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segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Anselmo Borges: "O enigma da pergunta e a religião"

Texto de Anselmo Borges no DN de sábado, 16 de novembro:


Bertrand Russel, desta vez sem cachimbo

O ser humano é constitutivamente o ser da pergunta, não podendo deixar de perguntar. Mas o próprio perguntar é enigmático. Se perguntamos, é porque não sabemos, mas sobre aquilo de que nada sabemos não perguntamos. Então, o que é que sabemos quando perguntamos? Sabemos sempre de modo imediato e atemático sobre o ser. É sempre no ser que estamos, numa experiência originária.

Mas essa experiência é a do ser na sua ambiguidade, causando-nos, por isso, espanto positivo e negativo e levando-nos à pergunta: o que é? Outra experiência fundamental, explicitando esta, tem que ver com o aparente e o real. Há sempre aquele encontro com o que nos parecia real e era apenas aparente: alguém, por exemplo, parecia cheio de saúde e, afinal, estava doente. Daqui, a pergunta: o que é verdadeiramente? Qual é a realidade última? Como escreve o filósofo Carlos João Correia, a religião é, numa primeira abordagem essencial, "um fenómeno cultural, de natureza pessoal e social, que engloba um conjunto de crenças, acções e emoções organizadas em torno da ideia do que se poderia designar, em termos filosóficos, "como uma realidade última e fundamental"".

Esta realidade última remete-nos e liga-nos ao incondicionado ou, se se quiser, ao absoluto. De facto, o contingente, o efémero, tem como sua condição de possibilidade uma realidade necessária prévia, o incondicionado.

Aqui, pode surgir uma crítica semelhante à que Bertrand Russell fazia a uma causa primeira, a Deus enquanto causa sui, causa de si, causa incausada: se tudo tem uma causa, qual é a causa de Deus?, se o incondicionado é condição de todo o condicionado, qual é a sua causa? Simon Blackburn mostrou que a argumentação de Russell não convence: "Russell terá notado que o argumento da causa primeira era mau, excepcionalmente, terrivelmente mau, uma vez que a conclusão não só não se segue das premissas, mas também na realidade as contradiz. A sua ideia era que o argumento parte da premissa de que "tudo tem uma causa (prévia e distinta)", mas acaba na conclusão de que tem de haver algo que não tem uma causa prévia e distinta, mas "tem em si a razão da sua própria existência". Portanto, a conclusão nega o que a premissa afirma. Ora, a rejeição de Russell é um pouco fraca. Realmente, o objectivo do argumento, na perspectiva teológica, é mostrar que, apesar de tudo o que é material ou físico ter uma causa prévia distinta, precisamente este facto leva-nos a postular algo de diferente, que não tem uma causa prévia distinta. No jargão teológico, isso seria algo que é "necessário" ou "causa sui": algo que é a sua própria causa. E uma vez que isto não se verifica no caso das coisas comuns que nos rodeiam, precisamos de postular algo extraordinário, uma Divindade enquanto titular desta extraordinária auto-suficiência." A questão é realmente a de um ser auto-suficiente.

É raro tematizarmos esta questão essencial, mas ela está lá sempre presente. Carlos João Correia acrescenta: "Mesmo que não quiséssemos, a percepção da nossa mortalidade far-nos-ia relembrar a sua presença silenciosa, pois a morte, enquanto nadificação das nossas possibilidades, faz emergir a própria questão de se ser."

Aceitando o carácter irredutível e necessário de uma "realidade última", fica a questão da relação humana com ela, percebendo-se que varie em função das diferentes mundividências e perspectivas culturais. Assim, "múltiplas posturas designadas como ateias" - pense-se, por exemplo, na concepção marxista de uma realidade última dialéctica - "não deixam, por isso, de serem religiosas". De facto, dá-se uma experiência religiosa, sempre que há "a consciência de dois postulados fundamentais: 1. Para lá da contingência dos fenómenos existe um horizonte em que eles têm sentido; 2. É incontornável para cada ser pessoal uma certa postura de relacionamento com esse mesmo horizonte." Por isso, embora a importância da palavra religião pareça desaparecer a um ritmo galopante do léxico humano contemporâneo, "a sua realidade permanece actual, na medida em que a resposta global às questões centrais da vida permanece tão ou mais viva do que antes".

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Kierkegaard: "O presente escritor não compreendeu o Sistema"

Kierkegaard escreveu isto em "Temor e Tremor" e à custa dele já dei umas boas gargalhadas hoje. Não, o "Sistema" não é o sistema de que tanto se fala no meio futebolístico, nem a frase se refere ao Facebook. "Sistema" era a filosofia de Hegel.

O presente escritor não compreendeu o Sistema, não sabe se ele existe realmente nem se está terminado; a sua débil cabeça já está bastante sobrecarregada por pensar como, nos nossos dias, toda a gente tem uma tão prodigiosa cabeça, uma vez que toda a gente tem tão prodigiosos pensamentos.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

O rouxinol e a rosa

(...) Mas o espinho ainda não atingira o seu coração, e assim o coração da rosa continuava branco, pois somente o sangue do coração de um rouxinol pode tornar vermelho o coração de uma rosa.

