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quarta-feira, 25 de setembro de 2013

A resposta de Bento XVI a Odifreddi no "La Repubblica"


Esta é a resposta de Bento XVI a Odifreddi, no "La Repubblica" de ontem. (Que bom! Um texto emeritopapal para pensar). O texto será publicado na íntegra num novo livro do matemático ateu. Vale a pena ler. Há muito mais - e mais interessante - do que o que ontem aqui referi, como comentou um leitor. Copiei-o do Unisinos (Brasil). Parece que não sabem que Magellan é Magalhães e acrescentei uns subtítulos para identificar os assuntos.
Ilustríssimo Senhor Professor Odifreddi, (...) gostaria de lhe agradecer por ter tentado até o último detalhe se confrontar com o meu livro e, assim, com a minha fé; é exatamente isso, em grande parte, que eu havia intencionado com o meu discurso à Cúria Romana por ocasião do Natal de 2009. Devo agradecer também pelo modo leal como tratou o meu texto, buscando sinceramente prestar-lhe justiça. 
O meu julgamento acerca do seu livro, no seu conjunto, porém, é em si mesmo bastante contrastante. Eu li algumas partes dele com prazer e proveito. Em outras partes, ao invés, me admirei com uma certa agressividade e com a imprudência da argumentação. (...)
Teologia não é ficção científica 
Várias vezes, o senhor me aponta que a teologia seria ficção científica. A esse respeito, eu me admiro que o senhor, no entanto, considere o meu livro digno de uma discussão tão detalhada. Permita-me propor quatro pontos a respeito de tal questão:

1. É correto afirmar que "ciência", no sentido mais estrito da palavra, só a matemática o é, enquanto eu aprendi com o senhor que, mesmo aqui, seria preciso distinguir ainda entre a aritmética e a geometria. Em todas as matérias específicas, a cientificidade, a cada vez, tem a sua própria forma, segundo a particularidade do seu objeto. O essencial é que ela aplique um método verificável, exclua a arbitrariedade e garanta a racionalidade nas respectivas modalidades diferentes.

