Perguntaram a Jesus, como porta-vozes de um outro inquiridor:
«És Tu Aquele que há-de vir ou devemos esperar outro?»
E Jesus, como sempre, não dá uma resposta direta. Poderia simplesmente dizer:
- Sim, sou eu.
Ou
- Não, não sou eu.
E neste segundo caso a história teria terminado por aqui. Ou nem teria chegado a este ponto, se não fosse ele o esperado.
Jesus não diz que é Ele. Jesus habitualmente não tem medo de falar na primeira pessoa (Eu sou isto, Eu sou aquilo...), mas neste caso parece um jogador de futebol a falar de si mesmo na terceira pessoa. Manda contar a João, o tal inquiridor na base do pedido, o que viram e ouviram, curas e ações que pressupomos que foram protagonizadas por Jesus.
«Ide contar a João o que vedes e ouvis:
os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são curados,
os surdos ouvem, os mortos ressuscitam
e a boa nova é anunciada aos pobres.
Há aqui duas coisas (há sempre muitas, mas eu só capto duas). É que a fé vem e vai sempre pelo ouvido e pelo testemunho. É preciso que vejam, ouçam e contem. Até João, o maior, precisa que lhe anunciem.
E, por outro lado, quem precisa de se convencer são os mensageiros. Se eles não verem e ouvirem, se não acreditarem nisso, não é Ele que devem esperar. Será outro. Se tiverem outra explicação, tipo: eles andam porque não estavam bem coxos; parecia que tinham lepra, mas era só pó da estrada; ou não estavam mortos, só atordoados... então ainda não é este o esperado. Virá outro.
Infelizmente, na maior parte das vezes, estou na fase em que arranjo uma explicação para o sinal do reino (notícia dos últimos dias: há um milagre atribuído a Paulo VI; reação minha: oh, não, também tu, Papa Paulo VI? Esperava que me poupasses a ter de gramar com o milagre...), o que me traz dissabores no encontro com o Mestre. Por isso, acho que é para mim que Ele diz:
E bem-aventurado aquele que não encontrar em Mim
motivo de escândalo».
É que eu encontro em ti (mudei de registo, de falar dele para falar com ele) motivo de escândalo. Motivos de não escândalo seria dizeres:
«Ide contar a João o que vedes e ouvis:
os cegos não vêem, os coxos não andam, os leprosos não são curados,
os surdos não ouvem, os mortos não ressuscitam.
E assim as coisas já seriam mais viáveis hoje. O problema são os pobres. Se eu continuar a manipular a tua palavra, dá:
...e a boa nova não é anunciada aos pobres.
Mas este milagre - sinal do reino - já pode acontecer hoje. A boa nova pode ser anunciada aos pobres (Olá, Papa Francisco). Não podemos fazer os primeiros cinco milagres, mas podemos cooperar no sexto. Estragaste-me o meu ceticismo milagreiro. Mas consigo arranjar nova desculpa: deverias era ter esclarecido quanto vale um pobre, qual o limiar abaixo do qual se é pobre. Meio denário por dia? Um quarto de denário?
Deixaste-nos uma porta aberta. Podemos continuar a discutir o que é "pobre", evitando lidar com eles. E isso nós sabemos fazer bem.
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domingo, 15 de dezembro de 2013
domingo, 8 de julho de 2012
Bento Domingues: Deus, quantas línguas fala?
Texto de Bento Domingues no "Público" de hoje. Sobre Deus. Sobre o silêncio. "O silêncio gera ideias que dão muito trabalho".
domingo, 25 de dezembro de 2011
Materialidade de Deus
O Papa disse ontem à noite, na Missa do Galo, que “devemos depor as nossas
falsas certezas, a nossa soberba intelectual, que nos impede de perceber a
proximidade de Deus”, “o Deus que se esconde na humildade dum menino acabado de
nascer”. E concluiu: “Celebremos assim a liturgia desta Noite santa,
renunciando a fixarmo-nos no que é material, mensurável e palpável” (ler aqui).
