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sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Óscar Afonso: "Pensamento económico do Papa Francisco"

No "i" de hoje. É mais pertinente esta análise dos que as inflamações por causa de afirmações isoladas do Papa. Mesmo que inteiras.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

E a Salamanca dos capitalistas?

Viriato Soromenho-Marques escreveu há dias, no DN, sobre Escola de Salamanca, "Salamanca: a escola do universo". Vale a pena ler. Pena não falar do outro grande contributo da Escola de Salamanca, com derivações em Coimbra e Évora: a teorização sobre o mercado livre, sobre o valor das coisas, que não valem consoante o trabalho que dão (a grande ilusão do comunismo, de uma maneira geral), mas consoante o valor que quem as quer lhes dá. Sim, os salmanticenses são os primeiros teóricos (ou talvez segundos, se tivermos em conta certos medievais que eles, no fundo, seguiam) do capitalismo. O texto de Soromenho-Marques:


Quando nos aproximamos de Salamanca, a cidade banhada pelo Tormes, o seu casco histórico, Património Mundial desde 1988, brilha como uma seara de trigo debaixo do sol. Há muito para ver. Mas o coração espiritual da cidade palpita entre o Convento Dominicano de Santo Estêvão (que está unido à igreja plateresca consagrada ao mesmo santo) e a universidade. Foi aqui que no dealbar do século XVI nasceu a famosa Escola de Salamanca, que foi a semente das modernas teorias do direito internacional (na altura "direito das gentes"), em profunda ligação com uma doutrina igualitária e universalista dos direitos humanos. Perto do convento ergue-se a estátua do fundador da escola, Francisco de Vitoria (1483-1546), o académico brilhante que nas suas Lições de 1539, dedicadas aos "Índios" e ao "Direito de Guerra", destruiu a boa consciência dos conquistadores, mostrando que o império que Espanha construía no Novo Mundo era baseado em títulos ilegítimos. Fundado na violência e não no direito natural. Os navegadores portugueses e espanhóis haviam oferecido à humanidade a verdadeira dimensão geográfica do planeta, colocando a América no mapa, e cartografando a África meridional profunda e os mares austrais. Em Salamanca nasceu a Escola Ibérica da Paz. Através de mestres espanhóis e portugueses, na sua maioria intelectuais dominicanos, jesuítas e franciscanos, foi levada a cabo a tarefa de integrar um mundo desmesurado e alteroso, debaixo de uma ordem moral, jurídica e política que permitisse a paz, em vez da guerra, a justiça em vez da opressão. Ao contrário do racismo para com os povos não europeus, que tutelaria a Conferência de Berlim (1885), em Évora, Coimbra ou Valladolid propunha-se o respeito e a igualdade entre todos os seres humanos. Em Salamanca começou a esperança de um dia podermos ser cidadãos do mundo. De pleno direito.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

O conservador liberal

Anda para aí uma polémica sobre a atribuição de um prémio da Católica a Alexandre Soares dos Santos.

O Instituto de Estudos Políticos (IEP), da Universidade Católica Portuguesa, vai atribuir o Prémio Fé e Liberdade a Alexandre Soares dos Santos, anterior presidente do conselho de administração do grupo Jerónimo Martins. A distinção vai ser entregue a 24 de junho, durante o Fórum Político do Estoril, que reúne dezenas de oradores nacionais e estrangeiros sob o tema “Reavaliando a 3.ª vaga de democratização”, por ocasião dos 40 anos do 25 de abril (1974) e os 25 anos da queda do Muro de Berlim (1989). Elísio Alexandre Soares dos Santos (1934), que já foi considerado a pessoa mais rica em Portugal, vai ser apresentado por Manuel Braga da Cruz, anterior reitor da Universidade Católica.
A polémica tem a ver com a oposição de certos setores da Igreja e da cultura. Notícia do DN aqui.

Bento Domingues é um dos que está contra. Mas já houve uma altura em que concordou com o "Sr. Pingo Doce". Ler aqui.

Dizia na altura o "conservador liberal" (hummm, uma posição em que economico-eclesialmente me revejo):
Por que é que a Igreja é tão lenta a reformar-se? São coisas que discuto como bispo D. Manuel Clemente. Por que é que não se devem admitir mulheres padres? Por que é que não se há-de admitir o casamento? Por que é que a Cúria Romana é constituída por uns tipos que têm 80 anos, que não sabem nada de nada da vida, que estão ali fechados? (…)

Ler aqui.