2. O senhor deveria ao menos reconhecer que, no âmbito histórico e no do pensamento filosófico, a teologia produziu resultados duradouros.
Teologia e razão 
3. Uma função importante da teologia é a de manter a religião ligada à razão, e a razão, à religião. Ambas as funções são de essencial importância para a humanidade. No meu diálogo com Habermas, mostrei que existem patologias da religião e – não menos perigosas – patologias da razão. Ambas precisam uma da outra, e mantê-las continuamente conectadas é uma importante tarefa da teologia.
Ficção nas ciências 
4. A ficção científica existe, por outro lado, no âmbito de muitas ciências. Eu designaria o que o senhor expõe sobre as teorias acerca do início e do fim do mundo em Heisenberg, Schrödinger, etc., como ficção científica no bom sentido: são visões e antecipações para chegar a um verdadeiro conhecimento, mas são, justamente, apenas imaginações com as quais tentamos nos aproximar da realidade. Além disso, existe a ficção científica em grande estilo, exatamente dentro da teoria da evolução também. O gene egoísta de Richard Dawkins é um exemplo clássico de ficção científica. O grande Jacques Monod escreveu frases que ele mesmo deve ter inserido na sua obra seguramente apenas como ficção científica. Cito: "O surgimento dos vertebrados tetrápodes (...) justamente tem sua origem do fato de que um peixe primitivo 'escolheu' ir a explorar a terra, sobre a qual, porém, ele era incapaz de se deslocar, exceto saltitando desajeitadamente e criando, assim, como consequência de uma modificação do comportamento, a pressão seletiva graças à qual se desenvolveriam os membros robustos dos tetrápodes. Entre os descendentes desse audaz explorador, desse Magellan da evolução, alguns podem correr a uma velocidade de 70 quilômetros por hora..." (citado segundo a edição italiana de Il caso e la necessità, Milão, 2001, p. 117ss.).
Clero e pedofilia 
Em todas as temáticas discutidas até agora, trata-se de um diálogo sério, para o qual eu – como já disse repetidamente – sou grato. As coisas são diferentes no capítulo sobre o sacerdote e a moral católica, e ainda diferentes nos capítulos sobre Jesus. Quanto ao que o senhor diz sobre o abuso moral de menores por parte de sacerdotes, eu só posso reconhecer – como o senhor sabe – com profunda consternação. Eu nunca tentei mascarar essas coisas. O fato de que o poder do mal penetra a tal ponto no mundo interior da fé é para nós um sofrimento que, por um lado, devemos suportar, enquanto, por outro, devemos, ao mesmo tempo, fazer todo o possível para que casos desse tipo não se repitam. Também não é motivo de conforto saber que, segundo as pesquisas dos sociólogos, a porcentagem dos sacerdotes réus desses crimes não é mais alta do que a presente em outras categorias profissionais semelhantes. Em todo caso, não se deveria apresentar ostensivamente esse desvio como se se tratasse de uma imundície específica do catolicismo.
Mal e bem na Igreja 
Se não é lícito calar sobre o mal na Igreja, também não se deve silenciar, porém, sobre o grande rastro luminoso de bondade e de pureza, que a fé cristã traçou ao longo dos séculos. É preciso lembrar as figuras grandes e puras que a fé produziu – de Bento de Núrsia e a sua irmã Escolástica, Francisco e Clara de Assis, Teresa de Ávila e João da Cruz, aos grandes santos da caridade como Vicente de Paulo e Camilo de Lellis, até a Madre Teresa de Calcutá e as grandes e nobres figuras da Turim do século XIX. Também é verdade hoje que a fé leva muitas pessoas ao amor desinteressado, ao serviço pelos outros, à sinceridade e à justiça. (...)
O método histórico-crítico, Jesus e a sua historicidade 
O que o senhor diz sobre a figura de Jesus não é digno do seu nível científico. Se o senhor põe a questão como se, no fundo, não soubesse nada de Jesus e como se d'Ele, como figura histórica, nada fosse verificável, então eu só posso lhe convidar de modo decidido a tornar-se um pouco mais competente do ponto de vista histórico. Recomendo-lhe, para isso, sobretudo os quatro volumes que Martin Hengel (exegeta da Faculdade de Teologia Protestante de Tübingen) publicou juntamente com Maria Schwemer: é um exemplo excelente de precisão histórica e de amplíssima informação histórica. Diante disso, o que o senhor diz sobre Jesus é um falar imprudente que não deveria repetir. O fato de que na exegese também foram escritas muitas coisas de escassa seriedade é, infelizmente, um fato indiscutível. O seminário norte-americano sobre Jesus que o senhor cita nas páginas 105ss. só confirma mais uma vez o que Albert Schweitzer havia notado a respeito da Leben-Jesu-Forschung (Pesquisa sobre a vida de Jesus), isto é, que o chamado "Jesus histórico" é, em grande parte, o espelho das ideias dos autores. Tais formas mal sucedidas de trabalho histórico, porém, não comprometem, de fato, a importância da pesquisa histórica séria, que nos levou a conhecimentos verdadeiros e seguros sobre o anúncio e a figura de Jesus. 
(...) Além disso, devo rejeitar com força a sua afirmação (p. 126) segundo a qual eu teria apresentado a exegese histórico-crítica como um instrumento do anticristo. Tratando o relato das tentações de Jesus, apenas retomei a tese de Soloviev, segundo a qual a exegese histórico-crítica também pode ser usada pelo anticristo – o que é um fato incontestável. Ao mesmo tempo, porém, sempre – e em particular no prefácio ao primeiro volume do meu livro sobre Jesus de Nazaré – eu esclareci de modo evidente que a exegese histórico-crítica é necessária para uma fé que não propõe mitos com imagens históricas, mas reivindica uma historicidade verdadeira e, por isso, deve apresentar a realidade histórica das suas afirmações de modo científico também. Por isso, também não é correto que o senhor diga que eu estaria interessado somente na meta-história: muito pelo contrário, todos os meus esforços têm o objetivo de mostrar que o Jesus descrito nos Evangelhos também é o Jesus histórico real; que se trata de história realmente ocorrida. (...)
Deus, liberdade, amor e mal 
Com o 19º capítulo do seu livro, voltamos aos aspectos positivos do seu diálogo com o meu pensamento. (...) Mesmo que a sua interpretação de João 1, 1 seja muito distante da que o evangelista pretendia dizer, existe, no entanto, uma convergência que é importante. Se o senhor, porém, quer substituir Deus por "A Natureza", resta a questão: quem ou o que é essa natureza. Em nenhum lugar, o senhor a define e, assim, ela parece ser uma divindade irracional que não explica nada. Mas eu gostaria, acima de tudo, de fazer notar ainda que, na sua religião da matemática, três temas fundamentais da existência humana continuam não considerados: a liberdade, o amor e o mal. Admiro-me que o senhor, com uma única referência, liquide a liberdade que, contudo, foi e é o valor fundamental da época moderna. O amor, no seu livro, não aparece, e também não há nenhuma informação sobre o mal. Independentemente do que a neurobiologia diga ou não diga sobre a liberdade, no drama real da nossa história ela está presente como realidade determinante e deve ser levada em consideração. Mas a sua religião matemática não conhece nenhuma informação sobre o mal. Uma religião que ignore essas questões fundamentais permanece vazia.
Franqueza que ajuda o conhecimento a crescer 
Ilustríssimo Senhor Professor, a minha crítica ao seu livro, em parte, é dura. Mas a franqueza faz parte do diálogo; só assim o conhecimento pode crescer. O senhor foi muito franco e, assim, aceitará que eu também o seja. Em todo caso, porém, avalio muito positivamente o fato de que o senhor, através do seu contínuo confronto com a minha Introdução ao cristianismo, tenha buscado um diálogo tão aberto com a fé da Igreja Católica e que, apesar de todos os contrastes, no âmbito central, não faltem totalmente as convergências.