Compreende-se o que o Papa quer dizer, até porque a sua
homilia tinha começado com uma referência ao Natal enquanto “uma festa dos
negócios”. Mas eu diria que celebrando o Natal a “proximidade de Deus”, devíamos
precisamente realçar a materialidade, mensurabilidade e palpabilidade de Deus.
Bem sei que estas palavras podem arrepiar quando aplicadas a Deus. Mas a Encarnação o que é senão Deus tornado “material, mensurável e palpável”?
quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
Darwinismo, morte e a questão da verdade
O sítio belief.net perguntou a Richard Dawkins, o “Senhor Paradoxal”,
sobre o desespero que as implicações do darwinismo suscitam em alguns. Dawkins
respondeu:
Se é verdade que isso faz com que as pessoas se sintam desesperadas, paciência. O universo não nos deve condolências nem consolação; não nos deve uma agradável sensação íntima de bem-estar. Se é verdade, é verdade, e o melhor é aprendermos a viver com isso. Morre e desaparece, é mesmo assim.
Lido na página 107 de “Nada a temer”, de Julian Barnes (ed. Quetzal).
Com Deus ou sem Deus, se é verdade, é verdade. Devíamos todos estar mais
desejos de enfrentar a verdade do que nos sentirmos bem sem preocupações com a
verdade. Porém, há um problema de sempre é: o que é a verdade? Como saber o que é, quem é,
que é?
sexta-feira, 25 de novembro de 2011
Um ano sem homilias
O cardeal Ravasi, presidente do Pontifício Conselho para a Cultura, biblista reconhecido e inventor do Pátio dos Gentios, fez há dias (3 de Novembro) umas afirmações que têm tido grandes ecos em alguns meios eclesiais e blogues. Vejamos o que ele disse. Excertos.
A palavra está sofrendo. Também para a comunidade eclesiástica, a Igreja e sua comunicação. A palavra é traída e humilhada.
Com frequência, os sermões são tão incolores, insípidos, inodoros, que são irrelevantes.
E necessário recuperar a palavra que ‘ofende’, fere, inquieta, julga.
Palavra saudável, autêntica, que deixa marcas.
(Citando Voltaire e a Montesquieu) A eloquência sacra é como a espada de Carlos Magno, longa e plana: aquilo que não pode dar em profundidade, o dá em comprimento.
O sacerdote não deve aceitar que a palavra seja humilhada. Está claro que a capacidade de falar é, em parte, dom natural, mas também existe a formação, o aspecto pedagógico, os instrumentos técnicos com os quais se dotar. E isto é algo que hoje falta nos seminários.
E agora os ecos e reacções.
Marco Tosatti, no “Vatican Insider”, fez três sugestões ao Papa:
A primeira ideia é um tanto radical. Proclamar um período (você pode decidir sua duração) de jejum de homilias. Isto é: estabelecer que, durante um ano nas igrejas (com exceção, obviamente, do Papa e dos bispos) não se façam homilias. Não me peça explicações nem razões. Não desejo ofender os sentimentos (bons) de ninguém. Peça explicações, caso desejar, a Giulio Andreotti, que – se não me falha a memória – procura(va) ir nas missas matutinas, exatamente para não ouvir homilias. Eu creio que, se a homilia fosse substituída por um breve momento de recolhimento e de meditação das palavras ouvidas nas Leituras, poderia ser benéfico para todos.
Segunda sugestão. Isto, obviamente, com um tom de brincadeira. Obrigar os sacerdotes a fazerem um curso de jornalismo e, em particular, de jornalismo de agência ou televisivo. Mais de uma vez nos disseram, durante a nossa presença já de longa data em redações, que em 50 linhas se pode descrever a história de uma vida. É possível que seja impossível escrever, no mesmo espaço, uma reflexão sobre o Evangelho do dia?
