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terça-feira, 7 de novembro de 2017

Samuel Úria: É Preciso Que Eu Diminua


Já não caibo numa casa
Onde o espaço é todo meu
Não são obras que me salvam
Eu só sei crescer

Durmo de janela aberta
Tenho os braços no estendal
Eu podia acenar-vos
Mas só sei crescer

Leio o topo da estante
Tudo livros de engordar
E eu preciso abreviar-me
Mas só sei crescer

Qualquer palmo que me meça
É de mão sem cicatriz
O que eu sou é largo de ossos
Pois só sei crescer

Eu só me caibo cá dentro
Mas bato no peito
Por estar com meu ar rarefeito
Eu inicio o discurso
Citando o sujeito
Primeira pessoa é preceito

Eu nem cá dentro me caibo
Pois bate a cabeça no teto
E cai na travessa
Eu já calei o discurso
Que a língua tropeça
Mas o gigantismo amordaça

Eu já invento virtude
No pico não peco
Lá em baixo ficava marreco
Estou tão em-mim-mesmado
É tiro ao boneco
Gigante barrado no beco

Eu já não sei inventar-me
É só mais do mesmo
Fermento em massa de autismo
Eu nem de mim já me pasmo
Há mar e marasmo
Há ir e voltar aforismo


Mas eu só sei crescer

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

João Miguel Tavares: Ser cristão não serve para nada?

João Miguel Tavares no Público de 20 de agosto:

Inúmeros leitores agnósticos e ateus ficaram ofendidos com as minhas palavras. Essa ofensa tem um duplo efeito sobre mim: chateia-me e entristece-me, porque me parece pura e simplesmente absurda. Vamos por partes. Em primeiro lugar, a questão dos Evangelhos. Eu não conheço todos os livros sapienciais do planeta, mas dentro daquilo que é a literatura ocidental ou a tradição dos monoteísmos não estou a ver que outro livro trate o amor ao próximo e a empatia de forma mais radical do que os Evangelhos. Isto só é uma opinião original para quem nunca leu a Bíblia. Não percebo porque é que um ateu não pode ler os Evangelhos com a mesma abertura intelectual com que lê Hamlet. Eu preciso de provar a existência do crânio de Yorick para apreciar as palavras de Shakespeare? Então para quê viver obcecado com a adesão à realidade dos conteúdos da Bíblia? Esqueça-se a existência de Deus e aprecie-se a literatura. Não é preciso acreditar na ressurreição para admitir que a empatia se encontra retratada nos Evangelhos como em nenhum outro lugar.

É ler tudo aqui.

sábado, 14 de dezembro de 2013

Anselmo Borges; "Francisco: a alegria do Evangelho (2)"

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje.

O Papa Francisco é hoje, senão a figura mundial mais popular, uma das mais populares e influentes. Como escrevi aqui na semana passada, a sua recente exortação apostólica "A alegria do Evangelho", em que traça os caminhos fundamentais do seu pontificado, foi objecto de imenso interesse e análise por parte dos media mundiais de referência. E fizeram-no sobretudo na parte dedicada à situação económico-financeira e social do nosso mundo.


A causa de Deus é a causa do ser humano, de todo o ser humano, feliz e pleno, começando, evidentemente, pelos mais pobres e marginalizados, os das periferias. Essa tem de ser também a causa da Igreja. Por isso, escreve: para quem quer seguir o Evangelho "há um sinal que nunca deve faltar: a opção pelos últimos, por aqueles que a sociedade descarta e deita fora". "Estamos chamados a descobrir Cristo neles, a emprestar-lhes a nossa voz nas suas causas." Por isso, "hoje devemos dizer "não a uma economia da exclusão e da desigualdade social". Esta economia mata. Não é possível que a morte por enregelamento de um idoso sem-abrigo não seja notícia, enquanto o é a descida de dois pontos na Bolsa. Isto é exclusão. Hoje tudo entra no jogo da competitividade e da lei do mais forte, em que o poderoso engole o mais fraco", e a consequência é que "grandes massas da população vêem-se excluídas e marginalizadas" e "os excluídos não são "explorados", mas resíduos, "sobras"".

