"O ateísmo é uma paisagem árida demais para que se viva nela muito tempo", escreveu Paul Arden.
Quando um ateu ou agnóstico me diz
- pois, mas vocês acreditam em algo, têm uma vantagem, sempre têm algo que vos ajude...
tenho de lhe responder
- não é uma vantagem, é um fraqueza; infelizmente não somos tão autossuficientes ou autoconfiantes como vocês.
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quinta-feira, 21 de dezembro de 2017
sábado, 4 de novembro de 2017
Faithbook
Por que é que a expressão da fé no facebook é tão pouco profunda, tão banal, tão folclórica, tão inconsequente, tão pouco atraente? Tenho cá para mim que faithbook só em livro, não em digital. A fé no digital passa pouco pelo facebook. Fé-cebook.
sábado, 13 de maio de 2017
Santos Pastorinhos
Visões, aparições, alucinações, imposições, construções, erupções. O que seja. Mas acredito que os Pastorinhos acreditam. Ter fé, na versão católica, também é ter fé na fé dos que nos precedem. Ter fé nos outros que têm fé.
sábado, 24 de outubro de 2015
Primeiro comer, depois filosofar
A fé cristã não é uma experiência que se possa planificar primeiro para a ter depois conforme se previu. Não resulta de uma qualquer racionalidade laboratorial. Impõe-se com a sua própria dinâmica à consciência daquele que reflete sobre ela. É claro que viver e pensar são dois momento que se devem conjugar no itinerário da fé. Mas convém notar que existe, aqui, uma ordem de prioridade. Normalmente é o viver que está primeiro; o pensar vem a seguir, procurando acompanhá-lo o melhor que pode.
Domingos Terra, in "A fé da Igreja", Paulus, pág. 131
Domingos Terra, in "A fé da Igreja", Paulus, pág. 131
quinta-feira, 9 de abril de 2015
Fé e política
De férias em Cuba, um português conversa com um cubano. A certa altura pergunta-lhe o cubano: "Você vem de um país muito católico, até lá apareceu Nossa Senhora... Fátima. É católico?"
"Mais ou menos", responde o português. "Acredito, mas não pratico. Já agora, deixe-me fazer-lhe uma pergunta", continua o português. "Você vive num país oficialmente comunista. É comunista?"
"Mais ou menos", responde o cubano. "Pratico, mas não acredito".
"Mais ou menos", responde o português. "Acredito, mas não pratico. Já agora, deixe-me fazer-lhe uma pergunta", continua o português. "Você vive num país oficialmente comunista. É comunista?"
"Mais ou menos", responde o cubano. "Pratico, mas não acredito".
terça-feira, 7 de abril de 2015
Laicidade, o que é?, por Claudio Magris
"Laicidade não é um conteúdo filosófico, mas sim um âmbito mental, a capacidade de distinguir o que é demonstrável racionalmente do que, pelo contrário, é objeto de fé - independentemente da adesão ou não a essa fé - e de distinguir as esferas e os âmbitos das diferentes competências, por exemplo, as da Igreja e as do Estado, o que - precisamente conforme o dito evangélico - se deve dar a Deus e o que se deve dar a César."
Claudio Magris, na pág, 24 do admirável "A História não acabou. Ética, Política, Laicidade", Quetzal
quarta-feira, 29 de outubro de 2014
DN: Os perigos e as virtudes de combinar ciência com religião
No DN de hoje. Leia-se com atenção o depoimento de Carlos Filhais. Continuo a pensar que a afirmação de que o Big Bang precisa de Deus ou exige uma intervenção divina é infeliz. Como Fiolhais. Mas pelo que tenho lido noutros lados, a intervenção mais vasta do Papa parece ter em vista os criacionistas que não aceitam o Big Bang nem a teoria da evolução.
quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014
O Papa quer destruir um argumento que tem levado muita gente à Igreja
O Papa pediu aos cardeais, novos e velhos, que evitem “intrigas, maledicência, fações, favoritismos, preferências”. Li aqui.
Com certeza não falou por falar. A linguagem dos mais altos responsáveis da
Igreja deve ser a do Evangelho, disse Francisco. Na realidade, isso vale para
qualquer cristão. Em Roma ou na Romelha de Baixo.
Temo, porém, que o Papa esteja a contribuir para a destruição de um forte
argumento para acreditar na Igreja Católica: o da pecaminosidade dos seus
membros.
