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sábado, 4 de maio de 2013

Anselmo Borges: "O bispo R. Williams enfrenta o ateu R. Dawkins"

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje ( e no final o vídeo do debate Williams/Dawkins & others):


1-Não tem faltado aqui, nestas crónicas, a denúncia das patologias da religião. Como ser insensível ao sofrimento das vítimas da pedofilia do clero? Vítimas de escrúpulos, vítimas da humilhação intelectual, vítimas da intolerância religiosa, de um deus mesquinho e escravizador... O historiador católico Jean Delumeau escreveu: "As minhas investigações convenceram-me de que a imagem do Deus castigador e vingativo foi um factor decisivo para uma descristianização cujas raízes são antigas e poderosas".

Parece que, enquanto pôde, o clero controlou a vida sexual dos fiéis, a ponto de outro historiador, Guy Bechtel, afirmar que a fractura entre a Igreja católica e o mundo moderno se deu na teoria do sexo e do amor, com uma confissão inquisitorial centrada na actividade sexual.

Será preciso lembrar os homens e mulheres que foram assados nas fogueiras da Inquisição e não só, porque tinham ideias novas? E houve o medo-pânico da mulher, que se chegou a acusar de manter relações sexuais com o diabo. E os livros considerados heréticos também foram queimados. E houve as cruzadas, as guerras de religião, a missionação forçada. Pio VI condenou essa "detestável filosofia dos Direitos do Homem". Pio IX condenou expressamente a evolução como uma aberração. No século XX, o teólogo E. Drewermann escreveu: "Há 500 anos, a Igreja recusou a Reforma; há 200, o Iluminismo; há 100, as ciências naturais; há 50, a psicanálise. Como viver com tantas rejeições?"

Apesar de tudo, creio que é inegável que, no cômputo geral, o saldo é superior a favor da religião, nomeadamente do cristianismo. E não estou sozinho nesta apreciação.

2-Cada quarta-feira, a Cambridge Union Society, um clube de debate ligado à Universidade de Cambridge, realiza um debate sobre temas actuais. No passado dia 31 de Janeiro, com a presença de mais de 800 pessoas, sendo a maioria constituída por estudantes universitários, o tema era debater a necessidade da religião neste século, a partir das seguintes perguntas: "A religião é compatível com a vida do século XXI? Como pode conseguir-se que encaixe com as leis e os valores modernos? E se fosse compatível, a religião faz mais bem do que mal?"

Para o debate, partindo da premissa, "A religião não tem espaço no século XXI", foram convidados vários intervenientes, entre os quais o arcebispo Rowan Williams, que deixou há pouco a liderança da Igreja Anglicana, e o biólogo Richard Dawkins, ateu convicto e apóstolo do ateísmo a nível mundial.

Segundo R. Dawkins, a religião é "redundante e irrelevante", para lá de "uma traição à inteligência, uma traição ao melhor de nós, ao que nos torna humanos", continuando: "parece responder à pergunta enquanto a não examinas e te dás conta de que o não faz. Espalha explicações falsas, quando se poderia ter oferecido explicações reais, explicações falsas que obstaculizam a iniciativa de descobrir explicações reais." No contexto científico, funciona como um "charlatão pernicioso". Em suma: a sociedade funcionaria melhor, se as religiões estabelecidas desaparecessem.

Para R. Williams, a religião "foi sempre uma questão de construir comunidades, uma questão de construir relações de compaixão e de inclusão". A questão fundamental é ver qual deveria ser a atitude que se tem para com ela. Os direitos das pessoas "têm profundas raízes" nas comunidades de fé. "A Declaração dos Direitos Humanos não teria sido o que é se não tivesse havido o debate filosófico e religioso." Assim, o respeito pela vida humana e a igualdade são inerentes a todas as religiões organizadas. Por isso, pretender que "o compromisso religioso deve ser um assunto meramente privado vai contra a história da religião".

No final, depois de todas as intervenções, parte do público votou. Aí, os favoráveis à afirmação "a religião não tem espaço no século XXI" saíram derrotados: 136 contra 324. A religião autêntica pratica o amor, faz comunidades, oferece transcendência e sentido final. Mas é claro que, também no domínio da religião, se não pode abandonar a presença da razão crítica.

sábado, 15 de dezembro de 2012

Anselmo Borges: "Ciência e religião: um desafio, não um conflito"


Texto de Anselmo Borges no DN de hoje.

George Coyne, s.j.

Ele sabe do que fala. É o jesuíta George Coyne, director emérito do Observatório do Vaticano, onde desempenhou um papel relevante no quadro das relações entre conhecimento científico e religião, dialogando com alguns dos mais prestigiados cientistas contemporâneos: Stephen Hawking e Richard Dawkins, entre outros.

Numa entrevista à US Catholic, defende precisamente que, mesmo que a Igreja nem sempre tenha sido dessa opinião, entre a ciência e a religião não há conflito, mas um desafio, ajudando ambas, desde que se trate da verdadeira fé religiosa e da verdadeira ciência, a compreender um universo dinâmico e criativo.

O universo é "um desafio incrível". Em primeiro lugar, lida-se com números avassaladores: o universo tem 13 700 milhões de anos - mil milhões é um seguido de nove zeros - e o número de estrelas existentes, nos cem mil milhões de galáxias, é um seguido de 22 zeros.

Neste universo gigantesco, não podemos, pois, excluir a existência noutras paragens de vida inteligente. E nós, como aparecemos nós? Isto aconteceu por acaso ou num processo necessário? Tudo foi por acaso ou por necessidade?

A sua resposta: "Segundo a ciência moderna, pelas duas coisas ao mesmo tempo: somos o resultado do acaso e da necessidade num universo fértil." O nosso Sol é uma estrela de terceira geração. Precisamos de três gerações de estrelas para conseguir uma capaz de fornecer os elementos necessários para a vida. É isso que se quer dizer com a fertilidade do universo: mediante processos físicos no universo, construir a química necessária para a vida.