Com cordiais saudações e com todos os melhores votos para o seu trabalho.

domingo, 16 de dezembro de 2012

Bento Domingues: "O ser humano será uma causa perdida?"


Texto de Bento Domingues no "Público" de hoje.

Percebi cada uma das afirmações do dominicano, mas acho que não alcancei o sentido do artigo. Terá a ver com o Natal? Pareceu-me que as partes, pequenas partes, valem mais do que o todo. "Uma boa filosofia baseada na experiência e guiada pela virtude da prudência, isto é, pela decisão avisada, exige muito tempo e contínuas conversões do desejo".

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Antes de agir

A primeira regra antes de agir é pôr-se no lugar do outro. Nenhuma verdadeira procura do bem comum é, sem isso, possível.

Abbé Pierre, 1965

terça-feira, 2 de outubro de 2012

terça-feira, 5 de junho de 2012

Capacidade de resistência

Creio que Deus pode e quer fazer surgir o bem de tudo, mesmo do maior mal. Para isso, precisa de homens (...). Creio que Deus nos concederá em cada situação difícil tanta capacidade de resistência como a de que precisarmos.


Dietrich Bonhoeffer (1906-1945)

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Noutro mundo



Se o esforço de praticar o bem, de agir segundo a lei moral, tem que ter um sentido, é preciso que se possa esperar racionalmente que o bem (isto é, a união da virtude e da felicidade) se realize noutro mundo, visto que neste, manifestamente, não se dá.


Gianni Vattimo, "Acreditar em acreditar", pág. 11.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Medo e indiferença na Igreja

Na realidade, existem as duas coisas na Igreja, medo e indiferença. Os indiferentes serão acordados e sacudidos por Jesus; os medrosos serão encorajados. E naturalmente que ele começará isto pelos seus. Todas as Igrejas, todas as religiões têm a finalidade de realizar o bem no mundo, de tornar o mundo mais esclarecido. E Jesus ajudá-as-lá a realizarem melhor a sua missão no mundo.