Duas histórias vão contra Francisco. A primeira, vem daqui. Durante
as convulsões napoleónicas, queixam-se ao cardeal Consalvi que “Napoleão quer
destruir a Igreja”. E o cardeal responde: “Isso nem sequer nós fomos capazes de
fazer”.
A outra tem mais uns séculos. Vem no “Decameron”, de
Boccaccio (séc. XIV). Tento resumir.
O mercador Giannotto di Civigni, cristão,
quer convencer o seu colega Abraão, judeu, a converter-se ao cristianismo.
Depois de muita catequização, Abraão dispõe-se a aceitar a nova fé, mas precisa
de ir a Roma observar “a vida e os costumes” do vigário de Deus na Terra e dos
seus irmãos cardeais. Giannotto bem tenta convencê-lo a não sair de Paris, onde
há muita gente sábia, mas Abraão não cede. E vai mesmo a Roma.
Quando regressa, o judeu vai ter com Giannotto, que perdera toda a esperança de ver o seu amigo batizado. Abraão conta o que viu em Roma: “Nenhuma santidade, nenhuma devoção, nenhuma boa obra, nenhum exemplo de vida”, e segue-se uma descrição dos pecados (aqui não há espaço!) para mostrar que Roma era uma “oficina de diabólicas operações mais do que divinas”. Por fim, revela o seu veredicto: se aqueles que deveriam ser o “sustentáculo” da religião tudo fazem para a “reduzir a nada” e mesmo assim ela se dilata, “radiosa”, é porque é a “verdadeira e mais santa” e “tem no Espírito Santo fundamento e sustentáculo”. E o judeu recebe o batismo na Notre-Dame de Paris.
Quando regressa, o judeu vai ter com Giannotto, que perdera toda a esperança de ver o seu amigo batizado. Abraão conta o que viu em Roma: “Nenhuma santidade, nenhuma devoção, nenhuma boa obra, nenhum exemplo de vida”, e segue-se uma descrição dos pecados (aqui não há espaço!) para mostrar que Roma era uma “oficina de diabólicas operações mais do que divinas”. Por fim, revela o seu veredicto: se aqueles que deveriam ser o “sustentáculo” da religião tudo fazem para a “reduzir a nada” e mesmo assim ela se dilata, “radiosa”, é porque é a “verdadeira e mais santa” e “tem no Espírito Santo fundamento e sustentáculo”. E o judeu recebe o batismo na Notre-Dame de Paris.
Claro que, na linha se Francisco, a nossa conclusão será
outra. Se mesmo com pessoas de maus hábitos a Igreja é boa, como não seria se
todos cultivassem as atitudes evangélicas.
sábado, 15 de fevereiro de 2014
Mundo novo
A fé tem muito a ver com o simples facto de que há vida cheias de confiança para serem vistas, de que podemos ver, em certas pessoas crentes, um mundo em que gostaríamos de viver.
Rowan Williams
Rowan Williams
sexta-feira, 10 de janeiro de 2014
Entretanto nas Filipinas
Procissão nas Filipinas. Vem no "Público" de hoje, online, "fotos do dia", mas não diz qual é a comemoração.
domingo, 15 de dezembro de 2013
A nova iconoclastia
Ainda Henrique Raposo ("Expresso" de 14-12-2013):
No passado, durante a geração dos meus pais, recusar a
fé era um ato iconoclasta. Mas, hoje em dia, depois de décadas de décadas de
licenciosidades, de profanações, de recusas de Deus, de derrubes de tabus e
dogmas, de fugas ao luto, depois deste vendaval profano, dizia eu, a iconoclastia
só pode estar nos crentes, naqueles que dizem “eu acredito”, “sim, eu faço
luto”.
sábado, 14 de dezembro de 2013
Nova rebeldia
Diz Henrique Raposo no "Expresso" de hoje (sim, hoje foi um dos dois ou três sábados por ano em que comprei o semanário), numa crónica sobre "a família de negro" (avô, avó, mãe e filho estão de luto e mostram-no publicamente vestindo de negro):
"A fé e a nova rebeldia, a suprema transgressão, a desobediência que resta".
"A fé e a nova rebeldia, a suprema transgressão, a desobediência que resta".
quinta-feira, 21 de novembro de 2013
Um brinde a C. S. Lewis
Faz amanhã 50 anos que morreu C. S. Lewis e ainda não pensei na forma como vou assinalar a data. Mas beber um cálice de Porto até é uma boa sugestão.
