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sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Seis ideias contrárias ao pensar comum a propósito das bruxas

Umas coisinhas sobre as bruxas, ao arrepio do pensar comum. E posto isto, vou para casa dar cabo de uma abóbora.


1
As bruxas e os seus sabbats são uma invenção dos inquisidores medievais tardios, mais concretamente nas montanhas da Suíça. Foram os inquisidores que associaram as feiticeiras ao culto do diabo e à heresia. E a partir daí acaba a tolerância e começa a perseguição no centro da Europa.


2
A queima das bruxas aconteceu em muito maior escala na Idade Moderna do que na Idade Média. Na realidade, se considerarmos que Idade Média vai até 1453 (Queda de Constantinopla), a perseguição às bruxas foi uma raridade. Houve condenações, mas quase todas no contexto de heresias como as dos cátaros. O pior viria a seguir, de modo sistemático, até aos princípios do séc. XVIII. Diz-se que a última mulher a ser condenada à morte por bruxaria foi uma jovem, em Glarus (cantão protestante), na Suíça, em 1783. A tragédia terminou onde começara.


3
Os protestantes (luteranos, calvinistas, anglicanos) queimaram mais bruxas do que os católicos (o que, mesmo assim, é claro, não é motivo nenhum de glória). E, o que ainda é mais estranho e contrário ao pensar comum, houve mais juízes e condenações seculares (em tribunais seculares) do que religiosas.


4
O livro que foi um best-seller na perseguição das bruxas, o “Malleus Maleficarum” (“O Martelo das Bruxas”), de 1487, escrito por dois frades dominicanos, nunca foi aprovado pela Igreja Católica. Pelo contrário, foi colocado no Index. Mas fez imenso sucesso entre católicos e ainda mais entre protestantes alemães.


5
Na Península Ibérica, não houve queima de bruxas (ou se houve, foram residuais e a bruxaria não foi o principal motivo). Porquê? Por causa da Inquisição ibérica, quase exclusivamente preocupada com a perseguição aos judeus e muçulmanos. Isso mesmo. Não queimou bruxas. Sem tirar nem pôr.


6
Há uma tese que diz que nos tempos em que algumas mulheres (geralmente viúvas, solitárias, com conhecimentos de medicina popular, nas margens das povoações, curandeiras) eram perseguidas como bruxas detinham um alto estatuto jurídico. E que depois do fim das perseguições passaram a ser consideradas doentes, incapazes de personalidade jurídica, pelo que viram o seu estatuto social diminuído.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Polémica com judeus do Porto


No "i" de hoje. Lendo o que está na notícia, pois não tenho qualquer outro elemento sobre o assunto, lamentáveis parecem-me as atitudes e as palavras do líder da Comunidade Israelita do Porto. Até parece que eles, judeus, carregam para sempre o estigma de vítimas; enquanto nós, católicos, seremos sempre os verdugos. Como se eles tivessem o monopólio do sofrimento, quando a Inquisição também perseguiu católicos, protestantes e muçulmanos, e os católicos, seguidores do judeu que era judeu, tivessem o exclusivo da violência sobre os judeus.

E já que se cita Elias (do capítulo 21 de I Reis - "a vinha de Nabot"), convém citar outro profeta judeu, Ezequiel, que dizia que se devia abandonar o velho ditado segundo o qual os pais comem uvas verdes e os filhos é que ficam com os dentes embotados.

Não conheço o lider judeu do Porto, mas é bem sabido que alguns judeus não aceitam nunca o pedido de perdão dos católicos, mesmo de João Paulo II. Porque perdoar implica dar um passo em frente.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

João César das Neves sabe como detetar os novos hitleres


Peter Berger. Será este homem mais perigoso do que Hitler?

