João Miguel Tavares diz que "fora do Diabo não há salvação" (aqui). Tem piada o jogo teológico-político. Tem a ver com a vida política portuguesa, mas é mais uma inspiração de base religiosa, lembrando o "fora da Igreja não há salvação".
E uma curiosidade sobre "extra ecclesiam nulla salus". Aqui.
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domingo, 5 de novembro de 2017
segunda-feira, 19 de setembro de 2016
Morreu o padre Gabriele Amorth
O P.e Gabriele Amorth morreu na sexta-feira, 16, em Roma. Paz à sua alma.
Tenho de referir aqui o facto porque ele era o exorcista mais conhecido do mundo, "exorcista do Vaticano", por ser o exorcista oficial de Roma, com mais livros publicados, com mais discípulos, incluindo portugueses.
Como as coisas do diabo andaram por aqui em debates apaixonados, no tempo em que as visitas a este blogue andavam pelos milhares por dia (agora andam, julgo, pelas duas ou três dezenas), aproveitei para ler dois ou três livros do P.e Amorth.
Ele via o diabo em tudo e acreditava, por exemplo, que pregos que apareciam por baixo de almofadas eram ação do diabo ("materializações"), que o diabo provocava cancros e outras coisas do género. De maneira que não cheguei a concluir se o trabalho do P.e Amorth foi globalmente positivo por dar tanto espaço ao diabo que levava as pessoas a não acreditar nele (o diabo), como que por paradoxo. Tipo: "Se o diabo faz e é aquilo que o P.e Gabriele diz, é óbvio que não existe, não pode ser levado a sério". Ou se foi globalmente negativo por fazer do diabo um fantasma omnipresente que pode, mesmo que não exista (como é a minha convicção), provocar efeitos nefastos sobre pessoas mais fragilizadas.
sexta-feira, 31 de outubro de 2014
Seis ideias contrárias ao pensar comum a propósito das bruxas
Umas coisinhas sobre as bruxas, ao arrepio do pensar comum. E posto isto, vou para casa dar cabo de uma abóbora.
1
As bruxas e os seus sabbats são uma invenção dos
inquisidores medievais tardios, mais concretamente nas montanhas da Suíça. Foram
os inquisidores que associaram as feiticeiras ao culto do diabo e à heresia. E
a partir daí acaba a tolerância e começa a perseguição no centro da Europa.
2
A queima das bruxas aconteceu em muito maior escala na Idade
Moderna do que na Idade Média. Na realidade, se considerarmos que Idade Média
vai até 1453 (Queda de Constantinopla), a perseguição às bruxas foi uma
raridade. Houve condenações, mas quase todas no contexto de heresias como as
dos cátaros. O pior viria a seguir, de modo sistemático, até aos princípios do séc. XVIII. Diz-se
que a última mulher a ser condenada à morte por bruxaria foi uma jovem, em
Glarus (cantão protestante), na Suíça, em 1783. A tragédia terminou onde
começara.
3
Os protestantes (luteranos, calvinistas, anglicanos)
queimaram mais bruxas do que os católicos (o que, mesmo assim, é claro, não é
motivo nenhum de glória). E, o que ainda é mais estranho e contrário ao pensar
comum, houve mais juízes e condenações seculares (em tribunais seculares) do que religiosas.
4
O livro que foi um best-seller na perseguição das bruxas, o “Malleus
Maleficarum” (“O Martelo das Bruxas”), de 1487, escrito por dois frades
dominicanos, nunca foi aprovado pela Igreja Católica. Pelo contrário, foi
colocado no Index. Mas fez imenso sucesso entre católicos e ainda mais entre
protestantes alemães.
5
Na Península Ibérica, não houve queima de
bruxas (ou se houve, foram residuais e a bruxaria não foi o principal motivo). Porquê? Por causa da Inquisição ibérica, quase exclusivamente preocupada
com a perseguição aos judeus e muçulmanos. Isso mesmo. Não queimou bruxas. Sem
tirar nem pôr.
6
Há uma tese que diz que nos tempos em que algumas mulheres (geralmente
viúvas, solitárias, com conhecimentos de medicina popular, nas margens das
povoações, curandeiras) eram perseguidas como bruxas detinham um alto estatuto
jurídico. E que depois do fim das perseguições passaram a ser consideradas doentes,
incapazes de personalidade jurídica, pelo que viram o seu estatuto social
diminuído.
O diabo detesta o Halloween
Com a americanice cada vez mais difundida, é difícil não dar
com o dia das bruxas. Ao almoço fui servido por uma senhora cheia de teias de
aranha. Literalmente. Mas suponho que as teias não eram literais. O café estava
cheio de motivos halloweenescos.
E quem tem filhos sabe que é impossível ignorar a data. Pelos
vistos, pelas minhas constatações diárias em dois infantários, é das ocasiões preferidas
para os educadores motivarem os mais pequenos (há dias, um dos meus filhos: “Não
te esqueças de me dizer que é o dia das bruxas logo que eu acordar”), mudarem a
decoração, testarem pinturas faciais, pedirem a colaboração dos pais.
