terça-feira, 8 de janeiro de 2013
8 de janeiro. Eleição de Inocêncio III em 1198 e morte de Giotto em 1337
sábado, 28 de abril de 2012
Os santos, os seus exemplos e o amaciamento
O filósofo Massimo Cacciari reflete a respeito de modo admirável no livro “Doppio ritratto, San Francesco in Dante e Giotto” (Ed. Adelphi) (outra referência a este livro aqui). Segundo Cacciari, Francisco testemunhou com a sua vida um modo de conceber a relação com o mundo, até então impensado senão por Cristo e jamais seguido depois dele. Com Francisco, o pobre não é mais "a figura de quem, absolutamente nada possuindo, está à mercê de todos, encolhido no canto. (...) Pobre não é o necessidade, aquele que “carece-de”, mas, pelo contrário, o perfeito, aquele que imita perfeitamente o Filho".
Antes de Francisco, a pobreza parecia apenas sacrifício e renúncia, enquanto, com ele, "através da experiência da pobreza", o homem renasce, "rico de um novo olhar sobre o real". Francisco não faz como os estoicos ou os sábios que convidam a desprezar os bens terrenos pela sua vaidade. A pobreza nele é uma escolha "que nada inveja, nada quer à disposição. Pobre é aquele que tudo “tem” como irmão e irmã, isto é, sem ter". "Somente o Pobre é verdadeiramente poderoso", porque a sua comunhão com as coisas é "livre da cadeia do possuir e do depender".
Essa revolução de pensamento permanece, porém, in-audita, não ouvida, a tal ponto que apenas "na solidão, em meio aos animais, ele a prega". Para Cacciari, essa novidade foi incompreendida seja pelos seus coirmãos, quanto por Giotto e Dante.
Giotto, nos afrescos da Basílica Superior de Assis, representa Francisco como uma figura pacificada, em harmonia com a sua Ordem, com a Igreja e a sociedade, enquanto, ao invés, o santo, quando vivo, foi uma alma em luta, dividiu grupos e pessoas, ficou desapontado com a sua própria Ordem, muitas vezes dilacerado em seu interior. E Dante, no Paraíso, trai a força de Francisco, porque não sente o porte inaudito da sua pobreza. O livro de Cacciari se detém no santo de Assis e nos dois sumos artistas, mas são claros as possíveis referências ao nosso tempo.
Matteo Renzi disse ter ficado impressionado com Nelson Mandela, mas o que aconteceria em Florença se Renzi tivesse a mesma radicalidade de visão que Mandela demonstrou? Walter Veltroni se inspirava muitas vezes em Martin Luther King, mas o que aconteceria com o Partido Democrático se Veltroni tivesse seguido concretamente a mesma subversiva novidade de valores que levou Luther King a abalar os fundamentos da sociedade norte-americana?
Todos nós sentimos a força catalisadora desses homens, mas, ao invés de igualá-la, a adaptamos, suavizando o seu ato subversivo, atenuando o seu radicalismo. Citamo-los, representamo-los como mitos, mas não queremos ser como eles.
terça-feira, 27 de março de 2012
Dante e Giotto: Duplo retrato de Francisco de Assis
Giotto e Dante são ambos católicos, nascidos cerca de 40 anos depois da morte do Santo (1226). E o fato de se ocuparem de Francisco já é um testemunho de como a figura do santo era percebida como coesa pela Igreja. Mas os dois artesãos não conseguem dar razão totalmente ao "crucificado de Assis", porque a sua força é muito vasta: ambos o traduzem e o traem.
Giotto representa Francisco nos afrescos da Basílica Superior de Assis, referindo-se à Legenda Maior de Boaventura de Bagnoregio, e, em Florença, na Capela Bardi de Santa Cruz. Dante o coloca nos Céu dos espíritos sábios (Paraíso, Canto XI) e confia a ele o elogio a São Tomás de Aquino.
"A visão giottesca parece ser mais ingênua e nova; na realidade, é uma operação política precisa", destaca Cacciari. No ciclo de afrescos da Basílica Superior de Assis, de fato, falta o encontro de Francisco com os leprosos, o dom dos estigmas, e a cena do manto doado ao pobre é adoçada, parece uma troca entre cavaleiros. O episódio da morte também não mostra Francisco nu sobre a terra nua da Porciúncula. "Em síntese, uma representação homogênea com as exigências do primeiro papa franciscano (Nicolau IV): Francisco está em perfeita harmonia com a Igreja e se inclina a ela".