Denuncia a nova tirania de um capitalismo desregulado e desenfreado. Há quem pressupõe que "todo o crescimento económico, favorecido pelo livre mercado, consegue por si mesmo produzir maior equidade e inclusão social. Esta opinião, que nunca foi confirmada pelos factos, exprime uma confiança vaga e ingénua na bondade daqueles que detêm o poder económico e nos mecanismo sacralizados do sistema económico reinante. Entretanto, os excluídos continuam a esperar", pois o ideal egoísta desenvolveu "uma globalização da indiferença."

Este desequilíbrio "provém de ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira. Por isso, negam o direito de controlo dos Estados, encarregados de velar pela tutela do bem comum. Instaura-se uma nova tirania invisível, às vezes virtual, que impõe, de forma unilateral e implacável, as suas leis e as suas regras." Neste sistema devorador para aumentar os lucros, quem ou o que é frágil, como o meio ambiente, fica indefeso perante "os interesses do mercado divinizado, transformados em regra absoluta".

Está aí uma cultura do bem-estar que reduz o ser humano a consumidor e que nos anestesia, a ponto de perdermos a serenidade, se o mercado nos oferece algo que ainda não possuímos. Uma das causas desta situação é a idolatria do dinheiro. "A crise financeira que atravessamos faz-nos esquecer que, na sua origem, há uma crise antropológica profunda: a negação da primazia do ser humano". Criámos novos ídolos: o bezerro de ouro é na sua nova versão "o fetichismo do dinheiro e a ditadura de uma economia sem rosto e sem um objectivo verdadeiramente humano". Ora, "o dinheiro deve servir e não governar". Como escreveu São João Crisóstomo, "não fazer os pobres participar dos seus próprios bens é roubá-los e tirar-lhes a vida. Não são nossos, mas deles, os bens que aferrolhamos".

Para uma sociedade mais humana, é essencial a ética, uma "ética não ideologizada". E previne: "Enquanto não se eliminar a exclusão e a desigualdade dentro da sociedade e entre os povos será impossível erradicar a violência. Sem igualdade de oportunidades, as várias formas de agressão e de guerra encontrarão um terreno fértil que, mais cedo ou mais tarde, há-de provocar a explosão."

Francisco: um perigoso esquerdista? Enquanto uma certa esquerda faz aproveitamento político-partidário, a ultradireita, como o Tea Party, acusa-o de marxismo. Mas ele apenas anuncia o Evangelho, cujo único interesse é a vida plena para todos. "Não podemos mais confiar nas forças cegas e na mão invisível do mercado." Assim, pede a Deus que "nos conceda mais políticos que tenham verdadeiramente a peito a sociedade, o povo, a vida dos pobres."

sábado, 7 de dezembro de 2013

Anselmo Borges: "Francisco: a alegria do Evangelho (1)"

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje:


Precisamente com este título - "A alegria do Evangelho" -, Francisco acaba de publicar o seu primeiro grande texto, na forma de exortação, que foi objecto de referência e análise por parte dos media em todo o mundo e nomeadamente dos principais diários mundiais, como o The New York Times, o Wall Street JournalThe GuardianLe MondeEl País. Viram nele, e com razão, o programa do pontificado de Francisco, com duas partes: uma que diz respeito à renovação no interior da Igreja, outra referente à missão da Igreja perante a situação económico-financeira e social do mundo. Centro-me hoje na primeira, ficando a segunda para o próximo sábado.

"A alegria do Evangelho" não é uma redundância? De facto, a própria palavra Evangelho (do grego, "eu angélion") significa notícia boa, felicitante. Mas Francisco quer sublinhar isso mesmo e, por outro lado, sabe que, como denunciou Nietzsche, o que, de facto, muitas vezes, a Igreja transmitiu, por palavras e obras, foi um Disangelho, uma notícia má e causadora de infelicidade.

Os anunciadores do Evangelho terão, antes de mais, de perguntar a si próprios o que significa o Evangelho para eles mesmos. Estão verdadeiramente interessados nele porque lhes traz alegria, sentido para a existência e salvação? Só a partir daí poderão avançar para a sua entrega aos outros. Precisamente porque é uma notícia boa, feliz e felicitante.

