Mostrar mensagens com a etiqueta González Faus. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta González Faus. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Novo

A vida de Jesus caracteriza-se pela pretensão (feita em nome do Deus com quem Jesus se sabe em particular intimidade) de um homem novo, "utópico".

González Faus

sábado, 16 de março de 2013

Anselmo Borges: "O maior afrodisíaco"

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje.

Ainda Papa, J. Ratzinger disse o que é decisivo: "Nós somos a Igreja; a Igreja não é uma estrutura; nós, os próprios cristãos juntos, todos nós somos o Corpo vivo da Igreja. Naturalmente, isto é válido no sentido de que o 'nós', o verdadeiro 'nós' dos crentes, juntamente com o 'Eu' de Cristo, é a Igreja."

Mas, de facto e desgraçadamente, quando se pensa e fala e escreve sobre a Igreja, no que se pensa e fala e sobre que se escreve é, em primeiro lugar, a Igreja enquanto instituição e concretamente a organização central - em que se pensa, quando se diz o Vaticano? -, com o Papa, o cortejo de cardeais, arcebispos, bispos, monsenhores da Cúria e o Banco do Vaticano e regras e normas e escândalos e intrigas que se diz aninharem-se por lá e, evidentemente, também o espectáculo nem sempre edificante, e o folclore. Aliás, quem se não quiser enganar, mesmo dentro da Igreja, que se pergunte: o que juntou os mais de 5000 jornalistas estrangeiros em Roma para a eleição do novo Papa? Foi verdadeiramente a Igreja viva, constituída pelos discípulos de Jesus, que procuram real e verdadeiramente segui-lo no amor de Deus e do próximo?

Seja como for, acima de tudo e em primeiro lugar, é preciso voltar a Jesus Cristo, ao que ele foi, é, quis e quer. Realmente, em síntese, como escreveu o teólogo Hans Küng, a Igreja é a comunidade dos que acreditam em Jesus Cristo: "A comunidade dos que se entregaram e entregam a Jesus e à sua causa e a testemunham com energia como esperança para o mundo. A Igreja torna-se crível se disser a mensagem cristã, não em primeiro lugar aos outros, mas a si mesma, e, portanto, não pregar apenas, mas cumprir as exigências de Jesus."

A Igreja não pode entender-se como uma gigantesca empresa multinacional religiosa ou um aparelho de poder. Ela é povo de Deus espalhado pelos diferentes lugares do mundo. O Papa não pode ser visto como um "autocrata espiritual", mas como bispo que tem o primado pastoral, vinculado ao colégio dos bispos. E as funções nucleares da Igreja são oferecer aos homens e às mulheres de hoje a mensagem cristã, de modo compreensível, sem arcaísmos nem dogmatismos escolásticos, e celebrar os sacramentos, sem esquecer o dever de assumir as suas responsabilidades sociais, apresentando à sociedade, sem partidarismos, opções fundamentais, orientações para um futuro melhor para a Humanidade, na paz, no respeito pelos direitos humanos, na preservação da natureza.

O novo Papa tem pela frente missões gigantescas. A credibilidade da Igreja-instituição bateu no fundo. Impõe-se, pois, uma conversão de fundo. A pedofilia tem de acabar definitivamente. Tolerância zero igualmente para os escândalos intoleráveis do Banco do Vaticano. Os direitos humanos têm de valer também no seio da Igreja: liberdade de investigação, de opinião, de expressão. A quem tem medo da democracia e da participação lembra-se o que diz o Vaticano II: "É perfeitamente conforme com a natureza humana que se constituam estruturas jurídico-políticas que ofereçam a todos os cidadãos, sem discriminação alguma e com perfeição crescente, possibilidades de tomar parte livre e conscientemente na eleição dos governantes." As mulheres não podem ser discriminadas. A moral sexual pede revisão, bem como a lei obrigatória do celibato, que deve ser opcional. Decisiva é a reforma da Cúria, verdadeiro cancro da Igreja: "Impõe-se reformar a Cúria Romana", exige o cardeal W. Kasper. A Cúria só se compreende enquanto serviço da autoridade eclesiástica, que não reside na Cúria, mas no colégio dos bispos com o Papa à cabeça, como lembra o teólogo J. I. González Faus, que quer também que desapareçam do círculo do Papa "todos os símbolos de poder e de dignidade mundana": "príncipes da Igreja" é "título quase blasfemo".