Em Dante, a perspectiva é diferente. Francisco é o alter Christus, que recebe os estigmas no Monte Alverne. Não se prostra, mas submete realmente ao papa a sua Regra. Não faz milagres, mas é o serafim de uma religião quase solar ("não diga Assis, que pouco e mal diria / Mas diga Oriente, por melhor falar"). Em Dante, Francisco está em guerra com as forças que transformaram o sólio de Pedro em uma Babilônia e morre pobre e nu como um "profeta" de uma nova ordem. Na Comédia, ele é tratado ao lado de São Domingos, porque Dante busca no cristianismo uma concórdia de opostos e aprecia tanto a força regeneradora da pobreza, quanto a da sabedoria dominicana.
Mas a preferência do poeta é por Francisco e pela sua loucura profética, embora nem Dante nem Giotto parecem compreender até as extremas consequências a força da revolução da pobreza: "Pobreza é a violência de quem quer o Reino. Somente o pobre é verdadeiramente poderoso", escreve Cacciari. Francisco vive um "esvaziamento de si mesmo" semelhante ao desejado por Deus para criar o universo.
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
Tesouro: Bíblia de Cervera em Nova Iorque
sexta-feira, 22 de abril de 2011
O cristão ao pé da cruz
segunda-feira, 18 de abril de 2011
O burrito de Jesus
sexta-feira, 18 de março de 2011
18 de Março de 1227. Morre o Papa Honório III
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
Madalena, a pregadora, não a prostituta
domingo, 9 de janeiro de 2011
Pinturas de Giotto
sábado, 8 de janeiro de 2011
8 de Janeiro de 1337. Morre o pintor Giotto
Giotto (1266-1337)
Giotto di Bondone morreu no dia 8 de Janeiro de 1337, em Florença. Quem gosta de arte religiosa pode chamar-lhe S. Giotto, porque além de mestre do top ten da pintura de todos os tempos, pelo menos pela introdução da perspectiva, humanizou os santos e as figuras divinas. Um mediador, portanto.
Só pintou motivos religiosos, sendo a vida de Francisco de Assis um deles, mas, como escreveu Lionello Venturi ("Para compreender a pintura. De giotto a Chagall", Estúdios Cor, 1955), “Giotto encerra uma civilização pictural que se ocupa sobretudo de Deus e abre outra que se ocupa sobretudo do homem”. Com Giotto, começa um novo capítulo da história da pintura, com realismo, perspectiva, humanidade, corpos e autores a assinar as obras. Segundo Gombrich, a história da arte passa a ser a história dos grandes artistas.
A foto acima é do exterior da Galeria Uffizi. Consta que Giotto era anão, como de alguma forma dá para perceber pela imagem.
quinta-feira, 15 de abril de 2010
Cinco génios florentinos
sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
8 de Janeiro de 1198. Eleição de Inocêncio III
Inocêncio III foi um dos papas mais importantes da história. Em qualquer top 5 lá estará, para o bem e para o mal, conforme as interpretações e épocas históricas.
Papa de 8 de Janeiro de 1198 a 16 de Julho de 1216, foi o Papa da supressão das heresias, mas da protecção aos judeus (o decreto de 1199 começa assim: “Decretamos que nenhum cristão deve usar violência para obrigar os judeus a aceitar o baptismo”), das cruzadas, da supremacia do poder papal mas também da primeira aprovação da ordem franciscana. Ao longo da história, os franciscanos foram com frequência a face da Igreja descrente do poder.
Sobre a autoridade papal vale a carta ao prefeito Acerbius e aos nobres da Toscânia (1198): “Assim como o Fundador do universo estabeleceu duas grandes luzes no firmamento do céu, a luz maior para governar o dia e a luz menor para governar a noite, assim também Ele estabeleceu duas grandes dignidades no firmamento da Igreja universal (…), a maior para governar o dia, isto é, as almas, e a menor para governar a noite, isto é, os corpos. Estas dignidades são a autoridade papal e o poder real. Agora, assim como a lua retira sua luz [quando surge] o sol; e é certamente menor em quantidade e qualidade, na posição e no poder, assim também o poder real deriva do esplendor da dignidade da autoridade pontifícia (…)”.
Mas este foi o Papa que aprovou a ordem franciscana. Em 1210, o Papa sonhou que a Basílica de São João de Latrão, sede do papado, se desmoronava. Chega então um mendigo que a suporta sozinho, não deixando que ela se desmorone. No dia seguinte, chegam a Roma Francisco de Assis e seus companheiros, que pedem ao Papa que aceite a sua regra de vida. O Papa aceita-a à experiência (seria Honório III, em 1123, que a aprovaria a ordem em definitivo).
Giotto pintou o sonho de Inocêncio III. Este pintor, repare-se na coincidência, morreu no dia 8 de Janeiro de 1337.
quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
Kepler e a estrela dos magos
Giotto (séc. XIV), os magos e o cometa Halley
Hoje é Dia de Reis, embora a Igreja católica, por arranjos de calendário, já tenha celebrado a Epifania no domingo passado. A estrela dos magos (em nenhum momento do relato do evangelista que fala do assunto, Mateus, se diz que eram Reis e que eram três) é pretexto para pagar uma dívida a Kepler.