Alexandre Soares dos Santos a puxar pela economia nacional

sábado, 21 de dezembro de 2013

Papa elogia "cartoneros"

O Papa gravou um vídeo e elogiou o trabalho dos "cartoneros", porque reclicam o lixo, fazem um trabalho "ecológico", e fazem um trabalho produtivo, "uma produção que fraterniza e dá dignidade ao próprio trabalho".

A esquerda (certa esquerda, right) que tanto elogiou o "economia mata" de "Evangelii Gaudium" vai elogiá-lo agora? Gostava de ver. E a direita que tanto o temeu tem aqui um bom motivo de meditação.

O vídeo, na realidade, mostra que os óculos mais adequados para interpretar a economia franciscana não é a idelogia mas a profecia. Sempre e em qualquer lado. Quem tem olhos e ouvidos...

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Francesco: «L'ideologia marxista è sbagliata"


No "Público" (a foto também), para quem tem dúvidas:
O Papa Francisco assegura que não é marxista, mas afirma que não se sente ofendido quando o denominam como tal, numa entrevista publicada hoje pelo “La Stampa”. O líder da igreja católica mostra-se preocupado com a "tragédia da fome no mundo".
 "A ideologia marxista está equivocada, mas na minha vida conheci muitos marxistas boas pessoas, por isso não me sinto ofendido", reconhece o papa.
Ler tudo aqui. Ou aqui, em italiano.

La Stampa - Alcuni brani dell'«Evangelii Gaudium» le hanno attirato le accuse degli ultra-conservatori americani. Che effetto fa a un Papa sentirsi definire «marxista»?

Papa - «L'ideologia marxista è sbagliata. Ma nella mia vita ho conosciuto tanti marxisti buoni come persone, e per questo non mi sento offeso». Le parole che hanno colpito di più sono quelle sull'economia che «uccide»... «Nell'esortazione non c'è nulla che non si ritrovi nella Dottrina sociale della Chiesa. Non ho parlato da un punto di vista tecnico, ho cercato di presentare una fotografia di quanto accade. L'unica citazione specifica è stata per le teorie della “ricaduta favorevole”, secondo le quali ogni crescita economica, favorita dal libero mercato, riesce a produrre di per sé una maggiore equità e inclusione sociale nel mondo. C'era la promessa che quando il bicchiere fosse stato pieno, sarebbe trasbordato e i poveri ne avrebbero beneficiato. Accade invece che quando è colmo, il bicchiere magicamente s'ingrandisce, e così non esce mai niente per i poveri. Questo è stato l'unico riferimento a una teoria specifica. Ripeto, non ho parlato da tecnico, ma secondo la dottrina sociale della Chiesa. E questo non significa essere marxista».

domingo, 15 de dezembro de 2013

Henrique Montreiro: "O Papa Francisco e o 'arrependimento' da esquerda"

Henrique Monteiro, no "Expresso":


A esquerda não costuma gostar de Papas. Não gosta do que é transcendente, não racional, embora adore o lado emocional das manifestações e dos discursos, e tem da Igreja sempre a ideia da Inquisição, como se a Inquisição tivesse acontecido antes de ontem e não tivesse, mesmo no séc. XVI, sido imposta pelo Estado e pelo poder político que a esquerda gosta de contrapor à Igreja.

Sendo laico, embora crente, concordo com a estrita separação de Igreja e de Estado e penso que um e outro devem viver o mais independentemente possível. Congratulo-me por perceber ser esse o pensamento do Patriarca de Lisboa e, de um modo geral, da Igreja moderna. Por isso não entendo a militância anti-religiosa que parece ser apanágio da parte mais ativa da nossa esquerda militante.

João Paulo II que disse umas verdades acerca do Leste europeu quando este era dominado pelo comunismo, foi por eles abominado. Bento XVI que disse umas verdades acerca da natureza da Teologia da Libertação, era odiado ("o pastor alemão") ainda que seja um dos grandes intelectuais europeus. Chegou Jorge Bergoglio (após a resignação de Bento XVI, num exemplo de retiro e abdicação do poder que quase nenhum político teve coragem) e, para não variar, a esquerda inventou uma cumplicidade do antigo Cardeal de Buenos Aires com a ditadura argentina.