Mas não haverá reforma sem conversão no que se refere àquela que foi a única tentação com que Jesus também foi confrontado: a tentação do poder, disso que é - disse-o quem sabe (Henry Kissinger) - o maior afrodisíaco. Jesus deixou a palavra decisiva: "Não vim para ser servido, mas para servir."

No próximo sábado escreverei sobre o Papa Francisco, que, estou convicto, veio para servir.

sábado, 2 de março de 2013

Anselmo Borges: O testamento do Papa Bento XVI



Texto de Anselmo Borges no DN de hoje.

Agora, é apenas Papa emérito. Mas que ninguém se preocupe com os dois Papas vivos, pois Ratzinger retirou-se, para rezar, meditar, ouvir e tocar música, investigar, "desaparecendo" para o mundo.

Joseph Ratzinger também teve o seu momento de rebeldia e de progressismo, no Concílio Vaticano II. Chegou a dizer nas aulas, em Tubinga: "em Roma, como sabem, não se faz boa Teologia." Durou pouco tempo esse tempo. A sua orientação teológica agostiniana - Santo Agostinho não tinha em muito boa consideração o mundo - inclinava-o mais para uma visão conservadora. A mudança teve como ponto decisivo os excessos de 1968, com o radicalismo ateu dos estudantes de Teologia.

Reconhecido pela sua inteligência brilhante e uma rara cultura - dialogou com grandes intelectuais, incluindo Jürgen Habermas -, é mais um intelectual e um professor do que um pastor. As circunstâncias quiseram que este homem afável, tímido, "honesto, íntegro e encantador no trato pessoal", como reconhece também o teólogo J. I. González Faus, deixasse a vida académica, se tornasse arcebispo de Munique, seguisse para Roma como "inquisidor", condenando muitas dezenas de teólogos e a Teologia da Libertação, e se tornasse Papa - quando aconteceu a eleição, lembrou-se da guilhotina.

Deixa três encíclicas: a primeira, para dizer que a verdadeira "definição" de Deus é que é Amor; a segunda, para convocar os cristãos e todos os homens à esperança; a terceira é sobre "a caridade (o amor) na verdade". Nela, condena as posições neoliberais, cujo único objectivo é o lucro; reafirma a doutrina essencial de que a economia e o desenvolvimento só são verdadeiros se estiverem ao serviço do homem todo e de todos os homens; que, em ordem ao seu correcto funcionamento, a economia precisa da ética, "uma ética amiga da pessoa"; que, para conseguir o governo da economia mundial, o desarmamento, a segurança alimentar e a paz, a salvaguarda do meio ambiente e a regulação dos fluxos migratórios, "urge a presença de uma verdadeira Autoridade política mundial, que deverá ser reconhecida por todos, gozar de poder efectivo para garantir a cada um a segurança, a observância da justiça, o respeito dos direitos".

Ideia nuclear é a do diálogo entre a fé e a razão. A fé, sem a razão, é cega e intolerante; a razão, sem a abertura à transcendência, pode enlouquecer. No cristianismo, acolhe-se a fé, dando lugar à descoberta do "Deus que é Razão criadora e ao mesmo tempo Razão-amor". Aí está o vínculo indissolúvel entre Razão, Verdade e Bem.

Na Sexta-Feira Santa de 2005, ainda cardeal, disse aquelas palavras: "quanto sujidade na Igreja! A traição dos discípulos fere mais Jesus." Referia-se certamente ao escândalo da pedofilia, à figura sinistra do padre Maciel, fundador dos Legionários de Cristo, ao que se passava na Cúria. Quando assumiu funções, foi exemplar, pondo Maciel fora da vida pública, pedindo perdão às vítimas da pedofilia e tomando medidas drásticas e consistentes, para que os crimes se não repitam.

Não conseguiu reformar a Cúria nem pôr termo às intrigas, ao carreirismo, às lutas pelo poder, aos escândalos, desde a corrupção à lavagem de dinheiro no Banco do Vaticano e ao Vatileaks. Sem forças "no corpo e no espírito", renunciou, "em consciência e plena liberdade", para que outro lhe suceda.