Johannes Kepler (Estugarda, 27-12-1571 - Regensburg, 15-11-1630) é para aqui chamado porque foi o primeiro que tentou uma explicação científica para a estrela que os magos viram (Mt 2,2: “Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo”, dizem a Herodes).
A dívida tem a ver com o facto de ao ter invocado um livro que diz quer Kepler assassinou Tycho Brahe (aqui) ter prometido um ponto a favor do alemão e nunca o ter apontado.
A estrela
Em 1614, Johannes Kepler calculou que uma conjugação de Júpiter e Saturno teria ocorrido no ano 7 a.C. (o que corresponderia às modernas datações, que dizem que o nascimento de Cristo deverá ter ocorrido entre –4 e –6). Imaginava o astrónomo/astrólogo que tal conjugação produzia uma “nova”, que seria a estrela vista pelos magos. Os cálculos modernos dizem, no entanto, que tal conjugação, nas proximidades do nascimento de Jesus Cristo, não seria visualmente impressiva. Kepler não foi nem podia ser muito exacto com os meios de que dispunha.
Outras explicações foram lançadas para a estrela de Belém. Houve quem dissesse que se tratou do cometa Halley. Foi visível na região no ano 12 a.C. Muito antes da suposta dada. É este cometa que Giotto pinta no fresco. Foi novamente visto no início do séc. XIV.
A defesa de Kepler
Por falar em meios... O ponto a favor de Kepler no caso do suposto assassínio de Tycho Brahe vem do facto de o astrónomo alemão, sabendo que Galileu tinha um instrumento que permitir basculhar os céus, ter escrito ao cientista italiano. Com alguma simpatia, pedia ao italiano que lhe emprestasse a luneta. Galileu nem sequer lhe respondeu e Kepler teve que procurar outros meios. A questão é: os assassinos costumam ser simpáticos?
E mais uma dúvida
Entretanto, li que Kepler se dedicava mais à magia e à astrologia do que à ciência. E que teria conhecimento do Códice de Justianiano, que considerava as artes mágicas um crime tão grave como o de envenenamento. Será que Kepler, praticante de magia e de astrologia, julgando-se perdido (perdido por um, perdido por mil), foi mesmo o assassino, por envenenamento, de Tycho Brahe?
quinta-feira, 24 de dezembro de 2009
24 de Dezembro de 1294. Eleição do Papa Bonifácio VIII
Benedetto Caetani (1235 - 1303) foi eleito Papa no dia 24 de Dezembro, após a abdicação de Celestino V, no dia 13 de Dezembro anterior.
Benedetto Caetani influenciou a abdicação de Celestino V, um humilde monge beneditino (de certa forma lembrando-o, Giovanni Papini publicou as “Cartas aos Homens de Celestino VI”, que obviamente não existiu, mas seria um Papa exemplar), pelo menos sugerindo tal possibilidade, e a seguir foi eleito para a Cadeira de Pedro.
Defensor da supremacia espiritual e temporal dos Papas (acrescentou à tiara papal sua segunda coroa que representa a Ordem, o poder espiritual, uma vez que a primeira coroa já representava a Jurisdição, o poder régio ou temporal), Bonifácio VII viveu conflitos com as principais famílias e reis europeus. Os conflitos com Filipe IV são os mais conhecidos. Filipe IV tentou, sem conseguir, que Bonifácio VIII fosse condenado post mortem.
Bonifácio VIII institui em 1300 o primeiro jubileu cristão por meio da bula Antiquorum fide relatio, o que levou a Roma muitos cristãos e permitiu ao Papa restaurar as basílicas de São Pedro, São João de Latrão e Santa Maria Maior. A partir desse data houve jubileus de meio em meio século.
Este Papa foi patrono de Giotto. Dante, que não gostava dele por causa das concepções papais do poder, coloca-o no Inferno, pelo crime de simonia, apesar de Bonifácio ainda estar vivo na data em que se passa o poema. Boccaccio também o satiriza no Decameron.
Sinodalidade e sinonulidade
Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...
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Respondendo a alguns leitores, deixo aqui um artigo de Ariel Álvarez Valdés sobre a distinção, nos evangelhos, entre diabo e demónio. O tex...
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O que aqui vou deixar não é um tratado nem sequer um artigo académico sobre a questão. Trata-se simplesmente de dicas recolhidas de outros...
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Karl Rahner Quem acompanha este blogue sabe que tem andado por aqui e aqui uma discussão sobre o diabo e outras questões diabólicas. ...