João Paulo II: que não se desce da Cruz e que dessacralizou o papado. Mas, afinal, o Papa é mais do que um homem? Não se trata tão-só de um cristão que leva consigo a específica missão gigantesca de ser sinal e promotor de unidade entre os cristãos e a Humanidade?

Este é o seu testamento: abandona pacificamente o poder. Porque na Igreja, como aliás no mundo em geral, é preciso escolher entre o poder como dominação e a força do serviço. O Deus cristão não se revela como Poder-Dominação, mas Força Infinita de criar no Amor. Bento XVI leu e recomendou que todos os Papas lessem a famosa carta de São Bernardo ao Papa Eugénio III: "Não pareces um sucessor de Pedro, mas de Constantino".

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Bento Domingues: Não basta um novo Papa

Texto de Bento Domingues no "Público" de hoje. Está disponível para todos aqui.


É normal que os católicos desejem para Papa uma pessoa com muita capacidade de liderança, que goste mais de escutar do que de falar ou impor a sua vontade, um cristão em permanente conversão, um servo dos servos de Deus. Que use, com verdade, a bela e antiga metáfora de Sumo Pontífice: ser exímio em fazer pontes, ser ecuménico, ser dialogante, com crentes e não crentes. Se desejarmos apenas isso, acabaremos por ficar frustrados.



1. A preocupação única com o perfil do próximo Papa é ambígua. Pode dar a ideia de que as qualidades do novo Papa, humanas e sobrenaturais, irão resolver, por si só, as questões com que se debatem as comunidades católicas no mundo inteiro.

Na memória de muitos católicos, e não só, a eleição de João Paulo II era uma primavera de promessas: novo, desportista, actor, assistente de movimentos juvenis, com uma capacidade de comunicação espantosa, confessava que o caminho da Igreja era a do ser humano e vinha de um país de Leste.

Quando ficou irremediavelmente doente, as suas grandes qualidades foram celebradas, de novo, na sua capacidade sacrificial. Para esta mentalidade, renunciar seria uma traição ao vitalício carisma papal. Veio Bento XVI e, de repente, o importante era o Papa teólogo, capaz de dialogar com o pensamento moderno e, para alguns devotos, o maior pensador do século XX. O cardeal Ratzinger, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, não tinha mostrado grande respeito pelos seus colegas teólogos, nem capacidade ou vontade de diálogo com todos aqueles que tinham uma hermenêutica diferente do Vaticano II. Ele defendia a da continuidade, dizendo que os outros eram por uma hermenêutica da ruptura. Reduziu, de facto, a teologia a um comentário do Magistério.

Tendo, porém, criado um vazio à sua volta, no mundo teológico, não associou ao seu governo as Conferências Episcopais, nem valorizou o papel dos Sínodos dos Bispos. Acabou por ficar confinado ao mundo da Cúria, com ferrugem de séculos, segundo D. António Marcelino, bispo emérito de Aveiro.

Seja como for, pelo que consta, o seu legado na reforma da Cúria não parece brilhante, nem sequer aos olhos de Bento XVI.

2. É normal que os católicos desejem para Papa uma pessoa com muita capacidade de liderança, que goste mais de escutar do que de falar ou impor a sua vontade, um cristão em permanente conversão, um servo dos servos de Deus. Que use, com verdade, a bela e antiga metáfora de Sumo Pontífice: ser exímio em fazer pontes, ser ecuménico, ser dialogante, com crentes e não crentes.

Se desejarmos apenas isso, acabaremos por ficar frustrados. Personalidades assim não se podem encomendar, sobretudo num grupo já de si tão restrito, o dos cardeais eleitores: estes eram 117 até ao último domingo. 61 europeus; 19 latino-americanos; 14 norte-americanos; 11 africanos; 11 asiáticos e um da Oceânia. Na Europa, 28 são italianos.

A verdadeira questão não é a das características individuais do Papa. A questão é a do papado, isto é, a do sistema de governo da Igreja Católica.

Os Papas apresentam-se como sucessores de S. Pedro. Pedro era casado e, talvez, a sua mulher o acompanhasse nas suas viagens missionárias. (1 Cor 9,5).