Numa conversa com empregados da Electric and Musical
Industries Ltd., em Heyes, Middlesex (Inglaterra), no dia 18 de Abril de 1944,
perguntam-lhe a C. S. Lewis:
Qual das religiões do mundo confere aos seus seguidores
maior felicidade?
E ele respondeu: "Qual
das religiões do mundo confere aos seus seguidores maior felicidade? Enquanto
dura, a religião da auto-adoração é a melhor. Tenho um velho conhecido já com
seus 80 anos de idade, que vive uma vida de inquebrantável egoísmo e auto-adoração
e é, mais ou menos, lamento dizer, um dos homens mais felizes que conheço. Do
ponto de vista moral, é muito difícil. Eu não estou a abordar o assunto segundo
esse ponto de vista. Como vocês talvez saibam, não fui sempre cristão. Não me
tornei religioso à procura da felicidade. Eu sempre soube que uma garrafa de
vinho do Porto me daria isso. Se vocês quiserem uma religião que vos faça
felizes, não recomendo o cristianismo. Tenho certeza que deve haver algum
produto americano no mercado que será de maior utilidade. Mas quanto a isso,
não sei como vos ajudar.
quarta-feira, 20 de novembro de 2013
O que é evangelizar
É um aspeto extremamente importante da missão evangelizadora, um tipo de ajuda que se pode propor a qualquer pessoa, prescindindo da sua confissão ou da sua fé. Não consiste em dizer em primeiro lugar: deixa as tuas convicções e acede às minhas, que são melhores; consiste em oferecer uma ajuda a partir da experiência de Jesus, com a qual cada homem deve confrontar-se se quer chegar à liberdade dos filhos.
Carlo Maria Martini
Carlo Maria Martini
terça-feira, 19 de novembro de 2013
Bento Francisco: Fé como ilusão de luz
Elisabeth Nietzsche
Diz Bento Francisco (e ficamos a saber que o pastor luterano deu nome bíblico à filha mais nova) no número 2 de "Lumen Fidei":
Nos tempos modernos, pensou-se que tal luz poderia ter sido suficiente para as sociedades antigas, mas não servia para os novos tempos, para o homem tornado adulto, orgulhoso da sua razão, desejoso de explorar de forma nova o futuro. Nesta perspectiva, a fé aparecia como uma luz ilusória, que impedia o homem de cultivar a ousadia do saber. O jovem Nietzsche convidava a irmã Elisabeth a arriscar, «percorrendo vias novas (…), na incerteza de proceder de forma autónoma». E acrescentava: «Neste ponto, separam-se os caminhos da humanidade: se queres alcançar a paz da alma e a felicidade, contenta-te com a fé; mas, se queres ser uma discípula da verdade, então investiga». O crer opor-se-ia ao indagar. Partindo daqui, Nietzsche desenvolverá a sua crítica ao cristianismo por ter diminuído o alcance da existência humana, espoliando a vida de novidade e aventura. Neste caso, a fé seria uma espécie de ilusão de luz, que impede o nosso caminho de homens livres rumo ao amanhã.
segunda-feira, 18 de novembro de 2013
Anselmo Borges: "O enigma da pergunta e a religião"
Texto de Anselmo Borges no DN de sábado, 16 de novembro:
O ser humano é constitutivamente o ser da pergunta, não podendo deixar de perguntar. Mas o próprio perguntar é enigmático. Se perguntamos, é porque não sabemos, mas sobre aquilo de que nada sabemos não perguntamos. Então, o que é que sabemos quando perguntamos? Sabemos sempre de modo imediato e atemático sobre o ser. É sempre no ser que estamos, numa experiência originária.
Bertrand Russel, desta vez sem cachimbo
Mas essa experiência é a do ser na sua ambiguidade, causando-nos, por isso, espanto positivo e negativo e levando-nos à pergunta: o que é? Outra experiência fundamental, explicitando esta, tem que ver com o aparente e o real. Há sempre aquele encontro com o que nos parecia real e era apenas aparente: alguém, por exemplo, parecia cheio de saúde e, afinal, estava doente. Daqui, a pergunta: o que é verdadeiramente? Qual é a realidade última? Como escreve o filósofo Carlos João Correia, a religião é, numa primeira abordagem essencial, "um fenómeno cultural, de natureza pessoal e social, que engloba um conjunto de crenças, acções e emoções organizadas em torno da ideia do que se poderia designar, em termos filosóficos, "como uma realidade última e fundamental"".