É preciso contar com as leis da natureza. Por exemplo, quando dois átomos de hidrogénio se encontram, pode formar-se uma molécula de hidrogénio, mas também pode acontecer que não, devido às condições de temperatura e pressão. Não deve surpreender-nos que, por acaso, dois átomos se encontrem num momento em que as condições são adequadas, formando uma molécula de hidrogénio. Isso é "acaso", mas também é algo mais. Podemos determinar uma probabilidade de que isso aconteça. Nalgumas galáxias, é mais provável. É uma combinação de acaso e de necessidade, mas, num universo fértil, há muitas possibilidades de que isso ocorra.

Então, "com toda esta química à disposição durante 14 mil milhões de anos, o acaso e a necessidade trabalharam juntos para construir moléculas cada vez mais complexas. Assim, obtemos proteínas, aminoácidos e açúcares, ADN, fígados, corações, e, por fim, o cérebro humano, através da evolução biológica".

Conhecemos, portanto, o processo científico que nos levou a ser o que somos. Foi Deus que fez isto? "Falando como cientista, a minha resposta é: não sei." A ciência não tem possibilidade de responder. Posso ficar e fico surpreendido com a existência deste movimento. Para mim, como cientista, "o ser humano é um organismo biológico complexo" e "não posso falar sobre o seu carácter espiritual"; "como objectos materiais no universo, seria difícil para mim, como cientista, defender que somos especiais". A criação tem carácter evolutivo e há processos aleatórios, e não sabemos completamente para onde se dirige. Enquanto cientista, "também não posso falar de Deus", pois, nessa altura, não estaria a fazer ciência. "Creio que é muito importante na sociedade moderna, sobretudo na América, não confundir o que sabemos pela ciência com o que sabemos pela filosofia, a teologia, a literatura e a música."

Há cientistas que dizem que os crentes estão enganados, mas a maioria respeita profundamente a fé religiosa. Aliás, o próprio ateísmo "já é uma prática da fé", pois "um ateu não pode demonstrar que não há Deus". A experiência humana é mais ampla do que as explicações racionais, e "a fé vai para lá da razão, mas não está em contradição com a razão". G. Coyne acredita no Deus revelado por Jesus.

De novo: o homem é especial? "Ser especial enquanto peça material no universo é uma coisa; ser especial ao conhecer a história religiosa e viver uma vida cheia de fé é outra. Mas continua a ser um desafio."

terça-feira, 27 de novembro de 2012

João César das Neves sabe como detetar os novos hitleres


Peter Berger. Será este homem mais perigoso do que Hitler?

João Cesar das Neves, no DN de hoje (26-11-2012), dá a conhecer uma obra que deve ser interessante.
No seu recente livro “The Triumph of Christianity” (HarperOne, 2011) o reputado sociólogo da religião Rodney Stark faz um resumo de 40 anos de carreira e de uma impressionante lista de trabalhos de outros autores. O tema explícito é o paradoxo a que dedicou grande parte da sua atenção: "como foi possível que uma obscura seita judia se tenha tornado na maior religião do mundo?" (p.1). Só que, apesar de cobrir esparsamente os dois mil anos de história, pode dizer-se que o verdadeiro assunto do volume é bem diferente: derrubar uma enorme quantidade de mitos, erros e manipulações que a historiografia dos últimos séculos acumulou sobre a Igreja.
O economista aponta depois uma série de exemplos de mitos e manipulações que farão a delícia dos novos apologetas (em parte também me considero um):
- O sucesso da expansão cristã no Império Romano não se ficou a dever à decadência do paganismo, revolta de escravos ou favores de Constantino, mas ao facto de os cristãos, graças à sua caridade, "viverem mais tempo que os seus vizinhos pagãos... não 'descartarem' as crianças femininas e as mulheres cristãs não terem a mortalidade substancial por abortos feitos num mundo sem antibióticos" (p.417).
- A Idade Média europeia não foi uma "idade das trevas" de miséria e obscurantismo, mas uma época brilhante da história do mundo, pois a ausência de impérios eliminou a escravatura e monumentos grandiosos, e o génio humano pôde virar-se para descobertas pragmáticas, das esporas aos óculos e moinhos, passando pelo capitalismo (p.242-5).
- A religião não é inimiga da ciência, mas foi na Igreja que nasceu e grande parte dos maiores cientistas são e sempre foram devotos (cap.16).
- "A Inquisição Espanhola foi um corpo bastante moderado, responsável por poucas mortes e salvou muitas vidas por se opor à caça às bruxas que varreu o resto da Europa".
Talvez pudesse dizer também que o pacto das bruxas com o diabo é uma invenção da Inquisição medieval, pelo que não está isenta de culpa na paranóia contra as mulheres que varreu parte da Europa, mais a norte. Mas não há espaço para tudo. O texto pode ser lido aqui.

O que me espanta, porém, é o parágrafo final:
Mas é assustador pensar no enorme poder que alguns pseudocientistas têm, se usarem a sua posição de prestígio e influência para veicular dogmas pessoais. Voltaire e Gibbon, como hoje Richard Dawkins ou Peter Berger, são um perigo para a liberdade maior que Napoleão, Hitler ou Mugabe. Manipular a mente é pior que controlar leis e polícias.
Não me impressiona por aí além que João César das Neves tenha caído na Lei de Godwin. Admiro-me é por incluir Peter Berger na lista dos manipuladores perigosos, ainda que Voltaire, Gibbon e Dawkins também tenham aspetos positivos.
Será o Peter Berger que muitos leem (ou leram, como foi o meu caso, nos anos 90) por causa da secularização, americano de origem austríaca (olhem, a pátria de Hitler), professor em Boston, doutor honoris causa numa universidade jesuíta? É dele uma expressão que entrou na cultura teológica, “rumor de anjos”, para significar os anseios de divino nas sociedades tecnológicas e os sinais de transcendência.
O Google não apresenta outros Peter Berger. E aponta o blogue deste teólogo e sociólogo, aqui. Não o leiam. “Manipular a mente é pior que controlar leis e polícias”, avisa César das Neves. Fui ler. Por sinal, por estes dias, a propósito do furação Sandy, o sociólogo-teólogo lembra o terramoto de Lisboa, quando os católicos diziam que foi um castigo de Deus por causa de haver alguns protestantes em Lisboa enquanto no norte da Europa diziam que era castigo divino por causa de os portugueses serem católicos (texto de 21 de novembro). Tem razão o professor César das Neves. “Manipular a mente é pior que controlar leis e polícias”. E parece que Peter Berger concorda.

sábado, 22 de setembro de 2012

Procurar Deus nos buracos da ciência?


