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sábado, 1 de setembro de 2012

Anselmo Borges: A teologia da libertação na Doutrina da Fé?

Gerhard L. Müller

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje.

Uma vez, num seminário na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, um juiz perguntou-me o que é que eu pensava sobre a teologia da libertação. Disse-lhe: "Permita que lhe responda com uma pergunta: o que pensa o senhor sobre a teologia da opressão?"

Percebe-se. Se a teologia não for teologia da libertação, não será urgente bani-la, excomungá-la? Mas ele referia-se, evidentemente, a um tipo de teologia que dá por esse nome e que quer trabalhar e pensar a partir e ao serviço dos mais pobres, passando, portanto, de um cristianismo "sacral" a um cristianismo "social", e à qual o cardeal Joseph Ratzinger teceu fortes reservas.

Em 1972, foi o livro do teólogo G. Gutiérrez, Teologia da Libertação, que acabou por consagrar o seu nome. Em 1983, Ratzinger enviou à Conferência Episcopal do Peru observações críticas sobre a teologia de Gutiérrez, acusando-o concretamente de utilizar um método de interpretação marxista, fazer uma leitura parcial dos textos bíblicos e pôr o acento na economia e na política, não acautelando suficientemente a realidade religiosa e transcendente do Reino de Deus. Os bispos do Peru foram chamados a Roma em 1985 e pressionados para que o condenassem. A condenação não aconteceu, pois, como conta o teólogo X. Pikaza, foram vários a dizer que não tinha sentido "obrigá-los" a condenar um irmão crente comprometido com os pobres.

O singular nesta história é o alemão Gerhard L. Müller, que foi catedrático de Teologia na Universidade de Munique, bispo de Ratisbona desde 2002 e que, em substituição do norte-americano William Levada, que abandona o cargo por motivos de idade, acaba de ser nomeado prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o organismo responsável pela vigilância da ortodoxia. Müller não esconde a sua amizade com Gutiérrez e, por isso, há quem chegue a pensar que esta nomeação é uma espécie de reparação de J. Ratzinger.

Müller escreveu: "A teologia da libertação está para mim unida ao rosto de Gustavo Gutiérrez." Em 1988, participou num seminário dirigido por ele, e confessa: "Operou-se em mim uma viragem na reflexão académica sobre uma nova concepção teológica dirigida para a experiência com as pessoas para as quais tinha sido desenvolvida essa teologia."

E pergunta: "Como se pode falar de Deus perante o sofrimento humano dos pobres, que não têm sustento para os filhos nem direito a assistência médica nem acesso à educação, excluídos da vida social e cultural, marginalizados e considerados um fardo e uma ameaça para o estilo de vida de uns poucos ricos?" A teologia de Gutiérrez "é ortodoxa, porque é ortoprática".

Durante 15 anos passou 2 ou 3 meses por ano na América Latina, vivendo em condições muito simples, o que, como confessa, "para um cidadão da Europa central implica um grande esforço". Mas isso marcou-o profundamente e, assim, é inclemente na condenação do capitalismo neoliberal, cuja expressão sem escrúpulos são os vulture funds. "Depois da queda do comunismo, alguns pensaram que se poderia conseguir o paraíso na terra com um capitalismo desenfreado. As forças auto-reguladoras do mercado à escala mundial trariam por si mesmas o bem-estar para todos ou, pelo menos, para a maioria. A realidade é muito diferente. Foi a cobiça de homens concretos que provocou a actual crise financeira mundial, cujas consequências, mais uma vez, os pobres e os mais pobres dos pobres têm de pagar com a sua vida, a sua saúde, a morte prematura e todas as perspectivas perdidas, previstas por Deus para eles."

Deu recentemente uma entrevista ao Osservatore Romano, onde reafirma que é necessário "distinguir entre uma teologia da libertação equivocada e outra correcta", mas "qualquer teologia boa tem que ver com a liberdade e a glória dos filhos de Deus".

A sua chegada ao Vaticano não significa uma revolução - também foi prevenindo contra a "ordenação" das mulheres -, mas pode ser um bom sinal. Quer, com Paulo VI, que o aspecto positivo esteja em primeiro plano na Congregação para a Doutrina da Fé: "Ela deve, sobretudo, promover e tornar compreensível a fé, e este é o factor decisivo."

segunda-feira, 2 de julho de 2012

O novo prefeito da Congregação que já foi Santa Inquisição e Santo Ofício

Confirma-se que D. Gerhard Ludwig Müller é o novo prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. A nomeação não aconteceu no dia 29 de junho, mas Marco Tosatti estava certo quanto ao nomeado.

Notícia da Ecclesia aqui.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

O próximo inquisidor?