Ora – e é por isso que escrevo – ontem dei com um louvor
católico do dia das bruxas. Cá está (Why the Devil Hates Halloween). O autor, “expert” em catolicismo (e católico, como se pode
ler e por outros textos sobre novenas e afins), diz que o diabo detesta o Halloween.
E dá seis razões, que até estão bem vistas. E que se aplicam como uma luva ao
nosso “pão por Deus”, coisa em que nunca participei, nem sei se há no centro do
país, mas da qual ouvia falar as minhas colegas de trabalho na meia década que
vivi em Lisboa. Eram saloias-no-bom-e-verdadeiro-sentido (eram de Mafra) e
gostavam muito do “pão por Deus”.
quarta-feira, 4 de junho de 2014
Slender Man ataca
O Slender Man (a wikipedia explica quem é, para quem, como eu, nunca de tal ouviu falar) inspirou duas crianças a assassinar uma terceira (apesar das 19 facadas, felizmente sobreviveu). Foi nos EUA, como poderia ter em qualquer lado com internet. Li aqui.
O que é que isto quer dizer? Muitas leituras possíveis, uma delas, sobre a indistinção entre imaginação e realidade; outra, sobre a ausência da ética elementar que diz que matar ou é mal; e outra sobre como o pior da personalização do mal é a o poder da própria personalização.
sexta-feira, 21 de março de 2014
Anselmo Borges: "O maior afrodisíaco"
1 Soube que era chamado por Deus a uma missão essencial para o mundo. Para decidir, foi, como fazem todos os que na história são grandes, meditar. E então Jesus foi tentado. Três tentações, todas à volta do mesmo: o poder. O que ele tinha de decidir era entre um Messias do poder enquanto dominação e um Messias do serviço e da criação.
O diabo colocou-o sobre o pináculo do templo em Jerusalém e disse-lhe: "Se és Filho de Deus, deita-te abaixo, pois os anjos tomar-te-ão nas mãos." Esta é a tentação do domínio pelo espectáculo do poder.
Pela sua própria dinâmica, o poder quer ser total. Por isso, o demónio levou-o a um monte muito alto, mostrando-lhe todos os reinos do mundo e a sua magnificência e disse-lhe: "Tudo isto te darei, se, prostrado, me adorares." O que a gente faz, quantas prostrações, para poder dominar! Dominar todos os reinos do mundo.
Se há fascínio, é o do poder. A volúpia do poder! Porque subjugar a vontade de outros ao domínio próprio surge como redenção e bênção. Disse quem sabe, Henry Kissinger: o poder é "o maior afrodisíaco." E, no limite, o poder total. Porque, no fundo, há a ilusão de que, com o poder total, se teria o poder de todos os poderes: matar o poder da morte. Ser imortal.
Daí, por princípio, Deus ser concebido e apresentado como todo--poderoso, omnipotente. Como se a omnipotência fosse a característica mais própria de Deus. A tentação primeira, logo no início, foi a da serpente: "Sereis como Deus." A omnipotência seria agora nossa.
2 Jesus, porém, fez uma experiência avassaladoramente diferente de Deus: Deus não é omnipotente enquanto poder de dominação, Deus é omnipotente enquanto Força infinita de amar e de criar. Por isso, disse: "Eu não vim ao mundo para ser servido, mas para servir e dar a vida por todos." E amou, amou até ao fim, por palavras e obras, criando e recriando a vida de todos os desamparados, feridos e perdidos, que somos todos. E amou até à morte e morte de cruz, para dar testemunho da verdade de Deus como Força infinita de criar e de amar. Por isso, morreu como blasfemo, contra o Deus da dominação.
A revolução de Jesus consiste na revolução operada na imagem de Deus. Deus é outro que não poder de dominação. Quem cria e ama é que é como Deus. Afinal, a história não pertence aos dominadores, mas aos criadores.
3 A vida é potência, força que se afirma e expande. Mas a vida só é vida se se afirmar e tiver possibilidade de se expandir em todos. O poder como dominação é apenas de alguns e para alguns, excluindo sempre a maior parte, os dominados. O poder como serviço, força de criar e amar, não exclui ninguém, pelo contrário, inclui a todos e não diminui mas acrescenta.
Quem quiser entender precisa de parar, para reflectir e meditar. Meditação tem a mesma raiz que medicina e moderação. Vivemos num mundo perigoso, impondo-se, pois, a moderação e a meditação como medicina que cura e, pela conversão, abre a possibilidades outras que não as da destruição.
Foi assim que esta semana o Papa Francisco pegou em si e na Cúria e foram todos para fora do Vaticano meditar, iniciando o retiro com o texto bíblico das tentações de Jesus, que são as nossas. Em ordem à conversão. Não sem antes dizer à Cúria que ela não é nem pode ser "a Corte".
