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segunda-feira, 3 de novembro de 2014

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

O diabo detesta o Halloween



Com a americanice cada vez mais difundida, é difícil não dar com o dia das bruxas. Ao almoço fui servido por uma senhora cheia de teias de aranha. Literalmente. Mas suponho que as teias não eram literais. O café estava cheio de motivos halloweenescos.

E quem tem filhos sabe que é impossível ignorar a data. Pelos vistos, pelas minhas constatações diárias em dois infantários, é das ocasiões preferidas para os educadores motivarem os mais pequenos (há dias, um dos meus filhos: “Não te esqueças de me dizer que é o dia das bruxas logo que eu acordar”), mudarem a decoração, testarem pinturas faciais, pedirem a colaboração dos pais.

Ora – e é por isso que escrevo – ontem dei com um louvor católico do dia das bruxas. Cá está (Why the Devil Hates Halloween). O autor, “expert” em catolicismo (e católico, como se pode ler e por outros textos sobre novenas e afins), diz que o diabo detesta o Halloween. E dá seis razões, que até estão bem vistas. E que se aplicam como uma luva ao nosso “pão por Deus”, coisa em que nunca participei, nem sei se há no centro do país, mas da qual ouvia falar as minhas colegas de trabalho na meia década que vivi em Lisboa. Eram saloias-no-bom-e-verdadeiro-sentido (eram de Mafra) e gostavam muito do “pão por Deus”.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

As mãos do filho de Philip Seymour Hoffman

Philip Seymour Hoffman morreu no dia 2 de fevereiro (ver aqui) e teve funeral católico. Agora, por causa do consumo de droga, o seu funeral católico tem estado a ser discutido, muito à americana. Ler aqui.

Se volto a este assunto (dei com ele ao procurar umas coisas sobre o vaticanista John Allen, que deixou o NCR) é simplesmente por causa da fotografia. O choro de uma das filhas. A oração do filho mais velho, que é a cara do pai. Dor e fé.


Anselmo Borges: "O que pensam os católicos sobre a Igreja?"

Texto de Anselmo Borges no "DN" de hoje.

1- A Bendixen & Amandi realizou, entre Dezembro de 2013 e Janeiro de 2014, com 12 038 fiéis adultos de 12 países maioritariamente católicos dos cinco continentes, para a Univisión, a principal televisão em espanhol dos Estados Unidos, uma sondagem sobre temas importantes na e para a Igreja. Fiabilidade: 95%.

Alguns resultados, com dissonâncias entre a doutrina e a opinião e vivência dos fiéis. a) Anticonceptivos: 78% a favor; 19% contra; 3% não responderam. b) Ordenação sacerdotal das mulheres: 45% a favor; 51% contra; 4% não responderam. c) Casamento dos padres: 50% sim; 47% não; 3% não responderam. d) Aborto: 8% deve permitir-se sempre; 65% nalguns casos; 33% nunca; 2% não responderam. e) Quanto ao casamento homossexual, há acordo com a doutrina: 66% contra; 30% a favor; não responderam 4%. f) Como avalia o trabalho do Papa Francisco? 41% excelente; 46% bom; 5% medíocre; 1% mau; 7% não responderam.


2- "Agora, o Papa Francisco, no confronto com os reaccionários da Cúria, pode apelar para as respostas da maioria dos fiéis sobre temas tão importantes. O Papa emérito Bento XVI escreveu-me há pouco, a mim eterno rebelde, uma carta afectuosa na qual mostra empenho em apoiar Francisco, esperando que ele tenha todo o êxito - "a minha única e última tarefa é apoiar Francisco", escreve." Quem isto revelou foi Hans Küng, o famoso teólogo crítico, condenado por João Paulo II e um dos poucos peritos do Vaticano II vivos, numa entrevista ao La Reppublica, no dia 10 deste mês, sobre a sondagem, na qual é manifesta a distância entre a Igreja oficial e os fiéis.

Para ele, o mais importante nela é a maioria esmagadora de vozes favoráveis a Francisco, que também já lhe escreveu pessoalmente: 87% dos católicos interrogados em todo o mundo e 99% dos italianos estão de acordo com ele. É "um pequeno milagre" Francisco ter conseguido, em menos de um ano, inverter a tendência dos fiéis e não só quanto à crise de confiança na Igreja.