Cardeal Carlo Maria Martini, Colóquios nocturnos em Jerusalém. Sobre o risco de acreditar, pág. 36-37

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Triálogo sobre Deus e o mal humano

Diz um:
- Não compreendo como pode haver tanta maldade provocada pelos seres humanos.
Diz outro:
- Deus respeita a liberdade humana, e por isso pode aparecer um Hitler, um Estaline, um Pol Pot...
E diz um outro:
- Pol quê? Não interessa. E quantos Hitlers e Estalines não foram já evitados por Deus?

sábado, 3 de dezembro de 2011

Dirferença entre a voz de Deus e a voz do Mal

Meditação para o dia todo:


Há um rabino, comentador da Cabala, Soloviel, que afirma: "As duas vozes, a de Deus, que não devemos nomear, e a voz do Mal, do Mal inominável, são terrivelmente semelhantes. A diferença entre uma e outra é apenas o som de uma gota de chuva a cair no mar".


Tolentino Mendonça, "Pai-Nosso que estais na Terra" (ed. Paulinas), pág. 154

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Acreditar para ateus



Esta é a raiz da minha ingenuidade visceral: começar sempre por acreditar. Sabendo tudo, conhecendo a história do mundo e a história universal da infâmia, o longo cortejo de torpezas, dissimulações e perfídias. Mas continuar a acreditar, dar crédito, assumir a irredutível crença no outro.


Eduardo Prado Coelho, "Tudo o que não escrevi" (ed. Asa), pág, 43

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Cardeal Ravasi: "O problema é a distribuição do mal"


Há dias, Anselmo Borges dizia aqui que “a nossa sociedade, afundada no ter, no poder, no cálculo, na eficácia, perante a morte, não sabe o que fazer”. “Uma sociedade poderosíssima nos meios, mas sem verdade e finalidades humanas, faz dela tabu: disso não se fala. Mas, se o pensamento sadio da morte reentrasse, faríamos a tempo o que temos a fazer e saberíamos finalmente distinguir entre o que realmente vale e as ilusões do que não vale e que é causa última da nossa crise”, acrescentou o padre e professor da Universidade de Coimbra.