Na primeira tentação, o diabo disse a Jesus para transformar as pedras em pão. Jesus disse-lhe que nem só de pão vive o homem. Há outras necessidades e é urgente perceber que a felicidade se não confunde com o consumismo sem limites e a auto-satisfação, que, dentro de um egoísmo insolidário, acabam por gerar o vazio. Isto sim: com a conversão, virão também a fome de justiça e o pão para todos. Como escreve o biblista José A. Pagola, que constata com Jesus que não basta o pão, "o ser humano precisa também de cultivar o espírito, conhecer o amor e a amizade, desenvolver a solidariedade com os que sofrem, escutar a sua consciência com responsabilidade, abrir-se ao Mistério último da vida com esperança".
quinta-feira, 9 de janeiro de 2014
Anglicanos dispensam diabo no rito do batismo
A Igreja anglicana está a pensar eliminar as referências ao diabo nos ritos de batismo (no rito católico aparece "Satanás"), mantendo a pergunta sobre a rejeição do mal. O novo rito vai estar à experiência em algumas paróquias.
Como é de esperar, alguns opõem-se. Outros acham bem, como o filocatólico arcebispo de Cantuária, Justin Welby. Como o batismo anglicano é válido para os católicos, a questão tem contornos que nos dizem respeito.
Como é de esperar, alguns opõem-se. Outros acham bem, como o filocatólico arcebispo de Cantuária, Justin Welby. Como o batismo anglicano é válido para os católicos, a questão tem contornos que nos dizem respeito.
quinta-feira, 12 de dezembro de 2013
Interesses
Quando trabalhamos com grande energia, é porque Deus e o Diabo têm grande interesse no resultado.
Norman Mailer, numa entrevista a J. Michael Lennon para a biografia "Norman Mailer: A Double Life". Lido na "Ler" n.º 130.
terça-feira, 1 de outubro de 2013
sábado, 24 de agosto de 2013
Anselmo Borges: "O que pensa Francisco: 2. sobre a Igreja"
Texto de Anselmo Borges no DN de hoje:
Para o Papa Francisco, a Igreja não é uma empresa, uma multinacional ou uma ONG. Ela é "a família de Deus", do Deus que é amor, misericórdia e que perdoa sempre, se houver arrependimento. Deus está a caminho, "quando o procuramos e deixamos que ele nos procure. A experiência religiosa primordial é a do caminho. A vida cristã é uma espécie de atletismo, de conflito, de corrida, em que temos de nos desfazer das coisas que nos afastam de Deus".
No caminho, há perigos e tentações. Francisco acredita na existência do Diabo (como símbolo do mal ou uma entidade pessoal?): "O Demónio é, teologicamente, um ser que optou por não aceitar o plano de Deus. A obra-prima do Senhor é o homem; alguns anjos não o aceitaram e rebelaram-se. O Demónio é um deles. No Livro de Job é o tentador, que nos leva à suficiência, à soberba. Jesus define-o como o pai da mentira. Os seus frutos são sempre a destruição, a divisão, o ódio, a calúnia. E, na minha experiência pessoal, sinto-o de cada vez que sou tentado a fazer algo que não é aquilo que Deus me pede. Acredito que o Demónio existe. Talvez o seu maior sucesso nestes tempos tenha sido fazer-nos acreditar que não existe." De qualquer modo, "uma coisa é o Demónio e outra é demonizar as coisas ou as pessoas. O homem é tentado, mas não é por esse motivo que deveremos demonizá-lo". Mas o ser humano é um ser caído, o que "se explica a partir da queda da natureza depois do pecado original". Portanto, "as pessoas podem fazer algo de mau devido à sua própria natureza, ao seu "instinto", que se potencia devido a uma tentação exógena."
O fundamentalismo não é o que Deus quer, e ele não consiste apenas em matar em nome de Deus, o que é "uma blasfémia". "Por exemplo, quando eu era pequeno, na minha família havia uma certa tradição puritana; não éramos fundamentalistas, mas estávamos nessa linha. Se alguém do nosso círculo próximo se divorciava ou se separava, não entrávamos na sua casa; e também acreditávamos que os protestantes iam todos para o inferno, mas lembro-me de uma vez em que estava com a minha avó, uma grande mulher, e passaram precisamente duas mulheres do Exército de Salvação. Eu, que tinha uns cinco ou seis anos, perguntei-lhe se eram monjas. Ela respondeu-me: "Não, são protestantes, mas são boas." Esta foi a sabedoria da verdadeira religião."
Não se admite um clero de burocratas e carreiristas. Por exemplo, é "uma hipocrisia" negar o baptismo a crianças de pais não casados. E há o ecumenismo e o diálogo inter-religioso práticos: o das pessoas "que não partilham a minha fé, mas que partilham o amor pelo irmão". A verdadeira liderança religiosa é conferida pelo serviço. "Para mim, esta ideia é válida para a pessoa religiosa de qualquer confissão. Assim que deixa de servir, o religioso transforma-se num mero gestor, no agente de uma ONG. O líder religioso partilha, sofre, serve os seus irmãos." Foi esta dinâmica que o levou, já Papa, num gesto surpreendente, a Lampedusa, com esta mensagem: "A globalização da indiferença tirou-nos a capacidade de chorar. Peçamos ao Senhor a graça de chorar sobre a nossa indiferença, sobre a crueldade que há no mundo, em nós, também naqueles que no anonimato tomam decisões socioeconómicas que abrem o caminho a dramas como este."