Interrogado sobre o significado dos resultados da sondagem para a hierarquia, Küng dá uma resposta sensata: "Para os bispos preparados para reformas, e eles existem em todo o mundo, eles significam um grande encorajamento. Quanto aos conservadores, que têm as suas reservas: deveriam reflectir sobre as suas reservas e escutar os argumentos dos renovadores. Os bispos reaccionários, presentes não só no Vaticano mas em todo o mundo, deveriam abandonar a sua resistência obstinada e optar pela razoabilidade."

E o Papa Francisco? "Se me é permito dar-lhe um humilde conselho, deveria avançar com coragem no caminho iniciado e não ter medo das consequências." Em concreto, "espero que use a arte do "Distinguo" que aprendemos na Universidade Gregoriana: onde, na sondagem, há consenso na Comunidade eclesial, deveria propor uma solução positiva ao Sínodo. Onde há dissentimento, deveria permitir e suscitar um debate livre na Igreja. Onde ele próprio tem uma opinião diferente da da maioria dos católicos, como quanto à ordenação das mulheres, deveria nomear uma task force de teólogos e outros peritos, homens e mulheres, para enfrentar o tema."

Está contente? "Não me considero vencedor, não travei batalhas para mim, mas para a Igreja. Tenho a alegria de ver, ainda vivo, o êxito das ideias de reformas da Igreja pelas quais tanto combati."

3- A Igreja Católica é a única instituição verdadeiramente global. Assim, um problema maior será o da convivência com a variedade de posições.

Exemplos, a partir desta sondagem global, após a apresentação dos dados totais. Os divorciados recasados não podem comungar: na Europa, não concordam com esta proibição 75%, mas a não concordância é de 46% nas Filipinas. Ordenação das mulheres: na Europa estão a favor 64%, mas, nas Filipinas, 76% são contra. Casamento homossexual: em Espanha, 64% são favoráveis, mas na África 99% opõem-se-lhe. Na Europa, 50% pronunciam-se a favor do casamento dos padres, mas na África só 28%.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Hubert Reeves: "Nenhuma pessoa inteligente pode acreditar no criacionismo"


Excerto da entrevista que Hubert Reeves deu ao "Público":
Acredita que a divulgação tornou as pessoas mais conscientes da necessidade de ter conta as descobertas científicas? 
Tem de haver alguma coisa entre a religiosidade – num sentido absolutamente naïf – e a ciência pura. Não é preciso fazer parte de nenhum grupo evangelista, nem negar toda a possibilidade de espiritualidade. As pessoas hoje podem decidir por si. 
Como é que um homem de ciência vê o debate crescente nos EUA sobre o criacionismo? 
É ridículo. Nenhuma pessoa inteligente pode acreditar no criacionismo. 
Mas já há estados dos EUA onde há a possibilidade disto ser ensinado nas escolas. 
Acho que essa é mais uma questão política do que uma questão científica. Há uma pressão social e política de algumas pessoas com interesses. É difícil ver que um miúdo que tem algum cérebro possa acreditar que o mundo foi feito há 4000 anos. E é o caso. Acho que é inútil lutar contra o criacionismo.

Foto e excerto daqui.

Para algumas pessoas, a iniciação na literatura de divulgação científica foi com o livro (e a série) "Cosmos", de Carl Sagan. Foi o meu caso. Para outros, foi com o livro deste senhor, "Um pouco mais de azul", que foi buscar o título a um poema de Mário de Sá-Carneiro. Por pouco não foi o meu caso. Li-o logo a seguir ao "Cosmos", por influência do amigo Manuel Augusto Oliveira.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Sim, é (parte da) Bíblia, o livro impresso mais caro


Um pequeno livro de salmos publicado em 1640, e que se crê ter sido o primeiro livro impresso no território do que vieram a ser os Estados Unidos, foi arrematado esta terça-feira por 14 milhões e 165 mil dólares (um pouco mais de 10,3 milhões de euros) num leilão promovido pela Sotheby’s em Nova Iorque.