A entrevista que Andrea Tornielli (“La Stampa”) fez ao cardeal Gianfranco Ravasi, no contexto do congresso da Associação de Médicos Católicos Italianos (existe associação similiar em Portugal? Não parece), ajuda a reflectir sobre estes dois temas. "Oculta-se a morte de todos os modos, ou talvez busca-se a possibilidade de viver até 120 ou 130 anos, continuando a afastar o encontro. Ao contrário, devemos ter a coragem de olhar para a doença e a morte de frente como componentes da existência". Copiei a entrevista daqui.
Como o senhor responde à questão sobre o porquê da doença?
A escritora norte-americana Susan Sontag, em 1978, contou a sua experiência de sofrer de câncer em um livro intitulado "A doença como metáfora". Definição interessante: a doença nunca é apenas uma questão biológica. Quando estamos doentes, precisamos ser confortados, olhamos para a vida de um modo diferente, as prioridades mudam e, se a doença se agrava, muda a escala dos nossos valores. E mesmo quem não crê pode chegar a perguntar a Deus o porquê do que lhe acontece. No entanto, a primeira resposta é simples, lógica e racional. 
Qual é a "racionalidade" inscrita na doença?
A dor é um componente da finitude das criaturas. Um dado que, na nossa sociedade orgulhosa e tecnológica, que alguém definiu de "pós-mortal", não se quer aceitar. Oculta-se a morte de todos os modos, ou talvez busca-se a possibilidade de viver até 120 ou 130 anos, continuando a afastar o encontro. Ao contrário, devemos ter a coragem de olhar para a doença e a morte de frente como componentes da existência. 
Uma capacidade que parece se perder no Ocidente, mas que ainda está presente em outras culturas...
É verdade. Quando eu estava no Iraque para fazer estudos arqueológicos, um dia, um dos meus colaboradores locais me convidou para a sua casa, para que eu pudesse ver seu pai que estava morrendo. Eu fui e vi aquele velho deitado no meio do centro da única grande sala da casa, com as mulheres que cozinhavam de um lado e as crianças que brincavam do outro e, de vez em quando, se aproximavam do avô para tocar em sua mão. 
A consciência da finitude não basta para explicar a dor inocente, a doença das crianças, o destino que persegue aqueles que já sofreram.
O problema é a distribuição do mal. Continua sendo dramática a página do "A peste", de Albert Camus, onde, perante a morte de uma criança, afirma-se: Eu não posso acreditar em um Deus que permite isso. É o excesso do mal. Aqui, começa a fronteira em que as religiões se atestam com as suas respostas, que não esgotam o mistério. No Livro de Jó, no auge do desespero humano, Deus fala e varre todas as explicações e as tentativas de racionalizar. A solução só pode ser metarracional, global e transcendente, e se encontra no encontro com Deus. 
E a resposta do cardeal Ravasi?
É a cristã, totalmente diferente das outras religiões. Porque, no cristianismo, é Deus mesmo, em Cristo, que não só se curva sobre nós para nos explicar o significado do sofrimento, não só em alguns casos cura graças à sua onipotência com os milagres, mas também entra na nossa humanidade e prova toda a dor do homem. A dor física, moral, o medo, o silêncio do Pai. E, no fim, até mesmo a morte, que é a carteira de identidade do homem, não de Deus. Ele se torna um cadáver, sem nunca deixar de ser Deus, sofre todo o sofrimento humano e nele depõe um gérmen de transfiguração, que é a ressurreição, fecundando a nossa natureza mortal. 
Porém, isso não anula a dor nem a pergunta. Mesmo para aqueles que creem.
Jesus Cristo, o Filho de Deus, não veio para apagar a dor, tanto é que ele a viveu. Mas ele a assumiu sobre si e a transfigurou com o gérmen do infinito, que é um prelúdio da eternidade para nós. O cristianismo é uma religião fortemente carnal e próxima do drama de quem sofre – ao contrário de muitas outras religiões –, porque, para os cristãos, Deus se tornou um homem e morreu na cruz. Os cristãos, como atesta o nascimento dos hospitais, sempre teve essa atenção pelos enfermos, porque acreditam em um Deus que foi sofredor, que conheceu a morte e ressuscitou. 
O seu dicastério organizou recentemente um congresso dedicado às células-tronco adultas, via alternativa ao uso das células embrionárias. Igreja e ciência podem se reencontrar?
A utilização das células embrionárias está obtendo resultados mínimos comparados aos obtidos com as células-tronco adultas: cancela-se assim o lugar comum que nos atribui a responsabilidade de não querer aliviar os sofrimentos de tantos doentes. Justamente as células-tronco adultas, que não têm nenhuma contraindicação de tipo ético, estão trazendo resultados encorajados no campo oncológico e contra o Parkinson e o Alzheimer.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Merecia uma resposta, mas tem uma certa razão


Com ou sem religião, haverá sempre pessoas boas a fazer coisas boas e pessoas más a fazer coisas más. Mas para as pessoas boas fazerem coisas más, tem de haver religião pelo meio.

Steven Weinberg (1933 - …), Nobel da Física, autor de “Os três primeiros minutos” (Gradiva)

sábado, 14 de maio de 2011

Anselmo Borges: Deus e o mal

Andrés Torres Queiruga

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje (aqui):