Lido ontem. Do conto "O rouxinol e a rosa", de Oscar Wilde, que é impossível ler sem encontrar paralelos com o sacrifício e autossacrifício cristão, ainda que "amor" possa ter sentidos diferentes no conto e na mensagem cristã.

domingo, 5 de maio de 2013

Kierkgaard. 200 anos de angústia, desespero e fé

Kierkgaard nasceu há 200 anos. Gostava de assinalar a data com algo original, mas tal não me será possível hoje. Fiquemos com o que sobre Kierkgaard já foi escrito neste blogue.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Anselmo Borges sobre José Gómez Caffarena: "As bem-aventuranças de um crente afável e crítico"

José Gómez Caffarena

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje.

Era um homem muito educado, afável e atencioso. Invulgarmente penetrante e culto, um dos maiores especialistas em Kant, foi o filósofo da busca do enigma do Homem. Morreu, lúcido até ao fim, no passado dia 5, o dia em que fazia 88 anos. O jesuíta José Gómez Caffarena.

Falei várias vezes com ele, sempre amável e atento, esclarecendo dúvidas e problemas. A última vez que o vi, há dois anos, sabia que era a despedida. Convidei-o uma vez para vir a Portugal para um Colóquio. E falou sobre dois temas, com textos, excelentes: "Antropologia Filosófica: fenomenológica ou objectiva?" e "A Filosofia da Religião, uma mediação teórica importante". O que aí fica são apenas dois apontamentos e quer prestar uma homenagem a quem passou a vida dedicado à procura da verdade, no diálogo aberto, leal e crítico: pelo seu Instituto Fe y Secularidad, em Madrid, passaram todos os grandes intelectuais espanhóis, crentes ou não, como Pedro Laín, J. Aranguren, J. Sádaba, F. Savater. É preciso dar razões da própria fé e da esperança, o que implica a escuta das razões do outro. "Se um crente afirma na sua fé que existe uma verdade absoluta, afirma com isso que ele não a possui nem a pode possuir, pois está sempre a uma distância infinita dela. Deve admitir que, onde quer que um ser humano alcance algo de verdade, nessa medida também participa da Verdade Absoluta."

O Homem não é redutível às ciências objectivantes, pois a condição de possibilidade de objectivar é ele mesmo enquanto sujeito consciente, sempre co-implicado na busca de si. Por isso, é preciso avançar, no quadro de uma hermenêutica em processo, sempre a caminho. A "prova" da existência de Deus encontrava-a no dinamismo e inquietação radicais, constituintes do ser humano.

Com H. Bergson, admitia duas fontes da religião e da moral. A primeira está na consciência das nossas deficiências. A outra, a dos grandes místicos, está na intuição ou contacto profundo que tiveram com "o Fundo último, generoso, da realidade, contacto que transformou a sua visão do mundo e os impeliu a querer continuar no mundo a obra criadora dessa suprema Realidade amorosa".

Neste contexto, pensava que talvez seja legítimo formular, "como último acto de fé", que humanistas teístas e não teístas podem partilhar algo do género: "No seu esforço moral secular, e apesar dos seus fracassos, a Humanidade merece que não seja frustrada a sua esperança: merece que Deus exista."

Foi também dentro desta fé que proclamou as suas bem-aventuranças.

"Bem-aventurado aquele que ama e descobriu a dita de partilhar o mundo. Bem-aventurado quem não se isola na sua pequenez pensando ilusoriamente com isso que se vai 'realizar'. Bem-aventurado aquele que ama a vida tal como é e não como tende a representá-la. Bem-aventurado o humano que é capaz de acolher o outro humano para lá de toda a consideração das vantagens que possa trazer-lhe, que entendeu o perdão sem memória e a ternura sem retorno. Bem-aventurado aquele que chegou a conceber o imenso projecto da universalidade reconciliada. Bem-aventurado aquele que é consciente de que na sua pequenez é puro dom e graça, e sabe, no entanto, sentir-se a partir dela responsável pelo Reino inteiro da justiça, participante de um olhar divinamente maternal para os mais humildes e sofredores, as vítimas da opressão. Bem-aventurado quem não se escandaliza da pequenez humana, nem da própria nem da alheia, e crê que é possível que essa pequenez floresça na grandeza de uma fraternidade sem fronteiras. Bem-aventurado quem aceita a dor da luta sem ódio pelo dar à luz da verdade. Bem-aventurado quem é capaz de ver a possibilidade da paz antecipada, quem compreende que a violência é promessa enganosa, quem acha fecundo crer na bondade primeira do coração humano. Bem-aventurado quem não se escandaliza de a dor e a morte terem o seu tempo que não é possível eliminar definitivamente. Bem-aventurado quem crê que uma morte prematura de profeta é também eternamente fecunda." A dor e a morte não são a última palavra: "uma intuição da Humanidade praticamente universal."