O livro, conhecido como Bay Psalm Book, foi impresso pela comunidade puritana da colónia britânica da baía de Massachusetts, mais precisamente na então recém-fundada povoação de Cambridge, apenas vinte anos após o desembarque em Plymouth dos pioneiros do Mayflower, a quem os americanos chamam “pilgrims” (peregrinos).

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

National Security Agency antecipa-se ao Espírito Santo?


Ao ler a notícia de cima, no "Metro" de ontem, numa primeira reação, pensei: "Não me digas que os EUA imaginavam que iriam eleger Francisco". Ou: "A NSA antecipou-se ao Espírito Santo". Pensamentos frívolos, mais do que insensatos. A NSA espiou (espia?) muita gente, aos milhões. Milagre seria se Bergoglio tivesse escapado.

A tira aqui em baixo é do "Público" de ontem.


quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Motivos para atender a Francisco

O chefe dos lefebvrianos, D. Bernard Fellay, diz que a “situação da Igreja é um verdadeiro desastre. O Papa atual está piorando 10.000 vezes a situação”.

E acrescenta:

“No início do pontificado do papa Bento XVI, disse, a Igreja continuava (piorando), mas o Papa estava procurando frear. É o mesmo que dizer: a Igreja continuava declinando, mas com um paraquedas. Já com o início do papa Francisco, disse, ele corta as cordas e coloca um foguete para ir para baixo”.

Se o tradicionalista assim argumenta, mais motivos temos para atender ao que Francisco diz, quer e faz. Li aqui.

Já nos EUA (o lefebvriano também falou no EUA), alguns católicos pedem ao Papa prudência (julgo que não é só lá; lá para os lados da Rua Ivens já pediram o mesmo; e alguns blogues pensam que o Papa ainda é Bento XVI)

...Francisco é um homem notável, ninguém pode negar isto. Contudo, não acredito que se preocupe em ser prudente”, destacou Robert Royal, presidente do “think tank” Fé e Razão. Em sua opinião, a dinâmica do Papa, orientada para a evangelização, “de alguma maneira provoca ansiedade nas pessoas”.

...enquanto outros sentem-se como o irmão do filho pródigo (e eu também já estive na pele de qualquer dos filhos do homem rico e misericordioso):

Gregory Popcak, assessor matrimonial católico em Ohio, ficou sem palavras quando alguns casais refutaram suas afirmações, citando palavras do papa Francisco. Primeiro, sentiu-se frustrado, depois ficou envergonhado, porque após ter refletido e rezado, percebeu-se como o irmão bom do filho pródigo, “o jovem bom que está no fundo e que obedece ao pai”.

Li aqui.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

O padre-anjo não tem asas

Falou-se em “padre-anjo” e em “sinal do céu”, “mistério da auto-estrada” e “milagre”. Em breves palavras: auto-estrada nos EUA, um embate entre automóveis e uma jovem que é assistida por um padre.

A notícia da Rádio Renascença titulou: “Padre aparece do nada para rezar com vítima de acidente e depois desaparece”. Copio dois parágrafos (daqui):
O sacerdote rezou com Katie e abençoou-a com os santos óleos que tinha consigo. Depois retirou-se de cena e deixou os trabalhadores voltar à acção. O carro foi virado e Katie evacuada por helicóptero para um hospital, onde está a recuperar bem. 
 Alguns dos socorristas já tinham estranhado a presença do sacerdote no local, tendo em conta que a estrada estava cortada em mais de um quilómetro em ambas as direcções, mas o mistério adensou-se quando no final das operações começaram a procurar o padre para agradecer a sua intervenção, mas não estava em lado nenhum.
Inicialmente pensou-se que teria partido para ir celebrar na única Igreja católica nas redondezas, mas então perceberam que não se tratava do pároco local e a comunidade católica não sabia de nada. Então, procuraram nas cerca de 70 fotografias que tinham sido tiradas ao longo da operação de socorro, mas o padre não aparece numa única imagem.
O assunto, depois do burburinho durante dias, naturalmente saiu da cena mediática. Mas não sem antes terem feito um retrato-robô do misterioso padre, que tantos comentários gerou na apologética angélico-sacerdotal.

Retrato-robô do padre-anjo (tirei daqui)

Hoje, ao receber um mail com a notícia do mistério do "padre-anjo", resolvi procurar se o enigma continuava. E não continua.