Terceira possibilidade (também tem um tom de brincadeira, mas...): solicitar à Congregação correspondente a redação de um documento em que estabeleça taxativamente que o tempo dedicado à homilia não deve ultrapassar os cinco minutos. Um santo, ou um padre da Igreja, disse certa vez: “nos primeiros cinco minutos fala Deus, nos outros cinco fala o homem, nos restantes mais de cinco minutos fala o diabo”. Tendo a acreditar que, na realidade, depois dos primeiros cinco minutos em muitos púlpitos continua falando o homem; e, lamentavelmente, nem todos estão à Sua altura, ao escrever e pronunciar os discursos. E a experiência nos torna palpável – sem culpa de ninguém, os sacerdotes estão animados pelos melhores sentimentos, e estão cheios de santo entusiasmo – que uma homilia que se alonga, se perde, divaga, toca muitos pontos diversos, o que, muitas vezes, não ajuda a manter a concentração e a tensão espiritual criadas pelas Leituras. Pelo contrário. Naturalmente, estariam isentos o Papa, os cardeais, os patriarcas e os arcebispos metropolitanos. Sobre os bispos e os abades, pode-se discutir...
Ivan Rioufol, do “Le Figaro”, escreveu no seu blogue:
Essa admissão de conformismo eclesiástico é, obviamente, muito tardia com relação aos avanços da descristianização e do cansaço de inúmeros católicos (dos quais faço parte) frente a um clero pusilânime e politicamente correto.
O padre Christophe Delaigue, da diocese de Grenoble, defendeu-se:
Você [Ravasi] me critica, ok, mas o que você tem tentado fazer concretamente? Com o que você poderia contribuir hoje, em sua posição, assim como eu tento contribuir com a minha fé, a minha juventude e as minhas ideias, às vezes balbuciando, é verdade, mas com tudo o que eu sou?
David Lerouge, da diocese de Coutances,
escreveu:
Se eu fizesse comunicação, eu pegaria um microfone HF, me colocaria no meio do presbitério e falaria ao coração, a você, sim, a você na segunda fila, que quer ser convertido por Deus, eu estaria inflamado, eu seria cômico, eu seria delicado, eu seria... odiado no fim de três números desse tipo.
Porque a missa não é um número de magia, é o espaço do encontro com Cristo. A homilia pode lhe levar a esse encontro, mas não sozinha.Tudo isto foi retirado dos seguintes textos:
Proponho um ano sem homilias
A pregação na era digital
domingo, 13 de novembro de 2011
Enterros inúteis
Há tempos, na papelaria onde habitualmente compro o jornal,
deixei cair uma moeda. E apanhei-a de imediato. O dono (mudou; agora é dona)
olhou para mim com cara de espanto, como se esperasse um comentário meu. Eu lá
tive de deixar o habitual:
- Ele não nasce.
O sr. tinha a resposta gatilhada e disse logo:
- Você não lhe dá tempo.
Saí da papelaria a pensar: “Cá está uma resposta boa…” Mas
hoje vejo que a resposta não só não é boa como tem a inutilidade provada. Na parábola dos talentos, por alguns dita "capitalista", hoje proclamada nas missas, aquele a quem foi dado um
único talento enterrou-o. E ele, de facto, não nasceu. Não é mesmo uma questão de
tempo.
domingo, 30 de outubro de 2011
“Toma cuidado e não vivas mal enquanto falas bem”
Alguém que ouvira o versículo «Oferece a Deus um sacrifício
de louvor» (Sl 49,14) pensou: «Todos os dias, ao acordar, irei à igreja e aí
entoarei um hino da manhã; ao final do dia, um hino da noite; e depois, em
minha casa, um terceiro e um quarto hinos. Deste modo, farei todos os dias um
sacrifício de louvor que oferecerei ao meu Deus». Fazer isto é bom, se
realmente o fizeres, mas livra-te de ficares tranquilo com o que fazes e vê
que, enquanto a tua língua fala bem perante Deus, a tua vida não fale mal à Sua
frente. [...] Toma cuidado e não vivas mal enquanto falas bem.
Porquê? Porque Deus disse ao pecador: «Que tens tu de
recitar os Meus mandamentos, com a Minha aliança na boca [tu que rejeitas as
Minhas palavras por trás]?» (v. 16-17) Eis o temor com que devemos falar. [...]