Excertos de uma entrevista que o IHU fez ao físico Marcelo Gleiser.


A espiritualidade é parte da nossa humanidade
Não vejo que a ciência avance devido ao diálogo com a fé, ao menos nos tempos modernos. Sem dúvida, historicamente alguns dos grandes nomes da ciência eram também profundamente religiosos; Copérnico, Galileu, Kepler, Newton. Para eles, a ciência engrandecia a obra de Deus e era interligada com a fé. Hoje, existe uma separação prática entre as duas. A religião não faz parte do discurso científico, ao menos diretamente. É perigoso para as duas buscar-se por estas ligações. Ciência e fé devem coexistir e não insistir numa relação de dependência mútua. Por outro lado, se buscarmos por uma inspiração na ciência, o que faz tantos homens e mulheres dedicarem suas vidas ao estudo da Natureza, encontraremos, em muitos casos, uma relação de profunda espiritualidade com o mundo, mesmo que, na maioria deles, esta relação não inclua fatores sobrenaturais. A espiritualidade é parte da nossa humanidade, e se manifesta de formas diferentes em tempos diferentes. (…)

Humildade de crentes e ateus
Acho que Dawkins, Dennett, Harris e Hitchens pecam pelo excesso, pelo uso da mesma retórica virulenta que criticam nos extremistas religiosos. Todo fundamentalismo é, por definição, exclusivista e destrutivo. Mesmo que muita gente ache que eles representam a posição da ciência, isso não é verdade. Existem muitos cientistas que, mesmo sendo ateus ou agnósticos, não adotam uma postura combativa em relação à fé. Esse tipo de atitude não só não leva a nada como é filosófica e extremamente ingênua. Basta dar uma olhada mais cuidadosa na ciência e em como ela funciona para entender que têm limitações essenciais, questões que estão além do seu alcance. Isso não significa que as pessoas de fé devam buscar Deus nos limites da nossa compreensão científica, mas que os cientistas precisam ter mais humildade em seus pronunciamentos sobre o que a ciência já compreende e o que é ainda mera especulação. Achar que todas as questões podem ser reduzidas ao método científico é privar a cultura humana de outros modos de compreensão. A realidade é bem mais rica do que isso.

Deus nas brechas? Estratégia de fracasso
Buscar por Deus nas brechas da ciência é uma estratégia que leva inevitavelmente ao fracasso; a ciência avança e esse Deus que “explicava” o que não se sabia explicar torna-se desnecessário. Melhor guardar a fé para questões de aspeto transcendente, que não são necessariamente abordadas pela ciência e seus métodos: qual o sentido da nossa existência, o que é o amor, por que existe o mal, o que é verdade etc.

Ler tudo, que não é muito mais, aqui.
Mais Marcelo Gleiser aqui.

sábado, 7 de julho de 2012

Anselmo Borges: Guia das religiões para uso dos não crentes



Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (aqui).


"Imagino Deus como alguém que está presente, que olha por ti, que conhece a tua mente melhor do que tu próprio. Alguém com quem se partilha problemas, que cria momentos especiais de intensidade, e a sensação de um contacto directo com momentos de revelação. Imagino que quem acredita tenha essa capacidade para admitir que está perdido e tem esperança de que Deus o vai ajudar a encontrar o caminho. Tem a capacidade para admitir tudo, de ser muito honesto com Deus - porque Deus vai perdoar, porque Deus é amor e por isso nunca se está sozinho. Imagino que isso saiba muito bem. Simplesmente não me parece plausível". Esta a resposta de Alain de Botton à pergunta do "Público": "Como é que imagina Deus?"

A. de Botton, que diz não ter sensibilidade para a fé em Deus, pensa que os ateus têm muito a aprender com as religiões em problemas fundamentais. No seu livro, que já aqui apresentei, "Religião para Ateus. Um guia para não crentes sobre as utilizações da religião", escreve: "A essência da tese apresentada aqui é que muitos dos problemas da alma moderna podem ser resolvidos graças a soluções propostas pelas religiões", cuja sabedoria "pertence a toda a humanidade, mesmo às pessoas mais racionais, e merece ser selectivamente reabsorvida pelos maiores inimigos do sobrenatural. As religiões são por vezes demasiado úteis, demasiado eficazes e inteligentes para serem entregues apenas aos crentes". "Deus talvez esteja morto", mas os problemas que levaram até ele continuam aí e o ateísmo não pode esquecer as respostas das religiões, que continuam pertinentes.

Tenho aqui sublinhado a necessidade que os crentes têm de ouvir os ateus, pois, pelo facto de se encontrarem fora, estão mais capacitados para se aperceberem da desumanidade, intolerância e superstição que se apoderam tantas vezes das religiões. Mas, agora, é um ateu que reconhece as vantagens e benefícios das religiões, a ponto de, ao contrário do que faz R. Dawkins, não pretender converter as pessoas religiosas ao ateísmo. Parece-lhe cruel e uma loucura "convencer alguém a deixar de acreditar em Deus", confessou também ao "Público".

Ninguém sabe se Deus existe ou não. Volto sempre ao filósofo ateu André Comte-Sponville, que escreve que é tão imbecil alguém dizer que "sabe" que Deus existe como outro dizer que "sabe" que Deus não existe. De facto, Deus não é objecto de saber, mas de fé, e o crente tem razões e o não crente também tem razões. As religiões, sendo humanas, trazem consigo uma enorme herança de oportunismo, violência e miséria moral, mas são igualmente fonte de dignidade, verdade, imensa generosidade.