No Novo Testamento aparecem quatro listas de Apóstolos e, nas quatro, Pedro figura em primeiro lugar. O texto-chave sobre a sua primazia é o de Mt. 16, 17-19: Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja. Jesus não o tratou sempre assim: arreda-te de mim Satanás, porque não pensas as coisas de Deus, mas dos homens (Mc 8,27-33). Durante o processo de Jesus, traiu o Mestre três vezes. Paulo enfrentou a sua hipocrisia, em Antioquia (Gal 2, 11-14). No entanto, a referência a Pedro é clara, mas quem escolheria, hoje, para Papa alguém com estas características?

3. Seria um abuso responsabilizar S. Pedro pela história do papado e pela sua configuração actual. Segundo parece, o primeiro bispo de Roma a ser chamado Papa foi João I, no séc. VI, embora fosse um termo do vocabulário cristão, de carinho pelos pastores das comunidades.

Nas circunstâncias actuais, nos limites da escolha de um novo Papa, seria desejável ver alguém eleito disposto a fazer uma reforma do governo da Igreja Católica. Antes de mais, que se lembre da ausência de representação de metade da Igreja, denunciada pelo cardeal Suenens, no Vaticano II: as mulheres. Acabar com a forma actual de sigilo na escolha dos bispos. A eleição do Papa seria mais representativa se fosse escolhido a partir de representantes das Conferências Episcopais do mundo católico. Os movimentos laicais, na sua diversidade, deveriam dispor de canais de representação. As Congregações Religiosas, femininas e masculinas, não poderiam ficar de fora, dado o seu carisma de carismas na Igreja.

Certamente estou a esquecer muita coisa. Pouco importa agora. Pretendo apenas ver restaurado e aplicado um princípio antigo do direito: o que diz respeito a todos deve ser tratado por todos, segundo as modalidades possíveis, em cada época e nas diversidades das culturas.

Os direitos humanos são secularizações de valores cristãos: liberdade, igualdade, fraternidade. É sintomático que a fraternidade nunca tenha tido muita aceitação, mas sem ela a liberdade e a igualdade serão sempre abstractas.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Dois modos de agir, uma mesma fidelidade, ponto de interrogação

Mais um exercício de contorcionismo papal. Têm sido muitos por estes dias. Parece ser assim: “Santo Padre, faço o que quiser que a gente justifica”. O gesto de Bento XVI desencadeou páginas e páginas disto.

Digo contorcionismo papal porque, por muito que queiram, ainda que haja “uma mesma fidelidade”, os gestos são opostos. Bento XVI diz-nos que não quer ter um final como João Paulo II.

Por outro lado, há, na realidade, há cristãos que se sentem defraudados. Como os compreendo. São mais coerentes do que os que se perdem em encómios para com Bento XVI. Há movimentos ditos conservadores que estão desiludidos com este Papa e receiam que seja eleito um mais novo, pois é essa uma das leituras possíveis quanto ao significado da resignação de Bento XVI. Alguém com forças.

O texto seguinte, de Miguel Almeida, padre jesuíta (diretor do CUPAV - Centro Universitário Pe. António Vieira, Lisboa), veio no “Público” de ontem.

