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sábado, 13 de julho de 2013

Anselmo Borges: "A última encíclica de Bento XVI"

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje.

"Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia 29 de Junho, solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo, do ano 2013, primeiro do meu Pontificado. Francisco" (assinado à mão, sem a indicação habitual de papa). Termina assim a primeira encíclica do Papa Francisco, dedicada ao tema da fé: "Lumen Fidei" (a luz da fé).
Como ele próprio diz, a encíclica foi substancialmente redigida pelo seu predecessor: Bento XVI "já tinha completado praticamente uma primeira redacção desta Carta encíclica sobre a fé. Agradeço-lhe de coração e assumo o seu precioso trabalho, acrescentando alguns contributos". De facto, o papa emérito tinha em mente uma trilogia sobre as três virtudes teologais e já publicara uma encíclica sobre a esperança, outra sobre o amor, faltando a referente à fé, que aparece agora. Um texto belo, bem fundamentado, talvez demasiado académico, com citações de Nietzsche, Dante, Dostoievsky, Wittgenstein, Rousseau,T. S. Eliot.
A sua assunção por parte de Francisco revela humildade e também o reconhecimento do mérito intelectual do seu antecessor e, ao mesmo tempo, a importância da teologia para o cristianismo. Sem teologia, a fé não é argumentável. Mas, se a fé não dialoga com a razão, não tem lugar na Universidade, ficando reduzida a puro sentimento. Esta era uma preocupação fundamental de Bento XVI.
Será a fé religiosa uma mera ilusão, fruto do espelhismo? Lá está a citação de Nietzsche, numa carta à irmã, convidando-a a arriscar-se, a "empreender novos caminhos... com a insegurança de quem procede autonomamente". E acrescenta: "Aqui se dividem os caminhos do homem: se queres alcançar paz na alma e felicidade, crê; mas, se queres ser discípulo da verdade, indaga." Como se a fé fosse, portanto, o contrário de buscar, abandonando a novidade e a aventura da vida.
Aconteceu então que "o homem renunciou à busca de uma luz grande, de uma verdade grande", contentando-se com a verdade da tecnologia, com a verdade do cálculo, com pequenas luzes que iluminam o instante fugaz, mas incapazes de abrir o caminho da vida plena. "É urgente recuperar o carácter luminoso próprio da fé", pois, "quando falta a luz, tudo se torna confuso, é impossível distinguir o bem do mal". Aqui, acrescento eu, poderia citar a advertência que Nietzsche, sete anos antes do seu colapso pessoal, fez à mulher do seu amigo Overbeck, de nome Ida, para que não abandonasse a ideia de Deus: "Eu abandonei-a, quero criar algo novo e não posso nem quero voltar atrás. Vou perecer por causa das minhas paixões, que me atiram daqui para ali; desmorono-me continuamente, mas isso nada me importa."
A fé tem o seu fundamento na experiência crente de Jesus, naquela sua experiência avassaladoramente felicitante de Deus enquanto Abbá (querido paizinho). Acreditou, entregando a sua vida até à morte a esse Deus-Amor e ao seu Reino de vida digna para todos. Os cristãos acreditam como ele e nele, que está vivo em Deus, o Deus da Vida. E procuram agir como ele, levando avante, na confiança e no combate pela vida, o Reino do Deus da vida para todos.
Penso que é pena a encíclica não começar pelo dado antropológico de base: a vida humana está desde a raiz fundada na fé, na confiança. Na presente situação, percebemo-lo perfeitamente, pois o que nos falta é precisamente fé, confiança, crédito.
Leonardo Boff também chamou a atenção para outra lacuna: não aborda com profundidade a crise de fé do homem contemporâneo, as suas dúvidas, as suas perguntas. Onde está Deus, quando um tsunami faz milhares e milhares de mortos? Como crer ainda, depois dos campos de extermínio, dos milhões de torturados e assassinados no corpo e na alma? "Crer é sempre crer apesar de... A fé não elimina as dúvidas e angústias de um Jesus que grita na cruz: "Pai, porque me abandonaste?" A fé tem que passar por este inferno e transformar-se em esperança de que para tudo há um sentido, mas escondido em Deus. Quando se revelará?"
A encíclica: "A luz da fé não dissipa todas as nossas trevas, mas, como lâmpada, guia os nossos passos na noite, e isto basta para caminhar."

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Fé, o que é?