Penso que Andrés Torres Queiruga, da Universidade de Santiago de Compostela, é um dos mais vigorosos e penetrantes teólogos católicos vivos, numa ousadia única de colocar a fé cristã em confronto radical com a modernidade e vice-versa. Acaba de publicar em castelhano uma obra seriamente original sobre o tema em epígrafe: Repensar el mal, que obriga a pensar.
Lá está o famoso dilema de Epicuro: Ou Deus pôde evitar o mal e não quis; então, não é bom. Ou quis e não pôde; então, não é omnipotente. Ou quis e pôde; então, donde vem o mal?
São precisamente os pressupostos do dilema que o autor começa por desmontar, a partir de uma ponerologia (de ponerós, mau): tratar do mal, antes de qualquer referência a Deus. De facto, o mal atinge a todos, crentes e não crentes, os próprios animais também sofrem. Todos passam por crises e doenças e todos morrem. E perguntamos: donde vem o mal?
Quando procuramos a raiz última do mal, encontramo-la na finitude. O mundo é finito e, por isso, há nele, inevitavelmente, mal: o finito não pode ser perfeito, pois tem falhas, carências, e nele haverá choques, pois, como escreveu Espinosa, "toda a determinação é negação".
A primeira coisa que, portanto, é preciso considerar é que o mundo produz mal, todo o mal tem origem no próprio mundo. Por isso, na peste negra, houve procissões; com o terramoto de Lisboa, pensou-se que Deus o tinha permitido. Agora, com o tsunami no Japão, dá-se uma explicação científica, e, com a sida, investiga-se nos laboratórios.
Dizer que Deus é omnipotente, infinitamente bom, que nos ama e que poderia acabar com o mal do mundo, criando-o perfeito, mas que não quer, é uma contradição. Se vemos uma mãe ao lado do filho torcendo-se de dor, sabemos que ela não pode evitá-la - se pudesse, não o permitiria. O que se passa é que, se não é possível um mundo perfeito, sem mal, não tem sentido perguntar por que é que Deus não fez um mundo perfeito. Não se diz que existe algo que Deus não pode fazer: simplesmente se nega uma contradição. Se o mundo não pode ser perfeito, não posso esperar que Deus o faça, não posso pretender que divida uma turma em três metades.
A pergunta é outra: se o mal é inevitável, por que é que Deus o criou? "Não posso responder ao ateu que diz que o mundo é absurdo, que não vale a pena. Eu não sou pessimista: creio que vale a pena e que há um referendo na Humanidade: todos, no fundo, sabemos que vale a pena. Por isso, continuamos a trazer filhos ao mundo."
Aqui, começa a pisteodiceia (de pistis, fé: justificação da fé). Há diferentes pisteodiceias, pois todos têm de enfrentar-se com o mal e cada um tem a sua resposta para o problema. O crente religioso tem a sua: crê que Deus não teria criado o mundo, se de algum modo não fosse possível libertar--nos do mal. O que se passa é que o que não é possível num dado momento pode sê-lo mais tarde. Quem pode conceber-se a aparecer já adulto no mundo? A realidade é processual, e o crente em Deus como Amor e Anti-mal espera a salvação definitiva e plena para lá da morte.
Mas ergue-se uma objecção: depois da morte, não continuamos finitos? Confiamos em Deus e podemos mostrar, com razões, que a salvação eterna não é contraditória, mas possível.
Sim, a pessoa é um ser finito, mas com uma abertura infinita. Este é o mistério do Homem. Nunca estamos acabados, nenhum ser humano morre definitivamente feito. Não há nada finito que possa preencher a abertura humana, não há nada finito que possa realizar a nossa capacidade de conhecer e amar. Há aquele passo de Tristão e Isolda, na experiência amorosa, quando Tristão diz: "Tu és Tristão e eu sou Isolda". E Isolda: "Tu és Isolda e eu sou Tristão". Esta reciprocidade no amor, que não anula a pessoa, porque quanto mais amas mais és, cria uma relação especial. Ora, esta é a possibilidade que se abre ao crente a partir da fé, apoiada em razões: "Deus pode entregar-se-nos nesta abertura infinita, de tal modo que podemos dizer, como Tristão e Isolda, que somos Deus, que está em nós", desde sempre.

terça-feira, 5 de abril de 2011

O que os cristãos têm a aprender com os hackers



A "Civviltà Cattolica", revista dos jesuítas italianos que é uma espécie de órgão oficioso do Papa, diz, via “La Stampa” (li aqui), que “os hackers têm muito a dizer aos cristãos”, que a “sua filosofia de vida estimula a criatividade e a partilha".
"A filosofia dos hackers é uma filosofia de vida, uma atitude existencial, jocosa e comprometida, que estimula a criatividade e a partilha, opondo-se aos modelos de controle, competição e propriedade privada". Portanto, "estamos diante não de problemas de ordem penal, mas sim de uma visão do trabalho humano, do conhecimento e da vida que coloca interrogações e desafios mais do que nunca atuais".