Padre Patrick Dowling

Não sei se a Renascença deu notícia de terem encontrado o padre misterioso, mas cá vai: Padre Patrick Dowling, da Diocese de Jefferson City, no Missouri. Li no Huffington Post (aqui). Espero não ter estragado nenhuma homilia.




sexta-feira, 24 de maio de 2013

24 de maio de 1844. A primeira mensagem em morse diz “What hath God wrought”


No dia 24 de maio de 1844, Samuel Morse (um convicto anticatólico) enviou um bocadinho do versículo Números 23,23, que diz “What hath God wrought” (“Não há magia que possa contra Jacob, nem encantamento contra Israel. Agora se dirá de Jacob e de Israel: «Vejam o que Deus tem feito!»” ou “Que maravilhas fez Deus”), ao seu assistente Alfred Vail, inaugurando a primeira linha de telégrafo e a era do morse. Samuel Morse estava no Capitólio (Washington). O seu assistente, em Baltimore, Maryland, a uns 57 km de distância.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

O pecado pode ser perdoado antes de ser cometido?



Um pecado pode ter um perdão adiantado, antes de ser cometido? Não é este o enredo principal do filme, mas reconheça-se que sem o contexto católico o drama não teria tanto sentido.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Combate

Nos EUA, as mulheres podem combater. Acabaram as restriões para as mulheres "in the army". Espero que um dia também na Igreja Católica possam dizer, em qualquer função: "Combati o bom combate". Lamento que a Igreja não vá à frente neste assunto.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Ainda as bíblias de Obama


Bíblias de Obama. Juramento de Obama no dia 21 de janeiro. Por cima, a Bíblia de Abraham Lincoln. Por baixo, a de Luther King. O pregador da igualdade deu-lhe mais uso do que o presidente abolicionista.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Bíblias da tomada de posse de Obama


Bíblia de Abraão Lincoln

Bíblia da família de Michelle
Ontem Obama fez um primeiro juramento sobre a Bíblia. Em privado. As tomadas de posse dos presidentes dos EUA são sempre a 20 de janeiro. Usou a Bíblia da família da sua mulher.

Bíblias de Lincoln e Martin Luther King
Hoje, Obama, para o povo, jura sobre a Bíblia que Lincoln usou em 1861 (na posse da Biblioteca do Congresso) e a de Martin Luther King (pertence ao filho, Martin Luther King III).

Bíblia Celta 
Joe Biden, descendente da emigrantes irlandeses, por seu lado, jurará (está a jurar neste momento, sobre uma Bíblia pesadíssima) sobre a Bíblia que já usou em 2009, uma Bíblia que está na família desde 1893. Dizem que tem uma cruz celta na capa.


Bíblia da família de Joe Biden

sábado, 13 de outubro de 2012

Teorias de Satanás

No "Inimigo Público" de ontem ("Público" de 12 de outubro de 2012), antes que acabe, visto que a direção do matutino quer acabar com o suplemento humorístico (além de despedir dezenas de jornalistas).

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Gore Vidal e a Igreja Católica. Detesta-a, pois.


Gore Vidal morreu no dia 31 de julho de 2012. Eu devia (queria) tê-lo referido aqui, mas afazeres inadiáveis – como as férias – não me possibilitaram tal texto. Não foi a única coisa que queria ter feito e não fiz cá por estes lados.

E porquê assinalar a sua morte? Basicamente porque escreveu um livro sobre Jesus, “Em Directo do Calvário”. Subtítulo: “O Evangelho segundo Gore Vidal”. Saiu na Dom Quixote em 1994. Na altura, não me lembro de qualquer vestígio de polémica, mas o livro, apodado de “a mais escandalosa novela de Vidal”, “uma sistemática subversão de todos os valores”, diz a Newsweek, põe discípulos a sapatear, estações de televisão em guerra para a transmissão em direto do Calvário e Paulo com uma capacidade de persuasão que faz esquimós comprarem frigoríficos. O livro é narrado por um discípulo de Paulo, Timóteo, bissexual, que se converte porque “que mais se pode fazer aos domingos numa pequena cidade como Listra?”