Esta realidade última remete-nos e liga-nos ao incondicionado ou, se se quiser, ao absoluto. De facto, o contingente, o efémero, tem como sua condição de possibilidade uma realidade necessária prévia, o incondicionado.
Aqui, pode surgir uma crítica semelhante à que Bertrand Russell fazia a uma causa primeira, a Deus enquanto causa sui, causa de si, causa incausada: se tudo tem uma causa, qual é a causa de Deus?, se o incondicionado é condição de todo o condicionado, qual é a sua causa? Simon Blackburn mostrou que a argumentação de Russell não convence: "Russell terá notado que o argumento da causa primeira era mau, excepcionalmente, terrivelmente mau, uma vez que a conclusão não só não se segue das premissas, mas também na realidade as contradiz. A sua ideia era que o argumento parte da premissa de que "tudo tem uma causa (prévia e distinta)", mas acaba na conclusão de que tem de haver algo que não tem uma causa prévia e distinta, mas "tem em si a razão da sua própria existência". Portanto, a conclusão nega o que a premissa afirma. Ora, a rejeição de Russell é um pouco fraca. Realmente, o objectivo do argumento, na perspectiva teológica, é mostrar que, apesar de tudo o que é material ou físico ter uma causa prévia distinta, precisamente este facto leva-nos a postular algo de diferente, que não tem uma causa prévia distinta. No jargão teológico, isso seria algo que é "necessário" ou "causa sui": algo que é a sua própria causa. E uma vez que isto não se verifica no caso das coisas comuns que nos rodeiam, precisamos de postular algo extraordinário, uma Divindade enquanto titular desta extraordinária auto-suficiência." A questão é realmente a de um ser auto-suficiente.
É raro tematizarmos esta questão essencial, mas ela está lá sempre presente. Carlos João Correia acrescenta: "Mesmo que não quiséssemos, a percepção da nossa mortalidade far-nos-ia relembrar a sua presença silenciosa, pois a morte, enquanto nadificação das nossas possibilidades, faz emergir a própria questão de se ser."
Aceitando o carácter irredutível e necessário de uma "realidade última", fica a questão da relação humana com ela, percebendo-se que varie em função das diferentes mundividências e perspectivas culturais. Assim, "múltiplas posturas designadas como ateias" - pense-se, por exemplo, na concepção marxista de uma realidade última dialéctica - "não deixam, por isso, de serem religiosas". De facto, dá-se uma experiência religiosa, sempre que há "a consciência de dois postulados fundamentais: 1. Para lá da contingência dos fenómenos existe um horizonte em que eles têm sentido; 2. É incontornável para cada ser pessoal uma certa postura de relacionamento com esse mesmo horizonte." Por isso, embora a importância da palavra religião pareça desaparecer a um ritmo galopante do léxico humano contemporâneo, "a sua realidade permanece actual, na medida em que a resposta global às questões centrais da vida permanece tão ou mais viva do que antes".
quinta-feira, 14 de novembro de 2013
Kierkegaard: "O presente escritor não compreendeu o Sistema"
Kierkegaard escreveu isto em "Temor e Tremor" e à custa dele já dei umas boas gargalhadas hoje. Não, o "Sistema" não é o sistema de que tanto se fala no meio futebolístico, nem a frase se refere ao Facebook. "Sistema" era a filosofia de Hegel.
O presente escritor não compreendeu o Sistema, não sabe se ele existe realmente nem se está terminado; a sua débil cabeça já está bastante sobrecarregada por pensar como, nos nossos dias, toda a gente tem uma tão prodigiosa cabeça, uma vez que toda a gente tem tão prodigiosos pensamentos.
quinta-feira, 7 de novembro de 2013
100 anos de Camus
Faz hoje 100 anos que Camus nasceu. A notícia que aqui reproduzo é do "Público" deste 7 de novembro.
É muito difícil pensar a fé e o sentido da vida - duas coisas intrinsecamente ligadas - sem aludir a Camus e a obras como "O mito de Sísifo", "A peste", "O homem revoltado".
Camus, que, como o texto diz, não é figura consensual, tinha uma grandeza moral e coerência que não encontrávamos (o "nós" é do grupo do seminário de filosofia sobre o existencialismo, no início da década de 1990) em Sartre.