Para A. de Botton, um dos aspectos mais dramáticos do nosso tempo é a solidão, que as religiões superam mediante a vivência comunitária, onde conhecidos e desconhecidos se reconhecem como amigos.

As religiões conhecem bem as fragilidades humanas - a angústia, as tentações de injustiça, a maldade, a paralisia dos remorsos pela incapacidade de atingir níveis decentes de integridade - e sabe lidar com elas. Para lá do saber, interessam-se pela sabedoria: qual a finalidade do meu trabalho?, como devo amar?, como posso ser virtuoso?, como viver com arte?, qual o sentido da existência?

Questão essencial é a do ensino. Os espaços cimeiros do saber não apresentam o género de assistência dada pelas religiões, porque há "a convicção de que a Universidade se deve abster de toda a associação entre as obras culturais e as preocupações do indivíduo". No entanto, as necessidades íntimas permanecem e seria necessário haver cursos sobre como estar só, o trabalho, as relações com os filhos, o contacto com a natureza, o confronto com a doença e a morte. Pede-se "uma Faculdade das relações humanas, um Instituto sobre a morte, um Centro do conhecimento de si".

Adultos, continuamos com uma parte de infância em nós e "o culto mariano ousa sugerir a todos os ateus que também eles continuam vulneráveis e pré-racionais no seu coração".

E a arte? O cristianismo sabe para que serve: "Um meio de nos lembrar o que conta". O silêncio, a contemplação, a virtude, a transcendência.






Ler entrevista no "Público" aqui.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Debate entre Richard Dawkins e Rowan Williams


No dia 23 de fevereiro, teve lugar em Oxford um debate sobre "a natureza dos seres humanos e a questão da origem última" entre o cientista Richard Dawkins e o arcebispo anglicano Rowan Williams. Não é o primeiro diálogo entre estes dois antigos alunos de Oxford, o primeiro de Zoologia, o segundo de Teologia. Em 2008, Dawkins entrevistou Williams para o Channel 4.


Os bilhetes do Teatro Sheldonian esgotaram em poucas horas, no que será mais um sinal de que a questão religiosa volta a estar na ordem do dia em Inglaterra, como tem sido recorrentemente notado.


O debate, transmitido na net, pode agora ser visto aqui


As principais ideias estão resumidas neste blogue dos jesuítas de Braga.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Ateísmo como opção de crença


Hoje é Dia do Orgulho Ateu porque neste dia, há 113 anos, nasceu Charles Darwin (que não era ateu, mas agnóstico).

No Brasil, o dia está a ser assinalado pelo primeiro encontro nacional de ateus, o qual tem sido algo criticado não por crentes em religiões, mas por ateus. Dizem os ateus críticos que os colegas ateus fervorosos começam a confundir o ateísmo com uma religião (alguns até querem templos). O ateísmo como opção de crença. Crença na negação. Por outro lado, repete-se o apelo de Richard Dawkins para que os ateus saiam do armário.

Com o dia do "orgulho ateu" e este apelo, parece-me até que os ateus imitam mas é o movimento gay. Li aqui.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Catedral para ateus

 
Recorte da revista "Visão"

Alain de Botton tem vindo a defender que os ateus precisam de um templo, já que têm direito às mesmas coisas que os crentes, pelo menos no que diz respeito a arte, ética, templos, espiritualidade, silêncio. A ideia aparece em embrião num livro sobre o trabalho (aqui referido). Num curso de empreendedorismo, relatado na obra, Botton propôs a criação de uma capela para ateus. Os outros empreendedores não acham lá grande piada ao assunto.



Botton desenvolveu a ideia e volta a propô-la no novo livro, "Religion for atheists", onde preconiza um Ateísmo 2.0, livro ainda sem tradução em português, que eu saiba, mas certamente com as edições D. Quixote já a trabalhar nisso.


O templo. Com umas pombinhas cima. Podiam ter arranjado outro pássaro. Ou querem dizer que o Espírito Santo paira sobre todo o projeto bem intencionado? 


A ideia do templo do ateísmo - que eu acho simpática, quem sabe se não se convertem ao transcendente? - tem sido bastante criticada pelos ateus mais duros como Richard Dawkins, que diz que um templo para ateus é uma contradição nos próprios termos. Alain de Botton responde que "há muita gente que não crê, mas que não é agressiva contra as religiões".



O templo, a construir em plena City londrina - parece que já existe metade da verba necessária, um milhão de libras no total -, já tem projecto de Thomas Greenall e Jordan Hodgson. Os seus 46 metros de altura simbolizam os 4,6 mil milhões de anos da Terra (1 milhão de anos por centímetro). O primeiro metro estará revestido a outro, representando a existência da humanidade.


Copiei as duas últimas imagens daquiAgradeço a Luís Custódio que me enviou o recorte da "Visão", quando estava, precisamente, a ler umas coisas sobre este assunto.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Richard Dawkins parodiado




O ateu Richard Dawkins parodiado por pregar aos convertidos, isto é, os desconvertidos, os ateus. Tem de arranjar novas temáticas. Dos mesmos autores, That Mitchell anr Webb Look, da hilariante melancia ateia.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Darwinismo, morte e a questão da verdade


O sítio belief.net perguntou a Richard Dawkins, o “Senhor Paradoxal”, sobre o desespero que as implicações do darwinismo suscitam em alguns. Dawkins respondeu:
Se é verdade que isso faz com que as pessoas se sintam desesperadas, paciência. O universo não nos deve condolências nem consolação; não nos deve uma agradável sensação íntima de bem-estar. Se é verdade, é verdade, e o melhor é aprendermos a viver com isso. Morre e desaparece, é mesmo assim.
Lido na página 107 de “Nada a temer”, de Julian Barnes (ed. Quetzal).