Para a pedofilia, tolerância zero. "O problema não está associado ao celibato. Se um padre for pedófilo, é-o antes de ser padre. Ora, quando isso acontece, nunca se poderá tolerar. Não se pode assumir uma posição de poder e destruir a vida de outra pessoa. Na diocese, nunca me aconteceu, mas, uma vez, um bispo telefonou-me para me perguntar o que se deveria fazer numa situação semelhante, e eu disse-lhe que lhe retirasse a autorização, que não lhe permitisse exercer mais o sacerdócio e que desse início a um julgamento canónico no tribunal."
A humildade é garantia de que o Senhor está presente. "Quando alguém tem todas as respostas para todas as perguntas, é uma prova de que Deus não está com ele." A Igreja tem uma herança a preservar e que não pode negociar, mas é preciso, com tempo, "dar respostas com a herança recebida às novas questões de hoje."
sexta-feira, 26 de julho de 2013
Francisco, o diabo e o mal
Cartune do "Público" de hoje
O DN traz a seguinte afirmação, logo a abrir a peça, que me fez pensar que o Papa Francisco finalmente é claro sobre a existência do diabo:
O papa Francisco apelou hoje [24 de julho, ler online aqui] aos fiéis para não perderam a esperança, afirmando que ainda que o diabo exista, Deus é o mais forte, e colocando ainda o povo latino-americano sob a proteção da Virgem de Aparecida.
Só com esta afirmação, parecia-me claro que "diabo" deixava de ser uma representação simbólica do mal para poder ser uma força pessoal, um ser, como afirma a DTDD (doutrina tradicional do diabo e do demónio). E o DN prosseguia:
"Ainda que o diabo, o mal, exista, não é o mais forte, o mais forte é Deus", disse o papa Francisco durante a celebração da missa no Santuário de Aparecida, no interior de São Paulo, a cerca de 200 quilómetros do Rio de Janeiro.
Mas agora já temos uma dissonância em relação à DTDD, que alguns gostam tanto de ver refletida nas palavras de Francisco. De acordo com a frase, o diabo é o mal. Ou então: "mal" esclarece o que Francisco pensa que é o diabo, podendo nós presumir que não se trata do ser pessoal da DDTD, mas do mal cuja existência e efeitos todos notamos, sendo o diabo símbolo de todo o mal. Na realidade, segundo a DDTD, mal e diabo não se equivalem, não são intermutáveis. O diabo está ao serviço do mal, dedicado ao mal, mas não é o mal. Ora, na teologia franciscana, diabo e mal equivalem-se, bem na linha do que propõem alguns teólogos e exegetas: interpretar as referências bíblicas (principalmente neotestamentárias) ao diabo como sendo alusões ao mal (o demónio é outra coisa).
Mas o que disse mesmo Francisco? Vamos ver o que vem no sítio do Vaticano (texto na íntegra aqui):
A segunda leitura da Missa apresenta uma cena dramática: uma mulher – figura de Maria e da Igreja – sendo perseguida por um Dragão – o diabo - que quer lhe devorar o filho. A cena, porém, não é de morte, mas de vida, porque Deus intervém e coloca o filho a salvo (cfr. Ap 12,13a.15-16a). Quantas dificuldades na vida de cada um, no nosso povo, nas nossas comunidades, mas, por maiores que possam parecer, Deus nunca deixa que sejamos submergidos. Frente ao desânimo que poderia aparecer na vida, em quem trabalha na evangelização ou em quem se esforça por viver a fé como pai e mãe de família, quero dizer com força: Tenham sempre no coração esta certeza! Deus caminha a seu lado, nunca lhes deixa desamparados! Nunca percamos a esperança! Nunca deixemos que ela se apague nos nossos corações! O “dragão”, o mal, faz-se presente na nossa história, mas ele não é o mais forte. Deus é o mais forte, e Deus é a nossa esperança! É verdade que hoje, mais ou menos todas as pessoas, e também os nossos jovens, experimentam o fascínio de tantos ídolos que se colocam no lugar de Deus e parecem dar esperança: o dinheiro, o poder, o sucesso, o prazer. Frequentemente, uma sensação de solidão e de vazio entra no coração de muitos e conduz à busca de compensações, destes ídolos passageiros.
Parece-me claro que temos todos os elementos para
interpretar o diabo, "o dragão", como símbolo do mal e não como um
ser pessoal (anjo) dedicado a tentar-nos.
segunda-feira, 15 de julho de 2013
Uma profissão com futuro: exorcista
No DN de hoje.