A coisa foi desmentida e, finalmente, desmontada. O Papa revelou-se uma pessoa diferente, mais aberta, mais expansiva, mais ousada. E disse duas ou três coisas sobre o dinheiro e o capitalismo que, por acaso, os seus diversos antecessores já tinham também dito; mas parte da esquerda, que nunca olhou para a doutrina, mas apenas para o estilo, passou a endeusá-lo. Não me refiro aos católicos de esquerda, que são uma corrente respeitável da Igreja e que preferem seguramente o seu envolvimento mais próximo dos simples, mas àqueles que sendo "ateus, graças a Deus" a contra as hierarquias religiosas descobriram há apenas um mês:  que a mensagem da Igreja há muito que é contra o "consumismo", a "ditadura dos mercados" e o "lucro desenfreado". Ou seja, que não foi Bergoglio a doutrinar, que o Papa apenas citou o que está nas escrituras e em encíclicas há muito escritas, desde a Rerum Novarum, de Leão XIII, escrita em 1891: "Os trabalhadores, isolados e sem defesa têm-se visto, com o decorrer do tempo, entregues à mercê de senhores desumanos e à cobiça de uma concorrência desenfreada. A usura voraz veio agravar ainda mais o mal. Condenada muitas vezes pelo julgamento da Igreja, não tem deixado de ser praticada sob outra forma por homens ávidos de ganância, e de insaciável ambição" - este texto tem 123 anos.

Mas há mais antigos: "Ninguém pode servir a dois senhores; ou não gostará de um deles e gostará do outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e ao dinheiro" (Mt 6:24) - assim resumia São Mateus o pensamento de Cristo. " A raiz de todos os males é a ganância do dinheiro" (primeira carta a Timóteo, de São Paulo).

Não há dúvida que a doutrina é antiga. Pelo que o súbito amor da esquerda pelo Papa tem o sabor de uma conversão: não do Papa, como pretende a esquerda, mas da própria esquerda. E como também está escrito (São Lucas), "haverá mais alegria no céu por um pecador que se arrepende do que por 99 justos".


Haja fé!

sábado, 14 de dezembro de 2013

Anselmo Borges; "Francisco: a alegria do Evangelho (2)"

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje.

O Papa Francisco é hoje, senão a figura mundial mais popular, uma das mais populares e influentes. Como escrevi aqui na semana passada, a sua recente exortação apostólica "A alegria do Evangelho", em que traça os caminhos fundamentais do seu pontificado, foi objecto de imenso interesse e análise por parte dos media mundiais de referência. E fizeram-no sobretudo na parte dedicada à situação económico-financeira e social do nosso mundo.


A causa de Deus é a causa do ser humano, de todo o ser humano, feliz e pleno, começando, evidentemente, pelos mais pobres e marginalizados, os das periferias. Essa tem de ser também a causa da Igreja. Por isso, escreve: para quem quer seguir o Evangelho "há um sinal que nunca deve faltar: a opção pelos últimos, por aqueles que a sociedade descarta e deita fora". "Estamos chamados a descobrir Cristo neles, a emprestar-lhes a nossa voz nas suas causas." Por isso, "hoje devemos dizer "não a uma economia da exclusão e da desigualdade social". Esta economia mata. Não é possível que a morte por enregelamento de um idoso sem-abrigo não seja notícia, enquanto o é a descida de dois pontos na Bolsa. Isto é exclusão. Hoje tudo entra no jogo da competitividade e da lei do mais forte, em que o poderoso engole o mais fraco", e a consequência é que "grandes massas da população vêem-se excluídas e marginalizadas" e "os excluídos não são "explorados", mas resíduos, "sobras"".

Denuncia a nova tirania de um capitalismo desregulado e desenfreado. Há quem pressupõe que "todo o crescimento económico, favorecido pelo livre mercado, consegue por si mesmo produzir maior equidade e inclusão social. Esta opinião, que nunca foi confirmada pelos factos, exprime uma confiança vaga e ingénua na bondade daqueles que detêm o poder económico e nos mecanismo sacralizados do sistema económico reinante. Entretanto, os excluídos continuam a esperar", pois o ideal egoísta desenvolveu "uma globalização da indiferença."

