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segunda-feira, 22 de agosto de 2016

João Miguel Tavares: Ser cristão não serve para nada?

João Miguel Tavares no Público de 20 de agosto:

Inúmeros leitores agnósticos e ateus ficaram ofendidos com as minhas palavras. Essa ofensa tem um duplo efeito sobre mim: chateia-me e entristece-me, porque me parece pura e simplesmente absurda. Vamos por partes. Em primeiro lugar, a questão dos Evangelhos. Eu não conheço todos os livros sapienciais do planeta, mas dentro daquilo que é a literatura ocidental ou a tradição dos monoteísmos não estou a ver que outro livro trate o amor ao próximo e a empatia de forma mais radical do que os Evangelhos. Isto só é uma opinião original para quem nunca leu a Bíblia. Não percebo porque é que um ateu não pode ler os Evangelhos com a mesma abertura intelectual com que lê Hamlet. Eu preciso de provar a existência do crânio de Yorick para apreciar as palavras de Shakespeare? Então para quê viver obcecado com a adesão à realidade dos conteúdos da Bíblia? Esqueça-se a existência de Deus e aprecie-se a literatura. Não é preciso acreditar na ressurreição para admitir que a empatia se encontra retratada nos Evangelhos como em nenhum outro lugar.

É ler tudo aqui.

sábado, 20 de dezembro de 2014

Anselmo Borges: Herança cristã da Europa

Até grandes pensadores agnósticos e ateus concordam que muito do bom da Europa é herança cristã. Anselmo Borges no DN de hoje.

sábado, 23 de agosto de 2014

Para um tratado da amorfidade

Se as verdades do ensino cristão não têm qualquer efeito na nossa vida, que espécie de verdades são?

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Bento Domingues: "Código genético (3)"

Texto de Bento Domingues no "Público" de ontem:


1. Os seres humanos só podem viver como humanos acolhendo, criando e recriando, desconstruindo e reconstruindo as narrativas simbólicas da sua condição inacabada. Apesar de todas as máquinas de desumanização, nunca esgotaremos a música, a poesia, a literatura, a pintura, a beleza das civilizações antigas e modernas.

É próprio da linguagem simbólica viver em figurações materiais, finitas, historicamente marcadas, em passagem permanente ao intemporal, ao infinito, superando-se na sua própria configuração concreta, limitada. A religião e as artes vivem do mesmo fundo de intranquilidade. Apesar de todas as tensões, têm, no impulso de transcendência, uma alma comum, que só morre ou se eclipsa quando instrumentalizada.

 Como escreveu Fernando Pessoa, a literatura, como toda a arte, é uma confissão de que a vida não basta. Mas também não a pode substituir.

“A vida é breve, a morte é certa”, gritava durante toda a Quaresma, um ancião, meu vizinho. A religião é a revolta contra os limites, a simbólica da absoluta transcendência, a voz do impossível. A morte não é remédio para a falta de vida. Diz apenas que o nosso exílio teve mais ou menos lágrimas. Morremos inacabados. O silêncio de Deus na cruz de Cristo é a sua linguagem, perante as diabólicas tentações messiânicas. Ao entregar o seu espírito nas mãos do Pai, Jesus recebe o Espírito da ressurreição, a fonte de uma Igreja sem fronteiras que O poderá reconhecer na diversidade das culturas, pois é Ele que sempre a precede.

2. O código genético do Cristianismo, na sua nascente e nas suas configurações históricas, brota do monoteísmo trinitário que as religiões do Livro – Judaísmo e Islão - consideram impuro e ao qual não pode renunciar sem cair no deus abstracto do deísmo, da metafísica das Luzes e que infeccionou a catequese e a pregação do séc. XIX.

No Vaticano II, D. Hakim, bispo grego-melquita de Akka, denunciou os esquemas da teologia latina, por ignorarem a catequese e a teologia orientais de Cirilo de Jerusalém, de Gregório Nazianzeno e Gregório de Nissa, de Máximo Confessor e de João Crisóstomo. Com a mesma preocupação, na Assembleia Geral do Conselho Mundial das Igrejas, em Upsala (1968), o notável bispo I. Hazim (1920-2012), mais tarde Patriarca de Antioquia, fez uma intervenção inesquecível.