João Cesar das Neves, no DN de hoje (26-11-2012), dá a conhecer uma obra que deve ser interessante.
No seu recente livro “The Triumph of Christianity” (HarperOne, 2011) o reputado sociólogo da religião Rodney Stark faz um resumo de 40 anos de carreira e de uma impressionante lista de trabalhos de outros autores. O tema explícito é o paradoxo a que dedicou grande parte da sua atenção: "como foi possível que uma obscura seita judia se tenha tornado na maior religião do mundo?" (p.1). Só que, apesar de cobrir esparsamente os dois mil anos de história, pode dizer-se que o verdadeiro assunto do volume é bem diferente: derrubar uma enorme quantidade de mitos, erros e manipulações que a historiografia dos últimos séculos acumulou sobre a Igreja.
O economista aponta depois uma série de exemplos de mitos e manipulações que farão a delícia dos novos apologetas (em parte também me considero um):
- O sucesso da expansão cristã no Império Romano não se ficou a dever à decadência do paganismo, revolta de escravos ou favores de Constantino, mas ao facto de os cristãos, graças à sua caridade, "viverem mais tempo que os seus vizinhos pagãos... não 'descartarem' as crianças femininas e as mulheres cristãs não terem a mortalidade substancial por abortos feitos num mundo sem antibióticos" (p.417).
- A Idade Média europeia não foi uma "idade das trevas" de miséria e obscurantismo, mas uma época brilhante da história do mundo, pois a ausência de impérios eliminou a escravatura e monumentos grandiosos, e o génio humano pôde virar-se para descobertas pragmáticas, das esporas aos óculos e moinhos, passando pelo capitalismo (p.242-5).
- A religião não é inimiga da ciência, mas foi na Igreja que nasceu e grande parte dos maiores cientistas são e sempre foram devotos (cap.16).
- "A Inquisição Espanhola foi um corpo bastante moderado, responsável por poucas mortes e salvou muitas vidas por se opor à caça às bruxas que varreu o resto da Europa".
Talvez pudesse dizer também que o pacto das bruxas com o diabo é uma invenção da Inquisição medieval, pelo que não está isenta de culpa na paranóia contra as mulheres que varreu parte da Europa, mais a norte. Mas não há espaço para tudo. O texto pode ser lido aqui.

O que me espanta, porém, é o parágrafo final:
Mas é assustador pensar no enorme poder que alguns pseudocientistas têm, se usarem a sua posição de prestígio e influência para veicular dogmas pessoais. Voltaire e Gibbon, como hoje Richard Dawkins ou Peter Berger, são um perigo para a liberdade maior que Napoleão, Hitler ou Mugabe. Manipular a mente é pior que controlar leis e polícias.
Não me impressiona por aí além que João César das Neves tenha caído na Lei de Godwin. Admiro-me é por incluir Peter Berger na lista dos manipuladores perigosos, ainda que Voltaire, Gibbon e Dawkins também tenham aspetos positivos.
Será o Peter Berger que muitos leem (ou leram, como foi o meu caso, nos anos 90) por causa da secularização, americano de origem austríaca (olhem, a pátria de Hitler), professor em Boston, doutor honoris causa numa universidade jesuíta? É dele uma expressão que entrou na cultura teológica, “rumor de anjos”, para significar os anseios de divino nas sociedades tecnológicas e os sinais de transcendência.
O Google não apresenta outros Peter Berger. E aponta o blogue deste teólogo e sociólogo, aqui. Não o leiam. “Manipular a mente é pior que controlar leis e polícias”, avisa César das Neves. Fui ler. Por sinal, por estes dias, a propósito do furação Sandy, o sociólogo-teólogo lembra o terramoto de Lisboa, quando os católicos diziam que foi um castigo de Deus por causa de haver alguns protestantes em Lisboa enquanto no norte da Europa diziam que era castigo divino por causa de os portugueses serem católicos (texto de 21 de novembro). Tem razão o professor César das Neves. “Manipular a mente é pior que controlar leis e polícias”. E parece que Peter Berger concorda.

domingo, 28 de outubro de 2012

Como a justiça da Igreja inspira as condenações de hoje


Lance Armstrong


Na “2” do “Público” de hoje, na página 4, dois comentários sem relação um com outro afirmam,

- o primeiro, sobre a condenação de cientistas italianos por não terem referido o risco de sismo à população de Áquila (morreram 309 pessoas), que o El Mundo “lembrou Galileu a propósito da condenação”;

- o segundo, sobre a condenação do ciclista Lance Armstrong, agora destituído dos seus sete títulos do Tour de France, que o El País ouviu de um advogado australiano, Martin Hardie, que este era “um caso de fixação no conceito de culpa mais próprio da Inquisição da Idade Média do que da modernidade”.