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

João Carlos Espada e seus papas

Texto de João Carlos Espada, no "Público" de segunda-feira. Como sempre, consegue relacionar o assunto em debate, a renúncia do Papa, com o seu papa filosófico, Karl Popper. Dois "Popes", portanto. Um ainda mais papa do que o outro ("poper", em inglês). Só não sei como lhe escapou o Churchill. Teríamos então uma trindade de papas e igrejas (church).

sábado, 1 de dezembro de 2012

Anselmo Borges: Elogio da humanidade das Humanidades

Texto de Anselmo Borge sno DN de hoje (daqui):


Nestes tempos de crise profunda e de exaltação da sociedade científico-técnica e do economicismo, muitos perguntam-se pelo lugar das Humanidades na sociedade contemporânea.

A breve reflexão que aí fica inspira-se numa excelente conferência do colega João Maria André para os jovens estudantes da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, em início de ano lectivo. O seu objectivo era demonstrar que "vale a pena investir numa formação humanística para fazer face ao mundo em mudança e às transformações macroparadigmáticas" da nossa actual sociedade.

1 João M. André começou por apresentar traços fundamentais do tempo presente.

O primeiro é a globalização, com diversos rostos, de tal modo que tanto pode ser "a globalização da rapina, hegemónica, de matriz neoliberal", como uma globalização da solidariedade, que se exprime nas lutas pelo reconhecimento dos direitos de todos e no esforço de invenção de novas formas ecoéticas de habitar o mundo. As Humanidades, nas suas várias vertentes, contribuem com o seu olhar crítico dos problemas ao mesmo tempo que inscrevem outros valores para lá dos económicos e tecnológicos.

Outro traço é o de uma sociedade do conhecimento e da informação. Não é acidental que se chame assim e não sociedade da cultura. Ora, as Humanidades, pela Filosofia, pela História, pela mediação linguística e artística, "activam o pensamento que é algo diferente do cálculo e da navegação" nos novos meios de comunicação.

Vivemos numa sociedade multicultural, e também aqui as Humanidades têm um papel decisivo: no seu estudo, "entramos em contacto com povos e culturas diferentes, aprendemos as suas línguas, a sua história, a sua geografia, os seus mitos, os seus valores, as suas formas de comunicar, de viver e de fazer mundos."

2 Esta sociedade é uma sociedade em mudança, com o fim de velhos paradigmas, ao mesmo tempo que emergem outros novos, para os quais o contributo das Humanidades é inquestionável.

Vimos do paradigma da análise e da fragmentação, com o primado do pontual, da especialização, do analítico, perdendo a noção da totalidade e da complexidade e separando o sujeito e o objecto, e o indivíduo da comunidade e da sociedade. Hoje, exige-se "um paradigma holístico dentro de uma concepção de verdade multiperspectivada e complexa e a partir de uma abordagem não só interdisciplinar mas mesmo transversal do mundo, da natureza e do humano". Neste trânsito de um paradigma redutor para um paradigma holístico e reunificador, as Humanidades podem mostrar todas as suas virtualidades.

Um segundo paradigma dá o primado à tecnociência nos diferentes domínios, incluindo o humano, reduzindo o homem a faber e o mundo a um mundo-máquina, habitado por uma sociedade-máquina. Mas, dentro do reconhecimento dos benefícios científico-técnicos deste paradigma, não é verdade que ele também nos empobreceu, já que, por detrás deste mecanicismo, está um dualismo entre a dimensão corporal e espiritual do homem, prolongado numa cisão entre a racionalidade e a afectividade, desvalorizando o domínio das emoções? Não se acabou por esquecer que o homem é simultaneamente sapiens e demens e que, além do interesse do saber, também há o interesse no jogo, no sonho, na imaginação criadora, na efabulação?

O actual paradigma é da mercantilização das coisas e da vida, no quadro do primado do homo oeconomicus. Pergunta-se: mas será que tudo se reduz ao valor monetário e de mercado? E os valores éticos e os valores estéticos e os valores políticos e os valores afectivos e os valores religiosos?

Vinculado ao paradigma da mercantilização está o paradigma da liquefacção: vivemos na sociedade líquida, como teorizou Z. Bauman, desembocando numa existência efémera, na cultura ligt, descartável, do consumismo, na insatisfação permanente. As Humanidades, apelando à memória e aprofundando no pensamento crítico, salvaguardarão um mínimo de solidez, captando o peso do tempo na esperança da dignidade livre e da liberdade na dignidade de todos.

sábado, 10 de novembro de 2012

Anselmo Borges: Diálogos de Coimbra na Joanina

Artigo de Anselmo Borges no DN de hoje.
Sorver cultura. Um dos tetos da Joanina

A Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra, um templo de rara beleza ao Livro, foi, no ano lectivo transacto, palco para três diálogos sobre as raízes da Europa. A iniciativa partiu do Padre Nuno Santos, Director do Instituto Universitário Justiça e Paz, e os intervenientes foram o biblista Virgílio Antunes, bispo de Coimbra, e três eminentes professores: o penalista José de Faria Costa, da Faculdade de Direito, o historiador Fernando Catroga, da Faculdade de Letras, o físico Carlos Fiolhais, da Faculdade de Ciências e Tecnologia. Moderou o jornalista Manuel Vilas-Boas, da TSF.