Foi talvez a lição maior de Joseph Ratzinger enquanto Papa. Houve quem o criticasse, também dentro da Igreja e pensando em João Paulo II: que não se desce da Cruz e que dessacralizou o papado. Mas, afinal, o Papa é mais do que um homem? Não se trata tão-só de um cristão que leva consigo a específica missão gigantesca de ser sinal e promotor de unidade entre os cristãos e a Humanidade?

Este é o seu testamento: abandona pacificamente o poder. Porque na Igreja, como aliás no mundo em geral, é preciso escolher entre o poder como dominação e a força do serviço. O Deus cristão não se revela como Poder-Dominação, mas Força Infinita de criar no Amor. Bento XVI leu e recomendou que todos os Papas lessem a famosa carta de São Bernardo ao Papa Eugénio III: "Não pareces um sucessor de Pedro, mas de Constantino".

terça-feira, 1 de maio de 2012

Sobriedade da Ressurreição



Os evangelistas não caíram na tentação de dizer que «viram a Ressurreição», o que dado o seu afã apologético, teria sido quase compreensível (e a prova é que alguns Evangelhos chamados «apócrifos» caíram nessa tentação fácil). Os evangelistas limitam-se a dizer que o Ressuscitado «se lhes manifestou». Deste modo tornam as coisas mais difíceis para nós na hora de acreditarmos. Mas talvez ganhem respeito por causa da própria sobriedade do seu testemunho.


González Faus

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Quem lê "Teologia para Agnósticos"?

Ignacio Sotelo

González Faus, no livro a meias com o agnóstico Ignacio Sotelo (Casa das Letras) conta que Sotelo lhe confidenciou que andava com a ideia de escrever um livro com o título "Teologia para Agnósticos". "Disse-me - afirma Faus - que sempre que tinha tentado comentar o projeto com algum amigo não crente lhe tinham dito com um tom de autossuficiência despiciente: «Só os padres te vão ler»".

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Golpe de Estado do pagão

Há uma incredulidade que acompanha toda a fé. Uma vez chamei a isso «o golpe de Estado do pagão que levo dentro de mim»: esse momento em que «alguém» se te impõe, dizendo dentro de ti: comporto-me assim porque me dá na real gana e estou-me nas tintas para todas as considerações crentes ou morais contra. Sem apelo possível, nem de considerações racionais nem religiosas. É aquela de «creio em Deus, mas só até aqui, não mais».


González Faus

terça-feira, 17 de abril de 2012

Para todos

(...) O simples facto de testemunhar uma esperança já tem algo de notícia boa. Mais de uma vez me disseram: «Que sorte tens tu que esperas tudo isso!» Até que uma vez, perante um caso particularmente dramático, me ocorreu responder: «Não te lamentes, porque também o espero para ti».


González Faus

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Gonzaléz Faus reflete sobre o FMI



Opinião de Gonzaléz Faus sobre o FMI:
La infalibilidad del papa (que sólo vige en circunstancias muy limitadas, casi impracticables) se queda pequeña al lado de la infalibilidad del FMI, aunque haya que concederle a éste una gran ventaja sobre Roma y es la existencia de esa Oficina independiente de evaluación que hemos citado y que Roma no tolera de ningún modo. Pero resulta incomprensible que haya tantas gentes que, no creyendo en la infalibilidad del papa, creen en la infalibilidad del FMI que es mucho más peligrosa: porque no se ciñe a temas celestiales como la asunción de María, sino a cuestiones muy terrenas y serias que ponen en juego la vida de muchas personas.
Ler tudo aqui.

Gosto mais do teólogo do que do político e economista Gonzaléz Faus. Mas se é verdade que toda a boa teologia é necessariamente pastoral, prática, como dizia Karl Rahner, é também política.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Anselmo Borges: Segurança e insegurança de Mamôn



Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (aqui):

Talvez nunca como hoje, no meio de uma confusão sem medida nem fim à vista, se tenham utilizado tanto as palavras confiança e crédito, palavras que vêm do mundo religioso. Confiança vem de fides (fiar-se de, confiar, fé) e crédito, de credere (crédito, acreditar, crer, Credo). O que falta e faz falta: confiança e crédito. Mas confiar em quê e em quem? E quem tem crédito e concede crédito?