E eu fico a pensar:

a) que os jornalistas do "Público" andam a ler demasiados jornais espanhóis;

b) que a história da Igreja da continua a ser fonte fértil exemplos elucidativos para o que hoje acontece;

c) que o advogado australiano precisa de umas lições de história da Igreja (ou do Mundo), pois a Inquisição que mais abusou da “fixação no conceito de culpa” foi a da Idade Moderna e não a medieval.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Barretes amarelos


Conde de Oeiras

Apócrifa ou não, num livro que ando a ler sobre a Inquisição [“A Inquisição. O Reino do Medo”, de Toby Green, na Presença], volto a encontrar esta história:
Diz-se que, em 1773, [o Marquês de Pombal] ficara irritado com uma proposta de D. José I; tal como os reis que o antecederam e os que se lhe seguiram, sugerira que quem tivesse antepassados judeus devia usar um barrete amarelo. Uns dias depois, Pombal entrou no paço real com três barretes debaixo do braço. Como era de prever, D. José mostrou-se admirado e perguntou para que serviam; Pombal respondeu que estava apenas a obedecer às ordens reais. «Mas por que me trazeis três?», teria perguntado D. José, ao que o ministro respondeu: «Um é para mim, outro para o inquisidor-geral e o terceiro é para o caso de Nossa Majestade desejar cobrir a cabeça».

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Poder de Deus

Afonso Annes, um trabalhador cristão-velho do Porto, foi acusado à Inquisição em 1559. Motivo: dizia "não poder estar Deus no ceo e na Igreja" ao mesmo tempo.

Terá a Inquisição considerado que o portuense limitava o poder de Deus ou tê-lo-á julgado como anticlerical?

terça-feira, 24 de abril de 2012

24 de abril de 1585. É eleito Sisto V



Felice Peretti foi eleito papa, Sisto V, no dia 24 de abril de 1585 e viveu até 27 de agosto de 1590. Morreu aos 68 anos. Antes de ser papa, este franciscano era inquisidor em Veneza. Era tão rigoroso que a Sereníssima República tratou de despachá-lo para Roma onde havia muitas mais coisas para pôr em ordem.

Este Papa deu-nos a aventura desastrosa do ataque de Espanha (Portugal incluído, pois estava sob o domínio dos Filipes) a Inglaterra. Foi Sisto V que convenceu Filipe II a combater Isabel I, tal como já redigira a bula de excomunhão da rainha inglesa, assinada por Pio V uns anos antes. Alguns dos navios e homens da Armada Invencível eram portugueses.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

As afinidades entre a Inquisição e a atual guerra ao terrorismo

No "Quociente de Inteligência" de sábado passado (suplemento do DN): paralelos entre os métodos da Inquisição e os do combate ao terrorismo na atualidade.


segunda-feira, 23 de maio de 2011

23 de Maio de 1555. É eleito Paulo IV, o papa que não hesitaria em queimar o seu pai hereje


Paulo IV, um papa que não gostava de espanhóis nem de jesuítas, foi eleito no dia 23 de Maio de 1555, aos 78 anos, e morreu no dia 18 de Agosto de 1559.

Não gostava de espanhóis porque estes tinham pretensões sobre o reino de Nápoles, de onde era a família no papa. E não gostava de jesuítas porque tivera um desentendimento com Inácio de Loiola, pretendendo influenciar a formação jesuítica. O que é certo é que obrigou os jesuítas a rezarem a Liturgia da Horas, como outras congregações, e pôs os Exercícios Espirituais no Index.