Cá está uma área de atividade diretamente proporcional à publicidade. Quanto mais se disser que o diabo possui pessoas, mais atividade diabólica desta haverá (desta, que de diabólico nada tem; os pecados do mundo e no mundo, ou as "estruturas de pecado", como dizia João Paulo II, pouco interessam aos exorcistas) e mais exorcistas serão necessários. O inverso também é verdade. Quantos mais exorcistas forem nomeados e mais se publicitarem, mais clientela aparecerá. O mercado a funcionar.
sábado, 8 de junho de 2013
Anselmo Borges: "O diabo, possessões demoníacas e exorcismos"
Texto de Anselmo Borges no DN de hoje:
O Papa Francisco terá alegadamente realizado um exorcismo num mexicano. O porta-voz do Vaticano apressou-se a desmentir. Mas o célebre exorcista Gabriele Amorth, a caminho dos 90 anos e que diz já ter feito mais de 70 mil exorcismos, não duvida de que "o Papa fez mesmo um exorcismo". Por mim, confesso que estou plenamente convencido de que Francisco não o fez: apenas tentou ajudar aquela pessoa doente, impondo-lhe as mãos e rezando.
Diabo é, etimologicamente, o contrário de símbolo: enquanto diabállo, em grego, significa desunir, enganar, symboléo quer dizer encontrar-se com, reunir. O simbólico une; o diabólico desune.
O diabo é uma figura com muitos nomes, embora o seu sentido não seja exactamente idêntico: satã, demónio, satanás, belzebu, lúcifer, mafarrico, maligno... Aqui, serão usados indistintamente.
Seja como for, o decisivo é que o diabo aparece no contexto do sofrimento, da maldade, enfim, do mal. Como se explica tanto mal e sofrimento no mundo? Uma vez que Deus não pode ser a causa do mal, pois é infinitamente bom, supõe-se que o diabo poderia ser uma boa explicação. Ele tentou e tenta o ser humano, que cai na tentação e provoca o mal. Mas já o filósofo Kant colocou na boca de um catequizando iroquês esta pergunta: Por que é que Deus não acabou com o diabo? E sobretudo: quem é que tentou os anjos, para que, de bons, se transformassem em anjos caídos e maus, demónios?
Para explicar o mal, contrapor o diabo a Deus, como se fosse uma espécie de anti-Deus, no quadro de um dualismo maniqueu, não passa de uma explicação aparente e, sobretudo, é uma contradição.
Se é certo que Jesus, nos Evangelhos, aparece expulsando demónios, isso deve ser compreendido no contexto das crenças da altura. Hoje, sabemos que se tratava de doenças do foro psiquiátrico ou de pessoas com ataques epilépticos ou sofrendo de histeria. De qualquer forma, Jesus anunciou Deus e não satanás, e, felizmente, o diabo não faz parte do Credo cristão. O núcleo da mensagem de Jesus foi o Reino de Deus, e o Reino de Deus consiste na salvação total e plena do ser humano. Neste contexto, o diabo pode aparecer apenas como um símbolo personificado de todo o mal que ainda aflige o homem, mas a que Deus há-de pôr termo, segundo a promessa de Jesus. O diabo é a expressão personificada do que não é o Reino de Deus. Precisamente para realçar mais e melhor o que constitui o centro da mensagem de Jesus enquanto notícia boa e felicitante: o futuro do Reino de Deus.
O diabo não pode, pois, ser apresentado como uma espécie de concorrente de Deus. E não tem sentido continuar a pensar e a pregar que ele se mete nas pessoas, para tomar conta delas através das possessões diabólicas. Não há possessos demoníacos. Apenas há doenças e doentes de muitas espécies e com múltiplas origens e com imenso sofrimento, a que é preciso pôr fim, na medida do possível e, pelo menos, aliviar. Os rituais de exorcismos não têm justificação.
Se Jesus não pregou satanás, mas Deus, então a fé do cristão dirige-se a Deus e não ao diabo, o que inclui na prática a urgência de expulsar da vida pessoal e pública tudo o que é demoníaco e diabólico.
Já em 1969, Herbert Haag, um dos maiores exegetas do século XX, que conheci bem, se despedia da crença na existência pessoal do diabo, na obra Abschied vom Teufel (Adeus ao diabo). H. Bietenhard também escreveu: "A pregação cristã não deve especular sobre a origem e a essência ou o ser de Satanás - a Bíblia também não o faz: as pregações sobre o diabo e sobre o inferno, quando não fomentam a necessidade de emoções de pessoas pseudopiedosas e a excitação dos seus nervos, só servem para difundir a insegurança, a angústia e o medo. Essas pregações, em vez de libertar, colocam fardos aos ombros das pessoas".
Como diz o teólogo José M. Castillo, a Igreja, em vez da preocupação com o número de exorcistas para os demónios inexistentes, deve preocupar-se com os outros demónios, os que na realidade existem, que andam por aí à solta e são responsáveis por imensos sofrimentos de milhões de pessoas.
quinta-feira, 6 de junho de 2013
quinta-feira, 30 de maio de 2013
"Precisamos de mais exorcistas"
No "Correio da Manhã" de hoje. As declarações do padre e o testemunho da ex-possessa confirmam o que tenho vindo a dizer (como outros): os céticos e os ateus estão mais bem preparados para combater o diabo. A eles o diabo não lhes toca.