Todos estiveram de acordo na afirmação de que a Europa tem três heranças fundamentais: Atenas, Jerusalém e Roma, sugerindo alguém um quarto fundamento: o vitalismo bárbaro, a partir do Norte.

O primeiro diálogo teve como linha de orientação "Razão. Pessoa. Direito". Aí está a convergência entre Atenas e Jerusalém: o Evangelho segundo São João inaugura-se com a afirmação: "No princípio era o Logos, a Palavra, a Razão, e tudo foi criado pelo Logos". A criação pelo Logos diz que o mundo é racional e, por isso, racionalmente investigável. Como ninguém põe em causa que o cristianismo foi decisivo na descoberta da pessoa, do seu valor e dignidade. A herança de Roma é o Direito.

Partindo do espaço escolhido para o debate, Faria Costa sublinhou a importância da perspectiva, que impõe colocar-se no ponto de vista do outro: "ser pessoa é estar dentro e fora, em simultâneo, procurar a interioridade e a exterioridade." Não existe sociedade sem Direito. Somos seres morais, respondendo perante o outro, "humilde- mente e independentemente da sua condição: pobre ou rico, velho ou novo". E somo-lo, independentemente do Transcendente, "por muito que esse Transcendente seja a mais bela forma de dizer o indizível".

O bispo Virgílio Antunes concorda, sublinhando que "numa leitura cristã, que enforma a cultura que somos, quando entra em crise uma destas variáveis - Razão, Pessoa, Direito - fica em causa a construção da pessoa humana". Mas quis acrescentar um novo elemento: a fé - porque a razão não esgota o Mistério -, que permite "a superação da lei pela liberdade e pelo amor". Sem liberdade, justiça e amor, não há construção da dignidade da pessoa, numa sociedade justa e fraterna.

No segundo diálogo, o tema era: "Natureza. História. Identidades". De Atenas herdámos a natureza, a physis. A História é uma herança essencialmente bíblica. As identidades constroem-se na confluência de natureza e história.

O homem teve sempre "uma relação umbilical com a natureza", que se impunha como grande modelo interpretativo do sentido, começou por sublinhar Fernando Catroga. A consciência histórica, herança fundamental da religião judaico-cristã, é, na luta do homem pela memória e contra o esquecimento, um conceito essencialmente moderno, que dá sentido à vida colectiva. As identidades "hoje herdam-se, constroem-se e estão sujeitas a movimentos históricos, numa pluralização de sentidos de pertença".

O bispo pôs o acento na História, lugar de revelação e salvação, não permitindo que Deus seja confundido com a natureza, sua criação. E pensa que há na Europa o esquecimento da herança judaico-cristã, que explica, pelo menos em parte, o vazio em que se vive actualmente, "numa profunda crise de identidade, sem referências, como órfãos que não conhecem os pais nem sabem donde vêm e que perderam os critérios de procura e conhecimento da verdade."

"Acaso. Criação. Sentido" foi o último tema. O universo não se rege só pelo acaso ou pela necessidade, mas por um e outro, e mostra-se probabilístico. Carlos Fiolhais afirmou que a ciência e a religião não são incompatíveis. Se houve tempos de conflito, não é esse hoje o caso, havendo inclusive grandes cientistas que são crentes. O bispo confirmou: a Bíblia não é um livro científico, mas religioso. O homem é só um e aproxima-se da realidade de modos diversos e com métodos diferentes.

Só o homem tem o sentido do mistério. Há sentido na compreensão científica do mundo e na sua unificação, mas o crente religioso espera mais: uma palavra definitiva de salvação sobre a História.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Religião e verbo «ser», religião e criação



A religião poderia ser definida como uma resposta narrativa à interrogação: «Porque há alguma coisa em vez de nada?», como um esforço estruturado visando demonstrar que esta interrogação não poderá esquivar dentro dela a presença contraditória do verbo «ser».


George Steiner, Gramáticas da Criação, Relógio d'Água, pág. 28

terça-feira, 29 de novembro de 2011

A salvação cabe num livro. Ou numa colecção



Estive a folhear e a ler aqui e a li a bíblia humanista de A. C. Grayling, “O Livro dos Livros”. Não encontrei os 10 mandamentos que há pouco referi. Copiei-os daqui sem referir a fonte – o que não será lá muito ético.

Esta curiosa bíblia, de capas cartonadas, é composta de 14 livros, do Génesis a O Bem. São eles: Génesis, Sabedoria, Parábolas, Concórdia, Lamentações, Consolações, Sábios, Canções, Histórias, Provérbios, O Legislador, Actos, Epístolas, O Bem.

Gostei especialmente das Parábolas, que são histórias e mitos, e dos Actos, que são episódios mais ou menos históricos. Cenas instrutivas. Só é pena não indicar as fontes. Seriam excelentes livros de cultura geral. Os Provérbios são como os bíblicos (que também nunca referem Deus): curiosos, iluminadores. Por vezes fazem sorrir. Cito de cor, porque decorei para outras ocasiões: “Quem morre junta-se à maioria”. “Quem procura falhas não encontra outra coisa”.