O livro não tem qualquer pretensão histórica, embora use dos conhecimentos de história antiga de Gore Vidal, que é autor de “Juliano, o Apóstata”, e é claramente anticristão e anticatólico (e também antijudeu ou, talvez mais corretamente, antissionista). Mas fascina-me sempre que alguns arreligiosos ou ateus como Vidal não resistam a abordar a figura de Jesus Cristo, mesmo que tentem ridicularizá-lo. E parece que os alvos últimos da paródia são os republicanos e os sionistas dos EUA. Adiante.


Mas se me lembrei hoje de Gore Vidal foi porque li na “Ler” deste setembro, num texto de Eduardo Pitta, esta citação (Pitta diz que as suas preferidas não são citáveis na revista – citado e citador são homossexuais, é necessário dizê-lo –, pelo que, por exclusão, fica esta):
Se eu fosse Presidente ou estivesse, de qualquer outro modo, no governo de um país bem administrado, a primeira coisa que faria era proibir à Igreja Católica ensinar qualquer pessoa. Não lhe permitiria manter escolas, pois vejo a educação religiosa como contrária aos melhores interesses da República. Onde a Igreja Católica tem dominado, nunca a sociedade foi democrática.
Para terminar, nunca tinha pensado numa citação preferida de Gore Vidal, mas há uma que me vem com alguma frequência à memória quando se fala de assunto maior da política internacional. Está num dos prefácios (o livro tem dois; o outro é de Edward Said) de “História judaica, religião judaica. O peso de três mil anos”, de Israel Shahak (ed. Hugin, 1997):
 (…) Nenhuma outra minoria na história Norte-Americana conseguiu desviar tanto dinheiro dos contribuintes norte-americanos para investir no “lar nacional” [como os judeus dos EUA]. É como se o contribuinte norte-americano fosse obrigado a apoiar o Papa na sua reconquista dos Estados Pontifícios simplesmente porque um terço do nosso povo é católico.
Discordo de Gore Vidal em quase todos os assuntos (mas não, não defendo a restauração dos Estados Pontifícios). Só que ele bateu-se pelo direito a discordar, apesar de, pelos vistos, negar o direito de educação à Igreja Católica. Mas escreveu também: “Deixem pluralismo e diversidade ser o nosso objetivo”. A melhor comunhão é a de diferentes.

Gore Vidal (1925-2012)

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Cardeal em más companhias


Cardeal Timothy Dolan

O arcebispo de Nova Iorque presidiu à oração conclusiva da convenção dos republicanos, na Flórida, e vai presidir a ato idêntico na convenção dos democratas, em Charlotte, no dia 6 de setembro. Depois vai ao jantar da fundação Al Smith, em outubro, com Obama e Romney (um de uma confissão protestante e o outro mórmon, ambos com vices católicos). As críticas ao cardeal Timothy Dolan têm chovido de todo o lado e ele teve de fechar os comentários do seu blogue (aqui). As pessoas não estão preocupadas com a ementa e a saúde do cardeal, mas sim com as companhias. Por isso D. Dolan deixou estas frases:

Afinal, sinto-me encorajado pelo exemplo de Jesus, que foi atacado pelos seus críticos por comer com aqueles que alguns consideravam pecadores; e tendo isso em conta, se eu só me sentasse à mesa com pessoas que concordam comigo e eu com elas, ou com aquelas que são santas, estaria sempre a tomar as refeições sozinho.

Outra de D. Dolan aqui. E outra, sobre Igreja e imagem, aqui.

Nota: O realce é involuntário. Não sei porquê, de vez em quando isto acontece.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Três maneiras de olhar para a mesma tragédia de Denver



Acontecimentos como o de Denver, em que um homem disparou contra a assistência de um filme do Batman matando 12 pessoas e ferindo mais de 50, fazem pensar no mal e mesmo no diabólico. Uma breve pesquisa no Google mostra que há imensas associações entre este crime e o diabo/diabólico. O meu receio é que, quando se pensa do diabólico, a responsabilidade humana fique diluída numa pretensa força ou influência ou o que quer que seja de sobrenatural. 

Para as leis civis, felizmente, falar do diabo será mais um motivo para atestar a insanidade mental do presumível criminoso do que para atenuar a sua responsabilidade.