 Há mais ou menos oito anos víamos como um Papa, o Papa João Paulo II, resistia até ao extremo das suas forças para levar até ao fim a missão que lhe fora confiada. Agora soubemos que outro Papa, o Papa Bento XVI, apresentou a sua renúncia. 
Há oito anos, muito se discutia, dentro e fora da Igreja, se João Paulo II devia "abdicar", já que estava manifestamente incapacitado para exercer convenientemente o seu mandato, devido à idade e à falta de saúde. Entre os fiéis católicos, porém, muitos defendiam que o Papa devia permanecer na Sede de Pedro até ao fim dos seus dias. Era, diziam, um testemunho para o mundo. Um mundo em que as pessoas idosas contam pouco mais que nada, em que a imagem é tudo, um mundo que valoriza as pessoas por aquilo que fazem e não pelo que são. O Papa Wojtyla surgia então como uma luz, ténue é verdade, mas uma luz que iluminava caminhos de fidelidade e de compromisso, bem para lá do "apetecer" ou da imagem a manter. E esta foi a opção clara de João Paulo II. Discutível? Sim. E a atitude assumida hoje por Bento XVI mostra, pelo menos, que há outros caminhos. Mas a posição de João Paulo II foi, então e de facto, um testemunho de fidelidade e de entrega como poucos. 
Surpreendentemente, Bento XVI apresentou aos cardeais em Consistório a sua renúncia: "Bem consciente da gravidade deste acto - afirma o Papa -, com plena liberdade, declaro que renuncio ao ministério de bispo de Roma, sucessor de São Pedro." As razões são declaradas com uma lucidez, humildade e clareza notáveis: "... no mundo de hoje, sujeito a rápidas mudanças e agitado por questões de grande relevância para a vida da fé, para governar a barca de São Pedro e anunciar o Evangelho, é necessário também o vigor quer do corpo quer do espírito; vigor este, que, nos últimos meses, foi diminuindo de tal modo em mim que tenho de reconhecer a minha incapacidade para administrar bem o ministério que me foi confiado." 
Esta decisão apanhou o mundo inteiro de surpresa. Percebeu-se pelas reacções dos próprios cardeais que, até para os colaboradores mais directos do Papa, esta declaração não era de todo esperada. De facto, assim reagiu o cardeal decano, Angelo Sodano: "Ouvimo-la [a sua comovida comunicação] com um sentimento de perplexidade, quase completamente incrédulos." Por muito apoiada e bem acompanhada que uma pessoa esteja, as grandes decisões da vida são tomadas na solidão. Ainda mais quando a pessoa de quem falamos é um Papa. Ainda mais quando a decisão que ele toma é algo que muito raramente aconteceu na história da Igreja e que altera necessariamente o modo de pensar e de actuar a que nos habituámos. Para quem tanto fora acusado de tradicionalista e retrógrado, há que lhe reconhecer a liberdade e a coragem de assumir uma opção que é tudo menos tradicional. Um Papa não abdica. Pelo menos assim diz a tradição. Com esta renúncia, Bento XVI sabe que está a abrir novas portas no modo de exercer o Papado, está a fazer Tradição. 
O interessante, no meio de todo este acontecimento, é que os cristãos não se sentem defraudados. Mesmo aqueles que defenderam que João Paulo II devia permanecer na Cadeira de Pedro até morrer, sentem hoje uma paz grande - depois da perplexidade própria da surpresa - ao lerem o discurso de renúncia de Bento XVI. Porquê? É que a motivação que levou o Papa Wojtyla a manter-se até morrer e que conduz o Papa Ratzinger a resignar é uma e a mesma motivação. São tão-só dois modos antagónicos de viverem e exprimirem o amor inquestionável à Igreja e ao mundo. Para um, o testemunho de ficar até ao fim era, então, essencial para mostrar como "da cruz não se abdica"; para o outro, a necessidade que o mundo actual tem de uma Igreja que possa responder às "rápidas mudanças e às questões de grande relevância para a vida da fé", requer um Papa cujo vigor Bento XVI sente escapar-lhe. 
As opções são diferentes, mas a fidelidade à missão de Pedro é a mesma: anunciar a liberdade com que Cristo nos libertou.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Vaticano II e o diálogo interreligioso


Narciso Machado sobre o Vaticano II e especialmente o documento Nostra Aetate, sobre o diálogo entre religiões. No "Público" de hoje. 

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Os "pingos amargos" do sr. Pingo Doce



Bento Domingues referiu há dias (ver aqui e comentários), na sua crónica, a entrevista que Alexandre Soares dos Santos deu a Anabela Mota Ribeiro (revista “2” do “Público” de 2 de setembro). Aqui ficam os “pingos amargos” do acionista principal da Jerónimo Martins.

(…) Sou católico, crente, praticante, e gostava, se na realidade houver alguma coisa para lá, de encontrar o meu pai (…). 
Tem na sala uma fotografia com o Papa João Paulo II. Foi importante para si o encontro com ele? O que é que representou? 
Foi importante conhecê-lo, mas o Papa que conheci era um Papa com muita idade. Era uma reunião privada, organizada por um padre muito nosso amigo. Eu tinha esperado uma hipótese de… falar. 
Sobre o quê? 
Por que é que a Igreja é tão lenta a reformar-se? São coisas que discuto como bispo D. Manuel Clemente. Por que é que não se devem admitir mulheres padres? Por que é que não se há-de admitir o casamento? Por que é que a Cúria Romana é constituída por uns tipos que têm 80 anos, que não sabem nada de nada da vida, que estão ali fechados? (…) 
A conversa com o Papa seria para discutir a sociedade. Não seria para falar dos seus problemas íntimos. Tudo está direccionado para o domínio social. 
Filha, quando se chega à minha idade, sei exactamente para onde vou. (...)
Tanto diz coisas que politicamente consideraríamos à esquerda como outras à direita. 
Mas isto não é um problema de esquerda ou de direita. Eu não sou de esquerda nem de direita. O António Barreto diz-me que sou um conservador liberal. Sou é cristão. Não digo que sou católico. Sou cristão. Como tal, tenho um conjunto de valores e princípios que tenho de respeitar (...).

sábado, 18 de agosto de 2012

Anselmo Borges: "Os Papas e o desporto"


Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (aqui).