O livro dos Actos segue-se a O Legislador. Não verifiquei se o Legislador é o redentor, correspondendo, nesse caso, aos Evangelhos. Mas tudo indica que sim.

No fundo, este livro quer uma salvação, intramundana, histórica, para viver nos nossos 80 ou 90 anos, sem Deus. O objectivo tem algo de gnóstico. A sabedoria redime, pensa Grayling. E cabe num livro, numa série de livros, vá lá, numa enciclopédia ou numa biblioteca. Não. A sabedoria não redime, dizem os cristãos, nem cabe em nada deste mundo. Só o amor redime e esse é pessoa, sendo também sabedoria.

Como é possível ter uma ideia da Bíblia cristã lendo o primeiro e o último versículos (não digo o que dizem; se não sabe, abra a Bíblia e leia), revelo o que dizem o primeiro e último versículos desta bíblia:

Génesis 1,1: No jardim ergue-se uma árvore. Na Primavera, floresce; no Outono, frutifica. 1,2: O seu fruto é a sabedoria, ensinando o bom jardineiro a compreender o mundo.

O Bem 9,10: Ajudemo-nos, então, mutuamente; construamos a cidade juntos, 9,11: Onde possa existir um futuro melhor, e onde a verdadeira promessa da humanidade possa, por fim, ser cumprida.

Resta dizer que gostei de ler o livro no sofá da livraria e agora estou na habitual fase de quarentena (duas a três semanas) a ver se resisto ou cedo ao investimento de mais de 20 euros.

sábado, 17 de setembro de 2011

Anselmo Borges: Direitos dos animais?

Adela Cortina

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje.

Sobre esta questão complexa, existem três posições filosófico-jurídicas fundamentais. No Ocidente, predomina a concepção chamada kantiana, que só reconhece direitos às pessoas. Nas últimas décadas, o movimento animalista vem defendendo a tese de que há animais não humanos que são pessoas. A terceira proposta é a de um modelo de sociedade na qual se reconhece a dignidade dos humanos, mas tem em atenção o valor dos animais.

1. Na concepção predominante, só a pessoa humana é sujeito de direitos. A dignidade da pessoa humana é o fundamento dos direitos humanos. Mas significa isso que os animais devam ser remetidos para o domínio das coisas? O constitucionalista J. Gomes Canotilho pergunta justamente, numa obra colectiva sobre os desafios para a Igreja de Bento XVI, se precisamente um desses desafios não é desenvolver uma ecologia em que "as diferenças entre 'algo e alguém' não remetam para o domínio das coisas a problemática humana dos outros seres vivos da Terra".

2. Num texto famoso de 1789, Jeremy Bentham inquiria: Qual é a característica que confere o direito a uma consideração igualitária? E respondia, perguntando: "Será a faculdade da razão ou, talvez, do discurso? Mas um cavalo adulto é, para lá de toda a comparação, um animal muito mais racional assim como mais sociável do que um recém-nascido de um dia, uma semana ou até um mês. Mas suponhamos que não era assim; de que serviria? A questão não é: pode raciocinar?, pode falar?, mas: pode sofrer?"

O chamado utilitarismo moral coloca o centro precisamente na capacidade de sofrer e de sentir prazer. Para Peter Singer, defensor célebre desta concepção, os seres sensíveis têm interesses, concretamente o interesse do maior prazer possível e da menor dor possível, seguindo-se daí que, ao contrário da concepção anterior, temos deveres directos para com todos os seres capazes de sentir. A desigualdade de tratamento deriva do chamado especiesismo - julgo que se deve dizer assim e não especismo -, que consiste na preferência que damos aos humanos sem qualquer outra razão que não a pertença a uma espécie, no caso, a espécie humana.

Singer, professor da Universidade de Princeton, escreve textualmente, em Ética Prática: "Devemos rejeitar a doutrina que coloca a vida dos membros da nossa espécie acima da vida dos membros de outras espécies. Alguns membros de outras espécies são pessoas; alguns membros da nossa não o são. De modo que matar um chimpanzé, por exemplo, é pior que matar um ser humano que, devido a uma deficiência mental congénita, não é capaz nem pode vir a ser uma pessoa."

3. A filósofa Adela Cortina, numa obra importante - Las fronteras de la persona -, atravessa toda esta problemática, para defender a sua tese, com a qual me identifico. A vida é valiosa por si mesma, mas ainda mais a dos seres sensíveis, que têm a capacidade de sofrer e ter prazer. Os animais têm um valor intrínseco e não meramente instrumental, havendo, por isso, uma obrigação directa de lhes não causar dano.

Mas há seres que não só têm valor intrínseco "mas também absoluto". Os direitos humanos são naturais, isto é, a sociedade política não os concede, mas simplesmente os reconhece, pois são anteriores ao pacto político. Os outros animais não têm o sentido da dignidade e da humilhação. Os humanos "são capazes de reconhecer se a sua própria vida é digna ou indigna, a partir do reconhecimento que outros fazem dela e a partir da sua própria autoconsciência". Para os outros animais basta uma vida materialmente satisfeita; mas a ideia de uma vida digna é diferente: "brota do reconhecimento de estar a ser tratado segundo a norma da espécie, que é, em última análise, a da liberdade."