O termo "hacker" (não confundir com “cracker”, que destrói, rouba dados e vende-os ou usa-os em proveito próprio) refere-se a especialistas em informática. Por si só, diz a revista, "pode ser estendido a pessoas que vivem de maneira criativa muitos aspectos das suas vidas".

sexta-feira, 11 de março de 2011

terça-feira, 8 de março de 2011

15 livros que estão a estragar o mundo



Quem gosta de livros dificilmente resiste a um título como este: “Dez livros que estragaram o mundo”. Subtítulo: “E mais cinco que também não ajudaram nada” (ed. Alêtheia). Pensamos logo: Quais são? Quais deles já li? Quais deles estão na minha estante? Quais deles repudiei? Quais deles me influenciaram? A resposta a esta última pergunta é simples: quase todos. O mundo todo está influenciado por muitos deles. Todos nós incluídos. Não há redomas que nos livrem da sua influência – alerta o autor, Benjamin Wiker, um “eticista” (formado em ética teológica) católico norte-americano.

Os cinco que “não ajudaram nada" são:
“O Príncipe”, de Maquiavel
“O Discurso do Método”, de Descartes
“Leviatã”, de Hobbes
“Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens”, de Jean-Jacques Rousseau
 “A mística feminina”, de Betty Friedan

Os dez que estragaram o mundo (no interior do livro, no topo de cada página, diz-se antes que “destruíram o mundo”) são:
“Manifesto do Partido Comunista”, de Marx e Engels
“Utilitarismo”, de John Stuart Mill
“A Ascendência do Homem”, de Charles Darwin
“Para além do bem e do mal”, de Nietzsche
“O Estado e a Revolução”, de Lenine
“O Eixo da Civilização”, de Margaret Sanger
“Mein Kampf”, de Hitler
“O futuro de uma ilusão”, de Freud
“Crescer em Samoa”, de Margaret Mead
“O Comportamento Sexual dos Homens”, de Alfred Kinsey.

Cada título mereceria várias linhas de resumo, se bem que as ideias básicas de cada um fazem parte da cultura geral. Eu não conhecia o livro “O Eixo da Civilização”, de Margaret Sanger, mas rapidamente verifiquei que, além de defender o controlo da natalidade (está na origem da Associação Americana do Planeamento Familiar), o que por si pode não ser negativo, a autora era uma defensora do eugenismo, ainda antes de Hitler, e da esterilização dos “débeis mentais”.

Mesmo antes da leitura do livro sobre os livros e dos livros em si, fica a pergunta: o que fazer com estes 15 livros? Queimá-los? O autor responde: “Nem pensar nisso! Trata-se de uma proposta indefensável, quanto mais não seja por razões ambientais. Há muito tempo que cheguei à conclusão de que a melhor solução – a única solução possível (…) – é lê-los, conhecê-los de trás para a frente e da frente para trás, extirpar o seu coração maligno e dá-lo a conhecer ao mundo”. É isso o que faz neste livro informado, crítico e saudavelmente demolidor.


terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Pergunta e resposta

Deus participa no destino do homem, tanto no bem como no mal. Quem quer que o bendiga por Jerusalém mas não o interrogue acerca de Treblinka é pura e simplesmente um hipócrita. Deus quer-se na origem de todos os nossos actos, e também no seu desfecho. Ele é, ao mesmo tempo, pergunta e resposta.

Élie Wiesel (1928-...)

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Sentido e atracção

A certeza de um Deus, que desse o seu sentido à vida, supera muito em atracção o poder impune de fazer o mal.

Albert Camus (1913-1960)

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Miséria


Seria um ultraje a Deus e ao próximo deixar com fome o faminto sob o pretexto de que Deus está próximo da sua miséria.

Dietrich Bonhoeffer (1906-1945)

sábado, 2 de outubro de 2010

Anselmo Borges: Quem guardará a guarda?

Wittgenstein

Um dia, numa conferência, L. Wittgenstein disse mais ou menos o seguinte: se fosse possível escrever um livro de ética que fosse verdadeiramente um livro de ética, esse livro arrasaria todos os outros.