Vós, meus irmãos, estais em segurança: se ouvirdes dizer coisas boas, é Deus
que ouvis, qualquer que seja a boca que fala convosco. Mas Deus não quis deixar
de repreender aqueles que falam, com receio de que adormeçam em segurança numa
vida de desordem, afirmando que falam do bem e pensando: «Deus não quererá
condenar-nos, pois foi através de nós que quis dizer coisas tão boas ao Seu
povo». Portanto, vós que falais, quem quer que sejais, escutai o que dizeis;
vós que quereis ser ouvidos, ouvi-vos em primeiro lugar. [...] Possa eu ser o
primeiro a ouvir, possa eu ouvir, e ouvir melhor do que todos, «aquilo que o
Senhor Deus diz em mim, pois Ele diz palavras de paz ao Seu povo» (Sl 84,9).
Agostinho (354-430), Bispo de Hipona
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
Curso para padre nas Novas Oportunidades.
Livro no blogue duas ou três coisas (obrigado, FCO):
Missa. Não sendo embora a minha especialidade, sei
distinguir uma boa de uma má homilia. E aquela havia sido desastrosa e muito
desinspirada, indigna do falecido. O sacerdote "embrulhou-se" e não
conseguia acabar com jeito. Comentei com um velho amigo, a meu lado. Resposta
dele: "Também achei. Este deve ter tirado o curso para padre nas Novas
Oportunidades".
terça-feira, 4 de outubro de 2011
Para quem conhece apenas o possível
Para quem conhece apenas o possível, nenhuma
doce persuasão, que vem do Espírito, é possível. A persuasão é um fruto do
jardim do impossível e do inútil. Só o Espírito despertará o espírito,
levando-nos da demissão à responsabilidade e à missão. De resto, de que serve
uma religião se não for isto: resposta e responsabilidade?
José Augusto Mourão, na pág. 123 de "Quem vigia o vento não semeia", ed. Pedra Angular
José Augusto Mourão, na pág. 123 de "Quem vigia o vento não semeia", ed. Pedra Angular
segunda-feira, 15 de agosto de 2011
João César das Neves: Perder a vida
Homilia de João César das Neves no DN de hoje (aqui). Eu gosto de ler o que o autor escreve, seja sobre economia, seja sobre religião, apesar de, por vezes, o professor de economia estar no extremo oposto do espectro do catolicismo em relação a Bento Domingues ou Anselmo Borges, dois cá muito deste blogue.
Quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la; mas quem perder sua vida por minha causa, há-de encontrá-la" (Mt 16, 25; Mc 8, 35; Lc 9, 24; cf. Jo 12, 25). Esta frase marca a história.
A primeira parte repugna a todas as fibras do nosso ser; apesar disso, é manifesta a cada passo. Todos nos esforçamos por ganhar a nossa vida, no amor, profissão, arte, ciência ou prazer. E todos constatamos a cada momento a incapacidade de o fazer. Mantemos o mito de que um dia seja possível, apesar da evidência permanente da vacuidade. Isto é ainda mais patente naqueles que parecem ter salvo a sua vida. Milionários, campeões, governantes, estrelas de cinema, profissionais bem sucedidos são considerados por todos como tendo atingido a felicidade. São eles quem mais sofre a dupla maldição do sucesso.
Ter êxito na vida traz dois problemas graves. Primeiro, o sucesso é caro, raro e nunca perfeito. São muitos os que se esforçam e poucos os que conseguem o que pretendem; e mesmo esses nunca o realizam totalmente. Vemos aquilo que obtiveram, não o que perderam e o que queriam sem conseguir. Os ricos são sempre insatisfeitos.
A segunda maldição é pior. Os que chegam exactamente onde sonharam, enfrentam então a desilusão do sonho. Porque aquilo que brilha tanto à distância rapidamente fenece ao perto. Ao sucesso segue-se sempre o tédio, que alguns iludem na ânsia viciante de novas campanhas. Esses vivem numa ilusão de vitórias até à morte. Quem quiser ganhar a vida, perde-a mesmo.
Como se pode viver sabendo isto? Salvar a vida é a questão central de toda a existência, aquilo que preside a cada passo do nosso quotidiano. Todos queremos sempre ganhar a vida. Os outros animais têm o instinto da auto-preservação; o ser humano, além disso, sente uma ânsia de mais e melhor. Busca incessantemente algo que o ultrapassa. Constatar o falhanço dessa tensão vital não a nega. Além de sobreviver, nós procuramos um desígnio, um propósito, uma finalidade.