Mas pode ser que falar de diabólico não nos distraia do que está em causa. Se se falar do diabo e do diabólico como símbolo de um mal quase inimaginável, mas sempre humano, se se falar do diabo e do diabólico como símbolos para nos alertar para a necessidade de estar sempre atento ao mal, que, por si, pode ser atrativo, até se compreende o uso desta linguagem. É nesta linha que interpreto as recentes palavras de Bento XVI, proferidas depois de ter falado do massacre de Denver:
“O maligno procura sempre arruinar a obra de Deus, semeando divisão no coração humano, entre corpo e alma, entre o homem e Deus, nas relações interpessoais, sociais, internacionais, e também entre o homem e a criação” (li aqui).
O Bispo de Denver, por seu turno, em entrevista à agência Zenit, falou de uma “batalha espiritual e moral entre o bem e o mal”:
“O tiroteio que aconteceu na sexta-feira foi um ato maléfico - um ato de verdadeira violência. Nossa comunidade está chocada e triste pelo acontecido. Como comunidade, levanta questões sobre o bem e o mal, e a batalha espiritual e moral entre o bem e o mal. Mesmo em meio ao caos e ao mal daquela manhã, existem histórias de heróis que no meio do tiroteio tentaram proteger os amigos e entes queridos jogando-se em cima deles. Pela graça de Deus, o povo de Aurora e do Colorado tem respondido com grande amor, com caridade e misericórdia para com os feridos e as famílias que perderam seus entes queridos. Existe um sentido de unidade em nosso estado, e isso é realmente uma graça” (li aqui).
Estas duas visões do crime adiantam algo para a sua explicação e, ainda que a questão não esteja subjacente às afirmações, para a prevenção quanto a ações similares no futuro?

Na minha ótica, muito pouco. A moralidade das ações individuais tem sempre um último reduto que é a consciência de cada um. Mas as respostas do diabo e do diabólico, do maligno e da luta entre bem e mal, geralmente iludem a sociedade em que vivemos. É por isso que, mesmo supondo que não concordo totalmente com a ideologia do seguinte autor, considero que, de um ponto de vista cristão, as suas palavras são mais úteis para perceber o que se passou em Denver e ter um princípio de mudança.

Não digo que a explicação espiritual seja contraditória com a explicação sociológica. Digo que prefiro pensar a partir do concreto e que a explicação espiritual pode constituir uma ilusão que não deixa ver o que está em causa, se formos ingénuos.

O texto é de Atilio Boron e saiu no jornal Página/12, no dia 24 de julho. Li aqui.
O massacre que aconteceu num teatro de um subúrbio de Denver desencadeou, como tantas vezes após a ocorrência de atrocidades semelhantes, o previsível coro de lamentos que por sua vez se perguntava por que aparecem regularmente nos Estados Unidos monstros capazes de cometer crimes como os do tétrico êmulo do Joker.
 