“Eis a novidade: a ressurreição de Jesus Cristo, o mistério pascal,  não se explica pelo passado, mas pelo futuro.

Deus vem ao mundo, ao seu encontro; está diante de nós e chama, sacode, faz crescer, liberta. Qualquer outro deus é um falso deus, um ídolo. Está na hora de a nossa consciência moderna o enterrar. Esse deus multiforme, que habita na velha consciência do ser humano, está como que por trás do ser humano, como uma causa. Manda, organiza, faz regredir, aliena. Nada tem de profético, pelo contrário, vem sempre depois como a única razão do inexplicável, ou como o último recurso dos irresponsáveis. Esse falso transcendente é tão velho como a própria morte.

A novidade criadora vem ao mundo com o mundo. Essa novidade não se inventa nem se prova, revela-se, mostra-se. Diante dela, ou se diz sim ou se diz não. Vem como um acontecimento.

Esta é a acção do Espírito Santo que introduz a novidade no mundo. Sem Ele, Deus fica longe; Cristo habita no passado; o Evangelho não passa de letra morta; a Igreja não seria mais do que mera organização; a autoridade, dominação; a missão, propaganda; o culto, evocação mágica e todo o agir cristão, pura moral de escravos”.

Este cristão, mostrou que o seu discurso não era retórica vazia. Depois da sua eleição como patriarca, disse o que gostaríamos de ouvir a toda a hierarquia: "Serei julgado se não levar a Igreja e cada um de vós no meu coração. Não me é possível falar convosco como se fosse diferente de vós. Nenhuma diferença nos separa. Sou uma parte de vós; estou em vós e peço-vos que estejais em mim. Pois o Senhor vem e o Espírito desce sobre os irmãos reunidos, unidos em comunhão, manifestando uma diversidade de carismas na unidade do Espírito."

3. Depois do Vat. II, a teologia latina revisitou a teologia oriental. Passou a respirar, simbolicamente, com dois pulmões. Leonardo Boff, no contexto da teologia da libertação, tentou repensar o mistério sacrossanto da Trindade, que sempre o tinha desafiado. Publicou várias obras para responder a esta questão: se Deus não é a solidão do Uno, ao revelar-se e entregar-se como comunidade, quais as consequências para entender a nossa história una e plural?

Não lhe bastou afirmar que Deus era a melhor comunidade. Foi mais longe: Não há nenhuma razão teológica que nos obrigue a parar na encarnação do Filho. Sustentei a tese que o Pai se personalizou em São José, o Filho se encarnou em Jesus e o Espírito Santo se espiritualizou em Maria. Assim temos a família divina inteiramente presente na família humana.

As reticências que estas Josefologia e Mariologia suscitam, obrigam a continuar a investigação: afinal, que implicações espirituais tem a fé na misteriosa trindade de Deus, na transformação da nossa vida na Igreja e na sociedade?

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

O rouxinol e a rosa

(...) Mas o espinho ainda não atingira o seu coração, e assim o coração da rosa continuava branco, pois somente o sangue do coração de um rouxinol pode tornar vermelho o coração de uma rosa.

Lido ontem. Do conto "O rouxinol e a rosa", de Oscar Wilde, que é impossível ler sem encontrar paralelos com o sacrifício e autossacrifício cristão, ainda que "amor" possa ter sentidos diferentes no conto e na mensagem cristã.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Jornada de um homem desde a manjedoura

Ao contar a jornada de um homem desde a manjedoura, o cristianismo conta uma história quase universal acerca do destino da inocência e da docilidade num mundo turbulento. A maior parte das pessoas são cordeiros que necessitam de bons pastores e de um rebanho misericordioso.