Este desequilíbrio "provém de ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira. Por isso, negam o direito de controlo dos Estados, encarregados de velar pela tutela do bem comum. Instaura-se uma nova tirania invisível, às vezes virtual, que impõe, de forma unilateral e implacável, as suas leis e as suas regras." Neste sistema devorador para aumentar os lucros, quem ou o que é frágil, como o meio ambiente, fica indefeso perante "os interesses do mercado divinizado, transformados em regra absoluta".

Está aí uma cultura do bem-estar que reduz o ser humano a consumidor e que nos anestesia, a ponto de perdermos a serenidade, se o mercado nos oferece algo que ainda não possuímos. Uma das causas desta situação é a idolatria do dinheiro. "A crise financeira que atravessamos faz-nos esquecer que, na sua origem, há uma crise antropológica profunda: a negação da primazia do ser humano". Criámos novos ídolos: o bezerro de ouro é na sua nova versão "o fetichismo do dinheiro e a ditadura de uma economia sem rosto e sem um objectivo verdadeiramente humano". Ora, "o dinheiro deve servir e não governar". Como escreveu São João Crisóstomo, "não fazer os pobres participar dos seus próprios bens é roubá-los e tirar-lhes a vida. Não são nossos, mas deles, os bens que aferrolhamos".

Para uma sociedade mais humana, é essencial a ética, uma "ética não ideologizada". E previne: "Enquanto não se eliminar a exclusão e a desigualdade dentro da sociedade e entre os povos será impossível erradicar a violência. Sem igualdade de oportunidades, as várias formas de agressão e de guerra encontrarão um terreno fértil que, mais cedo ou mais tarde, há-de provocar a explosão."

Francisco: um perigoso esquerdista? Enquanto uma certa esquerda faz aproveitamento político-partidário, a ultradireita, como o Tea Party, acusa-o de marxismo. Mas ele apenas anuncia o Evangelho, cujo único interesse é a vida plena para todos. "Não podemos mais confiar nas forças cegas e na mão invisível do mercado." Assim, pede a Deus que "nos conceda mais políticos que tenham verdadeiramente a peito a sociedade, o povo, a vida dos pobres."

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Efeitos estranhos das palavras económicas do Papa

Efeitos estranhos das palavras do Papa quando fala da economia atual (volta ao assunto na mensagem para o Dia Mundial de Paz, hoje divulgada).

Quando ouço um anticapitalista (que em Portugal é quase sinónimo de anti-austeridade) a louvar o Papa, só penso: "Não, o Papa não pode ter dito aquilo". Ou: "Não foi aquilo que o Papa quis dizer".

Mas quando ouço um capitalista fervoroso a perorar contra o Papa (há vídeos desses, de norte-americanos, por aí), penso: "Mas estavas à espera de quê?" Ou: "Poderia dizer o contrário?"

Como já alguém disse, e parece-me a melhor chave de leitura para o que o Papa diz no capítulo da economia, o tom de Francisco não é marxista, nem comunista, nem socialista, nem capitalista ou anticapitalista. É profético.

Adriano Moreira: "Todos podem inspirar-se na doutrina da Igreja"

Na entrevista que hoje dá à "Visão", a propósito do livro "Memórias do Outono Ocidental - Um século sem bússola", Adriano Moreira fala do Papa Francisco. E também gostei muito da última resposta da entrevista. Aqui fica a última coluna da entrevista.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

A austeridade está a violar os direitos humanos?

Para o ex-ministro Alfredo Bruto da Costa, "uma pessoa com fome não é livre". Para o empresário Salvador de Mello, "a haver violação dos direitos humanos é da responsabilidade de quem acumulou tamanha dívida". Para o missionário Abel Bandeira, a Igreja precisa "de estar solidária" e vigilante.

Vale a pena ler o que pensam um missionário, um empresário e o presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz sobre a austeridade e os direitos humanos, num trabalho de Filipe d'Avillez, na RR. Aqui. A minha visão assemelha-se mais à do empresário. Alfredo Bruto da Costa não olha a montante. O missionário, como muitos, pensa (digo eu, também pelos breves meses que passei na Guiné-Bissau): "Quem dera que o terceiro mundo fosse explorado pelo capitalismo como Portugal dizem que é".