Aí está então a urgência da renovação na Igreja. Para a pedofilia, tolerância zero. Transparência total no Banco do Vaticano: acaba de nomear o seu secretário pessoal como supervisor do IOR e da comissão económico-administrativa, com o objectivo de estar directamente informado. Francisco não quer bispos "príncipes" nem "de aeroporto" a viajar em vez de estar ao serviço das pessoas. E sabe que a missão da Igreja não é ganhar prosélitos, mas contribuir para a felicidade e alegria de todos. Tudo parte desta constatação, que inaugura a exortação: "A alegria do Evangelho enche o coração e a vida toda dos que se encontram com Jesus. Aqueles que se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, da solidão. Com Jesus Cristo, nasce constantemente e renasce a alegria. Nesta exortação quero dirigir-me aos cristãos para os convidar para uma nova etapa evangelizadora marcada por essa alegria e indicar caminhos para a marcha da Igreja nos próximos anos." Ficam aí alguns desses caminhos.

A palavra mais repetida no documento é a palavra alegria. A Igreja tem, pois, de ser uma casa onde reina a alegria, o que não significa ausência de esforço, de trabalho e sacrifício. A Igreja tem de ser a "Casa do Pai", o Deus que ama e perdoa sempre, e onde, por isso, as pessoas se sentem bem: os sacramentos (baptismo, eucaristia...) não são só para "os perfeitos". "A Igreja não é uma alfândega", controladora das pessoas e fiscalizadora das suas ideias, mas uma casa aberta, onde há transparência e fraternidade. Nela, o predomínio não pertence à doutrina mas ao Evangelho e, portanto, à confiança e à esperança, aonde todos se podem acolher. A Igreja tem de ser missionária, sair de si mesma, arriscar e ir ao encontro das pessoas, sobretudo das que vivem nas "periferias" geográficas e existenciais. Uma Igreja livre, capaz de denunciar profeticamente as injustiças do mundo. Uma Igreja atenta aos "sinais dos tempos", como mandou o Concílio Vaticano II, e assim capaz de comunicar a sua mensagem com linguagem viva e actual - atenção às homilias!

Impõe-se a reforma das estruturas eclesiásticas, portanto, mais colegialidade e sinodalidade, isto é, mais democracia. "Uma excessiva centralização, mais do que ajudar, complica a vida da Igreja e a sua dinâmica missionária." Assim, "não se deve esperar do Papa uma palavra definitiva ou completa sobre todas as questões". "Não é conveniente que o Papa substitua os episcopados locais no discernimento de todas as problemáticas que se colocam nos seus territórios." "Igreja somos todos" e por isso é necessário desclericalizá-la e activar a corresponsabilidade dos leigos, reconhecendo à mulher os seus direitos nos lugares de decisão.

sábado, 17 de agosto de 2013

Anselmo Borges: "O que pensa Francisco: 1. sobre Deus"

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje:

Depois de gravíssimos e sucessivos escândalos, quando a Igreja ia perdendo a credibilidade, chegou o Papa Francisco e os seus gestos e palavras anunciam um pontificado de mudança, que move consciências e desperta horizontes novos de esperança, de e para a humanidade.

Líder planetário, de influência global, importa conhecer o seu pensamento. O que pensa realmente Francisco, em temas fundamentais? Tentarei, ao longo dos próximos sábados, apoiando-me sobretudo na obra "Sobre o Céu e a Terra", na qual dialoga com o rabino A. Skorka, publicada pela Clube do Autor, responder a esta pergunta essencial.

O cardeal Bergoglio, actual Papa Francisco, segue mais uma teologia narrativa do que uma teologia dogmática. Esta situa-se numa linha mais grega e responde com dogmas enquanto aquela se situa num horizonte mais vivencial e responde sobretudo com categorias históricas: o que é que acontece, quando Deus está presente? Lembre-se o passo do Evangelho, quando os discípulos de João Baptista vão perguntar a Jesus se ele é o Messias e Jesus responde: "Ide dizer a João o que ouvis e vedes: os coxos andam, os cegos vêem, o Reino de Deus está a concretizar-se".