A fé em Cristo não é só o reconhecimento mental da superioridade do seu ensinamento, mas a espontânea inclinação.

Dostoiévski

sexta-feira, 8 de março de 2013

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

"Não me julgues", poema de Dostoiésvki



Senhor, recebe-me na minha indignidade,
mas não me julgues.
Deixa-me passar sem julgamento. Não me condenes,
pois me condenei a mim mesmo.
Não me condenes,
porque te amo, Senhor.
Sou vil, mas amo-te.
Manda-me para o Inferno e continuarei a amar-te
e gritar-te-ei lá de baixo
que o meu amor há de durar pelos séculos dos séculos.


Fedor Dostoiévski (1821-1881)

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Inferno

Perguntam-me o que significa o inferno? Afirmo: a incapacidade para amar.


Fiodor Dostoiévski (1821-1881)

domingo, 10 de abril de 2011

À procura do absoluto



O filósofo franco-búlgaro Tzvetan Todorov é um mito do ensaísmo literário e histórico. Vivendo na França desde 1963, Todorov publicou mais de 20 livros sobre temas tão diversos como a conquista da América e o pensamento de Jean-Jacques Rousseau - mais particularmente, sobre sua ideia de felicidade humana. E foi em busca desse ideal que Todorov, hoje com 72 anos, começou a escrever o livro "A Beleza Salvará o Mundo", cujo título original, "Les Aventuriers de l"Absolu" ("Os Aventureiros do Absoluto"), transmite com precisão a intenção do escritor, a da busca incessante por um estado de plenitude que torne nossa existência menos ordinária e mais bela. Não que o título brasileiro seja incorreto. Ao contrário. Todorov, em entrevista ao Estado, diz que a frase "a beleza salvará o mundo", retirada do clássico russo "O Idiota", de Dostoievski, foi fundamental para que ele realizasse esse trabalho de pesquisa sobre realização interior de três grandes escritores, o irlandês Oscar Wilde (1854-1900), o poeta alemão Rainer Maria Rilke (1875- 1926) e a poeta russa Marina Tsvetaeva (1894-1941).
O ESTADO DE S. PAULO - Com todas as catástrofes e tragédias do século, é uma surpresa um livro como A Beleza Salvará o Mundo, considerando os campos de prisioneiros, os massacres e o horror do mundo globalizado. Essa foi a razão que o levou a escolher três escritores do passado para analisar em sua obra? Foi difícil encontrar exemplos no presente desse tipo de beleza que o senhor identifica nos trabalhos de Wilde, Rilke e Tsvetaeva? 

TZVETAN TODOROV - A aspiração à beleza, à experiência espiritual, a uma vida digna de ser vivida, não depende das circunstâncias exteriores. É provável mesmo que ela seja ainda mais forte quando a vida que levamos seja pouco satisfatória. Encontramos exemplos assim até nos campos de extermínio. Eugênia Ginzburg (escritora russa morta em 1977 e condenada a 18 anos de prisão em 1937, injustamente acusada de atividades contrarrevolucionárias na ex-URSS) lembrava sempre como a leitura dos poemas de Púchkin tinha o poder de levantar o moral de seus companheiros, no trem que os conduzia a Kolima. Primo Levi descreve os efeitos benéficos que produziam a lembrança de qualquer verso de Dante quando estava em Auschwitz. E não se trata apenas de obras de arte: contemplar uma paisagem, viver um encontro humano pode produzir o mesmo efeito.
Oscar Wilde, um dos escritores analisados em seu livro, costumava dizer que o autor não deveria usar sua biografia para escrever, porque o verdadeiro artista tem o dever de criar um mundo imaginário. Hoje parece acontecer o contrário, porque o que se vê são autores explorando detalhes íntimos de suas vidas em seus livros. Seria essa a razão de vermos tão poucos exemplos de beleza na literatura contemporânea?
Um escritor pode produzir uma grande obra a partir de qualquer experiência existencial, dependendo do que ele faça com ela. É verdade que a literatura contemporânea, em certos países, favoreça esse lado narcisista, provocando resultados pífios. Mas é possível escapar disso. Pegue, por exemplo, uma peça autobiográfica como Longa Jornada Noite Adentro, de Eugene O"Neill (que, é bem verdade, é de 1940): ainda que explore a vida íntima do dramaturgo, ela atinge uma dimensão universal. Há também inúmeros escritores contemporâneos que não escrevem autobiografias e cujas obras encerram uma grande beleza. Rilke, como Oscar Wilde, pensava que a busca do absoluto devia se tornar o ideal de todo ser humano, mas sofria de uma espécie de "possessão demoníaca", como certa vez escreveu numa carta à amiga Lou Andreas-Salomé. Em ambos os casos, parece que a beleza estava ligada a uma certa ideia diabólica do mal, considerando, por exemplo, O Retrato de Dorian Gray e a atração de Rilke por Mussolini. É possível que os dois tenham sido atraídos pelo lado perverso e decadente da beleza?
Wilde não ligava necessariamente a beleza ao mal, mas queria que sua busca da beleza estivesse livre de qualquer pressão moral. Sua vida trágica nos mostra que essa separação era mais difícil do que imaginava. Rilke submeteu seus julgamentos morais e políticos às exigências estéticas, o que por vezes lhe causava um enorme sofrimento, conduzindo-o frequentemente a impasses. Não é a natureza da beleza a responsável por esses fracassos, é o lugar que destinam a ela esses criadores em relação a outras dimensões de sua existência. 