Incentivou a Inquisição - tinha sido inquisidor - e diz-se que disse: “Se o meu pai fosse herético, eu iria apanhar lenha para a sua fogueira”. João da Cruz e Teresa de Ávila viriam a sofrer da violência (ele) e suspeição (ela) da organização que era, segundo expressões papais, “a menina dos olhos”, a “preferida do coração”.

quinta-feira, 31 de março de 2011

O último condenado à morte pela Inquisição em Portugal


Ainda a propósito da Inquisição portuguesa, que foi abolida no dia 31 de Marco de 1821.

O último condenado à morte foi o padre jesuíta italiano Gabriel Malagrida. Missionário no Brasil e pregador em Lisboa, conhecido por pregar que o terramoto de 1755 foi um castigo divino, Malagrida foi implicado no caso dos Távoras pelo Marquês de Pombal e condenado como herege, aos 71 anos. Depois de garrotado, foi queimado num alto-de-fé no dia 21 de Setembro de 1761 (80 anos antes da abolição definitiva), no Rorrio de lisboeta.

O caso foi claramente manipulado pelo Marquês de Pombal. A última condenação à morte, de um padre inocente, é um exemplo da frequente manipulação política deste tribunal.

Em 2005, Pedro Almeida Vieira publicou um romance sobre este padre, “O Profeta do Castigo Divino”.

Como a Inquisição promoveu a falta de higiene

É recorrente nos escritos da Inquisição (nem tudo era negativo; jornalista alemão apontou-lhe aspectos positivos, aqui) que “o acusado era conhecido por tomar banho”. Isto era uma suspeita grave de judaísmo. 

Seguindo à letra os preceitos de purificação do Antigo Testamento, os judeus lavavam-se mais do que os outros portugueses. Mas os delactores pensavam que o banho era por outro motivo: se eles se lavam muito é porque estão sujos da culpa de terem condenado Cristo. Os limpos não precisam de se lavar.

Tomar banho podia ser, de facto, um sinal de judaísmo, mas não pelas razões que os acusadores geralmente concebiam. Neste contexto, é natural que, para se não levantar desconfianças, os banhos fossem raros, mesmo entre os não judeus. A Inquisição era pouco amiga da higiene.

31 de Março de 1821. Extinção da Inquisição em Portugal

Cortes portuguesas (1822)

Cada vez menos temida e inoperante, a Inquisição foi formalmente extinta em Portugal no dia 31 de Março de 1821, nas Cortes Gerais.

Após uma primeira tentativa de D. Manuel I, em 1531 (Clemente VII concedeu-a e no ano seguinte anulou a decisão), a Inquisição chegou mesmo Portugal no dia 23 de Maio de 1536, com D. João III, no tempo do Papa Paulo III, por influência de Carlos V de Habsburgo.

É corrente entre os historiadores afirmar que é aqui que começa a decadência das nações ibéricas, embora a Espanha ainda tivesse um século de oiro pela frente. Parece que sim, não só por causa da expulsão dos judeus, que foram alimentar o dinamismo dos Países Baixos e depois das Américas, e dos muçulmanos, mas também pelo fecho de mentalidades que isso significou e pela promoção da desconfiança e da delacção. A inveja e o medo deram-se bem à sombra do tribunal religioso-político da Inquisição.