Assim, Deus encontra-se numa experiência de caminho: "Na experiência pessoal de Deus, não posso prescindir do caminho." Trata-se de uma experiência dinâmica, de procura por diversos caminhos: "o da dor, o da alegria, o da luz, o da escuridão." O homem actual tem dificuldade em encontrá-lO, porque anda disperso. Diria, portanto, ao homem de hoje que "faça a experiência de entrar na sua intimidade para conhecer o rosto de Deus. O Deus vivo é o que ele vai ver com os seus olhos, dentro do seu coração".

Há uma experiência originária: a da dádiva. A criação é-nos dada e nós somos dados a nós mesmos. Temos uma tarefa: dominar a Terra. "Mas há um momento em que o homem se excede nessa tarefa, entusiasma-se em excesso e perde o respeito pela natureza", surgindo então os problemas ecológicos, que "são as novas formas de incultura". É preciso superar o síndroma de Babel, quando se verifica o exagero da tarefa, ignorando a dádiva. O construtivismo puro anda unido à confusão das línguas, isto é, à falta de diálogo, ao esquecimento do outro, à crispação, à desinformação, à agressão.

Percebe-se então que a oração não é a tentativa de "controlar Deus": "tratar-se-ia de um desvio, de um ritualismo excessivo ou de muitas atitudes de controlo." "Quando os actos litúrgicos se transformam em eventos sociais, perdem força": pense-se em certos casamentos e "no vestido - ou no despido". São pessoas que "não praticam qualquer acto religioso; vão apenas exibir-se". "Eu acredito que o mundano é narcisista, é consumista, é hedonista. O espírito da celebração litúrgica tem de assumir outro tom, ligado ao encontro com Deus". Na oração autêntica, há momentos de profundo silêncio reverente, a par do falar e do ouvir humilde.

A oração está unida à prática da justiça: "o acto que se concretiza com a ajuda ao próximo é oração. Caso contrário, cai no pecado da hipocrisia, que é como uma esquizofrenia da alma. Pode-se sofrer destes traços disfuncionais, se não tiver em conta que o Senhor existe no meu irmão, e que o meu irmão está a passar fome. Se uma pessoa não cuidar do seu irmão, não pode falar com o Pai do seu irmão, com Deus."

Não podemos definir Deus: podemos dizer o que Deus não é, podemos falar dos seus atributos, mas "não podemos dizer o que é". Sentimos que está presente, mas "não conseguimos controlá-lo". A fé não desfaz todas as trevas e dúvidas.

Com pessoas ateias, "partilho as questões humanas, mas não lhes apresento imediatamente o problema de Deus, excepto no caso de mo colocarem". "Não olho a relação com o ateu para fazer proselitismo, respeito-o e mostro-me como sou. Desde que haja conhecimento, surgem o apreço, o afecto e amizade. Não tenho qualquer tipo de reticências, não lhe digo que a sua vida está condenada, porque estou convencido de que não tenho o direito de fazer um juízo de valor sobre a honestidade dessa pessoa."

quinta-feira, 20 de junho de 2013

domingo, 2 de junho de 2013

Bento Domingues: "O segredo da alegria de João XXIII (2)"

Bento Domingues no "Público" de hoje:

É próprio do moralismo destilar maldições sobre as mais autênticas alegrias humanas. Instalou-se, há muitos séculos, em certas correntes do cristianismo e reaparece, periodicamente, como se fosse a sua versão mais genuína pelo seu “desprezo do mundo”. É, na verdade, uma importação estranha à poética pregação de Cristo que respira, em cada gesto e em cada parábola, o gosto da plenitude da vida ( Jo 20,30-31).

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Ainda estou a pensar nisto

O humorista segue o princípio do Evangelho: ama o próximo como a ti mesmo.

José Luis Martín Descalzo

domingo, 26 de maio de 2013

"Se Jesus fala de demónios e eles não existem, enganou-nos"