E os membros da nossa espécie que não podem de facto exercer essas capacidades, como os deficientes mentais profundos? "Isso não os torna membros de outras espécies, mas pessoas que é preciso ajudar para poderem viver ao máximo essas capacidades, o que só conseguirão numa comunidade humana que cuide deles e os promova na medida do possível".

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Não aprecia o Papa, mas quer ser professor na Católica



Notícia do DN de hoje. Por um lado, compreende-se a posição do professor. Como não se há-de criticar o que se bem entender? Por outro lado, é mais do que compreensível a posição da UCP. Como aceitar como professor alguém que critica a Igreja, não sendo sequer católico?


É claro que, sendo professor de filosofia, terá, de certeza, de ensinar filósofos ateus. Mas como ter na própria instituição alguém que não se identifica com ela? Poderá parecer estranho que a UCP não o queira como professor (para isso não deveria ter chegado a classificá-lo em primeiro no concurso), mas também deveria causar alguma esquizofrenia a Porfírio Silva querer ser professor de uma instituição de que manifestamente - é ler o blogue - não gosta.


Para mais, a Católica é criticada em muitos sectores eclesiais por ser pouco católica, principalmente em áreas como a gestão e a economia. E há mesmo quem diga que a católica não devia ter professores ateus. Não sei se tem algum, mas dizem que sim.


Estes meus comentários referem-se apenas a questão, digamos, mais éticas. Do ponto de vista legal, a Católica tem poderes para fazer o que fez.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

14 de Setembro de 1998. João Paulo II publica a encíclica "Fides et ratio"


João Paulo II assinou no dia 14 de Setembro de 1998 aquela que foi a sua penúltima encíclica, "Fides et ratio", sobre as relações entre fé e razão. A encíclica é chamada por alguns "Fisichella et Ratzinger", por ter sido em grande parte elaborada por Rino Fisichella (ordenado bispo uns dias antes da publicação) e cardeal Joseph Ratzinger.
Começa assim:
A fé e a razão (fides et ratio) constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade.
É um documento fundamental para quem estuda teologia e filosofia cristã, mostrando, por um lado, que na teologia cristã sempre houve diálogo, ainda que por vezes tenso, entre fé (Revelação) e razão, que a teologia não pode prescindir da razão e que a filosofia fica coxa, isto é, desorientada e relativista, se não se relacionar com Revelação. Quanto Bento XVI fala em relativismo aproxima-se muito de alguns parágrafos deste encíclica - como o 81:
Deve ter-se em conta que um dos dados mais salientes da nossa situação actual consiste na «crise de sentido». Os pontos de vista, muitas vezes de carácter científico, sobre a vida e o mundo multiplicaram-se tanto que estamos efectivamente assistindo à afirmação crescente do fenómeno da fragmentação do saber. É precisamente isto que torna difícil e frequentemente vã a procura de um sentido. E, mais dramático ainda, neste emaranhado de dados e de factos, em que se vive e que parece constituir a própria trama da existência, tantos se interrogam se ainda tem sentido pôr-se a questão do sentido. A pluralidade das teorias que se disputam a resposta, ou os diversos modos de ver e interpretar o mundo e a vida do homem não fazem senão agravar esta dúvida radical, que facilmente desemboca num estado de cepticismo e indiferença ou nas diversas expressões do niilismo.
Em consequência disto, o espírito humano fica muitas vezes ocupado por uma forma de pensamento ambíguo, que o leva a encerrar-se ainda mais em si próprio, dentro dos limites da própria imanência, sem qualquer referência ao transcendente. Privada da questão do sentido da existência, uma filosofia incorreria no grave perigo de relegar a razão para funções meramente instrumentais, sem uma autêntica paixão pela busca da verdade.
Na perspectiva desta encíclica, só a teologia, isto é, a reflexão crente sobre a Revelação e o transcendente, pode salvar a filosofia do relativismo e, em última análise, do cepticismo e do nihilismo.


Outros acontecimentos deste dia:
- Publicação da encíclica "Laborem exercens", em 1981
- Morte de Adriano VI, em 1523,  último Papa não italiano antes de João Paulo II

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

8 de Agosto de 1746. Morre o teólogo e filósofo Francis Hutcheson


Francis Hutcheson, pai do iluminismo escocês, morreu no dia 8 de Agosto de 1746, em Glasgow, precisamente no dia em que fazia 52 anos. Hutcheson foi quem mais influenciou Adam Smtith. O fundador da economia moderna assistiu às suas aulas com entusiasmo.

Hutcheson foi o primeiro professor de Glasgow a abandonar o latim e a dar aulas em inglês e opunha-se ao tráfico de escravos, tal como também Adam Smith veio a opor-se. Não apreciava a metafísica continental, pelo que o seu curso de filosofia moral versava sobre religião, ética, estética, leis e economia. Também não apreciava Hobbes e a luta de todos contra todos, Defendia antes o progresso comum baseado na cooperação de todos - uma ideia base em Adam Smith.

domingo, 31 de julho de 2011

Anselmo Borges: Os múltiplos interesses do ser humano

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (aqui), domingo, já que o texto de ontem, como explica hoje a edição em papel, é de Adriano Moreira (que volta a ser hoje publicado, por via das dúvidas, em vez de nos próximos dias, como estava previsto).