O ESTADO DE S. PAULO - Em "O Idiota", Dostoievski diz que há apenas um ser no mundo que é absolutamente belo, Cristo, "l"Être suprême", o ser supremo, para o escritor russo. E para o senhor, qual é a suprema beleza do mundo?
TZVETAN TODOROV - Para mim, a beleza absoluta não se encarna nos seres, sejam eles indivíduos ou uma comunidade. Acho que ela só se manifesta em experiências particulares. Por vezes, encontro-a em obras de arte, mas ela também pode estar nas folhas de uma árvore, no riso de uma criança ou no olhar de uma pessoa que amo.
Conheci a entrevista por intermédio do IHU. Original do jornal paulista aqui. Em ambos os sítios a entrevista poder ser lida na versão integral. 

quinta-feira, 10 de março de 2011

Imagem



Se tivéssemos diante dos nossos olhos a preciosa imagem de Cristo, ficaríamos equivocados e perder-nos-íamos de todo, como o género humano no Dilúvio.


Dostoiévski (1821-1881)

segunda-feira, 7 de março de 2011

Resultados perturbadores


Repudiado Cristo, o espírito humano pode alcançar os mais perturbadores resultados.

Fiodor Dostoiévski (1821-1881)

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

A causa do declínio do Ocidente segundo Dostoiévski

O Ocidente perdeu Cristo, e é por isso que morre, unicamente por isso. Repudiado Cristo, o espírito humano pode alcançar os mais perturbadores resultados.

Fiodor Dostoiévski

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Debaixo

Se expulsarmos Deus da Terra, nós o reencontraremos debaixo da terra.

Fedor Dostoiévski (1821-1881)

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Poeira

Amai toda a criação de Deus, todo o conjunto até à mais pequena poeira. Se amais cada coisa, compreendereis o mistério de Deus nas coisas.

Fiodor Dostoiévski (1821-1881)

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

8 de Novembro de 1880. Dostoiévski termina “Os Irmãos Karamazov”

Notas de Dostoiévski para o capítulo quinto

Dostoiévski (1821-1881) terminou no dia 8 de Novembro de 1880 o romance “Os Irmãos Karamazov”. Estava em São Petersburgo, onde morreria no dia 9 de Fevereiro do ano seguinte. O escritor foi sepultado no mosteiro Alexander Nevsky. Na sua lápide estão escritos os versículos do Evangelho de São João (12,24) que servem também de subtítulo a “Os Irmãos Karamazov”: “Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto”.

Freud considerou “Os Irmãos Karamazov” uma das três obras literárias mais importantes de sempre, a par de “Rei Édipo”, de Sófocles, e “Hamlet”, de Shakespeare.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Autocarro – 2: Ateus que apanharam outro

Na Gráfica de Coimbra 2 saiu há dias o livro “10 ateus que mudaram de autobus”, sim, “autobus”. Não sei se em Portugal mais alguém usa a palavra “autobus” além do tradutor, mas é esse o termo com que verteu a palavra espanhola “autobús”.

Os ateus que mudaram de autocarro são: Francis Collins, Ernesto Sábato, Fiódor Dostoievski, Tatiana Goricheva, C. S. Lewis, André Frossard, Edith Stein, Vitorrio Messori, Narciso Yepes e G. K. Chesterton.