Por estes dias, regressou um velho argumento sobre a existência real de demónios (enquanto seres sobrenaturais que por vezes possuem pessoas e depois são expulsos por exorcismos). Digo regressou porque já por cá andou há um ano. E regressou num ou noutro comentário  de entradas recentes neste blogue, tal como nas mensagens privadas do meu espaço no Facebook. É de lá que retiro as seguintes frases, sem dizer quem é o autor. Ele poderia ter escrito no blogue, mas preferiu o recato do FB e por isso não digo o seu nome.
Cristo expulsou demónios. Está em todos os evangelhos. Os apóstolos fizeram o mesmo. Está nos Actos dos Apóstolos. Também nega isso tudo? Ou Cristo (que é Deus, nisso concordamos) desconhecia factos clínicos psicológicos, inacessíveis à ciência da época? Os apóstolos, coitados, ainda vá lá: poderiam desconhecer as diferenças entre doenças psicológicas e possessões. Agora, Deus? Cristo não consegue ver a diferença entre epilepsia e possessão? E, já agora, Cristo não podia ter sido mais claro, e ter dito que o Diabo não existia? É que Cristo, ao falar sobre o Diabo como se ele existisse, acaba por nos baralhar...
Resumiria assim o que está acima: Jesus Cristo sabe tudo e não engana ninguém (ou não seria Deus). Jesus Cristo expulsou demónios, como os evangelhos atestam. Logo, eles existem, pois Jesus não quereria induzir-nos em erro.

Em parte, estas questões já aqui foram abordadas. Primeiro, nos evangelhos, Jesus expulsa demónios (e não o diabo – são distintos) pela força da palavra e não por sortilégios (como faziam outros) no contexto do anúncio da soberania absoluta de Deus (reinado de Deus); depois, é possível interpretar as possessões como doenças do foro psíquico e, mais do que isso, vitimizações num contexto social opressor. Diz um autor, em parte afastando-se da ideia das doenças, que as possessões eram uma estratégia complexa utilizada de maneira mórbida por pessoas oprimidas para se defenderem de uma situação insuportável. Vale a pena ler e reler o texto (aquirefiro-me às páginas digitalizadas). No final, com aquela interpretação, sinto que os evangelhos são ainda mais reais e significativos para aqueles tempos e os tempos de hoje.

A linha de fundo do argumento “não podia enganar-nos” repousa na convicção de que Jesus, sendo Deus, sabe tudo; ou, sendo Deus, não pode mentir, errar, enganar.

Há aqui três questões subjacentes. Aponto: a) O que é Jesus ser Deus? (podemos ter entendimentos diferentes sobre isto); b) Estar errado é pecado? (julgo que todos concordamos que não) c) Podemos dizer que mente ou erra quem pensa de acordo com as conceções do seu tempo, se estas mais tarde mudam? (julgo que todos concordamos no não).

Fica-se com a ideia, obviamente inaceitável para um crente, de que se Jesus falou de demónios e eles não existem, enganou-nos, esquecendo que mentira (e erro moral) seria se Jesus soubesse uma coisa e dissesse algo deliberadamente diferente (alguns dizem: “Sendo Deus, tinha de saber”; nós dizemos: “Não tinha, não”). Mas se pensava de acordo com as conceções culturais do tempo (e temos muitos motivos para pensar que sim), não é mentir dizer algo que não corresponde ao que em fase posterior é tido por verdade. Jesus diz que o grão de mostarda é a semente mais pequena. Talvez pensasse mesmo que é. Fala do sinal de Jonas. Como qualquer judeu da época, pensava num Jonas real e não numa figura literária. Diz que “o princípio não foi assim”, ao falar do divórcio. Certamente pensaria num Adão e Eva reais, como aparecem nas primeiras páginas da Bíblia. E os exemplos poderiam continuar.

Desconfio que o tipo de teologia que nega a comunhão de Jesus com os conhecimentos do tempo desconhece o significado da kenose de Jesus, do abaixamento, do fazer-se humano, do caminhar com os contemporâneos.

Desconhece, certamente o que Bento XVI escreveu no livro sobre a infância de Jesus:
É verdade também que a sua sabedoria cresce. Enquanto homem, Jesus não vive numa omnisciência abstrata, mas está enraizado numa história concreta, num lugar e num tempo, nas várias fases da vida humana, e de tudo isto toma forma concreta o seu saber. Manifesta-se aqui, de modo muito claro, que Ele pensou e aprendeu de maneira humana.
Ele pensou e aprendeu de maneira humana.

Com isto chego finalmente ao que me moveu a escrever isto. Relendo um livro de Carlos González Vallés, dei com a página que condiz com as cristologias do Jesus que sabia tudo mesmo tudo. Quando a mim, padecem, como noutra altura já escrevei, de uma espécie de docetismo gnoseológico.