O pior mesmo é essa falta e a confusão. Ninguém sabe exactamente - saberá?- o que se passa. E, quando não se é capaz de equacionar os problemas, como encontrar a solução? No labirinto, pululam sentenças, palpites, comentários, aldrabices, ataques, adivinhações... Saímos do euro? O euro vai acabar? Uma Europa a duas velocidades? A Europa desmorona-se? E quando se dá o crescimento da economia? Ah!, e os BRIC... E a crise de um mundo pela primeira vez verdadeiramente um só mundo! E um capitalismo selvagem e louco!


Como se chegou aqui? Aqui, é a esfola. Surpreendentemente, mesmo Jorge Sampaio foi confessando, há dias, que sabia que o país estava com sérias dificuldades, mas, "que tivéssemos chegado a isto, tão dependentes de credores, nunca tinha pensado".


Afinal, ainda há pouco, havia dinheiro para mais uma auto-estrada de Lisboa ao Porto, um novo aeroporto, alta velocidade para Madrid... De repente, a esfola. Impostos, mais impostos, cortes, mais cortes. E não se pense que tenha terminado a procissão da austeridade.


É claro que se deve honrar os compromissos e pagar as dívidas. Mas, quando olho os números, fico aterrado: este ano são mais de nove mil milhões de euros para pagar juros. Agora, a soberania está com os credores. E esta mentira toda: resgatar um país, ajoelhando-o e paralisando-o com juros! E já se não fala em pessoas, mas em mercados. As pessoas terão desaparecido? Quem as apagou do mapa?


Culpados? Nós todos. As responsabilidades não são, porém, todas iguais. Mas quem se assume como responsável? Presidentes da República, governos, a banca, autarcas, corruptos, consumidores sôfregos, professores, jornalistas... Alguém conhece alguém que se confesse responsável?


Sobretudo, é preciso ir à raiz. E lá está a Bíblia na Primeira Carta a Timóteo: "Nada trouxemos ao mundo e nada poderemos levar dele. A raiz de todos os males é a ganância do dinheiro. Arrastados por ele, muitos se enredaram em muitas aflições." E Jesus - é para essas bandas que mora a Sabedoria, o Logos, a Razão e a Bondade - disse, no contexto de um escravo não poder ser pertença de dois senhores, que Deus e Dinheiro são totalmente incompatíveis: "Não podeis servir a Deus e a Dinheiro."


Para entender este passo, a começar pela tradução, é necessário perceber a linguagem. Significativamente, o Novo Testamento, para dinheiro, utiliza a palavra Mamôn, que só aparece na boca de Jesus e que provém do verbo hemin, com o significado de crer e aceitar confiadamente. Como explica o teólogo catalão José Ignacio González Faus, o dinheiro gera uma fé de tipo religioso. Daí a sua incompatibilidade com Deus. Aliás, Jesus usa a palavra sem artigo, como se fosse um nome próprio, de tal modo que alguns manuscritos escrevem-na precisamente com maiúscula: "Não podeis servir a Deus e a Dinheiro."


O problema reside, como explicou indirectamente J. M. Keynes, na sua Teoria geral do emprego, do juro e da moeda, na segurança. Os seres humanos têm medo do futuro e precisam de assegurá-lo. Tradicionalmente, essa missão estava confiada à religião. Agora, a segurança vem do dinheiro. De facto, o dinheiro abre todas as portas e compra tudo. Dá prestígio e é aquele meio que dá acesso a todos os meios - no limite, asseguraria a própria imortalidade. Ele é omnipotente como um Deus.


Por isso, González Faus diz que a legenda das notas de dólar (in God we trust) significa na realidade: in "this" God we trust ("neste" Deus, o Dinheiro, confiamos). Mas, de facto, o que deveria trazer-nos segurança trouxe-nos, como se vê, no quadro de um neoliberalismo à solta, uma insegurança global, que pode levar ao desastre.

domingo, 9 de janeiro de 2011

O Natal herético de González Faus

O Natal já lá vai. Já ninguém pensa nisso, como não pensou muito quando ele por nós passou. No rescaldo, sabe bem ler o texto de José Ignacio González Faus, no seu blogue, em espanhol (aqui), ou traduzido em português no IHU (aqui, apesar de erros como “esquisita Maria” por “Maria de bom gosto” ou “Corte inglesa” pelo nome da cadeia de supermercados que, com certeza, não existe no Brasil).

