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quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Contra a fidelidade canina aos partidos


Luigi Sturzo, padre, fundou o Partido Popular Italiano em 1919, o primeiro de "inspiração católica". Mas explicou que "os dois termos («partido» e «católico») são antitéticos; com efeito, o catolicismo é religião, é universalidade; o partido, inversamente, é política, é divisão".

(Sturzo opôs-se ao fascismo e teve de se exilar, primeiro em Londres e depois em Nova Iorque.)

Cá está uma boa razão para os católicos poderem mudar de partido à vontade.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

"Falta de provas"

1947. Giulio Andreotti, com uns papéis na mão, tem ao seu lado esquerdo Battista Montini (Paulo VI a partir de 1963)

Quando morreu Giulio Andreotti, no dia 6 de maio deste ano, quis assinalar aqui o acontecimento. Tinha em mente que ele, além de político democrata cristão, foi diretor da revista católica 30Gionri / 30Dias e escreveu alguns artigos de interesse, como este, por exemplo, precisamente sobre a Democracia Cristã.

Foi apenas uma das muitas coisas que não fiz.

Mas hoje, ao ler o mais recente número do “Courrier Internacional”, dou com um breve texto que insinua que esteve ligado a segredos, terrorismo e crimes e relacionado com a Máfia, coisa muito falada em maio passado. Diz o texto – e é por causa dessa nota de humor que escrevo isto: “Quando acusado, defendeu-se respeitando sempre os juízes. «Foi para o céu por falta de provas», comentou um internauta”.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Mário Soares e o efeito sinédoque na construção da Europa


K. Adenauer, pai, ou talvez tio, da Sr.ª Merkel

Mário Soares faz hoje, no DN, uma extensa análise do panorama político europeu, com destaque natural para a vitória de Hollande. “Eis a mudança esperada, que vai transformar a União Europeia e tornar um pouco melhor o mundo”, conclui.

Na política, sou gémeo Tomé, que era chamado de “Dídimo”, que quer dizer “nascido do mesmo parto”. [Os cristãos, é a minha interpretação da passagem tomista, nasceram todos do mesmo parto de cegueira de Tomé] . Não me parece que Mário Soares tenha razão na sua análise. Tudo anda à volta do dinheiro, é certo. Mas a coisa não se resolve como ele escreve:  “Não há dinheiro? Há sempre, desde que haja vontade política para o arranjar”. Espero para ver como.

Mas se trago para aqui a reflexão do ex-Presidente da República é principalmente por causa dos primeiros parágrafos:
Não sou profeta. Mas espero que a Esquerda europeia saiba aproveitar a oportunidade que a crise global, paradoxalmente, lhe oferece, para se refundar (socialistas, sociais-democratas, trabalhistas, verdes) e, em diálogo estreito com o movimento sindical, readquirir o lugar que teve, no passado, nos Governos europeus e que, infelizmente, para o futuro europeu, tem vindo a perder. 
Também espero, embora com menor convicção, confesso, que a Democracia Cristã, a outra família política que, com o socialismo democrático, ajudou a construir e a desenvolver o projeto europeu, possa reaparecer, com força, para o progresso da Europa. Porquê menos convicção? Porque a Igreja de Bento XVI não é a mesma de Leão XIII, de João XXIII ou de Paulo VI do Concílio Vaticano II. Apesar de manter, como não podia deixar de ser, a doutrina social da Igreja - e combater a democracia liberal, em favor da democracia social - evita, creio, que se crie, como no passado, um relacionamento partidário estreito que lhe pode retirar a simpatia dos outros movimentos políticos...
De qualquer modo, tanto a social-democracia como a democracia cristã perderam importância política na Europa, nos últimos anos, em favor do populismo ultra-conservador e da ideologia neoliberal (ler o resto e tudo aqui).

Duas notas:

1. Tenho ainda mais dúvidas que a Democracia Cristã ressuscite na Itália, por exemplo, que é onde era mais relevante nas últimas décadas, além da Alemanha. E vários políticos catolicíssimos do CL estão às pegas com a justiça. Mas é admirável como Soares passa por cima do facto de a CDU de Merkel ser democracia cristã.

2. Parece que a Europa unida foi obra principal do socialismo democrático, auxiliado pela democracia cristã. Foi precisamente o contrário. É o efeito sinédoque, tomar a parte pelo todo, o menor pelo maior. Os democratas cristãos deram os primeiros passos, lideraram, e a seguir juntaram-se socialistas e liberais. Os “pais da Europa”, os franceses Schuman e Monnet, o alemão Adenauer, o italiano De Gasperi eram o quê? De dois deles correm processos de canonização, ainda que em fases iniciais (Schuman e De Gasperi). Outro era irmão de padre (Adenauer). E outro, mui católico, Monnet, só não viu o seu catolicismo mais realçado porque se casou com uma divorciada (mas não descansou enquanto não conseguiu casar-se pela Igreja).  Não foi por acaso que os detratores da ideia da Europa unida chamavam ao projeto a “Europa vaticana”.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

20 de fevereiro de 1878. É eleito Leão XIII



Leão XIII (Vincenzo Buzzi) foi eleito Papa no dia 20 de fevereiro de 1878, a poucos dias de fazer 68 anos, e morreu em 1903, no dia 20 de julho.