Max Scheler (1874-1928)

Na sua Sociologia do Saber, Max Scheler mostra como na base do esforço pelo conhecimento está um tríplice interesse e três impulsos: o interesse e impulso em ordem à salvação, que se expressa no saber teológico; o impulso metafísico, que se concretiza na filosofia enquanto dirigida para o conhecimento da essência das coisas; o impulso de domínio, que põe em marcha o saber científico-técnico, sobretudo a partir da modernidade e, mais concretamente, do positivismo.
Na mesma linha - sirvo-me da síntese de Adela Cortina -, também Karl-Otto Apel e sobretudo Jürgen Habermas sublinharam os três interesses do conhecimento, que são constitutivos da espécie humana. Concebemos a realidade a partir de três perspectivas, que têm na base três orientações fundamentais: o interesse técnico, que corresponde ao interesse scheleriano de domínio e se traduz nas ciências empírico-analíticas; o interesse prático, que procede do impulso para o saber de formação e se refere ao sentido no âmbito das ciências histórico-hermenêuticas; o interesse emancipatório, que, num mundo secularizado, é a tradução do impulso scheleriano para a salvação.
Ao contrário do que pensou Augusto Comte nomeadamente, estas três formas, impulsos e interesses de saber não se encontram numa ordem de sucessão, de tal modo que acabariam por convergir e reduzir-se ao interesse científico-técnico. Pelo contrário, sendo constitutivos e vitais para o Homem, têm de conviver.
Que é que isto quer dizer? Para que o ser humano se mantenha autêntico e íntegro, nenhum destes impulsos pode ser anulado. Não é possível reduzir o interesse humano ao domínio científico-técnico: é preciso ter em conta e englobar todos os saberes de forma integrada e orientar-se para a formação do ser humano segundo um paradigma ecuménico e holístico.
Afinal, a realidade é infinitamente complexa, e a ciência no sentido das chamadas ciências exactas ou naturais não tem meio de captá-la na sua ultimidade e totalidade. Precisamos de múltiplos meios para melhor nos aproximarmos dela, sem nunca a esgotarmos. Aproximamo-nos dela pelas ciências, pelas artes, pelas literaturas, pelas filosofias, pelas religiões.
O ser humano leva consigo, constitutiva e decisivamente, a questão do sentido e do sentido último, e a ciência e a técnica não têm competência nem possibilidade de dar resposta. E as técnicas são para quem? Com que finalidade? E como deve o ser humano comportar-se e agir para ser real e autenticamente humano? E como há-de viver em comum numa sociedade pacífica e promotora da dignidade humana na polis global? Lá está Terêncio: "Homo sum, nihil humanum a me alienum puto" (sou Homem, nada do que é humano o considero estranho a mim).
Foi, pois, gratificante para mim, na apresentação do livro "Ciência e Mito", do químico António Amorim da Costa, poder sublinhar o apelo do autor para que, sem afectar a especialização, se não cave o fosso entre as "duas culturas": Ciências e Humanidades. "A História, a Filosofia e Sociologia das Ciências são hoje componentes fortes da formação académica, consagradas nos respectivos currículos disciplinares, oferecidas pelas mais prestigiadas Instituições de Ensino Superior. O seu enraizamento em algumas delas conta já com várias décadas de existência e está bem patente na própria estrutura em que a Instituição se organiza."
E apresenta o caso da formação académica oferecida pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT) ou pelo California Institute of Technology (CALTECH), nos Estados Unidos, duas das mais prestigiadas instituições científicas em todo o mundo. "Tratando-se de duas Instituições criadas de raiz para a formação académica de cariz tecnológico, como o próprio nome indica, ambas tomaram para base da sua organização duas unidades básicas: por um lado, as Escolas ou Divisões de formação no domínio dos estudos dos fenómenos naturais e, por outro, a Escola ou Divisão das Ciências Sociais e Humanas."

sábado, 30 de julho de 2011

Ele disse isto?

Tudo o que esteja relacionado com moral remete, logicamente e em última análise, para a teologia, nunca para fundamentos seculares.


Max Horkheimer (1895-1973)

sábado, 18 de junho de 2011

Anselmo Borges: O reconhecimento e as suas esferas



Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (aqui):


Há antigos alunos que me convidam para ir às escolas fazer palestras sobre temas relacionados com a Filosofia. Os ouvintes são alunos dos 10.º, 11.º e 12.º anos e também outros professores. Procuro corresponder.


A última vez o tema era "A filosofia e o sentido da existência". E lá fui falando sobre o universo e o seu processo - a realidade é processual -, o salto da animalidade para a humanidade, a neotenia, os diferentes tipos de acesso à realidade, que é complexa, o sofrimento e o mal, o sentido e os sentidos enquanto caminhos, a questão do sentido último... No fim, antes das perguntas e comentários deles e delas, fui perguntando a este e àquele, a esta e àquela, o que tinha ficado. E todos foram dizendo que o mais interessante era aquilo do reconhecimento. Isso eles não iriam esquecer.


