Mostrar mensagens com a etiqueta Hegel. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Hegel. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Kierkegaard: "O presente escritor não compreendeu o Sistema"

Kierkegaard escreveu isto em "Temor e Tremor" e à custa dele já dei umas boas gargalhadas hoje. Não, o "Sistema" não é o sistema de que tanto se fala no meio futebolístico, nem a frase se refere ao Facebook. "Sistema" era a filosofia de Hegel.

O presente escritor não compreendeu o Sistema, não sabe se ele existe realmente nem se está terminado; a sua débil cabeça já está bastante sobrecarregada por pensar como, nos nossos dias, toda a gente tem uma tão prodigiosa cabeça, uma vez que toda a gente tem tão prodigiosos pensamentos.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Horas canónicas seculares

Altar das notícias. Inclui auréola

Hegel disse um dia que a leitura do jornal é uma espécie de oração da manhã (aqui). De Botton, no dia para dia mais proveitoso “Religião para ateus”, diz que, na esfera secular, esta entidade [ou seja, as “notícias”] ocupa a mesma posição de autoridade que o calendário litúrgico na esfera religiosa, com os seus principais avisos a assinalar as horas canónicas com uma precisão inquietante: as matinas foram aqui transubstanciadas no boletim informativo do pequeno-almoço e as vésperas no noticiário da noite”.

De certa forma, De Botton é menos secular do Hegel.

sábado, 18 de junho de 2011

Anselmo Borges: O reconhecimento e as suas esferas



Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (aqui):


Há antigos alunos que me convidam para ir às escolas fazer palestras sobre temas relacionados com a Filosofia. Os ouvintes são alunos dos 10.º, 11.º e 12.º anos e também outros professores. Procuro corresponder.


A última vez o tema era "A filosofia e o sentido da existência". E lá fui falando sobre o universo e o seu processo - a realidade é processual -, o salto da animalidade para a humanidade, a neotenia, os diferentes tipos de acesso à realidade, que é complexa, o sofrimento e o mal, o sentido e os sentidos enquanto caminhos, a questão do sentido último... No fim, antes das perguntas e comentários deles e delas, fui perguntando a este e àquele, a esta e àquela, o que tinha ficado. E todos foram dizendo que o mais interessante era aquilo do reconhecimento. Isso eles não iriam esquecer.


Uma surpresa, que não devia sê-lo. De facto, de que precisamos senão de reconhecimento, de valer para alguém, de alguém que nos dê valor, que justifique a nossa existência? É que, ao contrário de uma árvore ou de uma estrela, não nos basta existir; precisamos de existir para alguém, que nos devolva a nós mesmos na nossa dignidade e valor.


Não está a Europa dividida em Europa católica e Europa protestante, precisamente por causa do reconhecimento, em termos teológicos tradicionais, por causa da doutrina da justificação? Essa era a questão existencial de Lutero: quem me reconhece definitivamente, o que vale a minha vida, quem justifica incondicionalmente a minha existência,? E ele leu em São Paulo, na Carta aos Romanos: o homem é justificado pela fé. Quem acredita no Deus de Jesus tem a vida eterna.


E lá está Hegel e a famosa dialéctica do senhor e do escravo, na Fenomenologia do Espírito, que é disso que trata: da luta pelo reconhecimento. Quem vale o quê e para quem? Foi aí que Karl Marx foi beber, mas exigindo que se fosse à base socioeconómica da alienação e da reconciliação-reconhecimento.


E agora é Axel Honneth, director do Instituto de Investigação Social da Universidade Goethe, em Frankfurt, onde sucedeu a Jürgen Habermas, que mostra como sofrimentos e problemas sociais adquirem sentido e compreensão a partir do reconhecimento pelos outros. Já em 1992, com Luta pelo Reconhecimento, trouxe para o debate da filosofia social a importância do olhar aprovador ou reprovador dos outros: a existência dos indivíduos e dos grupos não se esgota na troca de bens e serviços, pois vive também das "expectativas de reconhecimento" dos outros. Daí, as lutas pela igualdade dos sexos, respeito pelas minorias sexuais, religiosas, culturais. A falta de reconhecimento acarreta humilhação e conflitos.


Catherine Halpern sintetizou os seus três princípios de reconhecimento. A imagem que cada um de nós tem de si mesmo, das suas capacidades e qualidades depende da imagem que julgamos que os outros têm de nós, isto é, do seu olhar. Honneth distingue três princípios de reconhecimento, correspondentes a três esferas sociais.


Na esfera da intimidade, há o princípio do amor, no sentido abrangente de todas as relações afectivas fortes nos domínios das relações amorosas, familiares, de amizade. Já Aristóteles observou que a vida sem amigos não valeria a pena. E Honneth sublinha a importância da relação da mãe com o bebé na construção da autoconfiança, da identidade e da autonomia. Não é na experiência do amor que radica a confiança em si próprio?