De fato, uma análise que ponha de lado a habitual complacência com as coisas do império não poderia deixar de notar uma causa de fundo: como expressão última da sociedade burguesa, os EUA são também o lugar onde a alienação dos indivíduos atinge níveis sem paralelo em escala universal. Não deveria surpreender ninguém que comportamentos como o do jovem James E. Holmes - quantos assassinatos indiscriminados ocorreram nos últimos anos? - aflorem periodicamente para espalhar a dor na população norte-americana. 
 Uma sociedade alienada e alienante, que gera milhões de toxicodependentes (sem que exista qualquer programa do governo federal para prevenir e lutar contra o vício), milhões de "vigilantes" dispostos a impor a lei e a ordem por conta própria perseguindo pessoas pela cor da sua pele ou traços faciais; e outros milhões que, assim como Holmes, podem comprar em qualquer loja de armas uma espingarda de assalto, pistolas, revólveres, granadas, bombas de fumo e todos os apetrechos da parafernália militarista e, além disso, obter licenças para usar legalmente todo esse mortífero arsenal. 
 A recorrência deste tipo de massacres evoca um problema estrutural, o que é cuidadosamente evitado nas explicações convencionais que, invariavelmente, falam de um ser perdido, de um louco, mas nunca questionam as causas estruturais que nessa sociedade produzem loucos em série. Uma sociedade que se apresenta com características paradisíacas, como a terra prometida, como o país onde qualquer pessoa pode ter sucesso e ganhar dinheiro em abundância, poder e prestígio, com tudo o que esses atributos trazem como benefícios colaterais e que, na verdade, são metas apenas acessíveis, na melhor das hipóteses, a 5% da população. Os restantes, submetidos a um bombardeio de publicidade incessante e constante, mastiga a sua impotência e frustração. Ocasionalmente, alguns pensam que a solução é sair e matar pessoas a sangue frio e de forma indiscriminada; outros, mais inofensivos, decidem matar-se lentamente com drogas. 
 Mas, se a alienação generalizada da sociedade americana é a causa de fundo, outros fatores contribuem para produzir comportamentos aberrantes como o de Holmes. Primeiro, o grande negócio da venda de armas, protegido sob o pretexto de ser um direito garantido pela Constituição, e que na verdade é o complemento necessário para legitimar, em termos de sociedade civil, o "complexo industrial militar" que domina a vida econômica e política dos Estados Unidos, desde há pouco mais de meio século. Aqueles que fabricam armas devem vendê-las, seja ao governo dos EUA (e, portanto, devem fabricar guerra por todo o mundo, ou montar cenários tendentes a elas), quer para os indivíduos ameaçados pelo espectro da insegurança omnipresente. Vários analistas dizem que apenas nas regiões fronteiriças entre o México e os Estados Unidos existem 17.000 lojas de armas onde se pode comprar uma espingarda de assalto AK47 com a mesma facilidade com que se compra um hambúrguer, o que, além de ser uma grotesca aberração, traduz a coerência da política de governo que cobre tal absurdo.
 
Em segundo lugar, a indústria do entretenimento (Hollywood) permanentemente excita a imaginação de dezenas de milhões de americanos com um fluxo incessante de séries, vídeos e filmes onde a violência mais cruel, atroz e horrenda é exposta com rigor perverso. Antes também havia algo disto, mas agora sua proporção tem crescido exponencialmente e, em determinados dias e horas é quase impossível de se ver na televisão outra coisa que não seja a glorificação subliminar do sadismo em todos as formas que só uma imaginação muito doentia pode conceber. 
 A censura que existe - ora sutilmente, ora de forma completamente descarada - para dificultar ou impedir que se conheça o trabalho de cineastas ou documentaristas críticos do sistema ou que falem bem de países como Cuba, Venezuela - Michael Moore ou Oliver Stone, por exemplo - não existe na hora de preservar a saúde mental da população exposta ao vômito de atrocidades e crueldades produzidas por Hollywood. Por algo será. E esse "algo" é que tanto a venda descontrolada de armas de todos os tipos como a violência induzida de Hollywood são totalmente funcionais para o projeto de dominação da burguesia norte-americana.
 
Noam Chomsky tem mostrado ao longo de décadas como esta tem aperfeiçoado os mecanismos que lhe permitem dominar com terror, sabendo que do medo – o sentimento mais incontrolável dos homens – brota a submissão aos poderosos. Uma burguesia que incute o medo entre a população, fazendo com que todos saibam que ninguém está a salvo e que para proteger as suas vidas pobres e indefesas deve renunciar a mais e mais direitos, dando ao governo a capacidade de vigiar todas as áreas públicas, monitorizar os seus movimentos, interferir nas suas chamadas telefônicas, interceptar e-mails, controlar as suas finanças, saber o que compram, em que gastam o seu dinheiro, o que leem, com quem se reúnem e de falam quando o fazem. Um inimigo externo - agora o "terrorismo internacional", antes o "comunismo" - apresentado como onipotente e de uma crueldade sem limites é complementado internamente com a ameaça encarnada nos milhares de assassinos que se misturam com o resto da população, como Holmes, para cuja neutralização é necessário dar à polícia, ao FBI, à CIA e ao Departamento de Segurança Interna todos os poderes necessários.

O que Thomas Hobbes colocava em 1651 no seu Leviatã como uma metáfora heurística, impossível de encontrar na realidade, pelo seu extremismo: a transferência para os indivíduos faziam de quase todos os seus direitos para o soberano em troca de preservar a vida, acabou por se converter numa trágica realidade nos Estados Unidos de hoje.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...