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domingo, 30 de março de 2014

Repouso

Neste sétimo dia que fizeste, 
qual é o teu repouso, se não for no meu coração?

Paul Claudel

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Tolentino Mendonça: A forma do cristianismo em mudança

Texto de Tolentino Mendonça, na Agência Ecclesia.

O teólogo Karl Rahner escreveu que “A Igreja tem sido conduzida pelo Senhor da história para uma nova época”. Não se trata só de baixas drásticas nos indicadores estatísticos quando se compara a atualidade com aquele que já foi o quadro da vivência da Fé. A questão é bem mais complexa. Talvez o que o nosso tempo descobre, mesmo entre convulsões e incertezas, seja um modo diferente de ser crente, traduzido de formas alternativas nas suas necessidades, buscas e pertenças. Não estamos perante o crepúsculo do cristianismo, como defendem aqueles que se apressam a chamar pós-cristãs às nossas sociedades. Quem não se apercebe que o radical lugar do cristianismo foi sempre a habitação da própria mudança não o colhe por dentro. Mas há eixos que se vão tornando suficientemente claros para que seja cada vez mais um dever os enunciarmos e contarmos com eles. Podem-se apontar três:

Primeiro, os cristãos regressam à condição de “pequeno rebanho”. Com a evaporação de um cristianismo que se transmitia geracionalmente como herança inquestionada, os cristãos voltam a sê-lo por decisão pessoal, uma decisão muitas vezes em contra-corrente, maturada de modo solitário em relação aos círculos mais imediatos de pertença. Já não é de modo previsível que nos tornamos cristãos. Isso acontece e acontecerá cada vez mais como uma opção e uma surpresa.

Depois, à medida que se assiste a um enfraquecimento da inscrição institucional das Igrejas no horizonte da sociedade redescobrimos o valor e as possibilidades de uma presença discreta no meio do mundo. Em tantas situações, nesta diáspora cultural onde estamos semeados, a única palavra verosímil é a do testemunho de uma vida vivida com simplicidade e alegria no seguimento de Jesus.

E, em terceiro lugar, esta grande mudança epocal mostra-nos que precisamos recuperar aquilo que Karl Rahner chama o “santo poder do coração”. Os cristãos são chamados a viver a amizade como um ministério. “Isto é o que vos ordeno: amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (Jo 15,17). Há, de facto, uma revelação do cristianismo que só a prática da amizade é capaz de proporcionar. E nisto, o mundo, que pode até perder-se em equívocos sobre os cristãos, não se engana. Mesmo se for um único instante de contacto o que tivermos, tal basta para deixar transparecer uma amizade.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Falar ao coração

Para falar ao vento bastam as palavras, para falar ao coração são necessárias obras.

Padre António Vieira

domingo, 18 de dezembro de 2011

Repouso



No sétimo dia que fizeste, Senhor?
Qual é o teu repouso, se não for no meu coração?


Paul Claudel (1868-1955)

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Rezar com as pernas



Encontro esta frase numa espécie de antologia de frases anti-religiosas, agnósticas e ateias:

Eu rezei durante vinte anos, mas não recebi nenhuma resposta, até que rezei com as minhas pernas.
A frase é de Frederick Douglass. Para quem não souber que foi este senhor – era o meu caso -, cá está uma personalidade fascinante.
Viveu entre 1818 e 1895. Escravo. Fugiu. Abolicionista que ficou conhecido por “Leão de Anacostia”. Um marx anti-esclavagismo. Um dos afro-americanos mais influentes na história dos EUA, diz a Wikipedia – e por agora chega.
É difícil não concordar com Frederick Douglass. Reza-se com as pernas como se reza com as mãos, sem se deixar de rezar com a mente e o sentimento. Parafraseando Tiago, a fé sem mãos nem pés é morta. Oração coxa (como na anedota em que Deus se insurge com o fiel que muito pedia que lhe saísse a lotaria mas não comprava uma cautela) não pode ir longe.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

do desejo, texto de José Augusto Mourão

do desejo

não se extinga o desejo que nos faz viver,
Deus do nosso desejo

alimenta em nós o fogo das paixões
que nos leva a agir
e o fogo da palavra que por dentro queime
e faça escuta

tu que és o guardião do nosso desejo,
aviva a chaga que o nosso imaginário
constantemente quer sem falha;
que vivamos o nosso desejo sem culpabilidade

circuncide-nos o coração a espada do amor,
pregão antigo e novo
em nosso corpo adormecido e acordado

José Augusto Mourão (1947-2011)
Frade dominicano, José Augusto Mourão morreu ontem em Lisboa (notícias, homenagens e poemas de JAM aqui). 

domingo, 17 de abril de 2011

Árvore

"Árvore da vida", de Gustav Klimt

Se não plantares uma árvore no teu coração,
não aparecer nenhum  pássaro para cantar.


Provérbio chinês

sábado, 12 de março de 2011

Jóia


Meu Cristo, meu doce Cristo, a jóia mais apreciada pelo meu coração, o emblema mais esplêndido da minha alma; há vinte anos que o admiro no mais profundo do meu pobre coração.

Keshub Chunder Sen (1838-1884), reformador social hindu

domingo, 1 de agosto de 2010

Um filósofo fala das Bem-Aventuranças

Jean-Luc Nancy

“O «bem-aventurados» do Evangelho não quer tanto dar felicidade ou satisfação quanto indicar um caminho para sair da angústia. As Bem-aventuranças não designam felicidade, mas um comportamento, uma disposição geral da vida humana que foge ao mesmo tempo da angústia e da resignação”, diz o filósofo francês Jean-Luc Nancy ao jornal “La Croix” de 23 de Julho de 2010.