Alain de Botton na pág. 223 do seu "Religião para ateus"

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

O véu é obrigatório quando se dá de mamar, como mostra fotógrafo luso-francês




O título é grego "Amalthée", remete para a infância de Zeus, mas as imagens são inspiradas obviamente nos quadros da Virgem, como o de cima. O autor a série de fotos, como a de baixo, que pode ser vista aqui, é um luso-francês, Georges Pacheco. Diz que é para fomentar e homenagear a amamentação. Indispensável o uso de véu, pois.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Batismo aos 95 anos




Jacqueline de Romilly, uma estudiosa francesa da Cultura Clássica, foi baptizada aos 95 anos. E disse, na ocasião:
- Já é tempo!

Lido em “Imersos na vida de Deus”, de Timothy Radcliffe, na pág. 18.

Mas quem é Jacqueline de Romilly? São Google diz-nos que morreu há quase três anos (18 de dezembro de 2010), aos 97 anos. Deve ter sido batizada em 2008. Ou melhor, entre 26 de março de 2008 (dia dos 95 anos) e março do ano seguinte.

Jacqueline Worms de Romilly, de ascendência judaica, foi a primeira mulher a ensinar no Collège de France e a segunda a fazer parte da Academia Francesa, depois de Marguerite Yourcenar. Como mulher dedicada à cultura clássica e ao ensino, pensei inevitavelmente na “nossa” Maria Helena da Rocha Pereira, que fez há dias 88 anos. Mas é batizada há mais tempo.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Quem pode responder?

Olhando retrospectivamente, podemos dizer que a forma que transformou o cristianismo numa religião mundial consistiu na sua síntese entre razão, fé e vida; esta síntese condensou-se precisamente na expressão religio vera. Impõe-se, por isso, cada vez mais a questão: porque é que, hoje, esta síntese já não convence? Porque é que, hoje, ao invés, surgem contraditórios e até reciprocamente exclusivos a racionalidade e o cristianismo? Que é que mudou na racionalidade? Que é que mudou no cristianismo?


Joseph Ratzinger na pág. 84 do livro "Existe Deus? Um confronto sobre verdade, fé e ateísmo", de Joseph Ratzinger e Paolo Flores d'Arcais, ed. Pedra Angular.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Virginia Woolf horrorizada com a conversão de T. S. Elliot



T. S. Eliot com Virginia Woolf. A da direita é Vivienne, mulher de Eliot. A foto é de 1932. A conversão foi em 1927. Talvez Woolf tivesse mudado de ideias

Virginia Woolf ficou horrorizada quando descobriu que T. S. Eliot se tornara cristão:

Tive uma entrevista vergonhosa e difícil com o pobre e querido Tom Eliot que, de hoje em diante, se poderá dizer morto para nós. Tornou-se anglo-católico, acredita em Deus e na imortalidade, e vai à igreja. Fiquei realmente horrorizada. Um cadáver parecer-me-ia mais credível do que ele. Creio que há algo de obsceno numa pessoa viva, que se senta à lareira e acredita em Deus.

Lido em "Imersos na vida de Deus", de Timothy Radcliffe, das Paulinas.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

O cristianismo é uma vitória da desmitologização

(12)
Quem escreveu isto?

A fé cristã não assenta na poesia nem na política, essas duas grandes fontes da religião; baseia-se no conhecimento. Venera o Ser que é o fundamento de tudo o que existe, o «Deus verdadeiro». No Cristianismo, a racionalidade tornou-se religião, e já não é o seu adversário. Para que tal acontecesse, para que o cristianismo se compreendesse como vitória da desmitologização, a vitória do conhecimento e, assim, da verdade, devia necessariamente encarar-se como universal e der levado a todos os povos.


a) Joseph Ratzinger
b) Hans Kung
c) Rudolf Bultmann

Resposta: a) Joseph Ratzinger na pág. 80 do livro "Existe Deus? Um confronto sobre verdade, fé e ateísmo", de Joseph Ratzinger e Paolo Flores d'Arcais, ed. Pedra Angular.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Palestras versus sermões


Como conseguimos viver juntos? Como toleramos as falhas dos outros? Como podemos aceitar as nossas limitações e mitigar a nossa ira? (...) A diferença entre a educação cristã e a educação secular revela-se com especial clareza nos seus respetivos modos característicos de instrução: a educação secular faz palestras, o cristianismo sermões.