Nesta questão decisiva existem apenas duas alternativas razoáveis. Ou a realidade não tem sentido, como dizem o budismo e as filosofias pessimistas, ou então Aquele que fez as coisas também lhes deu um propósito. Criou-as com um desígnio. Se esta segunda hipótese, a única aberta e positiva, é verdadeira, então procurar a sentido da realidade e entregar-nos a ele tem de ser a única forma real de ganhar a vida.
Todas as filosofias e religiões pretendem isso. Mas na história apenas um homem disse com credibilidade ser Deus. Apenas uma pessoa assumiu ser pessoalmente a resposta à questão vital: "quem perder sua vida por minha causa, há-de encontrá-la". Os discípulos de Cristo, aqueles que Lhe entregaram a vida, saíram de um cantinho miserável do Império Romano para o revolucionar. Desde então, têm influenciado decisivamente toda a história de todas as épocas e povos. Hoje representam um terço da humanidade, o maior dos grupos que busca salvar a vida.
Mas a eficácia da resposta não se mede em termos históricos ou estatísticos. Eu tenho essa pergunta hoje, aqui e agora. A resposta só é válida se me salvar. Preciso insistentemente de saber como ganhar a minha vida. Aqui e agora.
Os santos, os que estão nos altares e os que vivem próximo, testemunham a profunda alegria de perder assim a vida. Viver cada dia de olhos no Céu, entregue ao Senhor do universo. Deixar os sonhos e projectos pessoais e procurar o Bem. Não fazer o bem, mas buscá--lO, encontrá-lO e deixar que Ele actue por nós. Viver aceitando tudo aquilo que acontece como vindo do Bem e para o Bem. Aceitar o mal que sofremos como aceitamos a vida e o mundo: como caminho para o Bem. Basear a felicidade, não nos acontecimentos, mas na confiança. Na fé.
Não é fácil viver assim. Não é fácil perder a vida para a ganhar, porque a cada momento ressurge a tentação de ganhar a vida por si mesmo. Vivendo a vida, repugna perdê-la. Esta entrega tem de ser renovada a cada instante. Aquela vida que perdemos hoje de manhã tem de ser perdida outra vez agora. Por causa d'Ele. Até a salvar de vez.
sábado, 11 de junho de 2011
Humor de almanaque
- O que tem na cara, sr. padre António?
- Esta manhã concentrei-me na homilia da missa enquanto fazia a barba e cortei-me.
- Para a próxima, concentre-se na barba e corte na homilia.
- Esta manhã concentrei-me na homilia da missa enquanto fazia a barba e cortei-me.
- Para a próxima, concentre-se na barba e corte na homilia.
quinta-feira, 2 de junho de 2011
"Mais pastores na luz e menos cowboys no escuro"
Frank Brennan, sj
Excertos da homilia do padre jesuíta Frank Brennan, professor de direito do Instituto de Políticas Públicas da Universidade Católica Australiana, a propósito do afastamento do bispo D. William Morris, que, entre outros aspectos, era pela possibilidade da ordenação de mulheres. A homilia foi proferida no domingo do Bom Pastor, este ano a 15 de Maio.
Como católicos, somos abençoados por sermos parte do rebanho que tem pessoas especialmente comissionadas para atuar como porteiros e pastores em seus papéis de papa, bispo e padre. Mas nenhum deles é substituto para Jesus – a porta, o porteiro e o pastor.
Nós, católicos australianos, acabamos de passar por algumas semanas muito difíceis, enquanto os nossos bispos refletiam sobre a remoção forçada de um deles, Bill Morris, bispo de Toowoomba. Devido à falta de transparência nos processos romanos, não sabemos a verdade completa sobre a sua remoção do seu ofício. Provavelmente nunca saberemos. Eu conheci Bill como padre e bispo durante 30 anos. Ele é um bom homem – não um brilhante acadêmico, mas sim o homem pastoral mais pé-no-chão que se possa conhecer.