Com Deus ou sem Deus, se é verdade, é verdade. Devíamos todos estar mais desejos de enfrentar a verdade do que nos sentirmos bem sem preocupações com a verdade. Porém, há um problema de sempre é: o que é a verdade? Como saber o que é, quem é, que é?

domingo, 25 de setembro de 2011

Religião em Dawkins

Diz Richard Dawkins: “Eu sou contra a religião porque ela nos ensina a nos satisfazermos ao não entender o mundo”. E bem. Todos devemos ser contra a religião se e quando ela nos ensinar a nos satisfazermos ao não entender o mundo.
Mas é isso que faz a fé cristã? Claramente que não é. A fé cristã é principalmente um impulso ao encontro do outro, do próximo. E é muito mais exigente entender o próximo como um "alter christus" do que "entender o mundo".

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Marcelo Gleiser: A teoria final do tudo é uma influência do monoteísmo


O físico brasileiro Marcelo Gleiser (aqui aludido) foi entrevistado pelo jornal “Público” no dia 5 de Julho. A entrevista do jornalista Nicolau Ferreira tinha como título. "A ciência é uma narrativa humana como a literatura ou a pintura". Alterei a cor de partes que considero especialmente relacionadas com este blogue, visto que seria prejudicial truncar a entrevista.

A humanidade mudou as leis do Universo ao longo dos séculos, mas para o físico brasileiro Marcelo Gleiser isso não tira o compromisso que existe na busca da verdade através da ciência, é só o reflexo da capacidade incompleta e limitada com que olhamos para a natureza.

Marcelo Gleiser, 52 anos, físico teórico brasileiro radicado nos Estados Unidos. Dá aulas na Universidade de Dartmouth, New Hampshire, mas é também cronista na Folha de São Paulo, e está profundamente empenhado na divulgação da Ciência no Brasil. Em Portugal saiu o último livro escrito pelo cientista sobre o Universo, chama-se Criação Imperfeita (Círculo de Leitores). Fala sobre as forças físicas da natureza, a forma como o Universo poderá ter sido criado e a importância de sermos raros num cosmos aparentemente deserto. Mais importante, desmonta a procura de uma teoria unificadora na Física que tenta explicar todas as forças do Universo de uma só vez. Uma busca que defende estar enraizada na cultura científica e que tem origens monoteístas. Nesta tentativa unificadora, a Ciência cai no erro de generalizar os fenómenos naturais e esquecer-se das assimetrias. Todas as margaridas são semelhantes, mas nenhuma delas é idêntica a outra (disse ao P2 numa entrevista em Lisboa, para promover o livro), e a Ciência nunca vai conseguir olhar para tudo. É uma história em construção. Sem fim.

Diz que a Ciência é uma narrativa humana. Que limitações tem?
As pessoas têm a impressão de que a Ciência é a verdade absoluta. Que os dados científicos são incontestáveis e que tudo está correcto. Quando se estuda a história da Ciência, percebe-se que não é bem assim, a Ciência avança e cria informação à medida que o tempo vai passando. Ela vai ficando cada vez mais complexa e mais completa, mas nunca chega ao fim. O que era verdade no tempo de [Pedro Álvares] Cabral, que o Universo era estático com a Terra móvel no centro, era completamente diferente da verdade no século XVII ou da de hoje. A noção de verdade muda com o tempo. O Universo em que a gente vive vai-se transformando à medida que nós aprendemos mais sobre ele. Dessa forma, a posição do Homem no Universo e a compreensão de quem nós somos também mudam. O que eu tento no livro é desmistificar a Ciência, mostrar que ela é, na verdade, uma narrativa, uma construção profundamente humana, uma tentativa de compreensão de quem nós somos. A Literatura faz isso, a Pintura faz isso, a Ciência também está a fazer isso.

Como é que a cultura molda essa narrativa?
A cultura cria um contexto. As perguntas sobre quem nós somos, qual é a essência da vida podem ser as mesmas, mas as respostas dependem muito desse contexto. Voltando, por exemplo, à imagem de Cabral: no século XVI existia uma cultura completamente dominada pela teologia cristã, a visão do mundo era essencialmente religiosa e, dentro dessa visão religiosa, o Homem era um ser extremamente especial, era uma criação divina, e à medida que a Ciência foi avançando, essa visão foi-se transformando.

Richard Dawkins (cientista e autor de A Desilusão de Deus) utiliza a verdade científica para lutar contra a religião, argumento com o qual não está de acordo. Tem que ver com a Ciência ser uma narrativa?
Sim. Acho que Dawkins concordaria com essa noção de que a Ciência é uma narrativa humana. Espero, nunca conversei com ele sobre isso. No que diferimos profundamente é na atitude. Ele tem uma atitude em que a Ciência é a única forma de conhecimento e eu não acredito nisso, eu acho que a Ciência é uma forma de conhecimento, muito precisa, está ligada ao nosso entendimento do mundo, da natureza. A função da Ciência é descrever a natureza, descrever o mundo.

O que é que as outras formas de conhecimento dão ao Homem, como a religião?
Eu não diria que a religião é uma forma de conhecimento, mas a literatura ou a pintura, a música, a poesia, elas criam conhecimento de uma forma completamente diferente da Ciência. Elas constroem realidades que são paralelas à realidade científica. Na literatura não é preciso um compromisso com o real. Jorge Luís Borges ou Saramago criam realidades completamente fantasiosas mas que nem por isso deixam de trazer um elemento de verdade para a dimensão humana.

E essa dimensão é importante?
É fundamental. Dizem que a ficção, através da mentira, diz verdades. E a Ciência tenta sempre dizer verdades através da verdade. São propostas completamente diferentes de se alcançar a mesma coisa, que é uma maior compreensão do espírito humano.