O projecto de abolição da Inquisição esteve a cargo do matemático e professor Francisco Simões Margiochi (1774-1838), que expôs assim o assunto (excerto do que disse nas cortes, na sessão de 24 de Março de 1821):
Era licito a toda pessoa, por mais perversa que fosse, ser denunciante, ou accusador. Toda a pessoa por mais virtuosa que fosse, era subjeita a estas accusações: nem o sexo eximia, nem a idade. As accusações erão recebidas apezar da incoherencia das testemunhas: nada importava que huma testemunha allegasse hum facto acontecido em Coimbra, e outra o mesmo facto acontecido em Lisboa, não se achava incoherencia. Nada importava que se asseverasse que o facto tinha passado hum anno, ou dez annos depois. Parece que se não queria senão ter victimas para atormentar. Admittida a accusação, procedia-se logo á prisão desculpadas, ou dos reos. Hia-se a sua casa; todas as Justiças, toda a força armada era obrigada a executar as ordens da Inquisição: era o preso transportado para as prisões da Inquisição, toda a sua familia era posta fora da casa, a casa ficava trancada, e a familia abandonada á sua sorte. Transportado o preso ás prisões da Inquisição, entrada em huma habitação muito pequena inteiramente escurecida, em hum espaço muitas vezes menor do que aquelle em que se põe os mortos. Alli passava mezes, e annos sem ser perguntado, sem chegar ás mesas dos inquisidores. Quando era perguntado não da para se oppôr á sua accusação, era para addivinhar quem tinhão sido os seus accusadores. Se depois de denunciar por accusadores seus filhos, ou seus pays, seus collegas, seus parentes, todos os seus amigos, seus conhecidos, todas as pessoas do mundo de quem sabia os nomes, assim mesmo não acertava com seus accusadores, em submettido aos tormentos. Estes tormentos erão polés, cavalletes, fenos em braza, e outras cousas que a Arte descreve, e sabe imaginar. Assistião a estes tormentos os Deputados da Inquisição, assistião Facultativos para ver se os desmayos que os atormentados mostravão, erão verdadeiros, ou fingidos: quando lhes parecião verdadeiros davão-lhes confortos para torna-los ávida, por medo de que escapassem as victimas. Quando de pois destes tormentos elles não acertavão senão com parte de seus accusadores, erão classificados de diminutos. Quando acertavão com todos seus accusadores, erão simplesmente condemnados (simplesmente) a gales, e a degredos para presídios. Quando acertavão com parte só, já disse, que erão olhados como diminutos, e sómente erão condemnados a garrote, e depois a serem queimados, e depois a serem suas cinzas deitadas ao Tejo, ou aos males. Ora quando absolutamente não addivinha vão seus accusadores, erão julgados impenitentes, e erão queimados vivos, e suas cinzas espalhadas como disse. Depois destas Sentenças proferidas, entregavão os seus processos ás Relações, aos Tribunaes Civis, e estes, sem exame nenhum, as manda vão executar. A' execução disto chamavão ao Auto da Fé. 
 Busto de Francisco Margiocchi, da autoria deAnatole Calmels (aqui)

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Galileu disse: "Eppure, si muove?"


No “Público” de hoje António Pinheiro Torres escreve (a propósito das presidenciais e de uma candidatura, inexistente, do centro-direita, mas isso não interessa aqui): “(…) Eppure, si muove (no entanto, move-se), como terá dito Galileu, depois de levado a retractar-se em 1633 da sua posição de que a terra se movia em torno do sol…”

Na realidade, não está provado que Galileu tenha dito tal frase (naturalmente, não se pode provar que a não tenha dito). Os documentos da altura sobre o processo, abundantes, não a referem. A frase surgiu pela primeira vez na “Italian Livrary”, publicada em Londres em 1757, volvidos mais de cem anos sobre a condenação da Inquisição.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

15 de Setembro de 1765. Nasce Bocage

O poeta Manuel Maria de Barbosa du Bocage nasceu no dia 15 de Setembro de 1765, em Setúbal, e morreu no dia 21 de Dezembro de 1805, em Lisboa. Andou pelo Rio de Janeiro e pela Índia, foi preso pela Inquisição, foi convidado para a Nova Arcádia, tendo adoptado o pseudónimo Elmano Sadino. Deixou-nos sonetos, odes, elegias e outras composições poéticas. As suas sátiras irritaram muita gente. Viveu os últimos anos em Lisboa sob a protecção de um frade brasileiro, Frei José Mariano da Conceição Veloso. Recordo o poeta sadino (hoje é feriado em Setúbal) com um soneto, o mais autobiográfico, e um dos seus epigramas satíricos.

Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno:

Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura;
Bebendo em níveas mãos por taça escura
De zelos infernais letal veneno:

Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) num só momento
E somente no altar amando os frades:

Eis Bocage, em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades
Num dia em que se achou mais pachorrento.