Durante os Jogos Olímpicos, foi para mim uma surpresa simpática saber que o Papa Pio X tinha sido promotor dos Jogos Olímpicos, em 1908. De facto, não podendo realizar-se em Roma por causa de uma grave crise económica - acabaram por ser celebrados em Londres -, Pierre de Coubertin, instigador dos Jogos modernos, pediu ajuda à Santa Sé, e foi o próprio Pio X que o apoiou.

Quem o afirma é Antonella Stelitano no livro Pio X e o Desporto, fazendo notar que nos começos do século XX menos de um por cento da população praticava desporto. Ora, Pio X via no desporto uma forma de educar os jovens. "São Pio X viu a possibilidade de o desporto ser educativo. Uma forma de aproximar os jovens, para que, estando juntos, seguissem regras e respeitassem o adversário. Creio que entendeu que era possível fazer com que as pessoas estivessem juntas de uma forma simples, unidas sem problemas de raça, religião ou ideias políticas diferentes."

Aliás, dada a dificuldade em se compreender nessa altura a ginástica, o próprio Papa terá dito a um cardeal: "Muito bem! Se não entendem que é algo que se pode fazer, pôr-me-ei eu próprio a fazer ginástica diante de todos e assim verão que, se o Papa a pratica, todos a podem praticar."

É claro que os Jogos Olímpicos não se reduzem ao lema olímpico: citius, altius, fortius (mais rápido, mais alto, mais forte). Lá estão interesses outros que não os desportivos (aliás, não é o que se passa nos outros desportos, concretamente no futebol?), como os negócios e a corrupção, o perigo da idolatria e imensas frustrações e humilhações.

Seja como for, nunca foi esquecido o lema: "mens sana in corpore sano" (mente sã num cor- po são) e os Papas recentes não deixaram de sublinhar a importância e o valor do desporto.

Pio XII, chamado "o amigo dos desportistas" e o primeiro a mandar instalar um ginásio no Vaticano, perguntava e respondia:"Qual é, em primeiro lugar, o sentido e o objectivo do 'desporto', sã e cristãmente entendido, senão precisamente cultivar a dignidade e a harmonia do corpo humano, desenvolver a saúde, o vigor, a agilidade e a graça do mesmo?" E acrescentava: "O desporto, adequadamente dirigido, desenvolve o carácter, faz do ser humano uma pessoa valorosa, que perde com generosidade e vence sem presunção; ele afina os sentidos, ilumina a mente, e forja uma vontade de ferro para perseverar. Não é só desenvolvimento físico. O desporto correctamente entendido tem em conta o homem todo."

O desporto tem a capacidade de contribuir para a formação integral e para a fraternidade universal e a paz. João XXIII notou que o desporto "constitui um dos fenómenos mais vivos e interessantes da cultura contemporânea". O Concílio Vaticano II recomendou: "Empreguem-se os descansos oportunamente para distracção do ânimo e para consolidar a saúde do espírito e do corpo, ... com exercícios e manifestações desportivas que ajudam a conservar o equilíbrio espiritual e a estabelecer relações fraternas entre os homens de todas as classes, nações e raças."

Paulo VI dirigiu-se aos atletas das XIX Olimpíadas: "Procedeis de tantos países, representais ambientes e culturas, mas une-vos um ideal idêntico: ligar todos os homens com a amizade, a compreensão, a estima recíproca. Isto prova que a vossa meta final é mais elevada: a paz universal." O desporto simboliza a vida: "A vida é um esforço, a vida é um risco, a vida é uma corrida, a vida é uma esperança para a meta final, uma meta que transcende o palco da experiência comum e que a alma entrevê e a religião nos apresenta."

João Paulo II, o papa dos desportistas, disse-lhes: "Sede conscientes da vossa responsabilidade. Não apenas o campeão no estádio, também o homem com toda a sua pessoa deve converter-se num modelo para milhões de jovens, que têm necessidade de 'líderes' e não de 'ídolos'." E exortou: "Que o desporto esteja sempre ao serviço do homem e não homem ao serviço do desporto." Neste sentido, Bento XVI afirmou que, para os cristãos, a luz da chama olímpica "remete para o Verbo encarnado, luz do mundo que ilumina o homem em todas as dimensões, incluindo a desportiva."