(…) Vocês poderiam pensar que alguém na Igreja poderia ter feito alguma coisa para resolver o impasse naquele momento. Todas as instituições sociais são, naturalmente, falíveis. Assim também é a Igreja Católica. A nossa Igreja não é uma democracia e não pretende ser. Também não é igualitária. É muito hierárquica. E, geralmente, lava a sua roupa suja atrás de portas fechadas.
A Igreja é composta de muitos membros oriundos de países como o nosso, onde há leis e processos que asseguram a transparência e a justiça natural. Se alguém está para ser removido, ele espera obter um julgamento justo. Se uma queixa contra um cidadão deve ser confirmada por alguém com autoridade, o cidadão tem o direito de conhecer o processo contra eles e tem o direito de ser ouvido. Essas expectativas nem sempre se traduzem rapidamente em uma instituição antiga como a Igreja Católica.
Morris foi um bispo popular, no entanto, incomodou uma minoria de paroquianos e um punhado de padres, alguns dos quais enviavam queixas periódicas a Roma. O bispo norte-americano Charles Chaput visitou a diocese e submeteu um relatório às autoridades do Vaticano que, então, alegaram que os 18 anos de liderança pastoral de Morris foram falhos e defeituosos.
Essa pode ter sido a avaliação de Chaput. Mas nós simplesmente não sabemos. Também não sabemos com que base ou a partir de que evidência a avaliação foi feita. Morris nunca viu o relatório. Morris afirma com justiça que lhe foi negada a justiça natural.
Depois da visita de Chaput, todos os padres da diocese, com exceção de três, escreveram a Roma em apoio à liderança pastoral de Morris. Assim também fizeram todos os líderes pastorais e todos os membros do Conselho Pastoral Diocesano. Morris soube que não poderia ver o relatório e que ele poderia se encontrar com o Papa Bento apenas se ele primeiro submetesse a sua renúncia. Isso certamente colocou Bento XVI, assim como Morris, em uma posição hostil.
(…) Essa é uma tragédia para todos que estão comprometidos com a Igreja, exceto para aqueles que como o rapaz que escreveu no meu Facebook: "Ele [Morris] era um cowboy, não um pastor". É esse tipo de sujeito que provavelmente começou as queixas a Roma, a portas fechadas. Precisamos de mais pastores na luz e de menos cowboys no escuro. Morris foi um bom pastor mesmo para aqueles que agiam como cowboys.
Ler tudo aqui.
quinta-feira, 10 de março de 2011
Sermão para mim próprio: Tentações intemporais
O relato das tentações, no caso segundo Mateus (Mt 4,1-11), é das passagens mais curiosas dos evangelhos (poderei escrever exactamente o mesmo de todas as outras, porque todo o evangelho é surpreendente).
Vejamos:
* Mateus conta como se lá tivesse estado. Ora esta é das poucas passagens em que não há testemunhas, só protagonistas. Como é que Mateus soube? Teria Jesus contado? Ou será um relato que condensa tudo o que o evangelho significa, já que está precisamente no início dos trabalhos de Jesus?
* Jesus vai para o deserto conduzido pelo Espírito Santo, o que quer dizer que nem sempre o Espírito Santo leva por bons caminhos.
* O deserto tanto é o lugar da comunidade e da solidariedade (foi no deserto que nasceu o Povo de Israel) como lugar de tentação, o que desmonta os que diabolizam a cidade. Todos os lugares podem ser bons ou maus. Os lugares não têm moral.
* As tentações acontecem após 40 dias e quarenta noites de jejum, uma quaresma. O 40 aparece imensas vezes na Bíblia (40 dias de chuva, de pregação, de jejum, de mediação, de ultimato) para significar mudança, preparação, introdução, nova vida.
* O Diabo tenta, cumprindo o que diz o que seu próprio nome, já que "diábolos", em grego, quer dizer “o que separa” (opõe-se a símbolo, “o que junta”). Há tentações. Não há possessões diabólicas.
* O Diabo tenta usando frases da Bíblia, o que quer dizer, como há muito foi observado, que o Diabo conhece a Bíblia, ou seja, conhecer a Bíblia, mesmo de cor, não é garantia de nada. O Diabo é um bom exegeta.