Rechonchudo franciscano
Desenrolava um sermão;
E defronte por acaso
Lhe ficara um beberrão.

Tratava dos bens celestes,
Proferindo: "Ouvintes meus,
Que ditas, que imensa glória
Para os justos guarda um Deus!

Falsos, momentâneos gostos
Há neste mundo mesquinho:
Mas no Céu há bens sem conto...
Pergunta o bêbado: - "E vinho?"

domingo, 5 de setembro de 2010

Comer sem ofender a Deus

Alheira grelhada

Ao almoço, a mãe italiana diz ao filho:
- Se não comeres a sopa toda, eu mato-te.

A mãe judaica diz:
- Se não comeres a sopa toda, eu mato-me.

A anedota é contada por Elena Loewenthal, num artigo do “La Stampa” (03-09-2010) sobre o livro de Giuliana Ascoli Vitali-Norsa, “La cucina nella tradizione ebraica” [“A cozinha na tradição hebraica”] (Ed. La Giuntina, 416 páginas). Lido aqui.

Como se sabe, a Bíblia está cheia de regras alimentares, o que levou os judeus (os cristãos aboliram-nas) a usar toda a criatividade na cozinha de modo a não faltarem ao texto bíblico. “(…) Foram justamente os vínculos que atraíram a fantasia e despertaram o talento da dona de casa que, destrincando-se nessa selva de proibições, soube criar nos quatro cantos do mundo não uma, mas milhares e diversas cozinhas judaicas, ricas de sabores e de perfumes”, diz Elena Loewenthal.

“A comida hebraica é, de fato, tão delimitada pelas proibições quanto capaz de se difundir na geografia física e humana: em todos os lugares em que chegou, a diáspora de Israel absorveu usos, sabores e ingredientes. Os judeus da Europa Central, exterminados pelo nazismo, alimentavam-se com bortsch [sopa de beterraba] e guisados, gengibre e a inevitável gelatina de pé de vitelo com ricas doses de alho”.

Em Portugal é inevitável pensar nas alheiras, aqueles enchidos feitos de carne de galinha (ou de outras aves), mas com temperos tão apurados que se assemelham aos enchidos de porco – o que era óptimo para enganar a Inquisição no teste da prova de carne de porco.

domingo, 22 de agosto de 2010

22 de Agosto de 1241. Morre o Papa que não gostava de gatos

Gregório IX (Ugolino di Conti) foi papa de 19 de Março de 1227 até 22 de Agosto de 1241. Gregório IX continuou a política de centralização e supremacia papal em relação aos principais reinos europeus, às heresias (criando a inquisição papal – já existia uma versão da inquisição no sul de França para combater os cátaros) e aos judeus (decretando a doutrina da submissão dos judeus).

Canonizou Domingos de Gusmão, fundador dos dominicanos, António de Lisboa e Francisco de Assis, fundador dos franciscanos, tendo sido amigo pelo menos destes dois últimos.

Numa carta de 1232, “Vox in Rama”, Gregório IX escreveu que os gatos são instrumento do mal, símbolo de heresia, o que, além de ser mau para os gatos, foi péssimo para os humanos. Os ratos que espalharam as pulgas com bactérias da peste negra encontraram as populações europeias pouco apetrechadas de gatos.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

14 de Junho de 1966. É abolido o Index

Edição portuguesa de 1597

No dia 14 de Junho de 1966, o Papa Paulo VI assinou a extinção do Index Librorum Prohibitorum (Índice ou Lista dos Livros Proibidos). No dia seguinte, a Notificação ("Notificatio de Indicis librorum prohibitorum conditione") foi publicada no “Osservatore Romano”.

O Index foi criado em 1559, durante o Concílio de Trento, para listar os títulos das obras que ninguém devia ler. No início tinha em vista, principalmente, combater o protestantismo.

A última edição do Index, a 32.ª, em 1948, continha quatro mil títulos.