Dawkins presume de mais dessa verdade trazida pela Ciência?
O que me incomoda em relação ao Dawkins é a sua posição absoluta. É um pouco fundamentalista. Esse fundamentalismo ateu sofre dos mesmos problemas do fundamentalismo religioso. Que é acreditar ser o dono absoluto da verdade. A posição do ateu é uma posição que logicamente não faz sentido. O que é que diz o ateu: diz que "eu acredito no não-acreditar". Como é que se pode acreditar no não-acreditar? Para Dawkins, Deus é completamente impossível. E apesar de concordar com isso - também não acredito em Deus ou no sobrenatural - cientificamente você só pode falar no que existe. A Ciência é muito boa para provar o que existe: electrões existem, planetas existem, estrelas existem, galáxias existem. Mas o que é que não existe? Sei lá! Então, eliminar radicalmente o que não existe usando a linguagem da Ciência: Deus não existe, fadas não existem, duendes não existem - também acho, mas não posso ser radical na minha atitude, prefiro manter a cabeça aberta e essa é a posição do agnóstico.

Diz que a procura de uma teoria geral na Física é uma ideia monoteísta. De onde vem?
Essa busca por uma unificação de tudo, por uma teoria final, que seria a soma de todas as teorias possíveis de como a matéria se organiza, que descreve as interacções entre as partículas da matéria, é uma noção essencialmente monoteísta. À medida que as religiões monoteístas foram ganhando força mais ou menos há 3000 anos, essa noção de que Deus é um criador de tudo, então tudo tem uma explicação única que volta a Deus. Essa ideia tomou muita força e entrou na Filosofia. Platão foi influenciado pelos pitagóricos, que defendiam que a natureza é matemática e que a função do filósofo era entender a construção matemática do mundo. Através dessa construção entender-se-ia a mente de Deus. Essa noção de que a natureza é uma ponte entre a mente humana e a de Deus torna a Matemática num instrumento teológico. O cientista passa a ser o intérprete da criação. Essa noção inspirou muitos cientistas. Por exemplo [Johannes] Kepler, no século XVII, foi uma pessoa muito influenciada por isso, e depois Einstein, mesmo que se tenha libertado dessa noção monoteísta do Deus autoritário, ficou com a ideia de que a natureza é matemática, e que pode ser compreendida de uma forma perfeita pela mente humana.

Essa ideia continua presente?
Sim. Por exemplo, existe a teoria das supercordas, a ambição máxima da Física moderna, unificar as forças da natureza numa teoria única. É a encarnação moderna desse sonho platónico de traduzir toda a existência em termos geométricos. Ela traz consigo essa bagagem cultural do monoteísmo, que há uma justificação única e central para tudo o que existe pelas ordens da Física. Para mim, essa noção é um preconceito filosófico influenciado por uma teologia de 3000 anos. Em termos práticos, se você olhar para o que está a acontecer nas descobertas da Física moderna, vê que existe uma tensão entre uma discussão completa do mundo, as simetrias da natureza e as quebras dessas simetrias. Então, criamos uma teoria simétrica, muito bela, e aí as experiências vão e - bum! - quebram essa simetria e mostram que é apenas aproximada. Isso é uma constante na história da Física.

Por que é que essa procura deixou de lhe fazer sentido?
Porque a Física é essencialmente uma Ciência empírica, baseada nos dados, nas experiências. Podemos querer construir teorias muito belas, mas no final quem vai dizer como é a natureza é a própria natureza, através de experiências. Comecei a perceber que, apesar do meu desejo adolescente, romântico, de construir uma visão única do mundo, baseada numa teoria unificada, a história dos últimos 50 anos da Física está a levar-nos a uma posição completamente diferente em que as simetrias são quebradas, que elas são aproximadas e que talvez essa insistência que nós tenhamos em criar uma teoria completa do mundo seja só um preconceito.

Na educação da Física, como cientista, é-se influenciado para a teoria final?
Para a teoria final e também para a confusão entre simetria como uma aproximação e simetria como uma verdade. Em Filosofia, você tem duas correntes, a Filosofia do ser, que é atemporal, não se transforma, e a do devir, do que está sempre a construir-se. E na história da Filosofia houve sempre uma espécie de crise, ou tensão, entre elas. A Ciência contém as duas. O ser - a conservação da energia, por exemplo, que é uma lei que existe independentemente do quando e do onde, e por outro lado o devir - todas as variações locais das coisas que vão acontecendo, em cada planeta, que dependem da história, de detalhes. Para mim, o que é interessante hoje é as forças que criam as diferenças, a origem das assimetrias.

O livro chama essas assimetrias logo para o título "Criação Imperfeita".
No livro, eu tomo cuidado ao dizer que não sou contra a unificação. Mas sou contra a ideia do abuso dessa noção. Para mim, a teoria final é completamente absurda. Pode falar-se em teorias que são parcialmente unificadas, como o electromagnetismo, mas mesmo essa, que é o paradigma da unificação, não é perfeita. Porque existem diferenças entre as propriedades da electricidade e do magnetismo. As unificações que vão ocorrendo vão ser sempre aproximadas, nunca vão ser perfeitas. E certamente nunca vão chegar numa teoria final. Basta ver como funciona a Ciência: através dos dados que colectamos sobre o mundo. Dependemos de telescópios, de aceleradores de partículas, etc. Esses instrumentos vão ficando mais precisos e poderosos à medida que a tecnologia vai avançando, mas eles têm limites de precisão. Como nós não temos uma visão total do mundo, a nossa descrição da natureza vai ser sempre limitada. A ideia de chegarmos a uma teoria que contém tudo não faz sentido, porque nunca vamos saber se a teoria está certa ou errada. Por isso eu falo em narrativa, a Ciência é uma construção que está sempre em andamento, ela não tem um ponto final.

Os próprios conceitos como electromagnetismo não limitam o modo como olhamos para a Física?
Eles não limitam como vemos a Física, eles são como a Física é. A Física é construída a partir desses conceitos porque ela é feita por nós.

A Física não é a natureza.
Exactamente. A Física é o que a gente pode dizer sobre a natureza. Aliás, não fui eu que disse isso, foi [Niels] Bohr (Nobel da Física em 1922). Idealmente, podemos descrever tudo sobre o mundo, e a posição mais concreta e realista é que infelizmente não é verdade, porque somos seres muito sofisticados, mas limitados. A noção de teoria final é tentar equiparar o Homem a Deus, e isso, para mim, é uma noção extremamente perigosa.