Na esfera da colectividade, o princípio da solidariedade. Para aceder ao sentimento de estima de si, cada um, concretamente no trabalho, deve poder sentir-se considerado útil à colectividade. Na situação de desemprego crescente, é inevitável a frustração e o aumento da conflitualidade. Porque a finalidade do trabalho não é apenas procurar meios de sustento para as necessidades materiais, mas provar que se é útil, contribuindo para o bem comum.


Na esfera das relações jurídicas, está o princípio da igualdade. Sendo vítima da discriminação, da marginalização, do não reconhecimento de igualdade de direitos, como se pode desenvolver o sentimento de respeito por si mesmo?

sábado, 18 de dezembro de 2010

Anselmo Borges: Religião, felicidade e infelicidade

Texto de Anselmo Borges no DN de 18 de Dezembro de 2010 (aqui).

Realizou-se nos dias 9 e 10 de Outubro passado, no Seminário da Boa Nova, Valadares, um Colóquio internacional, subordinado ao tema "Religião e (In)felicidade", com 220 participantes, e conferencistas vindos das Neurociências, da Sociologia, da Filosofia, da Teologia.


Aquele "in" de (In)felicidade indicava, à partida, o reconhecimento de que as religiões foram e são simultaneamente causa de felicidade e infelicidade.


Pela sua própria definição, a religião está referida à salvação: felicidade, sentido último, o sentido de todos os sentidos...


Grandes filósofos, como Kant, Hegel, Bloch, Habermas, reconheceram que foi pelo cristianismo que soubemos da dignidade da pessoa humana. Em tempos terríveis de miséria material e humana, foi a religião que ajudou homens e mulheres a erguerem-se um pouco acima da animalidade e do quotidiano embrutecedor.


Quando não havia médicos nem analgésicos, foi a oração e a cruz de Cristo que deram sentido e algum alívio a todo aquele mundo de horror. E as pessoas sabiam que tinham uma missão na vida, e Deus acolhia-as na morte. Não é calculável o que as religiões fizeram e fazem pela cultura, pelo combate pela justiça e dignidade, no exercício da compaixão e do amor. Quem não reconhece o que a Igreja faz na presente crise pelos mais pobres?


Mas a corrupção do óptimo é péssima, e lá está a perversão da religião/religiões e as suas patologias. Como não pensar no terrorismo, na guerra e na tentativa de legitimar a violência com a religião?


Há três impulsos com que o Homem tem de aprender a viver: o ter, prazer, o poder. Saber viver com eles - nisso consiste a arte de viver.


O mais difícil é o poder, porque ele é o maior afrodisíaco. Por isso, de modo geral, Deus é pensado como omnipotência. Significativamente, na revelação cristã, Deus não se apresenta imediatamente como omnipotente, mas como Força infinita de criação e de amor. O Evangelho diz: "Sabeis que, nas nações, os poderosos mandam e dominam; entre vós, não será assim: quem quiser ser o primeiro deve ser o último." "Eu não vim para ser servido, mas para servir", disse Jesus.


Assim, quando a Igreja se identificou como instituição de poder, começou o afastamento do Evangelho. Até Constantino e Teodósio, os pagãos diziam, referindo-se aos cristãos: "Vede como eles se amam." Depois, surgiu o poder sacro, à maneira do poder imperial, e tudo se modificou. Não é possível a uma pessoa que conheça minimamente o Evangelho e a História deixar de fazer perguntas como esta: como é que o Evangelho de- sembocou num Papa chefe de Estado, com uma Cúria imperial, e bispos a viver em palácios?


Quando se toma o poder sacro em nome de Deus, os perigos são imensos e terríveis. Até surge a tentação de "administrar" Deus. Então, quem não está com os "administradores" de Deus é herético e condenado. Lá está o perigo do fanatismo: somos a única religião verdadeira e todas as outras devem ser combatidas. Lá está o impedimento da liberdade de pensar e a censura. O pior é a imagem de um deus mesquinho, cruel, violento, causa de ateísmo e de infelicidade.


Esses "administradores" da religião e do próprio Deus arrogam-se também o direito de administrar a moral e são eles então quem determina o que é bem e mal, o que se deve fazer e não fazer. E lá está o controlo do prazer pelo poder, porque o prazer subverte o poder. Lá está então uma sexualidade envenenada, a proibição dos contraceptivos, o celibato eclesiástico obrigatório e a sua grandeza e miséria. Lá está a pedofilia dos clérigos, ocultada para tentar preservar a instituição-poder.


E ainda: quem detém o poder deverá, no quadro desta lógica, ter também mais teres e privilégios.