Alain de Botton, "Religião para ateus" (D. Quixote), pág. 115



quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Não obedecerás a dois senhores, ao Papa e ao grande timoneiro


Universidade em Pequim. Uma delas

O Partido Comunista Chinês declarou guerra ao cristianismo nas universidades porque, diz num documento de maio de 2011 mas só agora divulgado, esta religião é uma doença, “uma conspiração política para dividir e ocidentalizar a China”. O documento tem como título “Sugestões para resistir bem ao uso da religião por indivíduos estrangeiros para ser infiltrarem em institutos de ensino superior e para evitar o evangelismo nos campus universitário”. Li no “Público” de hoje, embora duvide do título do documento e do plural de campus, que deve ser campi. Entre as medidas preconizadas pelas autoridades chinesas está “aumentar a propaganda e a educação sobre a visão marxista da religião e os princípios do partido”.

Diz ainda a notícia – e nunca tinha pensado nesta perspetiva – que a China é o sétimo país do mundo em número de católicos. Não diz quantos são em número absoluto, mas diz que são 3,1 por cento da população, o que dá mais de 40 milhões de católicos para uma população de 1,3 mil milhões. (Quais os seis com mais católicos? Penso que estes: Brasil, México, EUA, Filipinas, Itália e a seguir um destes três, mas não sei qual: Espanha, França, Polónia).


Mais uma vez, o medo de os católicos, principalmente esses, obedecerem a um outro soberano, o Papa, e não ao líder da China. Como se o dilema se pusesse habitualmente na mente de qualquer católico.

Por outro lado, é sabido que as autoridades chinesas não querem aplicar os princípios marxistas a outros âmbitos que o das crenças, como a economia ("é glorioso enriquecer", disse o sucessor de Mao Zedong). Se quisessem, a religião cristã e concretamente a fé católica poderiam sair prejudicadas. É que a China é a maior produtora mundial de Bíblias e de imagens de Nossa Senhora de Fátima.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Átrio com poucos gentios

A sessão portuguesa do Átrio dos Gentios chegou aos gentios? Procurei na grande imprensa, "Público", CM, DN, JN, Expresso, Visão, Sábado e... nada. Posso não ter visto tudo, é certo.

A julgar pelo impacto na imprensa escrita não confessional, o Átrio não existiu. Quanto a rádio e tv, só ouço música, não sei.

Para saber algo do Átrio, podemos ler na Ecclesia e no SNPC, ou no "Diário do Minho", mas parece-me muito pouco para o objectivo de sair do templo e falar com gentios.



No "Diário do Minho" de 17 de novembro.

domingo, 18 de novembro de 2012

Mais Martins Júnior

A propósito do texto de Anselmo Borges de ontem, "Um padre polémico", que gerou alguns comentários neste blogue, recupero a entrevista de o "Diário de Notícias da Madeira" fez ao padre José Martins Júnior no dia 12 de agosto de 2012, uns dias antes de o padre completar a bodas de ouro sacerdotais. Também pode ser lida aqui.




sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Tolentino Mendonça: A forma do cristianismo em mudança

Texto de Tolentino Mendonça, na Agência Ecclesia.