Alguns romancistas que em algum momento tiveram obras no Index: Daniel Defoe, Victor Hugo (“Os Miseráveis” e “Nossa Senhora de Paris”!), Honore de Balzac, Alexandre Dumas Pai, Gustave Flaubert, Gabriele D'Annunzio, Nikos Kazantzakis.

Alguns ensaístas e pensadores com obras no Index: Hobbes, Descartes, Montaigne, Espinosa, John Milton, John Locke, David Hume, Jean-Jacques Rousseau, Edward Gibbon, Blaise Pascal, Kant, John Stuart Mill, Ernest Renan, Henri Bergson.

Primeira edição do Índex aqui.

Autores e obras da última edição aqui.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Em louvor da Inquisição

Matthias Heine, protestante, escreve no “Die Welt” de 03 de Março de 2010 que a Igreja Católica precisa de uma nova Inquisição para lidar com os clérigos pedófilos, uma Inquisição que recupere o nome da antiga e excomungue os violadores de crianças.

aqui havia referido o texto. Veio na edição de Maio do "Courrier internacional". Está escrito com algum humor, mas não com ironia, e faz o que nunca um católico poderia fazer: uma defesa da Inquisição antiga, ainda que se refira à medieval, a que tinha como finalidade extirpar a heresia que surgia no interior do cristianismo, anterior à espanhola e portuguesa. Imaginemos um católico a dizer o mesmo…

O autor do texto, crítico de teatro no “Die Welt”, para lá da questão do assunto principal da pedofilia, adianta uma idiossincrasia do protestantismo logo a abrir o texto: “Se há coisa que os protestantes conservadores secretamente admiram na Igreja Católica é o rigor e a determinação com que ataca os seus inimigos. Na cultura protestante do diálogo, sonhamos às vezes com uma autoridade que dê um murro em cima da mesa e diga num tom categórico: «És um herege, vade retro!»” Uns parágrafos à frente, escreve que os próprios protestantes esperam que a limpeza de faça na Igreja católica, “já que a maioria neopagã e ateia considera todas as religiões responsáveis pelo que se passa entre os católicos. Há mesmo quem abandone o protestantismo «por causa do Papa»”.

Sobre a Inquisição, lembra três aspectos inovadores. Faz um elogio da Inquisição, algo que está nos antípodas da mentalidade comum (ia a escrever “mentalidade anticatólica”, mas mesmo entre os católicos existem tais convicções – por isso mesmo é que o católico não se aventura a defender a Inquisição, exceptuando num ou noutro aspecto histórico). São estes, não por esta ordem:

1) A Inquisição surgiu para controlar excessos da justiça popular. Heine aponta que em 1143, em Colónia, um grupo de hereges foi mandado para a fogueira pela populaça, contra a vontade do bispo.

2) A Inquisição abria inquéritos mesmo quando não havia queixa formada, desde que houvesse suspeitas. Tal situação, diz o crítico, era um procedimento ultramoderno que mais tarde os sistemas judiciais adoptaram.

3) A Inquisição iniciou o arquivo de dados. “O procedimento actual, que obriga o juiz de instrução e as autoridades policiais a interrogar testemunhas, a comparar depoimentos e a classificar testemunhos para consulta posterior, é uma invenção do Santo Ofício”.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

4 de Junho de 1798. Morre Casanova, o informador da Inquisição

De Giacomo Casanova (Veneza, 2 de Abril de 1725 – Dux, República Checa, 4 de Junho 1798) sobressai a vida de aventureiro e sedutor. No final da vida escreveu nos 28 volumes de memórias que tinha seduzido cento e tal mulheres e alguns homens (não é assim tanto para os padrões actuais; um conhecido cantor rock, recém-entrado na reforma, na terra de Sua Majestade, diz ter dormido com mais de duas mil, suponho que não com homens).

Mas o curioso é que Casanova chegou a iniciar carreira militar e eclesiástica. E mais curioso, ainda, é que trabalhou como informador da mesma Inquisição que por vezes o perseguiu. Escreveu cerca de 50 relatórios em que acusa nobres e banqueiros de adultério, vida devassa, posse de livros proibidos.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...