Leão XIII foi um renovador, depois de Pio IX, papa do Vaticano I e da infalibilidade, da reclusão no Vaticano perante a reunificação da Itália.


Notou-se especialmente a renovação de Leão XIII na atenção à "questão operária" com a publicação da encíclica "Rerum Novarum", em 1891, que inaugurou um estilo de proclamação do pensamento social da Igreja, a chamada doutrina social da Igreja. Com a "Rerum Novarum", o Papa repudiou o comunismo e preconizou a formação de associações de trabalhadores. Lançou os fundamentos do que viria a ser em alguns países europeus a democracia cristã.

domingo, 21 de agosto de 2011

21 de Agosto de 1954. Morre Alcide De Gasperi



Alcide De Gasperi (1881-1954), fundador em 1942 da Democracia Cristã italiana, artífice da reconstrução transalpina após a II Guerra Mundial e um dos pais da Europa unida, morreu no dia 21 de Agosto de 1954.

Em 2009, o cardeal Re contou ao “L’Osservatore Romano” um episódio relacionado com o estadista italiano:

Um dia, a filha Maria Romana pediu ao seu pai o carro para realizar uma tarefa. A resposta de De Gasperi foi: “Não é possível; esse carro não é do seu pai, mas do presidente do Conselho de Ministros”.

Obviamente que não foi por não ter empresado o carro à sua filha que De Gasperi se revelou um grande estadista e modelo para os cristãos que são políticos (corre o seu processo de beatificação). Mas o episódio constitui um pequeno sinal do modo de estar no serviço à causa pública.

sábado, 16 de julho de 2011

Renascimento do partido dos católicos em Itália?

Andrea Riccardi


A Democracia Cristã desapareceu do mapa político italiano nos anos 1990. Na cultura italiana a expressão "democrata cristão" adquiriu valor negativo. Mas parece que as coisas estão a mudar e há quem volte a falar de um partido católico.


Andrea Riccardi escreveu sobre o assunto no "Corriere della Sera":
Estamos, agora, diante da gestação de um novo partido católico? Talvez seja um fantasma que, de um lado, inquieta e coloca novamente em discussão a centro -direita e, de outro, constata a crise do contágio entre as culturas do catolicismo democrático e da esquerda na origem do Partido Democrata. 
Certamente, há um mal-estar difundido entre os católicos, que é acompanhado pela consciência de ter valores, ideias e experiências. É generalizada a aspiração a uma visão que dê esperança em um tempo de sacrifícios e que recoloque internacionalmente um país curvado sobre si mesmo, como afirmou Lucio Caracciolo no jornal "Avvenire". 
Mal-estar, aspirações, senso de responsabilidade colocaram em movimento há anos um processo entre católicos: eles estão refletindo sobre a crise, captando estímulos do contato diário com os problemas dos italianos (através de uma densa rede social e pastoral), mas também retomando um patrimônio de reflexão e de ética. 
Os católicos italianos são uma realidade articulada, em que os diversos ambientes e organizações, tempos atrás mais autorreferenciais, estão em um diálogo muito mais próximo. Poucos se deram conta disso. Se o novo partido católico parece uma notícia de verão, é preciso constatar, no entanto, uma difundida vontade de responsabilidade desses ambientes.
Ler tudo aqui.

sábado, 15 de maio de 2010

15 de Maio de 1891. Leão XIII publica a encíclica “Rerum Novarum”

Leão XIII publicou no dia 15 de Maio de 1891 a encíclica “Rerum Novarum”, sobre a condição dos operários nos países industrializados. Apelidado de “Magna Carta”, o documento foi fundamental para ao aparecimento do associativismo católico e mesmo da democracia cristã.

Primeiro parágrafo do documento:

“A sede de inovações, que há muito tempo se apoderou das sociedades e as tem numa agitação febril, devia, tarde ou cedo, passar das regiões da política para a esfera vizinha da economia social. Efectivamente, os progressos incessantes da indústria, os novos caminhos em que entraram as artes, a alteração das relações entre os operários e os patrões, a influência da riqueza nas mãos dum pequeno número ao lado da indigência da multidão, a opinião enfim mais avantajada que os operários formam de si mesmos e a sua união mais compacta, tudo isto, sem falar da corrupção dos costumes, deu em resultado final um temível conflito”.

Encontra-se on-line aqui.