Uma das frases que mais repete no livro é. "Só sabemos o que podemos medir." Qual é o perigo das teorias impossíveis de serem testadas?
O perigo é levar à perda da credibilidade da Ciência. A força da Ciência está justamente no facto de que quando se diz que o Sol é uma estrela, que tem uma temperatura na superfície de 5800 graus, está a fazer-se uma asserção que se pode comprovar. Mas se se disser que vivemos num universo em que existem infinitos universos, mas que não se podem contactar esses múltiplos universos, então está a fazer-se uma asserção que não é científica, em que tudo é válido, e começa a discutir-se mais Filosofia do que Ciência. Essa noção de concreto da Física está a perder-se com a especulação um pouco exagerada dos físicos teóricos.

Essa especulação é recente?
Está pior nos últimos 20 anos.

Normalmente o nível da discussão ultrapassa o conhecimento comum.
É, mas por exemplo o [Stephen] Hawking escreveu um livro que faz asserções do tipo "a Ciência explica hoje a origem do Universo" e não é verdade. Existem modelos matemáticos, extremamente abstractos, que fazem previsões em relação à origem do Universo, mas dizermos que a Ciência explica a origem do Universo não é verdade. Passa-se ao público uma impressão de que sabemos muito mais do que sabemos, e isso faz com que a Ciência perca credibilidade.

Diz: "O cientista deve estar preparado para encarar as consequências do seu trabalho." Parece algo que pedimos aos políticos. Também devemos exigir isso aos cientistas?
A Ciência pode trazer o bem e o mal. Isso vê-se, por exemplo, na bomba atómica, na energia nuclear. Os usos das descobertas científicas em geral escapam das mãos dos cientistas, e vão ser utilizadas pelos políticos, pelos industriais, pelas grandes empresas, etc. Os cientistas têm que estar muito conscientes desse perigo e da aliança que têm com o poder.

Fukushima [acidente na central nuclear no Japão em Março último] é culpa dos cientistas?
Não. Os cientistas também não são culpados pela bomba em Hiroxima e Nagasáqui. Esse é o ponto.

Há coisas que devem estar fechadas aos cientistas e à Humanidade?
Mas quem vai definir isso? Não há como controlar a pesquisa científica, é uma espécie de caixa de Pandora. Destruir todas as bombas nucleares e apagar esse capítulo da humanidade - isso nunca vai acontecer. Porque já foi descoberto, pode voltar. O que tem que ser feito é uma maior consciencialização da população, dos políticos que são eleitos. Por isso é que o cientista não se deve dar ao luxo de ficar só na academia. Tem que se manifestar publicamente como intelectual. Tem que ter uma consciência ética do que está a fazer e quais são as possíveis consequências. Na Segunda Guerra Mundial, quando um grupo de cientistas foi trabalhar no projecto Manhattan para as bombas, eles estavam a responder ao medo que tinham que os nazis tivessem a bomba. Essa era a motivação principal. Mas quando a Alemanha se rendeu, o projecto tinha uma inércia tão grande que não conseguia parar. Transformou-se muito mais numa arma política, militar, do que numa descoberta científica. Os cientistas perderam o controlo e a bomba passou a ser uma propriedade dos políticos e militares. Esse é um risco que vai sempre acontecer.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Cinco ideias erradas dos católicos sobre os ateus e mais cinco atitudes que os crentes podem promover



Jennifer Fulwiler, colunista do “National Catholic Register”, apontou cinco concepções erradas dos católicos sobre os ateus. Refira-se que, tendo crescido num ambiente ateu, foi baptizada aos 33 anos, na Páscoa de2007 (o que, até pela atenção que lhe é dada, faz sempre pensar que mais vale um ateu convertido do que 99 católicos de carreira), sabe do que fala. O texto original está aqui. Traduzo apenas os títulos das five common misconceptions about atheists”:

1. Eles sentem falta de algo.
2. Acham que a Bíblia é convincente.
3. Estão à vontade com a doutrina católica.
4. Podem ser convencidos apenas por argumentos.
5. Estão imunes ao poder da oração.

A isto gostava de acrescentar mais cinco atitudes que os católicos deve ter para com os ateus.

1. Ouvir os argumentos em vez de pensar que temos a verdade toda, à partida. Os ateus também pensam - não é irrelevante afirmá-lo em ambiente católico. Alguns pensam muito bem. Alguns até descobrem que os crentes costumam manipular argumentos e factos (estou a pensar no estafado argumento contra o aborto, muito usado por crentes, segundo o qual Beethoven nasceu depois de uma série de crianças portadoras de deficiência, quando foi o segundo filho). Outros colocam questões que, na verdade, devem ser pensadas. Um deles dizia daquele argumento de C.S Lewis, segundo o qual, se Jesus disse que era o salvador, das duas uma, ou era mesmo ou era mentiroso. Parecendo inviável a segunda, resta a primeira hipótese. Observa um dos ateus mais em voga: “E não excluem a hipótese de ele, Jesus, estar enganado?” Pois, tem de ser considerada num confronto deste género.

2. Evitar dizer com triunfo, ao mínimo pretexto, “Ah! Você não acredita num Deus em que também eu não creio”, até porque eles podem perguntar: “Então qual é o Deus em que crê?” A resposta não será, necessariamente, uma pérola de fé e teologia.

3. Ter consciência do aspecto purgativo do ateísmo. A Igreja já o disse várias vezes. Há muitos ateus que o são por causa das ideias, práticas, valores dos cristãos. Aliás, geralmente os ateus são ateus católicos, ateus protestantes, ateus ortodoxos, isto é, ateus contra a cultura cristã em que vivem. O que os ateus dizem terá sempre o aspecto positivo de nos fazer pensar. Contribuem muito para uma fé esclarecida e mais forte.