É uma fonte de água geladinha esta entrevista sobre as Bem-Aventuranças no meio destes dias tórridos (hoje nem tanto). E dias eclesialmente confusos. Só sobre as Bem-Aventuranças. Fala de limpidez e pureza.

O filósofo diz que não é um texto que tenha por hábito frequentar. Ele é mais Kant, Hegel, Kant, Heidegger e Lacan. Mas fala das Bem-Aventuranças como não vi mais ninguém nos tempos recentes. No início parece que já conhecemos o trajecto da interpretação. “Boas intenções adocicadas”. Mas como vem num jornal católico é de supor que a interpretação não seja tão redutora. “Algo radicalmente diverso”.

Jean-Luc Nancy: “Digamos que o entendo principalmente como uma promessa de felicidade, mas que sempre contém o risco de ser uma falsa promessa. É certamente o texto bíblico para o qual me ponho imediatamente numa perspectiva crítica e desconfiada, porque [o texto d] as Bem-aventuranças tem todas aquelas características daquela palavra que dá alívio, que lapida as arestas, que elimina os obstáculos. Concentram, a meu ver, quanto há de difícil e de que suspeitar na mensagem cristã. Vê-se nas mesmas demasiado facilmente uma “boa vontade”, cheia de boas intenções que ficam longe daquilo que, com Kant, se pode definir uma “vontade boa”. As Bem-aventuranças colocam-nos sempre diante de um dilema: ou se trata de um pacote de boas intenções adocicadas, deveras edulcoradas, que procuram seduzir os leitores e os ouvintes com uma espécie de entorpecimento de sua vigilância, como um ópio dos povos particularmente poderoso, ou então se trata de algo radicalmente diverso...”

O “algo radicalmente diverso” está nisto: “As Bem-aventuranças, todas juntas, são o amor. E o amor cristão é um paradoxo completo. É o impossível por excelência e, ao mesmo tempo, como diz Freud, é a única resposta que está na altura da violência humana”.

E nisto, sobre o “coração puro”: “A purificação do coração é a purificação de todos os pesadumes, de todos os domínios e, no limite, de todos os significados do mundo. O “coração puro” é aquele que se mantém à distância de toda a máquina do mundo, o que não significa que se mantenha “fora” do mundo. Nem é atraído pela máxima recompensa que poderia consistir neste “ver Deus”, como forma de participação no poder ou no domínio, ligada ao desejo de ser admitido junto a Deus. Não se é “feliz” por uma recompensa, o que continuaria sendo da ordem do “mundo”, mas se é “feliz” de não estar encerrados “dentro”.

Não sei se o coração de Jean-Luc Nancy é puro. Mas é relativamente novo. Pelo menos nele. No início dos anos 1990, teve problemas com o coração original e ganhou um novo. E quando recuperava, teve de lutar contra um cancro. A história deste período contou-a em “L’intrus”. Isto não é dito na entrevista, mas permite olhar com mais acuidade para o final da entrevista:

“Sem dúvida, para compreender o que é um «coração puro» é preciso voltar àquele amor que consiste em ver o outro como outro. Trata-se precisamente de ver, isto é, de estar na relação, sem nada que se possa agarrar. Não se «vê» um objecto, se «vê» uma abertura, uma evasão em direcção ao outro. O que requer o amor senão uma purificação do coração? Uma purificação das minhas expectativas, para que eu possa ver o outro como outro. É verdadeiramente através do cristianismo que o amor se torna este reconhecimento da absolutez integral da pessoa. O amor remete àquilo que nós absolutamente não podemos agarrar. Talvez seja isto «ver Deus». Não ver um ser atrás de outros seres, mas ver que todo ser é absoluto, incomensurável”.

A entrevista foi traduzida para português aqui.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Revelação

Léon Bloy (1846-1917)

O homem tem lugares no seu próprio coração que não existem até que a dor entre neles para que existam.
Léon Bloy

quarta-feira, 10 de junho de 2009

“Quero ter um coração bonito”


Hoje é dia da peregrinação das crianças a Fátima. O lema é: “Quero ter um coração bonito”. A notícia do DN diz que dos Açores vêm 102 crianças. Para algumas será a única vez que andam de avião e vêm ao continente. “Isto é tão importante para eles que depois muitos tornam-se membros da Mensagem de Fátima em adultos”, diz Teresa Maiato, monitora do grupo.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

O melhor lugar para se avistar o Cristo Rei

Podemos estar sempre a vê-lo duma janela de casa, do corredor envidraçado do prédio onde trabalhamos, do alto da rua que entra nas nossas rotinas. Ou ao contrário: podemos só avistá-lo ao longe, ou de quando em quando, se nos calha andar por certos lados. Mas se perguntarmos: «qual é o melhor lugar para avistar o Cristo-Rei?», apercebemo-nos depressa que o lugar ideal, o que oferece um retrato mais fiel é sempre o coração humano. É verdade que há miradouros notáveis e horas e estações mais privilegiadas do que outras. Mas o essencial é invisível aos olhos. E o Cristo-Rei pede-nos para ser visto com o coração!

Tolentino Mendonça, na Ecclesia

Sinodalidade e sinonulidade

Tenho andado a ler o que saiu no sínodo e suas consequências nacionais, diocesanas e paroquiais. Ia para escrever que tudo se resume à imple...