O jesuíta cita gigantes da teologia (Santo Hilário: “Jesus comia e bebia, não porque precisasse de fazê-lo, mas tão-somente para que não se surpreendessem os que viviam com ele”; São Cirilo de Alexandria: “Jesus sabia tudo desde seu berço, mas aparentava ir-se inteirando das coisas para dissimular”; Santo Atanásio: “Jesus nunca pôde adoecer nem envelhecer”; os salmanticenses: “Jesus foi de facto desde o princípio, e não apenas em potência como possibilidade futura, o maior filósofo, matemático, pintor, navegador… jamais existente” [esta faz lembrar os ditadores norte-coreanos]) e seguir fala da sua experiência:
Eu ouvi dizer em sermões que Jesus, desde o berço em Belém, poderia ter contado à Mãe tudo o que lhe aconteceria na vida; que podia ter falado com os Reis Magos na língua destes; que quando o Evangelho diz que «se surpreendeu» diante da fé do centurião, isso não passava de um gesto condescendente de Jesus, que na realidade não podia «surpreender-se» com nada, já que conhecia tudo; que, quando perguntou ao cego: «O que quer que eu faço por você?», esta era uma simples pergunta teórica, já que Jesus sabia sempre o que cada um pensava e queria; que, quando rezava era sói para dar bom exemplo aos discípulos, uma vez que ele, sendo Deus não precisava de oração; que, se dormia na barca, não era por cansaço físico, mas para testar a fé dos apóstolos; e que, se gritou na cruz: “Por que me abandonaste?”, não foi por sofrimento pessoal, mas como consolo para os nossos.
Como ficamos em relação aos demónios? Repito Bento XVI: “Ele [Jesus Cristo] pensou e aprendeu de maneira humana”.

sábado, 6 de abril de 2013

Já que hoje muito se fala de números cá pelo burgo

Palavras que o Concílio Vaticano I não utilizou:
diálogo
amor
fraternidade
historia
leigo
ministério
novidade
serviço
pobre.

Palavras que o Concílio Vaticano I utilizou uma vez:
Evangelho.

Vezes que o Concílio Vaticano II utilizou as mesmas palavras:
amor 131
diálogo 31
fraternidade 87
história 63
leigo 200
ministério 147
novidade 37
pobre 42
pobreza 21
serviço 97
Evangelho / evangelizar 188.

Li num artigo de José Nunes o.p. sobre "A recepção do Concíliovaticano II nos dinamismos de evangelização", na "Communio" de Julho/Agosto/Setembro de 2012, que é sobre os 50 anos do Concílio Vaticano II. A contagem, diz o teólogo dominicano português, foi feita pelo irmão de congregação Yves Congar.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Segredo

Dai, partilhai o vosso tempo, o vosso saber, a vossa experiência. Mais do que todo o ouro do mundo. Uma felicidade intensa que se baseia no segredo do Evangelho que tanta gente atira diariamente para o lixo, achando-o demasiado exigente: «Amarás o teu próximo como a ti mesmo».

Abbé Pierre, 1993

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

domingo, 6 de maio de 2012

Bento Domingues: Este mundo dará para todos?

Texto de Bento Domingues no "Público" deste 6 de maio. Se não puderem ler mais nada, leiam o número 2. Admirável síntese da vida e mensagem de Jesus Cristo. Um kerigma: "Jesus é a salvação da nossa maltratada condição, a gratuidade pura do amor, o rosto humano de um Deus diferente".

quarta-feira, 2 de maio de 2012

"«Derechona» eclesiástica es sumamente dañina”