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Alberto Gonçalves, a economia, a esquerda e Francisco

Alberto Gonçalves escreveu no DN de ontem:

O reino dos céus
Perante as críticas do Papa Francisco ao capitalismo e aos "mercados", as pessoas que gostam do Vaticano recordam que isso não é mais do que a costumeira doutrina social da Igreja. As pessoas que abominam o Vaticano acham que a retórica é novidade e não só vai arrasar o capitalismo e os "mercados" como, se a coisa correr pelo melhor, arrasará a Igreja. Eu, neutro na matéria, prefiro notar que, apesar do aparente embaraço de uns e do evidente entusiasmo dos outros, o próprio Papa talvez fizesse melhor em começar por comentar o desemprego, a pobreza e a fome nos felizardos países sem inclinações capitalistas e nos quais os mercados se limitam aos lugares onde o povo compra, quando consegue comprar, hortaliças e galinhas. Se a devoção materialista tem muitos defeitos, uma virtude ninguém lhe nega: não se confunde com nenhuma das maravilhosas alternativas disponíveis.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Pacheco Pereira: "O Papa bolchevista"

José Pacheco Pereira na "Sábado" de ontem. Vou ter mesmo de analisar as afirmações do Papa, uma a uma. Há que responder a isto: Ele está contra o capitalismo ou contra os exageros do capitalismo? Não é possível capitalismo sem exageros? O capitalismo é intrinsecamente mau ou só os capitalistas? Há um ou vários capitalismos? O capitalismo é sempre tirania ou há capitalismos sem tirania? E a tirania só surge no capitalismo? O mal é o capitalismo financeiro ou o capitalismo tout court? E se não quisermos capitalismo, o que temos? Ou resta o capitalismo com ética, com lei, democrático?

Ai, tempos tão bons estes, em que só os infelizes passam tédio.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Papa Francisco: "Como disse Mário Soares, a nova tirania económica gera violência"


No "Público" de hoje. Consta que o Papa há dias disse: "Como disse o Papa Soares, a nova tirania económica gera violência".

Mais a sério, considero que há um aproveitamento soarista das palavras do Papa. Um venezuelano, no meio do madurismo, por razões completamente diferentes, poderá invocar as mesmas palavras do Papa... Considero, por outro lado, que é preciso estudar - coisa que ainda não fiz, nem prevejo fazer tão cedo, infelizmente - o que o Papa tem realmente dito sobre a economia. Sem dúvida que tem criticado o capitalismo, mas daí até ser anticapitalista como alguns dizem vai uma grande distância. O capitalismo sem ética humanista e mesmo cristã, como qualquer atividade sem ética, é detestável. No caso de Portugal, na situação que Mário Soares tem em vista, o culpado é o capitalismo sem limites ou não será antes e primeiro a indisciplina e má gestão do próprio país? (Claro que há vida para lá do défice. É péssima.)

Nove números da exortação, do 52 ao 60, são sobre a questão económica. O primeiro é este:
A humanidade vive, neste momento, uma viragem histórica, que podemos constatar nos progressos que se verificam em vários campos. São louváveis os sucessos que contribuem para o bem-estar das pessoas, por exemplo, no âmbito da saúde, da educação e da comunicação. Todavia não podemos esquecer que a maior parte dos homens e mulheres do nosso tempo vive o seu dia a dia precariamente, com funestas consequências. Aumentam algumas doenças. O medo e o desespero apoderam-se do coração de inúmeras pessoas, mesmo nos chamados países ricos. A alegria de viver frequentemente se desvanece; crescem a falta de respeito e a violência, a desigualdade social torna-se cada vez mais patente. É preciso lutar para viver, e muitas vezes viver com pouca dignidade. Esta mudança de época foi causada pelos enormes saltos qualitativos, quantitativos, velozes e acumulados que se verificam no progresso científico, nas inovações tecnológicas e nas suas rápidas aplicações em diversos âmbitos da natureza e da vida. Estamos na era do conhecimento e da informação, fonte de novas formas dum poder muitas vezes anónimo.
Realço esta afirmação:
Todavia não podemos esquecer que a maior parte dos homens e mulheres do nosso tempo vive o seu dia a dia precariamente, com funestas consequências.
Quem dera à maior parte da humanidade poder queixar-se do capitalismo (numa democracia liberal). A maior parte da humanidade, a que vive pior, na realidade vive numa era pré democrática e pré-capitalista.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Ensinamentos magisteriais: Zamagni, coautor da "Caritas in veritate"


É óbvio que não são os papas que escrevem as encíclicas de uma ponta à outra, principalmente as que abordam assuntos sociais.