O teólogo Karl Rahner escreveu que “A Igreja tem sido conduzida pelo Senhor da história para uma nova época”. Não se trata só de baixas drásticas nos indicadores estatísticos quando se compara a atualidade com aquele que já foi o quadro da vivência da Fé. A questão é bem mais complexa. Talvez o que o nosso tempo descobre, mesmo entre convulsões e incertezas, seja um modo diferente de ser crente, traduzido de formas alternativas nas suas necessidades, buscas e pertenças. Não estamos perante o crepúsculo do cristianismo, como defendem aqueles que se apressam a chamar pós-cristãs às nossas sociedades. Quem não se apercebe que o radical lugar do cristianismo foi sempre a habitação da própria mudança não o colhe por dentro. Mas há eixos que se vão tornando suficientemente claros para que seja cada vez mais um dever os enunciarmos e contarmos com eles. Podem-se apontar três:

Primeiro, os cristãos regressam à condição de “pequeno rebanho”. Com a evaporação de um cristianismo que se transmitia geracionalmente como herança inquestionada, os cristãos voltam a sê-lo por decisão pessoal, uma decisão muitas vezes em contra-corrente, maturada de modo solitário em relação aos círculos mais imediatos de pertença. Já não é de modo previsível que nos tornamos cristãos. Isso acontece e acontecerá cada vez mais como uma opção e uma surpresa.

Depois, à medida que se assiste a um enfraquecimento da inscrição institucional das Igrejas no horizonte da sociedade redescobrimos o valor e as possibilidades de uma presença discreta no meio do mundo. Em tantas situações, nesta diáspora cultural onde estamos semeados, a única palavra verosímil é a do testemunho de uma vida vivida com simplicidade e alegria no seguimento de Jesus.

E, em terceiro lugar, esta grande mudança epocal mostra-nos que precisamos recuperar aquilo que Karl Rahner chama o “santo poder do coração”. Os cristãos são chamados a viver a amizade como um ministério. “Isto é o que vos ordeno: amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (Jo 15,17). Há, de facto, uma revelação do cristianismo que só a prática da amizade é capaz de proporcionar. E nisto, o mundo, que pode até perder-se em equívocos sobre os cristãos, não se engana. Mesmo se for um único instante de contacto o que tivermos, tal basta para deixar transparecer uma amizade.

sábado, 15 de setembro de 2012

Da importância da cultura cristã para conhecer as artes clássicas

Texto de António Pinto Ribeiro no "Ípsilon" ("Público") de ontem. Sobre como o declínio da cultura cristã leva ao desconhecimento da grande arte.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Três maneiras de olhar para a mesma tragédia de Denver



Acontecimentos como o de Denver, em que um homem disparou contra a assistência de um filme do Batman matando 12 pessoas e ferindo mais de 50, fazem pensar no mal e mesmo no diabólico. Uma breve pesquisa no Google mostra que há imensas associações entre este crime e o diabo/diabólico. O meu receio é que, quando se pensa do diabólico, a responsabilidade humana fique diluída numa pretensa força ou influência ou o que quer que seja de sobrenatural. 

Para as leis civis, felizmente, falar do diabo será mais um motivo para atestar a insanidade mental do presumível criminoso do que para atenuar a sua responsabilidade.

Mas pode ser que falar de diabólico não nos distraia do que está em causa. Se se falar do diabo e do diabólico como símbolo de um mal quase inimaginável, mas sempre humano, se se falar do diabo e do diabólico como símbolos para nos alertar para a necessidade de estar sempre atento ao mal, que, por si, pode ser atrativo, até se compreende o uso desta linguagem. É nesta linha que interpreto as recentes palavras de Bento XVI, proferidas depois de ter falado do massacre de Denver:
“O maligno procura sempre arruinar a obra de Deus, semeando divisão no coração humano, entre corpo e alma, entre o homem e Deus, nas relações interpessoais, sociais, internacionais, e também entre o homem e a criação” (li aqui).
O Bispo de Denver, por seu turno, em entrevista à agência Zenit, falou de uma “batalha espiritual e moral entre o bem e o mal”:
“O tiroteio que aconteceu na sexta-feira foi um ato maléfico - um ato de verdadeira violência. Nossa comunidade está chocada e triste pelo acontecido. Como comunidade, levanta questões sobre o bem e o mal, e a batalha espiritual e moral entre o bem e o mal. Mesmo em meio ao caos e ao mal daquela manhã, existem histórias de heróis que no meio do tiroteio tentaram proteger os amigos e entes queridos jogando-se em cima deles. Pela graça de Deus, o povo de Aurora e do Colorado tem respondido com grande amor, com caridade e misericórdia para com os feridos e as famílias que perderam seus entes queridos. Existe um sentido de unidade em nosso estado, e isso é realmente uma graça” (li aqui).
Estas duas visões do crime adiantam algo para a sua explicação e, ainda que a questão não esteja subjacente às afirmações, para a prevenção quanto a ações similares no futuro?