De alguns destes ex-ateus nunca tinha ouvido falar. Uma foi fundadora do movimento feminista russo (Goricheva); outro foi músico (Yepes).

De meia dúzia de parágrafos lidos a saltar pareceu-me que o livro é mais convincente do que a tradução do título.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Ideia que honra o ser humano


O que é espantoso não é que Deus exista na realidade mas que esta ideia da necessidade de Deus tenha vindo ao espírito de um animal feroz e mau como o homem (...), de tal forma ela honra o homem.

Fiodor Dostoiévski (1821-1881)

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Anselmo Borges: "O diabo do poder"

Anselmo Borges escreve sobre a tentação do poder, a maior tentação da Igreja, no DN.

O diabo do poder

Quando se reflecte sobre o mal, o que mais impressiona é o mal moral: porque é que a liberdade não é sempre boa? Porque não fazemos sempre o bem?

Estas perguntas são de tal modo dramáticas que, para explicar o bem e o mal no mundo, muitas vezes se recorreu a um duplo Princípio: um Princípio do Bem e um Princípio do mal. No contexto do cristianismo, que, por sua vez, bebeu noutras fontes religiosas mais antigas, o diabo apareceu como "solução" para o enigma. Ele seria o Tentador e o ser humano nem sempre resiste à tentação.

Neste contexto, é preciso dizer, em primeiro lugar, que o Credo cristão não fala do diabo. O cristão não acredita no diabo, mas em Deus. Quanto ao diabo tentador, seria necessário perguntar quem tentou o diabo para, de anjo bom, se tornar anjo mau, precipitado no inferno e tentador dos homens. Lembro que já Kant fez notar que um catequizando iroquês perguntou ao missionário: porque é que Deus não acabou com o diabo? Quanto às tentações, não é preciso diabo nenhum. Bastamos nós. O Homem, entre a finitude e o Infinito, está inevitavelmente sujeito à falibilidade e à queda.

Tentação vem do latim temptare, que, para lá de ensaiar, experimentar, tentar, também quer dizer atacar, procurar seduzir e corromper, pôr à prova.

Neste quadro, a tentação maior é a do poder, não enquanto serviço, mas enquanto domínio, vanglória e exaltação do eu. Pela sua própria dinâmica, o poder tende a ser total. E porquê? Porque a ilusão da omnipotência dá a ilusão da imortalidade, de dominar, vencer e matar a morte. Omnipotentes, seríamos imortais.

Quem quiser uma prova de que a tentação maior é a do poder - financeiro, económico, político... - olhe para o palco da presente situação nacional.

A Igreja, na liturgia, muda os textos, segundo os anos. Mas, no primeiro Domingo da Quaresma, a seguir ao Carnaval, lê-se sempre o Evangelho que refere as tentações de Cristo. São três e, contra a impressão que a Igreja acabou por dar - as tentações seriam sobretudo as do sexo -, são todas relativas ao poder.

O diabo não existe, não se justificando, portanto, os exorcismos. Ali, nas tentações de Cristo, também não há diabo nenhum. O diabo não apareceu a Jesus. Todo aquele excepcional passo do Evangelho é uma encenação dramática que personifica na figura do diabo a vivência da luta de Jesus em ordem à sua decisão: há-de ser um messias do poder ou o messias do serviço? O que ali se determina é se a sua mensagem é a divinização do Homem ou a humanização de Deus. Afinal, a boa nova do Evangelho é que Deus não está interessado nele mesmo nem no culto que lhe possamos prestar, mas exclusivamente no bem-estar e realização dos seres humanos, na plena humanização de todos.

Nenhum exegeta viu tão fundo neste passo como Dostoievski em Os Irmãos Karamazov. Ivan conta a Lenda do Grande Inquisidor. Jesus aparece em Sevilha, no dia a seguir à queima de quase uma centena de hereges. A multidão reconhece-o e segue-o, mas o cardeal inquisidor manda prendê-lo. Na prisão, diz-lhe que ele não entendeu os homens, ao querer a liberdade para eles. Foi por isso que não cedeu às tentações do milagre: transformar as pedras em pães, deitar-se abaixo do pináculo do Templo. Mas os homens não suportam o fardo da liberdade. Assim, a Igreja corrigiu a sua façanha, baseando-a em milagre e poder. "E as pessoas ficaram contentes por serem de novo guiadas como um rebanho e por ter sido tirada dos seus corações a dádiva mais terrível que tanto sofrimento lhes causava: a liberdade." "Vai-te embora e não voltes mais... não voltes... nunca, nunca!"