Por outro lado, contrariando um comentário de alguém defensor da existência pessoal do diabo num texto anterior, os supersticiosos e adeptos de subprodutos religiosos e para-religiosos estão de facto mais vulneráveis aos ataques do mafarrico. Em vez de "precisamos de exorcistas" para combater os sintomas, deveria ser "precisamos de cristãos mais esclarecidos" que não procurem superstições e caminhos erráticos (causas).
Quanto ao recato destes atos, pois. Se deixassem entrar uma entidade independente (um parapsicólogo, um psiquiatra, um investigador destes casos - nos EUA há um grupo de cientistas que ainda está à espera de uma possessão real, embora confirme o efeito que dizem ser "placebo" dos exorcismos e orações), seria interessante.
domingo, 26 de maio de 2013
"Se Jesus fala de demónios e eles não existem, enganou-nos"
Por estes dias, regressou um velho argumento sobre a
existência real de demónios (enquanto seres sobrenaturais que por vezes possuem
pessoas e depois são expulsos por exorcismos). Digo regressou porque já por cá andou há um
ano. E regressou num ou noutro comentário
de entradas recentes neste blogue, tal como nas mensagens privadas do meu
espaço no Facebook. É de lá que retiro as seguintes frases, sem dizer quem é o
autor. Ele poderia ter escrito no blogue, mas preferiu o recato do FB e por isso não digo o seu nome.
Cristo expulsou demónios. Está em todos os evangelhos. Os apóstolos fizeram o mesmo. Está nos Actos dos Apóstolos. Também nega isso tudo? Ou Cristo (que é Deus, nisso concordamos) desconhecia factos clínicos psicológicos, inacessíveis à ciência da época? Os apóstolos, coitados, ainda vá lá: poderiam desconhecer as diferenças entre doenças psicológicas e possessões. Agora, Deus? Cristo não consegue ver a diferença entre epilepsia e possessão? E, já agora, Cristo não podia ter sido mais claro, e ter dito que o Diabo não existia? É que Cristo, ao falar sobre o Diabo como se ele existisse, acaba por nos baralhar...
Resumiria assim o que está acima: Jesus Cristo sabe tudo e
não engana ninguém (ou não seria Deus). Jesus Cristo expulsou demónios, como os
evangelhos atestam. Logo, eles existem, pois Jesus não quereria induzir-nos em
erro.
Em parte, estas questões já aqui foram abordadas. Primeiro,
nos evangelhos, Jesus expulsa demónios (e não o diabo – são distintos) pela
força da palavra e não por sortilégios (como faziam outros) no contexto do
anúncio da soberania absoluta de Deus (reinado de Deus); depois, é possível
interpretar as possessões como doenças do foro psíquico e, mais do que isso,
vitimizações num contexto social opressor. Diz um autor, em parte afastando-se
da ideia das doenças, que as possessões eram uma estratégia complexa utilizada
de maneira mórbida por pessoas oprimidas para se defenderem de uma situação
insuportável. Vale a pena ler e reler o texto (aqui, refiro-me às páginas digitalizadas). No final, com aquela
interpretação, sinto que os evangelhos são ainda mais reais e significativos
para aqueles tempos e os tempos de hoje.
A linha de fundo do argumento “não podia enganar-nos”
repousa na convicção de que Jesus, sendo Deus, sabe tudo; ou, sendo Deus, não
pode mentir, errar, enganar.
Há aqui três questões subjacentes. Aponto: a) O que é
Jesus ser Deus? (podemos ter entendimentos diferentes sobre isto); b) Estar
errado é pecado? (julgo que todos concordamos que não) c) Podemos dizer que
mente ou erra quem pensa de acordo com as conceções do seu tempo, se estas mais
tarde mudam? (julgo que todos concordamos no não).
Fica-se com a ideia, obviamente inaceitável para um crente, de que se Jesus falou de demónios e eles não existem, enganou-nos,
esquecendo que mentira (e erro moral) seria se Jesus soubesse uma coisa e
dissesse algo deliberadamente diferente (alguns dizem: “Sendo Deus, tinha de
saber”; nós dizemos: “Não tinha, não”). Mas se pensava de acordo com as
conceções culturais do tempo (e temos muitos motivos para pensar que sim), não
é mentir dizer algo que não corresponde ao que em fase posterior é tido por
verdade. Jesus diz que o grão de mostarda é a semente mais pequena. Talvez
pensasse mesmo que é. Fala do sinal de Jonas. Como qualquer judeu da época,
pensava num Jonas real e não numa figura literária. Diz que “o princípio não
foi assim”, ao falar do divórcio. Certamente pensaria num Adão e Eva reais,
como aparecem nas primeiras páginas da Bíblia. E os exemplos poderiam
continuar.
Desconfio que o tipo de teologia que nega a comunhão de
Jesus com os conhecimentos do tempo desconhece o significado da kenose de
Jesus, do abaixamento, do fazer-se humano, do caminhar com os contemporâneos.