Na minha ótica, muito pouco. A moralidade das ações individuais tem sempre um último reduto que é a consciência de cada um. Mas as respostas do diabo e do diabólico, do maligno e da luta entre bem e mal, geralmente iludem a sociedade em que vivemos. É por isso que, mesmo supondo que não concordo totalmente com a ideologia do seguinte autor, considero que, de um ponto de vista cristão, as suas palavras são mais úteis para perceber o que se passou em Denver e ter um princípio de mudança.

Não digo que a explicação espiritual seja contraditória com a explicação sociológica. Digo que prefiro pensar a partir do concreto e que a explicação espiritual pode constituir uma ilusão que não deixa ver o que está em causa, se formos ingénuos.

O texto é de Atilio Boron e saiu no jornal Página/12, no dia 24 de julho. Li aqui.
O massacre que aconteceu num teatro de um subúrbio de Denver desencadeou, como tantas vezes após a ocorrência de atrocidades semelhantes, o previsível coro de lamentos que por sua vez se perguntava por que aparecem regularmente nos Estados Unidos monstros capazes de cometer crimes como os do tétrico êmulo do Joker.
 
De fato, uma análise que ponha de lado a habitual complacência com as coisas do império não poderia deixar de notar uma causa de fundo: como expressão última da sociedade burguesa, os EUA são também o lugar onde a alienação dos indivíduos atinge níveis sem paralelo em escala universal. Não deveria surpreender ninguém que comportamentos como o do jovem James E. Holmes - quantos assassinatos indiscriminados ocorreram nos últimos anos? - aflorem periodicamente para espalhar a dor na população norte-americana. 
 Uma sociedade alienada e alienante, que gera milhões de toxicodependentes (sem que exista qualquer programa do governo federal para prevenir e lutar contra o vício), milhões de "vigilantes" dispostos a impor a lei e a ordem por conta própria perseguindo pessoas pela cor da sua pele ou traços faciais; e outros milhões que, assim como Holmes, podem comprar em qualquer loja de armas uma espingarda de assalto, pistolas, revólveres, granadas, bombas de fumo e todos os apetrechos da parafernália militarista e, além disso, obter licenças para usar legalmente todo esse mortífero arsenal. 
 A recorrência deste tipo de massacres evoca um problema estrutural, o que é cuidadosamente evitado nas explicações convencionais que, invariavelmente, falam de um ser perdido, de um louco, mas nunca questionam as causas estruturais que nessa sociedade produzem loucos em série. Uma sociedade que se apresenta com características paradisíacas, como a terra prometida, como o país onde qualquer pessoa pode ter sucesso e ganhar dinheiro em abundância, poder e prestígio, com tudo o que esses atributos trazem como benefícios colaterais e que, na verdade, são metas apenas acessíveis, na melhor das hipóteses, a 5% da população. Os restantes, submetidos a um bombardeio de publicidade incessante e constante, mastiga a sua impotência e frustração. Ocasionalmente, alguns pensam que a solução é sair e matar pessoas a sangue frio e de forma indiscriminada; outros, mais inofensivos, decidem matar-se lentamente com drogas. 
 Mas, se a alienação generalizada da sociedade americana é a causa de fundo, outros fatores contribuem para produzir comportamentos aberrantes como o de Holmes. Primeiro, o grande negócio da venda de armas, protegido sob o pretexto de ser um direito garantido pela Constituição, e que na verdade é o complemento necessário para legitimar, em termos de sociedade civil, o "complexo industrial militar" que domina a vida econômica e política dos Estados Unidos, desde há pouco mais de meio século. Aqueles que fabricam armas devem vendê-las, seja ao governo dos EUA (e, portanto, devem fabricar guerra por todo o mundo, ou montar cenários tendentes a elas), quer para os indivíduos ameaçados pelo espectro da insegurança omnipresente. Vários analistas dizem que apenas nas regiões fronteiriças entre o México e os Estados Unidos existem 17.000 lojas de armas onde se pode comprar uma espingarda de assalto AK47 com a mesma facilidade com que se compra um hambúrguer, o que, além de ser uma grotesca aberração, traduz a coerência da política de governo que cobre tal absurdo.
 