Assim esquecemos todo o lado polêmico da mensagem natalina: que Deus não nasceu no Templo de Jerusalém, nem sequer numa pousada decente, senão num estábulo. O que, com palavras de hoje, significa: Deus não nasce na catedral de Barcelona, nem na igreja Sagrada Família, senão no [rio] Besós [Barcelona] ou no Raval [nos arredores de Barcelona, ndt]; nem nasce na Catedral de Nossa Senhora daAlmudena, senão na Canadá real; nem nasce na Corte inglesa, senão numa favela, nem nasce no Vaticano, senão na Faixa de Gaza, nem em Manhattan, senão no Haiti... E seu sinal não são as luzes em nossas ruas senão a falta de luz nos subúrbios.

(…)

Imaginemos então o que ocorreria se uma multidão de cristãos, mais conscientes de todo este significado, começasse a tomar decisões como estas: no natal não vamos consumir nada, não porque não possa ter sentido materializar o gozo interno, senão para compensar a unilateralidade na qual caímos. Nem vamos jogar na loteria porque não queremos enriquecer-nos precisamente nos mesmos dias em que Deus empobrece. Nem damos presentes às pessoas queridas senão somente àquelas com as quais nos encontramos inimizados ou a quem necessitamos perdoar. Nem plantaremos beléns transbordantes de figuras caras, senão um simples presépio desvencilhado e vazio, da mesma forma como aquela cadeira daquele prêmio Nobel da paz que esteve vazia durante a cerimônia: como que simbolizando que a Deus igualmente não deixamos vir hoje porque é um dissidente deste mundo, como Liu Xiaobo.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Como González Faus sonha uma viagem do Papa

O teólogo José Ignacio González Faus contou à revista espanhola “21” como sonha que deveria ser a viagem do Papa a Barcelona.

O Papa viajou em um avião de passageiros da Alitalia em classe turismo, não business. Não ia como chefe de Estado, nem havia jornalistas no avião. Ao aterrissar, se supusermos que foi no aeroporto de Prat, o arcebispo de Barcelona o recebeu, naturalmente. Dali, em um carro normal, nem blindado nem papamóvel, se transladou... para a La Mina. Conversou com ciganos e imigrantes, romenos ou marroquinos, ouviu suas queixas e suas piadas. E lhes disse o mesmo que, quase 50 anos antes, Paulo VI havia dito aos campesinos da Colômbia: "Vós sois Cristo para mim". Dali foi transladado para a prisão Modelo ou para a prisão de Can Brians, onde teve outra conversa parecida com os presos que quiseram ouvi-lo.

Reuniu-se com um grupo de católicos da diocese, dentre os quais havia um contingente de clérigos ou párocos, outros de religiosos de ambos sexos, outro de leigos e um quarto grupo de mulheres seculares. Não havia entre eles nenhum político ou, em todos os casos, um número bem reduzido. O Papa lhes disse: vim para ouvi-los, porque ouvir-me é algo que vocês podem fazer pelo rádio ou pela televisão, enquanto eu não posso ouvi-los.

O resto, que não é muito mais na versão do IHU, pode ser lido aqui.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Teologia moral católica clássica sobre os preservativos

Sobre como a questão do preservativo pode ser lida à luz da teologia moral católica clássica, veja-se o artigo do teólogo González Faus, jesuíta, publicado originalmente no "El País" de 22 de Janeiro de 2005, quando o bispo Martínez Camino, auxiliar de Madrid, disse que o preservativo ajuda a combater a sida. Na altura provocou polémica. O teólogo catalão veio em defesa do bispo madrileno.

Agora, a propósito do livro de Bento XVI, González Faus republica o texto no seu blogue, Miradas cristianas, e a Unisinos tradu-lo para português, aqui.

Escreve González Faus: O que eu gostaria de acrescentar é que, nesse princípio ["É lícito persuadir a alguém que faça um mal menor se já estiver determinado a cometer um mal maior. E a razão é que quem aconselha isso não pretende um mal, mas sim um bem, isto é, que se escolha um mal menor"] e em todos os casos, tratou-se propriamente não de teologia moral, mas sim de senso comum. Não interveio nesses juízos, em nada, o dado que nós, cristãos, chamamos de "revelado" e que os outros poderão entender como "especificamente católico", como poderia ser a sacramentalidade do matrimónio ou coisas semelhantes.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

O que diz González Faus

José Ignacio González Faus é professor emérito da Faculdade de Teologia da Catalunha, autor, entre muitos outros títulos, de “La Humanidad Nova. Ensayo de Cristologia” (Ed. Sal Terrae, Santander). As declarações foram feitas numa entrevista ao jornal espanhol “Hoy”, no dia 5 de Outubro de 2010 (aqui).