A tentação maior da Igreja é a do poder: poder social e político, controlo das consciências, imposição das suas normas aos não crentes, aceitação de uma religiosidade mágica e milagreira...

"A última tentação de Cristo", na cruz, não foi, como sugeriu M. Scorsese, casar com Maria Madalena, mas descer da cruz. Não cedeu. Deus não livra da finitude nem, consequentemente, da morte.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Amamos as coisas porque são belas ou são belas porque as amamos?

Do amigo Pedro, no Brasil:

esquivo de mim - 04

Nós amamos as coisas belas porque são belas? Ou nós as amamos e as tornamos belas num ato só? Com mais precisão, St. Agostinho fazia-se a pergunta numa retórica fecunda: amamos as coisas porque são belas ou são belas porque as amamos? Os imbróglios existenciais tornam-se cada vez mais esquivos. Esquivos é plural assintomático. Duma esquivagem ou esquivadez assintomática. Fartura ou escassez? Opina-se pela inexistência de estados intermédios. Pobreza de raciocínio. Encontrar-se em processo de desova existencial é duma precariedade crua. Também risível. – Por favor, vigie a porta, pois não tenho a chave... vou precisar de examinar, em privado, o paciente. Tenho a regra sagrada: todo o humor é auto-crítica. Deveria sê-lo. Não posso recuar mais. Nem muito menos ficar acuado. Não posso fazer o que me apetece. Mas posso escolher – imaginação fértil - o café da manhã. Um café da manhã: sem café; com chá; muitas frutas; e o indispensável bom pão. Também poderá haver lugar para ‘beijus’ quentinhos ou ‘cuscuz’ com manteiga (margarina não). Em cada pequeno-almoço deslizamos com mais suavidade até ao nosso fim. Fim que será a veracidade do esplendor da beleza contemplada sem apreensão. “A beleza salvará o mundo” (Dostoiévski). Esquivo diante da Cruz? Quem fica de pé, quem baixa a cabeça ou quem vai embora? No fundo, Quem é Quem, diante da Cruz? Só a Bondade da Beleza salvará o mundo.

Pedro José (aqui, no dia 11 de Fevereiro)

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Dostoiévski e a síndrome de Stendhal

Pormenor de "Cristo Morto", de Holbein

O quadro que Míchkin descreveu em “O Idiota”, obra publicada em 1869, foi visto por Dostoiévski em 1867, na Suíça, onde ainda se encontra a pintura (no Offentliche Kunstsammlung Kunstmuseum, Basileia). Mede 30,5 por 200 cm. Têmpera envernizada sobre madeira de tília.

Que Dostoiévski viu de facto a obra conta-o Anna Grigoriévna Sniktina, segunda mulher de Dostoiévski, que o acompanhou na viagem:

"A visão do rosto inchado de Cristo após o seu martírio desumano era terrível. (...) Fiodor permaneceu em pé diante do quadro com uma expressão oprimida. Olhá-lo fazia-me mal, fui então para outra sala. Voltei 20 minutos depois e ele ainda estava lá, na mesma posição diante do quadro. O seu olhar exprimia medo. Levei-o para outra sala, acalmou-se lentamente, mas insistiu ainda em tornar a ver o quadro que tanto o perturbara".

Esta perturbação diante de uma obra de arte chama-se “síndrome de Stendhal”, por designação da psiquiatra italiana Graziella Magherini. Sobre esta Síndrome e a descrição de Stendhal ao chegar a Florença, em 1817, ler aqui.

Para uma explicação mais científica da síndrome de Stendhal em Dostoiévski, ler aqui.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Dostoiévski: "A beleza salvará o mundo"

"Cristo Morto" (1521), de Hans Holbein

Hoje é dia de Dostoiévski. Morreu há 129 anos. Uma das suas frases mais célebres é “A beleza salvará o mundo”. Ainda que tenha sentido mesmo isolada, porque desejamos que a beleza conquiste mais espaço, tempo e importância (quem livremente opta pelo feio?), convém lê-la no contexto.