Em segundo lugar, a indústria do entretenimento (Hollywood) permanentemente excita a imaginação de dezenas de milhões de americanos com um fluxo incessante de séries, vídeos e filmes onde a violência mais cruel, atroz e horrenda é exposta com rigor perverso. Antes também havia algo disto, mas agora sua proporção tem crescido exponencialmente e, em determinados dias e horas é quase impossível de se ver na televisão outra coisa que não seja a glorificação subliminar do sadismo em todos as formas que só uma imaginação muito doentia pode conceber. 
 A censura que existe - ora sutilmente, ora de forma completamente descarada - para dificultar ou impedir que se conheça o trabalho de cineastas ou documentaristas críticos do sistema ou que falem bem de países como Cuba, Venezuela - Michael Moore ou Oliver Stone, por exemplo - não existe na hora de preservar a saúde mental da população exposta ao vômito de atrocidades e crueldades produzidas por Hollywood. Por algo será. E esse "algo" é que tanto a venda descontrolada de armas de todos os tipos como a violência induzida de Hollywood são totalmente funcionais para o projeto de dominação da burguesia norte-americana.
 
Noam Chomsky tem mostrado ao longo de décadas como esta tem aperfeiçoado os mecanismos que lhe permitem dominar com terror, sabendo que do medo – o sentimento mais incontrolável dos homens – brota a submissão aos poderosos. Uma burguesia que incute o medo entre a população, fazendo com que todos saibam que ninguém está a salvo e que para proteger as suas vidas pobres e indefesas deve renunciar a mais e mais direitos, dando ao governo a capacidade de vigiar todas as áreas públicas, monitorizar os seus movimentos, interferir nas suas chamadas telefônicas, interceptar e-mails, controlar as suas finanças, saber o que compram, em que gastam o seu dinheiro, o que leem, com quem se reúnem e de falam quando o fazem. Um inimigo externo - agora o "terrorismo internacional", antes o "comunismo" - apresentado como onipotente e de uma crueldade sem limites é complementado internamente com a ameaça encarnada nos milhares de assassinos que se misturam com o resto da população, como Holmes, para cuja neutralização é necessário dar à polícia, ao FBI, à CIA e ao Departamento de Segurança Interna todos os poderes necessários.

O que Thomas Hobbes colocava em 1651 no seu Leviatã como uma metáfora heurística, impossível de encontrar na realidade, pelo seu extremismo: a transferência para os indivíduos faziam de quase todos os seus direitos para o soberano em troca de preservar a vida, acabou por se converter numa trágica realidade nos Estados Unidos de hoje.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

A fé cristã irá simplificar-se no futuro

Os dogmas constituem respostas a perguntas que deixaram de nos dizer diretamente respeito. Tornam-se acessíveis, de modo progressivo e imediato, mas só para o historiador; também a consciência histórica, como é sabido, sofre agora de erosão. Se a fé cristã não quiser tornar-se vazia, sem substância, e recusar a simples adaptação ao que não passa de moda, então, a única coisa a fazer é crescer em profundidade, mais do que em extensão, e viver mais conscientemente a partir do centro que tudo engloba. Também neste sentido, a fé cristã irá simplificar-se no futuro.


Walter Kasper, "Introdução à fé", 184

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...