Jean-Yves Calvez escreveu partes da "Populorum progressio". Ratzinger e Fisichella escreveram a "Fides et Ratio" ("FR", que alguns dizem ser, afinal, de Fisichella et Ratzinger), que não é de assuntos sociais. E agora não me lembro do nome do jesuíta que redigiu partes da "Quadragesimo anno" (mas logo à noite a minha memória será reavivada com uns apontamentos que não tenho aqui). Ora, um comunicado da Santa Sé deixou escapar que Zamagni colaborou na "Caritas in veritate".

Sandro Magister escreveu no seu blog (mas li aqui):
O fato de Zamagni ter sido um dos especialistas consultados para a escritura da "Caritas in veritate" era dito e escrito há muito tempo, sem quaisquer desmentidas. A mesma coisa foi dita e escrita por Ettore Gotti Tedeschi. Mas que uma indiscrição de tal porte figure em um comunicado da Santa Sé, não, isso nunca tinha acontecido, ainda mais para uma encíclica de 2009, tão próxima nos anos e com o seu autor ainda vivo. 
 De fato, alguns no Vaticano devem ter percebido tal passo em falso. Ao imprimir algumas horas depois o mesmo comunicado da nomeação de Zamagni, o "L'Osservatore Romano" cortou as duas linhas fora de lugar. Mas que permaneceram página web da Sala de Imprensa vaticana. 
 Se não é mais secreta a identidade de um dos escritores da Caritas in veritate, resta agora descobrir quem escreveu aquelas duas linhas. Normalmente, os perfis biográficos publicados pelo Vaticano são misturados com a farinha do recém-nomeado.

sábado, 14 de setembro de 2013

Anselmo Borges: "O que pensa Francisco sobre o dinheiro (6)"

Texto de Anselmo Borges no DN de hoje:

O Deus verdadeiro opõe-se aos ídolos do deus Dinheiro e do deus Consumo. Na economia, o ser humano é que deve ocupar o centro e os bens têm de estar ao serviço da dignidade de todos: "Daí a importância do conceito de dívida social; em qualquer tipo de lucro deverá considerar-se a dimensão da dívida social". Foi longo o caminho até à assimilação do conceito de justiça social, que hoje é aceite por todo o lado, no contexto da doutrina social da Igreja.

Todos sabem que a Igreja está contra o comunismo, mas ela "está tão contra esse sistema como está contra o liberalismo económico de hoje, selvagem. Este também não é cristianismo, não podemos aceitá-lo. Temos de procurar a igualdade de oportunidades e de direitos, lutar por benefícios sociais, por uma reforma digna, férias, descanso, liberdade de associação. Todas estas questões constituem a justiça social. Não deve haver pobres, e não há pior pobreza - quero deixar este aspecto bem claro - do que não poder ganhar o pão, do que não possuir a dignidade do trabalho."

O paradigma pelo qual temos de velar é este: "Os pobres são o tesouro da Igreja e é preciso cuidar deles, se não tivermos esta visão, construiremos uma Igreja medíocre, morna, sem força. O nosso verdadeiro poder tem de ser o serviço. Não se pode adorar a Deus se o nosso espírito não incluir o necessitado." Por isso manda os padres e os cristãos em geral para as periferias, tanto geográficas como existenciais, não se importando ele próprio de, enquanto arcebispo de Buenos Aires, ser "acusado de ter preferência pelos pobres dos bairros de lata".

A chave neste domínio encontra-se na parábola do Juízo Final, quando o rei coloca uns à direita e outros à esquerda. "Vinde, benditos de meu Pai, porque tive fome e destes-me de comer; tive sede e destes-me de beber; estava nu e vestistes-me; estava doente ou na cadeia e visitastes-me." Perguntaram-lhe quando o fizeram, e ele responde-lhes que, sempre que o fizeram a algum dos mais humildes, o fizeram a Ele. Aos que o não fizeram condena-os.