O conterrâneo Alexandre Soljenitsyne diz que durante muito tempo não compreendeu a frase, para a seguir interpretá-la neste sentido: o mundo há-de ficar convencido pela beleza (belos discursos, bela literatura, enfim, arte) de que a Beleza, a Verdade e do Bem estão unidos como se fossem uma árvores de três ramos. Cortar um deles é matar a árvore. A frase é “uma profecia”, diz o Nobel da Literatura de 1970. O texto, em inglês, pode ser lido aqui.

João Paulo II também citou a frase. Na “Carta aos Artistas”, de 1999, diz que beleza, assombro e entusiasmo andam juntos. “Já no limiar do terceiro milénio, desejo a todos vós, artistas caríssimos, que sejais abençoados, com particular intensidade, por essas inspirações criativas. A beleza, que transmitireis às gerações futuras, seja tal que avive nelas o assombro. Diante da sacralidade da vida e do ser humano, diante das maravilhas do universo, o assombro é a única atitude condigna. De tal assombro poderá brotar aquele entusiasmo (…) a que me referi ao início. Os homens de hoje e de amanhã têm necessidade deste entusiasmo, para enfrentar e vencer os desafios cruciais que se prefiguram no horizonte. Com tal entusiasmo, a humanidade poderá, depois de cada extravio, levantar-se de novo e retomar o seu caminho. Precisamente neste sentido foi dito, com profunda intuição, que «a beleza salvará o mundo» (n.º 25 da “Carta aos artistas”, aqui em português).

A palavra “entusiasmo” é etimologicamente interessante neste contexto, porque significa “levar Deus dentro de si mesmo”. Mas era isso que Dostoiévski queria dizer?

A afirmação surge no cap. 5 de terceira parte de “O Idiota”. Diz Ippolit, entre um grupo de amigos, numa noitada, depois de ter passado uns minutos pelo sono:

“É verdade que o príncipe disse, uma vez, que a «beleza» salvaria o mundo? Meus senhores – gritou bem alto –, o príncipe afirma que a beleza salvará o mundo! E eu afirmo que quem tem ideias tão jocosas está apaixonado. Meus senhores, o príncipe está apaixonado; mal ele entrou tive a certeza disso. Não core, príncipe, senão ainda tenho pena de si. Que beleza salvará o mundo? Foi o Kólia quem mo contou… É um cristão zeloso? O Kólia diz que o príncipe se qualifica a si mesmo de cristão…” (pág. 396 de “O Idiota”, Editorial Presença, tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra).

O príncipe a que se refere Ippolit é Lev Nikoláevitch Míchkin, protagonista de “O Idiota”, o próprio idiota, o próprio Dostoiévski.

Umas páginas à frente, na 421, Míchkin conta:

“Quando me levantei para fechar a porta à chave depois de ele [Kólia] sair, lembrei-me subitamente de um quadro que vira nesse dia em casa de Rogójin, numa das mais sombrias salas da sua sombria casa, por cima da porta. Ele próprio no mostrou à passagem. Acho que fiquei parado diante do quadro uns cinco minutos, não menos. A pintura não era grande coisa em termos artísticos, mas mergulhou-me numa estranha inquietação.

Nesse quadro está pintado um Cristo que acabaram de tirar da cruz. Parece que os pintores têm o hábito de representar Cristo, tanto crucificado como tirado da cruz, sempre com um toque de beleza no rosto; mesmo nos momentos de sofrimento mais terrível, acham que devem conservar-lhe a beleza. Ora, no quadro de Rogójin não há o mínimo de beleza; aquilo é, no sentido mais pleno, o cadáver de uma pessoa que sofreu infinitamente, ainda antes da crucificação, feridas, torturas, espancamentos por parte dos guardas e do povo, quando carregava com a cruz e caiu debaixo dela, e, finalmente, o sofrimento atroz quando esteve pregado na cruz durante seis horas (de acordo com os meus cálculos, pelo menos). Também é verdade que há ainda muita vida, muito calor, no rosto de um homem que acabaram de tirar da cruz: o cadáver ainda não teve tempo de tornar-se rígido, no rosto do morto ainda transparece o sofrimento, como que sentido no próprio instante (este pormenor foi muito bem apanhado pelo artista); mesmo assim, aquele rosto não foi poupado; nele só há a natureza, e ponto, é mesmo assim o cadáver de uma pessoa, seja ela quem for, depois de semelhantes tormentos. Sei que a Igreja cristã estabeleceu, ainda nos primeiros séculos, que o Cristo não sofreu metaforicamente mas na lei da natureza, completa e absolutamente. No quadro, esse rosto está terrivelmente desfigurado por golpes, tumefacções, nódoas negras assustadoras, inchadas e sangrentas, tem os olhos abertos, as pupilas entortadas; o branco dos olhos, grande e aberto, tem um brilho lívido, vítreo. É estranho que, quando olhamos para este cadáver de homem torturado, surge uma pergunta especial e curiosa: se um cadáver assim (e ele devia sem dúvida ser tal e qual como este) foi visto por todos os seus discípulos, pelos principais futuros apóstolos dele, pelas mulheres que tinham fé nele e o adoravam, como foi possível que acreditassem, á vista deste cadáver, que este mártir ia ressuscitar? (…) Com este quadro parece estar expressa precisamente a noção de uma força obscura, descarada e eternamente sem sentido a que tudo fica submisso, e esta noção transmite-se-nos involuntariamente. As pessoas que rodeavam o morto, nenhuma das quais está presente no quadro, deviam sentir uma terrível amargura e perturbação naquela noite que esmagou de vez todas as suas esperanças e, talvez, todas as suas crenças” (fim de citação).