* As tentações acontecem “no deserto” (quem diria que lá não há nada), no “templo” (cuidado com a religião) e num “monte muito alto” (mania das grandezas) e são, respectivamente, sobre pão, espectáculo, poder. Ou então, consumo, magia, fama. Ou então, satisfação, êxito, audiências. Ou então… (é uma questão de reler Mt 1,11-11 e encontrar novos sentidos).
* Jesus responde com frases bíblicas, todas elas ditas ou remetidas para Deus. Usa o ás de trunfo, ou o Joker (por vezes parecem diabinhos), e sai-se bem. A humildade derrota a magia.
* As tentações são de Jesus, no início da chamada “vida pública”, mas nelas revêem-se os cristãos, a Igreja, o mundo em geral. Por isso é que Mateus as conta, mesmo não tendo estado lá.
quinta-feira, 3 de março de 2011
Sermão para mim próprio: "Não foi em teu nome que profetizámos?"
Uma amiga do blog Levantai-vos! desafiou-me a dizer o que penso dos evangelhos do domingo seguinte. Inicialmente o desafio não era bem este, mas acabou assim formulado. Começo hoje a dizer o que penso do evangelho que os católicos escutam na missa do domingo seguinte. Não sei se o farei todas as semanas. É um compromisso que tentarei cumprir à quarta ou quinta-feira. São os sermões para mim próprio.
“Senhor, Senhor! Não foi em teu nome que profetizámos, em teu nome que expulsámos os demónios em teu nome que fizemos muitos milagres?” (de Mt 7,21-17)
A resposta é: “Não vos conheci”. Escusava de ser tão ingrato. Mas é que pode tudo ter sido feito no nome do Senhor sem ter sido feito na “vontade” do “Pai que está no Céu”. É um sério aviso para todos os que têm títulos, fazem parte de denominações e confissões, andam com o credo na boca ou coleccionam sacramentos. É que até milagres podem (podemos) fazer na falsidade. E têm abundado os tristes exemplos das vidas duplas. O título não dá garantia.
Noutro ponto, Jesus diz que pelos frutos se vê a árvore, o que quer dizer que, para mais em tempo de engenharia genética, de OGM, e de viveiros especializados em criar árvores pequenas que dêem grandes frutos, o que interessa mesmo é o fruto, não o título. Ninguém pergunta à repositora da frutaria pelo tamanho da macieira quando compra um quilo de maçãs.
Com o bem, é a mesma coisa. Interessa mais o bem bem feito (não há nenhuma palavra a mais) do que o título de quem o faz. Por isso é que há mais cristãos do que os que foram baptizados. Por isso é que há muitas moradas no reino dos céus.
E como não ser apanhado em falso quando se diz “Senhor, Senhor”, já que religião é dependência e todos desejamos genuinamente ser dependentes do Senhor realmente Senhor?
Aqui, a reposta já não está nos frutos, que se vêem, mas nas raízes, que não se vêem. Nos alicerces da casa. A casa que não cai é a que está fundada sobre a rocha. Isso é que é construir com qualidade e garantia contra os lobos maus. Essa é a guerra preventiva no interior de nós próprios que temos de levar a cabo.
A crise que nós, cristãos, estamos a viver tem raízes sociológicas e culturais muito concretas, mas obriga-nos a rever os alicerces e a observar sobre que bases estamos a construir a nossa vida cristã.
Talvez não tenhamos enraizado o nosso cristianismo sobre o alicerce sólido do evangelho, mas sobre costumes, modas e tradições, nem sempre muito de acordo com a verdade do evangelho.
Quisemos apoiar a nossa religião na segurança das nossas fórmulas e no rigor da disciplina, mas talvez não nos tenhamos preocupado demasiado em procurar a verdade do evangelho.
Vivemos muitas vezes demasiado atentos aos códigos, rubricas, normas e prescrições, e não aprendemos a confrontar a nossa própria responsabilidade e os riscos da liberdade cristã.
José Antonio Pagola, pág. 77 de “O caminho aberto por Jesus”
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Sinodalidade e sinonulidade
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