Uma surpresa, que não devia sê-lo. De facto, de que precisamos senão de reconhecimento, de valer para alguém, de alguém que nos dê valor, que justifique a nossa existência? É que, ao contrário de uma árvore ou de uma estrela, não nos basta existir; precisamos de existir para alguém, que nos devolva a nós mesmos na nossa dignidade e valor.


Não está a Europa dividida em Europa católica e Europa protestante, precisamente por causa do reconhecimento, em termos teológicos tradicionais, por causa da doutrina da justificação? Essa era a questão existencial de Lutero: quem me reconhece definitivamente, o que vale a minha vida, quem justifica incondicionalmente a minha existência,? E ele leu em São Paulo, na Carta aos Romanos: o homem é justificado pela fé. Quem acredita no Deus de Jesus tem a vida eterna.


E lá está Hegel e a famosa dialéctica do senhor e do escravo, na Fenomenologia do Espírito, que é disso que trata: da luta pelo reconhecimento. Quem vale o quê e para quem? Foi aí que Karl Marx foi beber, mas exigindo que se fosse à base socioeconómica da alienação e da reconciliação-reconhecimento.


E agora é Axel Honneth, director do Instituto de Investigação Social da Universidade Goethe, em Frankfurt, onde sucedeu a Jürgen Habermas, que mostra como sofrimentos e problemas sociais adquirem sentido e compreensão a partir do reconhecimento pelos outros. Já em 1992, com Luta pelo Reconhecimento, trouxe para o debate da filosofia social a importância do olhar aprovador ou reprovador dos outros: a existência dos indivíduos e dos grupos não se esgota na troca de bens e serviços, pois vive também das "expectativas de reconhecimento" dos outros. Daí, as lutas pela igualdade dos sexos, respeito pelas minorias sexuais, religiosas, culturais. A falta de reconhecimento acarreta humilhação e conflitos.


Catherine Halpern sintetizou os seus três princípios de reconhecimento. A imagem que cada um de nós tem de si mesmo, das suas capacidades e qualidades depende da imagem que julgamos que os outros têm de nós, isto é, do seu olhar. Honneth distingue três princípios de reconhecimento, correspondentes a três esferas sociais.


Na esfera da intimidade, há o princípio do amor, no sentido abrangente de todas as relações afectivas fortes nos domínios das relações amorosas, familiares, de amizade. Já Aristóteles observou que a vida sem amigos não valeria a pena. E Honneth sublinha a importância da relação da mãe com o bebé na construção da autoconfiança, da identidade e da autonomia. Não é na experiência do amor que radica a confiança em si próprio?


Na esfera da colectividade, o princípio da solidariedade. Para aceder ao sentimento de estima de si, cada um, concretamente no trabalho, deve poder sentir-se considerado útil à colectividade. Na situação de desemprego crescente, é inevitável a frustração e o aumento da conflitualidade. Porque a finalidade do trabalho não é apenas procurar meios de sustento para as necessidades materiais, mas provar que se é útil, contribuindo para o bem comum.


Na esfera das relações jurídicas, está o princípio da igualdade. Sendo vítima da discriminação, da marginalização, do não reconhecimento de igualdade de direitos, como se pode desenvolver o sentimento de respeito por si mesmo?

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Não é religião. Nem filosofia. Nem mito

Proclamamos com Karl Barth que o cristianismo não é uma religião, com Kierkegaard que não é uma filosofia, e com Bultmann que não é um mito: mas Deus não se teria tornado homem se não tivesse entrado, interior e positivamente, com contacto com estas três formas.


Hans Urs von Balthasar (1905-1988)

sexta-feira, 29 de abril de 2011

29 de Abril de 1951. Morre Wittgenstein


Ludwig Wittgenstein nasceu em Viena, no dia 26 de Abril de 1889, e morreu em Cambridge, no dia 29 de Abril de 1951. Era filho de Karl, um industrial ligado ao aço, e Leopoldine. Ambos os pais tinham ascendência judaica, mas Leopoldine tornou-se católica e educou Ludwig e os seus outros sete filhos na fé católica.

Wittgenstein foi professor primário antes de abandonar a profissão devido a métodos violentos. Durante a I Guerra Mundial escreve o "Tratactus Logico-Philosophicus", publicado em 1921 e que tem muita influência no positivismo lógico (ou atomismo lógico). A obra preconiza um silêncio sobre aquilo de que não se pode falar. E não se pode falar daquilo que não se pode provar. Também chamou a isso o “místico”. Para alguns, como que o "Tractatus" defendia o ateísmo. Para outros, como que cerca uma ilha pelo lado de fora, sem nunca entrar nela.

Nas “Investigações Filosóficas”, publicadas postumamente em 1953, com a teoria dos “jogos de linguagem”, concebe usos plurais para a linguagem, incluindo a religiosa.

O "Tactatus" e as "Investigações" estão publicados em Portugal num mesmo volume da Fundação Calouste Gulbenkian.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...