É esta não-beleza que salvará o mundo. Melhor, os cristãos sabem que foi esta beleza que salvou o mundo.

O quadro que Dostoiévski / Míchkin viu foi o "Cristo Morto" (1521), de Hans Holbein, que está em Basileia. Dostoiévski viu o original durante viagem que fez à Suíça. Clique na imagem para aumentar.

Dostoiévski: "Se Deus não existisse, tudo seria permitido"

Dostoiévski (imagem retirada daqui)

Dostoiévski escreveu em “Os Irmãos Karamazov:“Se Deus não existisse, tudo seria permitido”. A frase tem sido glosada de muitas formas e feitios.

Jean-Paul Sartre escreveu que “tudo é permitido se Deus não existe". Não existindo Deus, "o homem está desamparado", porque não encontra "nenhuma possibilidade de se agarrar, nem em si, bem fora de si”. Esse «desamparamento» é o princípio do existencialismo. Sem Deus, não existe causa nem fim. O homem é liberto e livre. Assim pensa o existencialismo ateu.

Simone de Beauvoir reflecte na mesma linha de Sartre, com algumas nuances, mas contra Dostoiévski. Não existe Deus, a liberdade é maior, a responsabilidade é total. “Bem longe de a ausência de Deus autorizar toda a licença, é pelo contrário porque o homem está desamparado sobre a Terra que os seus actos são compromissos definitivos, absolutos. Ele carrega a responsabilidade de um mundo que não é obra de uma potência estrangeira, mas de si mesmo onde se inscrevem tanto as suas derrotas como as suas vitórias. Um Deus pode perdoar, apagar, compensar; mas, se Deus não existir, as faltas do homem são inexpiáveis”.

George Perros, cómico e escritor (1923-1978), acrescenta, porém: “Eu acho que o que assusta, é que tudo seja permitido mesmo que Ele exista”.

Por fim, Jacques Lacan (1901-1991), apoiando-se na sua prática de psicanalista, diz o contrário de Dostoiévski: “Se Deus não existe, então já nada mais é permitido. As nevroses demonstram-no diariamente”.

Também eu gostava de acrescentar um pensamento a estes ilustres franceses (adaptei as frases de um livro de Jérôme Duhamel e Jean Mouttapa, “Dicionário inesperado de Deus”, na Editorial Notícias): Se Deus existe, tudo é permitido. Não falo do poder de Deus, falo do poder dos homens. Na verdade, este pensamento não é original. Agostinho de Hipona escreveu há 1600 anos: “Ama e faz o que quiseres”. É sensivelmente o mesmo. Ama porque Deus existe. Faz o que quiseres porque daí brota um campo imenso de possibilidades.

9 de Fevereiro de 1881. Morre Dostoiévski

Retrato de Fiódor Dostoiévski (1872), por Perov

Fiódor Dostoiévski nasceu no dia 11 de Novembro de 1821, em Moscovo, e morreu no dia 9 de Fevereiro de 1881, em São Petersburgo. É unanimemente considerado um dos maiores romancistas da literatura mundial, devido a obras como “O Idiota”, “Irmãos Karamazov” ou “Crime e Castigo”. E é visto como iniciador do existencialismo, influenciando a filosofia e a teologia.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...