José Manuel Vidal

“La homofobia ideológica de la «derechona» eclesiástica es sumamente dañina”, escreve o jornalista espanhol José Manuel Vidal, a propósito de declarações contra os homossexuais e a homossexualidade de alguns membros do clero espanhol (e chileno, reportando-se a D. Jorge Medina).
(…) Quando escuchan a obispos y cardenales como Reig y como Medina, se les parte el alma y se alejan de la Iglesia para siempre. Porque ya no es su casa. Porque en ella ya no se les quiere. Porque se les manda al infierno o a las clínicas. Por mucho que, después, para reparar el escándalo, vengan otros voceros oficiales diciendo que se les respeta. 
¡Cuánto dolor sembrado! ¡Y cuánta hipocresía! Porque, el clero católico está lleno de gays. Es algo que todo el mundo sabe y que todo el mundo puede comprobar. Porque la homosexualidad es algo tan constitutivo de la persona que, a duras penas, se puede ocultar. 
Y porque, durante siglos, la Iglesia se convirtió (y sigue siendo) una institución refugio de gays. Cumpliendo, en ese sentido, una cierta misión liberadora. Les proporciona uan salida, aunque el precio que tengan que pagar sea el silencio total o la expulsión. Ahora, hasta quieren prohibirles el acceso al sacerdocio. Simplemente por ser gays. Aunque, como los heterosexuales, acepten el celibato y prometan castidad. Dos varas de medir. Una discriminación más. 
Si no tienen entrañas de misericordia, al menos que se callen estos jerarcas talibanes, que van sembrando dolor e indignación. Y falta de caridad.
Ler tudo aqui. Sobre a polémica, fiz aqui um apanhado.


Por outro lado, João César das Neves tenta pôr água na fervura.
Aqui surge uma segunda confusão entre discriminação e opinião. Existe realmente o crime grave de homofobia, que consiste no tratamento injusto, ou pior a agressão, a alguém por opção sexual. Isso é muito diferente da opinião que cada um possa ter sobre essa actividade. Chamando "homófobo" a quem quer que, sem prejudicar ninguém, considere a prática uma perversão, confundem-se as coisas e comete-se uma outra discriminação, aqui por delito de opinião. Também existem no mundo graves perseguições contra católicos, que não podem ser confundidas com o repúdio particular por essa religião, manifestado de forma civilizada. A fúria actual contra qualquer pessoa que não alinhe com a visão dominante da naturalidade e equivalência de todas as opções sexuais é, ela sim, uma forma grave de totalitarismo cultural.
Ler tudo aqui, no DN. 

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Zanotelli: Mudar de rumo quanto ao dinheiro



Há dias referi de passagem que ouvi falar pela primeira vez do missionário Alessandro (Alex) Zanotelli num texto de Antonio Tabucchi. Ontem, o "Vatican Insider" fez eco da mensagem de Páscoa do comboniano, intitulada “Apelo às comunidades cristãs”.

Zanotelli fala da "ditadura das finanças". Sintetiza a autora do texto, Maria Teresa Pontara Pederiva:
Talvez o jesuíta John Haughey tenha razão quando afirma: "Nós, ocidentais, lemos o Evangelho como se [não - julgo que falta um "não"] tivéssemos dinheiro, e usamos o dinheiro como se não conhecêssemos nada do Evangelho". E o Pe. Alex conclui, na linha do Conselho Pontifício Justiça e Paz: "Devemos admitir que, como Igrejas, traímos o Evangelho, esquecendo a radicalidade do ensinamento de Jesus: palavras como 'Deus ou o dinheiro', ou 'Vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres'". 
É preciso passar das palavras aos fatos – esse é o apelo – às escolhas concretas, à prática cotidiana. Como Igrejas, devemos, principalmente, pedir perdão, mas ainda não é suficiente: devemos mudar de rumo. Como comunidades, convidando todos ao dever moral de pagar os impostos e colocando as próprias economias em cooperativas locais e em atividades sociais. Em nível pessoal, sentir o dever moral de controlar se o banco, onde se depositou o dinheiro, participa de atividades especulativas.
Ler tudo aqui.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Não temer os confrontos internos

É bom não esquecermos as confrontações que Paulo teve por causa disso mesmo [divulgação da Boa Nova] com os apóstolos, e as dificuldades que tiveram que superar, nos seus começos, a mensagem de Jesus e a própria Igreja. Comparados com tudo isto, os confrontos que se seguiram ao Vaticano II não passam de dificuldades envoltas numa luz suave. À coragem que, naquele tempo, tiveram os apóstolos se deve o florescimento e a difusão da Igreja. É dessa coragem que hoje precisamos. Não podemos retroceder perante as dificuldades; temos é de avançar e de permanecer em diálogo com toda a gente.

Carlo Maria Martini, "Colóquios nocturnos em Jerusalém", pág. 147.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...