Nota deste blogue: O episódio de Pio X, com ligação para a notícia do livro, ja havia sido referido aqui.

sábado, 30 de junho de 2012

Anselmo Borges; A caminho do Vaticano III?

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (tirado daqui).

Juan José Tamayo

Durante esta semana, em Santander, na UIMP (Universidade Internacional Menéndez Pelayo), realizou-se um Curso de Verão sobre os 50 anos do Concílio Vaticano II (1962-1965). A direcção pertenceu ao teólogo Juan José Tamayo.

O Concílio foi um enorme acontecimento. Sem ele, é inimaginável a situação da Igreja Católica e, consequentemente, dada a sua influência no mundo, também do próprio mundo. Como sublinhou Tamayo, operaram-se grandes transformações:

De uma Igreja que se considerava uma sociedade perfeita passou-se à Igreja como comunidade de crentes. Do mundo como inimigo da alma ao mundo como lugar da vivência da fé. Da condenação da modernidade e das religiões não cristãs ao diálogo multilateral. Da condenação dos direitos humanos ao seu reconhecimento e proclamação. Da condenação da secularização à sua defesa, no sentido do reconhecimento da autonomia das realidades temporais. Da Igreja imutável e imóvel à Igreja que deve estar em constante reforma. Do integrismo católico ao respeito pelas outras crenças. Do autoritarismo centralizado em Roma à colegialidade episcopal. Da Cristandade ao cristianismo. Da pertença à Igreja como condição necessária para a salvação à liberdade religiosa como direito humano fundamental. De uma Igreja europeia a uma Igreja verdadeiramente universal.

Houve limites? Alguns, maiores: apesar de certa abertura ao mundo, o seu carácter eurocêntrico - o horizonte de compreensão foi a modernidade europeia e, nesse quadro, a problemática da crise de Deus no mundo ocidental e o fenómeno da descrença -, e a não centralidade da opção pelos pobres, não se dando a devida atenção às maiorias populares do Terceiro Mundo. O Ocidente acabou por ser o destinatário principal do Concílio. Depois, o antropocentrismo exacerbado fez com que a problemática da ecologia fosse ignorada.

Alguns temas foram silenciados. O Papa Paulo VI impediu que o tema do celibato dos padres fosse debatido - mais tarde, num Sínodo Episcopal, submeteu-o a votação, mas a maioria dos bispos opôs-se. O lugar das mulheres na Igreja e, concretamente, a sua ordenação, bem como o controlo da natalidade, foram arredados do debate.

No dizer de Tamayo, "o Concílio foi uma curta Primavera a que se seguiu um longo Inverno, que dura há mais de 40 anos". Perante os excessos de então, Paulo VI, que tinha convictamente levado a termo o Concílio, mas que era um intelectual hesitante, teve receio e começou a pôr algum travão, numa história de avanços e recuos. Depois, já com João Paulo II, avançou a involução e pôs-se em marcha "um programa calculado de restauração". Acentuou-se o carácter hierárquico-papal da Igreja, limitou-se a liberdade de investigação teológica, muitos teólogos foram condenados, passou-se do pensamento crítico ao pensamento único e dogmático, a Cúria readquiriu poder, os bispos conciliares foram sendo substituídos por bispos fiéis ao neoconservadorismo e ao Vaticano.

Com Bento XVI, que constituiu uma surpresa pela sua humanidade, por medidas fortes contra o clero pedófilo, pela admiração por parte dos intelectuais, o caminho da involução continua: aí estão a restauração da Missa em latim, as negociações com os lefebvrianos, a condenação de teólogos, a centralização.

Perante a grave crise que atravessa hoje a Igreja, muitos reclamam um novo Concílio: um Vaticano III, convocado por um João XXIV. Mas há quem, para lá de outras objecções, lembre a questão financeira: um novo Concílio seria demasiado caro.

Pergunta-se, então, se não deveria dar-se, pelo menos, a convocação dos Presidentes de todas as Conferências Episcopais do mundo - há quem, com razão, questione a utilidade do cardinalato -, para resolver problemas urgentes: os escândalos no Vaticano, a questão do celibato, o lugar da mulher na Igreja, reformas das estruturas eclesiásticas, maior descentralização, uma linguagem nova para a expressão da fé, questões novas postas pela globalização e pelas novas tecnologias, tanto no domínio da comunicação como no da vida.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...