Desconhece, certamente o que Bento XVI escreveu no livro
sobre a infância de Jesus:
É verdade também que a sua sabedoria cresce. Enquanto homem, Jesus não vive numa omnisciência abstrata, mas está enraizado numa história concreta, num lugar e num tempo, nas várias fases da vida humana, e de tudo isto toma forma concreta o seu saber. Manifesta-se aqui, de modo muito claro, que Ele pensou e aprendeu de maneira humana.
Ele pensou e aprendeu de maneira humana.
Com isto chego finalmente ao que me moveu a escrever isto.
Relendo um livro de Carlos González Vallés, dei com a página que condiz com as
cristologias do Jesus que sabia tudo mesmo tudo. Quando a mim, padecem, como noutra altura já escrevei, de uma espécie de docetismo gnoseológico.
O jesuíta cita gigantes da teologia (Santo Hilário: “Jesus
comia e bebia, não porque precisasse de fazê-lo, mas tão-somente para que não
se surpreendessem os que viviam com ele”; São Cirilo de Alexandria: “Jesus
sabia tudo desde seu berço, mas aparentava ir-se inteirando das coisas para
dissimular”; Santo Atanásio: “Jesus nunca pôde adoecer nem envelhecer”; os
salmanticenses: “Jesus foi de facto desde o princípio, e não apenas em potência
como possibilidade futura, o maior filósofo, matemático, pintor, navegador…
jamais existente” [esta faz lembrar os ditadores norte-coreanos]) e seguir fala
da sua experiência:
Eu ouvi dizer em sermões que Jesus, desde o berço em Belém, poderia ter contado à Mãe tudo o que lhe aconteceria na vida; que podia ter falado com os Reis Magos na língua destes; que quando o Evangelho diz que «se surpreendeu» diante da fé do centurião, isso não passava de um gesto condescendente de Jesus, que na realidade não podia «surpreender-se» com nada, já que conhecia tudo; que, quando perguntou ao cego: «O que quer que eu faço por você?», esta era uma simples pergunta teórica, já que Jesus sabia sempre o que cada um pensava e queria; que, quando rezava era sói para dar bom exemplo aos discípulos, uma vez que ele, sendo Deus não precisava de oração; que, se dormia na barca, não era por cansaço físico, mas para testar a fé dos apóstolos; e que, se gritou na cruz: “Por que me abandonaste?”, não foi por sofrimento pessoal, mas como consolo para os nossos.
Como ficamos em relação aos demónios? Repito Bento XVI: “Ele [Jesus Cristo] pensou e aprendeu de maneira humana”.
sexta-feira, 24 de maio de 2013
Fernando Calado Rodrigues: "O diabo não existe"
Madrid nomeia oito exorcistas. Aumenta a oferta emprego no setor
Notícia do "i" de hoje. Há uma lei que ainda não vi escrita, e cuja autoria, portanto, julgo poder reivindicar: quanto mais se fala do diabo/demónio, mais ele atua. Não é preciso que exista o diabo para que ele atue. Basta que se fale dele. E se houver exorcistas, não falta clientela. Alguma chega lá a pensar que tem o demónio e sai de lá, por vezes passados anos, curada porque finalmente se livrou dele, que entretanto foi bem inculcado. Há nisto tudo uma patranha imensa, em que até os psiquiatras, sem realmente colaboraram, colaboram. Eles dizem para o exorcista: Isso eu não sei explicar. E o exorcista esfrega as mãos de contente: Cá está, é o demónio. Antes era assim em quase todas as doenças mentais. Depois o espaço do demónio foi diminuindo. Agora é assim numa franja de casos. O demónio ainda não foi extinto.
E enquanto o demónio faz sofrer algumas pessoas (está estudada a psicologia demoníaca: ataca mais mulheres do que homens, ataca mais os supersticiosos, não ataca ateus, e nunca se manifesta perante céticos, ao ponto de não haver uma única possessão credível, apesar de haver muita gente aliviada com orações e exorcismos), o que é verdadeiramente demoníaco, humanamente demoníaco, o mal moral na vida política, económica, social, etc., vai fazendo o seu curso. E não há exorcista que valha.
terça-feira, 21 de maio de 2013
O diabo outra vez
Há uma série de blogues e comentadores, alguns em grandes jornais italianos (e também neste blogue, nos comentários), que anda exultante com as referências do papa Francisco ao diabo e, agora, com um suposto exorcismo.
O porta-voz do Vaticano já veio dizer que aquilo não era exorcismo nenhum, era apenas uma oração do Papa sobre um portador de deficiência. Ler aqui. Mas já se sabe como é. Quem acredita no diabo, vê-o em todo o lado. É uma explicação fácil. Desresponsabilizante. Que só justifica (e é justificado por) teologias poeirentas. Mas adiante.
Ou existe ou não existe. Mesmo que não exista, não estamos proibidos de usar a palavra em sentido metafórico, como julgo que o Papa faz. Mesmo que não exista, tem grandes efeitos em quem nele acredita. E mesmo que exista - o que é a existência de um ser não-ser? - , não creio. Não se pode crer no negativo. Só creio em "coisas" positivas.