Sartre dizia que o "inferno são os outros". Com Camus sabíamos que o inferno podia estar dentro de nós. Ele defendia que, se alguma redenção houvesse, viria pela arte. O que não chegava, mas já era algo. E os seus livros, com os títulos envoltos num azul turquesa (naquela coleção da Livros do Brasil), sobre o absurdo, ainda fazem sentido.
É muito difícil pensar a fé e o sentido da vida - duas coisas intrinsecamente ligadas - sem aludir a Camus e a obras como "O mito de Sísifo", "A peste", "O homem revoltado".
Camus, que, como o texto diz, não é figura consensual, tinha uma grandeza moral e coerência que não encontrávamos (o "nós" é do grupo do seminário de filosofia sobre o existencialismo, no início da década de 1990) em Sartre.
Sartre dizia que o "inferno são os outros". Com Camus sabíamos que o inferno podia estar dentro de nós. Ele defendia que, se alguma redenção houvesse, viria pela arte. O que não chegava, mas já era algo. E os seus livros, com os títulos envoltos num azul turquesa (naquela coleção da Livros do Brasil), sobre o absurdo, ainda fazem sentido.
segunda-feira, 28 de outubro de 2013
Qual o conhecimento que mais implica o conhecedor?
Andando e ler a "Lumen Fidei", intermitentemente e ao sabor de outras intenções que não o puro gosto em ler o documento do princípio ao fim, encontro este ponto que responde àquela velha questão de se se pode ser teólogo sem ser crente (negrito meu):
36. Como luz que é, a fé convida-nos a penetrar nela, a explorar sempre mais o horizonte que ilumina, para conhecer melhor o que amamos. Deste desejo nasce a teologia cristã; assim, é claro que a teologia é impossível sem a fé e pertence ao próprio movimento da fé, que procura a compreensão mais profunda da autorrevelação de Deus, culminada no Mistério de Cristo. A primeira consequência é que, na teologia, não se verifica apenas um esforço da razão para perscrutar e conhecer, como nas ciências experimentais. Deus não pode ser reduzido a objeto; Ele é Sujeito que Se dá a conhecer e manifesta na relação pessoa a pessoa. A fé reta orienta a razão para se abrir à luz que vem de Deus, a fim de que ela, guiada pelo amor à verdade, possa conhecer Deus de forma mais profunda.
Esta passagem beneditino-franciscana levou-a a reler um texto de 1989, de grande Martín Descalzo (1930-1991):
Conhecê-lo não é uma curiosidade. É muito mais do que um fenómeno de cultura. É algo que põe em jogo a nossa existência. Porque com Jesus não ocorre como com outras personagens da história. Que César passasse o Rubicão ou não, é um feito que pode ser verdade ou mentira, mas que nada muda o sentido da minha vida. Que Carlos V fosse imperador da Alemanha ou da Rússia, nada tem que ver com a minha salvação como ser humano. Que Napoleão morresse derrotado em Elba ou que tivesse chegado imperador ao fim dos seus dias, não moverá um único ser humano a deixar a sua casa, a sua comodidade e o seu amor e pôr-se a falar dele numa aldeola no coração de África.
Mas Jesus não, Jesus exige respostas absolutas. Ele a assegura que, crendo nele, o ser humano salva a sua vida e, ignorando-o, a perde. Este homem apresenta-se como “o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6). Portanto – se isto for verdade –, o nosso caminho e a nossa vida mudam segundo a nossa resposta à pergunta sobre a sua pessoa.
E como responder-lhe sem conhecê-lo, sem se ter aproximado da sua história, sem contemplar os segredos da sua alma, sem ter lido e relido as suas palavras?
sexta-feira, 25 de outubro de 2013
Belo texto
Estou a ler, aos pouquinhos, como quase tudo ultimamente, a "Lumen fidei", a encíclica de Bento XVI, perdão, Francisco. Só agora. Devido à dupla paternidade, está a passar despercebida, parece-me. Não me recordo de Francisco a ter citado, como costumava ser normal nos discursos papais. Nem se vêm por aí grandes incentivos à sua leitura. Nem os bispos a citam como costumam citar outros documentos papais recém-aparecidos. Mas é um belo texto. (Vou entrar no terceiro capítulo.) Indispensável para quem pensa sobre fé, razão, verdade, teologia, Igreja. Para pôr bem juntinho à "Fides et ratio". Que, afinal, teve como principal redator o mesmo Ratzinger.
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Sinodalidade e sinonulidade
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