Mas, aqui, é preciso insistir que, no cristianismo, a atitude para com a pobreza e o pobre "é - essencialmente - de verdadeiro compromisso". Mas há mais: "Esse compromisso tem de ser corpo a corpo", entendendo-se por isso que não bastam as instituições e a sua imprescindível mediação, com efeito multiplicador. Há "a obrigação de estabelecer contacto com o necessitado. É preciso cuidar do doente - mesmo quando este suscite repulsa, repugnância, visitar o preso... Custa-me horrores ir a uma prisão, porque é muito duro o que ali se vê. Mas vou na mesma, porque o Senhor quer que fique frente a frente com o necessitado, com o doente".

Pergunta, por vezes, a quem se confessa se dá esmola aos mendigos - fez questão de os receber no Vaticano. Quando dizem que sim, continua a fazer perguntas: "E olha nos olhos da pessoa a quem dá esmola, toca-lhe na mão?" Aí, "começam a enredar-se, porque muitos atiram a moedinha e viram a cabeça. São atitudes, gestos". E há aqueles que têm dinheiro mal ganho e querem recuperá-lo através de uma obra de beneficência. "Nunca aceito uma recuperação deste tipo se não houver uma mudança de comportamento, um arrependimento que para mim seja visível. Caso contrário, lava-se a consciência, mas depois a farra continua." É errado um dirigente receber dinheiro proveniente do tráfico de droga. "O dinheiro manchado de sangue não pode ser aceite."

O pobre não pode ser humilhado. Recusou ir a um jantar de beneficência. "Nas mesas encontrava-se, como se diz, a nata da sociedade. Eu decidi não ir. Depois do primeiro prato, leiloou-se um Rolex de ouro. Uma verdadeira vergonha, uma humilhação, um mau uso da caridade." Fundamental é a integração. A ajuda não pode ficar pelo tipo assistencial. "É necessário traçar caminhos de promoção e de integração na comunidade. O pobre não tem de ser um eterno marginalizado. Aquilo que degrada o pobre é não ter o óleo que o unge de dignidade: o trabalho. O grande perigo - ou a grande tentação - na assistência aos pobres reside em cair no paternalismo protector que, em última instância, não os deixa crescer."

domingo, 25 de agosto de 2013

António Borges: A Doutrina Social da Igreja é "muito inspiradora"

António Borges (1949-2013)

Excerto de uma notícia da Agência Ecclesia, em 25 de fevereiro de 2013 (daqui):
O economista António Borges considera que a Doutrina Social da Igreja é “muito inspiradora” para o momento de crise que se vive em Portugal. 
Após a conferência que fez, este sábado, em Castelo Branco, sobre o tema ‘Gestor e Católico, um duplo desafio de responsabilidade social’, o economista e professor da Universidade Católica Portuguesa disse à Agência Ecclesia que existe “uma consciência cada vez maior” que os temas de responsabilidade social e justiça social são “centrais à política económica”.
O antigo diretor do Departamento Europeu do Fundo Monetário Internacional defende que ser gestor e católico em simultâneo “é possível e dá outra qualidade à gestão”.

Morreu o economista António Borges. Católico


Morreu o economista António Borges. Tinha 63 anos. Cancro no pâncreas. Por ser da direita liberal, era demonizado em muitos setores (ver aqui comentários na notícia da sua morte), inclusive por católicos. Mas ele era católico. E ao que sei (por um amigo padre, próximo da família), de convicção.

Porque me revejo numa visão mais liberal da economia (o que não quer dizer "sem ética"; sei que alguns dos que leem este blogue estão em quadrantes contrários) e porque na Igreja católica há lugar para muitas sensibilidades, da liberalizante à socializante, com diversas matizes, confesso a minha tristeza com a morte de António Borges.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

O diabo da bola

Já me perguntaram se estou com o Papa Francisco na questão do diabo/demónio. Se o diabo/demónio andar por aí a possuir algumas pessoas, não, não estou (e isto tem pouco a ver com o facto de algumas delas se sentirem aliviadas com orações e exorcismos, os quais, feitos por pessoas convencidas de que o outro tem um demónio, parece que têm efeitos positivos em pessoas que pensam que estão possuídas por um ser sobrenatural).

Mas não é o único assunto em que não estou com o Papa Francisco. Também não iria à bola com ele. Na realidade, quando penso no futebol das grandes equipas, dificilmente concebo atividade mais capitalisticamente selvagem. Demoníaca, até.

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...