Quem faz mais ateus?
Disse uma vez que a cúria romana fez mais ateus que Marx, Freud e Nietzsche juntos. O que não dá para negar é que muitos homens se afastam dela e, mesmo que mais tarde se sintam vazios e queiram preencher esse vazio, se dão conta de que têm que procurar fora da Igreja. Diante disso, não parece que a Instituição procure aproximar-se. Os pontos fracos da Igreja actual são muitos, e eu disse já disse várias vezes é a cruz da minha fé, mesmo que procure carregá-la com elegância. Vejo que ela é incapaz de compreender o positivo do mundo moderno e os seus dirigentes desejam poder solucionar os problemas com base no poder.

Democracia
Não me parece evangélico que o Papa seja chefe de Estado, nem o modo de nomear a dedo os bispos nem os “príncipes da Igreja”. Quando não havia democracia, eram eleitos democraticamente a partir das comunidades locais.

Mulher
É inegável que a mulher não ocupa na Igreja o lugar que merece.

O que há a mudar
Não é uma questão de receitas. A Igreja tem que mudar muitas coisas. Devia começar por reconhecer que está em crise. Na qual todos temos um pouco de culpa. A partir daí teria que ver como e por onde se pode caminhar. Começando por não excluir como hereges aqueles que pensam diferente.

Linguagem antiga
Algo simples por onde se poderia começar é a linguagem. Não se podem manter as palavras antiquadas da liturgia. Não se entendem ou suscitam imagens contrárias ao que na sua origem se queria expressar.

Por que devemos criticar a Igreja
Ratzinger tem um artigo já clássico no qual diz que se hoje não se critica tanto a Igreja como na Idade Média, não é porque se a ame menos, mas porque falta esse amor que é capaz de arriscar a própria sorte ou a própria carreira pela amada [parte desse artigo foi aqui citada]. E eu tenho um livro sobre a liberdade da palavra na Igreja que é só uma antologia de textos de santos, bispos e cardeais, alguns muito mais duros do que as coisas que se dizem hoje. Também é normal que as autoridades não gostem disso e que de vez em quando te dêem com algum pau ou chamem à atenção “de cima”. E o que sinto é que isso não é feito directamente para mim. Quem tem que arcar com as críticas é o meu provincial, o que não está certo. Bom, não há parto sem dor. E como disse Santa Teresa, a verdade padece, mas não perece.

Newman foi incómodo no seu tempo
Creio que o balanço da visita do Papa não é mau. A experiência foi positiva. A beatificação de John Henry Newman parece-me significativa. Uniu muito a Igreja, apesar de ter sido um homem crítico que incomodou tanto a direita católica como muitos anglicanos. Quando se converteu não sentia nenhuma simpatia pela Igreja católica, mas o estudo da história fê-lo ver que a continuidade com as origens estava em Roma.

Diálogo inter-religioso
A convivência, o afecto e a colaboração entre religiões é um imperativo. E na palavra religiões incluo agora também o ateísmo. Os poderes públicos devem ser neutros e buscar a convivência. Em alguns lugares, como na Catalunha, há muitas iniciativas bem positivas. É preciso buscar o encontro naquilo que nos une como humanos. Devemos buscar no outro a melhor versão de sua personalidade, que é o que Deus pede a todos.

Drogados pelo consumo
Deixamos passar uma grande oportunidade para mudar os elementos injustos e irracionais de nosso sistema económico. Esta crise serviu apenas para ajudar aqueles que a provocaram, mas não as verdadeiras vítimas. Todos fomos cúmplices do sistema, drogados como estamos pelo consumo. Isto foi um passo a mais rumo ao desmantelamento do Estado de bem-estar social. A culpa é em parte da esquerda, que participou desse “socialismo assistencial” da partilha de subvenções, em vez de se ocupar em fazer justiça social.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...