No mesmo dia nasceu Mikhail Bulgakov (15-05-1891 – 10-03-1940), autor do romance póstumo “Margarita e o Mestre”. O romance inclui um diálogo entre Satã e um poeta sobre a existência de Jesus Cristo e um diálogo entre Jesus e Pôncio Pilatos, antes da crucifixão. O grande tema do livro é, no entanto, a crescente paranóia da União Soviética.

domingo, 9 de maio de 2010

9 de Maio de 1978. Aldo Moro é assassinado

Primeiro-ministro de Itália, católico convicto, líder da democracia cristã, amigo de Paulo VI, Aldo Moro (1916-1978) foi assassinado pelas Brigadas Vermelhas no dia 9 de Maio de 1978, após 55 dias de sequestro.

Foi encontrado na mala de uma Renault 4, na Via Caetani, entre a sede da Democracia Cristã (o seu partido) e a do Partido Comunista Italiano. Aldo Moro defendia que o PCI poderia entrar num governo liderado pela Democracia Cristã.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

DSI 12 - Radiomensagens sociais de Pio XII, mas não encíclicas

Com João XXIII, entramos numa segunda geração de encíclicas sociais. A primeira foi a de Leão XIII (com a “Rerum Novarum”) e Pio XI (com a “Quadragesimo anno”). Leão XIII dá-se com a “questão operária” (a exploração dos trabalhadores na revolução industrial), Pio XI debate-se com a “questão social” (o reconhecimento da extensão dos problemas económicos a toda a sociedade).

Pio XII (Papa de 1939 a 1958), na imagem, não escreveu encíclicas sociais. O seu magistério social está explanado principalmente em duas radiomensagens. Era um Papa que não hesitava em usar os meios mais modernos para a difusão da mensagem cristã, tendo escrito esperançados textos sobre o cinema e a televisão e usando a rádio com abundância. Na mensagem radiofónica de 1 de Junho de 1941, intitulada “A Solenidade de Pentecostes”, por ser dia de Pentecostes, comemora o 50.º aniversário da Rerum Novarum, a “Magna Carta” da actividade social cristã. Em plena II Guerra Mundial, o ambiente não era propício para acolher uma encíclica. Pio XI usa o meio de propaganda preferido das potências em conflito. “O que para muitos é arma de combate, para nós transforma-se em instrumento providencial de apostolado activo e pacífico”, afirma aos microfones da Rádio Vaticano (criada por Pio XI). Na mensagem, fala do direito natural ao uso dos bens materiais, do direito ao trabalho, do direito das famílias a emigrar (direito ao “espaço vital”)…

Noutra mensagem radiofónica, no sexto Natal da II Guerra Mundial (24 de Dezembro de 1944), talvez a mais interessante politicamente, já após a queda de Mussolini, mas antes da morte de Hitler (suicidar-se-ia no dia 30 de Abril de 1945), Pio XII defende a implantação do sistema democrático: “Perante o Estado e os governantes, [os povos] adoptaram uma nova atitude, interrogante, crítica e desconfiada. Ensinados por amarga experiência, opõem-se, impetuosamente, aos monopólios de um poder ditatorial, sem fiscalização e intangível, e exigem um sistema de governo mais compatível com a dignidade e a liberdade dos cidadãos” (BH 7).

Nas décadas seguintes, a Democracia Cristã viria a dominar o país transalpino, sendo o pontificado de Pio XII o mais politicamente interventivo.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Democracia cristã 2

Uma observação mais pormenorizada dos resultados das Europeias 2009, a partir do “Público” de 9 de Junho, permitiu detectar mais partidos democratas cristãos (DC), para além dos referidos em post anterior.

Na Eslováquia, os DC elegeram 2 deputados em 13 (6 em 2004). Em Malta, elegeram 2 em cinco possíveis, tal como em 2004. Na República Checa, elegeram 2 em 22 possíveis (em 2004 ainda não existiam com esta designação).

Talvez haja ainda mais democracia cristã, que, em todos os casos, integra o grupo do PPE.

terça-feira, 9 de junho de 2009

A democracia cristã ganhou

A ideia da Europa unida é uma ideia de líderes católicos (Adenauer, De Gasperi, Schuman, Monnet…), justamente tidos como “pais da Europa”, a que se juntaram socialistas e liberais. Houve até quem falasse, no início da Europa unida, seis nações apenas, de uma “Europa vaticana”.

É curioso ver, por isso, o que é feito da democracia cristã. Como se portou nestas eleições europeias, ela que, como não poderia deixar de ser, é europeísta convicta.

* Na Alemanha ganhou (CDU de Angela Merkel), ainda que tenha descido 4 por cento.

* Na Bélgica (democrata-cristãos flamengos), ultrapassando os liberais flamengos e os socialistas francófonos.

* Na Holanda (CDA), ganhou.

* No Luxemburgo (partido social-cristão, de Jean-Claude Juncker), ganhou (três deputados em seis possíveis).

Estes dados seguem o Público de 8 de Junho de 2009 na edição impressa. Só encontrei referência à democracia cristã nestes seis países e em todos eles ela surge em primeiro lugar.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...