O porta-voz do Vaticano já veio dizer que aquilo não era exorcismo nenhum, era apenas uma oração do Papa sobre um portador de deficiência. Ler aqui. Mas já se sabe como é. Quem acredita no diabo, vê-o em todo o lado. É uma explicação fácil. Desresponsabilizante. Que só justifica (e é justificado por) teologias poeirentas. Mas adiante.
Ou existe ou não existe. Mesmo que não exista, não estamos proibidos de usar a palavra em sentido metafórico, como julgo que o Papa faz. Mesmo que não exista, tem grandes efeitos em quem nele acredita. E mesmo que exista - o que é a existência de um ser não-ser? - , não creio. Não se pode crer no negativo. Só creio em "coisas" positivas.
quinta-feira, 25 de outubro de 2012
"O Último Exorcista". Oxalá que sim
P.e Gabriele Amorth tem mais um livro. Intitula-se “O Último
Exorcista” (Paulinas). E eu só posso concordar. Oxalá que sim.
Mas depois leio na contracapa, escrito pelo próprio: “O
Último Exorcista é um título conscientemente provocador. É claro que não sou o
último exorcista deste mundo. Depois de mim, outros virão e já existem outros,
mesmo entre os jovens. Mas, no mundo, somos tão poucos… Muitos bispos já não
acreditam no demónio nem já nomeiam exorcistas nas suas dioceses. Estamos
reduzidos a poucos e cada um de nós, na sua batalha quotidiana, sente-se como
se fosse o último exorcista a combater o grande inimigo. Esta é a minha grande
angústia e preocupação, sendo por isso que aceitei que o livro saísse com este
título».
Debruçando-me recentemente sobre vários títulos deste padre
exorcista, sinto uma certa perplexidade quanto ao seu trabalho. Vejamos. Em “Mais
fortes que o mal” (Paulus), P.e Amorth diz que é ação do diabo e dos seus
demónios o seguinte (o subtítulo da obra é “O demónio: reconhecê-lo, vencê-lo,
evitá-lo”):
- a doença mental (os manicómios estão cheios de vítimas da
ação do diabo)
- as pernas presas antes de um casamento por maldição da
sogra
- cancros
- falências de negócios
- sonhos de caracter sexual
- filmes de terror
- filmes violentos
- filmes de sexo
- desenhos animados
- tentações dos santos
- assassínios
- feitiços, amarrações, maldições, macumbas, wudu,
mau-olhado, filtros mágicos
- maldição do pai para a filha no dia do casamento
- luzes que se ligam sozinhas
- magos “com poderes reais”, feiticeiros e bruxos
- sapos que desaparecem de sacos com água fechados
- pregos enferrujados que aparecem debaixo do colchão sem ninguém
os pôr lá.
Isto tudo e ainda vou só na página 72. O livro tem mais
duzentas páginas.
Perante esta panorama (acho piada que ele distinga magos com
poderes reais dos magos charlatães, o que diz muito da sua capacidade de
acreditar), só não vê a ação do demónio quem não quer.
O caso das materializações
- pregos enferrujados – nos colchões é um dos muitos casos hilariantes. “Não
se trata de coisas inseridas manualmente no interior dos colchões, mas por via
maléfica”, diz, certamente desconhecendo a desmontagem que o P.e Quevedo fez da
materialização do algodão (há vídeos por aí). É muito curioso, aliás, que os
exorcistas repudiem todo o trabalho dos parapsicólogos e céticos.
Com tudo isto, tenho três hipóteses para explicar o trabalho
de P.e Gabriele Amorth.
A primeira é a que ele próprio assume. Que o diabo existe e
que há que falar dele para estarmos atentos e não cairmos no pecado (que é o
mais importante mas não dá tanto espetáculo) nem sofrermos infestações,
vexações e possessões (que é só sofrimento, mas é mais espetacular). O trabalho dos exorcista incide sobre este segundo aspeto.
A segunda é minha. O diabo existe ou não existe. Se existe (o
que é existência de um não ser?) e mesmo que não exista (tem uma existência simbólica,
pelo menos, e influência na vida de alguns) convém-lhe que alguém o divulgue e faça acreditar nos nadas que
oprimem muita gente (maldições, maus olhados, poder dos feitiços, etc. etc.). Quanto mais se acredita, mais oprimem. O
P.e Gabriele Amorth, paradoxalmente, faz um trabalho nesta linha. Quem se sente
vulnerável, por mil e um aspetos, ao ler as suas obras poderá pensar que nos
seus tormentos há dedo demoníaco. Como diz um autor que acredita na
pessoalidade do diabo, Jean Vernette: “Meter Satanás em todo o lado é prestar-lhe
honras. E por vezes induzir em tentação quem estava bem longe disso”.
A terceira, também da minha autoria. O diabo não existe. E o
P.e Gabriele Amorth, com a sua credulidade ingénua, involuntariamente, é certo,
mais argumentos dá a quem não aceita a existência pessoal do anjo caído. Por
oposição, julgo que este padre exorcista serve a verdade. “Se o diabo é isto –
podemos pensar –, é claro que não existe”.
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