Hoje, toda a gente se queixa: "não há ética, perderam-se os valores"... Quem pode negar razão a essas queixas? Mas, depois, fundamentar a ética e, sobretudo, ser ético, é tremendamente complicado. Se há terreno há muito revisitado teoreticamente, é o da ética, mas lá estão as éticas materiais e as formais, as ontológicas, as teleológicas e as deontológicas, as éticas da virtude e até as teológicas, também há a negação do seu conteúdo cognoscitivo, pois estaríamos apenas no campo das exclamações emotivas de aprovação ou reprovação... Etc. Mas o mais difícil mesmo é ser ético na vida. Porque devo ser honesto, se isso prejudicar os meus interesses?

Os seres humanos são constitutivamente abertos à questão ética, porque nascem por fazer, devido à neotenia, e devem fazer-se bem moralmente, porque a sua lei é a lei da liberdade e da dignidade. Devemos habitar o mundo eticamente (o étimo de ética é êthos, morada).

Mas o que constitui um acto ético? Há na história da ética dois exemplos famosos: o anel de Giges, de Platão, e o comerciante honesto, de Kant. Nem Giges nem o comerciante eram éticos, pois agiam como agiam no seu próprio interesse. Ora, a ética implica agir não por causa do próprio interesse ou da consideração dos outros, não por castigo ou por prémio, mas exclusivamente pelo dever, pela consideração da humanidade e da dignidade.

Como diz A. Comte-Sponville, não é necessário nem possível fundamentar a ética. Como se fundamenta a razão? Mas fazemos a experiência ética: se virmos uma criança a afogar-se, sabemos o que devemos fazer. É uma exigência. Trata-se de não sermos indignos da nossa humanidade e de estarmos de bem connosco.

E que fazer? Queres saber se esta ou aquela acção é boa ou má? Pergunta a ti mesmo o que aconteceria se todos se comportassem como tu e se quererias isso honrada e dignamente. Se todos mentissem, quem poderia acreditar em alguém? Quererias viver numa sociedade na qual todos roubassem? Se toda a gente matasse, nem sociedade existiria. Se ninguém pagasse impostos, não poderia erguer-se uma vida comum em dignidade e todos perderiam.

Se todos fossem éticos, segundo a ética desinteressada, não era necessária a política, que ficava reduzida a administração das coisas. Só porque somos egoístas, interesseiros, é que temos necessidade do Estado para regular e gerir de modo não violento os conflitos de interesses. Como escreve A. Comte-Sponville, se a moral reinasse, não teríamos necessidade de polícia, de leis, de tribunais, de forças armadas, de cadeias.

Então, ética e política não se identificam nem confundem, mas os seus objectivos são comuns: a realização da humanidade de todos. O paradoxo não é então encontrar políticos que sejam precisamente políticos, mas com ética?

O grande desafio do nosso tempo é a formação ética, para os valores. Quando isso não acontece, remetemos constantemente para a política, para as leis, para os tribunais... Ora, neste quadro, fica-se confrontado com duas questões temíveis. Primeira: não é possível legislar sobre tudo, até porque o indivíduo tem mais deveres do que o cidadão, pois há o pré-político e o pré-jurídico. Depois, seja como for, sem ética assumida - e poderia acrescentar: sem referência religiosa ao Absoluto -, fica apenas a lei e a sua sanção, o medo e a esperança de não ser apanhado. Por exemplo, se não se pagar impostos e se for apanhado, tanto pior... De qualquer forma, nesta lógica, sem valores éticos assumidos, acaba, no limite, por ser necessário colocar um polícia junto de cada cidadão, mas, como os polícias também são humanos, é preciso pôr um polícia junto de cada polícia... Ai!, o totalitarismo!

Lá está Juvenal, embora noutro contexto: Custos custodit nos. Quis custodiet ipsos custodes? A guarda guarda-nos. Quem guardará a guarda?

Texto de Anselmo Borges no DN de 2 de Outubro de 2010.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...