A questão da religião é mesmo a religião (o conjunto de atitudes e organizações na relação com Deus): o que a religião fez e faz de Deus e como usou e usa o seu nome na sua relação com os humanos e destes com Deus. Para a felicidade, é preciso voltar ao Evangelho.

domingo, 14 de novembro de 2010

14 de Novembro de 1831. Morre Hegel

Hegel morreu no dia 14 de Novembro de 1831, em Berlim. Foi o filósofo mais influente na contemporaneidade, pelo menos na filosofia continental. Idealismo, racionalismo, dialéctica, filosofia da história, política, Estado, até o existencialismo… tudo remete para Hegel.

Mas no início era a Teologia. Hegel estudou-a em Tubinga. E um dos seus primeiros escritos foi uma “Vida de Jesus”, em que descreve um Jesus orientado pelo imperativo categórico de Kant. Curiosamente, uma das suas obras póstuma versa sensivelmente o mesmo tema. Em “A religião cristã: Lições sobre Filosofia da Religião. Parte 3”, o filósofo alemão fala de Jesus como encarnação de Deus e aceita sua morte e ressurreição. Tão longe de “Deus como processo”.

Foi Hegel que disse (e procuro cumprir):

"A leitura do jornal, de manhã ao levantar, é uma espécie de oração da manhã realista. Orienta-se para Deus ou para aquilo que é o mundo, a sua atitude a respeito do mundo. Isso dá a mesma segurança que aqui, desde que se saiba onde se está".

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Fantasma infinito


Esta época fez de Deus um fantasma infinito, flutuando longe da nossa consciência, e andou fazendo do conhecimento humano uma sombra inconsciente, fantasmas de finitude, imaginações de fenómenos.

Hegel (1770-1831)

quarta-feira, 28 de julho de 2010

28 de Julho de 1804. Nasce Feuerbach

Feuerbach nasceu no dia 28 de Julho de 1804, em Landshut, e morreu no dia 13 de Setembro em 1872, em Nuremberga. Estudou Teologia, mas abandonou-a para se tornar aluno de Hegel, vindo a influênciar Karl Marx.

A filosofia/teologia/antropologia de Feuerbach situa-se entre o idealismo alemão e o materialismo histórico.

“A Essência do Cristianismo”, de 1841, é a sua obra maior. Nela afirma que as características atribuídas a um ser sobrenatural não são mais do que representações humanas naturais. “Os predicados divinos são qualidades da essência humana”. Deus é um projecção do ser humano melhorado, porque o ser humano homem projecta no ser celestial o ideal de justiça, bondade e virtude que não consegue realizar no plano concreto real.

A crítica, segundo Feuerbach, é válida para todas as religiões. “Na religião, o homem ao relacionar-se com Deus, relaciona-se com a sua própria essência”.

A Teologia é explicada pela Antropologia. E religião rima com alienação, porque o ser humano, ao colocar a sua essência fora de si próprio, transforma-se em algo que que não lhe pertence.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Hegel e os jornais

"A leitura do jornal, de manhã ao levantar, é uma espécie de oração da manhã realista. Orienta-se para Deus ou para aquilo que é o mundo, a sua atitude a respeito do mundo. Isso dá a mesma segurança que aqui, desde que se saiba onde se está".

Friedrich Hegel (1770-1831)

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Clássicos 10: “Curso fundamental sobre la fe”, de Karl Rahner

(Primeiro parágrafo:) "Este livro propõe-se dar uma introdução ao conceito de cristianismo. Portanto, em primeiro lugar, trata-se somente de uma introdução e nada mais. Evidentemente, tal empresa está muito mais próxima de uma decisão pessoal pela fé do que outras publicações científicas ou teológicas ou que certos cursos académicos. Contudo, deve tratar-se aqui de uma introdução no contexto de uma reflexão intelectual, e não directa e imediatamente de um escrito edificante, embora seja claro que a relação de uma teologia do espírito e do entendimento com uma teologia do coração, da decisão e da vida religiosa represente de novo um problema muito difícil. Pretendemos, em segundo lugar, uma introdução ao conceito de cristianismo. Para isso, pressupomos à partida, a existência deste nosso cristianismo pessoal e próprio, na sua forma normal eclesiástica, e tentamos, em terceiro lugar, reduzi-lo ao conceito. Esta palavra “conceito” foi acrescentada para que fique claro que, falando com Hegel, se trata de um “esforço do conceito”. Por isso, quem de antemão procura somente estímulos religiosos e receia este esforço da reflexão paciente, fatigante e monótona, deveria prescindir desta investigação".

Curso fundamental sobre la fe | Título original: Grundkurs des Glaubens | Karl Rahner | Herder, 536 páginas | Barcelona, 1989

Karl Rahner (1904-1984), jesuíta alemão, talvez o mais importante teólogo católico do séc. XX, sintetizou na teologia o tomismo e o existencialismo, Kant e Husserl, J. Maréchal e M. Heidegger. Uma grande “reflexão paciente, fatigante e monótona” foi, afinal, o que Rahner fez ao longo da maior parte da vida. Mas falta acrescentar um adjectivo à caracterização da reflexão: “fecunda”.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...