Gerhard Ludwig Müller

“Rumores muito confiáveis”, diz Marco Tosatti, no “Vatican Insider”, o sítio vaticanista do “La Stampa”, dizem que o cardeal William Levada vai deixar a Congregação para a Doutrina da Fé, talvez na próxima sexta-feira (dia de São Pedro e São Paulo, um dia ótimo para nomear que vigia pela ortodoxia da fé, já que Pedro e Paulo motivaram a primeira monumental discussão teológico-gastronómica do cristianismo – isto acrescento eu).

O lugar que já foi de Joseph Ratzinger, diz o mesmo Tosatti, deverá ser ocupado por um ratzingeriano. Quer dizer, talvez não seja bem um ratzingeriano, pelos motivos à frente apontados, mas alguém ligado a um sítio onde Ratzinger foi muito feliz, durante anos, e, na minha opinião, inconsciente, durante momentos.

Gerhard Ludwig Müller, bispo de Regensburg (ou Ratisbona) é o provável sucessor de Levada (norte-americano de ascendência açoriana). Ratzinger foi professor em Regensburg, durante anos, e, é impossível esquecer, foi na universidade desta terra que proferiu, já como Papa, o discurso que inflamou a rua muçulmana. Digo que foi um momento inconsciente porque no meio daquele discurso belíssimo e com teses muito fortes sobre as liberdades de investigação e religiosa (“não agir segundo a razão é contrário à natureza de Deus”) e a marca helénica da teologia cristã (“a recíproca aproximação interior… entre a fé bíblica e a indagação a nível filosófico do pensamento grego é um elemento de importância decisiva sob o ponto de vista não só da história das religiões, mas também da história universal – um dado a que estamos obrigados ainda hoje”), as referências ao Islão, além de me parecerem forçadas, eram suscetíveis de provocar a fúria muçulmana. Não sei se alguém terá lido previamente o discurso papal, mas se o leram, esqueceram-se da palavra mais ouvida nos corredores eclesiásticos: “Prudência”. Este era um caso em que devia ter sido usada. (Eu penso que o Islão é geneticamente violento. Mas não tenho de ser diplomata, nem tenho câmaras apontadas a mim, e, claro, pouca gente liga ao que eu digo.)

Quem é Gerhard Müller?

Tosatti explica com mais um aspeto ratzingeriano:
É um homem de uma personalidade notável, que exerce uma certa influência sobre Bento XVI. Sem ser contado entre o círculo dos amigos próximos do papa, ele certamente tem uma figura significativa, do ponto de vista acadêmico, o que estabelece um vínculo. Ele também desempenhou, e desempenha, um papel de qualidade na criação e no trabalho da fundação nascida na Alemanha para cuidar e acompanhar a publicação das obras literárias de Joseph Ratzinger/Bento XVI.
E com outro aspeto pouco ratzingeriano:
Müller é um grande admirador e amigo de um dos personagens mais debatidos da Teologia da Libertação, Gustavo Gutiérrez. Sobre este e sobre a Teologia da Libertação, ele proferiu palavras muito calorosas de elogio em 2008, durante um evento público na América do Sul, em Lima, para celebrar o título de doutor honoris causa conferido a Gutiérrez pela Pontifícia Universidade do Peru, na mira da Santa Sé justamente nestas semanas. O prelado de Regensburg nunca escondeu a sua admiração pelo amigo e mestre peruano, hoje com 83 anos (li aqui, tal como a citação anterior). 
Vamos lá ver se isto se confirma. Algumas pessoas, só por causa da amizade com um teólogo da libertação, já devem estar a dar voltas na cadeira (sou eu a imaginar; não sei de nada em concreto). Lanço, então, mais um motivo para aguardar com expetativas positivas esta nomeação: a capacidade de pensar diferente deste teólogo, que tem mais de 400 publicações académicas. Diz Tosatti, mas num texto de março deste ano: 
Em seu livro Dogmatica Cattolica [Müller ] oferece uma imagem da virgindade de Maria que não se relaciona com “as características fisiológicas do processo natural do nascimento de Jesus, mas com o influxo de salvação e de redenção da graça de Cristo para a natureza humana”. 
 Em outro livro, ao tratar do tema da transubstanciação, desaconselha o uso do termo “corpo e sangue”, porque poderiam induzir a confusão. “Corpo e sangue de Cristo não significam as partes físicas do homem Jesus durante a sua vida ou em seu corpo glorificado. Corpo e sangue significam aqui antes uma presença de Cristo sob o signo do pão e do vinho”. E, ao falar da Dominus Jesus, o documento de Ratzinger no qual se sustenta que as comunidades eclesiais que não preservaram um episcopado válido (muitas confissões reformadas) não são igrejas, sustenta que defender esta opinião é um “mal-entendido” (aqui, num texto de março de 2012).

A confirmar-se a nomeação deste teólogo de 64 anos (nasceu no último dia de 1947), penso que podemos esperar um modo novo de entender ou pelo menos de executar o papel da Congregação para a Doutrina da Fé.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...