4. Evitar o raciocínio “és ateu, logo, és a favor do divórcio, do aborto, do amor livre”, ou “não tens Deus, não tens qualquer referência moral”, não só porque se arranjam católicos que também são a favor daquilo tudo como há ateus que têm altos padrões morais. E há ateus que estão em lutas, principalmente no campo social, que passam ao lado de muitos católicos.

5. Convidá-los para jantar lá em casa. É mais o que une do que o que separa. Alister McGrath diz do diálogo entre crentes e cientistas (em “O Deus de Dawkins”): “Ao ouvirem-se mutuamente, talvez possam ouvir cantar as galáxias. Ou mesmo os ceús, declarando a glória do Senhor (Salmo 19,1)”. Ao partilharem uma boa refeição, podem saborear juntos um bom vinho. E o bom vinho faz milagres.

domingo, 8 de agosto de 2010

Religião no encontro literário de Paraty

Terry Eagleton

Termina hoje na cidadezinha de Paraty, no sul do estado do Rio de Janeiro, a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Entre muitos outros, estão lá Robert Crumb, que certamente falou do seu livro do Génesis aos quadradinhos (aqui apontado e nos textos circundantes). E Terry Eagleton (aqui referido). O reputado crítico literário que acredita em Deus e em Marx afirmou: "Dawkins é um racionalista fora de moda. Imagina que o Deus do século XVII é o mesmo Deus de Abraão. Confunde tudo, pensa que crer em Deus é algo tão questionável quanto crer em extraterrestres". Sítio da Flip aqui.

domingo, 27 de junho de 2010

Terry Eagleton: Deus volta ao debate intelectual pela esquerda

O crítico inglês Terry Eagleton vai estar na próxima Festa Literária Internacional de Paraty (Flip, 4 a 8 de Agosto), no Brasil, para falar de Deus. Eagleton é um marxista (não sei se muito, se pouco ortodoxo, mas quer publicar um livro sobre como Marx estava certo).

Nos anos 60 e 70, colaborou na revista “Slant” - vem sempre nas notas biográficas do crítico. Eu nunca tinha ouvido falar da revista “liberal”, “católica”, “esquerdista”, mas uma gloogagem revela logo que era uma publicação ligada aos dominicanos e à Universidade de Cambridge. Publicaram-se 30 números.

Terry Eagleton, que tem sido crítico no “novo ateísmo” (de Dawkins e Hitchens – ou numa palavra, como prefere, Ditchkins; disse Eagleton sobre um livro de Dawkins: “Imagine alguém discorrer sobre biologia tendo como único conhecimento do assunto o «Livro dos pássaros da Inglaterra» e você terá uma ideia do que é ouvir Richard Dawkins discutir teologia”), dá uma entrevista ao suplemento “Prosa & Verso” de “O Globo”.

Diz isto, por exemplo:

Se existe isso que se pode chamar de neoateísmo [Dawkins, Hitchens e outros], há também um novo ateísmo teológico: Habermas, Badiou, Agamben, Zizek etc. Um fenômeno impressionante e incomum de todo um conjunto de pensadores de esquerda lidando seriamente com teologia.

Deus volta ao debate intelectual de duas maneiras: há uma polêmica contra ele, por um lado, e por outro um aproveitamento de recursos teológicos por parte de uma série de pensadores de esquerda declaradamente ateístas. E acho que essa segunda história ainda precisa ser examinada com mais profundidade. O que está acontecendo, para que parte do trabalho teológico mais importante de hoje esteja sendo feito por ateístas de esquerda? Parte da resposta, na minha opinião, é que, quando a esquerda passa por tempos difíceis, ela não pode ser dar ao luxo de olhar os dentes do cavalo, como se diz. E se ela descobre que algumas ideias teológicas podem ser úteis, então, por que não?

A entrevista pode ser lida aqui.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

A melhor publicidade para a Igreja Católica

Dawkins diz que quer prender o Papa, aqui. A minha primeira reacção foi: "É parvo. Mas, às tantas, ainda consegue que algum juiz dê ordem de prisão. Se a coisa for previsível, é melhor o Papa não ir ao Reino de Sua Majestade. Os serviços diplomáticos do Vaticano devem ter essa prudência".

Mas depois, pareceu-me que até seria profético Bento XVI ser preso. Imaginemos que era mesmo preso. "O crime do século". "Bento XVI atrás das grades". "Dawkins, o justiceiro".

A Igreja sempre se deu bem nas perseguições. Seria um grande golpe publicitário para a Igreja. Tão ridículo para a justiça que se tornaria vantagem para a Igreja.

Richard Dawkins: "Eu vou prender o Papa"

Richard Dawkins, o militante ateu, está a planear uma emboscada legal para que o Papa Bento XVI seja detido por “crimes contra a Humanidade” durante a sua visita ao Reino Unido.

Para o efeito, o autor já consultou uma série de advogados de direitos humanos para que seja aberto um processo contra Ratzinger sobre o alegado encobrimento de centenas de crimes sexuais dentro da Igreja Católica.

O escritor acredita que o Papa não poderá invocar imunidade diplomática contra um eventual mandato de detenção, na medida em que ele não é um chefe de estado reconhecido pelas Nações Unidas.

Dawkins, autor de “A Desilusão de Deus”, acusa o Santo Padre de encobrir de forma descarada o abuso sexual de menores dentro da comunidade católica: “Quando os seus sacerdotes são apanhados decalcas na mão, o instinto deste homem é encobri-los e evitar escândalos. E depois que se lixem as vítimas”.

Notícia copiada do i, aqui. Vale a pena ler os comentários. Para esclarecimento e diversão. Bento XVI pretende visitar a Inglaterra em Setembro de 2010. Entre as muitas polémicas da viagem estão os gastos, que as associações secularistas, de repente alarmadíssimas para os gastos não produtivos, têm vindo a denunciar. 20 milhões de libras, que, sob qualquer critério, a este nível, são uma ninharia. Até a easyjet se ofereceu para transportar o Papa à borla. (Agradeço a Fernando Correia de Oliveira, da Estação, que me alertou para a notícia do i).

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...